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quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

Da origem, história e tradição da árvore de Natal



A árvore e as ornamentações
Há muitos séculos, em muitas culturas pagãs, era hábito decorar plantas verdes por serem consideradas símbolo de fertilidade e vitalidade. Na verdade, nos tempos mais antigos, plantas e árvores que permaneciam verdinhas todo o ano tinham esse significado especial para as pessoas durante os rigorosos invernos. Assim como hoje decoramos as nossas casas durante a época festiva com pinheiros, os povos antigos penduravam ramos verdes em suas portas e janelas.  
Muitos povos antigos acreditavam que o Sol era um deus e que o inverno vinha todos os anos porque o deus Sol se tornara doente e fraco. Assim, os ramos verdes recordavam-lhes todas as plantas que cresciam quando o deus Sol se tornava novamente forte e a primavera voltava. Era uma forma de amuleto para que os dias mais amenos e agradáveis voltassem trazendo a vida. Por isso, utilizavam ramos e folhas nas casas durante a estação fria, dando os primeiros indícios da tradição da árvore de Natal. Por seu turno, os antigos romanos usavam ramos e galhos para decorar os templos no festival da Saturnália, feito em honra à Saturno, o deus da agricultura, a fim de atrair fartura nas plantações. E os cristãos passaram a usar as árvores coníferas como um sinal de vida eterna com Deus.
Os povos germânicos colocavam no solstício de inverno (que no hemisfério norte ocorre entre 21 e 22 de dezembro) ramos de pinheiros em lugares públicos e nas casas para evitar que os maus espíritos entrassem e para nutrirem a esperança da primavera.
A tradição de enfeitar a árvore de Natal não se sabe bem quando começou, mas terá mais de 500 anos. Crê-se que  a tradição foi lançada em 1419 pelos padeiros da cidade alemã de Freiburg. Eles começaram a decorar uma árvore todos os anos com lebkuchen (um tipo de pastel ou doce típico natalino), maçãs, frutas, nozes e frutas. E só no dia de Ano Novo as crianças podiam sacudir a árvore e comerem o que caia dela. 
Outra possível origem da árvore de Natal terá vindo do conceito das Árvores do Paraíso, que eram utilizadas em encenações medievais feitas na frente de Igrejas na véspera de Natal. No calendário do santoral da igreja primitiva, 24 de dezembro era o dia de Adão e Eva. Dessa forma, a Árvore do Paraíso representava o Jardim do Éden. E essas encenações eram como um tipo de publicitação a contar as histórias da Bíblia para as pessoas que não sabiam ler.
O primeiro uso documentado duma árvore nas celebrações de Natal e Ano Novo vem da praça da cidade de Riga, capital da Letónia, no ano de 1510. Nessa praça, existe uma placa dizendo que aquela foi a primeira árvore de Ano Novo, sendo que a frase está traduzida em 8 idiomas.
Outro registo é de uma pintura da Alemanha em 1521, que mostra uma árvore a ser levada pelas ruas com um homem montado num cavalo atrás dela. O homem está vestido como um bispo, possivelmente representando São Nicolau (santo que é relacionado com a inspiração para o Pai Natal).
Há também um registo de uma pequena árvore em Breman, na Alemanha, em 1570, descrita como uma árvore decorada com “maçãs, nozes, tâmaras, pretzels e flores de papel”, exibida numa casa-aliança (ponto de encontro de uma sociedade de homens de negócio na cidade).
A árvore de Natal caseira, como muitos de nós temos, terá sido lançada como tradição no final do século XVI, na Alsácia (hoje, uma região belíssima da França, era alemã). Fazia parte da festividade natalícia colocar uma árvore na sala de estar e decorá que fica na Alsácia -la com doces, nozes e maçãs. E há registo de uma árvore de Natal na Catedral de Estrasburgo (), no ano de 1539. Segundo algumas fontes, a primeira pessoa a levar uma árvore de Natal para dentro de uma casa, na forma como a conhecemos hoje, terá sido o monge alemão do século XVI Martinho Lutero. A história conta que, uma noite antes do Natal, andava ele pela floresta e olhou para cima para ver as estrelas brilhando por entre os galhos das árvores. Achou aquilo tão bonito que foi para casa e disse aos filhos que a cena lembrava Jesus, que deixou as estrelas do céu para vir à Terra no Natal. Então, para reproduzir e bela cena que tinha presenciado, levou uma árvore para casa e a enfeitou com velas.
Outra história diz que São Bonifácio de Crediton (um vilarejo em Devon, Reino Unido) deixou a Inglaterra e viajou para a Alemanha para pregar às tribos germânicas pagãs e convertê-las ao cristianismo. Tendo-se deparado com um grupo de pagãos prestes a sacrificar um menino ao adorar uma árvore de carvalho, Bonifácio, para interromper o sacrifício, cortou o carvalho e, para seu espanto, um pinheiro abeto novo surgiu a partir das raízes. Bonifácio tomou isso como sinal da fé cristã, associando a forma da árvore com a Santíssima Trindade, e seus seguidores decoraram a árvore com velas para que ele pudesse pregar aos pagãos durante a noite.
A Igreja Católica era contra as árvores de Natal entendendo que o presépio era um símbolo suficientemente significativo do Natal. Além disso, as grandes áreas florestais pertenciam a Igreja e o povo invadia-as nesta época em busca de árvores de Natal.
Apenas em meados do século XX foram autorizadas árvores de Natal nas igrejas católicas. E o Papa João Paulo II, em 1982, iniciou a tradição no Vaticano, colocando a primeira árvore de Natal na Praça de São Pedro, em Roma.
Os primeiros registos de árvores decoradas com velas surgiram em 1730. No começo, eram enfeitadas com rosas de papel, maçãs (a recordar Adão que comeu do fruto proibido, hoje são substituídas por bolas coloridas), nozes e bolachas. Depois, surgiram decorações com luzes, bolas de vidro, estrelas, guirlandas, laços, anjos ou outras figuras. Em Berlim, a primeira árvore de Natal foi erguida em 1785.
No século XVII, o uso destas decorações espalhou-se inicialmente entre os altos funcionários e cidadãos ricos nas cidades, por se tratar de material muito caro, mesmo na Europa Central. As primeiras bolas de vidro soprado apareceram para venda em torno de 1830. Eram artigo de luxo, pelo que somente os mais abastados tinham acesso e podiam enfeitar suas árvores com elas.
Não obstante, o costume de assim decorar árvores de Natal espalhou-se da Alemanha para o mundo inteiro no século XIX, tendo começado quando emigrantes do século XVIII levaram o costume para os Estados Unidos. A primeira árvore de Natal na “Casa Branca” foi erguida em 1891, mas a primeira árvore de Natal nas Américas foi Friederike Riedesel von Lauterbach, esposa do general comandante das tropas Brunswick e foi erigida em Sorel, Canadá, em 1781.
Porém, a popularização da árvore de Natal deu-se mais intensamente em 1846, quando os membros da realeza, a Rainha Victoria e seu príncipe alemão, Albert, foram ilustrados no jornal de Londres com os filhos em torno de uma árvore de Natal.
Ao invés da anterior família real, Victoria era muito popular com os súbditos, e o que foi feito na corte tornou-se moda, não só na Grã-Bretanha, mas em todos os países de língua inglesa, e espalhou-se pelo mundo. E a tradição foi alastrando e, com ela, as inovações, como o surgimento das árvores artificiais, feitas de plástico. E aqui fica a polémica, já que os mais tradicionalistas fazem questão de ter uma árvore natural decorada em casa e esbravejam que as de plástico não são biodegradáveis. Por outro lado, o cultivo duma árvore natural leva anos, argumentando os adoradores das árvores artificiais que elas são cortadas só para servirem de enfeite por poucos dias.
Na Europa Central, a árvore mais usada é o pinheiro conhecido como Nordmanntanne, originária do Cáucaso. A popularidade do Nordmanntanne tem um motivo simples: os seus galhos não picam. São também utilizadas em alguns lugares outras árvores como abeto, pinho, buxo, azevinho e zimbro. Por outro lado, existe a ilusão de que o pinheiro de Natal é um produto natural da floresta. A realidade é preocupante, já que árvore é uma raridade na floresta. Pinheiros e abetos crescem em plantações nos dias de hoje. Na Alemanha e na Áustria, existem terras agrícolas separadas para o plantio de árvores de Natal. No entanto, uma boa parte ainda é importada, e a Dinamarca é a líder de mercado. Na Alemanha, as árvores de Natal são cultivadas em cerca de 15 000 hectares e cerca de 70% das necessidades de consumo interno são cobertas. As sementes da Nordmanntanne vêm do Cáucaso e “crescem” na Alemanha a partir de viveiros especializados. Com uns três anos as mudas são transferidas para o campo. Até que as árvores façam a sua apresentação com luzes brilhantes nas salas de estar alemãs, passam por até dez anos de tratamento intensivo. São comercializadas por ano, somente na Alemanha cerca de 25 milhões de árvores de Natal. 
