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domingo, 3 de novembro de 2019

Não lhe puxou as orelhas nem lhe pregou um sermão


Na homilia da missa das 12 horas do 31.º domingo do Tempo Comum no Ano C, na igreja dos Passionistas, em Santa Maria da Feira, o Padre Porfírio Sá comentava o Evangelho assumido para a Liturgia da Palavra que narra a história do encontro de Jesus com Zaqueu (Lc 19,1-10) e, ao falar do encontro destas duas personagens, sublinhava que não foi Zaqueu quem tomou a iniciativa de falar a Jesus e convidá-lo a ir a sua casa, mas que foi Jesus quem olhou para Zaqueu e lhe disse: “Zaqueu, desce depressa, pois hoje tenho de ficar em tua casa”.
Referia o sacerdote passionista que Jesus falou como se fosse devedor para com Zaqueu e não como credor. E, ao entrar em casa de Zaqueu, não aproveitou a oportunidade para lhe dar um forte puxão de orelhas, pôr toda vida do pecador em evidência ou pregar-lhe um incontornável e solene sermão. Não, o Mestre dos mestres utilizou o seu olhar de empatia e misericórdia.
Zaqueu vivia em Jericó, o oásis situado nas margens do mar Morto, a cerca de 34 quilómetros de Jerusalém. Era a última etapa dos peregrinos que, da Pereia e da Galileia, se dirigiam a Jerusalém para as grandes festividades (o “caminho de Jerusalém”, que Jesus vem a percorrer, segundo Lucas, está a chegar ao fim). Jericó uma cidade próspera (sobretudo graças à produção de palmeiras e bálsamo), com grandes e belos jardins e palácios (por ação de Herodes, o Grande, e seu filho Arquelau, que fizeram desta cidade a sua residência de inverno). Sita em lugar privilegiado de importante rota comercial, era espaço de oportunidades e grandes negócios (e de negócios “duvidosos”).
Segundo Flávio Josefo, Jericó possuía um importante polo de produção de palmeiras e bosques de bálsamo. E o unguento derivado deste bálsamo de Jericó era muito desejado na época. Isto significa que aquela área era uma fonte muito significativa de impostos, uma das três principais coletorias de impostos da Palestina, e Zaqueu era um dos principais responsáveis por essa arrecadação.
O nome hebraico de Zankkaîos (Zaqueu) é contração de Zacarias, a significar “aquele de quem Yahweh se lembra” ou “aquele que é justo” (o antípoda da vida que levava). E ele era um “chefe de publicanos”, portanto, um homem que o judaísmo considerava um pecador público, um explorador dos pobres, um colaboracionista ao serviço dos opressores romanos e, portanto, um excluído da comunidade da salvação. Como os demais publicanos servia-se do cargo para enriquecer de modo ilícito (exigia impostos muito acima do fixado pelos romanos e arrecadava para si a diferença). E, se os publicanos eram considerados ladrões, então o chefe seria um superladrão.
A designação de “chefe de publicanos” traduz o grego arkhitelónês e indica que ele era um subcontratante de outros coletores. Portanto, tinha a supervisão de alguns responsáveis por arrecadar os impostos indiretos para o império romano, pelo que era um homem importante, uma pessoa proeminente na região. Por isso, o texto bíblico completa a informação dizendo que era um homem rico. Era, pois, um pecador público sem hipótese de perdão, excluído do convívio com as pessoas decentes e sérias, um marginal, considerado amaldiçoado por Deus e desprezado pelos homens. A sua pequena estatura – mais que indicação de caráter físico – pode significar a sua pequenez e insignificância do ponto de vista sociomoral.
Porém, este pecador procurava ver Jesus. Ora, este ver indicará aqui mais do que a simples curiosidade: a procura, a vontade firme de encontro com algo novo, talvez o desejo de fazer parte dessa comunidade de salvação que Jesus anunciava. Entretanto, o Mestre parecer-lhe-ia distante e inacessível, rodeado dos “puros” e “santos” que desprezavam os marginais. O subir “a um sicómoro” indica o desejo de encontro com Jesus, desse por onde desse, muito mais forte do que o medo do ridículo ou das vaias da multidão.
Jesus lança o olhar para o homem que espreita o Mestre do meio dos ramos do sicómoro. E incute o seu interesse em entrar em comunhão com Ele, estabelecer laços de familiaridade. Parece, em quadro escandaloso, esquecer-se dos “puros” que O rodeiam e O escutam, que agora ficam como que suspensos à espera do que vai acontecer naquela casa de pecador e marginal.
É a concretização do “deixar as noventa e nove ovelhas para ir à procura da que estava perdida”. É o espelho da fragilidade do coração de Deus que, ante o pecador que busca a salvação, deixa tudo para ir ao seu encontro.
Obviamente a multidão reage murmurando: “Foi hospedar-se em casa de um pecador”. É a postura de quem se considera “justo” e despreza os outros, de quem vive das suas certezas, de quem está convicto de que a lógica de Deus é a lógica de castigo, marginalização, exclusão. No entanto, Jesus mostra que a lógica de Deus é diferente da lógica dos homens e que a oferta de salvação que Deus faz não exclui nem marginaliza ninguém; é mesmo para todos.
Tudo termina com um banquete, onde está Zaqueu, o chefe dos publicanos, que simboliza o “banquete do Reino”. Assim, Jesus mostra que os pecadores têm lugar no “banquete do Reino”, que Deus os ama, que quer integrá-los na sua família e estabelecer com eles laços de comunhão e de amor. Jesus mostra que Deus não exclui nem marginaliza nenhum dos seus filhos – mesmo os pecadores – mas a todos oferece a salvação.
Dizia o Padre Porfírio Sá que não houve da parte do hospedeiro do Senhor um formal ato de contrição, uma demonstração, por palavras, do arrependimento que se exige. Mas a troca de olhares iniciada por Jesus provocou as condições de aceitação do Reino, da conversão: dar metade dos bens aos pobres e restituir o quádruplo de quanto terá roubado. E Zaqueu, feita a experiência do amor de Deus, acolhe o dom de Deus, converte-se ao amor, torna-se generoso. A repartição dos bens pelos pobres e a restituição de tudo o que foi roubado em quádruplo, vai muito além do que a lei judaica exigia; é sinal da transformação do coração. O amor de Deus não se derramou sobre Zaqueu depois de ele ter mudado de vida, mas foi o amor de Deus – que Zaqueu experimentou quando ainda era pecador – que provocou a conversão e que converteu o egoísmo em generosidade e levou o pecador a seguir Jesus. Assim se conclui que só a lógica do amor pode transformar o mundo e os corações dos homens.
É interessante notar que, apesar da ansiedade de Zaqueu em querer ver Jesus, ele parece ter ficado surpreendido pelo facto de a iniciativa do contacto entre eles ter partido do próprio Senhor, e não dele. Isto sugere que Zaqueu desejava vê-Lo, mas era Jesus quem estava à procura dele. Além disso, Jesus não pediu permissão a Zaqueu para entrar e permanecer em sua casa. E este também não propôs uma possibilidade de encontro. Literalmente o Senhor simplesmente disse: hoje eu vou ficar em sua casa.
Face à atitude de Jesus, a multidão começou a reclamar. Ficaram indignados porque Jesus havia dito que visitaria a casa de Zaqueu e não a de outrem. Os judeus odiavam os publicanos: e agora emergiu a inveja à mistura com o ódio. Consideravam os coletores de impostos como ladrões, extorquidores e traidores. Mas Jesus havia decidido ficar na casa do principal desses coletores, pois estava em busca de um dos homens mais detestados da cidade, pois todos têm lugar no Reino de Deus.
No encontro com Jesus, Zaqueu demonstrou realmente um arrependimento genuíno, que não ficou na teoria ou em palavras vazias. Revelou o arrependimento na prática ao declarar a doação aos pobres. Não estava a tentar obter a salvação com as boas obras, mas a entregar diante de Jesus a sua oferta de ação de graças. Mas não parou neste ponto: comprometeu-se ainda a devolver em quádruplo qualquer quantia com que tivesse defraudado alguém.
