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sexta-feira, 14 de abril de 2017

Morreu para congregar na unidade os filhos de Deus que estavam dispersos

Hoje, dia 14 de abril, é Sexta-feira Santa ou Sexta-feira da Paixão. Neste dia de aparente desolação, os cristãos lembram o julgamento, paixão, crucifixão, morte e sepultura de Jesus Cristo, através dos ofícios litúrgicos e ações de devoção popular ou catequéticas que levam à meditação compungente do Mistério da Redenção. 
Segundo a tradição cristã, a ressurreição de Cristo aconteceu no domingo seguinte ao dia 14 de nisã, no calendário hebraico. A mesma tradição refere ser esse dia primeiro da semana (hoje denominado “domingo”) o terceiro dia desde a morte de Jesus. Assim, contando a partir do domingo e sabendo que o costume judaico, tal como o romano, contava o primeiro e o último dia, chega-se à sexta-feira como dia da morte do Senhor.
Na Igreja Católica, este dia integra o Tríduo Pascal, o mais significativo do ano litúrgico. A Igreja promove a celebração e a contemplação da paixão e morte de Cristo ou o contacto com o Cordeiro Pascal, sendo este único dia em que não se celebra, em absoluto, a Eucaristia.
Por ser o dia em que se contempla de modo especial Cristo crucificado, as rubricas da Liturgia prescrevem que, neste dia e no seguinte, se “adore” o crucifixo (Cristo pregado na cruz) com o gesto da genuflexão, ou seja, de joelhos.
Não obstante, mesmo sem a celebração da missa, realiza-se, para lá da recitação ou do canto da Liturgia das Horas, uma celebração litúrgica própria deste dia. Tal celebração, muito semelhante à celebração da Eucaristia, na sua estrutura, difere essencialmente desta pelo facto de não ter Oração eucarística (com a consagração), a mais importante parte da missa.
A celebração da morte do Senhor consiste na apresentação e adoração de Cristo crucificado, precedida por uma liturgia da Palavra, com uma especial oração universal, e seguida pela comunhão eucarística dos participantes, apenas sob a espécie de pão. No entanto, pela comunhão do Pão que dá a Vida, Corpo do Senhor, somos “batizados” no sangue de Jesus, somos mergulhados na sua morte. Unidos à fonte mesma da vida sobrenatural, ficamos cheios de força para passarmos da morte do pecado à alegria da ressurreição. Presidida por um presbítero ou bispo, paramentado como para a missa, de cor vermelha, a celebração estruturada em Liturgia da Palavra, Adoração da Santa Cruz e Sagrada Comunhão, a realizar depois das três horas da tarde, tem a sequência seguinte:
- Entrada em silêncio do presidente e ministros, que se prostram em adoração diante do altar, que deve estar totalmente desnudado (em cruz, candelabro ou velas e sem toalhas);
- Oração coleta;
- Liturgia da Palavra – leitura do livro de Isaías (quarto cântico do servo de Javé, Is 52,13-53,12), salmo 31 (30) – com o refrão “Pai, em vossas mãos entrego o meu espírito” –, leitura da Epístola aos Hebreus (Hebr 4,14-16; 5,7-9), aclamação ao Evangelho e leitura do Evangelho da Paixão segundo João (Jo 18,1-19,42, geralmente em forma dialogada);
- Homilia e silêncio para reflexão e oração pessoais;
- Oração Universal, mais longa e solene do que a da missa, seguindo o esquema – formulação da intenção, silêncio, oração do presidente;
- Adoração da Cruz – apresentação da cruz aos fiéis com fórmula cantada três vezes, osculação e adoração, ao som de cânticos (antífonas de adoração, impropérios e hino à cruz);
- Pai Nosso e embolismo;
- Comunhão dos fiéis presentes, a partir da sagrada espécie de pão tomada da consagração da missa do dia anterior (aos doentes a comunhão pode ser levada a qualquer hora);
- Oração depois da comunhão;
- Oração, de bênção e de pedido de perdão, sobre o povo;
- Retirada em silêncio.
Em muitas comunidades, a seguir ou em outro momento aprazado, realiza-se a Procissão do Enterro, também conhecida como Procissão do Senhor Morto, em que são cantados motetos em latim ou em vernáculo. Noutros lugares ainda, é recitada a Via-Sacra, chegando a sê-lo de forma teatralizada.
Toda a liturgia deste dia se processa em função de Cristo crucificado. Assim, a liturgia da Palavra visa introduzir os fiéis no mistério do sofrimento e morte de Jesus, que assim aparece como ação livre de Cristo pela salvação de toda a humanidade. O Cristo morto na cruz, por sentença condenatória devida à insciência e maldade dos homens, é o mesmo da Última Ceia dado em comunhão – mistério da fé – corpo entregue por nós, sangue derramado por nós e por toda a humanidade para remissão dos pecados.
A “adoração” da cruz, símbolo da salvação, pretende dar expressão concreta à adoração de Cristo crucificado por parte da assembleia sagrada que representa a humanidade pecadora. A Cruz deixou de ser o sinal de infâmia e da escravidão para ser o “sinal do amor universal de Deus” e símbolo do nosso resgate, da nossa liberdade. Nela adoramos Jesus Cristo, o Salvador que nela foi suspenso. É a Ele que exprimimos o nosso reconhecimento com o ósculo do afeto da fé, é a Ele, que nos reconciliou com o Pai, que pedimos a força para levarmos a nossa cruz.
A comunhão eucarística constitui a forma mais perfeita de união com o Mistério Pascal de Cristo e um ponto culminante na união dos fiéis com Cristo crucificado. O facto de se comungar do pão consagrado no dia anterior vem exprimir e reforçar a unidade de todo o Tríduo Pascal. Através do corpo sacramental do Senhor Crucificado e ressuscitado, ficamos também mais unidos ao seu Corpo Místico, ou seja, a Igreja ou o Cristo que sofre e morre nos seus membros à semelhança de Cristo-cabeça deste corpo.