Um crescente número de muçulmanos na Alemanha aproveita as férias de Natal para passar o tempo com a família, e também tem iniciado o hábito de colocar uma árvore de Natal na sala e com muita decoração. Na Ásia, o costume da árvore de Natal já está bem enraizado, sobretudo na decoração utilizada pelos europeus que passam o Natal naqueles lugares.
Anote-se que o verde e o vermelho são cores-símbolo do Advento e do Natal cristão. O verde simboliza a esperança de vida no inverno escuro e a lealdade. E o vermelho lembra o sangue de Cristo que Ele derramou para que o mundo seja salvo. Sem dúvida, estas duas cores dominam decoração de Natal e parece impossível dissociá-las do espírito natalício.
***
A primeira Árvore de Natal em Portugal e a sua reconstituição
E foi precisamente um alemão que montou o primeiro pinheiro de Natal em Portugal. E não foi um alemão qualquer: a tradição chegou ao nosso país pelas mãos do católico Fernando Augusto Francisco António de Saxe-Coburg-Gotha, 3.º marido de D. Maria II.
Vindo da Baviera, Fernando trouxe consigo várias tradições germânicas – entre elas, a decoração de uma árvore na época do Natal. O abeto, que era colocado numa sala privada da família real no Palácio das Necessidades, era decorado com velas, laços e bolas de vidro transparente. Também era comum colocar guloseimas na árvore já decorada, como frutas cristalizadas e chocolates. E o marido de D. Maria II chegava a vestir-se de verde e a imitar São Nicolau, o santo que deu origem ao Pai Natal, para entreter os seus sete filhos. O rei consorte entrava na sala com um saco às costas e distribuía presentes pelos príncipes e outras crianças do palácio. Existem até ilustrações feitas pelo mesmo que retratam estes momentos.
Quase 200 anos depois, o Palácio da Pena recria a que foi a nossa primeira árvore de Natal.
A primeira impressão será desoladora para quem espera encontrar um pinheiro de dimensão sobre-humana. Afinal, o aparato ficava-se pelas ricas paredes, tecidos, vitrais, móveis e tapeçarias que compõem o salão nobre do Palácio Nacional da Pena, em Sintra. Ano após ano, D. Fernando II, o rei consorte, mandou vir um espécime da serra para o Palácio das Necessidades, em Lisboa, residência da família real portuguesa durante o século XIX. O pinheiro era decorado a rigor, mas não como hoje fazemos numa árvore de Natal tradicional.
Da Áustria, o marido de D. Maria II trouxe o hábito romântico deste ritual doméstico. A pequena árvore, iluminada por velas e rodeada de brinquedos, disseminou-se por toda a Europa. Ao mesmo tempo que chegava a Portugal, a árvore entrava no quotidiano da corte vitoriana. Explica Mariana Schedel, Conservadora do Palácio Nacional da Pena;
D. Fernando nasceu e cresceu em Viena. Portanto, são tradições centro-europeias trazidas para a corte portuguesa, da mesma forma que o príncipe Alberto as levou para a corte da rainha Vitória, quando casou. Os dois cresceram juntos, eram primos direitos.”.
O projeto de recriar em pormenor a primeira árvore de Natal em Portugal teve início há mais de dois anos, pelas mãos da equipa de conservação deste monumento gerido pela “Parques de Sintra”. Envolveu uma pesquisa exaustiva e a recuperação de correspondência trocada entre os almoxarifes dos dois palácios, bem como faturas de fornecedores. Uma delas, de 17 de dezembro de 1859, dá conta do transporte dum pinheiro da Serra de Sintra para Lisboa. O próprio D. Fernando, hábil desenhador, deixou duas gravuras que serviram de base para a execução da árvore.
A dificuldade foi encontrar quem reproduzisse as peças. No total, foram contactadas 6 empresas portuguesas. Coube ao Studio Astolfi a recuperação das cores, formas e materiais usados nas decorações do século XIX. Exceção feita aos frutos da época (maçãs, peras e romãs), na altura verdadeiros. As bolas de Natal terão surgido várias décadas depois, inspiradas pela forma destes ingredientes naturais. Na impossibilidade de trazer fruta real para dentro do palácio, a equipa do ateliê recorreu aos mercados, em busca de exemplares pequenos e toscos, para tornar estas réplicas o mais reais possível. Acrescem os animais do campo, como vacas, cavalos e figuras como o arlequim ou o limpa-chaminés, este último considerado um amuleto de sorte. Na parte superior da árvore, um cacho de uvas em vidro, fruto que, na época de D. Fernando, já seria replicado artificialmente. E Mariana Schedel acrescenta:
A árvore de Natal da Pena é muito simples por ser exatamente a que vemos nas gravuras de D. Fernando II. Utilizámos essa árvore pequena – que tem entre 1,20 e 1,50 metros – sobre uma mesa, com um toalha em linho acetinado, muito difícil de encontrar, que é também uma reconstituição de uma toalha de época, com todas estas pequenas peças que têm significados de abundância e felicidade.”.
À época, as velas iluminavam a árvore, solução impensável hoje, embora todo o aparato natalício fosse montado apenas no dia 25 de dezembro. Na reconstituição feita, as velas estão apagadas. No chão e na mesa, multiplicam-se os brinquedos, identificáveis nas gravuras do rei. Soldados, animais, uma pequena quinta e um tambor. Mais uma vez, os organizados livros de contas de D. Fernando II discriminam as encomendas, a maioria dirigida a fornecedores austríacos e alemães. O embrulhar dos presentes era uma tradição por vir. Os brinquedos eram dispostos junto à árvore e destinavam-se aos príncipes (o casal teve 11 filhos, 4 dos quais não sobreviveram ao dia do nascimento). Tudo leva a crer que, já naquela época, o Natal era das crianças.
As dimensões deste pinheiro ficam aquém do esperado para a residência real. Porém, Schedel diz que as primeiras árvores da rainha Vitória partilhavam as mesmas medidas (a monarca casa com o príncipe Alberto em 1840, 4 anos após o matrimónio de D. Fernando II e D. Maria II). A pequena escala está conexa com o ideal de intimidade familiar e vivência doméstica em voga no século XIX.
Numa das gravuras expostas junto ao Pinheiro da Pena, o rei, que ficou viúvo em 1853, quando tinha 37 anos e ao fim de 17 anos de casamento, surge vestido de São Nicolau, carregado de presentes, fruta e caça e rodeado pelos 7 filhos: Pedro, Luís, João, Maria Ana, Antónia, Fernando e Augusto. E a conservadora do palácio clarifica:  
A autorrepresentação de D. Fernando em gravuras é comum. Se se vestiu ou não, não sabemos. Mas é todo este ambiente de vida familiar e a importância da infância que são as novidades do século XIX. É quando as crianças deixam de ser miniadultos e começam a vestir-se como tal, têm brinquedos. E o Natal, que é uma festa religiosa no extensíssimo calendário da família real, começa a ter uma importância na relação com este mundo mágico.”.
Enquanto instaura uma tradição perdurante, a árvore de Natal é símbolo de nova domesticidade. A monarquia constitucional deixara para trás a solenidade e a imponência do regime absolutista. Dentro das paredes do palácio, as cenas aproximavam-se do quotidiano da família comum e, com o passar dos anos, o pinheiro assumiu o papel de elo de identificação.
O Pinheiro da Pena faz parte de um projeto maior de requalificação a deixar os ambientes do Palácio Nacional da Pena mais fiéis ao seu aspeto na altura em que foi habitado por duas gerações da realeza (depois de D. Maria II e D. Fernando II, também D. Carlos I e D. Amélia habitaram o palácio). E, além da árvore de Natal, a Sala de Fumo voltou a ter, pela primeira vez desde 1940, o mobiliário original, após um processo de restauro que reconstituiu os têxteis originais. O mesmo aconteceu com os aposentos de D. Carlos, com intervenções em peças de arte, móveis e nas próprias divisões. Na Sala de Jantar, foi recriada a mesa do penúltimo rei de Portugal, com flores da época e uma reprodução da ementa da ceia servida a 20 de julho de 1900.
Com a famosa árvore de Natal, a primeira em solo português, a tradição cumpre-se também no dia em que será desmontada, a 6 de janeiro, Dia de Reis. É possível vê-la de perto durante uma visita regular ao Palácio Nacional da Pena, em Sintra, todos os dias, entre as 10 e as 18 horas.
2019.12.05 – Louro de Carvalho

