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terça-feira, 14 de novembro de 2017

Cáritas cria grupo de trabalho para definir plano de ação em emergências

Reuniu, nos dias passados dias 11 e 12 de novembro de 2017, em Fátima, no Hotel Consolata, o Conselho Geral da Cáritas Portuguesa. Estiveram representadas 17 Cáritas Diocesanas, das vinte que o constituem.
O Conselho iniciou os trabalhos recordando a pessoa de Dom António Francisco dos Santos, realçando a sua cativante afabilidade e o seu espírito de proximidade, tendo os participantes lamentado não ter tido a oportunidade de dar continuidade ao trabalho que estava ainda a começar como Presidente da Comissão Episcopal da Pastoral Social e Mobilidade Humana.
Foi saudada e apreciada, de forma particular, a ação das Cáritas diocesanas que, nos últimos meses, têm estado envolvidas no auxílio às vítimas dos incêndios florestais e às pessoas que se veem em graves dificuldades mercê da seca extrema e até severa que perpassa a maior parte do território do Continente.
Em fim de mandato, o Presidente da Cáritas Portuguesa recordou o caminho percorrido nos últimos anos evidenciado em alguns dos resultados alcançados, concretamente, na elaboração do Plano Estratégico, trabalhado de forma participada pelas Cáritas diocesanas, e o caminho feito para a construção de um relatório anual da ação da Cáritas em Portugal.
O Conselho saudou as reconduções ou nomeações das direções das Cáritas do Algarve, de Beja, do Porto e de Vila Real e agradeceu o trabalho realizado, dedicação e empenho das respetivas direções cessantes. Manifestou o seu apreço pela recente nomeação de Dom José Traquina para Bispo da Diocese Santarém. E formulou ainda o seu agradecimento a Dom Manuel Pelino, atual Administrador diocesano e Bispo Emérito da Diocese escalabitana.
Foram apresentados e aprovados o Programa de Atividades da Cáritas Portuguesa que terá como tema galvanizador “Cuidar da Casa Comum”, e o Orçamento Previsional para 2018.
A propósito do próximo Sínodo dos Bispos dedicado ao tema “Os jovens, a fé e o discernimento vocacional”, o Conselho formulou o desejo de que, na sua preparação se tenha em conta a dimensão vocacional do serviço organizado em torno do bem comum, através da prática da justiça e da caridade em nome das comunidades cristãs que integram.
Sendo as situações de emergência uma das atividades específicas da Cáritas, procedeu-se a uma reflexão, com a colaboração do especialista Duarte Caldeira, sobre a forma de atuação em situação de catástrofes. As experiências vividas, recentemente, no âmbito dos incêndios florestais foram partilhadas pelos representantes das Cáritas das regiões afetadas. A necessidade de desenvolver um plano de ação em emergências assente em quatro pilares – Planeamento, Organização, Coordenação e Avaliação – levou a que se constituísse um grupo de trabalho com a participação de 6 Cáritas Diocesanas, tendo saído reforçada a necessidade de integrar no dito plano de ação de emergências a resposta de apoio psicológico e espiritual adaptada às circunstâncias da população e aos dramas vividos.  
Fez-se a análise da dinâmica de concretização da campanha “10 Milhões de Estrelas – Um Gesto pela Paz”, que decorre, este ano, em parceria com CNE (Corpo Nacional de Escutas) e que terá início no dia 19 de novembro, Dia Mundial dos Pobres. Os resultados desta campanha destinam-se a apoiar a ação social que será desenvolvida localmente, em 65 por cento e, excecionalmente este ano, a verba que anualmente é destinada a apoiar um projeto internacional será aplicada no apoio às vítimas dos incêndios.
Foi apresentada a maquete do novo site da rede nacional Cáritas que deverá ser disponibilizado ao público no início do ano de 2018.
O Conselho mostrou uma significativa motivação para dinamizar a campanha internacional “Partilhar a Viagem”, integrando-se, no reforço de dois ideais do Papa Francisco desta forma, na campanha internacional que durante os próximos dois anos propõem ao mundo, a pedido do Pontífice, que se promova a “cultura do encontro” com vista ao despertar da consciência social para a importância do acolhimento a migrantes e refugiados.
