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sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Fátima Carneiro eleita a patologista mais influente do mundo


E, em 2018, a patologista mais influente do mundo é…é… Fátima CarneiroProfessora Catedrática da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e diretora do serviço de Anatomia Patologia do Centro Hospitalar São João. E foi “com surpresa” e “enquanto estava a trabalhar e a ver o email” que a investigadora e recebeu a reconfortante notícia. 
Com efeito, depois de o português Manuel Sobrinho Simões ter sido eleito, em 2015, o patologista mais influente do mundo, ficando assim – e também este ano – com um lugar na lista dos mais influentes patologistas elaborada pela revista científica The Pathologist, este ano o título veio novamente para Portugal na pessoa de Fátima Carneiro, diretora do serviço de Anatomia Patológica do Centro Hospitalar São João (CHSJ), que foi eleita a patologista mais influente do mundo.
A distinção foi atribuída à investigadora e professora portuguesa pela predita revista científica The Pathologist que, ao longo de dois meses, inquiriu patologistas dos quatro cantos do mundo sobre quem consideravam merecedor do título.
O reconhecimento do universo eleitoral, que destaca as reais capacidades de Fátima Carneiro, eleita enquanto patologista e professora universitária, valeram à médica portuguesa e professora catedrática da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), o primeiro lugar na lista de 100 posições elaborada pela revista britânica.
O comunicado da FMUP referente ao caso sublinha que, “entre os colegas de profissão, Fátima Carneiro é destacada não só enquanto uma perita na sua área de especialidade, mas, também, pelas suas capacidades de liderança”. E a eleita adiantou ao jornal Público que  “trazer a patologia portuguesa até um fórum com visibilidade mundial é muito bom”, mas frisou ver-se “apenas como uma pessoa que gosta muito de trabalhar”, considerando que “mais do que uma distinção pessoal, a conquista deste prémio é um reconhecimento pelo trabalho desenvolvido na Anatomia Patológica, uma especialidade médica a que, por passar despercebida, não é atribuído o valor devido, mas que é essencial para o exercício da Medicina com as suas exigências atuais”.
Numa área que diz estar “um pouco abandonada”, mas que “é essencial para o exercício da Medicina com as suas exigências atuais”, a investigadora reforça a importância de uma aposta crescente na patologia. A este respeito, declarou ao Observador:
É precis[a] uma aposta muito maior e é preciso consolidar o que existe, para criar estruturas que possam dar apoio permanente, para continuar a formar patologistas com qualidade e de uma forma integrada, para que possam exercer as suas funções, que são de uma imensa responsabilidade”.
Sobre o seu percurso, o comunicado referido acima destaca, de acordo com o Público, além do envolvimento no ensino e na atividade de diagnóstico, “um especial orgulho em ter conseguido atingir a senioridade na sua área de investigação, o cancro gástrico” e em todas as parcerias de investigação e ensino que estabeleceu “ao longo da carreira em quatro continentes”.
Na carreira de investigação, releva, tal como em Sobrinho Simões, o seu percurso enquanto investigadora do Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto (Ipatimup), agora integrado no I3S (Instituto de Investigação e Inovação em Saúde).
Ao longo da sua carreira umbilicalmente ligada ao Ipatimup, a investigadora e professora dirigiu vários projetos internacionais, foi presidente da Sociedade Europeia de Patologia (2011-2013) e, em Portugal, coordenou a Rede Nacional de Bancos de Tumores (2008) e preside à Academia Nacional de Medicina Portuguesa.
Sobre o facto de, em 2015, o título de patologista mais influente do mundo ter sido atribuído ao médico português Sobrinho Simões, professor catedrático da FMUP, fundador do Ipatimup e patologista no CHSJ – pelo que integra também este ano o top 100 desta edição da revista científica The Pathologist, Fátima Carneiro faz a devida vénia ao seu colega e antecessor e confessa com realista humildade:
Este é naturalmente um prémio importante para mim. Mas só existe porque existem instituições, existem projetos, existem visões de pessoas que muito antes de mim souberam desenhar, sonhar e concretizar. Tive a sorte de crescer aqui. Nada acontece por acaso.”.
***
São portugueses, médicos, investigadores na área do cancro e catedráticos da FMUP. E, doravante, passam a ter outra semelhança no currículo: serem considerados o patologista mais influente do mundo pela revista científica “The Pathologist”.
Depois de Manuel Sobrinho Simões em 2015 (e que este ano também está presente na lista), é a vez de Fátima Carneiro. A também diretora do serviço de Anatomia Patológica do Centro Hospitalar São João foi escolhida pelos colegas de profissão inquiridos pela revista britânica, numa lista que contempla 100 nomes.
No que à academia e à investigação diz respeito, a docente da FMUP é autora de mais de 250 artigos científicos e contribuiu para o desenvolvimento de vários capítulos de livros de especialidade.
Fátima Carneiro nasceu em Angola, em 1954, e licenciou-se em Medicina pela FMUP em 1978. Tal como Sobrinho Simões, destacou-se como investigadora no Ipatimup, hoje integrado no i3S. Ao longo da sua carreira, a investigadora dirigiu vários projetos nacionais e internacionais e presidiu a várias instituições.
A distinção, atribuída pela revista científica “The Pathologist” pelas suas capacidades enquanto patologista e professora universitária, colocou-a no primeiro lugar na lista das 100 posições.
Apesar de ser a primeira vez que chegou ao primeiro lugar, esta não é uma estreia da investigadora na lista. Em 2015 já tinha feito parte dos 100 mais influentes, num ano em que foi o médico português Manuel Sobrinho Simões, também ele docente da FMUP, fundador do Ipatimup, e patologista no CHSJ, o profissional considerado o patologista mais influente a nível mundial.
Para Fátima Carneiro, apesar de esta ser uma distinção “que é de orgulho para quem o recebe”, o mais importante é que se trata de “um reconhecimento de uma visão de uma realidade particular, criada num determinado ambiente de trabalho e de um conjunto de pessoas que se apaixonaram por esta forma de estar na patologia”.
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No meio de tudo isto, o que nós temos é uma sadia competição entre patologistas dos quatro cantos do mundo. E o facto de Portugal ficar à frente de candidatos excelentes, como a dos Estados Unidos ou do Reino Unido, é um reconhecimento importante para o país e para o trabalho de investigação científica que por cá se desenvolve em prol da vida humana. Pena é que a investigação científica seja o parente pobre do investimento português e a promoção da vida humana em condições de dignidade, tantas vezes passada para último plano pelos decisores políticos, tenha de ceder o passo à ganância económica e ao capitalismo financeiro sem rosto.