sábado, 30 de novembro de 2019

No fim de novembro, um “até à próxima” a este mês outonal


Este é o 11.º mês do ano no calendário gregoriano. A designação de “novembro” resulta do facto de ser o nono mês do ano em Roma, quando o ano começava em março sob a égide de Marte, o deus da guerra e guardião da agricultura.
Num país em que não queremos a guerra, mas onde a agricultura está pelas ruas da amargura – excetuando alguns exemplos de agricultura mecanizada e em extensão, o abandono dos campos está mais que generalizado e a floresta desordenada oferece à onda e fúrias incendiárias o flanco, o ventre e o costado – pouco mais resta, nesta ocasião, do que as castanhas e o vinho.
A acompanhar a penúria na agricultura e o desbaste da floresta desordenada e anárquica, regista-se a bastante disseminada falta de valores éticos que gera e mantém uma sociedade degradada, impante de direitos para uns e sem a assunção de deveres, deixando ficar muitos outros na margem do caminho ou atirando-lhe o piparote do espezinhamento ou o do descarte.
Apesar de a Igreja Católica dedicar o mês à oração em sufrágio pelas almas do Purgatório e, nalgumas terras, os populares passarem pelas ruas a cantar o clamor pelas almas e a paróquia promover o jubileu das almas (com serviço de Confissões, Ofício de Defuntos, Missa e Sermão), muita gente vive alheada do imperativo religioso curtindo a vida na tasca, café, bar, discoteca ou, em casa, a ver telenovelas. As almas são lembradas por muitos apenas aquando da morte de familiares e amigos e, não raro, para responder a um imperativo de cariz social.
***
Não obstante a penúria horto-agrícola, que já nem dá para subsistir ou para empobrecer alegremente, os entendidos consideram que, no mês de novembro, no pomar, devem ser estrumadas as árvores de fruto no crescente, podadas no minguante e protegidas das geadas; que se plantam cerejeiras, pessegueiros, pereiras e macieiras, etc., no crescente; e que, na horta, se pode semear agrião, alface, cenoura, couves, com exceção da couve-flor e brócolos. Pode, segundo os mesmos entendidos, plantar-se batata, mas em zonas secas e protegidas das geadas, alho, couve temporã, tremoço. Também pode semear-se fava, ervilha, nabiça, nabo, rabanete, beterraba e, em camas quentes, alface, cebola, e tomate. É ainda altura de semear aveia, cevada, trigo e centeio. No jardim, podem estercar-se as covas para, na primavera, se plantarem árvores e arbustos. Devem colocar-se estacas para proteger as plantas do vento. E é a altura para plantar bolbos de flores e para podar e plantar roseiras.
Do ponto de vista religioso cristão, todos nos lembramos de que celebrámos em grande a Solenidade de Todos os Santos (no dia 1); fizemos a Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos (no dia 2), celebrámos as memórias litúrgicas de São Martinho de Porres, Religioso (no dia 3), de São Carlos Borromeu, Bispo (no dia 4), de São Nuno de Santa Maria, Militar e Religioso (no dia 6), de São Leão Magno, Papa e Doutor da Igreja (no dia 10), de São Martinho de Tours, Bispo (no dia 11), de São Josafat, Bispo e Mártir (no dia 12), de Santo Alberto Magno, Bispo e Doutor da Igreja (no dia 15), de Santa Margarida da Escócia, Mãe e Rainha, ou de Santa Gertrudes, Virgem (no dia 16), de Santa Isabel da Hungria, Mãe e Rainha (no dia 17), da Apresentação da Virgem Santa Maria (no dia 21), de Santa Cecília, Virgem e Mártir (no dia 22), de São Clemente I, Papa e Mártir, ou de São Columbano, Abade (no dia 23), de Santo André Dung-Lac, Presbítero, e Companheiros, Mártires (no dia 24) e de Santa Catarina de Alexandria, Virgem e Mártir (no dia 25); celebrámos as festas da dedicação da Basílica de Latrão (no dia 9) e das Basílicas de São Pedro e de São Paulo, Apóstolos (no dia 18); a diocese de Lamego celebrou a festa da Dedicação da sua Sé Catedral (no dia 9); Celebrámos hoje, dia 30, a festa de Santo André, Apostolo; e a, 10 de novembro, celebrou-se em ação de graças a canonização de São Bartolomeu dos Mártires, Religioso da Ordem dos Pregadores e Arcebispo de Braga.
Tantas e tão belas efemérides do calendário litúrgico constituirão um apelo ao compromisso sócio-cristão, num mês cheio de chuva, por vezes intensa, em que o Sol espreitou timidamente só alguns dias, deixando-nos muitíssimas horas disponíveis para a leitura, reflexão e escrita.
Os magustos pelo São Martinho (o de Tours) e a prova do vinho novo animaram o povo, mesmo em tempo que não deixou que, este ano, desfrutássemos do verão de São Martinho.
Para mim, o mês de novembro tem marcas de tristeza e saudade pelo falecimento de minha mãe, no dia 29, no ano de 1989 (há 30 anos), e de meu pai, no dia 10, no ano de 2002 (há 17 anos). Mas também oferece marcas de realização pessoal e profissional. No dia 4, no ano de 1975, apresentei-me como professor de Religião e Moral Católicas (era assim a designação da atual EMRC) na Escola Preparatória do Dr. Francisco Campos Henriques, Vila Nova de Foz Coa; no dia 12, no ano de 1976, apresentei-me na Escola Secundária de Vila Nova de Paiva; no dia 7, no ano de 1977, apresentei-me na Escola Preparatória de Aquilino Ribeiro, Vila Nova de Paiva; e, no dia 1, em 1979, apresentei-me e tomei posse como pároco de Vila da Ponte, Granjal e Freixinho, sem que, tal como me preveniram, qualquer eclesiástico me fosse acompanhar. Mas não me inibi e gostei das pessoas. Freixinho já a servia há uns meses e, nas outras, um colega, o Lemos, levou-me a passar por lá e a entrar discretamente nas igrejas enquanto as pessoas estavam a rezar, mas sem eu me dar a conhecer.
Num adeus a novembro, até à próxima – porque novembro voltará –, em pleno outono de folhas caídas, ventos fustigantes, paisagens sombrias, mas de trechos paisagísticos lindíssimos, como as encostas do Vale do Chile, em Sernancelhe e mesmo em toda a Beira-Távora, pedindo a intercessão da Virgem Maria e de todos os Santos, tentando honrar a memória dos antepassados e esperando na benevolência do Pai misericordioso, entramos no mês do NATAL: o Natal é o primeiro passo de Deus visível no mundo para a nossa redenção. É a encarnação redentora ou a redenção encarnada!
2019.11.30 – Louro de Carvalho


