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segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Seguiu a vida militar para servir os irmãos na fé perseguidos


É o que referem alguns cronistas a propósito de Sebastião, que não teria natural inclinação para a carreira das armas, mas que se propusera segui-la para melhor servir os cristãos perseguidos pelo poder que então dominava o mundo, sendo que os não pertencentes ao Império eram considerados ‘bárbaros’ (palavra onomatopaica) por alegadamente não falarem língua de gente.
Já antes do nascimento de Cristo os romanos chamavam ao Mediterrâneo (mar no meio da Terra) Mare Nostrum (nosso mar), visto que todas as terras por ele banhadas faziam parte do Império romano. Foi numa região costeira, na província da Gália, correspondente à atual cidade de Narbonne (França), que Sebastião veio ao mundo. A sua família, nobre, era de Milão (na atual Itália: por isso, alguns têm-no como natural de Milão), e não era inclinado à vida militar, tendo-a seguido pelo desejo de servir os irmãos na fé, que sofriam a perseguição por mor do Reino de Deus.
Os numerosos homens que dão pelo nome de Sebastião, Bastião ou simplesmente Tião (e as mulheres de nome Sebastiana e Tiana), bem como as inúmeras paróquias que o têm como orago, lhe dedicam uma igreja ou uma capela ou ainda as que lhe veneram uma imagem – e é o padroeiro principal da grande cidade e arquidiocese do Rio de Janeiro, no Brasil, e da vetusta diocese de Lamego, em Portugal e dá o nome a muitos bairros, ruas, vilas e freguesias – permitem imaginar quanto e como este santo militar é admirado e venerado em inúmeras nações, especialmente no Ocidente.
É também assumido como padroeiro dos soldados, arqueiros e atletas, sendo muito invocado no combate às epidemias ou pestes, às fomes e às guerras. 
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Os registos oficiais a seu respeito são escassos. Não obstante, há dele muitas informações que emanam da indissociável combinação entre a história e a piedade popular, complexo por vezes escorrente da lenda que enforma o espírito da realidade com que este militar cristão, servindo no exército de Diocleciano, um dos mais sanguinários imperadores romanos, ajudou numerosas almas a não enfraquecerem na fé, confortando-as e permitindo-lhes enveredar de cabeça erguida pelo caminho do Paraíso, sem qualquer laivo de desânimo. E ele próprio não deixou, no momento certo, de se declarar cristão, dando o testemunho e servindo de exemplo a numerosos outros seguidores de Jesus que enfrentavam as perseguições da Era dos Mártires, como foi denominado o período de busca e morte aos fiéis conforme ordem imperial.
Sebastião desempenhou corretamente o dever militar, mas por baixo da farda pulsava o genuíno cristão; e o seu corpo fazia palpitar um coração ardente de desejo de apoiar os perseguidos e ajudá-los a seguir o Mestre, não só nesta vida, mas também quando se encontravam prestes a partir para a outra. Mantinha em segredo a fé, como era comum entre os cristãos em tempo de perseguição, pois assim podia ajudar os que dele precisavam, mas não tinha receio de perder os bens ou a própria vida. Uma das suas ações apostólicas refere-se aos gémeos Marcos e Marceliano, que aprisionados em Roma, eram visitados diariamente por Sebastião. Depois de serem submetidos a chicotadas, apesar de membros de família de senadores, foram condenados à decapitação, tendo os seus familiares obtidos do administrador Cromácio um prazo para que se tentasse demovê-los das suas convicções. Acorrentados na casa de Nicóstrato, escriba da prefeitura, eram submetidos a tentativas de convencimento por parte dos amigos, pais, esposas e filhos ainda pequenos. E, quando estavam em risco de fraquejar, foram as palavras do oficial Sebastião que os reanimaram, o que impressionou todos aqueles que as ouviram.
Zoé, esposa de Nicóstrato, vendo em Sebastião um homem de Deus, atirou-se-lhe aos pés e por gestos indicou-lhe a doença de que padecia e que lhe fizera perder a fala. Sebastião fez o sinal da cruz sobre a boca de Zoé e, em voz alta, rogou ao Senhor a cura. E, de imediato, ela recobrou a dicção e pôs-se a louvar aquele homem, acrescentando crer em tudo o que ele acabara de dizer. Face à cura da esposa, Nicóstrato lançou-se aos pés de Sebastião e pediu perdão por ter mantido os dois cristãos aprisionados e libertou-os declarando-se feliz se fosse aprisionado e morto em vez deles. E os dois irmãos, ora libertados, recusaram abandonar a luta para a ela exporem outrem e firmaram-se na fé ao verem a ação de Deus, que anulou todos os esforços para os fazer abandonar a Igreja, em que ingressaram os donos da casa em que estiveram aprisionados. E mais pessoas abraçaram a fé cristã nas horas subsequentes, sendo 68 o número de pessoas convertidas e batizadas por Policarpo, ali chamado por Sebastião: Nicóstrato, Zoé, toda a família de Nicóstrato e seu irmão Castor, o carcereiro Cláudio com dois filhos e sua esposa Sinforosa, Tranquilino, o pai dos gémeos, com a sua esposa Márcia e 6 amigos, as esposas dos gémeos e 16 outros encarcerados.
O prefeito Cromácio, que havia concedido aos gémeos o período de espera visando a renúncia à fé, sentindo-se enganado, chamou o pai de ambos e ordenou que eles oferecessem incenso aos deuses. Porém, Tranquilino afirmou-se cristão, dizendo que seria curado da enfermidade de que o prefeito também padecia. Cromácio disponibilizou dinheiro para a cura, arrancando de Tranquilino risos, tendo este assegurado que, para ser curado, bastaria recorrer a Cristo.
Após um instrutivo catecumenado, em que foi explanada a superioridade da fé sobre a simples cura da doença, Cromácio e o filho tornaram-se cristãos, permitindo que fossem quebradas mais de 200 estátuas de ídolos expostos à adoração e que fossem destruídos os instrumentos utilizados para astrologia e outras práticas divinatórias. Porém não só pai e filho se tornaram cristãos em sua casa, mas um total de 1.400 pessoas, incluindo escravos a quem deu a liberdade dizendo que os que passaram a ter Deus como pai não mais podiam ser escravos de homem.
Diocleciano, tendo assumido o império, conservou Sebastião no curso das armas e deu-lhe o posto de capitão general da guarda pretoriana em Roma, depositando nele toda a confiança.
