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sábado, 20 de janeiro de 2018

Francisco no Chile ou a mensagem papal em contexto de protesto

O Papa esteve no Chile numa visita oficial de três dias antes de visitar o Peru. O evento ficou marcado por protestos devido a abusos sexuais na igreja (são indiciados de abuso sexual infantil cerca de 80 membros do clero chileno) e aos direitos dos indígenas.
Segundo um estudo, os chilenos atribuíram a Francisco a pontuação de 5,3, numa escala de 0 a 10, enquanto a confiança na Igreja ficou apenas nos 36%, a mais baixa da América Latina. E, dias antes da chegada papal, vários templos tinham sido atacados e vandalizados. 
Porém, à chegada, o Pontífice quebrou o protocolo e dirigiu-se aos fiéis que o esperavam nas ruas. E manifestou o seu pesar afirmando sentir vergonha pelo dano irreparável causado a crianças por parte de ministros da igreja.
No dia 17, reuniu-se na cidade de Temuco com representantes da etnia Mapuche, que estão em pé de guerra contra o Chile e a Argentina para reivindicar a soberania de terras que lhes foram retiradas no século XIX.
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No encontro com as Autoridades, com a Sociedade Civil e com o Corpo Diplomático, frisou o desenvolvimento da democracia, nos últimos decénios, que potenciou “um notável progresso”, a marcar o destino do Chile “como povo, baseado na liberdade e no direito”, que soube enfrentar e superar “vários períodos turbulentos”. A este respeito retomou as palavras do Cardeal Silva Henríquez, num Te Deum:

Nós – todos – somos construtores da obra mais bela: a pátria. A pátria terrena que prefigura e prepara a pátria sem fronteiras. Esta pátria não começa hoje, connosco; mas não pode crescer nem frutificar sem nós. Por isso, a recebemos com respeito, com gratidão, como uma tarefa iniciada há muitos anos, como uma herança que nos orgulha e simultaneamente nos compromete.”.

Depois, sustentou que “cada geração deve fazer suas as lutas e as conquistas das gerações anteriores e levá-las a metas ainda mais altas”, não se podendo contentar com o que se obteve no passado como se “esta situação nos levasse a ignorar que muitos dos nossos irmãos ainda sofrem situações de injustiça que nos interpelam a todos”. Com efeito, este povo tem pela frente o desafio grande e apaixonante de “continuar a trabalhar para que a democracia” não se limite aos aspetos formais, mas seja “verdadeiramente um lugar de encontro para todos”, sem exceção, construírem casa, família e nação.

Para tanto, segundo Francisco, é preciso apurar o sentido da escuta: povo e autoridades – capacidade que “adquire um grande valor nesta nação, onde a pluralidade étnica, cultural e histórica exige ser protegida de qualquer tentativa feita de parcialidade ou supremacia e que coloca em jogo a capacidade de deixar cair dogmatismos exclusivistas numa sã abertura ao bem comum”. Assim, sustenta o Papa:

É indispensável escutar: ouvir os desempregados, que não podem sustentar o presente e menos ainda o futuro das suas famílias; ouvir os povos nativos, muitas vezes esquecidos e cujos direitos necessitam de ser atendidos e a sua cultura protegida, para que não se perca uma parte da identidade e riqueza desta nação. Ouvir os migrantes, que batem às portas deste país à procura duma vida melhor e, por sua vez, com a força e a esperança de querer construir um futuro melhor para todos. Ouvir os jovens, na sua ânsia de ter maiores oportunidades, especialmente no plano educativo, e assim sentir-se protagonistas do Chile que sonham, protegendo-os ativamente do flagelo da droga que lhes rouba o melhor das suas vidas. Ouvir os idosos, com a sua sabedoria tão necessária e a carga da sua fragilidade. Não podemos abandoná-los. Ouvir as crianças, que assomam ao mundo com os seus olhos cheios de deslumbramento e inocência e esperam de nós respostas reais para um futuro de dignidade.”.

E não deixou de sublinhar como resultado desta escuta a atenção preferencial à nossa Casa Comum, promovendo uma cultura que saiba cuidar da terra, não nos contentando com oferecer respostas pontuais aos graves problemas ecológicos e ambientais que se apresentem”. Pretende o Papa “a ousadia de oferecer ‘um olhar diferente, um pensamento, uma política, um programa educativo, um estilo de vida e uma espiritualidade que oponham resistência ao avanço do paradigma tecnocrático’, que privilegia a irrupção do poder económico em prejuízo dos ecossistemas naturais e, consequentemente, do bem comum dos nossos povos”. E porfia que “o Chile possui, nas suas raízes, uma sabedoria capaz de ajudar a transcender a conceção meramente consumista da existência para adquirir uma atitude sapiencial em relação ao futuro”.

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Na celebração da Eucaristia “Pela Paz e Justiça”, em Santiago, no Parque O’Higgins, comentou o Evangelho das Bem-aventuranças, nomeadamente as que se referem à Paz e à Justiça, pondo o acento na necessidade de olhar para as pessoas como fez Jesus e referindo que a bem-aventurança da paz nos faz entrar na condição de filhos de Deus e a da justiça nos faz arrebatar o Reino dos Céus. E o Pontífice ensina:
As Bem-aventuranças são aquele novo dia para quantos continuam a apostar no futuro, continuam a sonhar, continuam a deixar-se tocar e impelir pelo Espírito de Deus”.
Interpreta o discurso da Montanha como a pedra de toque para o compromisso em prol da reconciliação:
Felizes aqueles que são capazes de sujar as mãos e trabalhar para que outros vivam em paz. Felizes aqueles que se esforçam por não semear divisão. […] Queres felicidade? Felizes aqueles que trabalham para que outros possam ter uma vida ditosa. Queres paz? Trabalha pela paz.”.
Recordando palavras do já mencionado Cardeal Henriquez – “se alguém nos perguntar: ‘Que é a justiça?’ ou se porventura consiste apenas em ‘não roubar’, dir-lhe-emos que existe outra justiça: a que exige que todo o homem seja tratado como homem” – Francisco sustenta:
Semear a paz à força de proximidade, de vizinhança; à força de sair de casa e observar os rostos, de ir ao encontro de quem se encontra em dificuldade, de quem não foi tratado como pessoa, como um digno filho desta terra. Esta é a única maneira que temos para tecer um futuro de paz, para tecer de novo uma realidade sempre passível de se desfiar.”.