quinta-feira, 14 de novembro de 2019

Vem aí o Natal e o burro poderá estar no presépio


Disseram, há anos, as más-línguas que o Papa Bento XVI tirou o burrinho e a vaquinha do presépio, ou seja, que aquilo que a tradição cristã porfia sobre dois animais que ladearam a Sagrada Família na gruta de Belém, onde Maria deu à luz o seu Filho Primogénito, O envolveu em panos e O reclinou sobre a manjedoura, não seria verdade, mas ficção.
É de recordar que “presépio” (em grego, phátnê) tanto designava a manjedoura onde os animais comiam, como o espaço que a envolvia, a “gruta” de abrigo de animais ou mesmo o “estábulo” ou o “redil”. Depois, passou a designar todo o cenário do nascimento de Jesus. E hoje falar de presépio é falar do local do nascimento de Jesus ou de objetos arquitetónicos, escultóricos ou pictóricos que o representem.
Deve dizer-se, em abono da verdade e da leitura ad litteram, que Joseph Ratzinger – Bento XVI, no livro Jesus de Nazaré – A Infância de Jesus, não expulsou os animais do presépio. Apenas refere, com verdade, que os Evangelhos da Infância não os mencionam. E, como sabemos, Lucas, embora se tenha proposto fazer a história de Jesus (não uma biografia), não a faz segundo os critérios dos historiadores de hoje, nem o seu intento é o relato puramente histórico, mas sim uma sólida catequese baseada em dados históricos de Jesus de Nazaré, dando prioridade ao núcleo fundamental da Boa Nova do Reino.
Santiago Martín, no seu relato romanceado Evangelho Secreto da Virgem Maria, da Paulus (cuja leitura é interessante e pode ser proveitosa), põe na boca da Mãe de Jesus a explicação a Lucas para a presença dos dois animais no presépio. Quando, depois do parto, Maria e José estavam, já de dia, em relativo sossego por o menino estar a dormir, chegou o camponês que ali guardava a sua vaca, estando o burrico que transportou Maria de Nazaré a Belém a comer, do lado de fora, pois não o quiseram meter na gruta durante o dia (tinha lá estado durante a noite). O predito camponês começou a discutir com os novos ocupantes, porque a aquele local era para a vaquinha dele, mas que, depois da ordenha, não a pôde trazer na noite anterior por falta de tempo.
Quando viu que Maria não queria que José discutisse com o homem, estando disposta a abandonar o local, o camponês, mal-humorado consigo próprio, atirou-lhes uma manta sem dizer nada e quis meter a vaca na gruta, mas ela não se mexia, por mais tentativas que o dono fizesse, mesmo batendo-lhe. Então, voltou-se para os ocupantes e disse:
Aí tendes a vaca. (…) Talvez ela tenha mais coração do que eu. (…) Ficai em paz e dar-me-eis o que puderdes pelo aluguer da gruta e do animal.”.
Ora, para Santiago Martín, a presença do burro dentro ou fora da gruta foi um dado normal, enquanto a presença da vaca se deve ao facto, talvez romanceado, da mudança de humor do seu dono. Assim, é natural que burro e vaca tenham contribuído com o seu bafejar para amenizar a agrura do frio noturno junto do menino e que a vaquinha, em maré de dar leite, como deixara entender o camponês, seu dono, desse à aquela família algum proveito alimentar.  
Também a Revista do Expresso, de 9 de novembro, publicou um inédito conto de Natal Os Burros (escrito em 2016) ou O Burro do presépio e todos os outros, do Cardeal José Tolentino Mendonça, com ilustrações de Alex Gozblau e que vale a pena ler pelo seu peso didático e valor poético. Aí destaca o autor:
Diz-se que os burros podem percorrer quatro quilómetros por hora e 24 quilómetros por dia. Penso, por vezes, que essa é a velocidade com que a tristeza caminha sobre a terra.”.    
Confesso que tive certo em perceber como esse maravilhoso texto poderia ser catalogado como conto. Porém, recorrendo à terminologia, de Anatol Rosenfeld, parece que encaixa na forma da Skizze (esboço, sketch em inglês), que apresenta uma cena impressionista, sem nítida linha narrativa, mas com “atmosfera” de alguma ficção. E desemboca didática e poeticamente num belo desfecho contista.
O texto de Tolentino parte dum apontamento do “Dispensário para Animais Doentes”, em Londres, que recorda, numa inscrição, todos os animais que foram mortos na I Guerra Mundial (1914-1918). E refere a quantidade enorme de burros que os ingleses importaram de África do Sul para, graças à sua resistência (raramente adoecem), servirem na guerra em transporte de armamento e víveres, dando relevo a um que, mesmo cego mercê dum projétil que o atingiu, passava por entre feridos e mortos no cumprimento da sua função. Igualmente menciona do British Museum um achado sumério com dois painéis, sendo que um representa o tempo de paz e o tempo de guerra. E, na parte do painel dedicado à guerra, veem-se muitos carros puxados por burros.
Diz o autor que “os burros estão associados historicamente às estações de pobreza e aos pobres”. E, embora Alexandre Magno tenha sido escoltado por 64 burros magnificamente ornamentados, de Babilónia a Alexandria, não foi num burro assim que Abraão subiu ao monte Moriá, nem Maria e José viajaram para o Egito para salvar Jesus. Por outro lado, o burro é utilizado nos trabalhos agrícolas e similares e em transportes entre caminhos difíceis que só ele sabe abrir, resistindo a todo o tipo de intempérie. E, após dar conta de que a Bíblia menciona 3594 vezes os animais, sendo o primeiro a serpente (Génesis) e o último o cordeiro (Apocalipse), e depois de apresentar várias referências bíblicas sobre o cuidado a ter com os animais, Tolentino, supõe que o burro do presépio seria “um dos asnos anónimos do acampamento dos pastores”, que terá ouvido com eles o anúncio angélico do nascimento do Messias. Terá começado por se revolver a secundar a agitação e o cantar dos pastores, mas depois deu conta de que sob as patas brilhava o rasto luminoso da estrela que indicava o caminho para Belém e, quando os pastores chegaram à gruta, o burro, que se lhes antecipara, já lá estava como figurante. Não obstante, apesar da postura humilde de figurante e deitado, protegia com o calor do pelo corporal a jovem parturiente e aquele filho que os esbugalhados olhos asininos não cessavam de contemplar.
A propósito, já atinámos com o caminho do Presépio, dispusemo-nos a servir de figurantes para proteger o menino que vive no pobre e no doente e a contemplar o rosto de Jesus onde Ele estiver? Ou queremos rebentar com a humidade e serviço e armar-nos em protagonistas da criação do mundo e da sua redenção? Ou arriscamos a que o Natal passe sem o que o topemos?
2019.11.14 – Louro de Carvalho

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Virão adorar o Senhor todos os povos da Terra


