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sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Sobre a gestão da água e outros recursos naturais


Realizou-se esta quinta-feira, 8 de novembro, na Pontifícia Universidade Urbaniana, em Roma, a Conferência internacional sob o tema “A gestão de um bem comum: acesso à água potável para todos” – evento organizado pelo Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, em colaboração com as embaixadas junto da Santa Sé de França, Itália, Mónaco e Estados Unidos.
O Papa enviou, a 7 de novembro, aos participantes na Conferência uma lancinante mensagem, em que define como uma “enorme vergonha para a humanidade do século XXI” os nossos irmãos adoecerem e morrerem em decorrência da falta de água ou consumo de água insalubre. E explicita que, enquanto consensualmente se reconhece que “a água é essencial para a vida”, em muitas partes do mundo, nossos irmãos e irmãs “não podem ter uma vida decente precisamente por causa da falta de acesso a água limpa”. E são as estatísticas dramáticas da sede, sobretudo as atinentes à situação dos que adoecem e morrem de água contaminada, que induzem a severa conclusão de que estes factos são uma vergonha para a humanidade do século XXI.
Segundo Francisco, a falta de água potável e o consumo de água insalubre ocorrem nas mesmas regiões onde não faltam armas e munições. Diz o Pontífice a respeito deste tópico:
Infelizmente, em muitos dos países onde a população não tem acesso regular à água potável, não faltam suprimentos de armas e munições que continuam a deteriorar a situação! A corrupção e os interesses de uma economia que exclui e mata, muitas vezes, prevalecem sobre os esforços que, em solidariedade, devem garantir o acesso à água.”.
Infere, como é recorrente no seu discurso humanitário, que na origem destes desconcertos está a corrupção e os interesses economicistas mortais, prevalecendo sobre os ditames da boa convivência, cooperação e solidariedade em prol do bem-estar de todos e de cada um.
O Pontífice recorda o empenho da Santa Sé e da Igreja em prol do acesso à água potável para todos – empenho que se manifesta em múltiplas iniciativas, desde a realização de infraestruturas à assistência às populações em perigo, sempre evocando as referências éticas e os princípios contidos no Evangelho numa visão positiva da antropologia. E explana:
Já propus algumas considerações sobre este assunto na Encíclica Laudato si’ e na recente Mensagem por ocasião do Dia de Oração pelo Cuidado da CriaçãoEspero que aqueles que intervêm e participam nesta Conferência possam compartilhar em seus respetivos campos profissionais e políticos a necessária urgência, vontade e determinação. A Santa Sé e a Igreja estão comprometidas no acesso à água potável para todos. Este compromisso manifesta-se em muitas iniciativas, como a criação de infraestruturas, formação, advocacia, assistência a populações ameaçadas cujo abastecimento de água está comprometido, incluindo migrantes, e o apelo ao conjunto de referências e princípios éticos que brotam do Evangelho e de uma antropologia saudável.”.
Água é direito, não mercadoria – proclama o Bispo de Roma, sustentado numa adequada antropologia em que se reconhece o acesso à água potável como direito humano, portanto incompatível com a conceção da água como uma qualquer mercadoria. Assim, acentua:
Uma antropologia adequada é, na verdade, um pré-requisito indispensável para estilos de vida responsáveis e solidariedade e para a verdadeira ecologia (vd Laudato si’, 118.122), bem como para o reconhecimento do acesso à água potável como um direito que flui da dignidade humana e, portanto, incompatível com o conceito de água como qualquer produto”. 
Convicto de que são os valores e princípios do Evangelho que devem orientar o compromisso concreto de cada um para a realização do bem comum a toda a família humana (cf Evangelii Gaudium, 179-183), o Pontífice sublinha que, do ponto de vista da fé radicada nas Escrituras, em cada homem sedento se reconhece a própria imagem de Deus, pelo que não pode ignorar-se a dimensão espiritual e cultural da água em prol da comunidade. E frisa, a este respeito:
Do ponto de vista da fé, em cada homem sedento percebemos a mesma imagem de Deus, como lemos no Evangelho de Mateus: “Eu estava com sede e destes-me de beber” (Mt 25,42). Esta Conferência oportunamente envolve expoentes de diferentes credos e culturas; a dupla dimensão espiritual e cultural da água nunca deve ser negligenciada, pois é fundamental moldar o tecido social, a coexistência e a organização comunitária.
O Santo Padre, por fim, convida os participantes a meditarem sobre a simbologia da água nas principais tradições religiosas, exortando-os à contemplação deste recurso, como São Francisco de Assis, que encarou a água como “multo utile et humile et Preziosa et casta”, e ao compromisso concreto para uma melhor gestão deste recurso. E implorou a bênção do Altíssimo Criador para cada um e suas famílias, nas iniciativas voltadas para uma melhor gestão da água. 
Em suma, são as estatísticas da sede que exigem vontade e determinação e todos os esforços institucionais, organizacionais, educacionais, tecnológicos e financeiros.
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Também Manuela Silva, membro da Rede Cuidar da Casa Comum, aborda um outro problema conexo com a gestão da água, ora em debate no país, destacando a responsabilidade dos políticos, por vezes, fechados numa funesta “visão míope”.
Não é aqui o aproveitamento da água que está em causa, mas a defesa da orla costeira contra as investidas do mar, que eleva o seu nível e põe a sua água em fúria prejudicando o litoral.
Disse à agência Ecclesia a ativista que a intenção do Governo em se debruçar sobre o problema da orla costeira portuguesa se coloca “praticamente em todo o litoral do continente europeu” e não só na orla costeira de Caminha a Espinho.
Este insigne membro da Rede ‘Cuidar da Casa Comum’, que reúne várias instituições e organizações, nomeadamente cristãs, no âmbito da causa ambiental e ecológica, contextualizou:
Nós estamos numa fase marcada por grandes alterações climáticas e tudo isso tem que ser devidamente acomodado nas decisões que implicam o futuro coletivo”.
Depois, apontou o dedo:
Muitas vezes, os nossos decisores, por razões várias e, por vezes, por interesses político-partidários do momento, acabam por se deixar vencer por uma visão míope”.
No dia 12 de novembro vai ser colocado para consulta pública por 30 dias um novo plano de ordenamento da orla costeira, do Ministério do Ambiente, orientado para a proteção de mais de 122 quilómetros da costa portuguesa. Este plano de ordenamento da orla costeira, da responsabilidade da Agência Portuguesa do Ambiente, abrange 9 municípios entre Caminha e Espinho e prevê a demolição de pelo menos 34 edifícios, a maior parte deles ligados à área da restauração e do comércio. O seu objetivo é limitar e mesmo proibir a construção de casas nas zonas junto ao mar e fazer recuar de forma planeada pelo menos 14 aglomerados atualmente colocados em zonas consideradas mais críticas, pois estão em causa habitações em risco, mais vulneráveis a condições climatéricas adversas ou inundações, e outras que foram ilegalmente edificadas em zonas protegidas, como dunas ou arribas.