Na celebração da Eucaristia “Pelo Progresso dos Povos”, em Temuco, no Aeródromo de Maquehue, Francisco partiu da hipótese da aproximação do solo a quem ouviremos cantar a pena que não pode calar, a das “injustiças de séculos que todos veem aplicar”, sendo “neste contexto de ação de graças por esta terra e pelo seu povo, mas também de tristeza e dor, que celebramos a Eucaristia”. Neste aeródromo, verificaram-se “graves violações de direitos humanos”, pelo que esta celebração é oferecida pelas “pessoas que sofreram e foram mortas e pelas que diariamente carregam aos ombros o peso de tantas injustiças”, recordando o sacrifício de Jesus na cruz repleto do pecado e do sofrimento dos nossos povos, “um sofrimento a ser resgatado”.
Depois, dissertou em torno do versículo evangélico “que todos sejam um só” (Jo 17,21), como Jesus pediu ao Pai numa hora crucial da sua vida, sabendo que “uma das piores ameaças que atinge, e atingirá, o seu povo e toda a humanidade será a divisão e o conflito, a subjugação de uns pelos outros”. E esta unidade “é um dom que devemos pedir insistentemente pelo bem da nossa terra e seus filhos”, estando com atenção a tentações que possam aparecer e contaminar pela raiz este dom com que Deus nos quer presentear. Entre tais tentações, contam-se os falsos sinónimos e as equivocas armas da unidade.
Assim, unidade não é sinónima de uniformidade, que silencia as diferenças. Ao invés, “a riqueza duma terra nasce precisamente do facto de cada parte saber partilhar a sua sabedoria com as outras”. Nestes termos, segundo o Pontífice, “a unidade é uma diversidade reconciliada, porque não tolera que, em seu nome, se legitimem as injustiças pessoais ou comunitárias”.
Quanto às armas da unidade, construída no reconhecimento e na solidariedade, não se pode aceitar qualquer meio. Por exemplo, os acordos “lindos” que não se concretizam frustram a esperança. Depois, a violência e a destruição que podem ceifar vidas humanas nunca produzem unidade, mas acabam por tornar falsa a causa mais justa. São “como lava de vulcão que tudo destrói, tudo queima, deixando atrás de si apenas esterilidade e desolação”.
Em vez disso, exorta o Papa: “procuremos e não nos cansemos de procurar o diálogo para a unidade”, rezando: “Senhor, fazei-nos artesãos de unidade”.
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Na missa da “Virgem do Carmo e de Oração pelo Chile, em Iquique – Campus Lobito, o Papa desenvolveu a pregação em torno do versículo joânico “Em Caná da Galileia, Jesus realizou o primeiro dos seus sinais miraculosos” (Jo 2,11), numa festa, a instâncias de sua Mãe. E sublinhou o ambiente de festa como ambiente do Evangelho, boa nova da alegria, “uma alegria que se propaga de geração em geração e da qual somos herdeiros”, porque “somos cristãos”.
Assumindo-se como peregrino a celebrar com o Chile a maneira linda de viver a fé, frisou:
As vossas festas patronais, as vossas danças religiosas (que chegam a durar uma semana), a vossa música, os vossos vestidos fazem desta região um santuário de piedade e de espiritualidade popular. De facto, não é uma festa que fica fechada dentro do templo, mas conseguis vestir de festa toda a aldeia. Sabeis celebrar cantando e dançando ‘a paternidade, a providência, a presença amorosa e constante de Deus’; e, deste modo, gerais atitudes interiores que raramente se observam no mesmo grau em quem não possui esta religiosidade: paciência, sentido da cruz na vida quotidiana, desapego, aceitação dos outros, dedicação, devoção.”.
A seguir, apresentou a ação de Maria, para que, no ambiente de festa, a alegria prevaleça. Atenta a tudo o que sucede ao seu redor e, como boa mãe, consegue dar-se conta de que, na festa, na alegria geral, algo estava para arruinar a festa. E, aproximando-Se do Filho, diz: “Não têm vinho” (Jo 2,3).
Também agora Maria vai pelas nossas aldeias, ruas, praças, casas, hospitais. É “a Virgem da Tirana, a Virgem Ayquina em Calama, a Virgem das Penhas em Arica, que passa por todos os nossos problemas familiares, aqueles que parecem sufocar-nos o coração, para Se aproximar de Jesus e dizer-Lhe ao ouvido: Olha! Não têm vinho”. E, como então se aproximou dos que serviam na festa a dizer-lhes “Fazei o que Ele vos disser” (Jo 2,5), também agora esta mulher de poucas palavras, mas muito concreta, se aproxima de cada um de nós para nos dizer: “Fazei o que Ele vos disser”. E é por esta via que vira o milagre.
Disse o Papa argentino que “o milagre começa quando os serventes aproximam as vasilhas de pedra com água que se destinavam à purificação”, pelo que “também cada um de nós pode começar o milagre” e “cada um de nós é convidado a participar do milagre para os outros”.
E Francisco passou a apontar Iquique, “terra de sonhos”, como palco do milagre para os outros:
Uma terra que soube albergar pessoas de diferentes povos e culturas, pessoas que tiveram de deixar os seus queridos e partir. Uma marcha sempre baseada na esperança de obter uma vida melhor, mas sabemos que sempre se faz acompanhar por bagagens carregadas de medo e incerteza pelo que virá.”.
Esta região de imigrantes mostra “a grandeza de homens e mulheres, de famílias inteiras que, perante a adversidade, não se dão por vencidas, mas se mexem à procura de vida”, quais “ícones da Sagrada Família, que teve de atravessar desertos para poder continuar a viver”.
Assim, o Pontífice quer que esta é terra de sonhos “continue a ser também terra de hospitalidade” e de hospitalidade festiva, pois “não há alegria cristã, quando se fecham as portas; não há alegria cristã, quando se faz sentir aos outros que estão a mais ou que não têm lugar no nosso meio” (cf Lc 16,19-31).
Pretende que, tal como Maria em Caná, estejamos atentos nas praças e aldeias e reconhecer os “que têm a vida ‘arruinada’, que perderam – ou lhes roubaram – as razões para fazer festa”. E as nossas vozes a dizer ‘Não têm vinho’ serão “o grito do povo de Deus, o grito do pobre, que tem forma de oração e alarga o coração, e nos ensina a estar atentos”. Por isso, apela:
Estejamos atentos a todas as situações de injustiça e às novas formas de exploração que fazem tantos irmãos perder a alegria da festa. Estejamos atentos à situação de precariedade do trabalho que destrói vidas e famílias. Estejamos atentos a quem se aproveita da irregularidade de muitos migrantes porque não conhecem a língua ou não têm os documentos em ‘regra’.”.
Mas também – ensina – como os serventes da festa, traremos o que temos, por pouco que pareça, de modo que “a nossa solidariedade e o nosso compromisso em prol da justiça sejam parte da dança ou do cântico que hoje podemos entoar a Nosso Senhor”, deixando-nos “impregnar pelos valores, a sabedoria e a fé que os migrantes trazem consigo, sem nos fecharmos a essas ‘vasilhas’ cheias de sabedoria e história que trazem quantos continuam a chegar a estas terras”, e não nos privando “de todo o bem que eles têm para oferecer”.
Depois, exorta o Santo Padre:
Deixemos que Jesus possa completar o milagre, transformando as nossas comunidades e os nossos corações em sinal vivo da sua presença, que é jubilosa e festiva porque experimentamos que Deus está connosco, porque aprendemos a hospedá-Lo no meio de nós, no nosso coração”.
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O Papa teve ainda, no Chile, encontros com o Centro Penitenciário Feminino de Santiago, com os Sacerdotes, Consagrados e Seminaristas, com os Bispos, com os jovens; e almoçou com alguns habitantes de Araucanía.
A caminho para a missa em Iquique, desfilou no Papamóvel pelas ruas saudando fiéis. No trajeto, desceu do Papamóvel para ajudar uma policial que caiu do cavalo em que estava quando passou ao lado do Pontífice.
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Mais de meio milhão de estrangeiros vive, atualmente, no Chile em situação legal, segundo dados oficiais, ou seja, 3% da população de 17,5 milhões. De acordo com números divulgados pela imprensa local, apenas no ano passado cerca de 105 mil haitianos e mais de 100 mil venezuelanos chegaram ao território.