Normalmente a Lei Mosaica exigia que numa restituição fosse acrescentado um quinto do valor como um tipo de juros (Lv 6,1-5; Nm 5,7). Zaqueu, no entanto, decidiu fazer ainda mais do que isso. Não ofereceu um quinto de acréscimo na restituição, mas quatro vezes mais.
Considerando o facto de ter doado metade dos seus bens aos pobres e de ter declarado na presença de todos uma restituição tão generosa, é de inferir que Zaqueu tinha sido desonesto ao longo da sua vida. Direta ou indiretamente, o chefe dos cobradores de impostos havia permitido e também feito uma cobrança excessiva.
Muitos tentam provar que Zaqueu não teria sido um extorquidor, como se Cristo não pudesse jamais ter olhado para um corrupto. Todavia, o contexto da história de Zaqueu aponta noutra direção. Naquele dia, Jesus mostrou compaixão para com alguém que certamente não a merecia. É caso parecido com o da eleição de Mateus para o seguimento de Jesus, como se lê em Mateus:
Partindo dali, Jesus viu um homem chamado Mateus, sentado no posto de cobrança, e disse-lhe: ‘Segue-me!’ E ele levantou-se e seguiu-O.  
“Encontrando-se Jesus à mesa em sua casa, numerosos cobradores de impostos e outros pecadores vieram e sentaram-se com Ele e os seus discípulos. Os fariseus, vendo isto, diziam aos discípulos: ‘Porque é que o vosso Mestre come com os cobradores de impostos e os pecadores?’
“Jesus ouviu-os e respondeu-lhes: ‘Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes. Ide aprender o que significa: Prefiro a misericórdia ao sacrifício. Porque Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores’.” (Mt 9,9).
Zaqueu pôde ouvir de Jesus as doces palavras: Hoje a salvação entrou nesta casa, porque até este homem é um filho de Abraão (Lc 19,9). Jesus não disse que havia entrado na casa de Zaqueu um mero conforto, uma alegria superficial ou uma prosperidade terrena e passageira. Foi claro ao dizer que a salvação, não menos que isto, havia entrado naquela casa. Zaqueu e as demais pessoas daquele lar estavam diante da maior bênção que poderiam receber.
Consequentemente, Jesus declarou que Zaqueu era filho de Abraão. Obviamente o objetivo de Jesus não era dizer que o publicano era um descendente biológico do grande patriarca (não podia ser). Mas, ao dizer que também ele era um filho de Abraão, vincava o sentido espiritual. Zaqueu estava a juntar-se, pela fé no Filho de Deus, à verdadeira descendência de Abraão (cf GL 3,9.29).
A história termina com a confirmação por parte de Jesus de que havia sido Ele quem encontrou o chefe dos publicanos, e não o contrário. Ele disse: Porque o Filho do homem veio buscar e salvar o que estava perdido (Lc 19,10). Jesus buscou, encontrou e salvou Zaqueu. O Bom Pastor encontrou uma das suas ovelhas perdidas (Lc 15,1-7). Poucos dias depois, Aquele a quem Zaqueu recebeu em casa, derramaria o seu sangue e entregaria a sua vida também em seu favor.
***
Também o Papa Francisco comentou esta perícopa evangélica antes da recitação do Angelus com os fiéis e peregrinos concentrados na Praça de São Pedro. E, exortando a que, a exemplo de Zaqueu, nos deixemos converter pelo olhar misericordioso de Jesus, observou:
Quem nunca se sentiu procurado pela misericórdia de Deus tem dificuldade em compreender a extraordinária grandeza dos gestos e palavras com que Jesus se aproxima de Zaqueu”.
E, ao concluir a sua alocução, pediu que a Virgem Maria obtenha para nós a graça de sempre sentirmos sobre nós o olhar misericordioso de Jesus, para então, com misericórdia, irmos ao encontro dos que praticam o mal. Com efeito, como referiu, “o desprezo e o fechamento em relação ao pecador não fazem senão isolá-lo e endurecê-lo no mal que ele faz contra si e contra a comunidade”.
O fio condutor da reflexão papal foi a conversão de Zaqueu, que muda radicalmente de mentalidade pela atenção e acolhimento que recebe de Jesus e que, ao encontrar o Amor e descobrir que é amado, se torna capaz de amar os outros, restituindo quatro vezes mais a quem havia prejudicado. Diz o Pontífice que este chefe de “publicanos”, isto é, dos judeus cobradores de impostos “era rico não devido a ganhos honestos, mas por exigir a gratificação adicional (Como o império lhes pagava mal, eles cobravam em excesso), o que aumentava o desprezo por ele”. Mas, ao saber da passagem de Jesus por ali, fica curioso em ver quem era Ele, pois ouvira  dizer coisas extraordinárias a seu respeito. Sendo de baixa estatura, sobe a uma árvore. Mas é Jesus quem, entre tantos rostos que o cercavam, “olha para cima e o vê”. E diz o Papa:
Isso é importante: o primeiro olhar não é de Zaqueu, mas de Jesus, que entre os muitos rostos que o cercam, procura exatamente aquele. O olhar misericordioso do Senhor alcança-nos antes mesmo que nós percebamos que temos necessidade de sermos salvos.”.
E foi precisamente com esse olhar do divino Mestre – salienta o Santo Padre – que  se iniciou “o milagre da conversão do pecador”. Jesus chama-o pelo nome e pede que desça depressa, pois quer estar com ele em sua casa. E, como dizia o Padre Porfírio Sá, também Francisco enfatiza que Jesus não censura Zaqueu, não lhe faz um ‘sermão’, mas mostra-lhe que deve ir até ele: ‘deve’, porque é a vontade do Pai”. As pessoas murmuram por Jesus optar pela entrada na casa de um pecador público, desprezado por todos. E o Pontífice comentou:
Nós também teríamos ficado escandalizados com esse comportamento de Jesus. Mas o desprezo e o fechamento em relação ao pecador não fazem senão que isolá-lo e endurecê-lo no mal que ele faz contra si e contra a comunidade. Em vez disso, Deus condena o pecado, mas tenta salvar o pecador, vai procurá-lo para trazê-lo de volta ao caminho reto. (…) Quem nunca se sentiu procurado pela misericórdia de Deus tem dificuldade em compreender a extraordinária grandeza dos gestos e palavras com que Jesus se aproxima de Zaqueu.”.
Frisou o Santo Padre que a atenção de Jesus e a forma como foi acolhido levaram Zaqueu a uma mudança de mentalidade. Naquele instante percebeu quanto é mesquinha uma vida movida pelo dinheiro, à custa de roubar os outros e ser desprezado por eles”. E o Bispo de Roma vincou:
Ter o Senhor ali, em sua casa, faz com que ele veja tudo com olhos diferentes, também com um pouco da ternura com que Jesus olhou para ele. E muda também o seu modo de ver e de usar o dinheiro: substitui o gesto do extorquir pelo de dar. De facto, decide dar metade do que possui aos pobres e restituir quatro vezes mais àqueles de quem roubou. Zaqueu descobre de Jesus que é possível amar gratuitamente: até agora ele era avarento, agora torna-se generoso; gostava de acumular, agora alegra-se em distribuir. (…) Encontrando o Amor, descobrindo que é amado apesar dos seus pecados, torna-se capaz de amar os outros, fazendo do dinheiro um sinal de solidariedade e de comunhão.”.
Por fim, formulou o desejo de que “a Virgem Maria nos obtenha a graça de sempre sentir sobre nós o olhar misericordioso de Jesus, para sairmos com misericórdia ao encontro dos que fizeram mal, para que possam acolher Jesus, que “veio buscar e salvar o que estava perdido”. 
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E, após a oração do Angelus e o apelo pelas vítimas da violência na Etiópia, o Papa agradeceu à Prefeitura e à Diocese de San Severo (na Puglia), a assinatura do Protocolo de Intenções, de 28 de outubro, “que permitirá aos trabalhadores dos assim chamados guetos da Capitanata, na região de Foggia, obter uma residência em paróquias e o registo no cartório municipal”. E frisou:
A possibilidade de ter documentos de identidade e de residência oferecer-lhes-á nova dignidade e permitir-lhes-á sair de uma condição de irregularidade e de exploração”.
Muitos trabalhadores são explorados nas plantações por pessoas de má-fé, que se aproveitam da sua condição irregular. Mal remunerados, sem nenhum direito ou garantia, vivendo em galpões sem as mínimas condições de uma vida digna, são os novos marginalizados que urge acolher.
2019.11.03 – Louro de Carvalho