Dando continuidade ao processo de melhoria dos procedimentos da Cáritas Portuguesa, no âmbito do programa “Prioridade às Crianças”, integrado nos mecanismos de gestão da Caritas Internationalis, está a ser desenvolvida uma política de proteção de crianças que tem como objetivo contribuir de forma eficiente para a promoção de uma cultura que não se restringe à atuação das Instituições e da família, mas a toda a sociedade.
***
Obviamente que o móbil fundamental de sessão do Conselho Geral era a parte estatutária e o orçamento para o próximo ano. As outras matérias abordadas prendem-se com elementos circunstanciais. Não obstante e na sequência da reflexão feita com a ajuda do especialista mencionado acima, o Conselho Geral decidiu criar “um grupo de trabalho interno” para definir um plano de ação e “intervenção em situações de emergência”, onde se incluem incêndios, sismos e cheias, como referiu oportunamente à Lusa o Presidente da Cáritas, Eugénio Fonseca. O plano, como adiantou o Presidente, será aplicado pela Cáritas Portuguesa, em articulação com as restantes Cáritas e as instituições de proteção civil. O objetivo é que “fique clarificado o lugar [que a Cáritas] deve ocupar neste tipo de intervenção”, pois “queremos apostar forte na prevenção”. O grupo de trabalho, que deverá apresentar medidas “dentro de quatro a seis meses”, “não vai tratar apenas de incêndios, mas também de cheias e sismos”.
O responsável pela Cáritas assegurou que nestas medidas está incluído um “plano de formação básica para todos aqueles que o pretendam” frequentar, pois, como sublinhou, “queremos estar preparados para a próxima época de incêndios”. E recordou que, desde que lidera a Cáritas, praticamente todos os anos o país é assolado por fogos, sendo que, este ano, se “tratou de uma situação muito especial”, onde morreram mais de 100 pessoas em Portugal. A este respeito, pôs o dedo na chaga ao exigir controlo, fiscalização e limpeza das florestas. Disse o Presidente:
Temos um tempo até ao verão para criar condições para prevenir aquilo que pode ser perfeitamente atenuado. É preciso controlo, fiscalização e limpeza das florestas, o que deve ser acompanhado de “luta contra a desertificação.”.
No âmbito do reforço, que saiu do encontro, da necessidade de integrar no plano de ação de emergências a resposta de apoio psicológico e espiritual consentânea com as circunstâncias da população e com os dramas vividos, Eugénio Fonseca, relativamente aos incêndios deste ano, questionou o que acontecerá às pessoas depois de lhes serem entregues as casas reconstruídas. E, perguntando “quem as vai ajudar a conviver com esta tragédia” e defendendo a necessidade de apoio psicológico, já que as pessoas vão ter de lidar com as “recordações”, disse:
Gostaríamos de ter psicólogos e preparar pessoas da vizinhança, que podem ser o farmacêutico, o dono da mercearia ou a Igreja, para perceberem quando é que surgem esses momentos de nostalgia e, desse modo, ajudar a evitar doenças como a depressão ou psicossomáticas”.
No entendimento do responsável pela instituição, “não se pode entregar a chave [às pessoas] e pensar que tudo está concluído”.
E Eugénio Fonseca alertou para o facto de, apesar de Portugal estar numa “situação económica bem diferente da que atravessou nos últimos anos”, é preciso ter cautelas. Mais: referindo haver a “sensação de que muita gente está a trabalhar com magros salários e a pagar os seus empréstimos”, questionou:
Os postos de trabalho que estão a ser criados são estáveis? Os salários são suficientes?
Além disso, apesar da situação económica um pouco mais favorável, “temos de estar atentos para que este otimismo não nos leve para a sedução de um mercado que não olha a meios” para que as pessoas gastem mais do que podem. E concluiu:
Há que dar sustentabilidade a esta ténue situação favorável do país, é bom ter a consciência de que a crise ainda não passou, já que há desempregados de longa duração, com pouco mais de 30 anos, com uma vida pela frente”.
