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segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

O fenómeno dos coletes amarelos em França


A grande França, como outros países, debate-se com a carestia de vida, a magreza de salários, a dificuldade de vida nos subúrbios e a degradação das condições de vida no meio rural. Por outro lado, em vez de dar lições sobre direitos humanos, foi sucumbindo à onda de negação dos direitos do trabalho e do trabalhador, passando o trabalho a ser o espaço da indignidade e o trabalhador a ser o simples colaborador descartável quando não útil. Isto, a par da atração, alegadamente irresistível, do capital pelos paraísos fiscais, deixando-o sem rosto, mas a atuar, sem dó nem piedade, na degradação das relações económicas e no equilíbrio social, em nome da austeridade como receita necessária e infalível para os males socioeconómicos.
Ademais, vêm os acordos internacionais a atrapalhar a governança, destacando-se o Acordo de Paris, que pretende a redução drástica e cega, sem contrapartidas, da emissão de gases para a atmosfera para evitar o sobreaquecimento global e a subida do nível das águas oceânicas.
No meio de tudo isto, o Governo de Emmanuel Macron aboliu as taxas sobre as grandes fortunas sob o pretexto de travar a saída de capitais e anunciou a subida do imposto sobre os combustíveis a contribuir para a execução nacional do Acordo de Paris, o que veio pôr mais a nu a dificuldades socioeconómicas acima elencadas, emergindo uma classe média baixa, que vem empreendendo um protesto inorgânico à margem das estruturas sindicais (a que o poder e a sociedade foram subtraindo relevância) com experiência reivindicativa organizada e habitualmente sem grande deriva violenta e vandalizante. 
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Perante este cenário, o Presidente francês – que se apresentara com um projeto pessoal reformista; outros dizem que, perante o descrédito dos partidos políticos moderados, foi um produto fabricado “ad hoc” – está fragilizado, como diz Susana Salvador no DN de hoje, e longe de ser o Júpiter capitolino que almejava ser ou o Zeus dialis do Olimpo, mas terá de “quebrar o silêncio nesta semana, depois do quarto sábado consecutivo de protestos e de novas cenas de violência em Paris”.
Com efeito, a seguir ao “hiperpresidente” Nicolas Sarkozy, que prendia ter mão em tudo, e ao “presidente normal” François Hollande, a pretensa antítese do antecessor, Macron procurava ser um presidente “jupiteriano”, evocando o romano Júpiter (ou o Zeus grego), o pai dos deuses e dos homens na mitologia greco-romana, mas aqui alegadamente acima das politiquices (pois a rejeição dos partidos tradicionais o impulsionou para a vitória e para uma maioria absoluta na Assembleia Nacional), e empreender reformas ambiciosas, sem cedência à pressão das ruas.
Todavia, ano e meio após a sua ascensão ao Eliseu, desceu à terra, atordoado pelos protestos dos coletes amarelos a pretexto do fim do aumento dos combustíveis, mas que foram mais além. Macron é o “presidente dos ricos”, por ter acabado com o imposto sobre as grandes fortunas, feito a reforma do sistema de pensões e cortado nos gastos públicos. Os protestos não se ficam só no compromisso governamental com o não aumento das taxas sobre os combustíveis: querem também melhores salários e menos precariedade no emprego. Com efeito, salários como os comummente praticados não dão para um indivíduo viver decentemente e suportar a subsistência da família; e a precariedade e as más condições no trabalho atentam contra dignidade humana. Assim, as ruas de Paris e doutras cidades francesas voltaram, no dia 8, a ser palco de confrontos entre a polícia e os manifestantes de coletes amarelos – os que é obrigatório ter nos carros para usar em caso de avaria ou acidente. E, graças às cenas de vandalismo do dia 2, que deixaram marcas no Arco do Triunfo e prejudicaram a imagem de França (vários países, como Portugal, apelaram a evitar deslocações desnecessárias a Paris), a capital foi blindada. Segundo os números oficiais, cerca de 125 mil pessoas (136.000, segundo outros) manifestaram-se no dia 8 em França, das quais 8.000 em Paris. Eram tantas como os polícias deslocados para a capital (89 mil em todo o país) para fazer face ao “Ato IV” dos protestos (o “Ato I” foi a 17 de novembro e reuniu 300 mil manifestantes). Desta feita, a polícia usou canhões de água e gás lacrimogéneo a travar os atos de vandalismo (carros incendiados e vidros das montras de lojas e restaurantes partidos – dizem que tal aconteceu quando os jovens dos subúrbios irromperam) e dispersar os manifestantes. Até ao início da noite, já tinham sido detidas 1385 pessoas (920 em Paris) e havia 118 feridos. Houve confrontos na capital e em Lyon, Marselha e Toulouse. E receava-se que a situação piorasse com o avanço da noite.
Em conformidade com a indicação do Ministério do Interior francês neste domingo, foram identificadas em França, no dia 8, perto de 2.000 pessoas no âmbito dos protestos dos “coletes amarelos” que levaram às ruas cerca de 136.000 manifestantes. As interpelações deram origem a mais de 1.700 detenções, segundo o balanço definitivo do quarto grande dia de manifestações daquele movimento, que começou há algumas semanas em protesto contra o aumento do preço dos combustíveis e que ampliou, depois, as reivindicações à recuperação do poder de compra e vem pedindo a demissão de Macron. Os dados divulgados antes pelo Ministério davam conta de 1.723 pessoas identificadas no território francês e 1.200 detidos. Só em Paris registaram-se 1.082 detenções, como informou à agência espanhola Efe fonte da polícia da capital francesa.
No sábado, dia 8, o Ministro do Interior anunciou que 135 pessoas ficaram feridas durante os protestos, 17 das quais polícias. E fonte policial disse à Efe que 96 daquelas pessoas, incluindo 10 dos polícias, foram feridas em Paris. “Globalmente” a violência foi menor do que no fim de semana passado e “o nível de tensão baixou”, mas a situação “não é satisfatória”, como declarou o porta-voz do Governo francês Benjamin Griveaux à emissora Europe 1. A participação dos “coletes amarelos” nas manifestações em todo o país, segundo os cálculos do Ministério do Interior, foi sensivelmente a mesma da do passado dia 1. Mas os distúrbios deste sábado em Paris foram menos graves que os de há uma semana devido, em boa medida, ao impressionante dispositivo de segurança (8.000 agentes, quase o dobro do dia 1, apoiados inclusive por blindados) e a uma ação muito mais reativa perante qualquer incidente. Ainda assim, repetiram-se as cenas de carros queimados, de montras partidas, de lojas saqueadas e de barricadas nas ruas.
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Apesar da sua promessa de nunca ceder, Macron teve de o fazer na semana que passou, cancelando o aumento na taxa sobre os combustíveis, prevista para 2019 como uma das medidas do plano ecológico. Não obstante, os protestos continuaram e surgiu a divisão entre os manifestantes, vindo o grupo autointitulado “coletes amarelos livres” a pretender a interrupção dos protestos para dar lugar ao diálogo. A pari, outro grupo apressou-se a acrescentar à lista reivindicativa novos itens, evidenciando que, há muito, as manifestações não se devem apenas ao preço dos combustíveis: expressam também o descontentamento crescente dos franceses – mormente da França rural – com a política presidencial, exigindo a demissão do Presidente.
Por isso, Richard Ferrand, líder da Assembleia Nacional, anunciou que Macron quebrará o silêncio para falar no início desta semana, ignorando-se o momento (talvez dia 10) e o formato, e que o Presidente não quisera falar antes do dia 8, para não lançar mais achas na fogueira e tornar mais complicada a situação. E um membro da sua equipa disse ao Le Parisien, sob anonimato que “Ele considera que não é o momento” e “quer controlar o timing das suas intervenções”, mantendo “o efeito surpresa”. Contudo, fica sem se perceber se o que disser e o modo como o fizer evitarão novos protestos, no próximo sábado, dia 15. Fonte do Eliseu disse àquele jornal:
Para ele, este não é um episódio como outro qualquer. É uma crise com raízes profundas, devido ao grau de mal-estar expresso. É também uma crise moral. É uma loucura ter de apelar à calma, quando isso devia ter sido um reflexo democrático da parte de todos os partidos.”.