Celebrou-se hoje, 6 de janeiro, a Solenidade da Epifania do Senhor e os textos assumidos para a liturgia foram Is 60,1-6 (1.ª leitura), Ef 3,2-3a.5-6 (2.ª leitura) e Mt 2,1-12 (3.ª leitura, Evangelho).
O termo epifania é uma modalidade da teofania. Houve, de facto, muitas teofanias ou manifestações de Deus no AT (Antigo Testamento). São conhecidas as plasmadas no arco-íris, na nuvem, no trovão e na Sarça Ardente. Só que estas são de âmbito limitado, reservadas aos velhos Patriarcas e aos líderes de Israel. E o Natal é a grande teofania de Deus manifestado num menino reclinado na manjedoura dum estábulo, cantado pelos anjos e visitado pelos pastores, mas tudo na Palestina. Ora, a Epifania é a manifestação do Senhor para fora, ou seja, a revelar-Se aos gentios, hoje representados pelos Magos (cf Ef 3,6), desvendando-se “a verdade sublime de que “Deus veio para todos: todas as nações, línguas e povos são acolhidos e amados por Ele” – facto simbolizado na luz, que tudo alcança e ilumina (cf homilia do Papa, de hoje).
E esta revelação sucede por iniciativa de Deus, que dá os seus sinais e Se mostra em Jesus, o qual põe os discípulos a correr o mundo anunciando a Boa-Nova. Com efeito, Paulo conhece “o mistério”, desígnio ou projeto salvador de Deus, definido desde toda a eternidade, escondido durante séculos, revelado e concretizado plenamente em Jesus, comunicado aos apóstolos, desfraldado e dado a conhecer ao mundo na e pela Igreja. E a Paulo, apóstolo como os Doze, também foi revelado esse “mistério” que ele desvela aos crentes de fora da Palestina.
E o mistério consiste na verificação de que, em Cristo, chegou a salvação definitiva para os homens, que não é exclusivamente para os judeus, mas se destina a todos os povos da terra, sem exceção. Agora, judeus e gentios são membros de um mesmo e único “corpo” (o “corpo de Cristo” ou “Igreja”), partilham o mesmo projeto que os faz, em igualdade de circunstâncias, “filhos de Deus” e todos participam da promessa feita por Deus a Abraão (cf Gn 12,3) – promessa que Jesus realizou em pleno. E o profeta Isaías apresenta a luz de Deus que incide sobre Jerusalém. Inspirado pelo sol nascente que ilumina as belas pedras brancas das construções de Jerusalém e faz a cidade transfigurar-se pela manhã, o profeta anuncia a chegada da luz salvadora de Deus, que dará à cidade um rosto jovial e atraente.
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Mas a Epifania tem de acontecer também pelo movimento dos homens. O profeta refere que a predita luz fará concentrar na cidade iluminada os olhares de todos os que esperam e procuram a salvação. Por consequência, Jerusalém será abundantemente repovoada (com o regresso de muitos “filhos” e “filhas”) e os povos convergirão para Jerusalém, inundando-a de riquezas (nomeadamente, incenso para o serviço do Templo) e cantando os louvores de Deus. 
E o Papa Francisco, um profeta dos nossos tempos diz que surpreende o modo como o Senhor Se revela a todos. Na homilia de hoje, refere que o Evangelho mostra “o redopio de gente desencadeado em torno do palácio do rei Herodes”, quando se designa Jesus como rei.
Os magos, vindos do Oriente e que tinham visto a estrela do Rei dos Judeus, perguntavam onde estava o rei dos judeus que acabava de nascer. Haviam de O encontrar. Encontrá-Lo-iam, não no palácio real de Jerusalém, “mas numa casa humilde de Belém” – diz o Pontífice.
Já tinha sucedido isso no Natal: nenhum dos poderosos de então se apercebeu de ter nascido, nos seus dias, o Rei da história. E, mais tarde, quando Jesus Se manifesta publicamente, tendo o Batista como precursor, o Evangelho proporciona a apresentação do contexto: depois de elencar todos os grandes de então, no poder secular e no religioso (Tibério César, Pôncio Pilatos, Herodes, Filipe, Lisânias, os sumos-sacerdotes Anás e Caifás), conclui que “a Palavra de Deus foi dirigida a João, filho de Zacarias, no deserto” (Lc 3,2), ou seja, não foi dirigida a nenhum grande. E esta é a surpresa: Deus não sobe à ribalta do mundo para Se manifestar – frisa o Papa.
A estrela de Jesus poderia ter aparecido em Roma, sede do Império, que se tornaria cristão de imediato, ou poderia ter brilhado no palácio de Herodes e este poderia “fazer o bem em vez do mal”. Porém, em vez do êxito, poderíamos assistir ao insucesso, revolta ou encandeamento. E Francisco assegura que “a luz de Deus não vai para quem brilha de luz própria” e “Deus propõe-Se, não Se impõe; ilumina, mas não encandeia”. E esclarece o mysterium lunae  da Igreja:
É sempre grande a tentação de confundir a luz de Deus com as luzes do mundo. Quantas vezes corremos atrás dos clarões sedutores do poder e da ribalta, convencidos que prestamos um bom serviço ao Evangelho! Mas, assim, voltamos os holofotes para o lado errado, porque Deus não estava lá. A sua luz amável resplandece no amor humilde. Além disso, quantas vezes tentamos, como Igreja, brilhar de luz própria! Mas, não somos nós o sol da humanidade; somos a lua que, mesmo com as suas sombras, reflete a luz verdadeira, o Senhor. A Igreja é mysterium lunae e o Senhor é a luz do mundo (cf Jo 9,5). Ele…, não nós!”.
Vincando que “a luz de Deus vai para quem a acolhe”, comenta o texto de Isaías, segundo o qual “a luz divina não impede as trevas e o nevoeiro denso de cobrirem a terra, mas resplandece em quem está pronto para a receber”, não na indiferença e inércia (de escribas e sacerdotes do palácio). Assim, o profeta convida interpelando: “Levanta-te e resplandece”. E considera o Papa:
É preciso levantar-se, isto é, erguer-se do próprio sedentarismo e prontificar-se a caminhar. Caso contrário, fica-se parado como os escribas consultados por Herodes, que sabiam bem onde nascera o Messias, mas não se moveram. Além disso, é preciso revestir-se de Deus – que é a luz – todos os dias, até que Jesus Se torne a nossa vestimenta diária.”.
Porém, para se revestir da luz de Deus, é preciso despojar-se das roupas vistosas que impedem de receber a divina luz, como aconteceu com Herodes. Já os magos cumprem a profecia, pois, como diz o Bispo de Roma, “levantam-se para serem revestidos de luz”. Só eles viram a estrela de Jesus no céu.
Depois, é preciso ter em conta que, para encontrar Jesus, é preciso enveredar pelo caminho certo e permanecer nele. Quando os magos se desviaram da rota certa, deixaram de ver a estrela e foram ter a Jerusalém em vez de Belém, ao Palácio em vez da casa humilde. Não se pode seguir o caminho de Herodes (distinto do caminho do mundo), do medo, da inveja, do cinismo, da perfídia. Ao direcionarem-se para Belém, recuperaram a visão da estrela e chegaram ao sítio certo. E o Papa assegura que, na conclusão desta passagem evangélica se diz que os magos, tendo encontrado Jesus, ‘regressaram ao seu país por outro caminho’ (Mt 2,12), um caminho como o percorrido pelos que estão com Jesus no Natal: Maria e José, os pastores. Como eles, os magos, deixaram as suas casas e tornaram-se peregrinos pelas rotas de Deus. De facto, “só encontra o mistério de Deus quem deixa os próprios apegos mundanos e se põe a caminho”.
E não basta saber onde nasceu Jesus, como os escribas, se não caminharmos até ao lugar indicado; não basta saber que Jesus nasceu, como Herodes, se não O encontrarmos. Quando o onde de Jesus se torna o nosso, Jesus nasce dentro e torna-Se Deus vivo para cada um de nós.
Depois, Francisco refere que os magos “não discutem, caminham”; não ficam de fora a ver, entram na casa; não se colocam no centro, prostram-se-lhe aos pés; não se fincam nos seus planos, prontificam-se a tomar outro rumo; têm um contacto estreito com Jesus, uma abertura radical, um envolvimento total. Mais: os magos vão ter com o Senhor, não para receber, mas para dar. Com efeito, o Evangelho contém uma trilogia de prendas: ouro, incenso e mirra. O ouro, como o elemento mais precioso, lembra que Deus merece o primeiro lugar, o da adoração, para o que temos de nos privar do primeiro lugar e “considerar-nos necessitados, não autossuficientes”; o incenso, que simboliza o relacionamento com o Senhor na oração, sendo que, para exalar o seu perfume, se deve queimar, lembra que é preciso ‘queimar’ um pouco de tempo na oração com o Senhor; e a mirra, unguento que seria utilizado para envolver amorosamente o corpo de Jesus descido da cruz (cf Jo 19,39), sugere que agrada ao Senhor que cuidemos dos corpos provados pelo sofrimento, da sua carne mais frágil, de quem ficou para trás”. Com efeito, recorda o Pontífice fazendo a apologia da gratuitidade:
É preciosa aos olhos de Deus a misericórdia com quem não tem para restituir, a gratuitidade. É preciosa aos olhos de Deus a gratuitidade. Neste tempo de Natal que está a terminar, não percamos a ocasião para dar um lindo presente ao nosso Rei, que veio para todos, não nos cenários faustosos do mundo, mas na pobreza luminosa de Belém. Se o fizermos, resplandecerá sobre nós a sua luz.”.
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Sobre a Epifania, o SNPC (Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura), no respetivo site, publica um texto de Ermes Ronchi (a parti do Avvenire), traduzido por Rui Jorge Martins, sob o título “Epifania, festa dos buscadores de Deus a caminho”. 
Segundo o autor, esta é “a festa dos buscadores de Deus, dos que estão longe”, mas que se puseram a caminho atrás de palavras como as de Isaías: “ergue a cabeça e vê” – dois verbos belíssimos, em que um (ergue a cabeça) faz olhar para o alto e à volta e leva a abrir “as janelas de casa ao grande respiro do mundo”; e o outro () faz procurar “uma fissura, um espaço de céu, uma estrela polar, e de lá interpreta a vida, a partir de uma perspetiva elevada”.
E diz o autor que o Evangelho (Mt 2, 1-12) “narra a procura de Deus como uma viagem, ao ritmo da caravana, nos passos de uma pequena comunidade”. Na verdade são três (uma comunidade) que “caminham juntos, atentos às estrelas” e “uns aos outros”; e fixam “o céu e os olhos de quem caminha ao lado, abrandando o passo segundo a medida do outro, de quem está mais fatigado”.
A seguir, regista que surpreendentemente:
O caminho dos magos está cheio de erros: perdem a estrela, encontram a grande cidade em vez da pequena povoação; perguntam pelo menino a um assassino de meninos; procuram um palácio e encontram um casebre. Mas têm a infinita paciência de recomeçar”.
E extrai a lição: “o nosso drama não é cair, mas rendermo-nos às quedas”.
Depois, os magos veem o Menino nos braços da mãe, prostram-se e oferecem-Lhe presentes, mas o presente mais precioso é “a sua própria viagem” ou “os meses passados à procura, andar e andar atrás de um desejo mais forte que desertos e fadigas”.
E outra lição: “Deus tem sede da nossa sede: o nosso presente maior”.
“Entraram, viram o Menino e a Sua Mãe e adoraram-No”. E isto constitui uma lição misteriosa: não adoraram aqui “o homem da cruz” ou “o ressuscitado”, nem “um sábio de palavras de luz nem um jovem na plenitude do vigor”, mas “simplesmente um menino”. De facto, “não é só no Natal que Deus é como nós, não só é o Deus connosco, mas é um Deus pequeno entre nós”, de quem “não se pode ter medo” nem “distância”. Por isso, Se fez menino.
Herodes mandou que se informassem com cuidado sobre o Menino e lho transmitissem, para que também ele O fosse adorar. É “o homicida de sonhos ainda embrulhados em faixas” que também “está dentro de nós”, com “o cinismo, o desprezo que destroem sonhos e esperanças”. Era pertinente, como diz o autor, “resgatar aquelas palavras da profecia de morte com que foram proferidas e repeti-las ao amigo, ao teólogo, ao artista, ao poeta, ao cientista, ao homem de rua, a cada um: ‘encontraste o Menino?’, para recomendar depois:
Continua à procura, cuidadosamente, na história, nos livros, no coração das coisas, no Evangelho e nas pessoas; continua a procurar atentamente, fixando os abismos do céu e os abismos do coração, e depois conta-mo como se conta uma história de amor, para que também eu vá adorá-lo, com os meus sonhos resgatados de todos os Herodes da história e do coração”.