A Igreja exorta ainda os fiéis a que, neste dia, observem alguns sinais de penitência, em memória da morte de Cristo e em solidariedade com os irmãos que não têm. Assim, convida-nos à prática do jejum e da abstinência de carne ou de comidas opimas e mais agradáveis ao paladar.
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Jesus morreu, ou melhor, deixou-se flagelar, cravar de espinhos e crucificar na Cruz até à morte, não por prazer (Se é possível afasta de mim este cálice…, mas faça-se a tua vontade não a minha!), mas para cumprir, em obediência livre, a vontade do Pai que se exprimia no desígnio de salvação de todos os pecadores. É eloquente o texto da 1.ª Carta de Pedro que nos dá conta das razões do suplício do Senhor:
Ele não cometeu pecado, nem na sua boca se encontrou engano; ao ser insultado, não respondia com insultos; ao ser maltratado, não ameaçava, mas entregava-Se Àquele que julga com justiça; subindo ao madeiro. Ele levou os nossos pecados no seu corpo, para que, mortos para o pecado, vivamos para a justiça: pelas suas chagas fostes curados. Na verdade, éreis como ovelhas desgarradas, mas agora voltastes ao Pastor e Guarda das vossas almas.” (1Pe 2,22-25).
O Evangelho de João põe na boca de Caifás, que era Sumo Sacerdote naquele ano e que disse: “Vós não entendeis nada, nem vos dais conta de que vos convém que morra um só homem pelo povo e não pereça a nação inteira” (cf Jo 11,49-50). E o evangelista comenta essa tirada de Caifás no sentido de que “ele não disse isto por si mesmo, mas, como era Sumo Sacerdote naquele ano, profetizou que Jesus devia morrer pela nação” (Jo 11,51). E acrescentou à razão dada pela negativa o motivo de ordem mais positiva: “E não só pela nação, mas também para congregar na unidade os filhos de Deus que estavam dispersos” (Jo 11,52).
A morte de Jesus é, pois, uma morte vicária, já que Ele pagou por nós, pela nação inteira, e tem em vista a condução das ovelhas dispersas ou desgarradas de volta ao seu Pastor e Guarda (texto de Pedro) ou, nas palavras de João, congregar na unidade os filhos de Deus que estavam dispersos”. Como símbolo da unidade que não devia ser quebrada temos a túnica inconsútil de Jesus, que os soldados resolveram não dividir ou rasgar, mas lançar à sorte, enquanto repartiram entre si, como despojos do crucificado, as suas vestes (cf Jo 19,23-24).
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Porém, quase desde os primórdios, os discípulos não souberam manter a unidade. Todos a apregoam. A túnica inconsútil anda à sorte nas mãos ora duns, ora doutros. E o panorama é o das heresias, dos cismas ou das diversas e antagónicas confissões de fé no mesmo Cristo.
Por isso, é preciso jurar em definitivo em redor da Cruz a unidade dos cristãos, fazer o esforço ecuménico e torna-lo irreversível. Mas não basta. É preciso ir mais além e congregar em torno do Crucificado todos os homens num diálogo paciente e respeitador das diversas idiossincrasias. O valor da Cruz é universal. Assim, a modo do que preconiza a oração universal do dia de hoje, aos pés da Cruz, temos de rezar e nos comprometer por e com: o fortalecimento da unidade da Igreja; a eficácia da ação do Santo Padre e a sua proteção; a santificação dos ministros da Igreja e de todo o povo de Deus; o aumento da fé e da sabedoria dos catecúmenos; a congregação de todos os cristãos na unidade; a condução dos judeus à plenitude da redenção; a iluminação com a luz de Deus de todos os que não creem em Cristo; a revelação aos ateus dos sinais da presença de Deus nas obras da criação; a orientação do espírito e do coração dos governantes; o conforto dos atribulados; e o socorro dos defuntos.   
Na verdade, além de consumar pela Cruz a sua obra redentora, o Senhor constitui para nós um exemplo a seguir (Dei-vos o exemplo para que façais como Eu fiz” – Jo 13,15). A este respeito Pedro ensina:
Mas se, fazendo o bem, sofreis com paciência, isso é uma coisa meritória diante de Deus. Ora, foi para isto que fostes chamados; visto que Cristo também padeceu por vós, deixando-vos o exemplo, para que sigais os seus passos. (1Pe 2,20-21).
Por isso, como o Senhor Jesus, também nós devemos dar a vida pelos nossos irmãos. De facto, “não há maior prova de amor do que dar a vida pelos amigos” (Jo 15,13).
Cristo não é propriamente e apenas um mártir, como faziam crer os escritores românticos. Ele é o mesmo o redentor. Não foi morto apenas pro ódio à fé, mas porque Se disse filho de Deus, Rei, Messias e porque vinha para dar testemunho da Verdade, na certeza de que aqueles que são da Verdade ouvem a sua voz. Na Cruz, Ele tornou-se caminho, verdade e vida. Os mártires pela fé no Evangelho são testemunhas de Cristo morto e redivivo e são seguidores deste caminho de calvário e de cruz, para que, tal como o grão de trigo que, lançado à terra, nasce, cresce e dá muito fruto, assim o mundo fique polvilhado de discípulos de Cristo pelo apagamento e pela morte dos heróis da Missão, para que o mundo creia e seja mais humano, justo e fraterno.
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Cristo “rebaixou-se a si mesmo, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz. Por isso, Deus O elevou acima de tudo e lhe deu um nome que está acima de todos os nomes, para que, ao nome de Jesus, se dobrem todos os joelhos, que há no céu, na terra e sob a terra; e toda a língua proclame queJesus Cristo é o Senhor!”, para glória de Deus Pai.