2018.09.21 – Louro de Carvalho

terça-feira, 4 de setembro de 2018

“Santa Teresa de Calcutá: servir Cristo nos mais pobres entre os pobres”


Foi a 4 de setembro de 2016 (já lá vão dois anos) que Madre Teresa foi inscrita no catálogo dos santos e santas. A canonização – muito desejada pelo Papa Francisco para fechar o Jubileu da Misericórdia – foi celebrada na Praça São Pedro, com pompa e circunstância perante a multidão formada por muitos milhares de pessoas e grupos provindos praticamente de todo o mundo.
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Conhecida em vida como “a santa das sarjetas”, Teresa de Calcutá, cujo nome de Batismo era Gonxhe Agnes Bojaxhiu, nasceu a 26 de agosto de 1910 numa família albanesa em Skopje, capital da atual república da Macedónia, na época pertencente à Albânia.
Ingressou, em 1928 (aos 18 anos de idade), na ordem das Irmãs de Nossa Senhora de Loreto, sediada na Irlanda, passando a usar o nome Teresa em homenagem a Santa Teresa de Lisieux.
Enviada a Calcutá (Índia), foi professora durante muitos anos numa escola para meninas de classe alta, antes de decidir servir a Deus através dos pobres. Porém, no início de 1948, mudou-se para os bairros pobres de Calcutá, onde algumas das suas ex-alunas se tornaram, a seu lado, as primeiras Missionárias da Caridade. E, em 1952, ao observar uma mulher agonizante, abandonada na rua e com os pés atacados por ratos, sentiu profunda comoção e decidiu assumir uma nova atividade: ajudar “os mais pobres entre os pobres”. Depois de procurar com insistência as autoridades da cidade, conseguiu a concessão dum antigo edifício para dar abrigo às pessoas que sofriam de tuberculose, disenteria e tétano e a quem nem os hospitais queriam atender. Dezenas de milhares de necessitados passaram por ali. Muitos encontraram uma morte digna, com o respeito pelas suas próprias religiões, enquanto outros recuperaram das suas mazelas graças aos cuidados das freiras.
Pela sua ação incansável, foi laureada com o Prémio Nobel da Paz em 1979.
Morreu em 1997, aos 87 anos, de ataque cardíaco, quando preparava um serviço religioso em memória da Princesa Diana de Gales, sua grande amiga, que faleceu num acidente de automóvel em ParisO seu trabalho missionário continua através da irmã Nirmala, eleita no dia 13 de março de 1997 como sua sucessora.
A Igreja abriu caminho à canonização da beata após a declaração como milagre da recuperação do brasileiro Marcilio Haddad Andrino, que tinha múltiplos pontos de inflamação no cérebro.
Quando Andrino sofreu, em 2008, os abcessos cerebrais de que os médicos disseram que não iria recuperar, a sua família invocou Madre Teresa. A este respeito, contou o miraculado que o seu estado de saúde tinha piorado ao ponto de ter sofrido muito para conseguir chegar até junto do altar para o seu casamento, em setembro de 2008, e que, em dezembro do mesmo ano, foi levado inconsciente para hospital.
Tinha Andrino uma cirurgia cerebral marcada, mas acordou sem dores de cabeça pouco antes da operação, tendo o médico declarado que não seria mais necessária a intervenção médica.
Já em 2002, o Vaticano reconheceu um milagre atribuído à intervenção da religiosa: a cura de Monika Besra, uma mulher de 30 anos, que sofria dum tumor abdominal. Viu-se livre da doença depois que a Congregação a presenteou com uma “medalha milagrosa” da Virgem, que antes havia sido usada por Teresa aos 87 anos. E João Paulo II beatificou Madre Teresa a 19 de outubro de 2003, em Roma, numa celebração que teve a presença de 300 mil pessoas, vindo Francisco a canonizá-la passados 13 anos.
Todavia, como era de esperar, surgiram os críticos à transformação santificação oficial de Teresa, questionando a comprovação dos milagres admitidos pela Igreja e considerando a sua canonização como símbolo de mais um “triunfo da fé religiosa sobre a razão e a ciência”.
O autor britânico Christopher Hitchens, que morreu em 2011, era um dos principais críticos. Caluniou Madre Teresa como “uma fundamentalista religiosa, uma agente política, uma pregadora primitiva e uma cúmplice dos poderes seculares mundanos”. Num livro lançado em 1995, “A posição missionária: Madre Teresa em teoria e prática”, Hitchens critica o que diz ser a “cultura de sofrimento” da religiosa, afirmando que ela criou um imaginário de “buraco do inferno” da cidade que a acolheu, além de se ter tornado “amiga de ditadores”.
Também o físico de Calcutá Aroup Chatterjee publicou, em 2003, uma crítica, depois de, alegadamente ter feito pelo menos 100 entrevistas com pessoas envolvidas com a congregação criada por Madre Teresa. Acusou-a de “espantosa falta de higiene” nos centros de saúde administrados pelas Missionárias de Caridade e apodou os locais em que o grupo cuidava de doentes como “confusos e mal organizados”.
Decididamente, estes críticos não sabem o que é trabalhar em condições inumanas em prol de quem sofre, em missões, em guerra, com refugiados... Fazem-me lembrar os burocratas hipócritas que se limitam a encerrar hospitais, lares de terceira idade e casas de acolhimento de crianças e adolescentes por não terem as exigidas condições, sem que tenham feito algo em prol da promoção da melhoria das condições de organização e funcionamento. E, quanto a fundamentalismos e relações com titulares do poder político, os preditos críticos pouco saberão disso, sobretudo se não sofreram os embates dessas mazelas sociais.   
Nada disto obscurecerá o legado de Madre Teresa de Calcutá. A agora santa morreu em 1997, aos 87 anos. O seu funeral em Calcutá, a 5 de setembro de 1997, foi acontecimento nacional na Índia e milhões de pobres acompanharam o seu corpo pelas ruas daquela cidade. Ao canonizá-la, o Papa Francisco – que a conheceu pessoalmente por ocasião de um sínodo de bispos em 1994, em Roma – afirmou que a figura da Madre será a santa de “todos os voluntariados” e propôs que ela fosse considerada o “modelo de santidade”. Com efeito, a “sua missão nas periferias das cidades e nas periferias existenciais permanece até hoje como testemunho eloquente da proximidade de Deus aos mais pobres entre os pobres”.
Mais lembrou o Pontífice que Madre Teresa fez “sentir a sua voz aos poderosos da terra para que reconhecessem as suas culpas diante dos crimes da pobreza criados por eles mesmos”.
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Por sua vez, o Vatican News recorda hoje, dia 4 de setembro, algumas etapas da vida da “irmã dos últimos”. Começando por citar palavras de Francisco por ocasião da sua canonização a 4 de setembro de 2016, retém:
Madre Teresa […] inclinou-se sobre as pessoas indefesas, deixadas moribundas à beira da estrada, reconhecendo a dignidade que Deus lhes dera […]. A sua missão nas periferias das cidades e nas periferias existenciais permanece nos nossos dias como um testemunho eloquente da proximidade de Deus junto dos mais pobres entre os pobres […] Parece-me que teremos talvez um pouco de dificuldade em chamá-la de Santa Teresa: a sua santidade é tão próxima de nós, tão tenra e fecunda, que espontaneamente continuaremos a chamá-la de ‘Madre Teresa’.”.