Chegada a hora de Sebastião se afirmar cristão, após cuidar de que muitos trilhassem o caminho do Paraíso, o imperador avisado pelo governador Fabiano, inconformado, condenou-o à morte. Assim, foi preso a um tronco e o corpo perfurado por flechas. Crendo-o morto, os supliciantes abandonaram-no, mas Irene, uma piedosa viúva, querendo sepultá-lo cristãmente, encontrando-o vivo, cuidou dele para que se restabelecesse. Tempo depois, ei-lo a apresentar-se a Diocleciano (surpreendido ao vê-lo vivo), a quem censurou pela injustiça com que perseguia os cristãos, pois estes rezavam pelo império e pelos seus exércitos e, em contrapartida, eram supliciados como se fossem inimigos do Estado. Mas o imperador, obstinado no erro, ordenou que Sebastião fosse prestes levado a um local próximo e morto a bordoadas. Foi sepultado na catacumba que atualmente leva o seu nome, sobre a qual se ergue uma das sete principais igrejas de Roma, a Basílica de São Sebastião, na Via Appia. Assim, como refere Santo Ambrósio, São Sebastião, mártir que, oriundo de Milão, partiu para Roma, onde grassavam violentas perseguições e aí sofreu martírio, na Urbe romana, aonde tinha acorrido como hóspede, o seu corpo granjeou domicílio de imortalidade perpétua. No dia 20 de janeiro de 288 ou de 300, foi depositado nas Catacumbas de Roma.   
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O mártir é uma referência que inspira a viver o Evangelho na identificação com Jesus Cristo, morto e ressuscitado. Ainda que tenha vivido em contexto social, cultural e religioso muito diferente do hodierno, é mister conhecer a sua vida, acolher o testemunho, a adesão e fidelidade a Cristo, a defesa do Evangelho e dos cristãos. Quem O reconhece como padroeiro, invoca-O como intercessor junto de Deus, como amigo de Jesus, através de quem se confia à soberania do Senhor Deus do Universo, e procura imitá-Lo no seguimento aguerrido e apaixonado por Jesus.
Os mártires ganharam uma enorme projeção nas comunidades cristãs dos primeiros séculos e pelos seguintes. Nesta ótica, Sebastião, Eufémia, Inês, Luzia, o diácono Vicente e Bárbara impõem-se por todo o mundo cristão pela fidelidade ao Evangelho e a Jesus, arriscando a própria vida. E contribuem para catequizar as comunidades através de exemplos concretos.
A vida de Sebastião, no que a tradição assimilou e transmitiu, é exemplo de como a fé ajuda a ultrapassar os obstáculos da vida e como o cristão se pode santificar em diversas profissões e/ou ocupações, pois, mais forte que tudo é o amor a Deus. As suas qualidades são amplamente elogiadas: imponente de figura, prudente, bondoso e bravo, era estimado pela nobreza e respeitado por todos.
De Milão, o jovem soldado deslocou-se para Roma, onde a perseguição era mais intensa e feroz, para testemunhar a fé e defender os cristãos. Primeiro cai nas graças do imperador; depois, a defesa da fé cristã e a intercessão pelos cristãos perseguidos desencadeiam a sua morte. Cada novo mártir que surgia tornava-se um alento e um desafio para Sebastião.
A iconografia é muito plástica a seu respeito, inconfundível. Sebastião é representado com o corpo praticamente desnudo e pejado com várias setas, e surge preso a um tronco de árvore.
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Logo após o seu martírio começou a ser venerado como santo. Testemunhou a fé com coragem e alegria, a partir da sua vida, como jovem militar, cristão. Daqui se conclui que a santidade é possível em qualquer trabalho, em qualquer vocação, em qualquer compromisso humano – exemplo do que o leigo pode fazer.
O nosso tempo e ambiente não são, entre nós, de perseguição declarada aos cristãos, sendo-o infelizmente em muitas partes do mundo e de forma cruciante, mas a nossa tarefa não é mais fácil. A sua fé confrontou-se com a perseguição, ajudando os que estavam perto do desânimo; e nós, hipócrita e debilmente, deixamo-nos contagiar pelo contexto, por valores e leis contrários à fé que professamos, desperdiçamos muitas oportunidades de nos afirmarmos cristãos, por cobardia, sufragamos (por medo da chacota) formas de perseguição aos valores que dizemos defender; e descuramos os cristãos que precisam de que os animemos na fé, na sua caminhada espiritual… Vale a pena ler um texto de Ambrósio sobre o Salmo 118, apresentando Sebastião como testemunha fiel de Cristo, e que é apresentado na Liturgia das Horas, no Ofício de Leitura:
É necessário passar por muitas tribulações para entrar no reino de Deus. As muitas perseguições correspondem muitas provações: onde há muitas coroas de vitória tem de ter havido muitos combates. É bom para ti que haja muitos perseguidores, pois entre tantas perseguições mais facilmente encontrarás o modo de ser coroado. Consideremos o exemplo do mártir Sebastião, que hoje celebramos. Nasceu em Milão. Talvez o perseguidor já se tivesse afastado, ou talvez ainda não tivesse vindo a este lugar, ou seria mais condescendente. De qualquer modo, Sebastião compreendeu que aqui, ou não haveria luta, ou ela seria insignificante.
Partiu para Roma, onde grassavam severas perseguições por causa da fé; aí foi martirizado, isto é, aí foi coroado. Deste modo, ali onde tinha chegado como hóspede, encontrou a morada da imortalidade eterna. Se não houvesse mais que um perseguidor, talvez este mártir não tivesse sido coroado. Mas o pior é que os perseguidores não são só os que se veem: há também os que não se veem, e estes são muito mais numerosos. Assim como um único rei perseguidor emitia muitos decretos de perseguição, e desse modo havia diversos perseguidores em cada uma das cidades ou das províncias, também o diabo envia muitos servos seus a mover perseguições, não apenas no exterior, mas dentro da alma de cada um.
Destas perseguições foi dito: ‘Todos os que querem viver piedosamente em Cristo Jesus sofrem perseguição’. E disse ‘todos’, não excluiu nenhum. Quem poderia na verdade ser excetuado, quando o próprio Senhor suportou os tormentos das perseguições? Quantos há que, em segredo, todos os dias são mártires de Cristo e dão testemunho do Senhor Jesus! Conheceu esse martírio aquele apóstolo e testemunha fiel de Cristo, que disse: ‘Esta é a nossa glória e o testemunho da nossa consciência’.”.
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São Sebastião é invocado pelas gentes de Roma, cerca do ano de 680, para proteção de uma terrível peste. A partir daquela altura, passa a ser invocado para a proteção de cidades, vilas e burgos contra as pestes, que na Idade Média martirizaram as populações europeias. Só as pestes por volta de 1348 provocaram a morte de um terço da população europeia. Houve lugares que ficaram quase desabitados e as Terras de Santa Maria, em que a Feira se insere, não foram exceção. Foi durante uma das pestes que as gentes de Santa Maria invocaram o Santo e a prece foi atendida. Por isso, foi decidida uma festa de ação de graças anual com a colaboração dos condes da Feira.
Esta festividade teve início, provavelmente, por volta de 1505 sob financiamento do 2.º Conde da Feira, Dom Diogo Pereira. No cumprimento do voto, os ofertantes participavam numa procissão que saía do Paço dos Condes, a seguir passava pela Igreja do Convento do Espírito Santo (Loios), onde eram benzidas as fogaças, partidas e distribuídas pelo povo.