O Papa, apesar de alguma densidade de contexto, fez passar a mensagem essencial da reconciliação, do sonho, da unidade nas diferenças, da hospitalidade, do acolhimento, da denúncia das injustiças e da alegria evangélica, mobilizando para a oração/reflexão e para ação solidária – sempre numa linha de aprendizagem e de busca de vida – implicando neste dinamismo todos: autoridades, forças vivas do povo e agentes da pastoral.

2018.01.20 – Louro de Carvalho

sábado, 20 de maio de 2017

A propósito do milagre do Sol: autonomia da ciência e da religião

O fenómeno presenciado por cerca de 70 mil pessoas, a 13 de outubro de 1917, na Cova da Iria, corresponde ao prometido “milagre” que a Senhora “aparecida” aos pastorinhos de Fátima elegeu para que as pessoas pudessem acreditar na veridicidade das palavras dos três videntes.
O comportamento anormal do astro-rei parecia desafiar as leis da física em razão do tamanho, da pretensa aproximação e aparente pendência, da coloração (mudando de tons) e do aparente movimento giratório em torno do seu eixo e como que dentro de uma grande caixa.
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O fenómeno
A seleção de documentos, designada por Documentação Crítica de Fátima, que abrange os datados dos anos de 1917 a 1930, regista o relato de José Maria de Almeida Garrett, professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra quando assistiu ao fenómeno em Fátima. E, em carta que escreveu a 18 de dezembro daquele ano, diz “relatar de uma maneira breve e concisa, sem frases que velem a verdade”, o que testemunhou a 13 de outubro de 1917, o dia em que os pastorinhos diziam que a Virgem Maria voltaria a aparecer:
“Devia ser uma e meia quando se ergueu, no local preciso onde estavam as crianças, uma coluna de fumo, delgada, ténue e azulada que subiu direita até dois metros, talvez, acima das cabeças para nesta altura se esvair”.
O professor dizia que o dia estava chuvoso, mas “o sol momentos antes tinha rompido ovante, a densa camada de nuvens que o tivera escondido, para brilhar clara e intensamente”. O circunstante voltou-se para aquele “íman que atraía todos os olhares” e pôde vê-lo “semelhante a um disco de bordo nítido e aresta viva luminosa e luzente mas sem magoar”.
Segundo Garrett, o fenómeno não se podia comparar à Lua porque “não era como a lua esférica e não tinha a mesma tonalidade nem os claros-escuros”, antes parecendo uma rodela brunida cortada no nácar de uma concha”. E não se podia comparar ao Sol em dia de nevoeiro, porque “não era opaco, difuso e velado”, mas ali tinha “luz e calor e desenhava-se nítido e com a borda cortada em aresta como uma tabela de jogo”. Garantindo que o registo “não é uma comparação banal de poesia barata”, o professor confessava:
“Os meus olhos viram assim. As nuvens que corriam ligeiras de poente para oriente não empanavam a luz (que não feria) do Sol dando a impressão facilmente compreensível e explicável de passar por detrás, mas, por vezes, esses flocos, que vinham brancos, pareciam tomar, deslizando ante o Sol, uma tonalidade rosa ou azul diáfana.”.
E continua Almeida Garrett:
“Este fenómeno com duas breves interrupções em que o sol bravio arremessou os seus raios mais coruscantes e refulgentes, e que obrigaram a desviar o olhar, devia ter durado cerca de dez minutos. Este disco nacarado tinha a vertigem do movimento. Não era a cintilação de um astro em plena vida. Girava sobre si mesmo numa velocidade arrebatada. De repente, ouve-se um clamor como que um grito de angústia de todo aquele povo. O sol, conservando a celeridade da sua rotação, destaca-se do firmamento e sanguíneo avança sobre a terra ameaçando esmagar-nos com o peso da sua ígnea e ingente mó. São segundos de impressão terrífica. Durante o acidente solar, que detalhadamente tenho vindo a descrever, houve na atmosfera coloridos cambiantes.”.
Também uma carta do matemático Gonçalo de Almeida Garrett (pai de José Maria) ao padre Manuel Nunes Formigão – que investigou o fenómeno e interrogou os videntes, entre outras testemunhas – refere que os fenómenos solares não são
“Astronómicos do Sol propriamente dito, mas sim meteorológicos da atmosfera da Terra sobre a imagem solar, quanto à cor e aspeto do brilho semelhante à lua, e também quanto à vista da rotação”.
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As tentativas de explicação
Dom Carlos Azevedo, na publicação que deu a lume recentemente – “Fátima – das Visões dos Pastorinhos à Visão Cristã” – e na entrevista em que a apresentou, abriu para a explicação física do fenómeno, fixando-se mais no significado espiritual de Fátima, da mensagem e do perfil dos videntes, bem como no contributo para a vivência cristã.
Tanto ao Observador como ao Expresso, Carlos Fiolhais – físico, professor catedrático da Universidade de Coimbra e um dos cientistas e divulgadores de ciência mais conhecidos em Portugal –, assegurando que “já lá vai o tempo em que ciência e religião tentavam explicar-se uma à outra”, diz:
“Religião e ciência são duas dimensões do ser humano que podem coexistir, como mostram não só o caso de Galileu como o do padre Lemaitre e tantos outros”.
O eminente físico, em artigo sobre “a ciência de Deus e a fé dos cientistas”, explicita que “a ciência não tem a ilusão de responder a todas as questões”, só respondendo às questões para as quais funciona com método científico, fundado na lógica, na observação e na experiência. A ciência não consegue, e provavelmente não vai responder nunca, “à questão sobre o que aconteceu antes do Big Bang, se é que houve um antes”.
Mesmo assim, há cem anos que os cientistas tentam encontrar fundo científico em alguns fenómenos que a religião interpreta como milagrosos.
Alguns especialistas pensam que o movimento giratório do Sol será algo previsto pelas leis da Natureza, embora não de forma tão percetível como foi relatado em Fátima. Com efeito, as estrelas formam-se quando uma nuvem densa de gases colapsa graças à força gravítica. A nuvem, similar do berço, forma o “disco protoplanetário”, que originará mais tarde a estrela e os planetas que gravitam em seu redor. No centro do disco, em rotação, forma-se a “protoestrela”, também em movimento giratório. Graças à conservação do momento angular, o movimento de rotação mantém-se inalterado a não ser que sofra uma intervenção externa que o acelere ou abrande. Assim, o Sol, tal como todos os planetas que orbitam em redor dele, giram em torno do próprio eixo. A nossa estrela tem uma rotação que equivale, no equador, a 25 dias terrestres com algumas variações: quanto maior a altitude, mais lenta é a rotação; e, como uma estrela não é sólida, não gira de forma uniforme em todo o corpo celeste. Ora, tal como o Sol foi visto “a girar” em Fátima, também há quem diga tê-lo visto “a dançar” pelo céu.
