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sábado, 29 de junho de 2019

“Fátima, Hoje que caminhos?”


Foi a questão dominante do Simpósio Teológico-Pastoral 2019, que decorreu no Salão do Bom Pastor, Centro Pastoral de Paulo VI, do Santuário de Fátima, de 21 a 23 de junho – três dias de reflexão, diálogo e celebração, cada um deles organizado em torno de um núcleo temático: o 1.º dia, a condição do peregrino; o 2.º dia, a peregrinação a Fátima; e o 3.º dia, a Igreja peregrina.  
As intervenções dos oradores distribuíram-se por 10 conferências: cinco no dia 21; três no dia 22; e duas no dia 23. As do 1.º e 2.º dias foram seguidas de diálogo.
As conferências do 1.º dia foram subordinadas aos seguintes títulos: “Leitura dos movimentos migratórios na atualidade”, por Paulo Rangel; “O homo viator na contemporaneidade”, por Lídia Jorge; “A Criação como paradigma da Peregrinação, por José Rui Teixeira; Fátima: um espaço global e multirreligioso”, por Helena Vilaça; e Turismo, peregrinação, hospitalidade”, por José Paulo Abreu. Os trabalhos do dia terminaram com a celebração da Missa, na Basílica de Nossa Senhora do Rosário de Fátima [sexta-feira da semana XI do Tempo Comum, São Luís Gonzaga, Memória Obrigatória], às 18,30 horas; e, depois do jantar, às 21 horas, realizou-se o Serão Cultural, no Centro Pastoral de Paulo V, em torno do tema “Exodus – Geometrias da Libertação”, com Celina Tavares (voz e guitarra), José Miguel Costa (piano) e  José Rui Rocha (leituras).
O 2.º dia, iniciado com uma oração em comum, foi preenchido com três conferências subordinadas aos seguintes títulos: “A peregrinação a Fátima. Uma leitura de antropologia teológica”, por António Martins; Os Papas peregrinos de Fátima”, por Marco Daniel Duarte; e “São Francisco Marto: peregrinação e páscoa,  no centenário da sua morte” por Adrian Attard, da Academia Pontifícia Mariana Internacional. A meio da tarde, desenvolveu-se um painel temático em torno de “As marcas da peregrinação a Fátima”, desdobrado em três itens: “Da bênção dos doentes” por José Manuel Pereira de Almeida; “Do serviço do lava-pés”, por Ana Luísa Castro; e “Das procissões de Fátima: a luz, o silêncio e o adeus”, por Carlos Cabecinhas.
Depois do subsequente diálogo, procedeu-se à celebração da Missa, na Capela da Morte de Jesus, no piso inferior da Basílica da Santíssima Trindade [Missa votiva de Nossa Senhora de Fátima]. E, às 21,30 horas, foi o Rosário e a Procissão das Velas, a partir da Capelinha das Aparições.
O 3.º (e último) dia iniciou-se com a celebração da Missa, às 9 horas, na Basílica da Santíssima Trindade [Missa do Domingo XII do Tempo Comum]. Seguiu-se a 9.ª conferência “Variações sobre a Igreja peregrina. Da Lumen Gentium ao pontificado de Francisco”, por Benito Mendez Fernandez; e 10.ª conferência “Maria pôs-se a caminho: caminhos de hoje da Peregrina da fé”, por Nunzio Capizzi. Recorde-se que este é o tema da JMJ de 2022, em Lisboa.
Na apresentação do programa, Marco Daniel Duarte (diretor do Museu do Santuário de Fátima e do Departamento de Estudos e Presidente da Comissão Organizadora do Simpósio) referia que, ao longo de um século, a “condição de peregrino” do ser humano é uma das grandes verdades que Fátima tem proclamado e que, “a partir da Cova da Iria” essa condição será “a mais clarividente metáfora da própria vida humana”, que se ilustra “no espaço”, mas que “ganha pleno e inquestionável sentido, sobretudo no tempo que o ser humano percorre desde o nascimento ao óbito”. E, atento ao que se passa em Fátima, rumo a Fátima e a partir de Fátima, considerava:
A imagem das incontáveis fileiras de homens e mulheres que rumam ao Santuário de Fátima, a pé ou de carro, de mota ou de bicicleta, de avião ou de barco ou até de forma espiritual a partir de outros polos de culto dedicados à Virgem de Fátima espalhados pelo mundo, somada ao trilho luminoso e branco das procissões das velas e das procissões do adeus, é, de facto, uma das mais expressivas imagens para a definição do ‘homo viator’, quer o leiamos no contexto do Cristianismo de sinal católico, quer o leiamos no contexto das inquietações várias – religiosas ou não – que povoam os fóruns académicos e a vida quotidiana”.
Nesse sentido, “investigadores de diferentes academias, nacionais e estrangeiras”, olharam para a humanidade peregrina para “analisarem desafios antigos e desafios novos” e se debruçarem “sobre a condição peregrina”, “sobre a peregrinação a Fátima” e “sobre a Igreja peregrina”. 