2017.04.14 – Louro de Carvalho

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

O Cemitério dos Prazeres

O facto de o primeiro Presidente da República civil desde 1926 ter sido sepultado no Cemitério dos Prazeres aguçou-me a curiosidade. E as primeiras afirmações que li, na satisfação desta curiosidade, foram que Mário Soares se junta, “a partir desta terça-feira à tarde, a outras figuras portuguesas de destaque, nos Prazeres”, e que “é um cemitério que se cruza com a História de Portugal” (vd Observador on line, de hoje, dia 10).
Depois, vi que o Cemitério da Ajuda (concluído em 1787) fora construído por ordem da rainha Dona Maria I para a população mais pobre das freguesias de Belém e da Ajuda, bem como para os que serviam a Casa Real. Passou para a tutela municipal por iniciativa da rainha Dona Maria II e, em 1849, foi decretada a sua circunscrição à população das freguesias da Ajuda e Belém.
Era, no início, um caso de exceção, porquanto o enterramento era vulgarmente feito nos templos ou no espaço exterior envolvente, sendo que reis e outras figuras de relevo social tinham por uso a construção de túmulos que se erigiam em lugares de destaque nas grandes igrejas (normalmente igrejas de mosteiros) ou em capelas laterais.
Porém, o cemitério dos Prazeres e o do Alto de São João forma mandados construir, no período romântico, pelo Governo de Dona Maria II, em 1833, por razões de saúde pública, uma vez que Lisboa fora acossada pela cólera morbus e tornava-se inconveniente sepultar em espaços religiosos abertos ao culto. Se bem me lembro, foi o decreto de extensão desta prática a todo o reino que levantou a população do norte em protesto contra a mudança de prática no sepultamento dos mortos. Daqui surgiu a revolução capitaneada pela lendária Maria da Fonte, de Fontarcada, da Póvoa de Lanhoso, no Minho.
Para obviar à mortandade resultante da epidemia, eram necessários campos extensos. E, assim, o cemitério do Prazeres serviria a zona ocidental de Lisboa e o cemitério do Alto de São João serviria a zona oriental da cidade.
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Localizado na zona ocidental de Lisboa, o cemitério do Prazeres tornou-se, com o devir temporal, o mais elitista dos cemitérios portugueses, onde estão enterrados grandes nomes da História de Portugal, atores, cantores, políticos e aristocratas. E, para lá de morada dos mortos, constitui-se como um museu ao ar livre – um ecomuseu – por via, sobretudo, das obras arquitetónicas e da escultura funerária, logo a começar pelo Pórtico de entrada do cemitério, que é da autoria do arquiteto Domingos Parente da Silva, podendo ser visitado por qualquer pessoa, a título individual ou em visitas organizadas pela Câmara Municipal de Lisboa.
Esta possibilidade de visita franqueada pela Câmara visa desmistificar a ideia de que os cemitérios são apenas locais de tristeza e dor e corresponde à estética romântica caraterizada pela beleza lúgubre da paisagem e dos ambientes, pelo tétrico, pela cultura da morte, pelos amores contrariados e pelo noivado do sepulcro. Por isso, a CML através da Divisão de Gestão Cemiterial, preserva e valoriza o património arquitetónico e cultural dos cemitérios lisboetas, promovendo várias atividades como visitas guiadas, que podem ser generalistas ou enquadradas em diversas áreas temáticas e percursos.
Com mais de 12 hectares, estão espalhados mais de 7.000 jazigos pelo cemitério-museu. E, desde hoje, ali fica jacente o corpo do ex-Presidente da República Mário Soares em jazigo de família, ao lado da esposa Maria Barroso.
Passados dois anos desde a sua construção, ou seja, em 1835, um decreto-lei de Rodrigo da Fonseca Magalhães veio reforçar e regulamentar a determinação legal de proibir o enterramento dos cadáveres em igrejas, conventos, ermidas e demais espaços religiosos. Por força desse decreto, a gestão do cemitério passou para o município em 1840. O cemitério, construído no lado ocidental de Lisboa, onde estavam os bairros das residências aristocráticas, acabou por se tornar predominantemente o cemitério das famílias com mais poder e influência.
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Mas não só. Este campo dos antepassados alberga o maior mausoléu privado da Europa: o jazigo dos Duques de Palmela. Mandado edificar em 1847, reconhecem-lhe alguns estreita ligação à simbologia maçónica. No interior do mausoléu está sepultado o escol dos criados e na capela, em forma de pirâmide, repousam os familiares e alguns amigos, com o duque de Palmela no centro. O jazigo tem cerca de 200 corpos e restos mortais da família e ainda dois padres amigos da família. Também é neste cemitério que se encontra a maior e mais antiga concentração de ciprestes da Península Ibérica – árvores que vão dando cor ao espaço de mais de 12 hectares com mais de 7000 jazigos, ao mesmo tempo que delimitam as ruas por onde se pode circular.
Constituído quase exclusivamente por jazigos particulares, é possível admirar monumentos de autores anónimos, lado a lado com peças de arquitetos de renome do século XIX até aos nossos dias, bem como o trabalho de alguns dos maiores escultores portugueses, que desta forma se perpetuam através da obra. Foram, assim, sinalizados alguns dos jazigos mais representativos e agrupados em percursos temáticos: História do Cemitério, Personalidades (Grandes Homens) Arquitetura, Escultura, Simbologia (fúnebre, morte e imortalidade, profissões) Maçonaria, Jazigo Palmela.
Voltado para a Ponte 25 de Abril e para a margem sul do Tejo, com uma das vistas mais privilegiadas do cemitério, encontra-se o talhão onde estão sepultados os Bombeiros Sapadores, espaço cedido pela Câmara Municipal para esse efeito em 1911. Ali se pode ver a Cripta dos Bombeiros Sapadores, inaugurada em 1878, projetada pelo arquiteto Dias da Silva, o mesmo que fez a Praça de Touros do Campo Pequeno.
E é na capela do cemitério que se podem ver as antigas salas de autópsias – onde se procedeu às primeiras autópsias fora do Instituto de Medicina Legal – bem como o acervo, onde se podem consultar registos antigos. Lá está instalado, desde 2001, também o Núcleo Museológico, ligação entre o espaço monumental exterior e o seu interior, com vários objetos de culto, sobretudo da morte e da memória, como crucifixos, figuras de santos, candelabros, candeias, peças de cerâmica, livros de orações, bonecos, distribuídos e organizados em diversas vitrinas e muitos outros – normalmente espólio proveniente de jazigo abandonados.
Deambulando neste espaço de privilégio, onde se encontra a maior e mais antiga concentração de ciprestes da Península Ibérica, podemos ainda conhecer os Jazigos dos Escritores I e II, os dois Talhões de Artistas, o Talhão da Polícia de Segurança Pública e o Talhão dos Bombeiros Sapadores, únicos locais passíveis de inumação temporária, já que este cemitério não está circunscrito a nenhuma freguesia.
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É nos Prazeres que se encontram os restos mortais de Ofélia Queiroz, a única namorada que se conheceu a Fernando Pessoa – túmulo descoberto só depois de o próprio Pessoa ter sido trasladado dos Prazeres para os Jerónimos.
Ali repousam atores, cantores, escritores, pintores e apresentadores de televisão.
Estão ali corpos de nomes como: António Gedeão, Cândida Branca Flor, Carlos Paredes, Henrique Mendes, Maluda, Mário Cesariny, Raúl Indipwo e Cesário Verde – mas também Vasco Santana, Fernando Maurício, Raul Solnado, entre muitos outros.
Estiveram também sepultados neste cemitério Aquilino Ribeiro e Amália Rodrigues, que foram, entretanto, trasladados para o Panteão Nacional.
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Este “museu a céu aberto” possui importantes elementos no que diz respeito ao conhecimento da história contemporânea de Portugal, às diferentes atitudes perante a morte, à arquitetura, ao urbanismo, à escultura e à heráldica.
Percorrer o Cemitério é conhecer parte da nossa história, documentada nos inúmeros jazigos que evocam memórias passadas. Aqui se encontram sepultadas personalidades que se destacaram pelas ideias, obras ou ações e aqui podemos ver algumas belas obras da arquitetura portuguesa.
É uma outra forma de dar a conhecer e ajudar o visitante a interpretar a evolução através dos tempos das diferentes atitudes culturais, sociais e psicológicas do ser humano perante a morte.
Todos estes objetos foram alvo de escolha e tratamento cuidadoso, depois de terem sido removidos de jazigos que se encontravam em estado de prescrição, com o propósito de preservar, estudar e trazer a público este património histórico.
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Reza a história-lenda que naquele local existiu uma fonte considerada santa e milagrosa por ter aparecido junto dela uma imagem da Virgem Maria. Por isso, ali se construiu uma ermida dedicada a Nossa Senhora dos Prazeres, vindo a ermida a dar nome a uma extensa quinta que, já no século XVI, servira de refúgio a muitos enfermos das várias epidemias que então assolaram a cidade de Lisboa. Era terra de hortas, vinhas e pomares e estava abrangida pela designação de Campolide, pertencendo à freguesia de Santos. No século XVIII (1741), criou-se a freguesia de Santa Isabel e este espaço foi aí integrado. Entre 1959 e 2013, pertenceu à freguesia homónima (Prazeres), que passou a integrar a nova freguesia da Estrela.
Nos séculos XVI, XVII e XVIII, foi o local procurado por alguns nobres para aí estabelecerem as suas quintas e casas de campo. Eram terrenos arejados, perto da Ribeira de Alcântara e com uma bela vista para o Tejo. Além disso, não ficava muito longe do Paço Real de Alcântara, tanto do agrado do rei D. Pedro II (1648-1706). Ali bem perto (na atual rua do Patrocínio) ficava o Convento da Boa Morte, que acabou com a extinção das Ordens Religiosas (1834), tendo o edifício sido vendido a um particular.
O sossego convida à contemplação e todas aquelas construções nos falam do passado, das pessoas que as mandaram fazer, das que partiram para sempre, das que ficaram com a saudade. E “a fé conserva unidos os que a Morte separa”, como se pode ler numa lápide.
Porém, não podemos esquecer que, originariamente, o termo “prazeres” ou “gozos” se referia à fonte, símbolo bíblico da felicidade, e aos mistérios gozosos do rosário, em torno da encarnação (Anunciação, Visitação. Natal, Apresentação, Encontro com os doutores da Lei).
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Hoje, o cemitério serve de ponto turístico, de espaço de lazer, de pretexto de reflexão, interioridade e oração, local de memória – complexo de História feita de humanismo, piedade, ceticismo e indiferença. Mas que seja de seriedade, de consciência, de vida!