Do meu ponto de vista, pode chamar-se loucura o apelo presidencial à calma atirando para os partidos o ónus dessa atitude, quando os partidos estão sem autoridade pela ineficácia e descrédito dos grupos políticos até agora dominantes e pelo ceticismo, populismo e radicalismo dos ora emergentes, que almejam. Dizer que se trata de crise moral é verdade, mas tem de se refletir sobre o sítio onde ela se origina e quem o protagoniza. Serão os cidadãos comuns os responsáveis maiores por ela? Porque não os avaros detentores do capital, que mascaram de altruísmo esquemas de corrupção e evasão fiscal, a par da emigração de capitais? Porque não os poderes políticos, que não têm mostrado força para fazer intervir o Estado na regulação, usam o poder em próprio proveito ao invés do zelo pelo bem comum e não conseguem administrar a justiça com eficácia e celeridade? Porque não os empresários, que emagrecem os salários, precarizam o emprego e aviltam o trabalhador com a degradação das condições de trabalho?
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Se Macron fizer mais cedências, ficará mais fragilizado e à mercê dos próximos que saiam à rua; e, se mantiver a posição de força, reiterando a necessidade de dialogar, poderá forçar maior divisão entre os coletes amarelos (que nunca foram um grupo homogéneo). Só que, do outro lado, o governo não tem interlocutor válido e com rosto convencional, pois o movimento nasceu e cresceu inorganicamente nas redes sociais, sem líderes claros, e escapou das mãos dos que lançaram os primeiros apelos ao protesto, com denúncias de infiltrações por parte de membros da extrema-direita e da extrema-esquerda, mais interessados em acabar com o sistema e derrubar o governo. A este respeito, Christophe Castaner, Ministro do Interior disse, no dia 7, que o movimento “criou um monstro”.
Macron parece acalentar a expectativa de que os protestos que duram há quase um mês percam força, começando a esmorecer na opinião pública o apoio aos coletes amarelos à medida que se repitam os atos de violência e vandalismo, o que é arriscado, pois 66% dos franceses inquiridos numa sondagem Ifop para a Sud Radio, ainda na última semana, disseram apoiar o movimento, ao passo que a popularidade do Presidente está no valor mais baixo de sempre (18%.).
Embora a palavra de ordem nas ruas seja “Macron, demissão”, quem poderá cair é o Primeiro-Ministro, Édouard Philippe, cuja popularidade é ligeiramente superior (21%) à do Presidente após terem surgido sinais de divisões entre ambos. O chefe do Governo defendia a suspensão do aumento da taxa, mas foi desautorizado depois por Macron, que anunciou o cancelamento.
Para Philippe, o tempo da suspensão de 6 meses do aumento da taxa seria usado para refletir numa forma mais equitativa de introduzir essa taxa (visando igualar o preço do gasóleo ao da gasolina), sendo que, se tal não fosse possível, não seria restabelecido o imposto. Mas o ocupante do Eliseu anulou o aumento da taxa. Nos estúdios da BFM-TV, o Ministro da Transição Ecológica, François de Rugy, explicou:
Assim, não há trafulhice. O Presidente – estive a falar com ele há poucos minutos ao telefone – disse-me: ‘As pessoas tiveram a impressão de que havia uma trafulhice, que lhes dizíamos que era uma suspensão, mas que voltaria depois’.
Por isso, há quem já fale mal-estar entre Presidente e Primeiro-Ministro, que poderá levar ao afastamento do ocupante do Palácio do Matignon, que o nega, ao declarar à TF1:
A missão é alcançar os objetivos que foram fixados pelo presidente da República. Faço-o com o apoio da maioria e com a confiança do Presidente. E é o que me importa.”.
E o Eliseu garantiu à AFP que existe “harmonia perfeita” entre ambos.
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As 5 confederações sindicais representativas e as três organizações patronais são recebidas no dia 10 pelo Presidente Emmanuel Macron, no Eliseu, segundo fontes sindicais, que referem:
O Presidente da República pretende reunir o conjunto das forças políticas, territoriais, económicas e sociais neste momento grave que a Nação atravessa, para ouvir (…) as suas propostas e com o objetivo de as mobilizar para agir”.
Assim, o Chefe de Estado encontrar-se-á com os parceiros sociais após um fim de semana marcado por mais protestos do movimento dos “coletes amarelos”, que juntaram nas ruas de França cerca de 136.000 manifestantes. Isto, depois de terem sido recebidos, a 30 de novembro, pelo Primeiro-Ministro, a quem pediram medidas rápidas e concretas.
No passado dia 7, realizou-se uma primeira mesa-redonda no Ministério do Trabalho, no quadro de encontros regulares com vista a permitir a Governo e parceiros sociais uma reflexão conjunta duas vezes por semana sobre 5 temas: transportes, habitação, poder de compra, acessibilidade aos serviços públicos e fiscalidade.
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É de esperar que a situação se resolva, mas duvida-se da lucidez e vontade políticas, que sucumbem facilmente às garras da economia estrangulada pela especulação capitalista-financeira – a dita realidade. É necessário desmentir as vozes que asseguram que a França não sabe fazer reformas, mas sabe ir até ao fundo produzindo revoluções e que já apresentam o espectro de 1789 e o do Maio de 68. Só que as revoluções, mesmo que necessárias, costumam fazer as suas vítimas, até entre os seus corifeus e, tantas vezes, fazem voltar tudo à estaca anterior com um rosto ou mais aliviado ou mais carrancudo.
Porém, se o movimento contestatário e inorgânico alastrar pela Europa, grupos sôfregos do poder, ora emergentes, tomarão conta da sua dinâmica reivindicativa e imporão, por via populista e securitária, as suas opções; e o projeto europeu merecerá o côngruo “De profundis”. Basta que o Parlamento Europeu e/ou o Conselho tenham uma maioria de antieuropeístas e eurocéticos. E os EUA, A China e a Rússia verão essa derrocada com belos e bons olhos. Ainda não demos conta de que a China pretende o controlo dos principais pontos geoestratégicos no mundo e impor-lhes a sua marca pela via do investimento, da compra de dívida e da posição dominante em empresas e pela via sociocultural?
É tempo de o Velho Continente se ter nas pernas e prosseguir a sua rota de afirmação e de diálogo com o mundo.   
2018.12.09 – Louro de Carvalho

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Os peregrinos hão de ser “semeadores como Cristo”

Esse é o desejo paternal e o desafio eclesial que o Bispo da diocese de Leiria-Fátima deixou aos peregrinos que participaram na celebração da Eucaristia dominical a que presidiu, no Recinto de Oração do santuário de Fátima, o prelado fatimita.
Dom António Marto presidiu à peregrinação dos dias 15 e 16 na condição de assistente geral do Movimento da Mensagem de Fátima (MMF), desejando que estes peregrinos e servidores da Mensagem se inspirem na parábola do semeador do Evangelho.
Com efeito, a passagem do Evangelho (Mt 13,1-23) proclamada e meditada na Eucaristia do 15.º domingo do Tempo Comum (Ano A) apresenta-nos a parábola do semeador cujo prólogo refere que, tendo Jesus saído de casa, se sentou à beira-mar e a Ele se juntou tão grande multidão que teve que subir para um barco, conservando-se na praia toda a multidão a ouvi-Lo (cf 1-2).