A agência Ecclesia, em abril, citando um comunicado que lhe fora enviado, dizia que “o sentido de peregrinar” nortearia o encontro que o Santuário de Fátima estava a organizar para o decurso de três dias com a presença de investigadores nacionais e estrangeiros “convidados a olhar a humanidade peregrina” e a analisar os “desafios inerentes à condição de peregrino”. Relevava a intervenção de Adrian Attard, da Academia Pontifícia Mariana Internacional, no 2.º dia, e as do Padre Benito Mendez Fernandez delegado para o ecumenismo da diocese de Mondoñedo-Ferrol, província eclesiástica de Santiago de Compostela, e do Frei Nunzio Capizzi, Professor da Pontifícia Universidade Gregoriana. E considerava que o tema do Simpósio se insere na reflexão proposta pelo Santuário para o presente ano pastoral “Dar graças por peregrinar em Igreja”, que se integra “no triénio 2017-2020, sob o tema “Tempo de Graça e Misericórdia”, e transcrevia significativos segmentos textuais da explicação programática do Presidente da Comissão Organizadora do Simpósio.
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Na sessão de abertura, o Cardeal Dom António Marto, Bispo da diocese de Leiria-Fátima, que denominou a vida de “aventura”, enquanto “viagem no desconhecido”, começou por dizer:
Procuramos segurança e estabilidade, no meio da mudança rápida e vertiginosa dos acontecimentos, procuramos uma felicidade que não se evapore, há toda uma busca pelo sucesso, por bens, por prestígio”.
E, afirmando que é “este anseio, que de algum modo invade o íntimo de cada humano” e “faz dele ser peregrino”, observou:
Assim, o peregrinar é geralmente um movimento externo, físico, que desloca cada pessoa de um lugar para outro. No entanto, é possível falar de peregrinação interior, aspeto esse que coloca o peregrino na linha da reflexão cristã da interioridade. Tendo em conta os dados sociológicos, não se pode negar que existe hoje uma intensa busca de espiritualidade que se declina em vários códigos interpretativos.”.
Colocando-se na perspetiva dos crentes”, o purpurado caraterizou a peregrinação como uma “parábola da existência humana entendida à luz da fé”, visto que, “no anseio de sentido, latente no coração humano, vemos um desejo ardente de Deus, porque só Ele nos pode encher e satisfazer de modo definitivo, tornar-nos felizes, livres e satisfeitos”. E, apresentando os lugares de peregrinação como “lugares de graça onde, de várias formas se pode fazer a experiência da riqueza e da beleza dos diversos aspetos do peregrinar”, discorreu:
A peregrinação pode ser uma experiência bela e surpreendente de Deus, de interioridade e de renovação espiritual, de evangelização e de testemunho. Deste modo, o peregrino deixa o seu lugar e o seu ritmo quotidiano, (...) e o seu coração abre-se à medida que caminha, tudo adquire nova dimensão, seja o tempo, os encontros que são preciosos como partilha de vida interior, o silêncio que fala da própria vida e de Deus; o próprio Deus é, por vezes, surpresa ou faz acontecer surpresas.”.
Depois, considerou que a peregrinação ao Santuário de Fátima tem particularidades singulares, que lhe são atribuídas pelo conteúdo da Mensagem, na sua dimensão mística e profética, mas também por alguns aspetos simbólicos caraterísticos, como é imagem da Virgem Peregrina, que já deu a volta ao mundo por 16 vezes, percorreu 645.000 Km, e é, hoje, “verdadeiro ícone da peregrinação, juntamente com o mar de luz da procissão das velas, e o adeus de Fátima”.
O prelado leiriense-fatimita salientou ainda a afluência de peregrinos de “quase todos os povos do mundo e de todas as culturas e até de outras religiões”, que chegam a Fátima por ser um “lugar com o ambiente de silêncio e de oração e com os lugares de referência como é a Capelinha das Aparições ou os Valinhos” – tudo o que levou Bento XVI a dizer-lhe pessoal e textualmente: “Não há nada como Fátima em toda a Igreja católica no mundo”. E concluiu:
Fátima abre caminhos para cá chegar e abre caminhos para quem daqui parte para a Igreja e para o mundo, pela dimensão mística da mensagem, face a um certo eclipse cultural de Deus no ocidente, e pela dimensão profética urge a atenção ao problema sempre atual da paz pela cultura do encontro, do diálogo e da reconciliação e pela ação correspondente de uma Igreja em saída da sua autorreferencialidade para as periferias do mundo”.
Antes, o Padre Carlos Cabecinhas, reitor do Santuário, dera as boas-vindas aos cerca de 250 participantes, a quem apresentou o “caminho a que o peregrino se lança” como “símbolo da experiencia humana”. E, depois, justificou o uso da “metáfora da peregrinação” para “refletir acerca da experiencia de fé”, sustentando que a experiencia da peregrinação “não permite apenas aceder à mais profunda compreensão da fé, mas também oferece uma bela metáfora da vida em Igreja”.
Por seu turno, o presidente da Comissão Organizadora do Simpósio, começou por afirmar que, “entre as verdades que Fátima tem proclamado, ao longo de um século, está a de que o ser humano continua a exercer a sua condição de peregrino” e reiterou que “a imagem das incontáveis fileiras de homens e mulheres que rumam ao Santuário de Fátima” é “uma das mais expressivas imagens para a definição do ‘homo viator’, quer o leiamos no contexto do Cristianismo de sinal católico, quer o leiamos no contexto das inquietações várias – religiosas ou não – que povoam os fóruns académicos e a vida quotidiana”.