2017.0.10 – Louro de Carvalho

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

No 520.º aniversário do édito de expulsão dos judeus de Portugal

Independentemente da provável diferença de critérios que separa o mundo pujante do século XVI do esclarecido do século XXI (que pretende ser o acúmulo da urbanidade e o apogeu do humanismo), é de questionar como o rei Venturoso se deixou manipular pelos reis católicos, D. Isabel e D. Fernando, auto-obrigando-se a produzir o édito de expulsão dos judeus do território nacional.
Não era certo que Portugal tinha chegado à Índia – já com o sistema dos vice-reis – e mostrado ao mundo que existia mundo a ocidente, a que a Espanha, apesar da proeza de Colombo, não acedera, e que estava desfeito o equívoco de que a Índia era algo a que não se chegara rumando a ocidente? Não tinham os portugueses chegado à Terra Nova e à Gronelândia, ao rio Hudson e ao Labrador? Não havia outra forma de negociar o casamento com Isabel?
Maria José Oliveira publica hoje, dia 29, um extenso artigo (de que se respigam alguns dados) sobre o tema no Observador on line, em que salienta que “faz 520 anos que D. Manuel I assinou o édito de expulsão dos judeus”, condição imposta por Espanha para que casasse com D. Isabel. Por isso, milhares de judeus tiveram de escolher entre a expulsão ou a conversão ao cristianismo.
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Um decreto dos reis católicos de Espanha rompera, em 31 de março de 1492, com a longa tradição de tolerância religiosa em Castela, Leão e Portugal. Os judeus de Castela e de Aragão foram então obrigados à conversão ao cristianismo, sob pena de serem expulsos de Espanha no prazo máximo de 4 meses.
Os sefarditas, judeus que habitavam a Península, eram olhados com visível desconfiança desde a Idade Média, não propriamente por motivos religiosos, mas por cooperarem com os reis “na cobrança das rendas e na organização da contabilidade pública”. E, apesar dos ataques ocasionais às judiarias, “mantinha-se a tolerância” no atinente à religião. Em julho de 1492, expirado o prazo estipulado em Espanha, milhares de judeus atravessaram a fronteira com a permissão de D. João II, que nomeou locais onde se poderiam instalar – Olivença, Arronches, Belmonte, Figueira de Castelo Rodrigo, Bragança e Melgaço – e, na raia, recebiam um salvo-conduto contra o pagamento de “uma espécie de portagem”. Os que exerciam uma profissão beneficiavam de um desconto, por serem tidos “como mão-de-obra útil à economia nacional”.
Maria José Oliveira sustenta que “a documentação coeva não permite definir, com rigor, o total de judeus desterrados” já que os números apontados pelos investigadores variam entre as 40 mil pessoas e as 120 mil. Por outro lado, assegura que, embora a maioria se dirigisse “para as grandes cidades”, como “Lisboa, Porto e Évora”, uma parcela considerável ter-se-á fixado “na raia, na zona de Ribacoa”, pelo que, segundo Adriano Vasco Rodrigues, se instalaram comunidades judaicas em Mirandela, Moncorvo, Pinhel, Vila Nova de Foz Coa, Meda, Marialva, Numão, Trancoso, Guarda e Sabugal. Tal decisão parece justificar-se pela esperança “de que o decreto de expulsão fosse revogado”, possibilitando o regresso a Espanha.
Mas a autorização joanina emitida com o salvo-conduto extinguia-se ao fim de 8 meses. Poderiam viajar para outras paragens, mas o rei só lhes permitia embarcar para Tânger e Arzila. Porém, os que o fizeram regressaram por roubo e maus tratos da parte dos mouros.
E a postura do Príncipe Perfeito para com os judeus expulsos de Espanha tornou-se lastimável. Em 1493, ordenou a retirada dos filhos menores aos pais e o seu envio para São Tomé. “A maioria das crianças” foi ali comida pelos crocodilos, que eram em grande número, e muitas não resistiram ao clima hostil e à fome.
O médico alemão Jerónimo Münzer, que estava em Lisboa em dezembro de 1494, escreveu em sua “Viagem por Espanha e Portugal. 1494-1495”:
“Os Judeus de Lisboa são riquíssimos, cobram os tributos reais, que arremataram ao Rei. São insolentes com os cristãos. Têm muito medo da proscrição, pois o Rei de Espanha ordenou ao Rei de Portugal que expulsasse os marranos e da mesma forma os Judeus, aliás teria guerra com ele. O Rei de Portugal, fazendo a vontade ao de Espanha, ordenou que antes do Natal saíssem do reino todos os marranos [Marranos eram os judeus convertidos ao cristianismo que mantinham clandestinamente as práticas judaicas]. Eles fretaram a nau Rainha, belíssimo navio, e no meado de dezembro irão para Nápoles; aos Judeus, porém, deu o Rei o prazo de dois anos [Garcia de Resende diz na sua “Crónica de D. João II” que o prazo foi de 8 meses] para assim os expulsar do reino menos violentamente. Em vista disso, os Judeus vão-se retirando sem demora e procuram no estrangeiro lugares próprios para a sua residência”.
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Por óbito de D. João II em 1495, o trono foi tomado por D. Manuel, sobrinho e cunhado do soberano, que o designou como sucessor, dado que o herdeiro, o príncipe Afonso, morrera alguns anos antes. Nos primeiros anos do seu reinado, os judeus viveram em paz, tendo mesmo o novo monarca “escolhido o judeu Abraão Zacuto para seu médico particular (que também era matemático e astrónomo, pelo que fora consultado antes de o rei enviar a 1.ª expedição de Vasco da Gama à Índia). Como o seu predecessor imediato, D. Manuel desejava a união ibérica, sob a coroa portuguesa, naturalmente, pelo que propôs casamento a D. Isabel, viúva do primo Afonso e filha mais velha dos reis católicos. A proposta foi aceite pelos progenitores, mas sob a condição de o soberano português “expulsar os judeus do país”. Assim, em novembro de 1496, D. Manuel casou com D. Isabel e, logo no mês seguinte, por édito de 5 de dezembro, decretou a expulsão dos judeus (e dos mouros), “obrigados a sair do país até finais de outubro” seguinte. Não o fazendo, ser-lhes-ia aplicada a pena de morte e o confisco de “todos os seus bens”. Porém, a decisão não foi consensual no Conselho do Reino, que advertiu para “a fuga de capitais”. Assim, o rei permitiu a quem se convertesse ao cristianismo a permanência no país, agendando como prazo para os batismos, “a Páscoa de 1497”.
A conversão forçada ficou marcada por medidas trágicas. Na Páscoa de 1497, o rei ordenou que os judeus menores de 14 anos fossem entregues a famílias cristãs de várias vilas e cidades, vindo esta ordem a estender-se aos jovens de 20 anos. Daqui resultou que “muitos pais mataram os seus filhos, degolando-os ou lançando-os em poços e rios”. Mas o soberano ainda restringiu “o número de portos de embarque para aqueles que queriam sair do reino, obrigando-os a concentrarem-se na capital”. Muitos, oriundos de várias zonas, foram encaminhados para o Palácio dos Estaus, “ali permanecendo, sem comer e sem beber, até ao momento do embarque”.