E, falando em parábolas, disse que “o semeador saiu para semear”. E a sorte da semente era múltipla consoante o terreno em que era lançada pela mão do semeador: se caía à beira do caminho, as aves comiam-na; se caía em sítio pedregoso, sem grande terra, brotava, mas secava, por falta de raízes, mal o sol se erguesse; se caía entre espinhos, era sufocada com o crescimento destes, mas se caía em bom terreno, dava muito fruto. Neste caso, umas sementes produziam cem por um; outras, sessenta; e outras, trinta. (cf 3-8). E o versículo 9 configura um desafio bastante atrevido e interpelante: “Quem tem ouvidos ouça!”.
O desafio de Cristo reforça a necessidade de prestar atenção àquilo que se ouve para compreender o ensinamento e abrir-se à sua realização. Com efeito, Jesus pretende que as pessoas reflitam nas atitudes mesquinhas que tomam face à largueza das mãos de Deus que semeiam e espalham na abundância. O semeador da semente divina semeia com abundância e sem olhar ao terreno, cabendo ao lavrador cuidar o terreno e amoldá-lo à importância da semente e da sementeira. Por outro lado, é preciso ter em consideração que a parábola é narrada num momento difícil da vida de Jesus: fora expulso de Nazaré, tomado por louco em Cafarnaum, odiado de morte pelos fariseus, abandonado por muitos dos discípulos. Até parece que toda a sua pregação foi em vão: as condições são tão desfavoráveis que a sua palavra parece destinada a morrer. Com a parábola, Jesus quer lançar uma mensagem aos discípulos que, desencorajados, o interrogavam acerca do trabalho que estava a desenvolver: apesar de todas as dificuldades e contradições, a sua palavra viria a dar fruto abundante porque tem em si uma força de vida irresistível e Cristo não desiste nem das pessoas nem do desígnio de salvação.
Por isso, é relevante pregar em parábolas, mas dispor dum núcleo de pessoas com acesso ao pleno significado das mesmas. Assim, àqueles discípulos era dado conhecer os mistérios do Reino, mas não às multidões para já. Como disse Isaías, cuja profecia está a cumprir-se “veem, sem ver, e ouvem, sem ouvir nem compreender”, pois “o coração deste povo se tornou duro, e duros os seus ouvidos; fecharam os olhos, não fossem ver com os olhos, ouvir com os ouvidos, compreender com o coração, e converter-se, para Eu os curar” (cf 10-15; Is 6,9-10).
Porém, são ditosos os olhos dos discípulos, porque veem, e os seus ouvidos, porque ouvem. Na verdade muitos profetas e justos desejaram estar hoje como os discípulos para verem e ouvirem, mas não lhes foi possível ver e ouvir o que vem e ouvem os discípulos, que é um efeito da Graça (cf 16-17).
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Nestes termos, o Bispo de Leiria-Fátima sublinha que “esta parábola ajuda-nos a compreender como nasce cresce, amadurece e dá frutos a nossa fé”, lembrando que “o semeador é Cristo, um semeador generoso e incansável porque semeia com abundância, confiante que a semente que lança dará fruto”. E afirma que “a Sua palavra é cheia de amor, energia e luz, misericórdia e perdão, esperança e vida, é palavra que cura e salva e dá vida”; e o terreno onde Cristo semeia “somos nós e o nosso próprio coração”. Por consequência, o prelado do Lis questionou os peregrinos: “Com que disposição acolhemos a palavra do Senhor?”. E incitou-os a seguir o “exemplo da Virgem Maria”, desafiando os peregrinos a serem “semeadores como Cristo”.
Advertindo que “a nossa palavra pode fazer muito bem ou muito mal, pode curar ou ferir, pode transmitir vida ou matar, encorajar e dar ânimo ou deprimir”, não deixou de felicitar cada mensageiro de Fátima, no momento da saudação final pela sua missão de “levar a Mensagem de Fátima aos quatro cantos de Portugal”.
E, tal como os discípulos, por graça divina, tiveram acesso à explicação da parábola, também hoje todos os mensageiros do Evangelho, alcandorados a este estatuto pelo Batismo – e alguns pela ordenação diaconal, sacerdotal e episcopal e outros pelo compromisso decorrente da consagração pessoal em instituto religioso ou secular ou por compromisso associativo – têm acesso ao significado da parábola. Mas têm que a escutar de novo.
Com efeito, quando uma pessoa ouve a Palavra e não a compreende, o maligno vem apoderar-se do que foi semeado no seu coração (Este é o que recebeu a semente à beira do caminho). Recebeu a semente em sítios pedregosos o que ouve a palavra e a acolhe com alegria, mas sem raiz em si mesmo, sucumbe inconstante à tribulação ou à perseguição, por causa da palavra. O que recebeu a semente entre espinhos é quem ouve a palavra, mas o cuidado do mundo e a sedução da riqueza sufocam-na; e ela não produz fruto. Mas quem recebe a semente em boa terra é o que ouve a palavra e a compreende: e dá fruto e produz ora cem, ora sessenta, ora trinta (cf 18-23).
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O Santuário de Fátima acolheu este fim-de-semana a Peregrinação Nacional a Fátima do Movimento da Mensagem de Fátima (MMF). Ora, o MMF está ao serviço da Mensagem de Fátima, com a Igreja e para a Igreja. É uma associação pública de fiéis, ereta, com caráter nacional, pela Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), que, por sua vez, delega no Bispo de Leiria-Fátima, com título de assistente geral. 
O MMF rege-se pelo Código de Direito Canónico, pelos seus estatutos, pelas Normas Gerais das Associações de Fiéis da Conferência Episcopal Portuguesa e pela legislação civil e canónica aplicáveis. E procura viver mais intensamente a Mensagem de Fátima ao jeito dos Pastorinhos Lúcia, Jacinta e Francisco, na tríplice dimensão: conversão, reparação e adoração eucarística – sendo que, para melhor responder aos seus objetivos, dá especial atenção aos seguintes campos de pastoral – oração, peregrinações, doentes e portadores de deficiência.
Foi este movimento que protagonizou a peregrinação fatimita dos dias 15 e 16. Foi uma jornada peregrinacional que juntou Mensageiros de todas as dioceses de Portugal. Iniciou no Centro Pastoral de Paulo VI com a assembleia onde o reitor do Santuário, o Padre Carlos Cabecinhas mostrou a sua “gratidão” para com todos os “Mensageiros que, pela sua ação, dão continuidade à missão do Santuário de Fátima, levando a mensagem aos lugares e ambientes das dioceses e paróquias” e prosseguiu com as ações litúrgicas e devocionais próprias das peregrinações, a que não faltaram a recitação do Rosário, a Via-Sacra, a Procissão de Velas, a Adoração Eucarística e a Celebração da Missa e o Ato de Consagração, Adeus e Saudação Final a Nossa Senhora.
O Padre Carlos Cabecinhas lembrou a efeméride do Ano jubilar do Centenário das Aparições, cujo pórtico jubilar, o itinerário jubilar do peregrino e a Oração jubilar de Consagração a Nossa Senhora são sinais visíveis da “festa”, marcada pela vinda do Papa, nos dias 12 e 13 de maio, com a canonização dos Santos Francisco e Jacinta, que vieram coroar esta singular celebração”.
Na sua intervenção, o reitor do Santuário desafiou os Mensageiros a ler e meditar as palavras do Santo Padre, em Fátima, a “assumir como tarefa a divulgação dos traços de santidade dos Santos Francisco e Jacinta” e ainda a “viver este ano como grande oportunidade para divulgar o Movimento da Mensagem de Fátima e para revitalizar as várias estruturas do Movimento”.