Nos tempos atuais, da parte da manhã, sai o cortejo cívico dos Paços do Concelho para a Igreja Matriz, onde se celebra Missa Solene com sermão, se benzem as fogaças que são levadas por centenas de meninas, as fogaceiras (este ano, foram 362), e aí permanecem até à tarde. Então, a procissão sai da Igreja, percorre as ruas da zona histórica da cidade, regressando à Igreja. No final da procissão, as crianças levam consigo as fogaças que transportaram, sendo uma das maiores oferecidas a quem preside à festa, muitas vezes o Bispo do Porto ou um dos Bispos Auxiliares e as outras a autoridades locais.
Durante 4 anos a tradição quebrou-se e a peste regressou, o que fez reatar a tradição com o aumento da devoção.
Um guia do concelho feirense afirma que a data de início do culto é o ano de 1505 e sob o patrocínio do 2.º Conde da Feira, Dom Diogo Pereira. Porém, este só ascendeu ao título a 2 de janeiro de 1515. Terá sido o seu patrocínio concedido não sendo ainda o conde? Terá sido no tempo do 1.º conde da Feira, o conde de Moncorvo Dom Rui Pereira (não quis usar deste título, por já ter sido dado por Dom Afonso V a outros fidalgos, e ordenou aos vassalos que lhe chamassem conde dalguma das suas terras e eles o intitulavam conde de Santa Maria da Feira), 4.º senhor das terras de Santa Maria e 2.º senhor do seu castelo.  
FONTES: António José Coelho (2003). Santos de cada dia I, Braga: Apostolado da Oração; CEP (1989), Liturgia das Horas, vol. III, Gráfica de Coimbra; J. H. BARROS DE OLIVEIRA (2003). Santos de todos os Tempos, Apelação: Paulus Editora; Padre Rohrbacher (1959). Vida dos Santos, vol II, Editora das Américas; “Lendas de Santa Maria da Feira”; http://www.arqnet.pt/dicionario/feiracondes.html https://pt.wikipedia.org/wiki/Conde_da_Feira.
2019.01.21 – Louro de Carvalho

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

O novo santo que chegou a ser considerado 'perigoso' pelo Vaticano


A suprema autoridade da Igreja católica proclamou no passado domingo, 14 de outubro, sete novos santos (o Papa Paulo VI, o Arcebispo Oscar Romero, os religiosos Francisco Spinelli, Vicente Romano, María Catalina Kasper, Nazaria Ignacia de Santa Teresa de Jesus e o leigo Núncio Sulprizio), entre os quais sobressai o beato salvadorenho Dom Óscar Arnulfo Romero, que sofreu o martírio a 24 de março de 1980 em San Salvador, de cuja arquidiocese era o prelado. 
Com efeito, tornou-se o primeiro santo de El Salvador e constituiu-se por antonomásia o Santo das Américas, dado ter encarnado a figura luminosa de pastor da América Latina.
O Padre Juan Carlos Rengucci, sacerdote argentino da Pia Sociedade São Caetano, que morou 6 anos em El Salvador e, no âmbito dos seus estudos superiores eclesiásticos, pesquisou os escritos pastorais do novel santo, de passagem por Roma nestes dias, referiu esta figura luminosa e profética destacando o significado e a importância peculiar desta canonização não só para o povo salvadorenho, mas também para toda a Igreja na América Latina.
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Rezam as crónicas vaticanas que Francisco proclamou entre aqueles santos o Arcebispo de El Salvador como símbolo duma Igreja comprometida com os pobres e martirizado em 1980 e o Papa italiano Paulo VI, cujo pontificado foi de 1963 a 1978, que amou o Senhor e a Igreja que evidenciou como peregrina e promotora da paz em diálogo vivo e paciente com a modernidade na atenção permanente aos sinais dos tempos. Em homenagem a eles, o Papa usou como vestes litúrgicas durante a cerimónia o cíngulo com sangue que Romero usava no dia do assassinato, bem como a casula de Paulo VI. E milhares de pessoas, religiosos e autoridades assistiram à solene proclamação, marcada pelo fervor de cerca de 7 mil salvadorenhos, que viajaram para assistir à canonização do seu Dom Romero. Em atmosfera festiva, os salvadorenhos cantaram e levaram cartazes com a imagem do religioso, martirizado em 1980.
Por décadas acusado de ser marxista e próximo da Teologia da Libertação, o novo santo latino-americano será venerado nos altares como um exemplo para os católicos de todo o mundo pela sua denúncia das injustiças sociais e pela defesa dos direitos humanos.
Por este empenhamento assim enquadrado social e pastoralmente, Monsenhor Romero, o agora novo santo chegou a ser considerado ‘perigoso’ pelo Vaticano. Foi preciso João Paulo II ter brandido a bengala a que se arrimava e bradar que o Arcebispo fora morto no altar, bem como a clarividência da Congregação para as Causas dos Santos, presidida por Angelo Amato sob a orientação de Bento XVI e atenta à postura aberta do Papa Francisco para ultrapassar o preconceito sobre o perfil de Oscar Arnulfo Romero Gadamer.
E, 38 anos após o seu martírio, o prelado, conhecido como forte defensor dos direitos humanos, da paz e dos mais pobres, foi declarado santo na Igreja Católica para ser venerado universalmente e ser modelo de vida para todos os crentes doando-se até à total entrega da vida ainda que seja necessário o martírio de sangue.
Dele disse o Papa na homilia da missa de canonização:
Deixou as seguranças do mundo, incluindo a própria incolumidade, para consumir a vida – como pede o Evangelho – junto dos pobres e do seu povo, com o coração fascinado por Jesus e pelos irmãos”.
Assim, pode dizer-se que o ato de canonização marca a “reconciliação” da Santa Sé com o homem que chegou a ser considerado um “perigo” e que era visto como figura “controversa”.
A este respeito, Karla Ann Koll, professora de História e Missão da Universidade Bíblica Latino-americana, com sede na Costa Rica, declarou:
Eles viam em Romero um perigo, (um risco) de abrir a porta para uma outra forma de fazer teologia”.
Romero denunciou efetivamente à Igreja assassinatos e outros crimes cometidos pelo governo militar e por guerrilhas no seu país, mas queixou-se de não ter recebido apoio e de até se sentir “abandonado” pela instituição, incluindo alguns irmãos no episcopado.
Com efeito, como Bispo auxiliar de San Salvador (como reza a biografia publicada no cerimonial do rito da canonização) “dedicou-se à defesa dos pobres” e a sua nomeação como Arcebispo de El Salvador em 1977, depois de ter passado por cargo homólogo em Santiago de Maria, ocorreu em ambiente de “plena repressão social e política.
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Também o jornalista brasileiro José Mayrink, de 80 anos, 56 deles dedicados ao jornalismo, foi a Roma para participar na canonização de Óscar Romero, a quem entrevistou em El Salvador três dias antes do seu assassinato. E contou ao Vatican News:
Eu entrevistei-o três dias antes de morrer. Eu falei com ele na sexta-feira de manhã, dia 21, e ele foi morto na segunda-feira.”.