domingo, 28 de abril de 2019

As credenciais do Ressuscitado


Jesus ressuscitou, o que significa para os crentes que triunfou da morte, do pecado e da morte. A verdade que Jesus é no sentido mais vital e existencial triunfou sobre a mentira cujo pai é o demónio, que é também o autor do mal e da escravização. E, possuidor destas arras de triunfo, o Senhor Jesus desceu à morada dos mortos a oferecer a salvação a todos aqueles que a esperavam consciente ou inconscientemente. Isto para dizer que a ação redentora de Cristo não se aplica apenas aos que se aproximassem do mistério apenas depois de Ele ter entregado o seu espírito nas mãos do Pai, mas a todos e todas, em qualquer tempo ou lugar em que vivam. 
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Porém, com que sinais Se mostra o Ressuscitado? Ou seja, quais são as credenciais ou os recursos instrumentais que o Senhor mostra para que acreditemos?
Os evangelistas apontam o túmulo vazio, mas o Evangelho de João aponta, além disso, a boa ordem espelhada nos panos de linho espalmados no chão e no “lenço que […] tivera em volta da cabeça” e que “não estava espalmado no chão juntamente com os panos de linho, mas de outro modo, enrolado noutra posição” (vd Jo 20,4.7). Mas, quando apareceu a Maria Madalena, ela só O reconheceu quando Ele disse o nome “Maria”. E Jesus incumbiu-a de uma tarefa: “Não me detenhas, pois ainda não subi para o Pai; mas vai ter com os meus irmãos e diz-lhes: ‘Subo para o meu Pai, que é vosso Pai, para o meu Deus, que é vosso Deus’.” (cf Jo 20,16.17-18).
O Evangelho de Marcos apresenta um jovem de túnica branca a dizer às mulheres que não se assustassem e fossem dizer a Pedro e aos outros discípulos que Ele ressuscitou e que os precede na Galileia (vd Mc 16,6-7).    
O Evangelho de Mateus apresenta o terramoto como aquando da morte na cruz e um anjo resplandecente, que anuncia a ressurreição; e o Mestre que usa da palavra a saudar as mulheres que tinham ido ao túmulo, lhe estreitaram os pés, quando Se lhes deu a conhecer, se prostraram diante d’Ele e a quem mandou: “Não temais. Ide anunciar aos meus irmãos que partam para a Galileia. Lá me verão” (cf Mt 28,9.10).
Por sua vez, Lucas apresenta dois homens de trajes resplandecentes, que lembram às mulheres o teor da promessa: “Lembrai-vos de como vos falou, quando ainda estava na Galileia, dizendo que o Filho do Homem havia de ser entregue às mãos dos pecadores, ser crucificado e ressuscitar ao terceiro dia” (Lc 24,6-7).
Para já, apontamos como sinais do Ressuscitado: o sepulcro vazio; a boa ordem dos elementos deixados no túmulo; o resplendor de anjo, jovem e homens (Quem não se lembra da transfiguração a prenunciar a ressurreição gloriosa?); a palavra; o apelo ao abandono do medo, quer por parte de Jesus, quer por parte dos que testemunharam a ressurreição junto das mulheres; o terramoto; a promessa da ressurreição; a pronúncia do nome da interlocutora (Deus conhece o nome de cada um de nós e chama-nos pelos nossos nomes); a referência à Galileia, onde tudo começou e aonde é preciso voltar para refazer a caminhada à luz da nova realidade; e a afirmação da fraternidade entre Jesus e os discípulos (ide, ou vai, dizer aos meus irmãos; o meu Pai que é vosso Pai… Antes, os discípulos eram servos; na Ceia, passaram a ser amigos; e, com a ressurreição, passaram a ser irmãos). 
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Mas há mais. O Evangelho de Lucas apresenta-nos o episódio dos discípulos de Emaús (Lc 24,13-34). Ao caminharem abatidos e circunspectos, apareceu-lhes Jesus, que lhes explicou tudo o que havia de acontecer ao Messias, “começando por Moisés e seguindo por todos os Profetas”. Porém, eles, apesar de lhes arder o coração, quando Ele lhes falava pelo caminho e lhes explicava com detalhe as Escrituras, não O reconheceram. Só O reconheceram quando “se pôs à mesa, tomou o pão, pronunciou a bênção e, depois de o partir, lho entregou”.      
E, segundo Lucas, quando apareceu aos Onze (Lc 24,36-43), além de os saudar com a paz, para que O reconhecessem, mostrou as marcas da sua Paixão e Morte, dizendo:
Vede as minhas mãos e os meus pés: sou Eu mesmo. Tocai-me e olhai que um espírito não tem carne nem ossos, como verificais que Eu tenho. 
E comeu diante deles um pedaço de peixe assado que Lhe deram.
Por seu turno, João, no capítulo 21 do seu Evangelho, apresenta Jesus que aparece aos discípulos na margem do lago. Foi João que O reconheceu ao ver a enorme quantidade de peixes (a pesca que resultou foi lançada à ordem do aparecido, lembrando a pesca milagrosa de outrora em que Simão Pedro era vocacionado para a pesca de homens). E todos O reconheceram quando “ao saltarem para terra, viram umas brasas preparadas com peixe em cima e pão” – reconhecimento corroborado quando Ele “Se aproximou, tomou o pão e lho deu, fazendo o mesmo com o peixe”.      
E a segunda parte do capítulo 20 do Evangelho de João (Jo 19,20-29) tem uma súmula especial das marcas com que o Ressuscitado Se apresentou: pôs-Se no meio dos discípulos (que estavam em casa com as portas fechadas); saudou-os desejando-lhes a paz; mostrou-lhes as mãos e o peito; renovou o desejo de paz; proferiu o envio; insuflou o sopro do Espírito Santo; e confiou-lhes o encargo da oferta do perdão dos pecados.
Fica bem claro que o Ressuscitado aparece e fala. Explica, faz o milagre como dantes, come com os discípulos, pronuncia a bênção como na Ceia, dá a paz, mostra as marcas da Paixão. E, como a Páscoa não pode ficar realidade privativa dum grupo, envia-os a seguir as moções do Espírito Santo (rezando e falando) e a oferecer o dom pelo qual veio ao mundo, o do perdão.    
***
Há, porém, uma outra marca do Ressuscitado: a compaixão pelo homem que não entende a generosa liberalidade de Deus. Coitado de quem se recusa a acreditar ou lança desafios a Deus que seriam intoleráveis na lógica do Antigo Testamento!
Tomé não estava com eles quando Jesus veio. E, quando os outros diziam ter visto o Senhor, respondeu que, se não visse o sinal dos pregos nas suas mãos e não metesse o dedo nesse sinal dos pregos e a mão no seu peito, não acreditaria. Mas Jesus respondeu ao desafio da incredulidade. Oito dias depois, estando as portas fechadas, veio, pôs-se no meio deles, saudou-os como na visita anterior e disse a Tomé: “Olha as minhas mãos: chega cá o teu dedo! Estende a tua mão e põe-na no meu peito. E não sejas incrédulo, mas fiel.”.
Foi quando Tomé, caindo em si, exclamou: “Meu Senhor e meu Deus!”. Ao que Jesus replicou: “Porque me viste, acreditaste. Felizes os que creem sem terem visto!”.
Não é, pois, sem razão, que o II domingo da Páscoa é denominado o Dia da Divina Misericórdia. Com efeito, como o pastor zeloso é capaz de deixar as 99 ovelhas no deserto e vai à procura da ovelha perdida e, carregando-a ao ombro, chega ao pé dos amigos e insta-os à alegria pelo encontro, ou como o bom samaritano se abeirou do homem ferido e prostrado na valeta, também o Ressuscitado vem à procura do incrédulo para lhe mostrar a realidade da ressurreição através das marcas da Paixão e desafiando-o a ver e palpar.
Por isso, o Padre Laureano Alves dizia hoje na Igreja dos Passionistas, em Santa Maria da Feira, que as marcas da Morte do Senhor perduram para depois ressurreição. E eu acrescento “como dados instrumentais do apelo à fé e como garantia da certeza da nossa futura ressurreição. Na verdade, o Ressuscitado não é um fantasma nem outro homem que não o Crucificado, o que andou pelo mundo fazendo o bem. E, se o sinal eucarístico – da toma do pão, bênção e partilha – dado pelo Ressuscitado é eloquente, não podemos esquecer que esse sinal tem a marca da morte e da ressurreição, porque é corpo do Senhor entregue por nós e o seu sangue derramado por nós e pela multidão. E, não podemos deixar de vincar que, se a morte do Senhor causou o medo e a dispersão, o facto da ressurreição gera a alegria porque o Senhor está connosco.     
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Triunfando das limitações terrenas, o Ressuscitado aparece aos discípulos, agora irmãos, dando-lhes, na efusão do Espírito Santo, a paz e a alegria da salvação e a missão do anúncio a todos os homens.
No I domingo da Páscoa, a festa baseava-se nas notícias trazidas pelas mulheres que foram ao túmulo e nos apóstolos que foram verificar o fenómeno do túmulo vazio, tendo o discípulo amado visto e acreditado. Ouvimos o anúncio da Ressurreição do Senhor e com toda a Igreja deixamo-nos invadir pela alegria.