Por seu turno, o Padre Manuel Antunes, assistente nacional do MMF, deixou um apelo a que “todos os Mensageiros se sintam em família como os três pastorinhos”, porque “não basta ser Mensageiro de nome, é necessário ser Mensageiro de vida, ir ao encontro das pessoas”. E reiterou: “Continuemos unidos em oração e na ação com os três pastorinhos”.
Também Nuno Neves, Presidente do Secretariado Nacional do MMF, reconheceu que a “estreita união com o Santuário de Fátima, é uma ajuda fundamental na nossa missão”. E afirmou:
“Queremos ser um braço do Santuário de Fátima para chegar às paróquias”.
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O MMF remonta a 1926 quando o Dr. Manuel Nunes Formigão, sacerdote que acompanhou Fátima a partir da 4.ª Aparição de Nossa Senhora e os Pastorinhos Lúcia, Francisco e Jacinta, decidiu criar a Associação de Nossa Senhora de Fátima para ajudar a conhecer e viver a Mensagem de Fátima. E, em 1934 os bispos portugueses aprovaram os primeiros estatutos transformando a Associação em Pia União dos Cruzados de Fátima, como obra auxiliar da Ação Católica, tendo com órgão oficial o jornal “Voz da Fátima”. Em 1981, foi constituída uma comissão para rever os atuais estatutos, presidida por Dom Manuel Falcão, ao tempo Bispo de Beja, como delegado da CEP. Após dois anos de trabalho e reflexão, foram entregues, para apreciação à CEP os novos estatutos, com o nome de Associação do Movimento dos Cruzados de Fátima, tendo sido aprovados em 5 de julho de 1984. Foi a partir desta aprovação que se constituiu o Secretariado Nacional, aprovado por Dom Alberto Cosme do Amaral, ao tempo Bispo de Leiria-Fátima, como delegado da CEP. A seguir, começaram a constituir-se os Secretariados Diocesanos aprovados pelos respetivos Bispos. Em 1990, havia Secretariados Diocesanos em todas as dioceses. A partir da constituição dos Secretariados Diocesanos, começaram a surgir Secretariados Paroquiais.
Pode ser mensageiro todo o cristão de boa vontade que deseje conhecer a mensagem de Fátima, vivê-la na sua vida consoante o seu estado e difundi-la, podendo inscrever-se na sua paróquia se lá houver MMF e, se não houver, na paróquia próxima em que exista. O mensageiro é o continuador da missão que a Senhora confiou aos Pastorinhos, os primeiros mensageiros.
E, porque se trata duma associação, pede-se ao mensageiro uma oferta anual (como quota) para ajudar nas despesas. O mensageiro recebe todos os meses o jornal “Voz da Fátima” e beneficia dos méritos de cerca de 900 missas que são celebradas todos os anos no Santuário de Fátima e nas dioceses, pelos mensageiros vivos e falecidos.
A quota é oferta simbólica e simples, pois o objetivo do Movimento é a vivência e a difusão da mensagem. Os Pastorinhos, para matarem a fome aos pobrezinhos, ofereciam a sua merenda. E o mensageiro que pague a sua quota anual, após a sua morte, continuará a beneficiar das missas celebradas, sem compromissos para os seus familiares.
O MMF é uma família empenhada na vivência e mensagem de Fátima, unida no Amor a Nossa Senhora e aos irmãos, sobretudo os mais frágeis humana e espiritualmente. Assim foram também os Pastorinhos de Fátima.
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Recordo que foi integrado num encontro do MMF que fui pela primeira vez a Fátima e pude perceber como o Santuário, além da dimensão religiosa e da fé, servia de palco alargado para a aprendizagem multidisciplinar, dimensão que aproveitei em várias outras circunstâncias nesta escola de vida.

2017.07.16 – Louro de Carvalho 

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Há 91 anos, a 28 de maio, abriu-se a via para o Estado Novo

O movimento de 28 de maio de 1926 começou por ser um levantamento militar iniciado no norte do país, mais propriamente em Braga, a que rapidamente aderiu a maioria das unidades do país. Ao constituir-se em golpe de Estado, retirou o poder aos partidos republicanos e foi o primeiro passo para o regime do Estado Novo, que depois veio a denominar de “Revolução Nacional” este acontecimento.
Os anos anteriores foram de instabilidade num país profundamente dividido em termos políticos e sociais, que esteve continuamente à beira da guerra civil e na barra da bancarrota financeira. O 28 de maio abriu caminho à ditadura militar, que sucessivamente deu lugar à ditadura nacional e ao Estado Novo, sendo que este apenas se distinguiu da ditadura por dispor duma Constituição (plebiscitada e não elaborada por Assembleia Constituinte) e dos órgãos formais da democracia: o Presidente da República, o Governo chefiado pelo todo-poderoso Presidente do Conselho de Ministros, a Assembleia Legislativa (não emanada de partidos e que funcionava três meses por ano). Este regime, cuja vigência durou 48 anos, foi derrubado a 25 de abril de 1974.
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O ambiente que levou ao 28 de maio
Cedo a I República (implantada a 5 de outubro de 1910) evidenciou sinais de fragilidade. No horizonte temporal de quase 16 anos, que terminou a 28 de maio de 1926, a República teve 7 parlamentos, 8 Presidentes da República, 39 Governos, 40 chefes de Governo, uma junta constitucional e uma junta revolucionária. Foi um período de instabilidade constante, repleto de agitação social e de ameaças de golpe.
No início dos anos 20 do século XX, depois da I Guerra Mundial, a instabilidade aumentou: além dos graves problemas financeiros (que se agravaram com a participação de Portugal na guerra), os Governos caíam constantemente (foram 23, entre 1920 e 1926) e a agitação social cresceu, com ameaças de atentados e forte atividade anarco-sindicalista. A instabilidade política quase chegou a uma situação de guerra civil (com confrontos entre diferentes unidades militares). Referem-se dois exemplos do ambiente que se vivia e que são prenúncios da revolução de 1926:
Em Lisboa, a 19 de outubro de 1921, no seguimento da demissão do 28.º Governo Republicano, encabeçado por Liberato Pinto, uma milícia de marinheiros e arsenalistas montou uma revolta militar, a Noite Sangrenta,  de que resultou o assassinato, entre outros, de António Granjo, Presidente do Ministério (Governo), Machado Santos e Carlos da Maia (personalidades históricas da Implantação da República).
Depois, eclodiu a revolta de 18 de abril de 1925, contra as instituições da I República, organizada pelo capitão-de-fragata Filomeno da Câmara, pelo general João José Sinel de Cordes, pelo coronel Raul Augusto Esteves e pelo capitão Jaime Baptista. Foi a 1.ª vez, desde 1870, que uma revolta militar foi liderada por um grupo de oficiais com um general no ativo. Estiveram envolvidos 61 oficiais. A revolta foi considerada o primeiro ensaio geral do que foi o 28 de maio, um ano depois.
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O movimento
No meio da evocada instabilidade política, soaram muitos rumores de golpes que corriam. O general Manuel Gomes da Costa foi desde sempre o principal apontado para liderar a revolução.
Estava marcado para o dia 28 de maio, o Congresso Mariano, em Braga, cidade conhecida como a cidade dos arcebispos, pela sua ligação à religião, e uma das mais populosas do país. O evento reunia as principais figuras do conservadorismo católico, descontentes com as medidas anticlericais dos republicanos, entre as quais se destacava Francisco Cunha Leal, na altura líder da União Liberal Republicana. E, Às 6 horas do dia 28, eclodiu a revolução pela mão de Gomes da Costa, que, a par dos militares, logo ganhou o apoio dos civis do Minho. O movimento alastrou rapidamente a outras unidades militares. Aderiram expressa e ativamente as seguintes unidades militares: 1.ª Divisão (Lisboa), 2.ª Divisão (Viseu), 3.ª Divisão (Porto), 4.ª Divisão (Évora), 5.ª Divisão (Coimbra), 6.ª Divisão (Vila Real), 7.ª Divisão (Tomar) e  8.ª Divisão (Braga).