A ideia do aprisionamento era motivá-los para a conversão. Assim é que – diz Maria José – “enquanto aguardavam pela partida para o estrangeiro, foram visitados por dois judeus conversos, Nicolau, médico, e Pedro de Castro, eclesiástico em Vila Real”, com a missão de “persuadir os judeus a converterem-se ao cristianismo”, sendo que muitos foram “levados para as igrejas da Baixa e batizados contra a sua vontade”, enquanto “outros conseguiram fugir e suicidaram-se, atirando-se a cisternas e a poços”. E os que, “não tendo sido batizados, ficaram no país, já como escravos do rei, apresentaram uma proposta a D. Manuel”: contra a aceitação da conversão, pediam a restituição dos filhos e “a garantia de que o rei não ordenaria qualquer inquérito sobre as suas práticas religiosas num período de 20 anos”. Tendo D. Manuel anuído, foi publicada, a 30 de maio de 1497, a proibição de inquirições sobre as crenças dos recém-convertidos ao cristianismo. E o decreto determinava que,
“Ao fim de 20 anos, se o cristão-novo fosse acusado de judaizar, teria direito a conhecer os seus acusadores para que pudesse defender-se; caso fosse comprovado o crime de heresia, seria condenado à perda de bens, posteriormente legados aos herdeiros cristãos; os físicos e os cirurgiões que não sabiam latim poderiam utilizar livros de medicina em hebraico; finalmente, os cristãos-novos não deveriam ser tratados de forma distinta, uma vez que estavam convertidos à Santa Fé”.
Daqui nasceu o criptojudaísmo, ou seja, a prática clandestina da religião judaica. Deste criptojudaísmo surgiram as famosas alheiras de Mirandela e de Moncorvo: em tripa de porco, para iludir os possíveis olharapos do Reino, eram introduzidas várias carnes, nomeadamente de aves, com condimentos de que os principais eram o alho, o azeite e o vinho ou o vinagre, para garantir a pureza ritual e alimentar do judaísmo.  
Todavia, as garantias do decreto não convenceram todos os judeus. Muitos preferiram sair do país, levando consigo os bens, e “os mais ricos negociaram letras de câmbio com os cristãos, para depois serem trocadas noutro país” – o que significava que “uma parte da riqueza do país estava a fugir. Por isso, em 1499, o rei fez publicar duas leis: uma “proibia o negócio com os judeus”; e a outra “impedia a saída do reino dos conversos de 1497 sem prévia autorização régia”. O não cumprimento destas normas “resultaria no confisco dos bens dos infratores.
Com estas medidas, D. Manuel I pretendia “estimular a integração dos conversos na sociedade”. E, para este efeito, entre 1497 e 1499, promulgou uma lei que proibia o casamento entre cristãos-novos, com o objetivo de “inserir a minoria nas famílias de cristãos-velhos” e de “fazer “partilhar o dinheiro e os bens dos ex-judeus”. Porém, tais medidas não resultaram por subsistir “o sentimento antijudaico na maioria cristã” e “porque os cristãos-novos, ainda que em número reduzido, estavam no pódio das grandes fortunas”, visto que, “após a conversão, ganharam mais poder, ascenderam à nobreza, às universidades, à administração real e municipal”.
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Maria José Oliveira, com base no relato de Damião de Góis, dá-nos conta do que se passou em Lisboa, com a minoria cristã nova, a 19 de abril de 1506, domingo de Pascoela.
A cidade Lisboa estava assombrada pela peste que a assolava desde outubro de 1505: “um período de seca matara os campos nos arrabaldes; escasseavam alimentos; a fome tomava conta da cidade”. Naquele dia, a igreja do convento de São Domingos estava repleta de cristãos-velhos, pois surgira o rumor de que, no dia 15, ocorrera ali um milagre. Os crentes aguardavam a sua repetição, que supostamente aconteceu. Aos olhos dos cristãos, brilhou uma luz no crucifixo da igreja e a multidão rejubilou, exceto uma pessoa, que alertou para o facto de se tratar dum reflexo duma das muitas candeias acesas. Era um cristão-novo, que para os cristãos-velhos era um judeu, alvo de ódio. Arrastaram-no para rua, mataram-no e queimaram-no no Rossio. Sabendo do que sucedera, o irmão acorreu ao local e, ao gritar contra os assassinos, foi morto e queimado numa fogueira. Na agitação, um frade dominicano bradou discurso contra os judeus, pondo a turba a vociferar contra a comunidade judaica. E Frei João Mocho e Frei Bernardo juntaram-se ao que estava a discursar, exibindo o crucifixo do “milagre” e gritando: “Heresia! Heresia! Destruam o povo abominável!”.
Aos gritos seguiu-se o massacre. A multidão dos crentes espalhou-se pelas ruas de Lisboa e juntou-se-lhe “a chusma das naus da Índia, que, atiçada pela pregação dos frades, violou, matou e queimou milhares de pessoas”. Mais: durante três dias, “arrombavam as portas das casas, em busca de cristãos-novos, perseguiam quem tentava fugir, carregavam mortos e vivos para as fogueiras que iam sendo ateadas em vários locais da cidade, como o Rossio e a zona ribeirinha”.
Segundo Damião de Góis, o rei, ao ser informado do que sucedia em Lisboa quando estava em Avis, a caminho de Beja para visitar a mãe, a infanta D. Beatriz, ficou “triste” e “enojado”, tendo dado de imediato “poderes ao Prior do Crato e a D. Diogo Lobo para castigarem os culpados”. Porém, “o problema era identificar os culpados”. Era uma cidade inteira – portugueses e estrangeiros – revoltada contra os judeus que matara quem não conseguiu escapar.
Como punição aos habitantes de Lisboa, o soberano retirou uma série de privilégios à cidade: os que provadamente participaram no morticínio perderam todos os bens; os que não estavam envolvidos, mas nada fizeram para deter a multidão, perderam um quinto dos bens; e foi suspensa a eleição dos representantes da Casa dos Vinte Quatro e dos seus quatro representantes na vereação municipal da cidade.
O acontecimento, denominado “Pogrom de abril de 1506” ou Matança da Páscoa de abril de 1506, continua a ser recordado em dois monumentos erguidos no Largo de São Domingos, onde se iniciou a tragédia, inaugurados em abril de 2008, por iniciativa da autarquia e das comunidades judaica e católica.
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Cenas destas, e até em escala amor, sucedem-se hoje contra judeus, cristãos e tantos outros – por motivos políticos, religiosos, económicos. Até quando?!