De acordo um programa criado pelo astrónomo Carsten A. Arnholm, esse fenómeno pode ser explicável. O centro de gravidade do Sistema Solar não corresponde necessariamente ao centro de gravidade da estrela que o protagoniza: é determinado pelas massas dos corpos celestes que o compõem e pelas posições que ocupam a cada momento. Como acontece com os planetas, o Sol não está parado: além do movimento de rotação, tem um movimento de translação e orbita o centro de massa do Sistema Solar. Como esse centro de massa muda sempre que os planetas realizam os seus movimentos de translação, a órbita do Sol também está em constante mudança. Assim, quanto mais perto o centro de massa do Sol e o centro de massa do Sistema Solar estiverem, menor será o movimento da nossa estrela; mas quanto mais afastados estiverem, maior será a amplitude desse movimento solar.
Terá acontecido assim a 13 de outubro de 1917? Se assim foi, não estaremos perante um “milagre”, mas numa coincidência do maravilhoso físico com o momento – o que não deixa de ser um sinal. Aliás, contra o que pensavam os israelitas, Deus raramente atua diretamente, mas, como diziam os escolásticos, através das causas segundas: os homens e as leis físicas, químicas e biológicas que imprimiu nos seres criados.
Outros explicam alguns fenómenos no Sol através da poeira estratosférica (o conjunto de partículas que pairam na camada atmosférica logo acima da mais próxima à superfície terrestre). Em outubro de 1989, o cientista escocês Steuart Campbell assegurava que uma nuvem de poeira estratosférica alterou a aparência do Sol, fazendo com que fosse muito mais fácil olhar para o astro. De acordo com os estudos do cientista, o Sol parecia ser amarelo, azul e violeta e a girar em torno de um eixo. Seis anos antes, fenómeno que também foi reportado na China.
Também a síndrome de Jerusalém pode ajudar. O fenómeno mental em que pessoas saudáveis passam por ilusões ou experiências psicóticas de fundo religioso ao visitar espaços de adoração foi identificado pela primeira vez nos anos 30 pelo psiquiatra israelita Heinz Herman, embora comportamentos semelhantes tenham sido relatados na Idade Média. Esta síndrome assume três modos diferentes: o relativo a pessoas com episódios psicóticos anteriores; o relativo a pessoas com historial de distúrbios de personalidade; e o relativo a pessoas sem qualquer registo de distúrbio mental ou de personalidade anterior. Porém, nenhum desses modos resulta em alucinação visual ou auditiva.
Outra hipótese explicativa tem a ver com o parélio, fenómeno meteorológico provocado pela interação da luz solar com os cristais de gelo suspensos na atmosfera em nuvens do tipo cirros. Mais visíveis quando o Sol está próximo do horizonte, os parélios costumam aparecer como luzes coloridas e aos pares (um em cada lado do Sol), à mesma elevação do Sol no céu. Esta explicação para o que sucedeu a 13 de outubro de 1917, em Fátima, foi sugerida por Joe Nickell, no livro The Science of Miracles – Investigating the Incredible (Paperback, 2013). Os pastorinhos e demais circunstantes não teriam visto o Sol, porque “o fenómeno terá acontecido num azimute” que não podia corresponder à estrela. Contudo, o parélio não explica a dança do Sol dos registos de 1917, porque o parélio é um fenómeno meteorológico estacionário. Para justificar o dito comportamento do Sol, Nickell sugere que o astro tenha parecido mover-se por causa duma distorção da retina temporária dos observadores, causada por olharem longamente para uma luz tão intensa. Para fugir à luz, o cérebro força os olhos a moverem-se à esquerda e à direita. E as imagens captadas pelos olhos são interpretadas uma a seguir à outra pelo cérebro, criando a ilusão de movimento.
Em termos de tempestade solar, referem-se erupções solares, ejeções de massa coronal, tempestades geomagnéticas ou eventos de protões solares.
As erupções são explosões na superfície do Sol e ocorrem aquando de mudanças bruscas no seu campo magnético. A estrela liberta grandes quantidades de energia eletromagnética quando explode uma porção dela, armazenada em campos magnéticos por cima das manchas solares. O Sol irradia desde ondas rádio até raios gama, além de luz visível e de partículas de plasma. A par das erupções, podem surgir ejeções de massa coronal, ou seja, grandes erupções de gás ionizado a alta temperatura vindo da coroa solar. À superfície atingem até 1,5 milhões de graus Celsius e formam arco que, ao arrefecer, choca com a superfície a 100 Km por segundo. A emissão de partículas pode ainda justificar-se por tempestades geomagnéticas, perturbações que surgem na magnetosfera terrestre provocadas, por uma onda de choque com origem no vento solar. Quando este chega ao campo magnético da Terra, há um aumento de plasma (partículas ionizadas) a circular na magnetosfera e, por consequência, há um aumento da corrente elétrica na ionosfera e magnetosfera da Terra. A partir da superfície, esse aumento de partículas de plasma podem ser vistas na forma de auroras boreais e austrais. Ocorre, de vez em quando, o fenómeno de fulguração solar, após o que pode seguir-se (duas ou mais horas depois) a chuva de protões energéticos a impender sobre a Terra.
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A posição de Carlos Fiolhais e a da Igreja Católica
Por seu turno, Carlos Fiolhais diz que o Milagre do Sol não lhe interessa, sustentando que não se trata de rejeitar a religião e reconhecendo que as relações entre ciência e religião já estiveram piores. E, segundo o Expresso, contou as viagens reais de Einstein – as mentais, pelo Universo, e depois as físicas, pela Terra.
Em 1919, o jornal O Século ostentava um título insinuante “A Luz Pesa”. O cientista comparou-o a um verso de Eugénio de Andrade, numa conferência que deu em Matosinhos. O tema era Einstein, e a ocasião o LeV, o festival sobre literatura de viagens que aquela cidade vizinha do Porto acolhe na primavera. E a referência a O Século surgiu a propósito do eclipse de 1919 que confirmou quase magicamente as previsões de Einstein como os raios de luz vindos das estrelas por trás do sol se desviariam ao rasar esse astro, devido à deformação do espaço. O termo “quase” abre para a não “magicidade” do fenómeno, que resultou das leis da natureza, conforme Einstein previra com base na matemática. E foi aí que começou a fama universal do físico, que realizaria, nos anos seguintes, uma série de longas viagens pelo mundo, de barco e a convite.