No novo plano para a orla costeira estão identificadas pelo menos 46 áreas mais sensíveis e 13 de risco especialmente elevado, mais concretamente nas localidades de Moledo e de Ofir.
O Governo prevê investir neste novo plano de ordenamento da orla costeira uma verba de cerca de 470 milhões de euros, distribuída pelos próximos 10 anos. Mas, para Manuela Silva, para lá das intervenções a fazer, é essencial “acautelar devidamente os interesses das pessoas que vão ser afetadas, positiva ou negativamente por esta medida”, pois, como salienta:
Trata-se de problema muitíssimo difícil de resolver, porque, em alguns casos, o processo implica a demolição de património que está instalado há vários anos e que inclusivamente constitui para as pessoas que lá habitam uma fonte de rendimento, de trabalho, de emprego”.
A antiga presidente da Comissão Justiça e Paz, da Igreja Católica em Portugal, saúda neste sentido a colocação de todo este processo em apreciação pública e espera que “haja uma grande adesão a esse debate, designadamente por parte das entidades envolvidas, sejam as autarquias sejam os atores económicos da zona afetada, com a consciência de que a decisão que venha a ser tomada tem que contemplar um horizonte de largo prazo”.
Têm vários municípios abrangidos por este projeto tecido críticas a esta estratégia, preocupados com a forma como se prevê a colmatação dos espaços vazios que vão ser deixados e com o modo de fazer a adaptação do edificado. Um dos edifícios a demolir é o Edifício Transparente, no Porto, construído em 2001 no âmbito da iniciativa Porto – Capital Europeia da Cultura, um projeto na altura orçado em 7,5 milhões de euros.
Segundo Manuela Silva, este caso só reforça a ideia de que nem sempre há, por parte do poder político, uma visão de “futuro”, também quanto à promoção de projetos desta envergadura.
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Todas estas matérias estão contempladas doutrinal e pastoralmente na Laudato si’, cuja difusão está a ser bloqueada, pelo que o Cardeal Peter Kodwo Appiah Turkson, prefeito do Dicastério para o Desenvolvimento Humano Integral, lança o apelo à colegialidade para ultrapassar esses bloqueios.
Tal apelo surge no contexto da apresentação, na Universidade Gregoriana, do segundo curso do Joint Diploma em Ecologia Integral inspirado na Laudato si’.
“Apóstolos da Laudato si’ e do Evangelho da Criação” são expressões de Turkson ao definir os participantes do predito curso – um percurso de estudos coordenado por dez universidades e ateneus pontifícios de Roma para promover o cuidado da Criação como o Papa indicou na encíclica.
O Cardeal evidenciou a urgência de intervir nas temáticas ambientais, pois as promessas dos Acordos de Paris de 2005 (Cop 21) não foram mantidas; falou do grande interesse do mundo, não só católico, pela Laudato si’; e exortou a Igreja a uma maior colegialidade na difusão do texto do Papa, dizendo:
A rede da Igreja Católica é muito admirada, graças à qual as palavras do Papa conseguem chegar nos lugares mais remotos do planeta, mas às vezes, por causa de alguns sacerdotes ou bispos, assistimos a um bloqueio do afluxo das informações e dos conhecimentos”.
Durante a apresentação, foram entregues os diplomas aos participantes da 1.ª edição do ano académico de 2017-2018, estudantes, leigos e empresários provenientes de vários países.
O Joint Diploma é formado por 6 módulos (realizados nas várias universidades participantes), correspondentes aos 6 capítulos da Laudato si’, e abrange várias áreas ligadas aos desafios ecológicos: da teologia à filosofia, da economia à espiritualidade. É um projeto comum das Universidades pontifícias de Roma para a difusão da visão e da missão da Encíclica Laudato si’. Participam estudantes das universidades pontifícias, mas é aberto a membros de ordens religiosas, sacerdotes e agentes pastorais que tenham diploma universitário ou de ensino médio.
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Está visto que não basta aclamar o Papa, mas que é preciso ouvi-lo (como advertia São João Paulo II) e segui-lo. Não basta publicar uma bela encíclica, mas é preciso pô-la em prática. Não basta ter um bom programa de governo ou um bom projeto setorial, mas é preciso pautar a sua execução por um sólido quadro ético no respeito pela dignidade humana e na prossecução do bem comum.
2018.11.10 – Louro de Carvalho

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

De Pedro Julião ou Pedro Hispano a Papa João XXI


No passado dia 26 de setembro, com início às 21,30 horas, decorreu, na “Comuna Teatro de Pesquisa” (Café Teatro), na Praça de Espanha mais uma das SESSÕES CODEX em torno da figura de João XXI, Papa português, sob a moderação de Mário Soares, com a participação de Armando Norte, José Eduardo Franco e Padre Carlos Azevedo.
As SESSÕES CODEX são tertúlias culturais e artísticas dedicadas à vida e ao legado de figuras marcantes da História de Portugal. Em cada sessão, em ambiente tertuliano, os convidados CODEX manifestam novos olhares em formato aberto sobre a figura escolhida, permitindo a cada pessoa uma interpretação livre da personagem.
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Pela resenha biográfica apresentada nas SESSÕES CODEX
João XXI, nascido Pedro Julião Rebolo (mais conhecido como Pedro Hispano), em 1215, em Lisboa, segundo a maior parte dos historiadores, ou em Coimbra, segundo alguns e falecido como João XXI em Viterbo, a 20 de maio de 1277, foi papa de 20 de setembro de 1276 até à data da sua morte. E ficou conhecido como um famoso médico, filósofo, professor e matemático português do século XIII.
Começou os seus estudos na escola episcopal da catedral de Lisboa, tendo mais tarde estudado na Universidade de Paris (alguns historiadores afirmam que terá sido na Universidade de Montpellier) com mestres notáveis, como Alberto Magno, e tendo por condiscípulos Boaventura e Tomás de Aquino, grandes nomes do cristianismo. Lá estudou medicina e teologia, dedicando especial atenção a palestras de dialética, lógica e sobretudo a física e metafísica de Aristóteles.