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Para o carmelita Adrian Attard, que não compareceu, mas enviou o texto que Isabel Varanda leu, a conversão proposta por Fátima deve-se “ao testemunho da existência cristiforme dos videntes”, que se “associaram a Jesus, mediante o Espírito, à história da liberdade de Jesus, ou seja, à sua fé obediencial ao Pai”. Por isso, o seu testemunho “mostra-nos” como a vida quotidiana pode tornar-se ocasião para alcançar a fé. Ora, “quando se reconhece a presença de Cristo que, na sua liberdade, vem ao nosso encontro no concreto da vida real, Ele torna-se a pedra angular para o significado de toda a vida pessoal”. E Attard vincou:
O caminho que cada um está chamado a realizar coloca-o misteriosa e progressivamente num espaço cada vez mais amplo que lhe permite alcançar o mais profundo de si mesmo, sem esquecer aquele que está ao seu lado”.
À distância de cem anos da sua morte, São Francisco Marto continua a ser uma “figura singular” que “conferiu à infância uma importância decisiva, vivendo-a em toda a sua profundidade e plenitude”, manifestada “na proximidade a Deus e ao seu mistério”. Com efeito, “no cumprimento de cada dever, nos atos de mortificação, em todas as ocasiões de zelo, de oblação, de abnegação e de caridade que se lhe apresenta, Deus colocou no coração de Francisco a sua vontade, e este cooperou eficazmente no processo de assimilação ao seu Senhor”. Por isso, “a vida do santo menino ajuda-nos a insistir em alguns pontos de interesse antropológico-espiritual e a clarificar algumas perspetivas para o futuro” – esclareceu.
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É de relevar algo do teor do painel temático da tarde do dia 22, marcado por três intervenções.
O reitor do Santuário, sublinhando o sentido da procissão como “uma caminhada comum” sinal da condição peregrina da Igreja enquanto povo de Deus, disse:
A luz da procissão das velas; o silêncio da procissão do silêncio (exclusiva de Fátima) e a saudade expressa no adeus à Virgem constituem marcas importantes no imaginário deste lugar”.
Em Fátima, particularmente, a procissão é uma forma “de aproximação” à veneranda imagem de Nossa Senhora e, simultaneamente, um  momento de oração, meditação e peregrinação. A este respeito, o Padre Cabecinhas vincou a especial relação entre estas procissões e a própria Mensagem de Fátima, nomeadamente a Procissão das Velas que remete para a “luz de Deus”, relatada nas memórias da Irmã Lúcia por variadas vezes, em concreto, quando descreve a experiência de Francisco, tocado pela Luz de Deus. Já a Procissão do Adeus, sendo um rito de despedida, “um adeus emotivo” dos peregrinos a Nossa Senhora, representa um aspeto indelevelmente ligado à `alma portuguesa: a saudade. E há uma outra procissão, criada por razões funcionais, mas que hoje é um dos momentos mais belos e que mais dizem da experiência que se faz em Fátima: o silêncio. Trata-se da procissão de regresso da imagem à Capelinha, depois da missa da Vigília na noite dos dias 12, entre maio e outubro, durante a qual milhares de peregrinos rezam em silêncio, “o silêncio orante caraterístico de Fátima”. É a mais recente das procissões, mas tornou-se “marcante nos rituais processionais do Santuário”, sendo que, “para muitos, é este silêncio que faz da Cova da Iria um lugar especial”.
Em todos estes momentos, concluiu o reitor, os peregrinos são “os grandes protagonistas de Fátima”. Os peregrinos “criaram estes rituais e são eles que os protagonizam”, quer quando levam as velas acesas, quer “quando se movimentam no recinto para ficarem mais próximos da imagem, quer ainda quando acenam os lenços brancos para se despedirem”.
Outra das “marcas” da peregrinação a Fátima é a bênção dos doentes, no final da missa, particularmente nas grandes celebrações. A partir do Evangelho de São Marcos, o médico e sacerdote José Manuel Pereira de Almeida apresentou este gesto litúrgico como a “expressão da proximidade de Jesus” para com todos os doentes e os que são frágeis. E afirmou:
Jesus, no Santíssimo Sacramento, passa bem junto dos doentes para lhes dizer a Sua proximidade e o Seu amor. E eles – tal como os Pastorinhos – confiam-lhe as suas dores, os seus sofrimentos, o seu cansaço. (…) Como discípulos do Senhor, cada doente quer viver a sua vida como um ‘dom’. Naquele momento podem dizer-Lhe de novo, como os Pastorinhos, que querem oferecer-se a Deus de todo o coração.”.
Depois, assegurou que “a nossa vida de comunhão com Jesus corresponde a vivermos com Ele e como Ele na terra”. E lembrou as palavras  do Papa Francisco, antes da bênção dos doentes em Fátima, no final da missa de canonização dos santos Francisco e Jacinta, a 13 de maio de 2017:
Jesus sabe o que significa o sofrimento, compreende-nos, dá-nos força e consola-nos. Por isso, a bênção dos doentes é a certeza de que Jesus está presente, nos compreende, nos dá força e nos consola.”.