2016.12.29 – Louro de Carvalho

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Há 75 anos, Pearl Harbor induziu EUA a entrar na II Grande Guerra

Na verdade, a 7 de dezembro de 1941, a Marinha Imperial Japonesa desferiu um inesperado ataque aeronaval contra a base norte-americana de Pearl Harbor,  na ilha de Oahu, Havai.  
Esta investida contra a frota do Pacífico da Marinha dos Estados Unidos da América e as suas forças de defesa, o corpo aéreo do exército americano e a força aérea da Marinha destruiu ou danificou 21 navios e 347 aviões, matando cerca de 2403 pessoas e ferindo outras 1178. Contudo, os três porta-aviões da frota do Pacífico não se encontravam no porto, pelo que não foram danificados, tal como os depósitos de combustível e outras instalações.
O poderoso ataque, que implicou uma viragem decisiva na Guerra, tornando-a um conflito mundial, precipitou a entrada dos Estados Unidos na II Guerra Mundial e o início da chamada Guerra do Pacífico, ficando conhecido como “Bombardeamento de Pearl Harbor e “Batalha de Pearl Harbor”, embora a designação mais corrente seja mesmo “Ataque a Pearl Harbor ou simplesmente “Pearl Harbor”. E o dia 7 de dezembro passou a ser denominado como o “Dia da Infâmia”, a partir da declaração de Roosevelt.
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Atribui-se esta manifestação bélica nipónica em força ao expansionismo japonês, que se iniciou nos fins do século XIX e se acelerou, em 1931, com a invasão da Manchúria e de grandes territórios chineses. Neste quadro de ambição, em 1940, o império japonês agregou-se às forças do Eixo, aquelas que se mostravam mais favoritas para a vitória, prosseguiu a sua política aguerrida de conquista e invadiu a Indochina francesa, à cata de recursos energéticos e matérias-primas.
A tentar frear-lhe a expansão e furor hegemónico, os Estados Unidos impuseram sanções económicas ao Japão no verão de 1941 (sempre as sanções económicas como recurso bélico norte-americano). Face a uma opinião interna norte-americana maioritariamente isolacionista, a administração de Washington tenta resistir à entrada na guerra, tanto na frente europeia como no Pacífico. Mas o ataque de Pearl Harbor alterou a perspetiva política dos EUA.
Preparado no mais rigoroso sigilo, o ataque de Pearl Harbor foi lançado a partir de 6 porta-aviões japoneses com as suas 400 aeronaves posicionadas a 350 quilómetros do alvo, com o objetivo de aniquilar a frota norte-americana, cuja principal base no Pacífico era justamente Pearl Harbor, para posteriormente conquistar o sudeste asiático.
Assim, os aviões japoneses dirigem-se, na madrugada daquele domingo, 7 de dezembro de 1941, à pequena ilha de Oachu, no arquipélago do Havai. Uma primeira esquadrilha, que aparece no céu às 7 horas e 55 minutos, seguida de uma segunda meia hora mais tarde, mata 2.403 americanos e deixa outros 1.000 feridos. No total, são afundados ou danificados 21 navios de guerra, além de 328 aviões de combate. Os japoneses perdem 64 homens, 29 aviões e 5 minissubmarinos.
E a ofensiva nipónica não para ali. Em menos de 24 horas, o império japonês ataca os Estados Unidos nas Filipinas e a Grã-Bretanha em Hong Kong, Singapura e Malásia.
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Estavam criadas as condições ao orgulho norte-americano para decidir pela intervenção ativa.
Pela primeira vez desde 1812, os Estados Unidos são atacados no seu próprio território. O Presidente Roosevelt fala de “um dia de infâmia”. Por isso, um dia após o ataque, o Congresso declara oficialmente guerra ao Japão, seguido pela Grã-Bretanha. Três dias mais tarde, a Alemanha, declara, por sua vez, guerra aos Estados Unidos. E, no fim de dezembro, Churchill e Roosevelt decidem unir as suas forças contra a Alemanha nazista sob comando único. Os Estados Unidos, por seu turno, assumem-se como um país convertido numa economia de guerra. Reconstroem a sua frota e fabricam em série aviões, canhões e meios de transporte. E todos os homens de entre 20 e 40 anos são mobilizados.
Nos seis dias subsequentes ao Pearl Harbor, o Japão continua na sua rota de expansão hegemónica: Hong Kong, Singapura, Filipinas, Bornéu, Sumatra, Java e Mianmar caem em suas mãos, um após o outro.
Contudo, a partir de junho de 1942, a correlação de forças altera-se e os Estados Unidos conseguem deter o avanço japonês em Midway e, posteriormente, em Guadalcanal, iniciando a reconquista das ilhas do Pacífico, uma a uma. Nos fins de 1944, os americanos lançam ataques aéreos em massa contra o Japão. E, no ano seguinte, um mês depois dos bombardeios atómicos de Hiroshima (6 de agosto de 1945) e Nagasaki (9 de agosto de 1945), o Japão capitula.
Paralelamente à frente do Pacífico, os Estados Unidos desembarcam em massa na África, na Sicília e no sul da Itália e na França. O reich hitleriano capitulou a 7 de maio de 1945.
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Passados 75 anos desde Pearl Harbor, segundo a Euronews, foi organizada hoje uma cerimónia evocativa em que participaram vários dos sobreviventes ao bombardeamento, que contaram o que viveram. Um dos militares americanos presentes na base nesse fatídico dia diz:
A bola de fogo atingiu-nos a todos. Um marinheiro lançou-nos uma linha com um peso na ponta. Atámo-nos, ele atou a parte mais pesada ao navio e, com a ajuda dessa linha, conseguimos percorrer 20 ou 25 metros até ao navio. Não sei como conseguimos, mas estou aqui.”.
Outra testemunha conta:
“Estávamos num convés, a puxar corpos das chamas. Ao fim de cerca de 40 minutos tínhamos água pelos joelhos e alguém gritou para abandonarmos o navio. Levámos então todos os corpos que tínhamos nas lanchas para o hospital.”.
O ataque a Pearl Harbor, um dos atos de guerra mais trágicos da história fez na altura mais de 2400 mortos. Para assinalar o seu 75.º aniversário, o Primeiro-Ministro japonês Shinzo Abe prometeu para breve uma visita a Pearl Harbor. Será a primeira de um responsável japonês e uma retribuição pela vista de Obama a Hiroxima, a 26 e 27 de maio deste ano de 2016. Ali, o Presidente norte-americano disse:
“Estamos aqui, nesta cidade, e obrigamo-nos a imaginar o momento em que a bomba caiu. Obrigamo-nos a sentir o terror sentido pelas crianças confusas pelo que estavam a ver. Ouvimos o grito silencioso. Aqueles que morreram eram pessoas como nós. Qualquer pessoa compreende isso. As pessoas não querem mais guerra. Preferem que as maravilhas da ciência sirvam para melhorar a vida e não para a eliminar. Quando uma escolha feita pelos líderes, pelas nações, refletir esta sabedoria simples, então a lição de Hiroxima estará cumprida.”.
Agora sabe-se que o Primeiro-Ministro japonês Shinzo Abe e o Presidente Barack Obama, dos Estados Unidos, vão encontrar-se a 26 e 27 deste mês em Pearl Harbor, pouco mais de duas semanas após o 75.º aniversário do ataque nipónico à base aeronaval americana nesta ilha do Pacífico, a 7 de dezembro de 1941, e que levou Washington a declarar guerra a Tóquio e a entrar na II Guerra Mundial. A presença dos estadistas visa superar “escolhos do passado” nas relações entre EUA e Japão e surge num momento em que estratégia para a Ásia da futura administração Trump preocupa Tóquio.
O encontro foi anunciado em Tóquio e pela Casa Branca, com o porta-voz do primeiro-ministro Abe a explicar que este não irá pedir um perdão formal pelo ataque de há 75 anos, mas não deixará de “confortar as almas das vítimas”. Será esta a primeira deslocação de um governante de Tóquio a Pearl Harbor. O objetivo é “demonstrar o poder da reconciliação que tornou dois antigos adversários em aliados muito próximos”, como referiu o governante nipónico numa declaração divulgada a 6 de dezembro. Abe e Obama combinaram a reunião à margem da cimeira da APEC, contra o protecionismo e pela abertura dos mercados, que decorreu em setembro passado na capital do Peru, Lima. A deslocação de Abe a Pearl Harbor sucede sete meses após a primeira visita de Obama a Hiroxima, a cidade japonesa, que com Nagasáqui, foi alvo dum ataque nuclear dos EUA, em agosto de 1945. Tendo, uma semana depois, o imperador Hirohito anunciado a rendição do Japão.
Na deslocação de maio passado a Hiroxima, em que esteve acompanhado por Abe, Obama salientou que a visita se destinava a honrar a memória das vítimas do conflito e não podia ser interpretada como pedido de desculpas pelo bombardeamento que causou cerca de 140 mil mortos. Então, o Presidente americano afirmou que a sua presença na cidade, tendo ao seu lado o chefe do governo de Tóquio, constituía “uma prova de que até o mais doloroso dos antagonismos pode ser ultrapassado”.
No âmbito da visita de 26 e 27, Abe e Obama visitarão o Memorial USS Arizona, o cruzador afundado no ataque de 1941 e que foi transformado em monumento para homenagear os 1102 marinheiros que morreram nesse dia entre os 1177 a bordo.
Após a presença de Obama em Hiroxima, a deslocação de Abe a Pearl Harbor visa completar o processo de reconciliação entre os dois países, hoje de facto aliados próximos, e sucede num momento em que se verificam algumas preocupações em Tóquio sobre a diplomacia de Donald Trump para a Ásia.
A Reuters lembrava ontem que, falando perante o Congresso dos EUA em 2015, Abe expressou “profundo arrependimento” pelo papel do Japão na Segunda Guerra Mundial. Na perspetiva do académico americano Jeffrey Kingston, citado pela Reuters, o Primeiro-Ministro nipónico, com a sua presença em Pearl Harbor, pretende “afastar os escolhos do passado” na relação futura com Donald Trump – o que se revela “inteligente” da sua parte e importante para umas relações bilaterais sem sobressaltos, como sustenta o predito académico.
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Mais do que um pedido de perdão pela beligerância, há que recordar a História (A História não se apaga), não a deixando eclipsar, para que à sua luz os Estados se coíbam de cometer erros similares no presente para que o futuro seja de paz e de prosperidade. Impõe-se a primazia da diplomacia contra a tentação do recurso às armas para promover, reparar ou recuperar as relações entre Estados e entre regiões. A paz vive o diálogo e não da guerra. E as descobertas da ciência têm de colocar-se ao serviço da vida e da qualidade de vida.
2016.12.07 – Louro de Carvalho  