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A Cáritas continua no terreno junto das populações mais afetadas pelos incêndios que, entre junho e outubro, provocaram mais de 100 mortos, deixaram centenas de casas e empresas destruídas e arrasaram 442 mil hectares de floresta. Em declarações à agência Ecclesia, o Presidente reconhece que o processo de apoio “está a ser lento relativamente à ansiedade em que as pessoas se encontram” e ao sofrimento “indescritível” por que passaram. Assim, realça:
É mais que justo que as pessoas estejam nesta inquietude de quererem ver reconstruída a casa que, sem culpa própria, lhes foi roubada pelos fogos”.
Aquele responsável destaca sobretudo a preocupação com as pessoas que perderam entes queridos para as chamas e que têm que ser devidamente acompanhadas. E, recordando a importância de um trabalho de vizinhança, Eugénio Fonseca interpela-nos:
Depois da casa entregue, mobilada, eu quero saber quem é que vai fazer companhia a essas pessoas, algumas muito idosas, que já não têm fotografias para ver dos seus antepassados, arderam… Que já não têm recordações à mão. Quem vai estar com essas pessoas para as confortar?”.
E exorta:
Eu gostava muito que os vizinhos se preparassem e se pudessem aproximar e ser esse conforto nas horas de maior solidão, de recordações mais difíceis”.
***
Embora a Cáritas tenha de estar presente e ativa em todas as emergências, ela é muito mais do que a interventora em emergências. Tem a missão de instrumento da Igreja, na área geográfica país (e a Cáritas diocesana na área geográfica da diocese), para promover e defender a dignidade humana à imagem de Jesus Cristo. É sua visão ser uma referência nacional diocesana pela qualidade e capacidade de ser pioneira nos serviços que presta à comunidade de forma próxima, reflexiva e sustentável. A sua missão assenta nos seguintes valores essenciais:
- Humanização, desenvolvendo, na defesa/promoção da dignidade humana, uma intervenção centrada na pessoa e na comunidade, salvaguardando os seus “direitos, liberdades e garantias”; profissionalismo, pautando-se eticamente, no trabalho que desenvolve, pelo rigor técnico, competência e consistência; compromisso , levando a cabo a sua missão com determinação, persistência, empreendedorismo, disponibilidade, entrega, entreajuda e lealdade; transparência, projetando a sua intervenção a partir da leitura da realidade, de modo que esta possa ser sinal visível da sua visão; caridade, vinculando a sua ação à dimensão do amor ao próximo, na assistência, promoção, desenvolvimento e transformação de estruturas, pelos profissionais e voluntários; universalidade, acolhendo todas as pessoas independentemente da nacionalidade, etnia, religião ou proveniência social e olhando para todas as problemáticas como provocação à sua ação; e criatividade, fazendo face às múltiplas problemáticas existentes e emergentes, procurando inovar as respostas com flexibilidade e transdisciplinaridade.

2017.11.14 – Louro de Carvalho

quarta-feira, 28 de junho de 2017

A falência da regionalização e os incêndios florestais

Acabei de ler um artigo de José Ribeiro e Castro, na edição do Observador de 27 de junho sob o títuloOs mortos de Pedrógão e a regionalização”, a que julgo assistir alguma razão, se raciocinarmos em termos políticos de fundo.
Diz o colunista político que “os concelhos de Leiria mais atingidos (Figueiró dos Vinhos, Pedrógão Grande e Castanheira de Pera) perderam, cada um deles, entre 30% a 40% da sua população desde 1981 até ao último censo de 2011” (em 30 anos) e que “desde 2011 até hoje, a PORDATA estima que cada um desses municípios tenha perdido, ainda, mais 400 pessoas cada um, ou seja, um pouco mais de 10% do que eram em 2011, quanto a dois deles, e um pouco menos de 10%, quanto ao maior (Figueiró dos Vinhos)”.