Tendo o golpe começado na ‘cidade dos arcebispos’, em Lisboa, 400 quilómetros a sul, muitos não acreditavam que o pronunciamento militar marcava o início do regime que duraria 48 anos. O vespertino “Diário de Lisboa” (DL) dedicou toda a 1.ª página ao movimento que eclodira e reportava que “à hora que escrevemos estas linhas − 2 da tarde − sabe-se que o movimento está circunscrito à divisão de Braga, que foi revoltada pelo general sr. Gomes da Costa”.
O Governo, garantindo que o movimento não teve repercussão, tomou medidas e declarou ao mencionado vespertino que “não decretaria nenhumas medidas excecionais, para Lisboa, pelo menos, e que a vida normal da cidade não se alterará”. Ademais, o jornal informava que “o conselho de ministros reuniu às 13 horas, no Governo Civil, onde se conservaram desde madrugada o sr. António Maria da Silva e o sr. dr. Barbosa Viana”. E António Maria da Silva, o chefe do Governo, avistou-se com os jornalistas às 13 horas. Estava “sereno e declarou que o movimento será asfixiado em breves horas, não tendo no país repercussão alguma”. Mas não. O golpe militar conduziu à queda da I República.
Afinal, o plano era ambicioso, e a primeira etapa era marchar sobre o Porto, apesar de o destino final ser Lisboa. Gomes da Costa decidiu-se pela reunião de tropas em Santarém; outras, em Mafra, seriam comandadas por Mendes Cabeçadas. Óscar Carmona, que fora Ministro da Guerra em 1923, tinha por missão concentrar forças em Évora. Depois, todos juntos e coordenados seguiriam para Lisboa.
Entretanto, ainda no dia 28, formou-se, em Lisboa, a Junta de Salvação Pública, presidida pelo almirante José Mendes Cabeçadas, que entregou um manifesto a Bernardino Machado, então Presidente da República. A 29 de maio, depois de a guarnição de Lisboa aderir em massa ao movimento e de o general Óscar Carmona assumir o comando da 4.ª divisão do Exército, em Elvas, o Governo de António Maria da Silva apresentou a demissão a Bernardino Machado, após o que Mendes Cabeçadas aceitou o convite do ainda Presidente para formar um Executivo, convite que fez com que Gomes da Costa ordenasse a todas as unidades militares envolvidas no golpe que se retirassem. E, a 31 de maio, Bernardino Machado resignou e preparou-se para um novo exílio.
Mendes Cabeçadas, a 3 de junho, distribuiu funções no Governo. Assim, entregou a Gomes da Costa as pastas da Guerra, Marinha e Colónias; a Ezequiel Pereira de Campos, a da Agricultura; a António de Oliveira Salazar, a das Finanças; a Joaquim Mendes dos Remédios, a da Instrução Pública; e a Manuel Rodrigues Júnior, a da Justiça. Os três últimos ministros, por serem todos professores da Universidade de Coimbra, ficaram conhecidos por “Tuna de Coimbra”.
No dia seguinte, após encontro com Gomes da Costa na Amadora para clarificar o propósito do Governo, Mendes dos Remédios e Manuel Rodrigues voltaram a Lisboa para tomar posse, ao passo que Salazar regressou a Coimbra. O movimento terminou a 6 de junho de 1926, na Avenida da Liberdade (Lisboa,) onde, após tomar posse, Gomes da Costa comandou um desfile militar de 15 mil homens para celebrar a vitória. Começa agora a ditadura militar, que suspende a Constituição de 1911, dissolve o Parlamento e estabelece a censura. Mas um rodopio de lideranças marca os primeiros 40 dias do regime: os destinos do país que estavam confiados a Mendes Cabeçadas veem-no rapidamente destituído por Gomes da Costa. Nova destituição e, às 15 horas de 9 de julho, já existe um novo governo, chefiado por Óscar Carmona. Seguem-se tempos de grande instabilidade e, um ano mais tarde, o Governo publica um manifesto onde faz o balanço da sua ação.
Em 1927, celebrou-se o 1.º aniversário do 28 de maio com feriado nacional, decretado pelo líder máximo do país, Óscar Carmona, que “usando da faculdade” que lhe confere a lei, instituiu o feriado para esse ano pelo decreto n.º 13 665, e ordenou aos “ Ministros de todas as Repartições [que] o façam imprimir, publicar e correr”.
Em 1928, torna-se na ditadura nacional. Óscar Carmona é eleito Presidente da República por sufrágio universal e António de Oliveira Salazar é novamente convidado para a pasta das Finanças, para equilibrar as finanças públicas do país. Salazar tomou posse como Ministro das Finanças no dia 27 de abril e, como referia o DL, “neste momento é a chave não só da vida financeira, mas de toda a vida governativa do país”. E este vespertino perguntava:
“Ninguém o acusará de buscar uma satisfação para a sua vaidade, porque raros homens se têm mostrado mais modestos do que ele − talvez pelo facto de ser um espírito culto, especializado nos problemas da sua pasta (...) Será bem sucedido na sua tentativa para restabelecer a ordem, a moralidade, e a verdade nas nossas finanças?”.
Desta vez, o professor de Coimbra, que em 1926 tutelara a pasta das Finanças por escassos 13 dias, instalou-se em Lisboa com o intuito de ficar. E surge o ditador que moldou o país nas décadas seguintes, com mão de ferro, mas cujo perfil foi perfeitamente construído, sobretudo pelo modernista António Ferro, na imagem messiânica de salvador dum país que persistia na sua ruralidade, na sua ética e no seu imperialismo caseiro.
Em 1932, Salazar foi nomeado presidente do Conselho de Ministros e em 1933 foi referendada uma Constituição, documento fundador do Estado Novo, regime que acabou por se manter até novo pronunciamento militar, a 25 de abril de 1974.
***
Nos alvores do Estado Novo
Salazar aceitou integrar a governação desde que lhe garantissem a liberdade de ação e tomada de medidas, ou seja, a capacidade de definir a política geral do país e a chamada supremacia (ditadura das Finanças) sobre as demais pastas. Como contrapartida, o doutor coimbrão não mexeria com poderosos interesses instalados. E surgiu como o demiurgo e o salvador do país que emergia a ruína, dando-lhe voz altissonante com a Exposição do Mundo Português, em 1940, 8.º centenário da Fundação da nacionalidade e 3.º centenário da Restauração da Independência.
Um dos mais célebres discursos doutrinários do salazarismo – “Não discutimos Deus e a virtude; não discutimos a Família e a sua moral...” – foi proferido num feriado ocasional, a 28 de maio de 1928. O Estado Novo durou quase meio século, mas relacionou-se ambiguamente com o dia do seu alvor, ou por motivos economicistas ou porque o 28 de maio não celebrava a ascensão de Salazar. Nesse ano, o 28 de maio não foi feriado, nem o seria nos 7 anos subsequentes. Não obstante, Salazar discursou e enunciou algumas bases programáticas de defesa da ditadura:
“Se não fizermos a revolução de cima para baixo, ela virá de baixo para cima, contra tudo o estabelecido”.
Mussolini, o ditador italiano que tinha admiradores em apoiantes da ditadura portuguesa, discursou na Câmara dos Deputados e prometeu manter-se no “poder mais dez ou quinze anos”, como referia “O Século” a 28 de maio de 1927. Para tanto garantiu:
As deportações de políticos, cujo número é muito inferior ao propalado pelos inimigos no regime serão mantidas, pelo menos, até ao ano de 1932”.