Depois, aquele serviço de informação refere que, em 1946, Madre Teresa recebera a chamada especial que a levou a fundar, quatro anos depois, a comunidade religiosa das Missionárias da Caridade que foi reconhecida oficialmente na Arquidiocese de Calcutá. Hoje, as Missionárias da Caridade, ou as Irmãs de Madre Teresa, como são comummente designadas, são cerca de 6 mil no mundo e estão presentes em 130 países. Fora em 1948 que a irmã do sorriso iluminado envergou pela primeira vez o sari branco bordado de azul e saiu do convento para as periferias degradadas de Calcutá, para se dedicar para sempre aos mais pobres. Saía sempre com o terço nas mãos para buscar e servir Jesus naqueles que “não são desejados, não são amados, não são cuidados”. Alguns meses depois, uniram-se a ela, uma após outra, algumas das suas ex-alunas.
Depois que Paulo VI concedeu que a atividade das Missionárias da Caridade se espalhasse para fora da Índia, cresceu muito a popularidade da pequena irmã, com uma fé firme como uma rocha. Todos a recordam como uma mulher pequena, delicada, com seu sari branco e azul, mas cuja grandeza conquistava o coração das pessoas no mundo inteiro, mesmo o dos que não creem – notoriedade que aumentou por causa de sua amizade com São João Paulo II.
O afeto e a admiração por Madre Teresa sempre ultrapassaram os limites da fé; e a sociedade civil concedeu-lhe o Prémio Nobel da Paz em 1979, “pelo seu serviço pelos pobres e com os pobres”. Na ocasião, consciente de ter ante si uma plateia mundial, a irmã do sorriso iluminado usou o discurso de agradecimento para lançar uma mensagem em que falou do aborto. Ficou célebre a sua frase: “E se nós aceitamos que uma mãe pode matar até mesmo o seu próprio filho, como é que podemos dizer às outras pessoas para não se matarem?”. De facto, Teresa entregou-se em prol da vida – um compromisso que durou para sempre e que foi recordado por São João Paulo II na homilia aquando da sua beatificação:
Costumava dizer: ‘Se ouvirem que alguma mulher não deseja ter o seu filho e pretende abortar, procurem convencê-la a trazê-lo para mim. Eu o amarei, vendo nele o sinal do amor de Deus’.”.
Menos de dois anos após a sua morte, pela sua grande fama de santidade e das graças obtidas por sua intercessão, o Papa polaco permitiu a abertura da Causa de Canonização. E, em 19 de outubro de 2003, foi proclamada beata. Afirmava durante a homilia o Papa Wojtyla:
Estou pessoalmente grato a esta mulher corajosa, que senti sempre ao meu lado. […] Ia a toda a parte para servir Cristo nos mais pobres entre os pobres. Nem conflitos nem guerras conseguiam ser um impedimento para ela. […] Escolheu ser não apenas a mais pequena, mas a serva dos mais pequeninos […]. A sua grandeza reside na sua capacidade de doar sem calcular o custo, de se doar ‘até doer’. A sua vida foi uma vivência radical e uma proclamação audaciosa do Evangelho.”.
Toda a vida e a obra de Teresa – apesar das suas crises existenciais, onde emergiu também a larvar crise de fé, que não a fez desistir de nada (Só quer dizer que não era um anjinho, mas uma mulher de carne e osso) – oferecem testemunho da alegria de amar e do valor das pequenas coisas, feitas com fidelidade e com amor. Ainda hoje, os sinais da sua presença são tangíveis através das suas obras que as Missionárias da Caridade levam por diante em todo o mundo.
***
Dois anos após a canonização, foi lançado o livro “Madre Teresa, uma santa para ateus e casados”, uma coletânea das meditações de Advento do Padre Raniero Cantalamessa, o pregador da Casa Pontifícia, dedicadas à luminosa mensageira do amor de Deus.
Cantalamessa dizia, em dezembro de 2003, pouco depois da beatificação de Madre Teresa, que a primeira pedra sobre a qual se apoia  a sua santidade é “a resposta a uma chamada”, é “a obediência a uma inspiração divina, provada e reconhecida como tal”.
O Capuchinho fazia as habituais pregações do Advento na Capela Redemptoris Mater do Palácio Apostólico, na presença do Papa João Paulo II e da Cúria Romana.  Agora, às vésperas do 5 de setembro, dia em que a Igreja celebra a memória litúrgica da Santa, é lançado pelas “Edizioni San Paolo” o predito livro. E, sobre o tipo de chamada a que se referia em 2003, Cantalemessa especifica:
Além da primeira chamada que a fez tornar-se religiosa, houve uma segunda, com que o Senhor lhe pedia que deixasse a Ordem religiosa, a vida que levara até então, para começar uma obra que a princípio a assustou: isto é, criar uma nova Ordem de religiosas indianas que estivesse a serviço dos mais pobres dos pobres.”.
E comparou essa chamada à de Abraão, que não tinha motivos morais para sair de Ur dos Caldeus, mas a quem o Senhor pedia isso. E diz:
De facto, Madre Teresa teve um pouco de resistência no começo, porque estava bem na Ordem das irmãs de Loreto. Mas isso é de certa forma sempre o início de uma aventura de santidade: responder a uma chamada, a algo de novo, que para ela era esta grandiosa obra que conhecemos.”.
Referindo-se às crises existenciais de Madre Teresa, explicita:
Este foi o elemento que causou alguma perplexidade no mundo quando foram publicados os diários íntimos de Madre Teresa, porque ela falava sobre essa escuridão como uma ‘ausência de Deus’, na verdade quase acreditava ser uma ateia e não sentir Deus. Esta é uma explicação muito clássica no cristianismo: a noite escura do Espírito. Algumas almas são chamadas a viver praticamente na ausência de Deus. Deus está evidentemente, como sempre, presente nelas, mas elas não sentem isso. Esta é uma prova de purificação: serve para purificar a fé dos santos.”.
Porém, assegura outras intenções e explicações de Teresa, dizendo: 
Na pregação, digo que Madre Teresa tinha também outros propósitos, outras explicações. Uma era a de protegê-la, como uma tela de amianto: ela que deveria passar por entre as chamas da publicidade, dos media. Portanto, esse vazio interior, essa ‘desolação’ – porque esse é o termo, a desolação que viveu – protegia-a do entorpecimento da fama. E, depois, uma outra explicação, a meu ver, é que Madre Teresa vivia um pouco o que vivem os ateus, uma categoria particular deles: os que não se orgulham do seu ateísmo, mas o vivem como uma angústia existencial, um vazio interior, que é um pouco o que dizia Albert Camus, os ‘santos sem Deus’, uma santidade feita de dedicação aos outros, porém sem a fé em Deus.”.