É certo que o político, que foi Presidente do CDS, não contesta as razões que soem ser indicadas com a causa dos incêndios florestais que todos apontamos – floresta desordenada, excesso de monocultura, predomínio das espécies resinosas em detrimento das folhosas, das alóctones em detrimento das autóctones, falta de aceiros, de clareiras, de cultivo de cereais de sequeiro, de charcas, de pontos de água, de estruturas e pessoal de vigilância (anuladas ou rarefeitas), de falta de meios de combate, privatização de recursos, falência dos sistemas de comunicação e de coordenação, etc. Mas Castro, quando “anda tudo de lupa, lanterna e dedo apontado em busca das culpas da tragédia de Pedrógão Grande”, aponta a Regionalização como “uma das grandes causas da desgraça”: “que não está feita e para que, entretanto, nem um sucedâneo se achou”. E explica:  
“Sobre a catástrofe acontecida, é imperioso examinar de modo exaustivo o desempenho e identificar as falhas na reação e combate ao incêndio e na proteção e socorro das pessoas. […] há que avaliar com objetividade a conjuntura muito negativa: a longa seca acumulada e condições climatéricas de extremo calor e grande perigo, bem como fenómenos meteorológicos adversos e anormais que tenham ocorrido. […] importa verificar se os avisos meteo quotidianos do IPMA não geraram o efeito complacente da habitualidade.”.
Sobre o IPMA critica os tantos alertas vermelho que levam a desvalorizar a gravidade, em moderna versão da história de “Pedro e o lobo”. De facto, o lobo vem sempre, “mas não morde”; ou então “o lobo vem e damos sempre conta dele – até que, um dia, o lobo vem, ataca, feroz, e já não conseguimos dar conta dele”. Ora, segundo Castro, “é preciso examinar tudo isso” e “responsabilizar”. Porém, sem esquecer ou subvalorizar “falhas de desempenho e erros na avaliação e informação da conjuntura”, sustenta o colunista que “é decisivo aprofundar a consciência das causas estruturais, que são da mais diversa ordem”, criticando o estafado monopólio “eucaliptoclasta”. E assegura que “sem cuidar dos fatores estruturais e tratá-los a fundo, jamais nos libertaremos deste flagelo anual”. E faz contas a partir das estatísticas:
“Todos os anos a nossa floresta arde aos milhares de hectares. As estatísticas desde 1980 mostram números demolidores: destruição de 120 mil hectares ou mais, em 1985, 1989, 1990, 1991, 1995, 1998, 2000, 2002, 2003, 2004, 2005, 2010, 2013 e 2016. Em nove destes catorze anos, arderam cerca ou mais de 150 mil hectares.”.
Apontando os anos de 2003 e 2005 como “de devastação catastrófica, com 426 mil e 339 mil hectares de área ardida, respetivamente”, diz que, em 2003, “nem o rio Tejo serviu de corta-fogo”. Nos outros 23 anos da referida série, houve 14 anos com valores menos graves, entre 50 e 110 mil hectares queimados” – e, “neste ano de 2017, já estamos aí, ainda em Junho!”. E “apenas houve 9 anos com área ardida inferior a 50 mil hectares”. Todavia, os números mais baixos de área ardida “em nenhum momento corresponderam a que tivéssemos o problema enquadrado e, muito menos, resolvido”, mas de “não termos seca acumulada e o verão ter sido mais fresco. E, evocando o filme “Paris brûle-t-il?”, de 1944, sobre a libertação de Paris, aplica o título a Portugal, não só na forma interrogativa, mas também como ato ilocutório assertivo: “Portugal está a arder”.
E esta é “a ciência certa que acumulámos nas últimas décadas, uns milhares de hectares a cada ano”. E, “independentemente do exaustivo exame urgente sobre a última aflição”, é verdade que “todos temos o credo na boca com o resto do verão ainda por diante”. E vaticina em voz alta o que todos pensam: “todos sabemos que Portugal vai voltar a arder em 2018, vai voltar a arder em 2019, vai voltar a arder em 2020”, a menos que venha “uma chuvinha” ou a seca acabe e não regrida e o verão seja fresco. Caso contrário, “o fogo vai estar aí outra vez a inundar a paisagem e as televisões, a aterrorizar populações”. E discorre:
“O problema é não confinarmos o perigo, não circunscrevermos os efeitos, não baixarmos as incidências, não diminuirmos o perímetro. O problema é não garantirmos segurança num ambiente que é de risco natural. O problema é a desordem, o desordenamento, a incúria, a pobreza, a desproteção que se arrastam, apesar de todos os relatórios, apesar de todos os planos, apesar de todos os investimentos.”.
E denuncia o quadro comparativo com anos anteriores em mortes: “o mais terrível registo do nosso fracasso enquanto Estado nunca tinham ido acima de 16”, mas agora, numa só vez, galgou para 64 vítimas (e 254 feridos), sendo 63 mortes de civis. Por isso, “estamos pior”.