Entre 1246 e 1252 ensinou medicina na Universidade de Siena, onde escreveu algumas obras, com destaque para o tratado ‘Summulæ Logicales’, o manual de referência sobre lógica aristotélica durante mais de 300 anos, nas universidades europeias, com 260 edições em toda a Europa, traduzido para grego e hebraico.Prova da sua vasta cultura científica é o ‘De oculo’, tratado de oftalmologia, com ampla difusão nas universidades europeias. Miguel Ângelo, ao adoecer gravemente dos olhos, mercê do árduo labor investido na decoração da Capela Sistina, encontrou remédio numa receita de Pedro Hispano. É também o autor do ‘Thesaurus Pauperum’, que trata de várias doenças e suas curas, com cerca de uma centena de edições e traduzido para 12 línguas.No âmbito da Teologia, subscreve ‘Comentários ao pseudoDionísio’ e ‘Scientia libri de anima’. E encontra-se por publicar o ‘De tuenda valetudine’, manuscrito em Paris, dedicada a Branca de Castela, esposa do rei Luís VIII de França, filha de Afonso IX de Castela.Antes de 1261, ano da sua eleição para decano da Sé de Lisboa, ingressou no sacerdócio. O rei Afonso III de Portugal confiou-lhe o priorado da Igreja de Santo André (Mafra) em 1263, posto que o elevou a cónego e deão da Sé de Lisboa, Tesoureiro-mor na Sé do Porto e Dom Prior na Colegiada Real de Santa Maria de Guimarães.
Pontífice dotado de rara simplicidade, João XXI irá marcar o seu breve pontificado (de pouco mais de 8 meses) pela fidelidade ao XIV Concílio Ecuménico de Lião. Apressou-se a mandar castigar, em tribunal criado para o efeito, os que haviam molestado os cardeais presentes no conclave que o elegera. E, embora sem grande sucesso, prosseguiu a missão encetada por Gregório X de reunir a Igreja Grega à Igreja do Ocidente, além de se ter esforçado por libertar a Terra Santa do poder dos turcos. Tentou ainda reconciliar grandes nações europeias, como França, Germânia e Castela, no espírito da unidade cristã, enviando (sem sucesso) legados a Rodolfo de Habsburgo e a Carlos de Anjou. Recebeu em audiência tanto os ricos como os pobres.
O poeta italiano Dante Alighieri (1265-1321), na Divina Comédia, coloca a alma de João XXI no Paraíso, entre as almas que rodeiam a de São Boaventura, apelidando-o de “aquele que brilha em doze livros”, menção clara aos 12 tratados escritos pelo erudito pontífice. E o rei Afonso X de Leão e Castela, o Sábio, avô de Dom Dinis de Portugal, elogiou-o em forma de canção no canto XII de ‘Paraíso’. Mecenas de artistas e estudantes é tido na sua época por ‘egrégio varão de letras’, ‘grande filósofo’, ‘clérigo universal’ e ‘completo cientista físico e naturalista’.
Mais entregue ao estudo que às tarefas pontifícias, delegou no Cardeal Orsini, o futuro Papa Nicolau III, os assuntos correntes da Sé Apostólica. E, sentindo-se doente, retirou-se para Viterbo, onde faleceu a 20 de maio de 1277, vitimado pelo desmoronamento das paredes do seu aposento, estando o palácio apostólico em obras. Foi sepultado junto do altar-mor da Catedral de São Lourenço, naquela cidade. No século XVI, durante os trabalhos de reconstrução do templo, os seus restos mortais são trasladados para modesto e ignorado túmulo. Porém, através do contributo da Câmara Municipal de Lisboa e do presidente João Soares, o mausoléu foi colocado em definitivo do lado do Evangelho na Catedral de Viterbo, a 28 de março de 2000. (cf Codex Pedro Hispano, o papa Feiticeiro, https://www.viralagenda.com/pt/events/639490/codex-pedro-hispano-o-papa-feiticeiro).
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Aspetos significativos da biografia elaborada pelo historiador Armando Norte
Em outubro de 2016, o historiador Armando Norte publicou a biografia João XXI – O Papa Português (da Esfera dos Livros), onde conta a misteriosa história da vida e morte de Pedro Hispano: padre, médico, filósofo, alquimista, com fama de mago, e Papa que, tendo entrado em divergência com o rei português Dom Afonso III e lhe manteve a excomunhão, se tornou o português com mais poder no mundo antes de António Guterres chegar à ONU.
O conclave que elegeu Pedro Julião/Pedro Hispano
Segundo o predito biógrafo, em 13 de setembro de 1276, o conclave, reunido em Viterbo (Itália), elegeu Papa o cardeal-bispo Pedro Julião, de Lisboa, conhecido nos meios intelectuais e académicos como Pedro Hispano, que assumiu o nome de João XXI, tornando-se no “mais importante indivíduo do seu tempo e num homem ungido para a eternidade”.
O número de conclavistas era diminuto: dada a recente morte de dois cardeais-diáconos, o sacro colégio era composto por 11 elementos. Entretanto, um dos cardeais morreu durante o conclave e outro faltou por motivos desconhecidos. Portanto, só 9 ficaram com a decisão eleitoral. Dois desses homens eram cardeais-bispos, um dos quais o próprio Pedro Julião; três eram cardeais-presbíteros; e os outros quatro eram cardeais-diáconos. Todos eles eram repetentes em eleições papais e alguns acabaram por ser eleitos papas em conclaves posteriores.
Como Papa, Pedro Julião era a máxima autoridade política e religiosa do mundo cristão, juiz de última instância em todas as disputas, único legislador em matéria eclesiástica, legitimador e derrubador de reis, chefe da hierarquia católica e supremo representante de Deus na Terra, com a possibilidade de excomungar e lançar interditos, declarar guerras, fazer a paz. Era dono de um poder sem rival na Idade Média.
Porém, a escolha surpreendeu pelo facto de o eleito não pertencer as famílias da nobreza romana, itálica, ou gaulesa, cujos membros eram tradicionalmente eleitos para ocupar a mais alta posição da Igreja Católica Romana. Mas, na aparente fragilidade de apoios, residirá uma das razões para a decisão, emergindo o português como via capaz de assegurar a manutenção dos equilíbrios existentes no interior do cardinalato. E importa sublinhar que a escolha não era inócua, “antes plena de efeitos, significados e consequências”. Naquele século, o Papa era a principal personalidade política no concerto internacional de poderes, fruto da preponderância duma Igreja pujante e de forte programa centralizador incrementado pelo papado durante a alta Idade Média, cujo apogeu coincidiu com o pontificado de Inocêncio III (1198-1216). Na verdade, com o crescimento da Igreja em complexidade e dimensão, complexificou-se e alargou-se a estrutura hierárquica e a máquina burocrático-administrativa, bem como se logrou a melhoria substancial do aparelho fiscal. A essa política de sedimentação do poder da Igreja, liderada pelo papado, dá-se comummente o nome de teocracia papal.
Desperta curiosidade na designação de João XXI o facto de não haver João XX na lista dos papas. A razão do lapso é a errada contabilização de Martinho Polónio (de origem eslava), dominicano contemporâneo de Pedro Hispano e muito apreciado como pregador e canonista.