Sobre a aplicação dos “santos sem Deus” a Teresa de Calcutá, Cantalemessa discorre:
Madre Teresa compartilhou um pouco essa situação, por isso digo que ela é uma santa para os ateus. E também para os casados, porque há uma analogia, [pois] no casamento acontece um pouco o que acontece na vida dos santos: no início há os atrativos, a atração recíproca, as consolações e depois, gradualmente, pode chegar o tempo em que  não se experimenta mais nada, se deve continuar a amar não tanto pela consolação que se recebe do outro, como pelo amor puro. E Madre Teresa é um pouco o exemplo disso: perseverando, isto é, continuando a amar, quando não há mais a atração inicial. Isso purifica o amor. E, de facto, muitos cônjuges, no final de suas crises, estão prontos para dizer que o amor amadureceu após esse tempo, é mais puro do que antes.”.
No atinente às duas fontes de inspiração de Teresa e de Wojtyla, amigos, o Capuchinho atesta:
Madre Teresa tinha como que duas iluminações: uma era o ‘sitio’ (tenho sede) de Jesus, a sede de amor; o outro era o serviço aos pobres. E, falando de seu serviço aos pobres, recordava que para Madre Teresa a maior pobreza era a de Deus, a pobreza do Espírito. Wojtyla foi um exemplo dessa dedicação a serviço do Espírito: foi consumado e, nesse momento, sendo como todos se recordam daquelas condições de saúde, podia permitir-me também um pouco falar-lhe quase diretamente – motivo pelo qual, em determinado momento, me dirigi a ele como que dizendo que na sua vida ele deu um exemplo para todos de uma vida consumida pelos outros.”.
Por fim, aduz que não publicou o livro logo depois de ter feito as pregações com este conteúdo por citar “nas pregações alguns textos dos diálogos reservados de Madre Teresa, que ainda não haviam sido publicados oficialmente”. E acrescenta algumas circunstâncias de ordem pessoal e institucional:
Também tive a oportunidade de fazer um retiro na Albânia no ano passado e vi o que Madre Teresa é agora para os albaneses. Tudo isso, unido ao facto de que houve uma Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate do Papa Francisco sobre a chamada à santidade no mundo contemporâneo, fez-me recordar que Madre Teresa é um dos evidentes exemplos – juntamente com Padre Pio, que eu cito como o ‘irmão’ de Madre Teresa – de santidade moderna. A santa, por outro lado, recordava às suas irmãs o famoso Evangelho dos ‘cinco dedos’, ‘foi a mim que fizeste’, isto é, a união entre Jesus e o serviço dos pobres era inseparável.”.
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Em suma, a santa que não é do outro mundo, mas do nosso, com carne e osso, que sofreu crises existenciais como nós – santa de Cristo, santa dos pobres, santa dos ateus, santa dos casados!
2018.09.04 – Louro de Carvalho

domingo, 5 de agosto de 2018

“Um verdadeiro progresso dogmático”


A etiqueta vertida em epígrafe é do Arcebispo Dom Rino Fisichella, Presidente do Conselho Pontifício para a Promoção da Nova Evangelização, ao comentar a nova redação do n.º 2267 do Catecismo da Igreja Católica (CIC), determinada pelo Papa Francisco, que rejeita em absoluto a pena de morte. Trata-se de uma relevante mudança no texto que apresenta os conteúdos essenciais da doutrina católica sobre a fé e a moral, configurando um dinamismo de continuidade e não de rutura doutrinal – um passo decisivo na interpretação da doutrina de todos os tempos.
É certo que a carta da Congregação para a Doutrina da Fé (CDF) é perfeitamente elucidativa sobre o enquadramento e o alcance da inovação doutrinal ora introduzida no CIC. Todavia, era expectável que Fisichella tivesse uma palavra a dizer sobre o tema. Com efeito, a 17 de outubro de 2017, a Santa Sé publicou uma nova edição do CIC com apresentação do Papa Francisco e um comentário teológico-pastoral do Presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização. Ora, esta edição no 25.º aniversário da sua primeira edição, em 1992, saiu sem qualquer modificação comparativamente com a edição anterior.
Na apresentação, o Papa afirmava que “o Catecismo da Igreja Católica se apresenta como um caminho que, através de quatro etapas, ajuda a entender a dinâmica da fé”: “o desejo de cada ser humano que carrega consigo o anseio de Deus”; “a vida da graça expressa em particular nos Sete Sacramentos”; “o estilo de vida do fiel como vocação a ser vivida segundo o Espírito”; e “a oração como expressão de um encontro em que o homem e Deus se olham, falam e escutam”.
Trata-se de um percurso necessário “para entender plenamente a identidade do fiel como discípulo missionário de Jesus Cristo”.
Por sua vez, o comentário teológico-pastoral de Fisichella é “de grande ajuda para entrar sempre mais na compreensão do mistério da fé”, como explicou Francisco.
Assim, o CIC torna-se uma ulterior mediação por meio da qual se promovem e apoiam as Igrejas particulares em todo o mundo no compromisso de evangelização, como instrumento eficaz para a formação, sobretudo dos sacerdotes e catequistas”.
No comentário de Fisichella, é assinalada a importância do CIC na formação dos cristãos e no seu crescimento na fé. Diz o Arcebispo:
Para que a evangelização possa ser fecunda, pede-se a cada batizado que cresça na escuta da Palavra de Deus, que celebre os santos mistérios, que viva no caminho do Senhor e que faça da oração seu pão de cada dia. O Catecismo da Igreja Católica é um instrumento que ajuda a entrar progressivamente nesse empenho de vida.”.
Além disso, o CIC “é um instrumento necessário para a nova evangelização enquanto permite evidenciar a unidade que intervém entre o ato com o qual se crê nos conteúdos da fé”. Neste sentido, “pode ajudar a nova evangelização a superar uma dificuldade presente em várias igrejas que com frequência limitam a catequese apenas à preparação dos sacramentos”. Na verdade, “se a catequese se dirige unicamente à receção dos sacramentos, parece evidente que, terminado o percurso da iniciação cristã, a formação sucessiva corre o risco de acabar à deriva”. Por isso, o CIC constitui o “momento de retomar com convicção a possibilidade de uma formação constante, dirigida a todos os crentes”.
***
Todavia, o Dicastério de Fisichella tinha promovido um encontro para assinalar o 25.º aniversário da publicação da 1.ª edição do CIC e da Constituição apostólica Fidei Depositum, que o mandou publicar. E, no seu discurso aos participantes, a 11 de outubro, já o Papa havia reiterado o desenvolvimento da doutrina e o seu enquadramento, cuja síntese fica plasmada na atual redação do n.º 2267 do CIC. Não obstante, como a matéria ainda não tinha sido objeto de debate na CDF, tornou-se prudente proceder à republicação do texto sem alterações.