Apesar de o 28 de maio não ser habitualmente feriado (foi-o apenas em 1927, 1.º aniversário, e 1936, 10.º aniversário), as realizações aniversárias apresentavam a efeméride como o início duma nova era de ressurgimento nacional que tinha cortado definitivamente com “a anarquia”.
Em 1936, o 10.º aniversário do 28 de Maio foi celebrado com pompa e circunstância e constituiu um marco simbólico da verbalização doutrinária do salazarismo, do Portugal temente a Deus, que não discute, nem questiona os líderes. Carmona decretara o feriado ao abrigo das disposições constitucionais.  
Estas comemorações tiveram o seu momento áureo em Braga, cidade onde 10 anos antes começara o pronunciamento militar. O enviado especial do DL ditou a notícia “pelo telefone” para a redação na capital, dizendo que a cidade de Braga
“Está em festa (...) Por toda a parte flutuam bandeiras e galhardetes e  (...) na Praça da República, junto às arcadas, veem-se dois grandes retratos do Presidente da República e do sr. dr. Oliveira Salazar”.
Às 10,58 horas, o comboio presidencial chegou à estação. O Chefe de Estado, Óscar Carmona, “entrou na cidade sob uma autêntica chuva de flores”. O Presidente do Conselho, que viera de Lisboa com ele, seguia também no “automóvel aberto”. Ambos foram obsequiados com as flores e a costumeira salva de 21 tiros. “O cortejo desfilou numa verdadeira apoteose (...) os sinos das igrejas tocaram ‘A Portuguesa’ e o entusiasmo popular aumentava de instante a instante”. Houve parada militar, cortejo cívico, sacadas e janelas enfeitadas com “ricas colchas de seda e de damasco”. Discursaram: o general Schiapa, o coronel Albino Rodrigues, o capitão Lucínio Presa, o deputado Aberto Cruz. O general Carmona e o Presidente do Conselho abraçaram-se demoradamente, enquanto a multidão os vitoriava em frenesim. E, num discurso transmitido em direto pela Emissora Nacional, um Salazar empolgado e seguro da mensagem que pretendia transmitir aos portugueses que o veneravam ou temiam enunciou a mensagem sobre “as grandes certezas da Revolução Nacional” com estas palavras que marcaram a doutrina moral do regime e a putativa pacificação da Pátria:
“Às almas dilaceradas pela dúvida e pelo negativismo, procurámos restituir o conforto das grandes certezas. Não discutimos Deus e a virtude; não discutimos a Pátria e a sua História; não discutimos a Autoridade e o seu prestígio; não discutimos a Família e a sua moral; não discutimos a glória do Trabalho e o seu dever.”.
As comemorações passaram pelo Porto e encerraram em Lisboa, com a inauguração da exposição documental “Dez anos de Revolução Nacional”. E, em 1937, o SNI (Secretariado Nacional de Propaganda), dirigido pelo ativista António Ferro, ora convertido ao conservadorismo e à tradição, financiou o 1.º filme de António Lopes Ribeiro, “A Revolução de Maio”, com vários registos filmados, nomeadamente o famoso que Salazar proferira sobre as certezas do regime. A trama alertava para as manobras oposicionistas, com António Martinez a encarnar o papel de César Valente, comunista conspirador contra o regime. César era vigiado pela polícia, mas, tendo conhecido Maria Clara, que mantém o nome e a voz na película, cedeu aos ideários políticos, porque a paixão por Maria Clara, menina da ‘situação’, prevaleceu sobre o marxismo.
E o regime avançou apoiando a guerra civil de Espanha, transpondo a II Guerra Mundial numa neutralidade colaborante, ganhando foros aparentes de democracia corporativa e aguentando a guerra colonial – até que o 25 de abril o fez ruir, visando a liberdade e a democracia.

2017.05.29 – Louro de Carvalho

sábado, 20 de maio de 2017

A propósito do milagre do Sol: autonomia da ciência e da religião

O fenómeno presenciado por cerca de 70 mil pessoas, a 13 de outubro de 1917, na Cova da Iria, corresponde ao prometido “milagre” que a Senhora “aparecida” aos pastorinhos de Fátima elegeu para que as pessoas pudessem acreditar na veridicidade das palavras dos três videntes.
O comportamento anormal do astro-rei parecia desafiar as leis da física em razão do tamanho, da pretensa aproximação e aparente pendência, da coloração (mudando de tons) e do aparente movimento giratório em torno do seu eixo e como que dentro de uma grande caixa.
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O fenómeno
A seleção de documentos, designada por Documentação Crítica de Fátima, que abrange os datados dos anos de 1917 a 1930, regista o relato de José Maria de Almeida Garrett, professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra quando assistiu ao fenómeno em Fátima. E, em carta que escreveu a 18 de dezembro daquele ano, diz “relatar de uma maneira breve e concisa, sem frases que velem a verdade”, o que testemunhou a 13 de outubro de 1917, o dia em que os pastorinhos diziam que a Virgem Maria voltaria a aparecer:
“Devia ser uma e meia quando se ergueu, no local preciso onde estavam as crianças, uma coluna de fumo, delgada, ténue e azulada que subiu direita até dois metros, talvez, acima das cabeças para nesta altura se esvair”.
O professor dizia que o dia estava chuvoso, mas “o sol momentos antes tinha rompido ovante, a densa camada de nuvens que o tivera escondido, para brilhar clara e intensamente”. O circunstante voltou-se para aquele “íman que atraía todos os olhares” e pôde vê-lo “semelhante a um disco de bordo nítido e aresta viva luminosa e luzente mas sem magoar”.
Segundo Garrett, o fenómeno não se podia comparar à Lua porque “não era como a lua esférica e não tinha a mesma tonalidade nem os claros-escuros”, antes parecendo uma rodela brunida cortada no nácar de uma concha”. E não se podia comparar ao Sol em dia de nevoeiro, porque “não era opaco, difuso e velado”, mas ali tinha “luz e calor e desenhava-se nítido e com a borda cortada em aresta como uma tabela de jogo”. Garantindo que o registo “não é uma comparação banal de poesia barata”, o professor confessava:
“Os meus olhos viram assim. As nuvens que corriam ligeiras de poente para oriente não empanavam a luz (que não feria) do Sol dando a impressão facilmente compreensível e explicável de passar por detrás, mas, por vezes, esses flocos, que vinham brancos, pareciam tomar, deslizando ante o Sol, uma tonalidade rosa ou azul diáfana.”.
E continua Almeida Garrett:
“Este fenómeno com duas breves interrupções em que o sol bravio arremessou os seus raios mais coruscantes e refulgentes, e que obrigaram a desviar o olhar, devia ter durado cerca de dez minutos. Este disco nacarado tinha a vertigem do movimento. Não era a cintilação de um astro em plena vida. Girava sobre si mesmo numa velocidade arrebatada. De repente, ouve-se um clamor como que um grito de angústia de todo aquele povo. O sol, conservando a celeridade da sua rotação, destaca-se do firmamento e sanguíneo avança sobre a terra ameaçando esmagar-nos com o peso da sua ígnea e ingente mó. São segundos de impressão terrífica. Durante o acidente solar, que detalhadamente tenho vindo a descrever, houve na atmosfera coloridos cambiantes.”.
Também uma carta do matemático Gonçalo de Almeida Garrett (pai de José Maria) ao padre Manuel Nunes Formigão – que investigou o fenómeno e interrogou os videntes, entre outras testemunhas – refere que os fenómenos solares não são
“Astronómicos do Sol propriamente dito, mas sim meteorológicos da atmosfera da Terra sobre a imagem solar, quanto à cor e aspeto do brilho semelhante à lua, e também quanto à vista da rotação”.
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As tentativas de explicação
Dom Carlos Azevedo, na publicação que deu a lume recentemente – “Fátima – das Visões dos Pastorinhos à Visão Cristã” – e na entrevista em que a apresentou, abriu para a explicação física do fenómeno, fixando-se mais no significado espiritual de Fátima, da mensagem e do perfil dos videntes, bem como no contributo para a vivência cristã.