Quanto a estudos e diagnósticos, reitera que “já está tudo dito”, “já está tudo escrito”, “já está tudo diagnosticado, já está tudo inventariado e proposto. E a pergunta é: “Porque não se faz?”, quando “passam os governos, mudam os ciclos políticos, mudam os governantes e outros responsáveis – e tudo continua”.
Ora, a resposta, para Ribeiro e Castro, é: “por causa da sabotagem da Regionalização”. Não só não foi feita, como nem sequer lhe foi encontrada e agilizada “uma alternativa funcional”.
O que se fez nos últimos 40 anos resultou na “destruição do patamar intermédio da nossa Administração Pública”. E explica:
“Tínhamos os distritos; e, anteriormente, as províncias ou, antes ainda, as comarcas. Hoje, não temos nada. Ora, sem esse patamar, não temos plataforma para definir, afinar e aplicar políticas territoriais.”
E Justifica:
“Os municípios estão demasiado perto, o Estado está demasiado longe. Os municípios não têm escala, o Estado sofre de gigantismo e centralismo. É isso que justifica e explica a necessidade imperiosa destes patamares administrativos intermédios, entre o plano local e o central. É conhecimento acumulado na Ciência da Administração e no Direito Administrativo. Sempre o tivemos, tanto em patamar autárquico descentralizado, como em circunscrição coerente para gestão desconcentrada das unidades periféricas do Estado.”.
E. pondo o dedo em riste, acusa:
“Nos últimos 40 anos, com o impasse da Regionalização, destruímos, por politiquices e incompetência, essa malha administrativa e tornámos mais vulnerável o território. Semeámos o deserto administrativo e fomentámos a desertificação. Procurámos atamancar o disparate com remendos variados e oscilantes, ora de uma maneira, ora de outra, agravando o caos e a descontinuidade. E, hoje, continuamos encravados, sem imaginação, nem vontade política, na paralisia impotente que resultou do referendo de 1998.”.
De facto, além das áreas metropolitanas de Lisboa e Porto, quiseram criar mais seis cujo termo as esfumou e deu as comunidades intermunicipais – ineficazes porque se tornaram emanação dos interesses de autarcas no poder, sem eleição direta. Que diabo! Não se deu forma de governo regional emanando duma assembleia regional eleita por sufrágio direto às cinco comissões de coordenação regional, dotando-as de maiores competências e emagrecendo em pessoal e outros recursos o poder central. Porquê?!
E Castro refere os casos do encerramento de agências da CGD na sequência de outros cortes:
“Estamos a ver a agência da CGD em Almeida a ser extinta, […] os tribunais que fecharam, […] postos de correio encerrados, […] as escolas que acabaram, […] maternidades e serviços de saúde a fechar portas, […] o país a desertificar-se, […] um território cada vez mais frágil, […] a floresta e o campo a arder todos os anos, […] o pavor de Pedrógão Grande, Castanheira de Pera, Figueiró dos Vinhos, Góis, Pampilhosa, […] os municípios por baixo, o Estado por cima, estamos a ver.”.
E, a propósito da “tristemente famosa EN 236-1”, imagina nostalgicamente
“Como estariam cuidadas as margens dessa estrada com o aparelho distrital da antiga Junta Autónoma das Estradas e como aconteceu agora no quadro da teia complexa e centralizada de concessionárias e subconcessionárias”.
Para Castro a principal razão por que falham “as medidas identificadas e as políticas definidas é porque desmantelámos, nestas décadas, o patamar administrativo que é indispensável para lhes dar coerência, adaptação, sequência, execução, vigilância”. Além de “não implantarmos as Regiões, trancadas há 20 anos por um referendo desastroso”, nada fizemos “em seu lugar, nem sequer estruturar a divisão distrital, como é a recomendação constitucional transitória”.
Com efeito, a CRP estabelece:
“As regiões administrativas são criadas simultaneamente, por lei, a qual define os respetivos poderes, a composição, a competência e o funcionamento dos seus órgãos, podendo estabelecer diferenciações quanto ao regime aplicável a cada uma” (art.º 255.º).