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Também, antes da recitação do Angelus, o Papa Francisco falou aos peregrinos frisando a manifestação de Jesus simbolizada pela luz, que, nos textos proféticos, é promessa. Isaías, de facto, dirige-se a Jerusalém convidando: “Levanta-te, brilha, pois chegou a sua luz, a glória do Senhor brilha sobre ti”. E este convite “aparece surpreendente, porque se insere depois do duro exílio e das inúmeras opressões que o povo havia vivido” diz o Papa, que vinca:
Este convite, hoje, ressoa também para nós, que celebramos o Natal de Jesus e nos encoraja a deixar-nos alcançar pela luz de Belém. Também nós fomos convidados a não nos deter nos sinais exteriores do acontecimento, mas a recomeçar dele e percorrer em novidade de vida o nosso caminho de homens e fiéis.”.      
Com efeito, “a luz que o profeta Isaías tinha pré-anunciado, no Evangelho está presente e foi encontrada. É Jesus, nascido em Belém, que veio trazer a salvação a próximos e a distantes: a todos – sendo que Mateus mostra diversos modos pelos quais se pode encontrar Cristo e reagir à sua presença. Assim, o Papa sublinhou que “Herodes e os escribas”, com um coração duro e obstinado, rejeitaram a visita do Menino, fecharam-se “para a luz”, representando todos os que “têm medo da vinda de Jesus e fecham o coração aos irmãos e às irmãs que necessitam de ajuda”. Herodes, com medo de perder o poder, não pensa no bem das pessoas, mas na própria vantagem; e os escribas e chefes do povo têm medo porque, não sabendo olhar além das próprias certezas, não conseguem colher a novidade que está em Jesus.
Já os magos, vindos de longe, representam todos os povos distantes da fé hebraica e deixam-se guiar pela estrela, abertos à “novidade”. Revela-Se-lhes Deus feito homem e eles prostram diante de Jesus e oferecem dons simbólicos, porque “a busca do Senhor implica não só a perseverança no caminho, mas também a generosidade do coração”. Depois, regressaram ‘ao seu país’, não pela via de Herodes, mas levando dentro de si o mistério daquele Rei humilde e pobre. Terão contado a experiência: a salvação oferecida por Deus em Cristo é para todos os homens. Não é possível tomar posse do Menino, um dom para todos. E o Pontífice exorta:
Façamos também nós um pouco de silêncio em nosso coração e deixemo-nos iluminar pela luz de Jesus que provém de Belém. Não permitamos que os nossos medos nos fechem o coração, mas tenhamos a coragem de nos abrir a esta luz que é mansa e discreta.[…] Então, como os Magos, experimentaremos uma grande alegria que não poderemos manter para nós. Que nos sustente neste caminho a Virgem Maria, estrela que nos conduz a Jesus, e Mãe que mostra Jesus aos Magos e a todos aqueles que se aproximam dele.”.
Depois do Angelus, Francisco referiu alguns aspetos da atualidade:
- Sabendo que, durante vários dias, 49 pessoas resgatadas no Mediterrâneo estão a bordo de dois navios de ONGs, em busca de refúgio seguro para a terra, dirigiu “um apelo sincero aos líderes europeus para que demonstrem a sua solidariedade para com essas pessoas”.
- Anotando que algumas igrejas orientais, católicas e ortodoxas, seguindo o calendário juliano, celebrarão o Natal no dia 7, saudou-as cordial e fraternamente “no sinal de comunhão entre todos nós cristãos, que reconhecem a Jesus como Senhor e Salvador”. 
- Referindo a Epifania é também o Dia Missionário da Juventude, frisou que este ano convida os jovens a serem “atletas de Jesus”, para testemunhar o Evangelho na família, na escola e nos locais de lazer.
- Dirigiu cordial saudação a todos os peregrinos, famílias, paróquias e associações, provenientes da Itália e de diferentes países e, em particular, aos fiéis de Marsala, Peveragno e San Martino in Rio, os meninos do Cresima di Bonate Sotto e o grupo “Fraterna Domus”. E endereçou uma saudação especial à procissão histórico-folclórica que promove os valores da Epifania e que este ano é dedicada ao território de Abruzzo, mencionou a procissão dos magos que ocorre em muitas cidades da Polónia com grande participação de famílias e associações; e saudou os músicos da banda que ouviu tocar, incitando a que continue a tocar a alegria deste dia da Epifania.
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Enfim, doutrina, reflexão, preocupação e simpatia!
2019.01.06 – Louro de Carvalho