No II domingo, a festa baseia-se na realidade vivenciada pelo coletivo apostólico e na confissão de Tomé a quem Jesus condescendeu em mostrar as chagas pelas quais fomos curados.
Depois, temos a visão apocalíptica (Ap 1,9-19), em que João reconhece o Ressuscitado no Filho de homem vestido com longa túnica cingida de cinta de ouro. Ouve o Senhor dizer-lhe “Eu sou Aquele que vive. Aquele que possui a vida que domina a morte e liberta quem quer”. É o Rei, o Sacerdote, Aquele em quem e por quem somos ensinados. Por isso, a Igreja proclama com toda a certeza a ressurreição de Cristo, mostrando com a perícopa dos Atos dos Apóstolos (At 5,12-16) que, no cumprimento do que diz o Evangelho de Marcos, “o Senhor cooperava com eles [os apóstolos], confirmando a Palavra com os sinais que a acompanhavam”, se juntavam em massa “homens e mulheres, acreditando no Senhor, a ponto de trazerem os doentes para as ruas e os colocarem em enxergas e catres, a fim de que, à passagem de Pedro, ao menos a sua sombra cobrisse alguns deles; e a multidão vinha também das cidades próximas de Jerusalém, transportando enfermos e atormentados por espíritos malignos, e todos eram curados”.
Porém, o Evangelho de João, ao mostrar-nos Tomé quer dizer-nos que nós somos como ele: temos muita dificuldade em acreditar sem ver, sem experimentar. Como Ele, queremos ter sinais de que o Senhor está vivo. Dificilmente nos basta a fé que vem pelo ouvido. Ora, é bom que recordemos a frase sentenciosa do Senhor: “Felizes aqueles que creem mesmo sem terem visto”.
O Evangelho diz-nos que, oito dias depois da primeira aparição de Jesus aos discípulos no dia da Sua Ressurreição, estando Tomé com eles, Jesus reaparece, saúda-os e aproxima-Se de Tomé como se viesse propositadamente para o convencer, lembrando-lhe as suas exigências, a sua necessidade de experimentar, propondo-lhe que o faça. Tomé reconhece-O imediatamente e prostra-se diante d’Ele, dizendo: “Meu Senhor e meu Deus” – um belo ato de adoração.
O incrédulo sincero não precisou de tocar o corpo de Cristo, bastou-lhe que Ele Se apresentasse e lhe propusesse fazê-lo para ficar convencido da realidade. O que convenceu Tomé não foi a experiência de meter as mãos nas chagas do Senhor, mas o modo modesto, humilde e cheio de dignidade como Jesus Se apresentou, uma presença muito particular do Senhor em que se estabeleceu a mútua comunicação pessoal, o encontro que deixa marcas no coração.
E o encontro com o Senhor capacita o apóstolo para, animado pelo Espírito Santo, rezar e ir ao encontro dos homens a pregar e a oferecer o perdão como o grande fruto da Páscoa!
2019.04.28 – Louro de Carvalho