Por fim, foi relevado o lava-pés como outra das grandes ‘marcas’ de Fátima. Ana Luísa Castro (médica religiosa da Aliança de Santa Maria e diretora do Posto de Socorros do Santuário) apresentou o gesto como “um primeiro desejo” dos que, movidos pela compaixão para com os primeiros peregrinos” (um grupo “de cavalheiros e senhoras” que, em 1924, haveriam de formar a Associação de Servitas de Nossa Senhora de Fátima), lançaram mãos à obra no apoio e assistência” a quem chegava a pé. E frisou que o serviço “cabe no desejo de excesso, suscitado por Deus, podemos dizer, então nesse carisma, de se sacrificar para dignificar o outro, para o servir, ao jeito de Jesus na Última Ceia, mas também como única forma de realização plena do que se é chamado a ser em Cristo”.
Tendo atravessado já várias fases, o serviço do lava-pés assiste hoje a uma redução da procura pelos peregrinos. As razões para “esta curva descendente” podem ser consideradas de ordem prática, mas há “outras que nos devem interpelar”, pois deriva da forma “como hoje o homem se coloca diante de Deus”. Com efeito, “temos dificuldade em reconhecer que somos frágeis, que precisamos que nos lavem os pés”, convictos da “autossuficiência” inerente ao homem de hoje, que privilegia o ritmo frenético imposto pelas mãos ao invés da “lentidão que os pés pedem”.
E, porque “os pés feridos são a manifestação física de um mundo interior magoado”, exortou:
Deixemos que os pés definam os nossos mapas, aceitemos percorrer um caminho interior, lento e esforçado, mas que permite ir experimentando os cheiros, as cores e os sons que a vida tem para dar (…).Temos que reaprender a usar os pés”.
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Na sua conferência, Marco Daniel Duarte considerou que “os Papas, ao virem a Fátima, deixam transfigurar o seu olhar” num lugar onde “a ritualidade transcende a mensagem”. Para o historiador, quem quiser compreender melhor Fátima na sua plenitude “deve analisar os discursos dos Papas em Fátima e a propósito de Fátima”.
O orador disse que os Papas, mesmo antes de iniciarem o ciclo das viagens pontifícias a Fátima, fizeram-se representar pelos seus delegados.
Paulo VI foi o primeiro a visitar a Cova da Iria, numa peregrinação de profundo “culto à Mãe de Deus”. Ao chegar a Fátima, lembrou a sua condição de “peregrino entre peregrinos” e, através dessa presença, “sentiu a força histórica da Irmã Lúcia de Jesus”, justamente pelas ovações dos peregrinos ali presentes. E ofertou o seu báculo, um gesto que merece “atenção”, porque não é “comum” um Papa proceder desta forma.
João Paulo II foi o segundo Papa a visitar a Cova da Iria e “nada previa que se fizesse peregrino em tão pouco tempo de pontificado”. Em Fátima, teve um gesto simbólico pondo-se de joelhos aos pés de Nossa Senhora e orando na Capelinha das Aparições, um ano depois do atentado e na hora em que ele aconteceu, num “profundo momento de silêncio”. O investigador falou da “relação física” de João Paulo II com a Imagem de Nossa Senhora, presente na Capelinha, onde “ele frente a frente mete no coração a humanidade e trata Maria como uma Mãe, gesto vivível nos seus discursos e orações”. O investigador lembrou a “gratidão” presente nos gestos e nas palavras do Santo Padre, que assumiu uma imagem de peregrino, com gestos idênticos aos dos outros peregrinos.
Em 2010, Bento XVI foi o primeiro a falar do Centenário das Aparições de Fátima, dando indicações orientadoras que o Santuário seguiu. Consagrou ali os sacerdotes ao Coração de Maria. E afirmou o Santuário de Fátima como coração espiritual de Portugal. 
Francisco esteve em Fátima, em maio de 2017, 100 anos depois da 1.ª aparição de Maria. E “um dos primeiros gestos foi o silêncio, seguindo-se a entrega de três ramos de rosas, cuja origem ainda hoje não sabemos, e posteriormente a Rosa de Ouro”. Bergoglio foi o “primeiro Papa a caminhar no Recinto de Oração sem ser num percurso celebrativo”. E, “na bênção aos doentes, o Papa Francisco deu um novo sentido à expressão Jesus escondido”.
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E ressaltam do Simpósio alguns elementos importantes: a dimensão da condição de peregrino do ser humano e da Igreja; as três marcas de Fátima (três procissões – velas, adeus e silêncio; bênção dos doentes; e lava-pés); e a condição de peregrinos dos Papas, iguais aos outros (rezam, cantam, fazem ofertas, acenam adeus, cumprem promessas, celebram datas significativas, caminham…) e diferentes deles (pontificam, pregam, abençoam, são aclamados…). É Fátima em conexão com Jesus Cristo e a Santíssima Trindade, em Igreja e pelo mundo.
2019.06.29 – Louro de Carvalho   


sábado, 8 de dezembro de 2018

Maria, a beleza luminosa no Advento/Natal


Na caminhada espiritual e pastoral do Advento/Natal do Senhor, a liturgia católica surpreende a Igreja crente, orante, discípula e apóstola com a Solenidade da Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria. Esta surpreendente festividade, surgida na História da Igreja em termos do Santoral, colocou-se antes do Natal de modo que o Nascimento ou Natividade de Maria pudesse celebrar-se em tempo de colheitas dos frutos semeados na primavera e das sementeiras outonais para as colheitas primaveris.
No entanto, esta solenidade mariana da pureza virginal de maria ab initio torna-se cristológica e eclesiológica se atendermos à pedagogia de Gabriel e de Isabel e ao conteúdo das mensagens.