sábado, 29 de dezembro de 2018

A quadra natalícia também sob o signo do martírio


Nem seria muito de admirar se não fosse muito doloroso, mas o Natal também obriga a contemplar a vertente do martírio. Desde logo, o Menino nascido na gruta belemita vinha destinado ao martírio redentor do Gólgota. Tanto assim é que a cruz é o caminho de Cristo como há de ser o caminho dos seus discípulos e seguidores:
Se alguém quiser vir comigo, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; mas, quem perder a sua vida por minha causa, há de encontrá-la.” (Mt 16,24-25).
E uma estrofe do cântico de Natal “Cristãos, alegria que nasceu Jesus” contém esta mística:
Lá nos altos Céus, / Honra e glória a Deus / Que nos deu Jesus! 
 Paz na terra à alma / Que serena e calma / Vive unida à cruz!”.
Depois, a 26 de dezembro, celebrou-se a festa de Santo Estêvão, o protomártir, que foi detido pelas autoridades judaicas e levado diante do Sinédrio (a suprema assembleia de Jerusalém), que o condenou por blasfémia, sendo sentenciado a apedrejamento. Entre os presentes na execução, estaria Saulo, o futuro São Paulo, durante os seus dias de perseguidor dos cristãos.
Muitos Padres da Igreja, como Santo Agostinho, atribuem a conversão de Saulo às orações de Estêvão. Agostinho diz: Si Stephanus non orasset, ecclesia Paulum non haberet.
A 27, celebrámos a festa de São João, Apóstolo e Evangelista. Conforme tradição unânime, viveu em Éfeso em companhia de Nossa Senhora e foi colocado, sob o imperador Domiciano, dentro duma caldeira de óleo a ferver, daí saindo ileso e, todavia, com a glória de ter dado testemunho. Depois do exílio de Patmos, tornou definitivamente a Éfeso, onde exortava continuamente os fiéis ao amor fraterno, como resulta das suas três cartas, acolhidas entre os textos sagrados, como também o Apocalipse e o Evangelho. Morreu carregado de anos em Éfeso durante o império de Trajano (98-117) e aí foi sepultado.
A 28, celebrou-se o martírio dos Santos Inocentes, evocando o evento bíblico conhecido como o Massacre dos Inocentes, em que Herodes, rei da Judeia, terá condenado à morte todos meninos da cidade de Belém e arredores, com medo de perder o seu trono para o recém-nascido “Rei dos Judeus”, anunciado pelos magos. Os meninos assassinados ficaram conhecidos na Igreja como os “Santos Inocentes” e como os primeiros mártires cristãos.
A primeira comemoração do Dia dos Santos Inocentes na igreja ocidental remonta ao ano de 485, no “Sacramentário Leonino”. A data da celebração varia entre o dia 27 e o dia 29, consoante o tipo de Igreja. Para a Igreja Católica, a Igreja da Inglaterra e a Igreja Luterana, a data da celebração é o dia 28 de dezembro.
Francisco, depois de, no dia 26, ter estabelecido a similitude entre Estêvão e Cristo, no dia dos Santos Inocentes veio exortar a acolher em Jesus o amor de Deus. O twitter do Papa inspira-se na sua Mensagem de Natal de 2017, em que recordou todos os cantos do mundo onde as crianças sofrem. Diz agora o Papa:
Acolhamos no Menino Jesus o amor de Deus e vamos empenhar-nos em tornar o nosso mundo mais digno e humano para as crianças de hoje e de amanhã”.
Na Mensagem do Natal de 2017, o Santo Padre recordava todos os lugares do mundo onde as crianças sofrem, visualizando Jesus nos rostos das crianças no Oriente Médio, onde “continuam a sofrer com o aumento das tensões entre israelenses e palestinos”, nos rostos das crianças da Síria, “ainda marcados pela guerra que ensanguenta esse país há anos”, ou ainda os rostos das crianças do Iraque, do Iémen, da África; nos rostos de todas as crianças que vivem em “áreas do mundo onde a paz e a segurança estão ameaçadas pelo perigo de tensões e novos conflitos”, ou naqueles rostos de “tantas crianças forçadas a deixar os seus países, a viajarem sozinhas em condições desumanas, sendo presas fáceis para os traficantes de seres humanos”. E afirmava:
Enquanto o mundo está a ser atingido por ventos de guerra e um modelo de desenvolvimento já obsoleto continua a causar degradação humana, social e ambiental, o Natal convida-nos a recordar o sinal do Menino e que o reconheçamos nos rostos das crianças, especialmente daquelas para quem, como Jesus, não há lugar na estalagem”.

Historia Antiga (1937) – Miguel Torga

Era uma vez, lá na Judeia, um rei.
Feio bicho, de resto:
Uma cara de burro sem cabresto
E duas grandes tranças.
A gente olhava, reparava e via
Que naquela figura não havia
Olhos de quem gosta de crianças.
E, na verdade, assim acontecia.
Porque um dia,
O malvado,
Só por ter o poder de quem é rei
Por não ter coração,
Sem mais nem menos,
Mandou matar quantos eram pequenos
Nas cidades e aldeias da Nação.

Mas, por acaso ou milagre aconteceu
Que, num burrinho pela areia fora, fugiu
Daquelas mãos de sangue um pequenito
Que o vivo sol da vida acarinhou;
E bastou esse palmo de sonho
Para encher o mundo de alegria;
Para crescer, ser Deus;
E meter no inferno o tal das tranças,
Só porque ele não gostava de crianças.