Porém, o art.º 291.º estipula:
“1. Enquanto as regiões administrativas não estiverem concretamente instituídas, subsistirá a divisão distrital no espaço por elas não abrangido. 2. Haverá em cada distrito, em termos a definir por lei, uma assembleia deliberativa, composta por representantes dos municípios. 3. Compete ao governador civil, assistido por um conselho, representar o Governo e exercer os poderes de tutela na área do distrito.”.
Ora, segundo Castro, deu-se uma última machadada no pouco que havia, ao matar os governos civis, que, ao invés, deveriam ter sido organizados e fortalecidos, pois
“Tudo o que é necessário fazer quanto à floresta e aos territórios onde a floresta está, bem como às populações que vivem e trabalham nesses territórios, é expressão de uma política de território”.
E lança a pertinente interrogação:
“Como podemos desenvolver, afinar, aplicar políticas de território ou políticas de forte matriz territorial, quando arrasámos a malha territorial da nossa Administração Pública?”.
Pressupondo que é preciso resolver o problema, “de vez e rapidamente, para não continuarmos a assistir à desertificação e à destruição do território de Portugal e à morte ou abandono das populações”, sustenta que temos de implantar e organizar as “regiões, distritos, outra denominação”, não podendo “continuar com territórios sem dono, problemas e necessidades sem Administração, questões sem responsável, políticas sem agente”. Caso contrário, “compreende-se bem que alguns só fiquem, se não tiverem para onde ir”.
Nos “dias de sofrimento e de desolação nessas terras do Pinhal Interior”, Castro reconhece que se ouviram “muitos desabafos de pessoas a quem morreram familiares, amigos ou conhecidos”, a quem “arderam casas, viaturas ou alfaias, ou que viram a destruição de suas empresas e equipamentos”. E sabe que “tentarão ficar, mas não é fácil”. Por outro lado, diz que “essa sangria tem anos” e aponta como causa da quebra populacional “a gente que morreu e que não foi reposta, dada a crescente quebra geral de natalidade” ou “a gente que emigrou para as cidades ou para o estrangeiro”. E lamenta:
“Porém, os próximos que saírem agora, fustigados pela tremenda tragédia que viveram e marcados pelo trauma que os atingiu, já não serão emigrantes. Serão refugiados. É esse o país que estamos a fazer – ou melhor, o país que estamos a desfazer”.
E, para inverter consolidadamente a tendência, só vislumbra uma via – a da regionalização bem estruturada. E não deixa de ter razão. Mas que não defenda a monocultura eucaliptalizante!

 2017.06.28 – Louro de Carvalho

quarta-feira, 13 de julho de 2016

No rescaldo do Euro 2016

A seleção portuguesa, contra as expectativas de muitos, e em consonância com a fé-esperança de muitos mais, percorreu todas as etapas preparatórias de qualificação para o Euro 2016, um campeonato europeu, organizado pela UEFA e cujo palco foram algumas vultuosas cidades de França, sendo a final disputada em Paris no Estádio de Saint-Denis.
Os portugueses, mas em especial os emigrantes residentes e trabalhadores em França e em países limítrofes, acarinharam os jogadores convocados, que foram, neste contexto, o rosto do país. Marcelo, o Presidente, recebeu-os no Palácio de Belém, bem como aos dirigentes da Federação Portuguesa de Futebol e às equipas técnicas e logísticas, deixando-lhes notáveis palavras de estímulo e de esperança.
As praças das nossas cidades e vilas encheram-se num misto de exultação e desencanto face às primeiras partidas premiadas com o empate. Mas os residentes em França – portugueses, de dupla nacionalidade ou simplesmente luso-descendentes – não esmoreceram na fé e no entusiasmo. Por seu turno, do bloco de representantes futebolísticos de Portugal emanavam posições discursivas denotativas do propósito de vencer. É Fernando Santos quem mantém a chama da esperança e alguns jogadores, em que se destaca Cristiano Ronaldo.
É certo que nem sempre as afirmações de fé pareciam sustentadas; e algumas atoardas de Ronaldo eram demasiado atrevidas, mas a este pagou-lhe a contracrítica de intervenientes de outros países e de alguns interativos nas redes sociais.