Tendo ido desta feita a Roma mais como devoto do que como profissional da imprensa, testemunhou devotamente o momento de canonização duma personalidade que profundamente marcou a sua vida. Falou do clima vivido em El Salvador nos difíceis anos da guerra civil, do trabalho da imprensa neste contexto e de Dom Óscar Arnulfo Romero que lhe confessara que “Em El Salvador todos temos medo de morrer”. Mayrink, que recebeu da esposa quando já estava no Brasil a notícia do assassinato de Dom Romero, agora declarou:
Vim aqui porque conheci, entrevistei e falei com um Santo”.
E desenvolveu:
Esse Santo agora canonizado, marcou a minha vida. Quando eu falo de 56 anos de jornalismo, eu falo disso sempre como um dos principais momentos que eu vivi e que mudaram a minha vida (…). Eu já o invocava e lhe pedia a ajuda. Espero que ele se lembre de mim.”.
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Um dia antes da canonização, foi inaugurada uma estátua de Santo Oscar Arnulfo Romero no bairro EUR em Roma. A escultura é obra do artista Guillermo Perdono.
Na inauguração estiveram presentes o Presidente de El Salvador, Sanchez Ceren, a Prefeita de Roma, Virginia Raggi, a embaixadora de El Salvador na Itália, Elizabeth Alas Guidos, expoentes da Igreja Católica e do Corpo Diplomático de El Salvador.
Segundo um comunicado da embaixada de El Salvador, a iniciativa nasceu para reforço das relações entre os mais de 40 mil cidadãos salvadorenhos residentes na Itália e “conhecer suas raízes através do resgate da memória histórica, cultural e espiritual, pois Dom Romero não é apenas uma referência histórica, é principalmente um guia espiritual de El Salvador, assim como uma referência para os direitos humanos”.
Na inauguração da estátua a embaixadora de El Salvador na Itália vincou:
Não me canso de repetir que, se queremos efetivamente o fim da violência, é preciso partir da base de todas as violências: a violência estrutural, a injustiça social baseada numa aberração da propriedade privada e numa absolutização da riqueza que, além de tudo, procura defender com a repressão”.
Depois da cerimónia de inauguração, o Cardeal salvadorenho Gregorio Rosa Chavez abençoou a estátua. Entre as pessoas presentes estavam a sobrinha e o irmão de Dom Romero.
Expressando a sua emoção pela canonização do tio, a sobrinha Anita falou ao Vatican News:
É uma grande emoção saber que teremos um santo em El Salvador e também na família. É uma alegria tão grande que não sabemos explicar como foi possível receber de Deus este grande dom, de pertencer a esta família: a família de um Santo. Estamos contentes, agradecemos a Deus e a Igreja por isso. Para nós, tudo o que Dom Romero fez na vida foi viver o Evangelho, viver as Bem-aventuranças, a Bíblia.”.
Em seguida, falando sobre os anos difíceis que vivia o país àquela época, Anita disse que até hoje os dias são difíceis, mas, como dizia o Santo, “não se pode desistir, jamais perder a fé: sempre a verdade, sempre a verdade!”. E a sobrinha de Dom Romero concluiu:
Quando a fé é forte não se pode desanimar porque ele nos deixou exemplos disso: continuar, ir adiante, lutar pela unidade e pela defesa dos mais indefesos”.
Por sua vez, o irmão Tibério agradeceu ao seu país e à Itália pela canonização do irmão:
Saúdo todo o povo salvadorenho e o povo italiano, Agradecemos muito por tudo o que está acontecendo e que Deus abençoe a todos com a intercessão de Santo Oscar Romero. Muito obrigado.”.
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O Santo Padre – que recebeu, na manhã do passado dia 15, na Sala Paulo VI, no Vaticano, cerca de cinco mil peregrinos de El Salvador e da América Latina, que vieram, acompanhados por seus Bispos, sacerdotes e inúmeros religiosos e religiosas, para a Canonização de Dom Oscar Romero, entre outros, realizada no dia anterior – apresentou-o, exemplo e estímulo para os povos da América Latina, assegurando:
Santo Óscar Romero soube encarnar, com perfeição, a imagem do Bom Pastor que dá a vida pelas suas ovelhas”.
E, prosseguindo, explanou:
Por isso, agora e, sobretudo, desde a sua canonização, vocês podem encontrar nele ‘exemplo e estímulo’ no ministério que lhes foi confiado: exemplo de predileção, para os mais necessitados da misericórdia de Deus; estímulo para testemunhar o amor de Cristo e a solicitude pela Igreja. Que o santo Bispo Romero os ajude a ser, para todos, sinais da unidade na pluralidade, que caracteriza o santo povo de Deus.”.
A seguir, o Papa dirigiu-se aos numerosos sacerdotes e religiosos e religiosas de El Salvador, chamados a viver o compromisso cristão, inspirados no estilo de vida do novo santo, exortando-os a serem dignos dos seus ensinamentos, sendo sobretudo “servidores do povo sacerdotal”, com e como Jesus, o único e eterno sacerdote:
Santo Oscar Romero concebia o sacerdote entre dois grandes abismos: o da infinita misericórdia de Deus e o da infinita miséria dos homens. Queridos irmãos, esforcem-se, sem cessar, para realizar este infinito anseio de Deus de perdoar os homens, que se arrependem de suas misérias, e abrir os corações de seus irmãos à ternura do amor de Deus, também mediante a denúncia profética dos males do mundo.”.
O Pontífice, saudando cordialmente os numerosos peregrinos a quem recordou a mensagem que o novel Santo deixou a todos, grandes e pequenos, sem exceção, insistiu:
Ele repetia, com vigor, que todo católico deve ser mártir, porque mártir significa dar testemunho da mensagem de Deus aos homens. Deus quer estar presente em nossas vidas e nos convida a anunciar a sua mensagem de liberdade para toda a humanidade. Somente nele podemos ser livres do pecado, do mal, do ódio em nossos corações; livres para amar e acolher o Senhor e nossos irmãos e irmãs. Esta verdadeira liberdade, aqui na terra, passa pela preocupação com o homem concreto, para despertar em cada coração a esperança da salvação.”.
E frisou:
Sabemos bem que não é fácil agir assim. Por isso, precisamos do apoio da oração e de estar unidos a Deus e em comunhão com a Igreja. Santo Oscar Romero dizia que “sem Deus e sem o ministério da Igreja isso não é possível”. Um dia, referiu-se ao Crisma como o “sacramento dos mártires”, pois “sem a força do Espírito Santo, os primeiros cristãos não teriam resistido às provações da perseguição, não teriam morrido por Cristo.”.