A morte de Pedro Hispano por derrocada do seu apartamento foi tida como prova do seu caráter malévolo por magia (e alegados desregramentos de conduta, passando pelo laxismo no governo eclesiástico), ou castigo divino por suposto pretensiosismo, incluindo o de achar que viveria muitos anos.
A vida do professor e médico em Paris e Siena
Sabe-se muito pouco do percurso de Pedro Julião: sobram rastos difusos, abundam becos sem saída, acumulam-se, tantas vezes prodigiosamente, as brumas, sobretudo no atinente à infância e primeira juventude. Do reconstituível, infere-se que o futuro Papa terá nascido no início do século XIII, em data que a tradição situa no intervalo entre os anos 10 e 20, mas que a crítica histórica aproxima do início da primeira década. Provavelmente terá nascido em Lisboa, embora haja hipóteses alternativas (pouco fundamentadas) de ter nascido em Coimbra. Quanto às origens familiares, tudo se resume a algumas especulações sobre o nome e profissão do pai, talvez um médico, de nome próprio Julião, atendendo às regras da onomástica medieval e ao uso generalizado do sistema de patronímico em Portugal, ignorando-se em absoluto o estatuto social da sua família e o seu nível de riqueza e património.
Terá sido na Sé de Lisboa e na escola capitular anexa que Pedro Julião passou os seus primeiros anos. É de supor que o seu trajeto escolar tenha sido semelhante ao de muitos outros oblatos, jovens entregues à Igreja pelos pais para se dedicarem ao serviço de Deus, a entrada no sacerdócio, passando pelo cumprimento dos primeiros estudos com base nos salmos, introdução à liturgia e ao ritual e iniciação aos Evangelhos e à doutrina católica. Nestas primeiras etapas, Pedro Julião terá alcançado grande sucesso, já que, pouco tempo depois, foi enviado para a Universidade de Paris para estudos mais avançados, lá continuando a dar aulas após a conclusão dos estudos. E deu aulas de medicina em Siena, no final da década de 1240, não estando esclarecido onde terá contactado com as ciências médicas: Em Salerno, Montpellier, em Paris? Anos mais tarde, foi nomeado mestre-escola na catedral de Lisboa, mas o regime de absentismo afasta a hipótese de aí ter ensinado, a não ser durante estâncias muito breves.
O conselheiro e arcebispo que manteve a excomunhão de Dom Afonso III
No âmbito eclesiástico, Pedro Julião recebeu vários benefícios, apesar das disposições que então procuravam limitar os fenómenos da acumulação para evitar a apropriação abusiva de cargos e de rendimentos. Percorreu quase todo o cursus honorum da Igreja do seu tempo: cónego, mestre-escola, arcediago e deão. Também foi conselheiro régio e, já em contexto apostólico, terá ficado a seu cuidado a saúde de Gregório IX. Ademais, desempenhou legações a mando de Inocêncio V na condição de comissário papal até alcançar a posição de cardeal-bispo de Túsculo (Itália). Foi um trajeto variado e com marcos importantes, incluindo passagens por duas das mais importantes dioceses portuguesas, a arquidiocese de Braga e a sé de Lisboa, e a nomeação para o governo da igreja de Guimarães, posição sempre muito disputada ao nível do reino português e reservada a figuras de grande projeção da cena política e eclesiástica.
Decisiva para essa caminhada foi a desenvoltura com que sempre se moveu nos círculos de poder, designadamente junto da corte régia e da Santa Sé, conseguindo insinuar a sua presença, com sucesso, junto do rei Afonso III (de quem divergiria mais tarde) e de mais do que um pontífice. No geral, foi um percurso diferenciado e sólido que o capacitou para a carreira bem-sucedida que desenvolveu junto da Cúria romana, primeiro como cardeal, depois como Sumo Pontífice.
A relação entre Pedro Julião e Afonso III parece ter sido marcada, na sua origem e durante um período de tempo considerável, por grande proximidade e sentimentos mútuos de afeto e respeito. O futuro João XXI serviu o rei como procurador em várias ocasiões, integrou o conselho régio e, provavelmente, foi enviado a desempenhar missões diplomáticas junto da Cúria apostólica em defesa dos interesses portugueses. A contrario, as razões da rutura posterior entre os dois homens parecem prender-se, em grande medida, com o processo de escolha para bispo da Sé de Lisboa, vago pela morte do bispo Aires Vasques (1258-1282). Por conveniência dos interesses políticos, o monarca patrocinou a eleição de mestre Mateus para bispo de Lisboa. Em discordância aberta com o rei, Pedro Julião encabeçou um movimento alargado de protesto no interior do cabido, numa altura em que era o deão em funções e em que terá aspirado a ser ele próprio nomeado para prelado da diocese lisboeta. O desenlace acabaria em desfavor de Pedro Julião e do cabido que o secundava, pois foi eleito mestre Mateus para a posição em causa. Anos mais tarde, ao ser eleito Papa, João XXI não esqueceria o episódio e, como os seus antecessores, acusou o rei de prática sistemática de abusos e desmandos contra a Igreja em Portugal e de ser “um crónico afrontador das liberdades eclesiásticas”. Manteve os interditos sobre o reino e renovou as excomunhões feitas ao rei.
Um filósofo, médico e alquimista com reputação de mago
A popularidade de que gozou durante a medievalidade, prolongada no Renascimento e persistindo até hoje, tem uma origem bastante diferente: remete para a sua dimensão de intelectual e para os contributos que lhe são atribuídos no âmbito da história da ciência e história das ideias, em concreto os estudos que dedicou aos ramos da filosofia e da medicina.
Porém a vasta produção bibliográfica, a diferente natureza dos assuntos e a coerência interna dos textos de Pedro Hispano ou que lhe foram creditados, desde o século XIV, tendo como premissa a sua vasta ciência, assumida pelo próprio e asseverada em crónicas (contemporâneas e posteriores), suscitam reservas no atinente à atribuição a uma única personalidade.
Entre tantas dúvidas, a crítica textual mais recente parece pouco inclinada a atribuir ao pontífice todos os tratados que compõem o habitual cânone de manuscritos que lhe são consagrados. E há especialistas que sustentam que poucos desses trabalhos, ou (exageradamente) nenhuns, devem ser atribuídos a João XXI, propondo-os como a produção de um ou vários Pedros Hispanos seus contemporâneos. Esta polémica, não estéril, é inconclusiva, mas obriga a distinguir, no conjunto das obras imputadas a Pedro Hispano, entre a produção cuja autoria se encontra suficientemente estabilizada e os escritos cuja catalogação e atribuição suscitam maior discussão.