Como, neste dia 13 de maio de 2017, o Papa estava em Portugal a canonizar os pastorinhos e foi também no jornal O Século que em 1917 surgiu a famosa reportagem sobre o Milagre do Sol, Fiolhais foi questionado sobre que relação poderá existir entre os dois 'milagres', para se explorar a compreensão das formas diversas de abordar o mundo. E o físico foi perentório:
“Nenhum paralelo ou contraste. Não têm nada a ver. São domínios diferentes. A ciência liga com o observado, o experimentado. Também há crença, mas justificada pela observação ou a experiência. Nenhum cientista andou a estudar o milagre do Sol. A ciência não estuda milagres.”.
Nem por curiosidade. E explica-se:
“Nunca me interessou o assunto, pois era perda de tempo. O que se passou, se é que se passou alguma coisa, foram apenas relatos do domínio do individual e do espiritual. Esses fenómenos, que existem, não têm a ver a ciência. Como aliás outros. Se você se emociona com uma música ou uma peça literária, acha que a ciência tem de explicar porquê?”
Mesmo admitindo que muitas pessoas religiosas acham que, de facto, o sol se mexeu daquela maneira, diz que os cientistas não vão estudar nem confirmar isso. E, sobre o facto de milhares de pessoas terem garantido que o Sol se moveu mesmo, replicou:
“Qualquer pessoa pode dizer o que quiser. Mas, para haver alguma evidência de alguma coisa, são precisas observações fidedignas. Um agrupamento de pessoas com motivações religiosas não são testemunhas fidedignas. Há muitos observatórios em Portugal, na Europa, em todo o mundo, que nesse dia estiveram a ver o sol. Em Coimbra, por exemplo, há um que tira fotografias do sol todos os dias. Não houve anomalia absolutamente nenhuma.”.
Mas repete, no atinente à relação ciência religião, primeiro pela negativa:
“Não existe incompatibilidade entre religião e ciência. Há católicos a fazer ciência. Por exemplo, o padre Lemaître, o do Big Bang. Quando ele descobre isso, o Papa quer aproveitar: cá está, o início do mundo. E ele foi suficientemente honesto para dizer, não, não, não falo disso, não temos provas.”.
Depois pela positiva:
“Ciência e religião são quase como duas partes diferentes do cérebro. Têm em comum o facto de ambas quererem penetrar o mistério. Enquanto uma delas fala do que é possível desvendar através do método, na outra nunca é possível desvendar senão talvez através dos dogmas, das igrejas organizadas.”.
No entanto, recordou que a tensão nunca ficara resolvida. E exemplificou com o caso dos EUA:
“Não está resolvido, nem nunca se vai resolver, mas nos Estados Unidos, quando se pôs a questão de ensinar o criacionismo nas escolas, por exemplo, o Supremo Tribunal tomou uma atitude decente. Disse que quem quisesse um ensino religioso podia tê-lo, mas as escolas oficiais deviam ensinar ciência.”.
Já quanto à Igreja Católica, diz que não há problema algum. O Papa aceita o Big Bang e a evolução e incita os cientistas a que façam o seu trabalho. Tem a Pontifícia Academia das Ciências, cujo chefe é um Prémio Nobel da biologia, protestante, e de que Stephen Hawking faz parte. São 80 sábios, sem que se pergunte a religião de cada um. A questão é só o que eles sabem do mundo. Aliás, a Igreja tem um observatório astronómico no Arizona. “Também há uma coisa de brincadeira, histórica”, na residência de verão do Papa em Castel Gandolfo.
Nos últimos anos esta orientação intensificou-se, mas já vem de trás. João Paulo II fez um gesto de que a Igreja gostou muito, que foi reabilitar Galileu, condenado pela Igreja há 400 anos. O Papa reabriu o processo e declarou, com palavras muito cuidadas, que Galileu tinha razão.
E Francisco pediu, no dia 12, durante um encontro no Observatório Astronómico do Vaticano, que se ultrapassem “posições fechadas” ante as descobertas científicas e aconselhou a aceitá-las com “humildade”, admitindo que alguns assuntos têm particular interesse para a Igreja:
“Há que nunca ter medo da verdade nem permanecer em posições fechadas, mas sim aceitar as novidades das descobertas científicas com uma atitude de total humildade”.
Para sustentar a sua posição, o Papa mencionou o exemplo do belga George Lemaitre, que no duplo papel de sacerdote católico e de cosmólogo, numa incessante tensão criativa entre ciência e fé, sempre defendeu lucidamente a distinção metodológica entre os campos da ciência e da teologia”. E prosseguiu: “
“É claro que estes temas têm particular relevância para a ciência, a filosofia, a teologia e também para a vida espiritual. Representam uma ‘arena’ em que estas disciplinas coincidiram e, por vezes, chocaram”.
Mas para o Papa uma coisa é certa:
“A existência e a inteligibilidade do universo não são fruto do caos e do acaso, mas sim da sabedoria divina”.
***
A plurifacetação e a relatividade da ciência
Porém, ao ser questionado sobre as questões levantadas pela biologia, Fiolhais diz que “Einstein é muito mais certo do que a biologia”, não havendo comparação possível. De facto, “na biologia, temos restos” e “não podemos ir ao passado fazer experiências”; na física, a evidência “é muito maior”. Contudo, nega que possamos ter a certeza absoluta de que as teorias  de Einstein estão corretas. E diz a este respeito:
“A história da ciência diz que não há verdades absolutas. Isto é, podemos sempre saber mais e melhor. É uma questão filosófica. Os físicos aprenderam a ser modestos, são incapazes de dizer que têm a última palavra. Houve alguns no passado que disseram isso e depois arrependeram-se. Os do século XIX achavam que sabiam tudo, e de repente aparecem a teoria da relatividade e a teoria quântica.”.
E releva a importância da teoria quântica:
“A teoria da relatividade não tem assim tanto impacto prático, mas a quântica sim. Isso que aí tem (aponta para o telemóvel) são transístores que funcionam de acordo com a teoria quântica. É teoria quântica condensada. Só tem valor porque nos ajuda nas nossas vidas. E aconteceu estudando um ramo da física que alguns no século XIX davam como morto. No século XIX nem sequer se sabia se havia átomos. Hoje em dia não só sabemos como os manipulamos, fazemos engenharia atómica, transístores cada vez mais pequenos…”.
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Devo declarar profundo respeito tanto por quem tenta explicar o fenómeno como quem não lhe dá importância científica. Mas aprecio ainda mais a confissão da relatividade da ciência, pondo-a na rota da permanente busca e descoberta, e a autonomia da ciência e da religião, em tensão, mas não de costas voltadas. Quanto à dança do Sol, por coincidência ou por virtude preterfísica, vale como sinal para que o mundo aceite a mensagem celeste, sendo mais valiosa a dança da atenção a Deus e aos mais deserdados em cujo rosto, às vezes, se desfigura a dignidade humana.
2017.05.20 – Louro de Carvalho