Entretanto, com a presença da seleção das Quinas na semifinal, os ânimos redobraram de vigor, de fé desportiva e de esperança; e a presença do Presidente da República em Lyon, criticada provincianamente por alguns pela utilização de um Falcon da Força Aérea (e a cuja crítica ele não respondeu de forma mais urbana, como já tive ocasião de referir), constituiu um apoio institucional de peso ao moral da equipa.
E Portugal, a 10 de julho, sagrou-se campeão da Europa em futebol – título que perdura por um quadriénio. Bateu-se contra a França, a anfitriã. Foi jogo, não insulto. Também em 2004, Portugal foi anfitrião do Euro 2004 e perdeu – com pena, mas desportivamente – a final com a Grécia, mal pensando que a crise de 2008 iria ditar uma similar sorte económico-financeira – e sobretudo política – aos dois países periféricos no Euro (político) e na UE.
Mas, a 10 de julho, estavam lado a lado, como espectadores qualificados, Marcelo por Portugal e Hollande pela França. A taça veio para Portugal. E o Presidente da República voltou a receber os representantes futebolísticos do país, dirigiu-lhes palavras de felicitação e de orgulho nacional (algumas demasiado técnicas e pouco políticas) e condecorou-os com o grau de comendador da Ordem do Mérito. E, em seguida, percorreram as principais ruas da capital, tendo terminado a jornada na Cidade do Futebol, em Oeiras.
***
Passado que foi o evento, fazem-se leituras díspares. Fala-se de orgulho nacional, mérito, milagre, sorte portuguesa, azar dos franceses. Diz-se que este troféu surge num momento de depressão política pela ameaça de sanções ao país por défice excessivo (em parte revejo-me neste alívio do país). Há quem elogie Ronaldo, porque só não fez mais e melhor porque foi lesionado pouco depois de o torneio ter iniciado e por, fora do retângulo, ter servido de adjunto do selecionador e quiçá do capitão em exercício nas indicações de jogo. Aficionados a Ronaldo e a Portugal sentem que a lesão foi no joelho, mas a dor se instalou no coração e, por isso, as lágrimas irromperam.
Porém, em contraponto, há quem suponha que fora melhor Cristiano não ter continuado em campo, pois facilmente monopolizaria as oportunidades de golo, provavelmente sem êxito. Outros dizem que Éder marcou golo, porque chutara a bola para se ver livre dela ou que Portugal teve sorte com o empurrão francês daquela bola que bateu no poste do guardião português, não tendo sido golo por milímetros.
Parece que já tivemos seleção com melhores jogadores individualmente considerados, mas é inegável que este selecionador conseguiu que resultasse sempre um trabalho de equipa cooperante – solidária tanto nos melhores lances como nos menos conseguidos. E não há dúvida de que Rui Patrício foi a estrela do seu canteiro (chantier, diriam os franceses).
Se aconteceu milagre e se gerou rara conjugação de esforços e fatores que não se repetem, não se pode dizer com Sousa Tavares que “estão a matar o futebol, à nossa vista”.
É certo que se empatou com Islândia, Áustria e Hungria – facto de que resultou um 3.º lugar, que poderia, noutras circunstâncias, redundar na eliminação. Porém, as coisas são como são. E, em jogo, vale o mérito de uns como vale contar com o de mérito de outros; e manda a sorte de uns e o azar de outros. Já, em 1972, Nada Malanima cantava no Festival de San Remo: “A vida é um jogo; canta quem vence e quem perde chora” (Da canção Il re di denari).
Ademais, Portugal jogou – e ganhou – com a Croácia, Polónia e País de Gales. Será, a meu ver, coincidência a mais ou milagre a mais, enveredar por vitórias seguidas sem trabalho, sem técnica e sem empenhamento.
Quanto à final, houve situações de sorte? Houve, mas de parte a parte. Houve situações de azar? Houve, mas de parte a parte. Houve situações de mérito? Houve, mas de parte a parte. Portugal não jogou bem em termos globais? Não, mas a França também não. E teve momentos em que usou de muita dureza. Não digo que a arbitragem fosse boa ou má. As faltas são demasiado instantâneas e veem-se melhor pela TV! E, sobretudo, não é difícil fazer-se um jogo de uma final que não seja medíocre, já que as expectativas de quem vê os seus ir à final costumam ser demasiado elevadas e o nervosismo apodera-se do homens.