As dificuldades em estabelecer com rigor a autoria das obras de João XXI são inúmeras e estão longe de ser um exclusivo do Papa português. São muito numerosos os autores e escritos da medievalidade que subsistem enredados em polémicas, enfrentando problemas insolúveis, eivados de propostas contraditórias, baseadas em variado tipo de argumentos: filológicos, caligráficos, cronológicos, ontológicos, etc.
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Seja como for, considerando apenas o corpo de obras de Pedro Hispano fixado com maior rigor e descontando os muitos textos em relação aos quais existem reservas, verifica-se que a sua quantidade, qualidade e impacto foram muito desiguais. Neste aspeto, as obras sobreviventes de medicina e de lógica sobrepõem-se às restantes em número, importância e repercussão. Olhando às quantidades produzidas, fica-se com a perceção de que o Hispano se ocupou em especial de tratados médicos. Contam-se neste capítulo cerca de três dezenas de escritos, a que se seguem, a larga distância, as obras de filosofia e de alquimia. Só depois vêm as peças de teologia. Quanto aos escritos sobre zoologia, afiguram-se residuais no conjunto da sua produção intelectual. Mas há ainda a assinalar uma obra, em tudo excêntrica ao resto da sua produção, um tratado em verso sobre os elementos atmosféricos.
No campo dos saberes médicos, o Hispano comentou praticamente todas as principais autoridades em que assentava a aprendizagem nas escolas medievais na área de medicina, em conformidade com o elenco da escola médica de Salerno, fundada no século X e que teve um enorme impacto na evolução da história da medicina. Quanto à adesão à alquimia, o interesse pela química medieval era, ao tempo, inseparável do mundo do ocultismo e das ciências ocultas, o que lhe valeu, em alguns círculos, a pejorativa e controversa reputação de mago.
E foi num contexto de grande efervescência intelectual, marcado pela recuperação no Ocidente de obras de Aristóteles, que o Hispano redigiu os manuscritos filosóficos responsáveis por lhe assegurar um lugar na História da Filosofia. Entre os trabalhos que lhe são imputados com mais insistência e segurança, são indiscutivelmente os mais famosos e celebrados: o ‘Thesaurus pauperum’, no domínio das ciências médicas, e as ‘Summulae logicales’, no ramo da lógica.
O ‘Thesaurus pauperum’ é um rol de conselhos e preceitos médicos, com um copioso número de receitas – algumas das quais elaboradas pelo próprio Pedro Hispano – atinentes à quase totalidade do conjunto conhecido das doenças humanas na medievalidade. Os males e as receitas são apresentados segundo um critério anatómico num texto que se inicia com um rol de prescrições para as maleitas que atingem a cabeça e culmina com o catálogo das doenças e receitas relacionadas com os pés.
No respeitante às ‘Summulae Logicales, referidas também por ‘Tractatus’ e outras designações, alcançaram fama em função da doutrina lógica exposta, que apresentava e compatibilizava tendências filosóficas opostas, nomeadamente entre os nominalistas (que aprofundaram as questões semânticas e os significados dos nomes em filosofia) e os realistas (que entendiam os conceitos universais como sendo reais). Embora reconhecida unanimemente, a importância das Sumulae como texto didático, tem variado largamente conforme as interpretações sobre o seu valor intelectual e científico. Vêm, porém, espelhados nos compêndios de Filosofia Escolástica (na dialética) do século XX. 
Mas é devido à sua produção científica e, especialmente, a estas duas obras – o Thesaurum pauperum e as Summulae logicales – que Pedro Hispano, o Papa João XXI, deve muito da sua celebridade, sem o que, não obstante o seu notável percurso eclesiástico, não passaria de uma pequena nota de rodapé na História. Em especial, foram as Summulae Logicales, que cercaram de larga fama o seu nome. A esse livro, aludiu Dante na Divina Comédia (1321). E foi por causa desse livro que o autor florentino reservou a João XXI um lugar no Paraíso. Era essa a ambição dum cristão na Idade Média; teria de ser essa a máxima aspiração de um homem da Igreja como fora o português toda a vida; e, acima de tudo, seria essa a aspiração de um pontífice, o representante de Deus na Terra: entrar no Paraíso, alcançar o lugar final da Bem-Aventurança.
Os caminhos da justiça e o espírito de Cruzada
Tomado o nome apostólico, Pedro Julião procedeu à escolha da divisa e insígnias que daí em diante o identificariam. A divisa que escolheu foi “Dirige, domine Deus meus, in conspectu tuo viam meam” (Guia-me, Senhor meu Deus, pelos caminhos da tua justiça – Sl 5,9-10) – um lema que talvez remeta para a personalidade controversa que muitas crónicas apontam. Quanto às insígnias, o recém-eleito optou por apresentar no brasão de armas, como ornamentos exteriores, os símbolos típicos da heráldica dos romanos pontífices, de acordo com o ritual latino: no topo, a tríplice tiara, correspondente às três funções apostólicas de ensinar, santificar e governar; ao centro, as duas chaves cruzadas, uma de cor dourada e a outra prateada, simbolizando as chaves do Reino dos Céus, atributo iconográfico associado a Pedro, o príncipe dos Apóstolos, que segundo o Evangelho de Mateus as recebera do próprio Cristo (Mt 16,18-19); na base do brasão, duas borlas pendentes da extremidade duma corda que entrelaçava as chaves (a corda é de cor púrpura, associada aos pontífices de Roma, entendidos como herdeiros da púrpura imperial romana); e, no interior do brasão, o escudo de João XXI, reconhecível pela forma esquartelada ou quadripartida que apresentava.
Resolvidas as questões formais, simbólicas e protocolares, João XXI envolveu-se numa intensa atividade executiva e legislativa, como se pode conferir pela leitura do registo oficial dos seus diplomas, as ‘Regesta’. As ‘Regesta’, cópias de cartas papais e de outros documentos oficiais, com valor notarial, eram preservadas nos arquivos da chancelaria apostólica, arquivadas em volumes próprios para o efeito e destinadas à manutenção de um registo interno para conservar e validar os atos dos vários papas. Mais modernamente acabaram por tomar o idêntico nome de ‘Regesta’ as publicações com a lista de documentos promulgados por cada pontífice, dispostos por ordem cronológica e com sumários cuidadosos dos conteúdos desses atos.
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Nos breves oito meses em que foi incontestavelmente a figura mais importante da Cristandade, João XXI elaborou uma significativa produção diplomática, materializada naqueles registos, que ultrapassou a centena de bulas e cartas apostólicas. E esse corpo documental permite perceber as principais orientações políticas a desenvolver, que se podem resumir na defesa da supremacia religiosa e política do Papa na Cristandade, no desejo de unidade entre as igrejas de Roma e de Constantinopla, na luta contra o inimigo de Fé, o Islão (materializada num fervoroso espírito de Cruzada), e no combate às heterodoxias doutrinais e aos desvios de fé, como sucedeu na famosa disputa entre averroístas e agostinianos, que dividiu a Universidade de Paris.