Agora, depois do conveniente estudo e obtida a decisão, Fisichella vem – em nome do conceito de que “a tradição é viva pela própria natureza – comentar a alteração ao CIC introduzida por desejo de Francisco. Diz Fisichella:
A tradição, se não estiver viva, se não for mantida viva por um magistério sempre vivo, como insiste a Dei Verbum, a Constituição Dogmática sobre a Revelação, não é mais a tradição”.  
A nova formulação do CIC, que entende como inadmissível a pena de morte, introduzida por desejo do Papa através de Rescrito publicado no dia 2 de agosto, representa “um verdadeiro progresso dogmático”, com o qual exprimimos um conteúdo de fé que amadureceu progressivamente até ao ponto de nos fazer compreender a inadmissibilidade da pena de morte em nossos dias. Di-lo o presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização (o dicastério que tem a competência em matéria de catequese) em artigo publicado no “L'Osservatore Romano” no dia 3.  
Segundo o prelado, o novo conteúdo – “em continuidade com o magistério precedente” – mostra como o depósito da fé é preservado, mas progride. Declarou ele ao VaticanNews:
O novo texto do Catecismo mostra um interessante desenvolvimento, porque até ao texto precedente – quer o de 92 como o de 97, que era a editio typica – em relação ao tema da pena de morte ainda era admitida a sua possibilidade e legalidade. Agora, pelo contrário, o Papa Francisco – em continuidade com o magistério de João Paulo II e do Papa Bento – concorda em explicitar ulteriormente o argumento, dando mais um passo. E esta passagem, como é dito ‘à luz do Evangelho’, faz compreender que a pena de morte é inadmissível. E, portanto, há palavras claras que não deixam qualquer mal-entendido sobre este ensinamento.”.
Trata-se, pois, de um progresso real de um conteúdo de fé. E Fisichella esclarece:
Sobretudo se isso é considerado no novo contexto que o Papa Francisco apresenta, ou seja, a dignidade da pessoa. Aqui é preciso observar que existe uma mudança do Catecismo. Antes, o objetivo era o de defender as pessoas que, devido a instrumentos ainda não desenvolvidos, poderiam sofrer violência por parte de um agressor. Agora, para a mudança de perspetiva, o objetivo não é mais a defesa das pessoas; não porque isto não permaneça como um princípio fundamental na moral católica, mas como ele é superado pelos novos sistemas também de detenção que têm à disposição os Estados, democráticos ou não. Agora, a perspetiva é a da dignidade da pessoa. O que o Papa Francisco leva a termo é a superação de uma visão restritiva, porque diz que a ninguém pode ser tirada a possibilidade de uma reabilitação, portanto, de uma reintegração, também no tecido social.”.
E, sobre o dever do Estado e a capacidade ou não da reabilitação das pessoas, o Presidente do dicastério competente em matéria de catequese discorre:
Isso comporta, obviamente, a capacidade por parte do Estado de favorecer esta dimensão e, portanto, também por parte do culpado – não esqueçamos, quando a autoridade legítima emite uma sentença de condenação à morte significa que há um crime muito grave – deve haver um esforço em reabilitar-se. Isto porque, não obstante o crime gravíssimo, deve haver sempre, nesta visão, uma abertura que é fonte de esperança, precisamente em relação à dignidade de cada pessoa. A possibilidade de começar uma nova vida não pode ser tirada de ninguém. E devemos dizer que, como há tantos exemplos de reincidência no crime, há também muitos exemplos – e agradeçamos ao Senhor por isso! – de conversão, de reabilitação e de reconciliação entre o culpado e as vítimas ou os familiares das vítimas.”.
Quanto à diferença entre “manter” o depositum fidei, o que se deve fazer, e “mumificá-lo”, o que não se pode fazer, Fisichella, explicita:
O Papa Francisco havia dito há um ano, naquele encontro organizado pelo Pontifício Conselho para a Nova Evangelização – que, não esqueçamos, é responsável do Catecismo da Igreja Católica e, portanto, também chamado como sua missão específica à promoção do Catecismo, o uso do Catecismo e depois também para se certificar de que o Catecismo, mesmo apresentando a doutrina de sempre, corresponda às novas exigências contemporâneas – naquele discurso, em 11 de outubro do ano passado, o Papa Francisco tinha dito que a tradição não é como um cobertor colocado sob naftalina. A tradição é viva, por sua própria natureza. Este é o ensinamento do Concílio. Esta é também a compreensão da tradição e que a tradição dá de si mesma.”.
E à comparação de Francisco o Arcebispo adiciona a contida na expressão inglesa “fly in ambra” para frisar que “a tradição não é uma mosca que é inserida no âmbar, nesta resina que a conserva assim”. E comenta:
Isso significaria destruir a tradição. A tradição, se não estiver viva, se não for mantida viva por um magistério sempre vivo, como insiste a Dei Verbum, a Constituição Dogmática sobre a Revelação, não é mais a tradição. Portanto, penso que estamos diante de uma consideração notável, importante. Cumpre-se um passo realmente decisivo que ajudará também o empenho dos católicos na vida social e política dos próprios países.”.
***
Na verdade, a história do dogma não vive da descontinuidade, mas da continuidade voltada para o progresso através dum desenvolvimento harmonioso que expõe dinamicamente a verdade de todos os tempos. E a missiva subscrita pelo prefeito da CDF, o Cardeal Luis F. Ladaria, para explicar aos bispos a nova redação introduzida no CIC, frisava que ela “se situa em continuidade com o Magistério precedente, levando por diante um desenvolvimento coerente da doutrina católica”. E aduzia:
A Igreja está muito consciente de que, face a tais crimes violentos e desumanos que outorgam autoridade legítima a uma sentença de pena de morte, há sempre sentimentos diversificados. Ao defender a abolição da pena de morte, certamente não esquecemos a dor das vítimas envolvidas nem a injustiça perpetrada. Mas pede-se que a justiça dê o seu passo decisivo, não de rancor e vingança, mas de responsabilidade mais além do momento presente.”. 
Por outro lado, a mudança operada no Catecismo “é um olhar para o futuro, onde a conversão, o arrependimento e o desejo de começar uma nova vida desde o princípio não podem ser tirados a ninguém, incluindo os que cometeram crimes graves. Na verdade, “reprimir voluntariamente uma vida humana é contrário à revelação cristã”; e “apresentar o perdão e a redenção é o desafio que a Igreja está chamada a fazer seu como um compromisso com a nova evangelização”. 