Tanto ao Observador como ao Expresso, Carlos Fiolhais – físico, professor catedrático da Universidade de Coimbra e um dos cientistas e divulgadores de ciência mais conhecidos em Portugal –, assegurando que “já lá vai o tempo em que ciência e religião tentavam explicar-se uma à outra”, diz:
“Religião e ciência são duas dimensões do ser humano que podem coexistir, como mostram não só o caso de Galileu como o do padre Lemaitre e tantos outros”.
O eminente físico, em artigo sobre “a ciência de Deus e a fé dos cientistas”, explicita que “a ciência não tem a ilusão de responder a todas as questões”, só respondendo às questões para as quais funciona com método científico, fundado na lógica, na observação e na experiência. A ciência não consegue, e provavelmente não vai responder nunca, “à questão sobre o que aconteceu antes do Big Bang, se é que houve um antes”.
Mesmo assim, há cem anos que os cientistas tentam encontrar fundo científico em alguns fenómenos que a religião interpreta como milagrosos.
Alguns especialistas pensam que o movimento giratório do Sol será algo previsto pelas leis da Natureza, embora não de forma tão percetível como foi relatado em Fátima. Com efeito, as estrelas formam-se quando uma nuvem densa de gases colapsa graças à força gravítica. A nuvem, similar do berço, forma o “disco protoplanetário”, que originará mais tarde a estrela e os planetas que gravitam em seu redor. No centro do disco, em rotação, forma-se a “protoestrela”, também em movimento giratório. Graças à conservação do momento angular, o movimento de rotação mantém-se inalterado a não ser que sofra uma intervenção externa que o acelere ou abrande. Assim, o Sol, tal como todos os planetas que orbitam em redor dele, giram em torno do próprio eixo. A nossa estrela tem uma rotação que equivale, no equador, a 25 dias terrestres com algumas variações: quanto maior a altitude, mais lenta é a rotação; e, como uma estrela não é sólida, não gira de forma uniforme em todo o corpo celeste. Ora, tal como o Sol foi visto “a girar” em Fátima, também há quem diga tê-lo visto “a dançar” pelo céu.
De acordo um programa criado pelo astrónomo Carsten A. Arnholm, esse fenómeno pode ser explicável. O centro de gravidade do Sistema Solar não corresponde necessariamente ao centro de gravidade da estrela que o protagoniza: é determinado pelas massas dos corpos celestes que o compõem e pelas posições que ocupam a cada momento. Como acontece com os planetas, o Sol não está parado: além do movimento de rotação, tem um movimento de translação e orbita o centro de massa do Sistema Solar. Como esse centro de massa muda sempre que os planetas realizam os seus movimentos de translação, a órbita do Sol também está em constante mudança. Assim, quanto mais perto o centro de massa do Sol e o centro de massa do Sistema Solar estiverem, menor será o movimento da nossa estrela; mas quanto mais afastados estiverem, maior será a amplitude desse movimento solar.
Terá acontecido assim a 13 de outubro de 1917? Se assim foi, não estaremos perante um “milagre”, mas numa coincidência do maravilhoso físico com o momento – o que não deixa de ser um sinal. Aliás, contra o que pensavam os israelitas, Deus raramente atua diretamente, mas, como diziam os escolásticos, através das causas segundas: os homens e as leis físicas, químicas e biológicas que imprimiu nos seres criados.
Outros explicam alguns fenómenos no Sol através da poeira estratosférica (o conjunto de partículas que pairam na camada atmosférica logo acima da mais próxima à superfície terrestre). Em outubro de 1989, o cientista escocês Steuart Campbell assegurava que uma nuvem de poeira estratosférica alterou a aparência do Sol, fazendo com que fosse muito mais fácil olhar para o astro. De acordo com os estudos do cientista, o Sol parecia ser amarelo, azul e violeta e a girar em torno de um eixo. Seis anos antes, fenómeno que também foi reportado na China.
Também a síndrome de Jerusalém pode ajudar. O fenómeno mental em que pessoas saudáveis passam por ilusões ou experiências psicóticas de fundo religioso ao visitar espaços de adoração foi identificado pela primeira vez nos anos 30 pelo psiquiatra israelita Heinz Herman, embora comportamentos semelhantes tenham sido relatados na Idade Média. Esta síndrome assume três modos diferentes: o relativo a pessoas com episódios psicóticos anteriores; o relativo a pessoas com historial de distúrbios de personalidade; e o relativo a pessoas sem qualquer registo de distúrbio mental ou de personalidade anterior. Porém, nenhum desses modos resulta em alucinação visual ou auditiva.
Outra hipótese explicativa tem a ver com o parélio, fenómeno meteorológico provocado pela interação da luz solar com os cristais de gelo suspensos na atmosfera em nuvens do tipo cirros. Mais visíveis quando o Sol está próximo do horizonte, os parélios costumam aparecer como luzes coloridas e aos pares (um em cada lado do Sol), à mesma elevação do Sol no céu. Esta explicação para o que sucedeu a 13 de outubro de 1917, em Fátima, foi sugerida por Joe Nickell, no livro The Science of Miracles – Investigating the Incredible (Paperback, 2013). Os pastorinhos e demais circunstantes não teriam visto o Sol, porque “o fenómeno terá acontecido num azimute” que não podia corresponder à estrela. Contudo, o parélio não explica a dança do Sol dos registos de 1917, porque o parélio é um fenómeno meteorológico estacionário. Para justificar o dito comportamento do Sol, Nickell sugere que o astro tenha parecido mover-se por causa duma distorção da retina temporária dos observadores, causada por olharem longamente para uma luz tão intensa. Para fugir à luz, o cérebro força os olhos a moverem-se à esquerda e à direita. E as imagens captadas pelos olhos são interpretadas uma a seguir à outra pelo cérebro, criando a ilusão de movimento.
Em termos de tempestade solar, referem-se erupções solares, ejeções de massa coronal, tempestades geomagnéticas ou eventos de protões solares.
As erupções são explosões na superfície do Sol e ocorrem aquando de mudanças bruscas no seu campo magnético. A estrela liberta grandes quantidades de energia eletromagnética quando explode uma porção dela, armazenada em campos magnéticos por cima das manchas solares. O Sol irradia desde ondas rádio até raios gama, além de luz visível e de partículas de plasma. A par das erupções, podem surgir ejeções de massa coronal, ou seja, grandes erupções de gás ionizado a alta temperatura vindo da coroa solar. À superfície atingem até 1,5 milhões de graus Celsius e formam arco que, ao arrefecer, choca com a superfície a 100 Km por segundo. A emissão de partículas pode ainda justificar-se por tempestades geomagnéticas, perturbações que surgem na magnetosfera terrestre provocadas, por uma onda de choque com origem no vento solar. Quando este chega ao campo magnético da Terra, há um aumento de plasma (partículas ionizadas) a circular na magnetosfera e, por consequência, há um aumento da corrente elétrica na ionosfera e magnetosfera da Terra. A partir da superfície, esse aumento de partículas de plasma podem ser vistas na forma de auroras boreais e austrais. Ocorre, de vez em quando, o fenómeno de fulguração solar, após o que pode seguir-se (duas ou mais horas depois) a chuva de protões energéticos a impender sobre a Terra.
***
A posição de Carlos Fiolhais e a da Igreja Católica
Por seu turno, Carlos Fiolhais diz que o Milagre do Sol não lhe interessa, sustentando que não se trata de rejeitar a religião e reconhecendo que as relações entre ciência e religião já estiveram piores. E, segundo o Expresso, contou as viagens reais de Einstein – as mentais, pelo Universo, e depois as físicas, pela Terra.