No plano político, João XXI, ao chegar ao pontificado, teve de atuar em várias frentes pôr fim a vários dos problemas que herdara: conciliar os reis de França e de Castela-Leão, respetivamente Filipe III e Afonso X, em luta pelo controlo da área de Navarra; sanar a questão do título de imperador dos romanos, reivindicado por Carlos de Anjou, rei da Sicília, e por Rodolfo de Habsburgo, imperador do Sacro Império Germânico; sufocar a turbulência que pairava na área itálica e que agitava comunas rivais, como Perúgia e Assis, mas que também afetava as relações das comunas com o papado; e repor a autoridade da Igreja face à desobediência de reis em conflito aberto com alguns setores da Igreja, como sucedia no caso português, com Afonso III.
Porém, apesar do seu fulgurante trajeto eclesiástico e dos ambiciosos projetos políticos que protagonizou, amplamente testemunhados pelos registos da chancelaria papal, a sua morte de, oito meses depois de eleito, não lhe permitiu deixar uma marca impressiva na história da Igreja.
(cf Armando Norte, João XXI – O Papa Português, referido e Armando Norte, Papa João XXI. O português mais poderoso de sempre antes de Guterres in Observador jornal on line, 16 de outubro de 2016: https://observador.pt/especiais/papa-joao-xxi-o-portugues-mais-poderoso-de-sempre-antes-de-guterres/; Francesco X. Calcagno, Philosophia Scolastica, Vol. Primum, ed. 4.ª, M. D’Auria Pontificius Editor, Neapoli, Italia: 1963, pgs 90-94).
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Em Janeiro de 1277, João XXI interveio numa disputa entre teólogos na Universidade de Paris que marcou o seu pontificado. Alguns professores foram acusados pelo bispo de Paris, Étienne Tempier, de defender teses contra a fé cristã. Antes de tomar posição, o Papa pediu ao bispo que averiguasse o que se passava. Mas o prelado antecipou-se e condenou mais de cem teses, entre elas, algumas defendidas pelo dominicano Tomás de Aquino. Os dominicanos culparam João XXI e não lhe perdoaram
Quando morreu, João XXI foi enterrado na Catedral de São Lorenzo, em Viterbo, junto ao altar-mor. Mas, ao longo dos séculos a sua sepultura mudou várias vezes de lugar. Em 1560, o cardeal Gambara levantou a campa para fazer obras. As ossadas foram colocadas num sarcófago atrás da porta da nave central da igreja. Em 1726, o túmulo voltou a ser removido e, desta vez, depositado junto à entrada. No século XIX, o embaixador de Portugal junto à Santa Sé, o duque de Saldanha, mandou construir um monumento digno para acolher as ossadas do Papa. Mas este diplomata morreu e a obra não foi concluída. Então, em 1886, por iniciativa do bispo de Viterbo, o túmulo foi trasladado para uma das capelas da catedral, a de São Filipe. Durante a II Guerra Mundial, a catedral foi bombardeada e a capela de São Filipe ficou em ruínas. O representante da Santa Sé em Portugal, Monsenhor Fernando Cento, solicitou uma nova localização. Mas esta só foi concretizada no ano 2000, quando João XXI regressou à sepultura inicial, num túmulo onde estão inscritas as palavras de Dante: “Pedro Hispano, aquele que brilha nos seus 12 livros”. (cf revista Sábado, de 6 de maio de 2010)
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Um português notável, certamente. Pena é que muitos não teimem em lutar por uma produção pessoal e/ou coletiva que, sem o desejarem, os catapulte por si mesma à fama e ao contributo para o progresso da ciência, arte e técnica e prol do homem e da comunidade humana, assim como é de lamentar a falta de apoio político e económico aos investigadores que vão surgindo ou a obnubilação dos talentos existentes, que não são tão poucos como às vezes se crê.
2018.09.28 – Louro de Carvalho

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

A teimosia em não aceitar o verdadeiro messianismo de Jesus


Para os estudiosos da Bíblia, a profissão de fé adiantada por Simão Pedro, em Cesareia de Filipe, de que Jesus é o “Messias” (Mc 8,29), o “Messias, o Filho de Deus vivo” (Mt 16,16) ou o “Messias de Deus” (Lc 9,20), marca um momento de viragem no percurso dos discípulos com o Mestre. Com efeito, parecia que, a partir desta confissão de fé que reconhece em Jesus o Messias de Deus, estavam criadas as condições para o aprofundamento do mistério de Cristo, mas efetivamente não estavam. No entanto, o Senhor prossegue a sua propedêutica, sabedor de que o Espírito Santo iria, a seu tempo, abrir os olhos e os ouvidos dos discípulos para entenderem as Escrituras e fortalecê-los com a força do Alto a fim de serem verdadeiros arautos do Evangelho em todo o mundo.
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Depois de os interpelar sobre o que por ali diziam os outros quem era Jesus, o desafio que Jesus lançou aos discípulos sobre “quem dizeis vós que eu sou” era pertinente. Eles, porém, sabiam dizer o que os outros pensavam e diziam, mas tinham receio de dizerem o que pensavam eles próprios, até que Pedro se adiantou e o professou em nome de todos.
O texto de Marcos não se expande como o de Mateus, em que sobre a rocha petrina o Senhor edificará a Igreja. Aqui, apenas ordena que não digam nada a ninguém.
Logo a seguir, fica patente que Pedro não percebe e não aceita o genuíno messianismo de Jesus. Quando o Mestre faz o primeiro anúncio da Paixão, Morte e Ressurreição, em virtude da rejeição dos homens, é Pedro quem se adianta e, interpretando os interesses dos homens em detrimento dos interesses de Deus, começou a repreendê-lo, pois não percebia e não aceitava outro estatuto para o Messias que não fosse o cumprimento do desígnio político de restaurar e consolidar a independência e supremacia de Israel, como esperavam tantos.
Porém, o messianismo de Jesus, o que liberta o homem do pecado e das suas consequências, é o profetizado em Isaías (Is 50,5-9): saber dar palavras de alento aos desanimados, mas, para isso, passar pela experiência do sofrimento, aprendendo como os discípulos, apresentando as espáduas e a face aos que lhe arrancam a barba, não desviando o rosto dos que o ultrajam e lhe cospem e sentindo que o Senhor Deus vem em seu auxílio. Este será o caminho para que todos os inimigos caiam “esfrangalhados como roupa velha, roída pela traça”. 
E é num panorama destes que Jesus lança o repto à multidão:
Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. […] Quem perder a sua vida por causa de mim e do Evangelho, há de salvá-la. […] Quem se envergonhar de mim e das minhas palavras entre esta geração adúltera e pecadora, também o Filho do Homem se envergonhará dele, quando vier na glória de seu Pai, com os santos anjos.” (Mc 8,34.35b.38).