Antes de mais, Gabriel chega a Nazaré enviado por Deus e saúda a donzela Maria como a Cheia de Graça, Aquela com quem o Senhor está – um elogio ou um piropo gracioso pelo facto de a donzela de Nazaré possuir o Senhor e Ele a possuir porque Ela achou graça no Senhor e Ele se revê nela. E, depois, solicitando-Lhe que não tema, anuncia que Ela conceberá e dará à luz o Santo de Deus, Aquele a quem ela porá o nome de Jesus, o Filho do Altíssimo, que libertará o povo dos pecados. É a lógica graciosa de Deus: parte-se de Maria cheia de graça em todo o tempo e lugar por obra de Deus, para nos ser dado o Filho do Altíssimo tornado também filho de Maria, o Deus humanado. Nesta lógica, que Maria aceitou, porque escutou bem e guarda no coração, Maria voluntaria-se para serva do Senhor, deixando que em Si e por Si se cumprisse a Palavra de Deus. E, como a Palavra de Deus é o próprio Filho de Deus, que em Maria Se tornou carne humana, Ela é simultaneamente a morada da Palavra, a serva da Palavra e a oferente quase sempre silenciosa da Palavra ao Mundo. (cf Lc 1,26-38; Jo 1,1-14).
E Isabel, reconhecendo em Maria a mãe do Senhor, por Ela ter acreditado em tudo quanto Lhe foi dito da parte de Deus, bendi-la a Ela e ao fruto do Seu ventre (cf Lc 1,39-45). A mesma lógica de Deus assumida por Isabel: de Maria, a Mãe, para Jesus, o Filho. Nada acaba em Maria, porque também nada começa em Maria. Ela é cheia de graça porque Deus está com Ela e a cumulou da graça divina, a mesma graça que Jesus trouxe ao mundo dos homens. Por isso, o centro da graça visível no mundo é Jesus, que nos faz caminhar Consigo, no Espírito Santo, para o Pai. A missão de Maria é cristípeta: encaminha-nos para o Cristo de Deus.
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Porém, como é de entender, Maria não está sozinha com Jesus nem O fechou no seu mundo, como alguns querem fazer. Ela é lugar e testemunha do mistério da Encarnação e colabora na construção da economia da Redenção. E, depois, junta-se em oração e atividade ao núcleo dos apóstolos a quem incumbe implantar a Igreja no mundo como instrumento, espaço e encontro de salvação. E hoje continua a acompanhar a Igreja como seu protótipo, como sua mãe, como sua irmã, visto que os membros da Igreja são irmãos, filhos no Filho, a cabeça deste corpo orgânico. Por isso, os Padres da Igreja aplicam a Maria aquilo que das Escrituras se aplica à Igreja e vice-versa. Por tudo a mariologia integra a eclesiologia
Na verdade, como nova Eva, Maria pertence à descendência da mulher que esmagará a cabeça da Serpente (cf Gn 3,15) – descendência protagonizada e presidida por Jesus, que tudo o mereceu, mas que agrega a Si todos os crentes constituídos em Igreja e em sementeira do Reino de Deus.
Com efeito, Maria deu ao mundo o Autor da vida e Luz do mundo. Como diz o evangelista Lucas, “Maria deu à luz o Seu Filho primogénito, envolveu-O em panos e reclinou-O numa manjedoura”. Eis o primeiro altar da contemplação e da adoração familiares, mas logo aberto à contemplação adorante dos anjos e dos pastores. Como Maria, também a Igreja e, nela, todos os seus membros têm o condão e o dever de contemplar Jesus, adorá-Lo e mostrá-Lo ao mundo dos homens e encaminhá-los para Ele, patenteando as portas da libertação e da liberdade. É, pois, eclesiológica a missão de Maria, como é mariana, em certa medida, a missão da Igreja.
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Nos alvores da pregação do Reino, a Virgem surge como a humilde serva do Senhor, mas a quem a luz divina que lhe brilha no olhar virgíneo e maternal faz entoar o cântico do louvor e da imensa misericórdia, que testemunha que Deus tem predileção pelos simples e humildes:
A minha alma glorifica o Senhor e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador. Porque pôs os olhos na humildade da sua serva. De hoje em diante, todas as gerações chamar-me-ão bem-aventurada. O Todo-poderoso fez maravilhas em mim. Santo é o seu nome. A sua misericórdia se estende de geração em geração sobre aqueles que o temem… Acolheu a Israel, seu servo, lembrado da sua misericórdia, como tinha prometido a nossos pais, a Abraão e à sua descendência, para sempre.” (Lc 1,46-55).
É a assunção da alegria da Filha de Sião como enuncia o profeta Isaías:
Exulto de alegria no Senhor e o meu espírito exulta no meu Deus, porque me revestiu com as vestes da salvação e me envolveu num manto de triunfo. Como um noivo que cinge a fronte com o diadema e como uma noiva que se adorna com as suas joias. Porque, assim como a terra faz nascer as plantas e o jardim faz brotar as semen­tes, assim o Senhor Deus faz germinar a justiça e o louvor diante de todas as nações.” (Is, 61,10-11).  