É óbvio que, muitas vezes, clubes pequenos jogam melhor que os grandes e com os grandes, como se pode observar nalguns jogos da Taça de Portugal. Não obstante, tal verificação não impede o elogio ao futebol da seleção e ao país. Cada facto tem o seu contexto, até porque a seleção não tem um corpo de jogadores seus de caráter permanente: vive do recrutamento de jogadores com nacionalidade portuguesa a partir dos diferentes clubes. O tempo do selecionador não é muito e não é fácil congraçar intelectos, vontades e estilos.   
Por seu turno, a Fernando Santos, se teve melhor sorte que outros selecionadores, não se pode apontar a falta de empenhamento e trabalho e, sobretudo, tem se se lhe reconhecer o mérito de fazer da equipa um corpo cooperante, o que não é fácil. Às vezes o vedetismo sobrepõe-se equipa.
***
A França não reagiu bem, não chegou a bater com a realidade. Foi derrotada na final do Euro 2016 e são já vários os casos que vêm evidenciando o mau perder dos franceses, desde o jornal L’ Equipe, que não deu nota a Ronaldo ou Éder, ou à Tour Eiffel que se iluminou com as cores da França, e não de Portugal, após o jogo da final – o que fazia com jogos anteriores, envergando as cores do vencedor.
Porém, mais rocambolesco é o episódio da petição criada no site francês ‘mesopinions.com’, que pede a repetição da final do Euro 2016 e que, em poucas horas, já contava com cerca de 60 mil apoiantes. E o lema é: “a fraude portuguesa não mereceu o troféu”.
Outros apelidam injusta e agressivamente a seleção portuguesa de cínica. Não percebi a razão.
Mas nem todos assim são. Um adepto francês, triste por a França ter perdido, considera que Éder chutou para se ver livre da bola, talvez porque ela lhe estorvava, mas dá os parabéns.
Sim, um pouco de tristeza e de humor não fica mal de todo.
E prefiro este incentivo ao moral na nação lusíada ao incentivo sugerido por Schäuble pela via das sanções por incumprimento devido ao défice excessivo. É caso para dizer que soube bem a derrota da Alemanha pela França na semifinal.
***
Como curiosidade, as redes sociais estão a dar relevo à carta que o selecionador alegadamente tinha na gaveta desde o jogo com a Áustria de que resultou o empate que muitos rotularam de fatal para a esperada queda precoce da Seleção Nacional no Euro 2016. Transcrevo-a pelo que tem de religiosidade, humanismo, afeto, familiaridade, amizade e confiança:
“Em primeiro lugar e acima de tudo, quero agradecer a Deus Pai por este momento e tudo aquilo da minha vida. Deixar uma palavra especial ao presidente, Dr. Fernando Gomes, pela confiança que sempre depositou em mim. Não esqueço que comecei com um castigo de oito jogos pendentes.
A toda a direção e a todos os que viveram comigo estes meses. Aos jogadores, dizer mais uma vez que tenho um enorme orgulho em ter sido o seu treinador. A estes e àqueles que aqui não puderam estar presentes. Também é deles esta vitória. O meu desejo pessoal é ir para casa. Poder dar um beijo do tamanho do mundo à minha mãe, à minha mulher, aos meus filhos, ao meu neto, ao meu genro e à minha nora e ao meu pai, que junto de Deus está certamente a celebrar.
A todos os amigos, muitos deles meus irmãos, um abraço muito apertado pelo apoio mas principalmente pela amizade. Por último, mas em primeiro, ir falar com o meu maior amigo e sua mãe. Dedicar-Lhe esta conquista e agradecer-Lhe por ter sido convocado e por me conceder o dom da sabedoria, perseverança e humildade para guiar esta equipa e Ele a ter iluminado e guiado. Espero e desejo que seja para glória do Seu nome”.
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E é assim. Um homem comum, que dizem que não jogava futebol, tal como é, aprontou a seleção para a vitória. Mérito, sorte, trabalho? Talvez um pouquito de tudo, mas sem a pregação Urbi et Orbi da humildade balofa.

2016.07.12 – Louro de Carvalho