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Depois da transfiguração perante Pedro, Tiago e João num monte elevado, em que se fez ouvir a voz do Pai, “Este é o meu Filho muito amado: escutai-o” (Mc 9,9), Jesus “ordenou-lhes que a ninguém contassem o que tinham visto, senão depois de o Filho do Homem ter ressuscitado dos mortos. E eles guardaram a recomendação, discutindo uns com os outros o que seria ressuscitar de entre os mortos” (Mc 9,10). Não estavam a perceber mesmo nada!
Entretanto, o Mestre não desistiu de instruir os discípulos e fez pela segunda vez o anúncio da sua morte, limite extremo da humildade, dedicação e amor pelos amigos (“Prova de amor maior não há do que dar a vida pelos seus amigos” – Jo 15,13), dizendo-lhes: 
“«O Filho do Homem vai ser entregue nas mãos dos homens que o hão de matar»; mas, três dias depois de ser morto, ressuscitará. E eles, como não entendiam esta linguagem, tinham receio de o interrogar.” (Mc 9,310-31).
Porém, os discípulos, teimando no reinado político como os demais reinados, discutiam entre si em segredo (porque se envergonhavam de o propalar em alta voz) sobre quem seria o maior no Reino dos Céus. Por isso, quando chegaram a Cafarnaum e estando em casa, Jesus interpelou-os sobre o que discutiam pelo caminho – interpelação que os deixou em silêncio porque, no caminho, tinham discutido uns com os outros sobre qual deles era o maior. Foi então que chamou os Doze e disse: ‘Se alguém quiser ser o primeiro, há de ser o último de todos e o servo de todos’. E, colocando um menino no meio deles, abraçou-o e disse-lhes: ‘Quem receber um destes meninos em meu nome é a mim que recebe; e quem me receber, não me recebe a mim mas àquele que me enviou’. (cf Mc 9,33-37). Recorde-se que, ao tempo, as crianças nem sequer eram consideradas pessoas, não tendo voz ativa em matéria alguma.
No Evangelho de Mateus (vd Mt 20,20-28), que situa o ensinamento depois do seu 3.º anúncio da Paixão e Ressurreição, foi a mãe de João e Tiago quem pediu ao Senhor que ordenasse que se sentasse um à sua direita e o outro à sua esquerda no seu Reino. Porém, Jesus perguntou-lhes se podiam beber o cálice que Ele estava para beber. E, tendo respondido que sim, Jesus replicou:
Na verdade, bebereis o meu cálice, mas sentar-se à minha direita ou à minha esquerda não me pertence a mim concedê-lo: é para quem meu Pai o tem reservado”.
E, porque os outros dez ficaram indignados com os dois irmãos, Jesus chamou-os e disse-lhes:
Sabeis que os chefes das nações as governam como seus senhores e que os grandes exercem sobre elas o seu poder. Não seja assim entre vós. Pelo contrário, quem entre vós quiser fazer-se grande seja o vosso servo; e quem no meio de vós quiser ser o primeiro seja vosso servo. Também o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida para resgatar a multidão.”.
Marcos (Mc 10, 35-45), tal como Mateus, também desenvolve esta lição do serviço a seguir ao 3.º anúncio da Paixão e Ressurreição, mas por iniciativa dos filhos de Zebedeu e não por iniciativa da mãe – o que Lucas (Lc 22,24-27) insere a seguir ao anúncio da traição de Judas.
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Pensando na índole predominantemente política do Reino, quando o destacamento romano e os guardas ao serviço dos sumos-sacerdotes e dos fariseus, munidos de lanternas, archotes e armas, entrou no Horto das Oliveiras para prender Jesus, Simão Pedro, que trazia uma espada, desembainhou-a e arremeteu contra um servo do Sumo-Sacerdote, cortando-lhe a orelha direita. Mas Jesus, chamando a atenção para o caráter singular do seu Reino, disse a Pedro: “Mete a espada na bainha. Não hei de beber o cálice de amargura que o Pai me ofereceu?” (cf Jo 18,3.10.11). E, depois de Jesus preso, Pedro negou o Mestre; e, ao verem Jesus a responder no Sinédrio e no Tribunal de Pilatos com a multidão a clamar pela crucifixão, todos, desiludidos, fugiram. Apenas João, o Discípulo predileto, se manteve firme junto à Cruz (cf Jo 19,25-27).
Ainda para mais, quando as mulheres disseram aos apóstolos que Jesus tinha ressuscitado, pensaram que se tratava de um desvario delas e não acreditaram nelas (cf Lc 24,11). E, mesmo no momento da Ascensão, perguntaram-lhe se era então que ia restaurar o Reino de Israel. Mas Jesus respondeu-lhes (cf At 1,6):
Não vos compete saber os tempos nem os momentos que o Pai fixou com a sua autoridade. Mas ides receber uma força, a do Espírito Santo, que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, por toda a Judeia e Samaria e até aos confins do mundo.” (At 1,7-8).    
Apesar de tudo, Jesus não desistiu deles – Ele nunca desiste – e deixou que viesse o Espírito Santo reensiná-los e dar-lhes a força necessária para a missão até aos confins do mundo. Nunca foram as dúvidas e as confusões dos discípulos que O fizeram parar.
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Sobre o tema falou o Papa na homilia da Missa no Parque Santakos em Kaunas (Lituânia).
Marcos dedica parte considerável do seu texto ao ensinamento dirigido aos discípulos, como se, como acentua Francisco, “Jesus quisesse que os seus renovassem a sua opção, sabendo que este seguimento comportaria momentos de provação e sofrimento”. E, nas três ocasiões em que anunciou a sua Paixão, eles “expressaram a sua perplexidade e resistência”, mas “o Senhor quis, nessas três ocasiões, “deixar-lhes” o correto ensinamento.
Na verdade, “a vida cristã sempre atravessa momentos de cruz”, que parecem, por vezes, “intermináveis”. E, falando na Lituânia, o Papa referiu que “as gerações passadas viram gravar a fogo o tempo da ocupação, a angústia daqueles que eram deportados, a incerteza por aqueles que não voltavam, a vergonha da delação, da traição”, aplicando-se-lhes o teor do Livro da Sabedoria (cf Sab 2,20-20) na passagem que mostra o justo perseguido e a sofrer insultos e tormentos só por ser bom, com o agravo de não sentir a presença defensora de Deus. Também, nesse sentido, o povo lituano “pode corroborar em uníssono com o apóstolo Tiago, na passagem da sua Carta: cobiçam, matam, invejam, lutam e fazem guerra” (cf Tg 4,2).