E esta alegria e esta beleza da Filha de Sião ou da Jerusalém predileta do Senhor – Maria e a Igreja – inundam a Terra como proclama o convite do Senhor pela voz do Profeta:  
Levanta-te e resplandece, Jerusalém, que está a chegar a tua luz! A glória do Senhor amanhece sobre ti! Olha: as trevas cobrem a terra, e a escuridão, os povos, mas sobre ti amanhecerá o Se­nhor. A sua glória vai aparecer sobre ti. As nações caminharão à tua luz, e os reis ao esplendor da tua aurora. Levanta os olhos e vê à tua volta: todos esses se reuniram para vir ao teu encontro. Os teus filhos chegam de longe, e as tuas filhas são transportadas nos braços. Quando vires isto, ficarás radiante de alegria; o teu coração palpitará e se dilatará, porque para ti afluirão as riquezas do mar, e a ti virão os tesouros das nações.” (Is 60,1-5). 
Obviamente, Maria ou a Igreja não seriam a luz. A Luz é o Senhor. Ele o diz (Eu sou a luz do mundo – Jo 8,12), mas quem O segue torna-se luzeiro e luz (quem me segue não anda nas trevas, mas terá a luz da vida – Jo 8,12; vós sois a luz do mundo – Mt 5,14). Por isso, na linha da profecia, as nações caminharão à luz da Filha de Sião, porque a glória do Senhor se espargiu sobre ela. Maria deu ao mundo a Luz e a Igreja tem a missão iluminar o mundo com a luz de Cristo.
A mesma mulher – Maria e a Igreja – surge nos tempos apocalípticos como o grande sinal a brilhar no Céu:
Uma Mulher vestida de Sol, com a Lua debaixo dos pés e com uma coroa de doze estrelas na cabeça. Estava grávida e gritava com as dores de parto e o tormento de dar à luz. […] Ela deu à luz um filho varão. Ele é que há de governar todas as nações com cetro de ferro. Mas o filho foi-lhe arrebatado para junto de Deus e do seu trono. E a Mulher fugiu para o deserto onde Deus lhe preparou um lugar, de modo a não lhe faltar aí o alimento durante mil duzentos e sessenta dias. Travou-se uma batalha no céu: Miguel e seus anjos declararam guerra ao Dragão. O Dragão e os seus anjos combateram, mas não resistiram. O grande Dragão, a Serpente antiga – a que chamam também Diabo e Satanás – o sedutor de toda a humanidade, foi lançado à terra; e, com ele, foram lançados também os seus anjos. Então ouvi uma voz forte no céu que aclamava: Eis que chegou o tempo da salvação, da força e da realeza do nosso Deus e do poder do seu Cristo!” (Ap 12,1-2.5-7.8.9-10).
A Cheia de Graça, revestida da beleza de Deus – mas cujo coração foi trespassado por uma espada de dor, como profetizou o velho Simeão (cf Lc 2,35) – surge perto do Natal, na tradição eclesial, como Senhora do Ó ou Senhora da Expectação (que o povo justifica como sendo a Senhora grávida – e também o é), unida ao Povo de Deus (e dele emergente em lugar de relevo) que espera o Messias desejado e reza, de 17 a 24 de dezembro, invocando-O pelos seus títulos messiânicos antes do Evangelho da Missa e como antífona do “Magnificat” em Vésperas: Ó Sabedoria do Altíssimo (dia 17), Ó Chefe da Casa de Israel (dia 18), Ó Rebento da Raiz de Jessé (dia 19), Ó Chave da Casa de David (dia 20), Ó Sol Nascente, esplendor da luz eterna e sol de justiça (dia 21), Ó Rei das Nações e Pedra angular da Igreja (dia 22), Ó Emanuel, nosso rei e legislador (dia 23). E leem-se as seguintes passagens do Evangelho: dia 17, Genealogia de Jesus (Mt 1,1-17); dia 18, Modo como Jesus nascerá de Maria (Mt 1,18-25); dia 19, Anúncio do nascimento do Precursor (Lc 1,5-25); dia 20, Anúncio do nascimento de Jesus (Lc 1,26-38); dia 21, Visita de Maria a Isabel (Lc 1,39-45); dia 22, Magnificat, cântico de Maria (Lc 1,45-26), semelhante, na evocação do poder do Senhor, ao cântico de Ana (1Sm 2,1-10); dia 23, Nascimento do Precursor; e dia 24, Benedictus, cântico de Zacarias.
***
Não é, pois, descabido o facto de G. M. Behler, no seu livro “Alabanza Biblica de la Virgen” (Narcea, SA de Ediciones, Madrid: 1972), baseado em referências bíblicas, textos litúrgicos e patrísticos, doutrina do magistério eclesial e escritos dos santos, chamar a Maria e, consequentemente à Igreja, a Cidade de Deus, na dupla dimensão: a cidade mãe e a cidade refúgio. Com efeito, Aquela que surge como a aurora do tempo novo e que emerge de forma especial no Advento e Natal em função de Cristo, e da Igreja qual fruto seu, fica alvorada no Calvário em mãe de todos os povos e não por uma maternidade limitada aos contornos da carne, mas com a largueza, amplidão e profundidade do Espírito – a mãe universal, a mãe espiritual. Por outro lado, a mulher fiel que escutava e tudo guardava em seu coração (cf Lc 2,19.51) é a nova Jerusalém, resplendente de luz e beleza feita baluarte inexpugnável de Deus e baluarte indestrutível do Reino. Por isso, nós rezamos “Sub tuum praesidium confugimos Sancta Dei Genitrix…”.