sexta-feira, 5 de agosto de 2016

O sentido mariano do dia 5 de agosto

No dia 5 de agosto, celebra-se a memória litúrgica de Santa Mãe de Deus ou, em termos populares, de Nossa Senhora das Neves. Em Roma, o Milagre da Neve é lembrado cada ano desde 1983 com um espetáculo de som e luz, no qual a neve é representada por uma chuva de pétalas brancas lançadas do teto sobre o hipogeu da Basílica de Santa Maria Maior.
Embora a solenidade de Santa Maria Mãe de Deus, por via da reforma da Liturgia estipulada pelo Concílio Vaticano II, se celebre no dia 1 de janeiro, no início do ano civil e Dia Mundial da Paz, nem por isso se deslustra este dia festivo de agosto, dado que se comemora a dedicação da basílica de Santa Maria em Roma (introduzida a festa no santoral romano em 1568), em que a Virgem Mãe de Deus é venerada sob o título de Santa Maria Maior, por se tratar do primeiro templo romano (e muito grande) dedicado a Santa Maria e ainda a primeira igreja do Ocidente dedicada a Nossa Senhora. A construção foi determinada sobre uma construção anterior menos imponente, pelo papa Sisto III no ano de 431, a seguir ao Concílio de Éfeso, no qual foi solenemente proclamado o reconhecimento de Maria como a Mãe de Deus (theotókos) e não apenas a mãe do Cristo homem (Christotókos), como afirmava Nestório. A dedicação ocorreu em 440.
Além disso, a basílica guarda numa capela especial o célebre ícone mariano bizantino “Salus Populi Romani” (Salvação do Povo Romano ou Protetora do Povo Romano), que a tradição histórica diz ter sido pintado pelo evangelista Lucas, mas crê-se que seja, pelo menos, do início da era cristã. Trata-se dum título dado no século XIX àquele ícone bizantino da Virgem com o Menino Jesus. Tem sido historicamente o mais importante ícone mariano em Roma, embora a devoção a ele tenha diminuído em relação a outras imagens (como a de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro – um ícone muito parecido). Não obstante, ao longo dos séculos, recuperou um certo estatuto, especialmente ao ser coroada pelo Papa Pio XII em 1954. E, nos últimos tempos, a basílica de Santa Maria Maior tem profundos vínculos com os papas. João Paulo II mandou colocar e manter acesa dia e noite uma lâmpada de óleo sob a efígie da Salus Populi Romani e, a 8 de dezembro de 2001, dia da Imaculada Conceição, inaugurou na basílica o Museu de Santa Maria Maior, com obras de arte históricas sobre Maria. Depois, em 2003, o mesmo Papa deu aos jovens da Jornada Mundial da Juventude (JMJ) uma cópia contemporânea deste antigo e sagrado ícone como símbolo de fé para ser levado pelo mundo, a acompanhar a cruz da JMJ, dizendo:
“Hoje eu confio-vos... o ícone de Maria. De agora em diante, ele vai acompanhar as Jornadas Mundiais da Juventude, junto com a cruz. Contemplai a sua Mãe! Ele será um sinal da presença materna de Maria próxima dos jovens que são chamados, como o apóstolo João, a acolhê-la em suas vidas” (Roma, 18.ª JMJ, 2003). 
Bento XVI visitou a Basílica várias vezes pedindo a intercessão da Salus Populi Romani; e Francisco, entre visitas públicas e privadas, já foi mais de 20 vezes saudar Maria nesse templo romano, ao qual nunca deixa de ir antes e depois de suas viagens pontifícias internacionais.
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Deve-se ao frade Bartolomeu de Trento, que viveu no século XIII, a versão sobre a origem da basílica de Santa Maria Maior. Segundo a tradição, no ano 352, vivia em Roma Giovanni, o representante do imperador, que se tinha transferido para Constantinopla. O fidalgo riquíssimo não sabia como gastar toda a sua fortuna. Não tinha filhos e, de acordo com a esposa, queria construir obras pias para a Igreja, em honra de Deus e de Maria, mas não sabia quais escolher.
Entretanto, sucedeu o inesperado: “signum de caelo descendens”.
Durante a noite de 4 para 5 de agosto, apareceu-lhe em sonho a Virgem Maria, que lhe ordenou construir uma igreja no lugar que estivesse com neve pela manhã. O rico senhor acordou e pôs-se a pensar que a neve em Roma era uma coisa estranha, pois agosto era a estação de verão, extremamente quente naquela cidade. Porém, o mais interessante foi que a Virgem, na mesma noite, apareceu também ao Papa Libério a dizer-lhe que, logo ao raiar do dia, subisse a colina do monte Esquilino, pois encontraria o local cheio de neve e lá deveria erguer uma igreja. Pela manhã, aquele facto inédito verificou-se e, enquanto a notícia se espalhava por toda a cidade de Roma e arredores, o Papa e Giovanni, caminhando por vias diferentes, seguidos por uma multidão encontraram-se. E lá em cima, no monte Esquilino, comprovaram a neve. Com um bastão Libério traçou a área para edificação da igreja que o patrício construiu apenas com o seu dinheiro. Nascia a igreja de Santa Maria da Neves ou igreja liberiana.
Alguns dizem que Giovanni procurara o Papa Libério para lhe contar o sonho e que ficara surpreso quando o Pontífice revelara que também havia tido idêntica visão. Depois, juntos com a população foram ao alto do monte Esquilino e demarcaram sobre a neve o terreno onde a igreja havia de ser construída, seguindo o perímetro do terreno nevado. Assim se verifica que as tradições se mesclam por obra da alma popular que sempre uniu poesia/ficção à história.
As colinas do monte Esquilino tinham sido, na Antiguidade, um lugar de despejo de lixo, zona de imundices; posteriormente, tornou-se em lugar de sepultara de escravos. Na época do Império, porém, as colinas eram ocupadas por imensas vilas de nobres. Mas não deixava de ser um lugar de estranhas lembranças e que a comunidade evitava frequentar.
Com a edificação da igreja da Santa Maria da Neve ou das Neves, o local reconquistou a visita popular. Tanto é verdade que cerca de um século depois, para celebrar os resultados do Concílio de Éfeso, que proclamou inequivocamente e com o aplauso dos fiéis a “maternidade divina da Virgem Maria”, o Papa Xisto III quis mandar construir uma basílica em honra da Mãe de Deus. Mas, querendo que fosse grande, muito grande, escolheu o mesmo local onde fora construída a igreja indicada pela Virgem em sonho ao Papa Libério. No dia 5 de agosto de 431, foi lançada a nova igreja, a substituir a anterior, que foi consagrada depois, com o nome de basílica de “Santa Maria Maior”. Nela foi realizado o primeiro presépio de que há notícia na Igreja, pelo que também ficou conhecida como basílica de “Santa Maria do Presépio”. Nesta basílica – um dos maiores e mais belos santuários marianos de toda a cristandade – encontram-se os primeiros e mais ricos mosaicos alusivos a Nossa Senhora.
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A Basílica de Santa Maria Maior  é uma das Basílicas Papais de Roma ou uma das quatro Basílicas Maiores, que são: São João de Latrão, São Pedro, São Paulo Fora dos Muros e Santa Maria Maior.
Todas as Basílicas Maiores têm a porta santa e o altar maior ou altar papal. A porta santa é aberta com um ritual especial pelo Papa ou por um delegado seu somente durante o Jubileu e tem uma importante função na concessão da indulgência plenária. Do altar papal apenas o Papa e os seus delegados podem celebrar a missa.
Santa Maria Maior é a única basílica que conservou a estrutura paleocristã (cristã primitiva). Tendo sido enriquecida com vários acréscimos posteriores – nomeadamente em termos do recheio, como como capelas e obras de arte – por confrarias, cardeais e papas.
O seu valor artístico é inestimável. Nela está o túmulo de Gian Lorenzo Bernini, notável escultor, arquiteto e pintor italiano.
De acordo com o Tratado de Latrão (1929) a basílica pertence à Santa Sé, apesar de estar localizada em território italiano, gozando de um estatuto semelhante ao das embaixadas.
A primeira Igreja dedicada a Virgem Maria no Ocidente e uma das mais belas e adornadas de toda a cidade, abriga entre outras coisas, abaixo do altar central, um relicário com um pedaço da manjedoura do menino Jesus. A sua exuberância, representada pela mais pura perfeição artística, tornou-se um dos mais convidativos locais para recolhimento e oração.
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O facto de albergar o primeiro presépio escultórico (Francisco de Assis apresentou mais tarde um presépio vivo) de que há memória a evocar a gruta do nascimento de Jesus em Belém mostra-nos a economia salvífica segundo a qual Maria, a Mãe, nos aponta a direção do Filho Jesus e lhe aponta a Ele a nossa direção. Os seus cuidados – sob a Palavra – de maternidade expectante, de maternidade no nascimento e da infância, de maternidade na adultez de Jesus e no transe do Calvário, de maternidade da Igreja (Corpo Místico de Cristo) nascente e da Igreja que vive em cada comunidade e em todo o mundo bem demonstram que a Mãe de Deus é não só a Salus Populi Romani, mas a mãe da Igreja e, em Cristo, a Salvação de Todo o Mundo e a nossa Mãe.