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Influência do Terramoto de Lisboa na linguagem popular

Nos últimos dias, o centro de Itália foi acossado por vários terramotos e subsequentes réplicas. Foi uma onda de destruição que deixou mortos, feridos e sobretudo muitos sem haveres e desalojados. Mais recentemente ainda, foi o Chile devastado pela revolução terráquea. Suscitam-se solidariedades, comiserações e vontade de reconstrução. O Primeiro-Ministro italiano, ao olhar para a destruição de Núrsia e região, prometeu: “Vamos reconstruir tudo”!   
Dizem alguns observadores que se este terramoto tivesse acontecido em Lisboa, a onda de destruição seria imensamente maior que em 1755. E, sim, já lá vai longe no tempo aquele um de novembro de há 261 anos que legou para a História, não só a onda de destruição e morte pela derrocada dos edifícios, pelo fogo e pela água, como a figura de um político tão prepotente como reconstrutor.
Quando o rei timorato, que desistiu de morar em palácio e passou a morar na barraca, perguntou que fazer, o Marquês de Alorna terá proferido a sentença que alguns atribuem ao Conde de Oeiras, Sebastião José de Carvalho e Melo, o futuro Marquês de Pombal: “cuidar dos vivos, enterrar os mortos e fechar os portos”. É lema repetido sempre que há momentos de calamidade pública. Terá sido esta a primeira sentença que a linguagem popular herdou do terramoto na sua realização mais simplificada, “cuidar dos vivos, enterrar os mortos”, como a coisa mais natural a fazer em caso de catástrofe ou em situações do quotidiano. Houve até um padre que assumiu este lema como programa pastoral.
Aquele segmento textual “encerrar os portos” justificava-se pelo possível oportunismo de algum recluso saído dos escombros das masmorras prisionais se evadir por via marítima ou os amigos do ouro e valores similares, que recolhiam o que encontraram nos escombros dos edifícios, aproveitarem ensejo para demandarem a estranja.
Talvez por isso e para obviar à inocentação dos até agora detidos, resistir à tentação de amnistia e perdão real e punir os que entendiam que o terramoto era castigo dos pecados, se lançou o repto comum e recorrente: “castigo aos criminosos”.
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Mas as expressões populares não se ficam por aqui e aquela do “castigo aos criminosos” tem origem duvidosa no episódio de um de novembro de 1755. Porém, se herdamos praças fabulosas como a Praça do Comércio em Lisboa (designação que o Marquês de Pombal quis dar ao Terreiro do Paço) ou a praça em frente do Paço em Vila Viçosa e ainda técnicas de construção assente em estacaria e pelo sistema de engaiolamento, também herdamos várias expressões para o linguajar popular:
- “Cai o Carmo e a Trindade é uma expressão popular portuguesa com origem como tantas outras na cidade de Lisboa, nomeadamente com o terramoto de 1755, e que se espalhou de norte a sul de Portugal. Significa uma situação de escândalo, surpresa ou descalabro ou um facto ou um acontecimento de grande impacto que provoca incredulidade ou, por ironia, factos sem importância dos quais se receiam consequências graves. Como exemplos, apresentam-se: “Quando ele vir a desarrumação lá em casa cai o Carmo e a Trindade!”. “O barulho dos trabalhadores é tal que parece que cai o Carmo e a Trindade.
A expressão terá tido origem segundo alguns autores, na destruição de dois conventos importantes da cidade de Lisboa com o terramoto. Os conventos do Carmo e da Trindade eram, antes do terramoto, dois dos mais importantes conventos do Bairro Alto lisboeta e, por isso, duas importantes áreas que constituíam a histórica freguesia do Sacramento. O convento da Trindade ou da Santíssima Trindade, fundado por Dom Afonso II (1185 – 1223), em 1218, veio a pertencer à Ordem dos Trinitários.  O grandioso e monumental convento do Carmo, fundado por Dom Nuno Álvares Pereira (1360 – 1431), o Condestável de Portugal, em 1389, foi ocupado inicialmente por frades da Ordem dos Carmelitas da Antiga Observância.  
A expressão popular remete para o sismo de 1755, já que aquela zona da freguesia foi uma das mais prejudicadas, tendo esses dois conventos ruído, para grande desgosto e terror dos lisboetas ante a tragédia. Na manhã do dia 1 de novembro de 1755, ouviu-se um enorme estrondo durante o sismo, era manhã cedo e os dois conventos, tal como outros templos, estavam cheios de fiéis que assistiam à missa do Dia de Todos os Santos. Quando os habitantes descobriram qual tinha sido a causa de tal barulheira, terão gritado incrédulos: Caiu o Carmo e a Trindade…”. Desses dois locais simbólicos, o antigo convento do Carmo, em que a igreja, ainda hoje se encontra praticamente como ficou depois do terramoto, tendo sido reconstruída uma ala do convento, mas interrompidos os trabalhos em 1834 aquando da extinção das ordens religiosas em Portugal. Na parte habitável do convento foi instalado, em 1836, um quartel militar (atualmente ocupado pela GNR) e, em 1863, o Museu Arqueológico do Carmo, no restante espaço, onde se mantém até hoje. O convento da Trindade ainda foi reconstruído, tendo durado mais umas décadas, mas acabou por ser parcialmente destruído mais tarde, em 1835, para a abertura da rua Nova da Trindade, tendo a Câmara Municipal de Lisboa dividido o espaço em lotes. No que restou do edifício e espaços contíguos, incluindo o antigo refeitório do convento, foi lá instalada, desde 1836, a Fábrica de Cerveja da Trindade e, mais tarde, a famosa Cervejaria Trindade, ainda hoje existente. A fachada e parte do interior do edifício estão revestidas com alguns azulejos retirados das ruínas do mesmo convento assim como muita da cantaria antiga que aí foi reutilizada.
- “Nem disse água vai nem água vem”. É uma das expressões que entrou na boca dos portugueses depois do terramoto, como explica Andreia Vale. Quando Sebastião José de Carvalho e Melo – o Marquês de Pombal – ficou responsável pela reconstrução da capital após o abalo, decidiu que ia implementar um sistema de esgotos. Na altura foi uma revolução e uma esperança para a higiene da cidade. É que, até aquele momento, a água suja de casa (que inclui até mesmo as da casa de banho) era atirada pela janela para a rua. Diziam as empregadas “Água vai!” e toda a gente sabia que o melhor era arredar-se das proximidades. A expressão “Nem disse água vai, nem água vem” surgia sempre que alguém fazia algum desses despejos sem avisar. E ficou para exemplificar exatamente a ideia de que alguém não fez o devido alerta ou aviso do que devia. Obviamente que o terramoto de elevada magnitude, seguido de um poderoso tsunami ou maremoto surgiu tão repentinamente que ninguém teve tempo para lançar qualquer alerta.