domingo, 7 de abril de 2019

Falamos demasiado do outro e falamos muito pouco com o outro


No V domingo da Quaresma no Ano C, a Liturgia da Palavra apresenta o incontornável episódio da mostra da misericórdia de Jesus face à mulher adúltera, ao invés do que os acusadores supostamente entendiam ao abrigo da Lei de Moisés.
Após uma dura discussão, descrita no final do capítulo 7 do 4.º Evangelho, acerca da pessoa de Jesus e suas revelações (em que havia um grupo encarregado de O manietar, mas não o conseguiu por medo da multidão e pela eloquência do Mestre), todos regressaram a casa. Mas, como Jesus não tinha casa em Jerusalém, quando não ia para Betânia recolher-se em casa de Lázaro e das irmãs, usava o jardim e uma gruta natural no Monte das Oliveiras passando ali a noite, muitas vezes em oração, tal como sucederá antes de O prenderem na véspera da sua paixão e morte.
Antes do nascer do sol, Jesus está de novo no Templo para ensinar ao povo que O procurava. A multidão aproximara-se para O poder escutar. As pessoas sentavam-se em círculo à Sua volta e Ele ensinava (Jesus usualmente não ensinava de pé como os Doutores da Lei, mas sentado ao nível dos demais e falando como Mestre, com autoridade sobre a doutrina). É a partir desta perspetiva de “ensino” que se pode compreender o episódio (Jo 8,1-11), que é, todo ele, um ensinamento.
Esta passagem de sabor lucano não aparece nos manuscritos mais antigos do Evangelho de João, sendo, por isso, uma das passagens deutrocanónicas do Novo Testamento; e alguns manuscritos colocam este relato no final deste Evangelho, ou então em Lc 21, depois do v 38, que seria um dos lugares mais adequados, dado o interesse de Lucas em destacar a misericórdia de Jesus. Trata-se de uma tradição independente (não quadrando muito com o estilo joânico) que, no entanto, foi considerada pela Igreja como inspirada por Deus: não há dúvida de que deve ser vista como “Palavra de Deus”. Seja como for, está fora de dúvida o seu valor canónico.
O cenário de fundo coloca-nos frente a uma mulher apanhada a cometer adultério. De acordo com Lv 20,10 e Dt 22,22-24, a mulher devia ser morta, bem como o homem. A Lei deve ser aplicada? É este problema que é apresentado a Jesus.
Entram em cena os escribas e os fariseus, dois grupos muito zelosos no cumprimento da Lei de Moisés, uns porque a estudavam e ensinavam, os outros porque a cumpriam escrupulosamente, em todas as suas minudências. Trazem uma mulher surpreendida em flagrante adultério. E, sem terem falado com ela, questionando-a, tentando compreender suas circunstâncias e problemas, seguiram a via mais pomposa e instrumental para o julgamento e consequente condenação. E levam-na a Jesus, falam-Lhe dela e invocam a Lei, que distorcem. Com efeito, a Lei prescreve:
Se um homem cometer adultério com a mulher do seu próximo, o homem adúltero e a mulher adúltera serão punidos com a morte” (Lv 20,10). Quando um homem for surpreendido a dormir com uma mulher casada, ambos deverão morrer: o homem que dormiu com a mulher e também a mulher. Assim extirparás o mal de Israel” (Dt 22,22).
É caso para nos questionarmos onde ficou o homem, pois o adultério pressupõe necessariamente um homem e uma mulher.
Tratam Jesus por Mestre (Didáskale, em grego), denunciando a real intenção em trazer-lhe a mulher. Na verdade, a Lei é clara, mas eles só querem saber a opinião de Jesus: “E tu, que dizes?”. É a pergunta astuta, armadilhada, na linha da pergunta sobre o pagamento ou não do tributo a César (cf Mt 22,15-22; Mc 12,13-17; Lc 20,20-26). Se Jesus optasse pela aplicação da Lei, denegririam a sua misericórdia para com os pobres e pecadores (tantas vezes criticada), dizendo à multidão que Jesus não era tão bom como parecia, pois concordava com a pena de morte, e poderiam acusá-Lo de se sobrepor ao poderio romano, o único que, ao tempo, tinha a competência para decretar a morte de alguém. Mas, se vetasse claramente a morte da mulher, sustentando que se lhe devia perdoar, poderia vir a ser acusado ao Sinédrio como advogado da desobediência à Lei.
Mas, para Jesus, não se trata de optar entre a observância da Lei e a Misericórdia, entre a justiça e a caridade, mas entre a mentira e a verdade, entre a hipocrisia dos acusadores e a sinceridade de quem se reconhece pecador e chora o seu pecado. A Lei não determinava o género de morte, a não ser para a virgem que, depois dos esponsais, aguardava o início da vida conjugal (Dt 22, 23-24). Talvez se tivesse vindo a generalizar a lapidação, ou então tratava-se duma noiva após os esponsais e antes das bodas. E os rabinos do tempo de Cristo, por razão de benignidade, comutaram o apedrejamento pelo estrangulamento, pena menos selvagem.
Enfim, sob a aparência de fidelidade a Deus, manipulam a Lei – que nestes casos não determina em concreto o apedrejamento, mas a morte de homem de mulher – e servem-se duma mulher alegada e seletivamente (o homem pôde escapar) apanhada em flagrante para poderem acusar Jesus.
É de registar que Jesus permanece sentado, enquanto a mulher está de pé. Face à provocação, o Mestre não se intimida, nem se enerva. Ao invés, com calma e como senhor da situação, começa a escrever no chão com o dedo. É a primeira notícia de Jesus a escrever!
Não sabemos o que escreve ou se escreve alguma coisa em concreto. Como diz o Profeta, o Senhor escreveu na pedra a Lei e no chão as nossas iniquidades, é possível que escrevesse os pecados dos acusadores (como diz São Jerónimo baseado em Jr 17,13). Mas também, como toda a Lei com sentido de vida genuína vem de Deus e não do homem, é possível que escrevesse algo de nova lei a exemplo das bem-aventuranças e indicações subsequentes e o escrevesse no chão, o espaço comum a todos. E é ainda possível que o gesto de escrever no chão fosse apenas uma atitude de não querer fazer caso das acusações feitas. É, no entanto, natural que esta atitude de Jesus seja um ato simbólico, uma alusão a algo comum e entendido pelos circunstantes, pois o que se escreve no chão facilmente desaparece. Talvez Jesus queira mesmo dizer que o pecado de que era acusada a mulher foi escrito no chão, ou seja, já foi perdoado por Deus.
Todavia, os fariseus e escribas insistem numa resposta concreta. E Jesus ergueu a cabeça para declarar: “Quem de vós estiver sem pecado atire-lhe a primeira pedra!”. É um apelo à Lei (Dt 13,10; 17,7) que, aplicada ao pecado de idolatria, ordena que as testemunhas iniciem a execução da condenação ao apedrejamento, isto é, que atirem a primeira pedra. É uma resposta tão inesperada como sábia, simples e profunda, tirando aos escribas e aos fariseus qualquer arma para condenar, quer a adúltera, quer Jesus.
Jesus muda o centro do debate. Em vez de admitir que se coloque a luz da lei acima da mulher para a poder condenar, pede aos adversários se examinem à luz do que a lei exige deles. Não discute a letra da Lei; discute e censura a atitude malédica e maléfica de quem manipula as pessoas e a Lei para defender os interesses contrários a Deus, autor da Lei.