O Ofício de Leitura da Liturgia das Horas sugere a leitura dum excerto da Homilia do bispo São Cirilo de Alexandria, proferida no Concílio de Éfeso (Homilia 4: PG 77, 991.995-996) (Século V) – em  Louvor de Maria, Mãe de Deus

Contemplando a assembleia dos homens santos, alegres e exultantes, que, movidos pela santa Mãe de Deus, ali acorreram com prontidão, Cirilo manifesta alegria por aquele “bom e agradável convívio dos irmãos” que saúdam a Santa Trindade que os reuniu naquela “igreja de Santa Maria, Mãe de Deus”. E à Mãe de Deus chama “venerando tesouro de toda a terra, lâmpada inextinguível, coroa da virgindade, cetro da doutrina verdadeira, templo indestrutível, morada d’Aquele que nenhum lugar pode conter, Mãe e Virgem, por meio da qual nos santos Evangelhos Jesus é chamado Bendito O que vem em nome do Senhor. 
O orador saúda Maria, que trouxe no seio virginal “Aquele que é imenso e infinito”. E justifica:
“Por Vós, a santa Trindade é glorificada e adorada; por Vós, a cruz preciosa é adorada no mundo inteiro; por Vós, o Céu exulta; por Vós, alegram-se os Anjos e os Arcanjos; por Vós, são postos em fuga os demónios; por Vós, o diabo tentador foi precipitado do Céu; por Vós, a criatura decaída é elevada ao Céu; por Vós, todo o género humano, sujeito à insensatez da idolatria, chega ao conhecimento da verdade; por Vós, o santo Batismo purifica os crentes; por Vós, nos vem o óleo da alegria; por Vós, são fundadas as Igrejas em toda a terra; por Vós, os povos são conduzidos à penitência.
Por Ela, o Filho Unigénito de Deus iluminou os que jaziam nas trevas e na sombra da morte; os Profetas anunciaram as coisas futuras; os Apóstolos pregaram a salvação aos povos; os mortos são ressuscitados; e reinam os reis em nome da santa Trindade. E, querendo que o louvor a Maria chegue por boas mãos à Santíssima Trindade, o orador homilético formula o voto:
“Queira Deus que todos nós reverenciemos e adoremos a Unidade, que em santo temor veneremos a indivisível Trindade, ao celebrarmos os louvores da sempre Virgem Maria, templo santo de Deus, que é seu Filho e Esposo imaculado. A Ele a glória pelos séculos dos séculos. Amen.” 

2016.08.05 – Louro de Carvalho

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Trágico Dia Nacional de França mimado por heroísmo e milagre

O Dia Nacional de França de 2016 – no 227.º aniversário da Tomada da Bastilha no quadro da Revolução Francesa de 1789 – ficou ontem, dia 14 de julho, marcado pela tragédia. Na verdade, um camião irrompeu propositadamente contra a multidão apinhada a contemplar o espetáculo de fogo de artifício a assinalar, na Promenade des Anglais, em Nice, o Dia Nacional.

De férias naquela cidade da Côte d’Azur, o ex-ministro e comentador da SIC, António Bagão Félix, que assistira com a esposa ao espetáculo do fogo de artifício, pouco antes da ocorrência, relata, recordando-se de ver apinhada de gente a longa avenida, com cerca de cinco quilómetros e onde a circulação automóvel estava vedada:

“Devo ter passado exatamente no sítio onde isto aconteceu dez minutos, um quarto de hora antes. […]. Vimos o fogo de artifício, mas depois fomos para o hotel porque estava muito vento”.

Bagão Félix acabou, pelos vistos casualmente, por já se encontrar no hotel onde estava hospedado, a cerca de um quilómetro de distância do local, quando ocorreu o trágico acontecimento.

A avenida estava cortada ao trânsito. No entanto, um camião conduzido por Mohammed Lahouaiej Bouhlel fez ali um trajeto de cerca de dois quilómetros, ao longo do qual, avançando sobre a multidão, atropelou mortalmente pelo menos 84 pessoas (entre as quais algumas dezenas de crianças), fez 202 feridos, deixando 52 pessoas em estado crítico. Além disso, ouviram-se tiros e explosões e acreditava-se que vários reféns estariam no Hotel Méridien.

Rapidamente a polícia acorreu e abateu o condutor do camião, não evitando, no entanto, que suspeitos de cumplicidade se pusessem em fuga.

Cedo se suspeitou de que o caso se inscreveria no quadro dos ataques do autoproclamado Estado Islâmico (Daesh) à França, que alegadamente nunca soubera integrar estrangeiros e em cujo poder político os nacionais e os residentes estrangeiros confiam cada vez menos.

E é certo que, embora não tivesse sido reivindicada autoria do atentado, vários canais no Telegram e contas do Twitter próximas do grupo terrorista começaram a colocar online mensagens de congratulação pelo atentado no sul de França. Alguns dos principais canais do Daesh no Telegram, uma aplicação muito popular entre membros do grupo terrorista, celebram o ataque realizado na noite de 14 de julho em Nice. Alguns garantem que foi o Daesh a organizar o atentado e fazem propaganda à tragédia ocorrida naquela cidade francesa.