- “Resvés Campo de Ourique resulta do facto de as águas do tsunami gigantesco haverem entrado por Lisboa adentro e chegado, galgando a terra, bem perto do Campo de Ourique, então um dos pontos mais altos da cidade. Foi resvés. Isto quer dizer que essa parte exterior de Lisboa não foi atingida e a expressão quer dizer que alguém não foi afetado por um triz. No entanto, há quem diga que o Campo de Ourique era o limite da cidade oitocentista e, nesse caso, não se era de Lisboa por um triz, como agora não se recebe um benefício por um triz. Seja como for, a expressão é utilizada quando surge a necessidade de expressar alguma proximidade, por exemplo “a água chegou resvés a Campo de Ourique”, que foi o que de facto aconteceu na manhã do primeiro de Novembro de 1755.
Não obstante, alguns falam de especulação, pois sustentam que a única fonte física é a linha marcada no Convento de Santa Engrácia, vestígio da altura que a água atingira.
- “A real barraca”. Como se referiu acima, Dom José, depois do terramoto, deixou de viver no palácio e passou a viver numa tenda ou barraca na Ajuda. Agora, quando se vêm um complexo de tendas ou um desaire grave em resultado de medidas tomadas supostamente no interesse da coletividade, fala-se em “real barraca” ou “grande barraca”.
- “Um tostãozinho por Santo António”. As crianças de Lisboa pediam assim nas vésperas da festa do Santo a 13 de junho. Tal costume e expressão surgiram pelo facto de, por efeito do terramoto, ter sido necessário reconstruir muitos edifícios religiosos mediante peditório. Santo António como padroeiro popular de Lisboa (canonicamente o padroeiro era São Crispim, que cedeu o lugar a São Vicente) era o elemento unificador de tais esforços. Depois, passou o peditório com base nesta expressão popular a servir para levantar altares ao popular santinho nos bairros populares de Lisboa, aquando das festas e marchas.
- “Ir fazer tijolo”. Significa morrer. Isto, porque existiu um antigo cemitério mouro ou almocávar na Rua do Forno do Tijolo. Após o terramoto, os populares aproveitaram os materiais do dito cemitério para as obras de reconstrução da cidade. Com as pedras e a terra iam, muitas vezes, misturadas ossadas humanas. Tudo servia para fazer tijolo.
- “Ser um manteigueiro”. Ser boçal ou adulador. Como conta António Mendes Nunes, olisipógrafo, Domingos Mendes Dias, do concelho de Montalegre, após o terramoto, ganhou fama como vendedor de manteiga por grosso na capital. Enriqueceu e, em 1787, mandou edificar um palacete na Rua da Horta Seca n.º 18 (hoje ocupado pelo Ministério da Economia), tornando-se avarento ao envelhecer, vivendo miserável por mera sovinice. Vítima de um assalto em que foi ferido à navalhada, proibiu os médicos de lhe ministrarem remédios caros, pelo que morreu de gangrena.
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Para além de milhares de mortos e cerca de dez mil casas particulares, o terramoto atingiu inúmeros edifícios, entre eles, o Palácio Real da Ribeira; a Corte Real; o Palácio Real das Alcáçovas; o Castelo de São Jorge; a Casa da Relação e o Arquivo da Torre do Tombo (então situados no Castelo); os Conventos de São Francisco, do Carmo, da Trindade; os Conventos de freiras da Anunciada, de Sant'Ana, de Santa Mónica; as igrejas dos Mártires, do Sacramento, das Chagas, de Santo André de Alfama, de S. Bartolomeu, de Santo António da Sé, de São Julião, de São Nicolau, de São Vicente de Fora, entre muitos outros. Soterradas ou reduzidas a cinzas ficaram ainda inúmeras preciosidades artísticas e literárias, como a Biblioteca do Paço da Ribeira, que Dom João V enriquecera consideravelmente com livros estrangeiros e manuscritos.
Em Portugal, a Estremadura foi particularmente atingida numa área que cobriu a zona da costa até Peniche, Leiria, Alcobaça e Ourém. Santarém e Benavente e a foz do Sado, num espaço situado entre Setúbal e Sines, foram também afetadas. Torres Novas, Alenquer, Cascais, Alcácer do Sal e Grândola chegaram a registar os graus de intensidade X e IX. Também o Algarve e o Alentejo foram atingidos pelo megassismo, que nesta última região registou um grau de intensidade VIII. No Centro e no Norte do país, em locais como Coimbra, Cantanhede ou Aveiro, as consequências do terramoto foram pouco relevantes, havendo inclusivamente terras que não foram afetadas. Apesar de tudo isto, tão violento foi o terramoto em Lisboa, que a sua lembrança quase apaga os efeitos da destruição causada noutras áreas do país. Não se confinaram, porém, ao Reino os efeitos do megassismo, que se fez sentir também em Marrocos. A Andaluzia, nomeadamente Cádis, Sevilha, Huelva e Córdova, assim como Olivença, Cória, Madrid e o Escorial foram também atingidos.
Tanto a Gazeta de Lisboa, como os correios expressos, a via diplomática e a via comercial se encarregaram de difundir a notícia pelas cortes europeias. No estrangeiro, a notícia da catástrofe causou profunda impressão. A literatura da época reflete o horror inspirado pelo terramoto e as manifestações de simpatia e piedade humana que este despertou. A capital passou a ser vista como um teatro de ruínas, o que suscitava a compaixão e o auxílio dos outros povos.
Os efeitos do terramoto suscitaram, por outro lado, uma intensificação da caridade pública, que se manifestou através da dádiva de joias, roupas e mantimentos que a Fazenda Real, os nobres e os religiosos dispensaram às vítimas. Os mercadores dispuseram-se, por seu turno, a oferecer um donativo de 4% sobre os direitos aduaneiros que eram cobrados nas importações, o que duraria os anos necessários para reedificar as alfândegas do Reino. Para que Lisboa voltasse à normalidade, Carvalho e Melo logo deu ordem ao capitão Eugénio dos Santos e ao mestre pedreiro Patrício da Silva para visitarem as igrejas atingidas, a fim de que a reconstrução da cidade pudesse ser concretizada no mais breve espaço de tempo possível.

Cf: Carvalho, Sérgio Luís (2010), Nas bocas do mundo – Uma viagem pelas histórias das expressões portuguesas, Lisboa: Edições Planeta; DIAS, Marina Tavares (1994), Lisboa Desaparecida, vol.  4, Lisboa: Quimera Editores L.da, 1994; NEVES, Orlando (1992), Dicionário das Origens das Frases Feitas, Porto: Lello & Irmãos Editores; SANTOS, António Nogueira (2000), Novos Dicionários de Expressões Idiomáticas, Lisboa: Edições João Sá da Costa.

2016.11.04 – Louro de Carvalho