No termo da sua alocução àqueles milhares de peregrinos, o Papa disse ainda:
Envio a minha saudação a todo o Povo de Deus, em peregrinação em El Salvador, que vibra, hoje, pela alegria de ver um de seus filhos elevado à glória dos altares. Seus habitantes têm uma fé viva, que expressa em diferentes formas de religiosidade popular e à qual conforma a sua vida social e familiar. Todos devem cuidar do Povo santo de Deus... não o escandalizem”.
Entretanto, como frisou, não faltaram as dificuldades e o flagelo da divisão e guerra. A violência fez-se sentir com veemência na história recente. Porém, este povo resiste e vai adiante, embora muitos tenham sido obrigados a deixar as suas terras em busca de futuro melhor. E concluiu:
A memória de Santo Oscar Romero é uma oportunidade excecional para enviar uma mensagem de paz e reconciliação a todos os povos da América Latina”.
2018.10.17 – Louro de Carvalho

segunda-feira, 2 de julho de 2018

Padre e poeta, profeta e apóstolo


Ainda está fresca na retina da memória portuguesa a nomeação, pelo Papa Francisco, do Padre e poeta português José Tolentino Mendonça, ocorrida no passado dia 26 de junho, como arquivista do Arquivo Secreto do Vaticano e bibliotecário da Santa Sé, passando a tutelar a mais antiga biblioteca do mundo e sucedendo na liderança daqueles serviços ao Arcebispo francês Jean-Louis Bruguès.
O Arquivo Secreto do Vaticano conserva os documentos relativos ao governo da Igreja para, antes de tudo, estarem à disposição da Santa Sé e da Cúria no desempenho do próprio trabalho, e para que depois, por concessão pontifícia, possam representar para todos os estudiosos de história fontes de conhecimento, mesmo profano, das regiões que há séculos estão intimamente ligadas com a vida da Igreja. E a Biblioteca Apostólica do Vaticano apresenta-se como “instrumento da Igreja para o desenvolvimento, a conservação e a divulgação da cultura” e, constituída pelos Papas, oferece, nas suas várias secções, “tesouros riquíssimos de ciência e de arte aos estudiosos que investigam a verdade”.
O sacerdote português, até agora vice-reitor da Universidade Católica Portuguesa (UCP) e diretor da Faculdade de Teologia (por decreto de 22 de maio de 2018, da Congregação para a Educação Católica), foi ainda elevado à dignidade de Arcebispo de Suava, no Norte de África.
O novo Arcebispo, que iniciará funções como arquivista do Arquivo Secreto e bibliotecário do Vaticano no dia 1 de setembro, foi convidado para orientar o retiro anual de Quaresma do Papa Francisco e da Cúria Romana (que decorreu entre 18 e 23 de fevereiro, em Ariccia, nos arredores de Roma), convite que então o deixou tão surpreendido que achou ter “sonhado” com isso.
Conhecido por utilizar referências à literatura nas meditações religiosas, Dom José Tolentino Mendonça chegou a citar Fernando Pessoa nas meditações apresentadas ao Papa Francisco, que lhe agradeceu por conseguir estabelecer uma ponte entre os textos bíblicos e a literatura secular.
Considerando o convite do Papa como uma grande honra para a Igreja portuguesa, para Portugal e para a UCP, a reitora Isabel Gil Capeloa lembra, em comunicado, que Tolentino Mendonça tinha assumido o pelouro das relações culturais e bibliotecas da Católica nas últimas duas equipas reitorais. Segundo a reitora da UCP, o Professor “contribuiu para tornar a atividade artística um eixo central da ação da Universidade Católica Portuguesa, incentivando um diálogo renovado e fecundo com a sociedade através da sua intervenção cultural e literária” e trabalhou no desenvolvimento do Código de Ética e Deontologia da UCP.
O novo arquivista e bibliotecário da Santa Sé manifestou à agência Ecclesia a sua determinação de “servir a Igreja na Cultura”, referindo:
A Cultura faz-nos viajar à raiz arquitetural da pessoa, àquilo que constitui o núcleo fundante da sua aventura existencial, mas também nos permite interrogar e iluminar o seu horizonte de sentido”.
Dom José Tolentino Mendonça sustenta que a sua missão como “Arquivista e Bibliotecário da Santa Igreja Romana” se insere numa tradição papal de “conservar num arquivo próprio a memória dos mártires e a gesta dos pastores, bem como os livros que asseguravam a atividade litúrgica e as necessidades administrativas da comunidade eclesial”. O Arcebispo salienta que há, desde o século VIII, notícias da existência duma biblioteca, enriquecida ao longo dos tempos com “monumentais e preciosos espólios”, que colocam a atual Biblioteca Apostólica Vaticana entre “as mais fascinantes instituições culturais do mundo”. Diz o novel prelado:
O arquivo e a biblioteca são assim lugares referenciais da memória específica do cristianismo, mas também da cultura universal; são espaços de ciência e de construção de pensamento, procurados por investigadores de todo o mundo que ali encontram o rastro da história e a capacidade que esta tem de iluminar o presente; são grandes repositórios daquela beleza capaz de ferir de infinito o coração humano”.
Para este colaborador do Papa, a Cultura é uma das “fronteiras proféticas” para o catolicismo de todos os tempos e, “de um modo talvez ainda mais incisivo, para o catolicismo contemporâneo”. Neste sentido, declarou:
A cultura documenta o que somos, é verdade. Mas espelha e potencia as grandes buscas interiores, o contacto com as grandes perguntas, a vizinhança das razões maiores que funcionam como patamares do caminho a que a nossa humanidade vai chegando, a proximidade daquele vastíssimo e inconsútil silêncio que, porventura ainda melhor do que a palavra, exprime em nós o mistério do Ser.”.
No pontificado de Francisco o Arcebispo destaca a “arte do encontro” que o Papa tem promovido e que encontra na Cultura “um espaço de desenvolvimento natural”, aliás na linha dos antecessores, embora com um tom muito próprio. E, sobre a cultura, diz neste sentido:
A Cultura, no seu sentido mais verdadeiro, é prática de escuta, de atenção, de intercâmbio e de interdependência; é exercício interminável de hospitalidade. Não admira que um dos serviços que a Igreja de cada tempo presta ao futuro seja, por isso, o investimento no diálogo entre a Fé e a Cultura, que constitui um horizonte inequívoco para uma apresentação credível do Evangelho ao coração das mulheres e dos homens nossos contemporâneos e uma reparadora fonte de esperança e de paz.”.
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Dom José Tolentino Mendonça nasceu em Machico (Região Autónoma da Madeira) em 1965 e foi ordenado sacerdote em 28 de julho de 1990. Deslocou-se para Roma, onde concluiu, no Pontifício Instituto Bíblico, o mestrado em Ciências Bíblicas. Regressado a Portugal, ingressou na UCP, onde foi capelão e lecionou as disciplinas de Hebraico e Cristianismo e Cultura. Aí se doutorou em teologia bíblica, tornando-se seu professor auxiliar. Dirigiu até ao ano de 2014 o Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, da Igreja Católica em Portugal, de que foi o primeiro Diretor e a revista Didaskália editada pela Faculdade de Teologia. As linhas de investigação privilegiadas do teólogo e poeta são Bíblia e literatura, teologia de Paulo, representações de Jesus nos textos cristãos e na cultura contemporânea, a par do tema do corpo nos textos cristãos das origens.