E tem razão Francisco: a Paixão de Cristo espelha-se no sofrimento das pessoas e dos povos.
Porém, como sublinha o Papa, os discípulos não queriam ouvir falar “de sofrimento e de cruz” pois o seu interesse era poder e glória, “o modo mais comum de se comportar daqueles que não conseguem curar a memória da sua história e, talvez por isso mesmo, não aceitam sequer comprometer-se no trabalho do momento presente”. E veja-se como o Pontífice classifica esta atitude da parte de quem discute “sobre quem mais brilhou, quem foi mais puro no passado, quem possui mais direito do que os outros a ter privilégios”:
É uma atitude estéril e vã, que se recusa a envolver-se na construção do presente, perdendo o contacto com a dolorosa realidade do nosso povo fiel. Não podemos ser como aqueles peritos espirituais que se limitam a julgar de fora e passam o tempo inteiro a falar sobre o que se deveria fazer.”.
Ora, prosseguindo, a homilia papal assinala a proposta de Jesus de um antídoto contra as lutas de poder e recusa do sacrifício: põe no centro, equidistante, “um rapazinho que habitualmente ganhava alguns trocados prontificando-se para recados que ninguém queria fazer”, hoje personalizado talvez nas “minorias étnicas da nossa cidade” ou nos “desempregados que são forçados a emigrar”, nos “idosos abandonados” ou nos “jovens que não encontram um sentido na vida, porque perderam as suas raízes”. E ensinou os discípulos o que é essencial: acolher estas crianças, estes que não têm protagonismos; e, neste acolhimento, acolhe-se Cristo e o Pai.
Depois, requer-se a atitude de despojamento e de saída, para a qual Francisco deu um exemplo visualizante para um ensinamento programático: 
Lá, na cidade de Vilna, tocou ao rio Vilna oferecer as suas águas e perder o nome relativamente ao Neris; aqui, é o próprio Neris que perde o nome oferecendo as suas águas ao Nemunas. É precisamente disto que se trata: ser uma Igreja ‘em saída’, não ter medo de sair e gastar-se mesmo quando parece que nos dissolvemos, não ter medo de nos perdermos atrás dos mais pequenos, dos esquecidos, daqueles que vivem nas periferias existenciais. Mas sabendo que aquele sair implicará também em determinados casos deter o passo, colocar de lado anseios e urgências para saber olhar nos olhos, escutar e acompanhar quem ficou na beira da estrada. Às vezes, será necessário comportar-se como o pai do filho pródigo, que permanece junto da porta à espera do seu regresso, para lhe abrir logo que chegue.”.
Mais explicou porque ansiamos por receber Jesus na sua palavra, na Eucaristia, nos pequeninos:
Para que Ele reconcilie a nossa memória e nos acompanhe num presente que continue a apaixonar-nos pelos seus desafios, pelos sinais que nos deixa; para que O sigamos como discípulos, porque nada há de verdadeiramente humano que não tenha ressonância no coração dos discípulos de Cristo e, assim, sentimos como nossas as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens do nosso tempo, sobretudo dos pobres e dos atribulados (GS, 1). E porque, como comunidade, nos sentimos verdadeira e intimamente solidários com a humanidade […] e com a sua história, queremos doar a vida no serviço e na alegria e, assim, fazer saber a todos que Jesus Cristo é a nossa única esperança.”.
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Também o reitor do Santuário de Fátima afirmou, na Missa dominical, celebrada no Recinto de Oração, perante milhares de peregrinos portugueses e estrangeiros que, apesar do calor, peregrinaram à Cova da Iria, que “servir e dar a vida é o maior sinal de grandeza dos cristãos”.
Com efeito a linguagem do serviço, “como atitude e disposição” para se dar sem reservas, “não colher simpatias”, é a marca distintiva do “ser cristão e seguir a Jesus”.
Contudo, o sacerdote, lembrando que a História dos homens é predominantemente marcada pelo desejo de domínio, “de sermos maiores, de impormos a nossa vontade ou desejarmos o reconhecimento”, confessou: “Se perguntarmos a alguém se quer ser servo, a resposta é que não”. Efetivamente não é o exemplo do serviço o que vem da parte dos que estão no topo.
Segundo o Padre Carlos Cabecinhas, “a ideia de servir não reúne nem simpatias nem consensos, mas a verdadeira grandeza  a que devemos aspirar é sermos servos”. Porém, nos termos evangélicos, “uma vida centrada em nos próprios é uma vida perdida e, pelo contrário, uma vida doada aos outros, feita de serviço, é uma vida grande e ganha”. E “desta sabedoria que vem do Alto dá-nos exemplo Jesus Cristo,  que se fez servo de Deus”.
Depois, lembrando o exemplo de Nossa Senhora e dos santos Pastorinhos Francisco Marto e Jacinta Marto, o responsável pelo Santuário fatimita referiu:
Jesus foi sempre o servo por excelência: serviu o Pai e serviu os homens e as mulheres. Ser cristão e seguidor de Jesus implica necessariamente assumir esta atitude, por mais difícil que seja e é. […] Na escola de Maria também os Pastorinhos adotaram este modelo: eles não procuraram aplausos ou reconhecimento; em momento algum quiseram ser os primeiros a não ser diante do amor a Deus.”.
Ora, “tal como os Pastorinhos fizeram da sua vida uma doação a Deus, com uma atenção privilegiada aos outros”, também nós somos convidados a “experimentar a verdadeira grandeza: servir e dar a vida”. E “é isto que significa ser grande” – disse ainda a partir do Evangelho Marcos (Mc 9,30-37), proclamado em toda a Igreja no XXV domingo do Tempo Comum no Ano B e que exorta os cristãos a seguirem Jesus, imitando-o nas suas atitudes.
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À luz do Evangelho fica, pois, condenado o clericalismo enquanto elite demolidora dentro da Igreja, muito semelhante ao escol fabricado pelas sociedades civis, gerador e fautor dos mecanismos de sustentação no poder político e económico, tantas vezes criador de situações e atos de repressão, opressão e descarte. E, de igual modo, se contraindica o carreirismo, que, ao invés do serviço, almeja a ascensão na estrutura a ponto de conseguir o domínio antievangélico.
Sendo assim, é de questionar como semanários, escolas teológicas, conventos e outros centros de formações não combatem eficazmente o carreirismo e não promovem a conversão das mentalidades, corações, atitudes e comportamentos à glória de Deus e ao serviço abnegado aos irmãos. Mas também é de destacar e apreciar o trabalho generoso de tantos e tantas que, abjurando de qualquer forma de protagonismo, se esforçam por fazer valer, na dedicação, dor e sofrimento, os interesses de Deus e a dignidade de todos e de cada um dos irmãos e irmãs.  
2018.09.23 – Louro de Carvalho