Os adversários ficam desconcertados, pois esperavam de Jesus uma posição sobre uma questão legal, mas Ele recorda àqueles pretensos ‘juízes’ que são pecadores e, como tal, não podem condenar. Assim, com esta sentença, Jesus pretende confundir a malícia de falso zelo pela Lei, da parte dos seus inimigos, hipocritamente arvorados em defensores duma Lei que não observavam. Assim, Jesus transforma os acusadores em acusados. E o receio de virem a ser desmascarados por Cristo fá-los debandar, a começar pelos mais velhos. Por outro lado, o facto de Jesus baixar a cabeça deixa espaço à liberdade e à responsabilidade. Por isso, alguns ter-se-ão reconhecido pecadores, pelo que preferiram afastar-se. Na verdade, Santo Agostinho, ao comentar o Evangelho de João, observa que, “respondendo, o Senhor respeita a lei e não abandona a sua mansidão”. Depois, acrescenta que obriga, com estas suas palavras, os acusadores a entrarem em si mesmos e, refletindo sobre si próprios, a descobrirem-se também eles pecadores. Por isso, “atingidos por estas palavras como por uma flecha tão grande como uma trave, um por um foram-se embora” (In Io. Ev. tract. 33, 5).
Sem testemunhas acusatórias não pode haver condenação. Ninguém condenou a mulher. Em cena fica apenas Jesus e a mulher, no meio, onde foi colocada em exposição para ser julgada por Jesus. Mas ele não veio ao mundo para condenar, mas para salvar. A atitude final de Jesus expressa nas palavras “Nem eu te condeno” não é um atestado de bondade para a ação em referência. Jesus odeia o pecado porque é um mal em si mesmo, mas ama ainda mais a humanidade, convidando-a à libertação de tudo o que a impede de viver. Não se põe de pé, mas ergue simplesmente a cabeça, como fez com os outros, para lançar o desafio: “Vai e doravante não tornes a pecar”. É uma atitude de tolerância e de compaixão para com a pessoa que peca e, ao mesmo tempo, de intransigência para com o pecado, ofensa a Deus, e, neste caso, um absoluto moral, que em nenhuma circunstância se poderia justificar.
***
Ao invés do comum dos mortais, que falam pouco com o outro e muito do outro, Jesus quis falar com os acusadores e quis sobretudo falar com a mulher exposta ao julgamento dele diante de todos os circunstantes. Enquanto eles estavam dispostos a julgar, condenar e possivelmente a executar a sentença condenatória, o Senhor prefere ouvir e interpelar com vista a dar o perdão em nome da misericórdia e aproveitando a fragilidade da interpretação literalista da Lei. 
Temos, portanto, ante Jesus uma mulher que tinha cometido um erro que, segundo a Lei, merecia a pena capital. Para os escribas e fariseus, era uma oportunidade de ouro para testar a ortodoxia de Jesus e a sua fidelidade à Lei; mas, para Jesus, era crucial revelar a atitude de Deus frente ao pecado e ao pecador.
Jesus não branqueia o pecado nem desculpabiliza o comportamento da mulher. Sabe que o pecado não é um caminho aceitável, pois gera infelicidade e rouba a paz. Não obstante, não pactua com uma Lei que, em nome de Deus e de morais de validade duvidosa, gera morte. E, porque os mecanismos de Deus diferem dos da Lei, Jesus fica em silêncio por momentos e escreve no chão, como se pretendesse dar tempo aos participantes da cena para perceberem o que estava em causa. Convida os acusadores a tomarem consciência de que o pecado é consequência dos limites e fragilidades do homem, o que Deus bem entende. Por isso, desafia: “Quem de vós estiver sem pecado, atire a primeira pedra”. E continua a escrever no chão, a ver se os acusadores interiorizam a lógica de Deus (da tolerância e da compreensão). Quando eles se retiram, Jesus nem pergunta à mulher se está ou não arrependida: convida-a, apenas, a seguir um caminho novo, de liberdade e de paz. E, depois que todos se foram embora, o Mestre divino permanece a sós com a mulher – dizia Bento XVI (Paróquia de Sta. Felicidade e Filhos Mártires, Domingo, 25 de Março de 2007), que refere que o comentário de Santo Agostinho é conciso e eficaz:
Relicti sunt duo: misera et misericordia, só permanecem as duas: a miserável e a misericórdia”.
E continua o Papa Bento XVI:
Detenhamo-nos a contemplar esta cena, em que se encontram confrontadas a miséria do homem e a misericórdia divina, uma mulher acusada de um grande pecado e Aquele que, embora fosse sem pecado, assumiu os nossos pecados, os pecados do mundo inteiro. Ele, que permaneceu inclinado a escrever no pó, agora eleva o seu olhar e encontra o da mulher. E não é irónico, quando lhe pergunta: ‘Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?’ (Jo 8,10). E responde-lhe de modo surpreendente: ‘Nem Eu te condeno. Vai, e doravante não tornes a pecar’ (8,11). No seu comentário, Santo Agostinho comenta ainda: ‘O Senhor condena o pecado, não o pecador. Com efeito, se tivesse tolerado o pecado, teria dito: Nem Eu te condeno. Vai, e vive como quiseres… por maiores que sejam os teus pecados, Eu libertar-te-ei de toda a pena e de todo o sofrimento’. Todavia, Ele não disse isto (In Io. Ev. tract. 33, 6). Mas disse: ‘Vai, e doravante não tornes a pecar’.”.
É que a lógica de Deus é uma lógica de vida, pelo que não passa pela eliminação dos que erram, mas pelo convite à vida nova, à conversão, à libertação de tudo o que oprime e escraviza. E matar em nome de Deus ou em nome de qualquer moral é ofensa inqualificável ao Deus da vida e do amor, que apenas quer a realização plena do homem.
Contra a nossa autossuficiência e tendência para julgar e condenar, devemos reconhecer que necessitamos da ajuda do amor e da misericórdia de Deus para chegarmos à vida plena do Homem Novo e devemos usar da tolerância e a misericórdia que Deus tem para com os homens, que são todos irmãos.
Na postura de Jesus, torna-se clarividente a misericórdia divina, que tem de contagiar a humanidade, para com todos aqueles que a teologia oficial considerava e considera marginais. Os notórios transgressores da Lei e da moral, os proscritos, os pecadores públicos, as meretrizes encontram em Jesus o sinal eloquente do Deus que ama e que diz: “Eu não te condeno”. Sem excluir ninguém, Jesus promove os desclassificados, dá-lhes e reconhece-lhes dignidade humana, autonomia, consciência e responsabilidade, torna-os pessoas, liberta-os, disponibiliza-lhes e aponta-lhes o caminho. A dinâmica de Deus é uma dinâmica de misericórdia e de amor. A misericórdia recompõe, restabelece e o amor transforma a realidade humana – mentalidades, coração, atitudes e comportamentos – e permite a superação dos limites humanos. É essa a realidade do Reino de Deus.
Enfim, falando menos dos outros e falando mais com eles e com Deus, passaremos de acusadores, juízes e condenadores a companheiros, amigos e irmãos. E, mais do que delatores, seremos a mão amiga o ombro de apoio, sabendo que, sempre que necessitarmos, também disporemos da oportuna mão amiga e ombro de apoio esperando apenas o juízo de Deus, menos justiçoso e mais misericordiante.
É ainda de recordar que foi inspirado na cena em que estiveram frente a frente Jesus e a mulher – Misericordia et misera, respetivamente, segundo Santo Agostinho –, que o Papa Francisco escreveu a memorável Carta Apostólica “Misericordia et misera” no encerramento do Jubileu Extraordinário da Misericórdia para indicar “o caminho que somos chamados a percorrer no futuro”, pois “a misericórdia não se pode reduzir a um parêntesis na vida da Igreja, mas constitui a sua própria existência, que torna visível e palpável a verdade profunda do Evangelho. Tudo se revela na misericórdia; tudo se compendia no amor misericordioso do Pai” (vd M et m n.º 1).
Seja!
2019.04.07 – Louro de Carvalho