Mas essas prerrogativas altamente nobilitantes também as têm a Igreja no seu ser e missão e, com ela, todos os filhos de Maria (filii Mariae) e filhos da Igreja (filii Ecclesiae – fregueses). É esta a nossa alegria, é esta a nossa responsabilidade. Para tanto, como a Virgem Maria, teremos de estar abertos à graça e disponíveis para a missão! E, se Maria pôde entoar “Magnificat anima mea Dominum…”, nós como Igreja e como crentes, podemos cantar:
Deus é o meu Salvador,
Tenho confiança e nada temo.
O Senhor é a minha força e o meu louvor.
Ele é a minha salvação.
Convidarmo-nos reciprocamente:
Povo do Senhor, exulta e canta de alegria.
Povo do Senhor, exulta e canta de alegria.
E, por fim,
Santa Mãe do Redentor, Porta do Céu, Estrela do Mar,
Socorre o povo cristão que procura levantar-se do abismo da culpa.
Alegrai-Vos, ó Virgem gloriosa, a mais bela entre todas as mulheres,
Santa Mãe de Deus, intercedei por nós diante do vosso Filho.  
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Vem aí o Natal. É imperativo não fechar a porta a Deus nem ao Homem. Chamam: é preciso responder. Batem: é preciso abrir e permitir a entrada no nosso mundo para que se transforme.
2018.12.08 – Louro de Carvalho

domingo, 2 de dezembro de 2018

Tu também tens de ser o presépio


Com o 1.º domingo do Advento, inicia-se o novo Ano Litúrgico e o seu 1.º ciclo, o do Natal.
O comércio já vem enxameando, desde fins de outubro, as ruas e praças, as montras e lojas e os spots publicitários de motivos e objetos natalícios, como também – é justo registá-lo – de campanhas a favor de quem precisa e de agendamento de encontros e outros atos de confraternização com familiares, vizinhos e amigos.
Na ótica do combate à banalização consumista que, muitas vezes, encandeia, adorna e atordoa o Natal com as luzes, decorações e sons do mundanismo, fazemos o esforço de evidenciação da profundidade do mistério do Natal centrando-nos em Jesus menino que, pelo Seu Nascimento, deu o primeiro passo na Terra para a cruz redentora, que possibilita a presente e a eterna confraternização dos filhos de Deus na e com a comunhão trinitária.
Por isso, fiquei algo espantado quando anotei que o Papa Francisco e o Bispo do Porto (que têm razão) recomendaram a colocação antecipada do Presépio e da Árvore de Natal nas igrejas, nas casas de família, nas ruas e nas praças. E hoje, dia 2 de dezembro, o sacerdote que celebrou a missa transmitida pela Rádio Renascença frisou que muitos e muitas que não são crentes celebram o Natal e dizia “ainda bem”, porque festejam a vida, o nascimento, a convivência.
E o Papa, na mensagem que dirigiu ao simpósio sobre as igrejas que deixam de estar ao culto e que podem ser destinadas a fins profanos não sórdidos, segundo o cânone 1222 do Código de Direito Canónico, disse que o fenómeno de muitas igrejas, necessárias até há poucos anos, mas não hoje, seja por falta de fiéis e de clero, seja por uma distribuição diferente da população nas cidades e nas zonas rurais, não deve ser acolhida com ansiedade pela Igreja. Ao invés, este fenómeno deve ser interpretado como um sinal dos temposque nos convida a uma reflexão e nos impõe uma adaptação”.
Talvez também o consumismo natalício, muito fomentado pelo comércio e pelas relações socioeconómicas, nos possa levar a uma oportuna reflexão e a encarar catequeticamente este pretenso alargamento dos festejos. Por isso, em vez de tentarmos obstruir o cortejo das vaidades, talvez seja mais conveniente tentar alinhá-lo pela linha da eficácia e tolerância evangélicas: continuar a semear o trigo, mas não impedir primariamente o crescimento conjunto do joio ou das ervas neutras. Não desistindo, mas sendo criteriosos!
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Só por motivos metodológicos se distinguem Natal e Advento. Advento (do nome latino adventus, us – chegada, por sua vez derivado do verbo advenire: vir, chegar, vir até junto de) significa vinda, chegada até junto de nós. Obviamente, no contexto cristão, trata-se da vinda de Jesus, o Messias. Ao longo dos tempos, Deus aproximou-se dos homens e falou-lhes implicitamente pelos sinais natureza e explicitamente pelos patriarcas, juízes, reis e profetas. Agora, fala-nos por seu filho Jesus Cristo. O Advento já celebra a vinda de Jesus, que tira o pecado do mundo – e nesse sentido, chamamo-Lo Messias em hebraico e Cristo em grego – como foi prometido ao longo do Antigo Testamento. Pelo Natal (no latim, dies natalis – dia do nascimento – de que o tempo assumiu o adjetivo “natalis” como nome deixando cair o “dies”), celebramos a vinda de Jesus pela modalidade factual do nascimento a partir do seio virginal de Maria onde fora concebido por obra do Espírito Santo.
Diga-se que um só dia do calendário seria exíguo para celebrar tão misterioso e portentoso mistério da Encarnação do Verbo de Deus.