No discurso pronunciado em outubro de 2017 para o 25.º aniversário da publicação do CIC, o Papa abordou explicitamente a questão, como se disse, referindo que o tema deveria ter encontrado no Catecismo “um espaço mais adequado e coerente”. E a carta da CDF aduz:
Em continuidade com o magistério anterior, em particular com as afirmações de João Paulo II e Bento XVI, o Papa quis enfatizar a dignidade da pessoa, que de nenhum modo pode ser humilhada ou excluída: afirmar energicamente que a condenação à pena de morte é uma medida desumana que humilha a dignidade pessoal em qualquer forma que se processe. É em si mesma contrária ao Evangelho.”.
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Com a nova redação do n.º 2267 do CIC, a Igreja dá, assim, um passo decisivo na promoção da dignidade de cada pessoa, qualquer que seja o crime que possa ter cometido, e condena explicitamente a pena de morte. É uma formulação que tem presente o compromisso dos crentes pela vida, “especialmente nos muitos países onde persiste a pena de morte”. Com efeito, a   pena de morte ainda se aplica em 58 Estados e territórios. A última informação da ONG respetiva contabiliza 1.634 execuções em 2015, um aumento de mais de 50% relativamente ao ano anterior. E 89% das execuções têm lugar na Arábia Saudita, no Irão e no Paquistão. 
Por outro lado esta alteração no CIC testemunha uma “consciência mais viva” que emerge de maneira cada vez mais convicta nas populações, especialmente entre as gerações mais jovens chamadas a encarregarem-se da promoção de uma nova cultura em prol da vida humana.
O prefeito da CDF sustenta:
Uma leitura cuidadosa permite-nos verificar como a Igreja nestas últimas décadas avançou realmente na compreensão do ensino sobre a dignidade da pessoa e, por consequência, na reformulação do seu pensamento sobre a pena de morte”.
Por seu turno, Fisichella assinala como importante que o Papa tenha mencionado uma maior sensibilidade do povo cristão sobre o tema, “para sublinhar que hoje os Estados têm à sua disposição muitos sistemas de defesa para a proteção da população e que se desenvolveram formas de detenção que anulam o perigo e o trauma da violência contra pessoas inocentes" - o que "é igualmente um elemento decisivo”.
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A acrescentar aos dados acima referidos sobre a pena de morte, resta referir que, em 2017, se registaram quase 1000 execuções por pena de morte, uns 4% menos que no ano anterior (1.032 execuções) e menos 39% que em 2015 (1634). Em 2015, registou-se o valor percentual mais alto desde 1989.
Os Estados Unidos Estados continuam a ser o único país da América que levou a cabo execuções pelo nono ano consecutivo. O número de execuções (23) e de condenações à morte (41) nos EUA aumentou ligeiramente em relação a 2016, mas continua dentro das tendências historicamente baixas dos últimos anos. Como métodos de execução utilizaram-se a decapitação, o enforcamento, a injeção letal e a morte por arma de fogo.
Mais: há muitos casos de condenações sem prévio julgamento regular e justo. Tais são as ocorrências verificadas na Arábia Saudita, no Bahréin, na China, no Iraque e no Irán, em que as execuções por pena de morte não se fundamentam em processos judiciais justos. Ademais, supõe-se que se obtêm ‘confissões’ por meio de torturas ou maus tratos.
Assim, “Meriam contou que, durante o seu cativeiro, soubera que o Papa tinha orado por ela e que, naquela noite isso lhe deu uma fortaleza inesperada, que só quem tem uma autêntica fé conhece. Confirmara que ela estava a trabalhar por uma causa justa, que combatia numa luta que não era apenas sua. E disse sentir-se menos só” (do libro Me llamo Meriam, pg 107, apud Aleteia).
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Enfim, duma vez por todas, não à pena de morte em nome da vida e do Evangelho!

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 Cf
- http://press.vatican.va/content/salastampa/it/bollettino/pubblico/2018/08/02/0556/01209.htm
- http://press.vatican.va/content/salastampa/it/bollettino/pubblico/2018/08/02/0556/01210.html
- http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/speeches/2017/october/documents/papa-francesco_20171011_convegno-nuova-evangelizzazione.html
- https://www.vaticannews.va/it/vaticano/news/2018-08/pena-morte-modifica-catechismo-papa-francesco-rino-fisichella.html
- https://www.vaticannews.va/pt/vaticano/news/2018-08/pena-de-morte-mudanca-catecismo-papa-francisco-tradicao.html
- https://www.acidigital.com/noticias/vaticano-publica-nova-edicao-do-catecismo-da-igreja-catolica-61002
- https://es.aleteia.org/2018/08/03/la-decision-del-papa-sobre-la-pena-de-muerte-es-continuidad-no-ruptura-doctrinal/

2018.08.05 – Louro de Carvalho

domingo, 29 de julho de 2018

“Quem trabalha no bloco operatório é como quem trabalha num sacrário”


A frase foi citada, em entrevista à agência Ecclesia, por Dom António Luciano, Bispo de Viseu, que diz tê-la ouvido a Dom Alberto Cosme do Amaral, então Bispo Auxiliar de Coimbra, no encerramento do seu curso de enfermagem.
Dessa longa entrevista recolhem-se sobretudo asserções ligadas ao sentido da profissão e à formação em Teologia Moral e Bioética, bem como ao ensino conexo com estas.  
O Bispo enfermeiro que viveu a infância “numa família cristã, num ambiente cristão”, conta que um dia foi um padre missionário à escola primária e, enquanto os outros miúdos se afastaram do padre, ele agarrou-se-lhe à batina.
Entretanto, provavelmente por influência duma enfermeira conterrânea, fez a formação em enfermagem em Coimbra, passando a trabalhar nos HUC (Hospitais da Universidade de Coimbra). A seguir, fez o curso de enfermagem militar e passou a Leiria, Caldas da Rainha e Lisboa, na Estrela, onde fez a formação militar, após o que foi para o Hospital Militar em Coimbra, daí tendo sido mobilizado para Moçambique (já depois da revolução abrilina) onde esteve de agosto de 1974 a abril de 1975, passando por Quelimane e Nampula, onde atendeu “muitos traumatizados de guerra e muitos mutilados”.
Diz ter servido quase sempre no bloco operatório, com exceção de uns meses depois do serviço militar em que ajudou a abrir um serviço de neurotraumatologia. Mas no tempo de seminário, trabalhou em Lisboa, no Hospital de São Francisco, e no Hospital da Nazaré, onde estavam as irmãs de São José de Cluny e aonde ia durante as férias de verão fazer um pouco de praia e ajudava; e, ainda, na Clínica de Santa Filomena, em Coimbra.
Interpelado sobre a atenção e proximidade que punha nos cuidados de saúde, confessa que teve “sempre muito contacto com as pessoas simples, humildes, pobres, doentes”, no que vinha habituado da vida em família. E conta:
Em casa dos meus pais e avós, muita gente ia ajudar no serviço. Eles tinham comércio e lavoura, iam pessoas gratuitamente que ajudavam e ali tomavam a refeição. Sempre me habituei a estar com os mais necessitados e pobres. Os meus pais deram-me essa lição.”.