sábado, 6 de abril de 2019

Porque o Pai espera por nós, vem aí a grande festa


No passado dia 7 de abril, 4.º domingo da Quaresma, o Cardeal Patriarca de Lisboa presidiu, na igreja da Trindade, no Porto, à celebração eucarística da ordenação episcopal de Dom Américo Aguiar, que o Papa Francisco, no passado dia 1 de março, nomeara Bispo Titular de Dagno e Auxiliar do Patriarcado de Lisboa.  
A homilia de Dom Manuel Clemente, apesar de marcada pela simplicidade discursiva, constitui uma verdadeira pérola de espiritualidade e uma bela diretiva de ação pastoral, inspirada na frase a completar “Porque o Pai nos espera e a festa é possível…”, que serviu de mote.
Começou pela parábola do Pai misericordioso e dos dois filhos vincando a necessidade de nos fixarmos um pouco no filho mais novo, dada a naturalidade com que nos identificamos tantas vezes no repetido afastamento da casa paterna, ou seja, de Deus e da verdadeira comunhão com Ele – que consiste em “dar-Lhe graças e nunca desperdiçar os seus dons” – persistindo na nossa orgulhosa autossuficiência e fazendo finca-pé na nossa pretensa autonomia.
Depois, considerando a Quaresma como tempo favorável para cairmos em nós próprios, porfiou em sugerir o acolhimento da lição daquele filho mais novo na “decisão de regressar” e na “confiança na inabalável disposição do Pai em recebê-lo”. Na verdade, urge o tempo “da decisão em levantarmo-nos e voltarmos a Deus que sempre nos espera”, incluindo o momento daquela “ocasião celebrativa”. E a primeira exortação patriarcal não se fez esperar:
Temos Deus à nossa espera, fruamos sempre com Ele os dons que nos oferece, partilhando-os também”.
Porém, o discurso homilético do celebrante orador sublinhou os inefáveis sentimentos paternos evidenciados na parábola, tendo em linha de conta a da nossa contraditória condição humana: 
Por longe que ainda estejamos, já nos avista e distingue; quando voltamos finalmente, contritos e esperançosos, restitui-nos a dignidade atingida e transborda em afeto – aquele afeto e alegria que preenchem o Céu por cada pecador que se converte (cf Lc 15,7). Por cada um de nós, quando realmente regressamos e nos reavemos como filhos de Deus. Sem Deus nos perdemos, com Deus nos recuperamos, seja qual for a distância interior que nos afastasse.”. 
E, considerando que nós, ao pressentirmos o sentimento que transborda do coração do nosso Deus a criar e aviventar “o anseio de que a dignidade e o bem dos seus filhos sejam respeitados, garantidos e recuperados”, nos apercebemos de que “o máximo regozijo que terá é que tal seja assim e só assim, fosse o que fosse e aconteça o que acontecer” e de que a casa do Pai, sempre disponível para nós, é “o único lugar de Deus”, irrompe com a segunda exortação patriarcal:
Apercebidos disso, compartilharemos também a misericórdia que O define, para que ninguém se perca e não percamos ninguém. Isto se diga de nós, e muito especialmente dum bispo, do lado do Pai e à espera de todos.”.
E o discurso homilético passa de analítico e compreensivo a perentório ao assegurar com toda a clareza: “O que nunca poderemos fazer é imitar a outra personagem da parábola: O irmão mais velho, que se julgava impecável por não se ter afastado do espaço físico daquela casa – ainda que jamais tivesse entrado no infinito espaço do coração paterno”.
Talvez esta postura se aplique a tantos de nós, se tivermos a ousadia de nos desnudarmos diante de Deus. Como aquele irmão mais velho, longe de nos alegrarmos com o regresso dos irmãos que designamos por pródigos – marginais, anormais, troca-tintas, dissolutos, fraudulentos, ladrões, assassinos, vigaristas, corruptos, energúmenos, sem Deus, beatos, papa-hóstias, etc. – criticamos o seu regresso, protestamos, acusamo-los superlativamente e não queremos participar no acolhimento e na festa que o Pai organiza. E acusamos também o Pai acolhedor por ser perdulário no perdão a quem tudo lhe espatifou e insensível ao nosso comportamento submisso e às nossas necessidades e caprichos.
Mas o Pai vem em saída para instar com ele com as palavras evangélicas essenciais e profundas:
Tínhamos de fazer uma festa e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi reencontrado” (Lc 15,32).
De facto, a festa tem de ser feita, não porque pecámos, mas porque tivemos a humildade e a coragem de regressar; e é possível, porque o Pai é imensamente generoso, espera por nós, sabe alegrar-se e comunicar alegria. Fruindo do sabor da generosidade e da alegria, consegue aliar à justiça a misericórdia, fazendo que esta prevaleça em prol do amor que tudo vence.  
O Cardeal Patriarca, chamando a nossa atenção para o facto de a parábola acabar em festa, mas “sem nos dizer o que aconteceu depois e se o irmão mais velho sempre entrou na festa, ou teimou em ficar de fora…”, frisa que a “palavra de salvação” se torna “para cada um de nós ‘palavra de interrogação’, à espera que lhe demos resposta positiva”. E o teor positivo da nossa resposta é no sentido de, se estivermos longe, nos dispormos a regressar; se estivermos perto, nos dispormos a maior aproximação; se estamos na casa paterna, nos dispormos a cooperar no acolhimento dos que regressam e a participar na festa de acolhimento, de perdão e de reintegração total; em qualquer momento e lugar nos dispormos a fazer tudo junto de “quem esteja mais perto ou mais longe da casa do Pai”, “para que regresse ao lugar onde a festa acontece”; e, “em termos aí a nossa alegria, sem alheamento nem despeito pela chegada de alguém, mesmo que já não contássemos”, porque, “na casa do Pai, os últimos são sempre os primeiros” (cf Mt 20,16) e porque “Haverá mais alegria no Céu por um só pecador que se converte, do que por noventa e nove justos que não necessitam de conversão” (Lc 15,7) ou “Assim há alegria entre os anjos de Deus por um só pecador que se converte” (Lc 15,10).
***
E o celebrante orador tentou fazer a ponte entre o discurso da parábola e a celebração da ordenação episcopal. Com efeito, os seguidores de Jesus Cristo – e de forma eminente os bispos, como testemunhas e arautos privilegiados do Ressuscitado, que Se entregara por nós na Ceia e no Calvário – são insistentemente instados a regressar ao Pai sempre que se afastem da casa paterna, seja muito ou seja pouco significativo tal afastamento, a partilhar a alegria do Pai celeste e dos seus anjos pelo regresso dos pródigos, a banir da face da Terra a atitude invejosa, acusatória e exclusivista dos irmãos mais velhos e, sobretudo, a tomar a atitude do Pai misericordioso: chamar, esperar, correr ao encontro, acolher, promover a festa pelo regresso dos pródigos, bem como instar pacientemente com os que se escandalizam com o perdão aos pródigos e, fazendo birra, não querem participar na festa integradora.     
Aludindo ao episódio parabólico do pastor que deixa as noventa e nove ovelhas no deserto para ir à procura da que se perdeu, até a encontrar – e ao encontrá-la, põe-na alegremente aos ombros e, ao chegar a casa, convoca os amigos e vizinhos e diz-lhes: ‘Alegrai-vos comigo, porque encontrei a minha ovelha perdida’ – Dom Manuel Clemente atesta que “o ministério ordenado é na Igreja, e da Igreja para o mundo, a revelação concreta do coração divino, como sacramento de Cristo Pastor”. E Cristo Pastor – diz o Patriarca e Presidente da Conferência Episcopal – “ao contrário do irmão mais velho da parábola, é o nosso irmão absoluto, partilhando inteiramente dos sentimentos do Pai e vindo Ele próprio buscar-nos onde estivermos e mesmo onde nos perdêssemos”.
Assim, “participar do sentimento de Deus, na procura incansável de cada um e no acolhimento feliz de quem regressa”, constitui a graça e o encargo do sacramento da ordenação episcopal, tanto para o ordinando como para os outros bispos e, por extensão, para todos os discípulos de Cristo, os cristãos, cada um na sua condição e segundo as suas possibilidades, mas sempre em obediência aos ditames do Mestre dos mestres.
Depois, o homiliante refere que foi neste dinamismo de vocação e acolhimento que “Jesus escolheu os Doze, para serem ‘pescadores de homens’, recolhendo-os em redes de convivência verdadeira e feliz, como cada comunidade ‘cristã’ há de ser e necessariamente será”.
Então de porta-vozes da chamada divina, os bispos passam a verdadeiros pescadores de homens e pastores das ovelhas que o rebanho congrega sob o cuidado de Cristo, o grande Pastor.
Mas há um ouro múnus apostólico enunciado por São Paulo: os apóstolos e os seus sucessores são verdadeiros “embaixadores de Cristo”, que propõem, não o abandono ou a exclusão dos irmãos pecadores, mas a reconciliação com Deus. E esta reconciliação exige a conformidade com Cristo, exemplo perfeito de comunhão divina, e que “os ministros de Cristo, em tempos de hoje e em tempos de sempre”, vivam e se apresentem “como quem foi recuperado por Cristo para viver com Deus e de Deus para os outros”, pelo que “nada menos do que isto importa e urge, de nós para todos e para cada um que encontremos aqui, ou busquemos mais longe”.
E o Cardeal reconhece que “há tanto que encontrar e buscar nos nossos dias, para que a festa de Deus aconteça”. Porém, identifica um problema: “quando dispomos de tantas possibilidades de comunicação e reencontro, o convite demora e a escuta é difícil”, pois “a acumulação do que se emite atropela as mensagens, dispersa a atenção, dilui as perguntas e adia as respostas”. Ora, face aos desencontros que há hoje (físicos e morais), como sempre houve nos “pródigos” que somos, encontra-se a solução na “definição pessoal e clara de quem pergunta”, pois só com ela se poderá “interpelar quem responda”. Por isso, “o que mais importa a todos nós, discípulos e ministros de Cristo – sentenciou o homiliante – “é sermos verdadeiramente tais, contritos e convictos, coerentes e límpidos no anúncio e na vida”; é embarcar nesta rota de “purificação” a que é chamada a Igreja, como destaca o Papa Francisco e o mundo aguarda, este itinerário quaresmal de escuta, reflexão, sobriedade, oração e partilha, que nos conduz ao tempo da festa pascal, que se avizinha galopantemente.
Porque o Pai nos espera a nós que nos desviamos da rota e a retomamos, por que Ele é generoso e mostra o seu poder misericordiando, perdoando e rejubilando com o reencontro dos filhos, a festa é possível, acontece e vem aí. E vem para todos. Que ninguém a rejeite, porque não se pode deitar fora aquilo que Deus nos dá!
***
É expectável que Dom Américo Aguiar, um homem da comunicação e do desígnio de fazer pontes e abater os muros, assuma cada uma das palavras do Cardeal Patriarca. Recorde-se que viveu nas 24 horas que antecederam a sua ordenação episcopal momentos de dor devido ao falecimento de sua mãe, facto a que se referiu de modo implícito na sua alocução no final da celebração ao recordar o seu lema episcopal “In Manus Tuas”, dizendo que não esperava que o lema tivesse consequências tão imediatas, mas que sim, seja feita a vontade de Deus.
É de ter em conta que a escolha do lema episcopal de Dom Américo é uma referência específica ao exemplo e testemunho de Dom António Francisco dos Santos, Bispo do Porto entre 2014 e 2017. Em entrevista à Voz Portucalense, a propósito da sua nomeação para Bispo Auxiliar de Lisboa, declarou querer homenagear a bondade de Dom António Francisco e disse:
Eu tive a graça de viver com ele no Porto, intensamente, a correr de Lisboa para o Porto e do Porto para Lisboa, e sei muito bem o quanto ele se deu e deu até ao fim. Sem ‘ses’ e sem ‘mas’, e sem nos escutar naquilo que eram os nossos pedidos e provocações para que ele se poupasse. Mas depois aprendi e aprendemos todos que o Bom Pastor não tem ‘ses’ nem ‘mas’. E é isso que eu quero e desejo fazer e peço ao Senhor que me permita ser. “In manus tuas”, Pai, nas tuas mãos, entrego o meu espírito, quer significar este fim e início. Foram as últimas palavras de Jesus na cruz e foi o início de uma história bonita da qual todos nós usufruímos. A homenagem ao senhor Dom António Francisco quer ser também essa bondade que tanto marcou o seu pontificado. E aquela frase que me marca profundamente quando ele dizia na homilia da entrada: ‘Só pela Bondade aprenderemos a fazer do poder um Serviço, da Autoridade uma Proximidade e do Ministério a Paixão da missão de anunciar a alegria do Evangelho’. O Evangelho é tudo o que temos e somos. In manus tuas. Assim será.”.
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E é desta massa que surgem os grandes homens e que Deus faz os santos e os apóstolos!
2019.04.06 – Louro de Carvalho