Em 1919, o jornal O Século ostentava um título insinuante “A Luz Pesa”. O cientista comparou-o a um verso de Eugénio de Andrade, numa conferência que deu em Matosinhos. O tema era Einstein, e a ocasião o LeV, o festival sobre literatura de viagens que aquela cidade vizinha do Porto acolhe na primavera. E a referência a O Século surgiu a propósito do eclipse de 1919 que confirmou quase magicamente as previsões de Einstein como os raios de luz vindos das estrelas por trás do sol se desviariam ao rasar esse astro, devido à deformação do espaço. O termo “quase” abre para a não “magicidade” do fenómeno, que resultou das leis da natureza, conforme Einstein previra com base na matemática. E foi aí que começou a fama universal do físico, que realizaria, nos anos seguintes, uma série de longas viagens pelo mundo, de barco e a convite.
Como, neste dia 13 de maio de 2017, o Papa estava em Portugal a canonizar os pastorinhos e foi também no jornal O Século que em 1917 surgiu a famosa reportagem sobre o Milagre do Sol, Fiolhais foi questionado sobre que relação poderá existir entre os dois 'milagres', para se explorar a compreensão das formas diversas de abordar o mundo. E o físico foi perentório:
“Nenhum paralelo ou contraste. Não têm nada a ver. São domínios diferentes. A ciência liga com o observado, o experimentado. Também há crença, mas justificada pela observação ou a experiência. Nenhum cientista andou a estudar o milagre do Sol. A ciência não estuda milagres.”.
Nem por curiosidade. E explica-se:
“Nunca me interessou o assunto, pois era perda de tempo. O que se passou, se é que se passou alguma coisa, foram apenas relatos do domínio do individual e do espiritual. Esses fenómenos, que existem, não têm a ver a ciência. Como aliás outros. Se você se emociona com uma música ou uma peça literária, acha que a ciência tem de explicar porquê?”
Mesmo admitindo que muitas pessoas religiosas acham que, de facto, o sol se mexeu daquela maneira, diz que os cientistas não vão estudar nem confirmar isso. E, sobre o facto de milhares de pessoas terem garantido que o Sol se moveu mesmo, replicou:
“Qualquer pessoa pode dizer o que quiser. Mas, para haver alguma evidência de alguma coisa, são precisas observações fidedignas. Um agrupamento de pessoas com motivações religiosas não são testemunhas fidedignas. Há muitos observatórios em Portugal, na Europa, em todo o mundo, que nesse dia estiveram a ver o sol. Em Coimbra, por exemplo, há um que tira fotografias do sol todos os dias. Não houve anomalia absolutamente nenhuma.”.
Mas repete, no atinente à relação ciência religião, primeiro pela negativa:
“Não existe incompatibilidade entre religião e ciência. Há católicos a fazer ciência. Por exemplo, o padre Lemaître, o do Big Bang. Quando ele descobre isso, o Papa quer aproveitar: cá está, o início do mundo. E ele foi suficientemente honesto para dizer, não, não, não falo disso, não temos provas.”.
Depois pela positiva:
“Ciência e religião são quase como duas partes diferentes do cérebro. Têm em comum o facto de ambas quererem penetrar o mistério. Enquanto uma delas fala do que é possível desvendar através do método, na outra nunca é possível desvendar senão talvez através dos dogmas, das igrejas organizadas.”.
No entanto, recordou que a tensão nunca ficara resolvida. E exemplificou com o caso dos EUA:
“Não está resolvido, nem nunca se vai resolver, mas nos Estados Unidos, quando se pôs a questão de ensinar o criacionismo nas escolas, por exemplo, o Supremo Tribunal tomou uma atitude decente. Disse que quem quisesse um ensino religioso podia tê-lo, mas as escolas oficiais deviam ensinar ciência.”.
Já quanto à Igreja Católica, diz que não há problema algum. O Papa aceita o Big Bang e a evolução e incita os cientistas a que façam o seu trabalho. Tem a Pontifícia Academia das Ciências, cujo chefe é um Prémio Nobel da biologia, protestante, e de que Stephen Hawking faz parte. São 80 sábios, sem que se pergunte a religião de cada um. A questão é só o que eles sabem do mundo. Aliás, a Igreja tem um observatório astronómico no Arizona. “Também há uma coisa de brincadeira, histórica”, na residência de verão do Papa em Castel Gandolfo.
Nos últimos anos esta orientação intensificou-se, mas já vem de trás. João Paulo II fez um gesto de que a Igreja gostou muito, que foi reabilitar Galileu, condenado pela Igreja há 400 anos. O Papa reabriu o processo e declarou, com palavras muito cuidadas, que Galileu tinha razão.
E Francisco pediu, no dia 12, durante um encontro no Observatório Astronómico do Vaticano, que se ultrapassem “posições fechadas” ante as descobertas científicas e aconselhou a aceitá-las com “humildade”, admitindo que alguns assuntos têm particular interesse para a Igreja:
“Há que nunca ter medo da verdade nem permanecer em posições fechadas, mas sim aceitar as novidades das descobertas científicas com uma atitude de total humildade”.
Para sustentar a sua posição, o Papa mencionou o exemplo do belga George Lemaitre, que no duplo papel de sacerdote católico e de cosmólogo, numa incessante tensão criativa entre ciência e fé, sempre defendeu lucidamente a distinção metodológica entre os campos da ciência e da teologia”. E prosseguiu: “
“É claro que estes temas têm particular relevância para a ciência, a filosofia, a teologia e também para a vida espiritual. Representam uma ‘arena’ em que estas disciplinas coincidiram e, por vezes, chocaram”.
Mas para o Papa uma coisa é certa:
“A existência e a inteligibilidade do universo não são fruto do caos e do acaso, mas sim da sabedoria divina”.
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A plurifacetação e a relatividade da ciência
Porém, ao ser questionado sobre as questões levantadas pela biologia, Fiolhais diz que “Einstein é muito mais certo do que a biologia”, não havendo comparação possível. De facto, “na biologia, temos restos” e “não podemos ir ao passado fazer experiências”; na física, a evidência “é muito maior”. Contudo, nega que possamos ter a certeza absoluta de que as teorias  de Einstein estão corretas. E diz a este respeito:
“A história da ciência diz que não há verdades absolutas. Isto é, podemos sempre saber mais e melhor. É uma questão filosófica. Os físicos aprenderam a ser modestos, são incapazes de dizer que têm a última palavra. Houve alguns no passado que disseram isso e depois arrependeram-se. Os do século XIX achavam que sabiam tudo, e de repente aparecem a teoria da relatividade e a teoria quântica.”.
E releva a importância da teoria quântica:
“A teoria da relatividade não tem assim tanto impacto prático, mas a quântica sim. Isso que aí tem (aponta para o telemóvel) são transístores que funcionam de acordo com a teoria quântica. É teoria quântica condensada. Só tem valor porque nos ajuda nas nossas vidas. E aconteceu estudando um ramo da física que alguns no século XIX davam como morto. No século XIX nem sequer se sabia se havia átomos. Hoje em dia não só sabemos como os manipulamos, fazemos engenharia atómica, transístores cada vez mais pequenos…”.
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Devo declarar profundo respeito tanto por quem tenta explicar o fenómeno como quem não lhe dá importância científica. Mas aprecio ainda mais a confissão da relatividade da ciência, pondo-a na rota da permanente busca e descoberta, e a autonomia da ciência e da religião, em tensão, mas não de costas voltadas. Quanto à dança do Sol, por coincidência ou por virtude preterfísica, vale como sinal para que o mundo aceite a mensagem celeste, sendo mais valiosa a dança da atenção a Deus e aos mais deserdados em cujo rosto, às vezes, se desfigura a dignidade humana.
2017.05.20 – Louro de Carvalho