Foi com o ideal cristão para enfermagem e integrou-se como aluno na associação dos enfermeiros católicos, procurando transpor discretamente “aquele espírito evangélico e cristão que levava”, inspirado enunciado evangélico “o que fizerdes ao mais pequenino dos meus irmãos, é a mim que fazeis”. Reconhecendo que isto sempre o orientou, citou a frase plasmada em epígrafe e proferida no encerramento do curso por Dom Alberto Cosme do Amaral, da qual nunca mais se esqueceu: “Quem trabalha no bloco operatório é como quem trabalha num sacrário”. E foi, depois, “trabalhar para o bloco operatório”.
Desse trabalho encarece a atenção “à pessoa doente e aos médicos”, pois, como discorre, “um bloco operatório é um lugar de muita responsabilidade, onde a vida entra e pode não sair”. Por isso, tudo tem de estar bem preparado, “tanto da parte médica como da enfermagem, técnica e do pessoal de apoio” – o que tem suscitado “sempre uma cooperação muito grande, um espírito de família”. Confessa que a preocupação por que o doente saia dali com vida se sente sobretudo quando são “grandes sinistrados, em urgências” ou numa intervenção de risco – o que impõe uma atenção redobrada. E o enfermeiro, ora bispo, pensava “que, interiormente, muitos pediriam a Deus que os ajudasse naquele trabalho tão importante da cirurgia e da medicina”.
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Sobre o momento atual que a área da saúde enfrenta, nomeadamente algumas tensões entre a classe dos enfermeiros e o Ministério da Saúde, diz que se tem apercebido dessa tensão, que significa “um momento de reviravolta também histórica na relação Ministério/profissionais”. E chama a atenção para a necessidade de, antes de mais, “se olhar para a pessoa humana e para os cuidados que se têm de dar com qualidade”, esperando “que nunca aconteça que nós não demos ao doente o que devemos dar por falta de recursos económicos”. Acredita no equilíbrio entre o Ministério e os grupos profissionais, que hão de encontrar o melhor para a saúde”, porque esta “é um bem integral”, no dizer de João Paulo II, pelo que “temos de a promover mesmo quem não tenha fé”. Por outro lado, a OMS (Organização Mundial de Saúde) “quer que a saúde seja para todos”, o que, entre nós, “é uma conquista que se fez com a nossa revolução de abril”.
Confessa não se ter debruçado sobre o tema da discussão sobre a nova Lei de Bases da Saúde, mas que procura “ouvir médicos, enfermeiros e administradores e ver o que se pode fazer”, advertindo que é precisa “muita atenção e prudência”, pois “não podemos queimar etapas, mas saber respeitar para colher bons frutos”.
Quanto à ideia de voltar ao SNS (Serviço Nacional de Saúde) das origens, “gratuito, prestado por entidades públicas e assente na carreira dos médicos”, declara:
Isso foi um bem, seria bom se realmente se fizesse isso. Mas eu, desde muito novo, aprendi uma coisa: todos os ministérios podem dar prejuízos, mas o da saúde e da educação são sempre ministérios que dão prejuízo porque investem no que é o maior bem das pessoas. Os recursos podem não ser os suficientes, mas há que correr riscos! Se tivermos a saúde e as respostas gratuitas para todos, melhor. Mas compreendo que, em nome da justiça, quem possa pagar deverá ajudar os que são os mais necessitados.”.
Diz que gosta “de ir ao médico e pagar” o que deve pagar e que prefere “pagar toda a vida para esta ou para aquela instituição e nunca vir a precisar dela”. Isto é “contribuir para os outros”; é “a justiça social, que é importante para além da justiça evangélica”, que procura viver.
Sobre um SNS que conte com a iniciativa privada e social, pensa que “é saudável” e nos ajuda “a equilibrar”, pois, “no confronto, vemos de onde vêm as melhores respostas”.
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Revela que acompanhou o debate em torno da possível legalização da eutanásia “com muita expectativa, apreciando a posição dos comunistas e tendo participado, em nome da Igreja católica num dos colóquios, o inter-religioso, com intervenção dum médico judaico, dum representante islâmico e dum representante da associação das Igrejas evangélicas. Além disso, acompanhou “outros debates” e esteve na conclusão, em Lisboa, presidida pelo Presidente da República, tendo gostado “muito das conferências, principalmente dos peritos internacionais que nos chamaram a atenção para o facto de que, antes de decidir, é precisa prudência e cuidado”. E lembra o espanhol Diego Graz, “que terminou essa conferência” e que “dizia ser necessária muita cautela, estudar, falar e levar o debate às pessoas para que sintam a responsabilidade como sua”; “e depois virá o resto”.
No atinente à defesa da vida do início ao fim, discorre:
A saúde e as respostas do Governo devem seguir na linha de prestação de cuidados continuados e paliativos com qualidade. Eu sei que isto gasta dinheiro e envolve mais pessoal, mas isto é dignificante do ser humano, do seu valor e da sua presença no mundo. Se estamos numa sociedade que está a perder natalidade e onde o envelhecimento é global, devemos mostrar que queremos vida para todos. E, se queremos, temos de lhe dar qualidade.”.
Sobre o conflito entre a saúde e as questões económicas, refere:
Tive um professor na Faculdade de Medicina, em Lisboa, o professor João Ribeiro Silva, que dizia: em nome dos dólares pode-se estragar muita coisa do que é a vida das pessoas e alterar o que são os princípios éticos. E os princípios éticos aqui são fundamentais para uma boa harmonia e respeito pela pessoa, pela dignidade e pelo respeito das diferenças na tolerância. Esse é que é o anúncio do Evangelho de Jesus Cristo. Nós temos de saber levar às pessoas de uma outra forma e de uma outra naturalidade.”.
E deixou um apontamento sobre as periferias:
O Papa Francisco fala na proximidade e ainda há dias comentava que a primeira periferia sou eu, tem de começar por mim. Se não me entender como periferia não vou às dos outros. […] Ser em Igreja um hospital de campanha é estar sempre disponível, próximo e preparado para acolher as pessoas e para responder às suas necessidades. Haverá sempre uma marca pessoal que o Evangelho, todos os dias, nos convida a inovar. Aí está a beleza de Deus que é levada às pessoas, em especial aos mais frágeis, aos doentes, aos que vivem abandonados. É aí que o hospital de campanha se constrói. Também dentro das catedrais, mas fora delas, no Paço episcopal…”.
Não há, pois, um lugar único onde se possam situar as periferias humanas, mas eles estão onde as pessoas sofrem a doença, a debilidade, o ultraje à dignidade, a marginalização e o descarte. E a saída às periferias prepara-se no sítio onde estamos – penso seu.