O novo Arcebispo, consultor do Conselho Pontifício da Cultura (Santa Sé) desde 2011, por designação de Bento XVI, era capelão na Capela do Rato e na UCP, foi reitor do Pontifício Colégio Português, em Roma, e era diretor da Faculdade de Teologia da UCP. O seu livro “A Mística do Instante” foi galardoado com o Prémio literário Res Magnae 2015, um importante prémio italiano atribuído no campo da ensaística. Foi o primeiro português e o único não italiano, até à data, a receber este prémio. Em 2016, a sua obra de cronista foi distinguida com o prémio APE e a sua obra poética com o Prémio Teixeira de Pascoaes. A 9 de junho de 2016, foi designado Membro do Conselho das Antigas Ordens Militares. E, em 2012, foi considerado um dos 100 portugueses mais influentes em 2012, pela REVISTA do jornal Expresso.
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Este padre poeta é um exemplo do que devia ser qualquer sacerdote: poeta, profeta e apóstolo.
Com efeito, Deus é poeta por Se comunicar-se por versos e metáforas. É certo que a Sua linguagem, carregada de símbolos, é hermética, misteriosa, para o coração duro e rude, e que, para O entender, se precisa de ouvido espiritual, sensível ao êxtase transcendental, mas, quando Deus declama, o universo dança, as donzelas e os jovens saltam de alegria, as crianças sorriem e gritam e os anciãos e anciãs têm sonhos e visões. E todos fazem associar-se a si a terra, o mar e o firmamento, os animais e plantas e as próprias pedras para enarrarem as maravilhas de Deus.
Por que nos criou à Sua imagem e semelhança, Deus põe os Seus olhos na procura e na mira de homens e mulheres disponíveis para encarnar os divinos sentimentos. Ora, nesta linha, vêm os profetas, que foram todos chamados e enviados por Deus para, por metáforas e imagens, porem dramaticamente o dedo nas chagas sociais, morais e religiosas cavadas pelos homens, anunciarem, na alegria do Espírito, o compromisso de Deus com a vida e construírem as sólidas plataformas da esperança messiânica, vindo, as plantas venenosas congraçar-se com as sãs, os animais opostos a juntar-se em convivência e as espadas da guerra a transformar-se em relhas de arado – e, na doçura do poema inspirado, se eleva ao Altíssimo o melhor hino à vida e ao amor.   
Porque o compromisso de Deus é só com a vida, o Senhor faz alçar homens e mulheres que se indignam com a sordidez, mas se apaixonam com o sublime. E toda a sua profecia é vertida em linguagem poética. Inundados do Espírito de Deus, os profetas cantam em elevado lirismo o sentimento do amor devotado, infinito e misericordioso de Deus para com o Seu Povo, o ser humano, e cantam a resposta eucaristicamente anafórica do Povo e do Homem ao seu Deus. Se dramaticamente levam ao Deus da misericórdia a miséria e debilidade humanas para que Se apiede, também com a ousadia recebida do Alto põem a humanidade a cantar a épica Odisseia do Deus que desceu à condição humana para o elevar ao patamar da condição divina, tornando-o filho com o Filho e com Ele herdeiro dos tesouros da Verdade, da Bondade e da Beleza.  
A vocação poética do profeta pode não o levar ao jeito de fazer rimas ou versos segundo qualquer métrica tradicional, mas leva-o ao derrame das lágrimas sobre o ambão da preleção, ao suor do esforço da caminhada à procura de quem precisa de chamada de atenção, conforto, metanoia, a sangrar no texto que deseja que perdure para a posteridade. A expressão rítmica do coração de Deus vaza na tinta da sua pena. O poeta-profeta pressente o que presente deveria ser, mas ainda não é; e vê-se convocado para reencantar os desanimados, curar os desesperançados, destilar beleza de mundos imaginários em terras áridas. E esta atividade dá-lhe o júbilo de Deus.
A matéria-prima do profeta é a poesia. Como artesão de polifacetados vasos de cristal ou oleiro de frágeis vasos de barro, o poeta-profeta maneja a palavra com simplicidade natural, mas com encantadora delicadeza. Pretende mostrar que o quotidiano, nas suas perversas contradições, poderia seguir por outra via. O poeta-profeta derrama-se como óleo perfumado no texto que é todo seu, mas que se torna todo para os outros porque o recebeu de Deus; faz-se lenho do fogo abrasador que aquece a história e gera a luminosidade que dá a vista aos cegos; torna-se mola do coxo que precisa de andar, estímulo para o surdo que precisa de ouvir, bálsamo para o doente que necessita da cura, farinha e água para quem precisa de pão e de água para saciar a fome e a sede. Ansioso por conjugar os extremos na síntese promotora do bem, sabe que o único Absoluto é o Amor, o único Bem é Vida e o único Alvo é a valorização do instante de Deus.
Como o poeta-profeta é o apóstolo. Porém, enquanto o profeta se constitui chamado, predestinado e discípulo mediante uma teofania em que não pôde ver o rosto de Deus, o apóstolo constitui-se como discípulo privando com o Deus encarnado em Seu Filho Jesus, sendo convidado a segui-Lo, ouvindo-O no quotidiano, partilhando com Ele o banquete da Salvação, o trabalho, os direitos e as obrigações; sente com Ele o momento da celebração da Aliança, come do Seu corpo e bebe do Seu sangue. Depois, tem o privilégio de rezar com o próprio Jesus/Deus. Não assistiu à Sua morte porque teve medo ou, se assistiu, recebe como testamento da caridade divina a Mãe do próprio Deus e confia-se a Ela. Tem mãe. Fixa e contempla o Ressuscitado e com alegria, movido pela força do Espírito Santo, vai anunciar que Aquele que estava morto vive e é constituído o Senhor em quem encontramos o perdão. E esta mensagem é comunicada a partir de Jerusalém, em círculos concêntricos, até aos últimos confins da Terra.
Queremos melhor pretexto para o dinamismo poético-profético-apostólico?
Mas há mais. Enquanto os profetas antigos tinham uma missão provinda dum passado teofânico, mas nubloso, com vista à aquisição das coisas que iriam acontecer, o apóstolo é enviado porque foi constituído testemunha ocular e auditiva (ou equivalente nos seus fundamentos) de factos já ocorridos que persistem no presente e permitem um futuro assente não apenas na esperança, que se reforça como força motriz, mas sobretudo na abundância da caridade divina que se torna mandamento irrecusável com intensidade pessoal e abrangência universal tornada marca indelével e contagiante dos novos seguidores, discípulos e apóstolos – quiçá mártires até ao sangue ou professores da fé até à entrega ilimitada, heroica e docente.