segunda-feira, 1 de abril de 2019

Temos de estar em constante discernimento ante os sinais dos tempos


É um alerta de Dom José Domingo Ulloa, Arcebispo do Panamá, que esteve no Santuário de Fátima de passagem para a cidade do Porto, onde participou como coordinante na ordenação episcopal de Dom Américo Aguiar, bispo titular de Dagno e auxiliar de Lisboa.
Rezou na Capelinha das Aparições e respondeu a algumas questões que a Sala de Imprensa do Santuário lhe colocou e de que se destacam o enunciado vertido em epígrafe e o que justifica uma ligação, espécie de ponte entre a JMJ (Jornada Mundial da Juventude) do Panamá, no passado mês de janeiro, e a que vai realizar-se em 2022 em Lisboa – o papel de Maria entre os jovens.   
Efetivamente, sobre a importância da Virgem Peregrina, diz que “levou a luz de Fátima ao mundo e agora acende-a em Portugal para todo o mundo”. E, falando sobre a JMJ do Panamá, encareceu a importância da presença da Virgem Peregrina diante dos jovens.
***
Segundo o prelado panamiano, o convite para a presença da Imagem da Virgem Peregrina de Fátima na Jornada Mundial da Juventude do Panamá não surgiu por acaso, foi mesmo bem pensado e premeditado. Com efeito, como refere, logo que foi anunciada, a 31 de julho de 2016, em Cracóvia, “a escolha do Panamá como o lugar que acolheria a Jornada Mundial da Juventude 2019, tendo em consideração que este povo é tão mariano e desde logo que a Virgem de Fátima estava – e está! – tão enraizada no coração deste povo”, a organização descobriu a necessidade de colocar esta jornada nas mãos de Maria.
No tocante ao desenrolar de todo o processo, o Arcebispo revelou que, três dias depois do anúncio (no dia 3 de agosto), estivera na audiência geral e disse ao Papa que o grande presente que “poderia dar ao povo do Panamá e a todo o povo latino-americano seria a invocação mariana para esta jornada”. E lembrou que há vários motivos para estas escolhas:
Somos a primeira diocese em terra firme com invocação mariana, concretamente de Santa Maria la Antigua. Mas somos marianos com uma especial devoção a Nossa Senhora de Fátima. É preciso recordar, ainda, que estávamos em véspera do ano do Centenário, ano (2017) em que tivemos a visita da Virgem Peregrina ao Panamá.”.
***
Na verdade, Santa Maria La Antigua é a Virgem Padroeira do Panamá. A sua imagem representa Nossa Senhora com o Menino Jesus e uma rosa branca; e a sua festa é celebrada no dia 9 de setembro.
A história conta que a imagem mariana estava numa capela lateral da Catedral de Sevilha, em Espanha, que foi reconstruída no século XIV e de que se conservou apenas a parede onde estava a imagem, por isso que é chamada Santa Maria de la Antigua.
Na América, em 1510, os conquistadores Vasco Núñez de Balboa e Martín Fernández de Enciso fundaram, em homenagem a esta devoção, a cidade de Santa Maria la Antigua de Darién (atualmente território colombiano), que foi a primeira diocese em terra firme. E, em 1524, o segundo bispo dessa diocese, o dominicano Frei Vicente Peraza transferiu a sede diocesana para a recém-fundada Cidade do Panamá, nas margens do Pacífico.
Santa Maria la Antigua é a padroeira da catedral e da Diocese do Panamá desde 1513, mas foi recentemente, a 9 de setembro de 2000, Ano Santo Jubilar, que a Conferência Episcopal Panamenha a proclamou padroeira do país e solicitou à Santa Sé o reconhecimento oficial dessa proclamação, pedido aceite, em 27 de fevereiro de 2001, pela Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos.
***
Mas, voltando à visita da imagem da Virgem Peregrina ao Panamá em 2016…
… Enfatiza Dom José Domingo que “esta visita foi uma das que mais tocou o coração do povo do Panamá” e, quando terminou, sentira que tinham de pedir a Fátima que se fizesse novamente presente na Jornada Mundial da Juventude, esse “momento tão especial para o Panamá, para a juventude do Panamá”.
A 11 de fevereiro de 2018, memória litúrgica de Nossa Senhora de Lourdes, o Papa inscreveu-se na Jornada e, ao meio dia desse mesmo dia, o Panamá recebe a comunicação do Santuário de Fátima a confirmar a presença da Imagem da Virgem Peregrina. E foram estes os peregrinos número 1 e número 2 destas jornadas.
No âmbito da preparação da JMJ, diz o prelado que “as jornadas sempre tiveram em conta os jovens e o papel das mulheres”, pois a Igreja panamenha – aliás, “esta é uma visão a partir da América Latina” – está convicta de que “não se pode pensar a Igreja sem a participação efetiva e a presença das mulheres na Igreja”. Por isso, seguindo “Maria, a eterna jovem que foi capaz de dizer ‘sim’, invocámo-la do ponto de vista vocacional” – assegura Dom Ulloa, que garante: 
Toda a jornada foi preparada em função de Maria. E até o Sínodo dos jovens nos ajudou nesta preparação de uma Igreja voltada para a juventude a partir do exemplo de Maria, uma jovem que disse ‘sim’ sem reservas. Também tivemos uma ajuda imensa do Apostolado Mundial de Fátima, um grupo dedicado que, durante um ano e meio, fez tudo para ajudar nesta grande jornada Mariana, promovendo desde logo a devoção dos primeiros sábados.”.
Sobre a grande exigência duma preparação da Jornada Mundial da Juventude e da experiência panamenha, destaca:
A melhor estratégia para a organização de um evento como este é colocá-lo nas mãos de Deus e pedir a intercessão de Maria. Temos de fazer tudo o que é possível do ponto de vista humano, mas é a providência que nos protege. Por isso, o que é preciso é pedirmos a Maria e, através da sua intercessão, esperar pela ajuda de Deus. A Jornada Mundial da Juventude, como tudo na nossa vida, é obra Dele.”. 
***
Depois, ver o santo Padre diante da Imagem da Virgem Peregrina de Fátima concitou um sentimento muito forte e o Pastor panamenho rezou pensando: “Mãe, esta obra que é Tua está a comover o mundo”. E foi muito comovente ver o Sumo Pontífice a rezar num profundo silêncio diante daquela Imagem da Virgem. Foi mesmo “a confirmação de que esta hora da Igreja, comprometida neste projeto com a juventude, está nas mãos de Maria, a grande Influencer da juventude”. E o Panamá viu, “com a emoção dos jovens, que Maria lhes conquistou o coração”.
Com efeito, depois de o Papa ter estado diante da Imagem, sem velas e com telemóveis, a noite da Vigília foi marcada pela procissão das velas a acompanhar a Imagem da Virgem Peregrina, o que – diz o Arcebispo – “foi um mar de luz”. E Dom Ulloa confessa:
Fiquei muito comovido: ver o santo Padre a rezar diante da Virgem, mas sobretudo ver a alegria dos jovens diante de Nossa Senhora de Fátima e ver nos seus olhos e nas suas expressões como a Mãe lhes encheu o coração... foi extraordinário. A Virgem de Fátima é sempre um tema que tem de ser ressalvado quando falamos da Jornada Mundial da Juventude e, sobretudo, desta em particular.”.
Anuindo à asserção de quem orientou a entrevista de que esse momento terá sido porventura a confirmação de que as opções da presença da Virgem Peregrina de Fátima tinham sido as mais acertadas”, porfiou que tudo o que fizeram fora sem saberem “que Portugal iria receber a próxima Jornada Mundial da Juventude”. Mas, sabendo que não há acasos nem meras coincidências, revelou que, ao falar-se do assunto, foi mais um tema que deu bastante alegria. Com efeito “a Mãe que nós levámos até junto da juventude mundial no Panamá é a mesma mãe que vai trazer a cruz da Jornada Mundial da Juventude à sua nova morada”, ou seja, “Maria fez-se presente no outro lado do mundo, para regressar com todos os seus filhos a Fátima e a Portugal – disse perentoriamente.
Mas não se ficou por estas afirmações. Antes adiantou que “Maria sempre ocupou um lugar central na Jornada Mundial da Juventude, mas que esse papel será ainda muito mais forte em 2022”, pois torna-se “impensável” a organização do grande evento sem a presença de Nossa Senhora de Fátima”, que “é a Mãe que nos protege e abraça”, o que Lisboa só confirmará. De facto, “Ela levou a luz de Fátima ao Mundo e agora acende-a em Portugal para todo o mundo”.
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Ainda discorreu sobre a importância de Fátima no Mundo referindo que “um dos grandes conteúdos da Mensagem de Fátima é a conversão”. Nesse sentido, precisou:
Fátima convida-nos a recriar a necessidade e o desejo de mudança em ordem a que a palavra que escutamos nos invada o coração e alimente os nossos gestos. Tem de haver esta sintonia entre a palavra que anunciamos e os gestos da nossa vida.”.
É na relação com a conversão e na sintonia entre a prática e a palavra que o Arcebispo formulou o enunciado vertido na epígrafe do presente texto, quando atesta que “esta [a mudança e a sintonia entre palavra e vida] é a raiz da Mensagem de Fátima que nos remete para um convite permanente à conversão, a sermos íntimos de Deus, a começar por nós, hierarquia da Igreja, que temos de estar em constante discernimento diante dos sinais dos tempos”.
E é por ter no centro a conversão – “com outros ingredientes que remetem para a infância, para a humildade, para a sensibilidade dos pequenos, dos mais fracos, dos oprimidos, dos pobres de coração” – que é muito atual a Mensagem de Fátima que “nos é dirigida a todos: bispos, padres, leigos, jovens e menos jovens”. Depois, um outro fator de atualidade da Mensagem é a oração como caminho; e o hierarca vinca, no quadro do aperfeiçoamento pessoal e do labor apostólico:
Temos de rezar muito para que o nosso coração se converta e assim consigamos ajudar outros a converterem-se”.
Com efeito, a Mensagem, convidando-nos à oração – falar e escutar Deus na maior intimidade –“é um itinerário que nos ajuda a libertar o nosso coração de coisas que não interessam e estarmos mais livres para dar a Deus o lugar de Deus”. E constitui um imperativo a oração pela Paz num mundo ferido e que espera a misericórdia de Deus, devendo os obreiros eclesiais ser testemunhas e arautos da misericórdia. Sublinha Dom Ulloa:
A Mensagem de Fátima é sempre atual porque nos alerta para um mundo ferido, um mundo que está ferido porque nós estamos feridos. E cada um de nós tem de se converter porque cada um de nós tem esta missão. Por isso, diante do mundo concreto de hoje, a Mensagem de Fátima ajuda-nos a purificar o coração dos homens. E este é o terceiro elemento que gostava de destacar: a misericórdia. Em Fátima, através desta presença materna de Nossa Senhora sentimos que há sempre um coração grande que nos acolhe, por piores que sejam os males do mundo.”.
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Por fim, como a JMJ do Panamá se realizou entre dois Sínodos dos Bispos, o dos jovens e o da Amazónia, deixa, a pedido, uma palavra sobre a oportunidade, referindo que “a Amazónia é apenas um lugar, importante, mas apenas um lugar”. Nestes termos, o Sínodo constituirá “uma mensagem que Deus nos envia”, ou seja, “a partir de povos martirizados, o Senhor fala para o mundo inteiro”. Assim, dali “sairá a luz para o mundo inteiro sobre a necessidade de tomarmos consciência de que todos temos a obrigação de cuidar desta casa comum” – disse.
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Por falarmos de conversão, oração, misericórdia e paz – tetranómio nuclear da Mensagem de Fátima –, não fica descabido acolher algumas das palavras do Vice-reitor do Santuário de Fátima, que desafiou, no passado domingo, dia 31, os peregrinos a olharem o próximo como Jesus olha para cada um de nós “sem etiquetas e como pessoas amadas”.

Com efeito, na Missa Internacional a que presidiu na Basílica da Santíssima Trindade, no domingo da alegria, o 4.º da Quaresma (chamado “Domingo Laetare”, denominação ligada à Antífona de Entrada da Eucaristia, “Laetare, Ierusalem” – Alegra-te, Jerusalém), o padre Vítor Coutinho pediu aos milhares de participantes – com particular destaque para o grupo mobilizado pela Peregrinação Nacional dos Amigos do Verbo Divino, que se fizeram anunciar – que olhassem os seus semelhantes com os olhos de Jesus, límpidos e compassivos, que transportam misericórdia e ternura em vez de distância, julgamento, censura e condenação. E explanou:

Jesus nunca vê mais nada além de pessoas, pessoas amadas. Jesus não vê etiquetas, mas pessoas amadas por Deus e este olhar dá a cada pessoa a oportunidade de dar passos na vida; este olhar dá a cada um a possibilidade de não ficar fechado na imagem que tem de si mesmo ou na que os outros fazem dele.”.
A partir do Evangelho do dia – a parábola do Pai misericordioso que tinha dois filhos: o pródigo e o que não abandonou a casa paterna – onde se releva o amor paciente e sempre acolhedor do Pai, independentemente do itinerário de vida de cada um, os peregrinos foram instados pelo sacerdote celebrante a fazerem uma verdadeira comunhão com Deus. Na verdade, como sublinhou, o olhar do pai sobre o filho pródigo “é o olhar de Jesus que não tem paralelo no mundo de hoje”, sendo que, “tal como o pai da parábola acolhe o filho faminto e pecador”, que se converte e reza confessando, arrependido o seu pecado, também “Jesus acolhe todos os que dele se aproximam e querem com ele fazer comunhão”.
E, como sublinhou o sacerdote em seu discurso homilético, sabemos “da história do filho pródigo” que aquilo que nos salva “é o olhar comovido de Deus, que não fica indiferente”, mas cuja compaixão “não olha de cima nem de longe, mas de perto, deixando-nos sempre um olhar de perdão que nos renova” e nos dá a paz interior, que nos faz trabalhar a paz para e com os outros e criar um estilo de vida em profundeza e solidariedade. E é com este olhar terno inspirador dos cristãos a participarem no sentido de festa que somos convidados a saborear “a bondade Daquele que nos olha”.
Não podemos comportar-nos como o filho mais velho da parábola, que roído de inveja, se pôs a acusar o Pai e o irmão do que fizeram e do que não fizeram, omitindo gravemente os atos generosos do Pai e desprezando a mudança de vida do irmão.   
Por conseguinte, ao longo da Liturgia da Palavra ecoou um convite a fazer festa, isto é, um convite a que tenha cada um a capacidade de, em cada momento da vida, “viver na plenitude do sentido que só Deus permite” e a que nos estimula. E disto é testemunha, mensageira e promotora a Virgem Santa Maria Mãe de Deus e nossa Mãe.
2019.04.01 – Louro de Carvalho