Quanto ao facto de as questões de início e fim de vida poderem ser definidas mais por oportunismos políticos do que pelo que está em causa, a defesa da vida, explicita:
São questões complexas. Mas é ir ao terreno, onde estão as pessoas e ver as suas necessidades e melhorá-las. O que exige mais esforço! Por vezes, em nome da ideologia, pega-se em assuntos que são importantes para o debate, mas outros são mais relevantes para as pessoas viverem com dignidade.”.
Julgando que a educação sobre estas matérias é importante, lamenta e aponta sinais positivos:
Temos um défice de educação para a cidadania, o que traz um défice de educação para a fé e dificuldades quando temos de decidir. As decisões são, neste caso, de consciência, e hoje falta-nos uma formação séria para a consciência humana e, depois, para uma consciência iluminada pelo Evangelho, pela Boa Nova de Jesus Cristo. Este sinal hoje de estarmos a trabalhar para destruir a vida é muito negativo e terrível na nossa sociedade quando temos outros sinais positivos que nos devem animar e entusiasmar.”.
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Foi neste enquadramento que o entrevistador induziu Dom António Luciano a abordar o estudo da ética e bioética. E o entrevistado revela-se:
Desde novo, na enfermagem, ainda aluno, onde tive a sorte de me integrar num bom grupo. Na escola tive bons mestres e bons professoras e um bom diretor de escola que nos ensinava, antes de mais, a ser pessoas, homens e mulheres, mas também com postura. O estudo da ética e bioética vieram iluminar-me, mas foi desde a escola de enfermagem e em Roma, sem dúvida, e sendo professor destas matérias.”.
E continuou a autonarrativa:
Fui professor da Escola de Enfermagem e Saúde, a partir de outubro de 1989 até 2011, quando começou a crise (era contratado e ficaram os que lá estavam). Mas continuei na Universidade Católica Portuguesa, em Viseu, em cursos de gestão, de serviço social, de arquitetura e medicina dentária e na Universidade da Beira Interior, como capelão. Integrei o grupo de trabalho de Ética e História das Ideias em Medicina, desde a fundação da Faculdade até ao ano passado.”.
Sobre o espaço dado à ética nos alunos que procuram o conhecimento técnico para o exercício duma profissão, diz que é uma boa questão e prefere dar testemunho a teorizar. Fala de mensagens várias de antigos alunos, da enfermagem ou da medicina, e de outros que acompanhou como capelão da UBI (Universidade da Beira Interior) e do IPG (Instituto Politécnico da Guarda), podendo referir que encontrou “sempre a preocupação pela ética”. É certo que alguns pouco se interessavam, mas avisava-os:
Agora pode ser menos importante, mas um dia vão lembrar-se do que disse o Padre Luciano porque isto vai aparecer-te na vida e tens de saber responder de imediato”.
Como capelão, quando a UBI acolheu a Faculdade de Ciências da Saúde, foi, com o Padre José Manuel Pereira de Almeida, convidado para trabalhar com o Dr. Silvério e o Dr. Jorge, médicos no IPO de Lisboa, que tinham um trabalho entre Ética e Filosofia, e lecionou parte de Ética e Bioética e História das Ideias em Medicina. E assegura que a UBI apostou numa metodologia diferente assente numa aprendizagem baseada no aluno. 
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Foi Dom António dos Santos, então Bispo da Guarda, que o mandou para Roma estudar Teologia Moral. Fez o biénio em Teologia Moral, na academia Alfonsiana, terminando com a tese “Ser livre em Cristo, Projeto responsável do homem”; aproveitou todos os cursos e conferências que podia fazer porque em Roma havia muita coisa; e frequentei um curso de Mariologia.
Não pensa que a dimensão da moral tenha sido esquecida no quotidiano da vida da Igreja, mas constata que não se lhe deu “o valor que se devia”. Embora procure não fazer pregação com moralismos, entende que a desculpa dos moralismos pode significar menor apreço pela dimensão moral dos atos e situações. Com efeito, assegura que “não há uma vida séria que seja cristã se não tiver uma boa base moral”. E abona esta asserção com as seguintes palavras de Paulo VI em Fátima: “Homem sede Homens”.
Concedendo que “tudo assenta na capacidade, nas competências dadas a cada pessoa, de decidir”, sublinha que “aí temos um trabalho muito importante a fazer, a formação da consciência”. De facto, “sou livre na medida em que me sentir Homem livre, mas criativo, responsável, coerente, transparente, mesmo dentro da Igreja” – diz.
Considera que “a vida moral e a vida espiritual devem produzir o fruto da caridade para a vida do mundo”. E sobre a relação, por vez tensa, entre a norma e a moral, responde “com uma palavra: amor” – escudado no dito de João Paulo II de que “santidade igual a amor”. E diz:
É isto que falta no mundo. Eu respeito o amor que é só humano e o nosso Papa emérito Bento XVI fala muito nisso na carta encíclica ‘Deus é Amor’. Mas, para um crente, o amor é isso. A parte moral não se vê, mas está lá.”.
E sintetiza, dizendo que “a norma é aceitar o projeto de Deus em nós”, o “Projeto responsável do homem”, o título que apôs à tese de licenciatura.
***
Interpelado sobre a revolução que Francisco está a fazer, assegura que todos “queremos colaborar para que ele a faça”, cabendo à Igreja a primeira responsabilidade, mas o mundo também tem um contributo a dar “porque o nosso Papa é humanista, fala para todas as pessoas, não faz aceção de pessoas”. E acrescenta:
Nós só teremos o tal mundo novo se vivermos isto. Por isso, poderíamos viver mais em paz com alegria, disponibilidade e satisfação interior, sem problemas em chegar ao final do dia para fazer um exame de consciência.”. 
Questionado se um homem dos hospitais, da Igreja, escolhido para Bispo de Viseu, corresponde ao perfil ideal desejado por Francisco para uma Igreja qual “hospital de campanha”, frisa:
Não sei. Nunca tinha pensado nisso. Eu sou um bispo para a Igreja. Sempre fui um homem eclesial. E um padre eclesial. O Concílio Vaticano II sempre me iluminou muito e como enfermeiro recebi muitos dos seus ensinamentos.”.
E abona as suas credenciais com a simplicidade de que quem aprendeu com o Padre Vitor Feytor Pinto, de quem é muito amigo e que trabalhava muito com os enfermeiros, com o Padre Vítor Franco, natural de Peniche, capelão nos Hospitais Civis de Lisboa, que visitou dias antes de ele morrer, internado no Hospital de São José. Diz, com humildade, que aprendeu “muito com esta gente: o que era o Concílio e a sua dinâmica na pastoral da saúde e dos doentes”; que “acompanhou depois o Conselho Pontifício para a Pastoral da Saúde”; e contactou “muita gente nestes meandros, gente com horizontes sobre isto de ser padre e bispo num hospital de campanha”.
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Ora, Viseu tem o hospital de campanha aberto e o enfermeiro-bispo está a postos. Prosit!
2018.07.28 – Louro de Carvalho