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Poetas-profetas discípulos-apóstolos, mártires-professores da fé rejeitam redomas, estufas, viveiros, gaiolas. Quererem diminuir-se para que Ele cresça. Não aprisionam a mensagem, o mistério, o projeto. Comunicam-no, divulgam-no, consolidam-no, celebram-no.
Trocam os tapetes pelo chão batido. Solitários, não se vergam aos homens; só obedecem a Deus, que marca o compasso do próprio coração; indomáveis, revoltam-se com o trivial; irrequietos, perturbam o normal. São verdadeiros revolucionários da ternura e da misericórdia de Deus. Fazem a poesia da vida e transformam a desgraça em sublimação do desígnio divino presente nos homens mais pobres, doentes, descartados ou no coração das almas generosas, dedicadas. De gente dispersa constroem a comunhão, com indivíduos isolados fazem comunidade viva na fé, na esperança e no amor. É a verdadeira poesia factiva!
Poetas-profetas discípulos-apóstolos, mártires-professores da fé não defendem a própria reputação. Alvos fáceis dos ímpios quando negam a história, só as gerações futuras lhes fazem justiça. Pedras do meio do caminho incomodam; indestrutíveis, semeiam trigo que se fará o pão do idealista, do revolucionário, mesmo que perturbado pelo crescimento irritante da cizânia.
Poeta-profeta discípulo-apóstolo, mártir-professor da fé é alquimista, pois faz das palavra poção encantante e o seu feitiço condimenta a vida. Cria sabores exóticos; usa verbo forte, inebria a imaginação e gera o sonho. Conhece o segredo de transformar o transcendental no plausível. Alado, vive nas nuvens, mantém parceria perpétua com os anjos e adora a Deus em espírito e verdade, na intimidade do quarto, no interior do Templo, no silêncio das montanhas ou no bulício das praças. Escuta a bruma do vale, agasalha-se sob o manto platinado da lua e expõe-se ao fulgor e calor do sol. Não teme ausências e a solidão não o intimida. É selvagem como o tigre, altivo como a águia e acutilante ou encantador como a serpente.
Poeta-profeta discípulo-apóstolo, mártir-professor da fé nascera no pé do arco-da-velha; salvo das águas, cresce como o cedro do Líbano; sensível, plora com o dedilhar da harpa; torna-se parceiro dos humildes, dos mansos e dos puros de coração. Contudo, o seu destino é a cruz.
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Que de junto de São Pedro e imerso na sua Cultura, Dom José Tolentino, brilhe com a poesia, a profecia e o apostolado.
2018.07.02 – Louro de Carvalho

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Se hoje “ele” estivesse aqui, “eles” matá-lo-iam de novo

O enunciado em epígrafe foi retirado duma entrevista com Gaspar Romero, o irmão mais novo (agora com 87 anos de idade) do Beato Oscar Romero, por Alver Metalli, publicada sob o título NAVIDAD CON LOS ROMERO em www.tierrasdeamerica.com, a 24 de dezembro de 2016 e transcrita, no essencial, no site da fraternitas, a 26 de dezembro.
Trata-se duma frase emblemática proferida pelo entrevistado na réplica à recordação que o condutor da entrevista lhe fez do que Gaspar dissera em tempos que, “se Romero estivesse vivo, diria as mesmas coisas que disse nos anos 1980...”. Neste sentido, afiançou que se Oscar vivesse naquele ambiente político e económico, os detentores do poder não hesitariam de novo em o matar. Na verdade, os fabricantes e os fautores da injustiça sobre os pobres, da miséria alastrante e da corrupção empedernida e sem escrúpulos não toleram as vozes que se levantem em prol dos explorados. Bem sabemos como é difícil a reforma da Igreja preconizada pelo Papa Francisco e seus colaboradores mais sinceros e devotados e quão grandes são as resistências que os instalados no carreirismo ou nas sumas e inquestionáveis verdades e certezas ditadas, não pela fé, mas por uma certa tradição caprichosa opõem à aura de frescura que o Pontífice quer insuflar nas velas da barca petrina. E constituem o acúmulo da hipocrisia e do disfarce as salvas de palmas que tantas personalidades e decisores políticos, financeiros e económicos disparam em aplauso a Sua Santidade quando denuncia os muitos e vários atropelos à dignidade das pessoas que o mundo “não quer” e “não deixa” que sejam “pessoas”. Só não o aniquilam porque os diversos serviços o guardam e sobretudo porque ficariam mal colocados.
A leitura da predita entrevista fez-me lembrar aquele episódio em que o pároco de Freixinho, em 1980, no sermão da procissão do enterro do Senhor, em Sexta-feira Santa, lançou a questão de forma retórica: “Se Jesus Cristo por aqui estivesse hoje de forma visível como naquele tempo, pregasse a mesma doutrina, fizesse os mesmos prodígios se afirmasse como o Filho de Deus e o Senhor de todos, os homens de hoje matá-lo-iam ou não?”.Ante esta arrazoado interrogativo, um grupo de crianças gritou em coro: “Não, Senhor Padre, não matávamos Cristo!”. E o pároco pregador concluiu: “Pois, claro! Não foram, nem são, nem serão as crianças de Freixinho a matar Jesus Cristo”.  Tal como então, hoje os pobres, os desalojados, os descartados, os doentes e os explorados – a menos que sejam maldosamente contaminados pelo ódio mandante e intoxicante de outros – sentem a proteção de quem se bate e entrega por eles, levantando corajosamente a sua voz incómoda e apontando o dedo ao desgoverno, à exploração e à comercialização da dignidade, sobretudo se se trata de profetas e apóstolos da não violência. Obviamente, os atingidos pela contundência pertinente da denúncia profética, mormente se esta vem eivada pelo compromisso pela mudança, não suportam a força da voz e da vez que se quer para os que não têm vez nem voz. O compromisso com a mudança estraga jogos de poder, põe a careca dos espertos à mostra, desnuda a ação de corruptores e de corruptos, grita o destino universal dos bens, exige de cada um o contributo conforme as suas possibilidades e a colmatação das necessidades de cada um.
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O irmão, como é natural, disse nunca ter pensado que Oscar, “com o qual cresceu”, viria a ser um santo. Declarou que viu nele um caráter diferente e recorda-se da previsão da mãe, a 15 de agosto de 1942, de que “ele chegaria muito alto”. Era o dia da Assunção de Nossa Senhora e do aniversário de Oscar, que “ainda se encontrava em Roma a completar a sua formação académica na Pontifícia Universidade Gregoriana”. Contudo, não quer dizer que tal antevisão se referisse ao “céu dos bem-aventurados ou dos santos”. E a declaração da santidade de Oscar Romero coroa o seu grave “pecado” de “defender os pobres, pedir justiça para que não se cometessem prepotências contra as pessoas pobres”. É algo que o Papa Francisco preconiza de forma insistente e coerente. Mas a oligarquia tinha necessidade de o eliminar e começou por o ultrajar utilizando os jornais do país, “que são os jornais dos ricos e dizem o que os ricos pensam”.