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Obviamente, não podemos ficar a olhar só para os martírios do passado. Hoje eles praticam-se e são bem bárbaros, nada ficando a dever aos demais martírios que a História regista.
Assim, no ano que está prestes a terminar, a agência Fides apresenta o relatório com números e circunstâncias em que missionários – “batizados comprometidos na vida da Igreja” – foram mortos em diversas partes do mundo de forma violenta, embora não necessariamente por ódio à fé. No total são 40, quase o dobro de 2017, os missionários assassinados no ano que está prestes a acabar. A maior parte deles, sacerdotes, em número de 35.
Segundo dados recolhidos pela Fides, após 8 anos consecutivos em que o número mais elevado de missionários assassinados foi registado na América, desta feita, em 2018 é a África a ocupar o primeiro lugar neste ranking trágico. Também, neste ano  muitos perderam as suas vidas durante tentativas de roubo ou furto em contextos sociais de pobreza, degradação e onde a violência é a regra da vida, a autoridade do Estado ausente ou enfraquecida pela corrupção ou onde a religião é instrumentalizada para outros fins.
São 19 sacerdotes, um seminarista e uma leiga as vítimas em África. Comove a morte de Thérese Deshade Kapangala, da República Democrática do Congo, que tinha apenas 24 anos de idade e estava a preparar-se para começar o postulantado entre as Irmãs da Sagrada Família. Foi assassinada em janeiro 2018 na violenta repressão dos militares que tentavam sufocar os protestos contra as decisões do Presidente Kabila, promovidos por leigos católicos em todo o país. Cantava no coro da paróquia e era muito ativa na Legião de Maria. Tendo naquele dia participado na Missa na cidade de Kintambo, ao norte de Kinshasa, tentou organizar uma marcha de protesto. Os militares do exército, postados do lado de fora da igreja, abriram fogo contra os manifestantes que buscavam abrigo no templo. Thérese foi atingida ao tentar proteger uma criança com o seu corpo.
Um massacre brutal em que foram mortos na Nigéria o Padre Joseph Gor e o Padre Felix Tyolaha por pastores jihadistas nos povoados de Mbalom, no Estado de Benue, na parte central do país que divide o norte de predominância muçulmana, do sul em grande parte habitado por cristãos. O massacre ocorreu na madrugada de 24 de abril de 2018, durante a Missa matinal, muito frequentada. Tinha acabado de se iniciar a celebração e os fiéis ainda estavam a entrar para a igreja, quando foram disparados vários tiros por um grupo armado. Foram mortas a sangue frio 19 pessoas, incluindo os dois padres. A seguir, os bandidos, entrando no povoado, saquearam e destruíram mais de 60 casas.
Também o idoso e muito amado padre Albert Toungoumale-Baba, centro-africano (de 71 anos), foi morto na Paróquia de Nossa Senhora de Fátima, não muito distante do bairro PK5 Bangui, capital da República Centro-Africana, onde houve um massacre provocou a morte de, pelo menos, 16 pessoas e causou uma centena de feridos. Um grupo armado atacou a paróquia, enquanto o Padre Albert e alguns fiéis estavam a celebrar a Missa da festa de São José no 1.º de maio de 2018. O sacerdote, um dos mais idosos da diocese de Bangui, muito estimado pelos fiéis, encontrava-se na igreja para a celebração como capelão do movimento “Fraternité Saint Joseph” e foi assassinado de súbito.
Também a América pagou alto tributo de vidas em 2018. Foram assassinados 12 padres – 7 somente no México – e 3 leigos. Entre as vítimas, chama atenção a história do Padre Juan Miguel Contreras García, ordenado sacerdote pouco antes de morrer. Tinha apenas 33 anos, quando foi morto na noite de 20 de abril de 2018,no final da Missa que celebrava na Paróquia São Pio de Pietrelcina, em Tlajomulco, Estado de Jalisco (México), onde estava em substituição de outro sacerdote ameaçado de morte. Um comando invadiu a igreja e dirigiu-se à sacristia, onde abriu fogo contra o sacerdote.
O Padre Riudavets Carlos Montes, um jesuíta espanhol de 73 anos, foi encontrado amarrado e com sinais de violência na comunidade indígena peruana de Yamakentsa. O Padre Riudavets tinha formado centenas de líderes indígenas e era totalmente consagrado à sua missão, sempre disponível. Amava a comunidade e por ela era amado.
Das diferentes histórias que a Fides relata neste final de 2018, surge um único denominador comum: a partilha que, em cada latitude, padres, religiosos e leigos são capazes de estabelecer com as pessoas, levando um testemunho evangélico de amor e de serviço para todos, e a coragem pela qual, mesmo diante de situações de perigo, os missionários permanecem no seu lugar para serem fiéis aos seus compromissos.
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Por sua vez, Pietro Parolin, Cardeal Secretário de Estado da Santa Sé, que celebrou o Natal com as comunidades cristãs do Iraque, em entrevista ao Vatican News, confessa: No Iraque toquei a fé de uma igreja mártiruma Igreja que, entre sofrimentos e tribulações, testemunha a alegria e a beleza do Evangelho”. Compartilha a esperança dos fiéis iraquianos duma visita do Papa e ressalta a importância da colaboração entre cristãos e muçulmanos para um futuro pacífico. E diz que a palavra “emoção” é a correta para descrever o que viveu no Iraque: “uma grande emoção” e alegria sua e das comunidades. Sentiu-se “muito feliz” por lhes poder levar “a proximidade do Papa, o seu afeto, a sua bênção, a atenção com que ele sempre seguiu os seus acontecimentos”. Naturalmente, a visita “foi uma ocasião para compartilhar os sofrimentos dos anos recentes e também um pouco das incertezas do presente, mas ao mesmo tempo, também as esperanças pelo futuro”.
Sobre a vivência da fé com alegria no meio de tantas tribulações, refere:
Nos pronunciamentos que fiz, sobretudo nas homilias, insisti muito neste ponto: ‘Vós sois um testemunho para a Igreja universal’. A Igreja universal é-vos grata pelo que vivestes, como vós vivestes isso,  e deve pegar no  vosso exemplo, desta capacidade de suportar sofrimentos, aflições, pelo nome de Jesus’. Eu diria que esta é uma exemplaridade que eles propõem a toda a Igreja que – tal como diz o Concílio – ‘vive entre as perseguições do mundo e as consolações de Deus’. No entanto, o que mais me impressionou foi o orgulho – no bom sentido da palavra – com que esses irmãos e irmãs vivem a sua fé: sentem-se orgulhosos por serem cristãos e por continuarem a sê-lo no meio de tantas dificuldades, tantas provações e sofrimentos!”.
Em relação às imagens fortes e tocantes da visita ao Iraque, confessa que foram muitas, pois tem cada encontro gravado na sua memória. Porém, destaca a destruição da cidade de Mosul. Na verdade, foi confrangedor “ver as igrejas, mas também as casas, os prédios, a parte inteira da cidade que mais sofreu pelos acontecimentos bélicos”.
Outra coisa que o chocou foram essas igrejas (tanto as caldeias como as sírio-católicas) “cheias de gente, cheias de homens, de mulheres, de crianças e de jovens”, em que “todos cantavam e rezavam”, impressionando “pela sua maneira de rezar”. Por outro lado, em Mosul, “era difícil andar pela rua porque havia entulho no meio”. O governador de Mosul quis cumprimentar o Cardeal, que sentiu o momento em que o governador lhe pegou pela mão “como um momento muito bonito, que deveria ser simbólico daquela que é a colaboração entre cristãos e muçulmanos: tomar-se pelas mãos e ajudar-se mutuamente”. E, naquele instante, estando a chover muito, apareceu um lindo arco-íris no céu, no que vê o símbolo “da paz, da aliança”.
A visita do Cardeal Secretário de Estado acendeu as esperanças duma visita de Francisco ao Iraque. A este respeito, o purpurado disse:
As pessoas ficaram muito contentes por essa presença. Sentiram também na presença do Secretário de Estado a presença do Papa […] Mas todos, a uma só voz, esperam que ele possa visitar o Iraque em breve e confortá-los pessoalmente. E a essa esperança dos cristãos iraquianos também eu me uno: que sejam criadas as condições,  naturalmente, para que o Santo Padre possa ir ao Iraque e possa compartilhar momentos de oração e de encontro com nossos irmãos.”.
Sendo-lhe recordado o discurso de saudação de Natal à Cúria, em que o Pontífice falou de duas grandes aflições, o martírio e os abusos sexuais por parte de membros do clero, Parolin, frisou:
As minhas esperanças são que este encontro, convocado pelo Papa, de todos os presidentes das Conferências Episcopais, possa fortalecer ou continuar, melhor dizendo […] a atenção em favor das vítimas, e sobretudo a criação de condições de segurança para menores e pessoas vulneráveis. Parece-me que é sobretudo neste ponto que a atenção dos participantes estará concentrada: isto é, como criar um ambiente seguro para os menores e as pessoas vulneráveis.”.
Ainda sobre o encontro de fevereiro, diz esperar que, a partir de então, se caminhe nesta estrada e que exista uma abordagem cada vez mais comum, “de toda a Igreja diante desse fenómeno”, mas que, “naturalmente, depois cada um” possa aplicar, “também de acordo com a situação local em que se vive, mas que seja clara a ‘política’ para todas as Igrejas” e “que seja também uma abordagem que tenha presente todos os aspetos do fenómeno, que são múltiplos e interconectados entre si”, procedendo-se, depois, com uma abordagem “inspirada pelos critérios do Evangelho em relação a todas as pessoas”.
E, a concluir, o Cardeal Parolin faz votos, para 2019, por que, diante de tantos desafios atuais,o Senhor sustente o Santo Padre na sua entrega contínua em favor da Igreja e das comunidades cristãs que se encontram em situações de dificuldade e marginalidade” e que “possa continuar a acender essa esperança e esse amor nos corações dos homens, motivo pelo qual tantos lhe querem tão bem e tantos o sentem particularmente próximo”, vendo muitos nele “a esperança de um mundo mais solidário, de um mundo mais pacífico, de um mundo feito à medida do homem e da fraternidade”.
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Enfim, martírio de morte para uns, martírio de tribulação para outros e proximidade de quantos sofrem ou se alegram – eis a onda diversificada e intensa que marca a Igreja peregrina, que vive a beleza exigente do mistério do Natal do Senhor, alimentando-se do banquete da Última Ceia e anunciando a Sua Morte e proclamando a sua Ressurreição até que Ele Venha.
2018.12. 29 – Louro de Carvalho