No Twitter há também contas não oficiais pró-Daesh a glorificar o ataque, mostrando várias imagens de que se destaca a Torre Eiffel a arder.
Segundo a especialista norte-americana Rita Katz, responsável pelo SITE Intel Group, entidade que monitoriza grupos jiadistas de todo o Globo, “a reação da comunidade online ligada ao Daesh tem semelhanças com as que ocorreram logo após os ataques em Paris e Bruxelas”.
O Telegram permite aos utilizadores transmitir conteúdos a um número ilimitado de pessoas, podendo mesmo usar canais públicos para o fazer. No entanto, o essencial é a proteção da identidade do utilizador.
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O Presidente francês reuniu de imediato o gabinete de crise, o que a autarquia também fez. E os franceses choram os mortos de Nice, mas desta vez não há unidade nacional. Nem a deslocação do Governo e do Presidente ao local esbate o desespero e as críticas.
Desta vez é o desespero e a exasperação. Sente-se acabado o sentimento e a expressão da unidade nacional francesa, pois já não existe a comunhão de todos os franceses na dor e no luto subsequentes aos massacres, como acontecera em janeiro e novembro de 2015, depois dos terríveis atentados de Paris. Os franceses não aguentam mais a bárbara sucessão de chacinas que os atinge com regularidade e interrogam-se expressamente nos cafés, nos empregos e nas ruas. Têm a sensação de que as suas autoridades não conseguem impedir os atentados e o massacre horroroso da noite de Nice redundou na quebra da unidade nacional, mesmo ao nível político.
É demasiado evidente que terminou o estado de espírito de união de todos os cidadãos franceses e dos demais residentes contra o terror que se sentia a seguir aos atentados congéneres do passado.
As consequências políticas do ataque alargado são difíceis de prever, mas certamente que as haverá porque a exasperação perante a impotência das autoridades é palpável, mesmo nas ruas de Paris, a mais de mil quilómetros de Nice. É a defesa do Estado e das populações que está em causa e em risco!
Também o espírito de união entre a classe política em torno dos grandes objetivos nacionais terminou claramente e este facto foi colocado esta manhã de 15 de julho com impacto na praça pública por Christian Estrosi, antigo maire de Nice e presidente desta região do sudeste de França, tal como por outros políticos. As questões que estão a ser colocadas têm a ver, por exemplo, com esta pergunta:
“Como pôde um enorme camião atravessar a cidade de Nice, chegar à luxuosa Promenade des Anglais e entrar numa zona pedonal, que estava cortada ao trânsito, sem ser intercetado?”.
Christian Estrosi revelou que na véspera do atentado escrevera uma carta muito dura ao Presidente da República a pedir mais meios e poderes para a polícia. A carta foi publicada hoje pelo matutino “Le Figaro” e, nela, aquele político de direita reclamava “um plano de urgência” para reforçar as forças da ordem na região e dotá-las de mais e melhor equipamento. Aliás, a polícia revelou que o autor material do massacre já era cadastrado, embora por crimes menores.
E agora políticos e comentadores colocam outras questões:
“Por que razão, há dias, o Governo decidira pôr fim ao estado de emergência e agora, depois do atentado, decidiu prolongá-lo por mais três meses? Porque pensava o Governo aligeirar a participação dos militares nas patrulhas de segurança e agora decidiu reforçá-las?”.
De facto, não é admissível nem desculpável um abrandamento da segurança pública no Dia Nacional da França nas principais cidades, sobretudo em lugares de grandes ajuntamentos.
Sem resposta para aquelas pertinentes perguntas, os franceses acordaram hoje perplexos com o novo horror, que desta feita se abateu sobre a zona turística da luxuosa Côte d’Azur, a mais famosa costa balnear de França. Mas agora não é só nas pessoas que reside uma indescritível dor. A polémica eclodiu pouquíssimas horas a seguir ao massacre e o anúncio de que François Hollande e Manuel Valls se deslocariam ao fim da manhã de hoje a Nice não acalmou ninguém.
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Entretanto, sabe-se que o massacre teria proporções mais avantajadas e desastrosas se não fosse a intervenção de dois homens que tentaram travar o camionista agressor. Um deles conseguiu mesmo entrar na cabina do camião.
Efetivamente, o massacre poderia ter sido mais longo e letal não fosse o ato heroico de um homem que conseguiu entrar dentro da cabina do camião e lutou para neutralizar o condutor, segundo o que fontes policiais vieram a confirmar. O homem conseguiu entrar na cabina num momento em que o camião teve dificuldade em avançar devido a obstruções e obstáculos no caminho. O indivíduo lutou depois com o autor do atentado, mas este acabou por pegar numa arma e disparar sobre ele, assim como na direção dos polícias, que acabaram por conseguir abatê-lo.
Também um motociclista perseguiu o camião e tentou subir para dentro da cabina, mas sem sucesso. O fotojornalista alemão Richard Gutjahr refere que “surpreendentemente, ele (Bouhlel, o autor do atentado) conduziu muito devagar, não depressa, conduziu devagar e foi perseguido por um motociclista”. O motociclista terá tentado obrigar o camião a parar e mesmo abrir a porta do condutor, mas caiu e acabou debaixo das rodas do pesado. O predito fotojornalista disse, ainda, que o camião só acelerou e começou a ziguezaguear entre a multidão quando dois polícias começaram a disparar contra o condutor.
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Porém, nem só de tragédia e heroísmo reza a noite consternante de Nice. Os momentos de tensão em Nice foram acompanhados por um nascimento. Segundo a Reuters, em pleno ataque de Nice, deu-se um milagre da natureza: nasceu um bebé.
Se o atentado chocou o mundo e instalou o pânico entre as pessoas que se encontravam no local, o pavor pelo cenário bárbaro que se viveu foi contraposto e, em certo modo, suavizado por um milagre. Em pleno ataque, no chão dum restaurante de praia da Promenade des Anglais, nasceu uma criança.
A jovem mãe deu à luz no restaurante Ruhl Plage, onde se encontrava com o marido e com os filhos e onde centenas de pessoas se refugiaram no momento do ataque perpetrado pelo camião.
Segundo o Le Parisien, embora a mulher estivesse grávida de nove meses, não foi o tempo que fez surgir a hora do parto, mas o medo e a ansiedade que provocaram fortes contrações e levaram a que o parto se realizasse naquele local. Um médico que estava no restaurante prestou ajuda no nascimento do bebé e aguardou pelos bombeiros durante várias horas. A mulher e o recém-nascido foram transportados para o hospital onde foram convenientemente tratados.
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Gosto de, no rescaldo e no entorpecimento da tragédia, destacar a intervenção heroica de dois homens que, apesar de tudo, sustiveram a marcha do horror e o nascimento da criança que terá servido de lenitivo ao sofrimento dos circunstantes.   
Quanto ao mais, não podem os Governos deixar de articular, para bem dos cidadãos, as exigências da liberdade e da segurança. É que a França está em guerra com o Daesh por causa do Iraque e da Síria. E será pena que, face à descida da capacidade do inimigo, a França entre em guerra consigo própria por desorientação da liderança e descrédito do poder.

2016.07.15 – Louro de Carvalho