Mas a entrevista presta informação relevante sobre a causa da canonização de Oscar Romero. Segundo o padre Rafael Urrutia, postulador da causa, dá notícia de que “a documentação sobre um quarto milagre, pelo qual talvez seja reconhecido como santo, acaba de ser enviada a Roma para ser examinada pelos membros da Congregação do Vaticano encarregada do assunto”. E “os outros dois casos de supostas curas inexplicáveis, a de um equatoriano e a de um mexicano, ainda estão a ser estudados em El Salvador”.

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Oscar Romero nasceu, a 15 de agosto de 1917, em Ciudad Barrios, povoado onde se produzia café, no Departamento de San Miguel, a 156 quilómetros de San Salvador, filho de Santos Romero e de Guadalupe Galdámez, numa família de origens humildes.
Ingressou no seminário menor de San Miguel, em 1931, tendo ali ficado conhecido como ‘O menino da flauta’, pela sua habilidade em utilizar uma flauta de bambu que herdou de seu pai. Em 1937, ingressou no Seminário Maior San José de la Montaña, em San Salvador, e, passados 7 meses, foi para Roma estudar teologia, tendo dali presenciado as calamidades da  II Guerra Mundial. E foi ordenado sacerdote a 4 de abril de 1942.
Regressado a El Salvador em 1943, tornou-se pároco da cidade de Anamorós, sendo depois transferido para a cidade de San Miguel, onde serviu como pároco na Catedral de Nossa Senhora da Paz e secretário do Bispo diocesano monsenhor Miguel Ángel Machado.
Posteriormente, em 1968, foi nomeado secretário da Conferencia Episcopal de El Salvador. E, a 21 de abril de 1970, Paulo VI escolheu-o para Bispo Auxiliar de San Salvador, recebendo a ordenação episcopal a 21 de junho do mesmo ano, de mãos do núncio apostólico Girolamo Prigrione. A 15 de outubro de 1974, foi nomeado Bispo da diocese de Santiago Maria, no departamento de Usulután, encargo que manteve durante dois anos. E foi nomeado Arcebispo de San Salvador em 3 de fevereiro de 1977, graças ao seu aparente conservadorismo.
Entretanto, em março de 1977, ocorreu o assassinato dum seu amigo, o padre Rutilio Grande, jesuíta, junto com dois camponeses – um incidente que transformou Romero, levando-o a denunciar as injustiças sociais por meio da rádio católica Ysax e do semanário Orientación. Por isso, era conhecido como “A voz dos sem voz”. E, por ter aderido aos ideais da não violência, foi comparado a Mahatma Gandi e a Martin Luther King. Nas suas homilias dominicais, denunciava as numerosas violações dos direitos humanos em El Salvador e publicamente manifestou a sua solidariedade com as vítimas da violência política, no contexto da Guerra Civil de El Salvador. Na Igreja Católica, defendia a “opção preferencial pelos pobres”.
Chamavam-no de comunista e de guerrilheiro, pelo que “a oligarquia salvadorenha mandou a Roma três bispos, o de San Miguel, o de San Vicente e o de Santa Ana, para denunciá-lo e para pedir que o transferissem”. Monsenhor Romero “sabia disso e ficou muito desgostoso por três irmãos no episcopado terem ido denunciá-lo” – terrível: “alguns dos que ele havia ajudado”. 
O entrevistado de Alver Metalli lamenta: “Hoje também há difamadores na Igreja de El Salvador”. E, mesmo depois da sua morte por ódio à fé (João Paulo II contestava a quem duvidava do mérito de Romero: “Morreu no altar!), continuaram as intrigas, que o Papa Francisco denominou, depois da beatificação, de “martírio post mortem”, um martírio “que continuou depois do seu assassinato” por calúnias dos “seus irmãos no sacerdócio e no episcopado”. Coerentemente, o Francisco “tirou o processo de beatificação do pântano em que se encontrava”: “não avançava devido à oposição” que havia em El Salvador.
Agora abundam as “pessoas que mudaram de opinião sobre monsenhor Romero”, que foram “críticas e hostis”, mas “que agora pensam diferente”. Disseram “que lamentavam muito e que estavam arrependidas por terem repetido coisas falsas sobre monsenhor Romero”; e que “pedem perdão a Deus e a ele pelas ofensas que lhe fizeram”.
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Gaspar Romero, na entrevista, fornece mais duas informações preciosas: a importância que teve para o arcebispo a morte de Rutilio e as pressões de que o próprio Gaspar foi alvo.
Aquando da nomeação de Romero para Arcebispo, Rutilio, que era diretor do seminário San José de la Montaña, pediu-lhe a transferência para El Paisnal, onde nascera. Lá “doutrinava a gente, ensinava que não se deixassem ultrajar pelos patrões, que pedissem um tratamento justo e salário decente” – o que lhe provocou a morte: “a extrema direita mandou assassiná-lo”.
O monsenhor, ao saber do assassinato, foi lá. Vendo que o velavam no parque, “perguntou porque não o velavam na igreja e fez com que o levassem para dentro”. Ficando a noite inteira ao lado do cadáver, começou a “amizade com os Jesuítas, que se haviam afastado dele e o criticavam”. E começou “uma transformação nele” próprio. Pediu ao Presidente da República “que se investigasse o assassinato do padre Rutilio até identificar os culpados”. O Presidente prometeu mandar “investigar a fundo” e fornecer respostas “dentro de um mês”. Como passou o mês sem haver “responsáveis certos”, Romero “rompeu com o governo”.
As consequências repercutiram-se também em Gaspar Romero. “Tinha um cargo muito bom na Antel como dirigente”. E, de repente, transferiram-no “para a portaria, para trabalhar das 7 da noite às 7 da manhã”. Quando conseguiu ter uma explicação, ela veio nos termos seguintes: “É por causa do seu irmão”. Recebia “muitas ameaças anónimas” em sua casa, “desde malcriações e grosserias até outras mais finas, em que me diziam que queriam muito bem a meu irmão e que eu intercedesse”. Na sexta-feira anterior ao assassinato de monsenhor Romero (foi morto a uma segunda-feira) chegou-lhe carta anónima que dizia que, se o irmão “não desistisse das suas homilias, teria as horas contadas, que o sequestrariam” e que “deveria dizer isso a ele”. Ao que o irmão respondeu que deitasse fora a carta.
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Será pecado pedir aos governantes e aos seus militares que não matem civis indefesos, explorados, oprimidos ou com opinião? É legítimo chamar comunistas aos teólogos da libertação, sem mais, sem crivar que tipos de teologia de libertação propõem? É lícito dar a morte a quem prega: “A missão da Igreja é identificar-se com os pobres. Assim a Igreja encontra a sua salvação”?

2016.12.18 – Louro de Carvalho