Por isso, em douta antropagogia, a Igreja, embora centre a celebração na Solenidade do Natal do Senhor, fá-la preceder de quadra preparatória em que releva (para nossa edificação) mensagens, factos e figuras humanas – precursores da vinda de Jesus –, tal como subsequentemente lhe apõe uma oitava festiva para a sapiência e a deglutição do augusto mistério e, ainda, mais uns dias para absorvermos o dinamismo do Evangelho da Infância até ao Batismo do Senhor.
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Entre os vários motivos natalícios, destaca-se o presépio como lugar central do Natal. Devo, contudo, anotar que originariamente o “presépio” (em grego, “φάτνη” – phátnê: em latim: praesepium ou praesepe) é a manjedoura, que por sinédoque passou a designar também a gruta, estábulo, cabana.
Diz o Evangelho de Lucas que Maria deu à luz o Seu filho primogénito, O envolveu em panos e O reclinou sobre uma manjedoura (cf Lc 2,7). Porém, deve ter-se em conta que a manjedoura está abrigada na gruta ou cabanal e que ali foram acolhidos os visitantes e adoradores do menino.
Ora, do meu ponto de vista, a manjedoura passou, com o Natal, a ser o primeiro altar, na Terra, de adoração familiar: Maria e José acarinharam o menino, apaparicaram-no, beijaram-no, contemplaram-no e mostraram-no a quem aparecia, nomeadamente anjos e pastores.
Recordo que Bento XVI, na homilia da missa na Esplanada de Marienfeld, em Colónia, a 21 de agosto, no âmbito da XX Jornada Mundial da Juventude (JMJ), falou do sentido da adoração:
A palavra grega ressoa proskynesis. Ela significa o gesto da submissão, o reconhecimento de Deus como a nossa verdadeira medida, cuja norma aceitamos seguir. Significa que liberdade não quer dizer gozar a vida, considerar-se absolutamente autónomo, mas orientar-se pela medida da verdade e do bem, para, assim, nos tornarmos nós próprios verdadeiros e bons. Este gesto é necessário, mesmo se a nossa ambição de liberdade num primeiro momento resiste a esta perspetiva. […]. A palavra latina para adoração é ad-oratio contacto boca a boca, beijo, abraço e, por conseguinte, fundamentalmente amor. A submissão torna-se união, porque Aquele a quem nos submetemos é Amor. Assim, submissão adquire um sentido, porque não nos impõe coisas alheias, mas liberta-nos em função da verdade mais íntima do nosso ser.”.
Então, para adorar, pomo-nos de pé, inclinamo-nos, ajoelhamos, prostramo-nos, sentamo-nos consoante o que nos parece ser a postura do amado, de quem nos abeiramos. Antigamente, ao invés do que muitos pensam, o trono real estava perto do solo. Logo, para “adorar” o rei, o único que estava sentado, era mister fletir, ajoelhar ou prostrar-se, dependendo da estatura do súbdito (isto antes da instituição de práticas humilhantes). É, assim, preciso colocar a boca de modo a podermos beijar a pessoa amada e falar-lhe, ouvi-la para lhe podermos responder e podermos vir a falar em seu nome a outrem. Todavia, mais do que a posição física para adorar importa adorar em espírito e verdade (cf Jo 4,23.24). 
A adoração deve ser cultivada em família, mas não pode fechar-se nela. Imaginemos que Maria e José se tinham trancado na gruta de Belém e escondiam o menino… Mas não: aquele primeiro altar familiar abriu-se à adoração de quem acorreu ali: os anjos fizeram-se ouvir a cantar Glória a Deus no Céu e paz na Terra aos homens do seu agrado (cf Lc 2,14); entretanto, um deles fora avisar os pastores que pernoitavam nas imediações da cidade:
Não temais, pois anuncio-vos uma grande alegria, que o será para todo o povo: Hoje, na cidade de David, nasceu-vos um Salvador, que é o Messias Senhor. Isto vos servirá de sinal: encontrareis um menino envolto em panos e deitado numa manjedoura.” (Lc 2,10-12).
E os pastores apostolaram-se reciprocamente “Vamos a Belém ver o que aconteceu e que o Senhor nos deu a conhecer”. Foram apressadamente e encontraram Maria, José e o menino deitado na manjedoura. Depois de terem visto, começaram a divulgar o que lhes tinham dito a respeito daquele menino. Todos os que ouviram se admiravam do que lhes diziam os pastores. Quanto a Maria, conservava todas estas coisas, ponderando-as no seu coração. E os pastores voltaram, glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham visto e ouvido, conforme lhes fora anunciado (Lc 2,15-20).
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Ora tudo isto tem em vista dizer-nos que a vinda do Senhor, o nascimento de Jesus não aconteceu somente há dois mil anos. Este mistério sucede hoje em realização permanente na Igreja e pela Igreja, que tem a missão de oferecer Jesus ao mundo e de oferecer o mundo a Jesus. Mas ela só cumpre cabalmente esta missão se todos e cada um aceitarmos ser a manjedoura atual onde Jesus está reclinado e exposto à aprendizagem e adoração de todos a começar pelos pobres – que são também o presépio onde devemos ver e adorar Jesus e cuidar dele. E isso faz-se com as palavras da boca originadas na cabeça e com o coração terno e aberto. Depois, nós também devemos ser a gruta que protege este tesouro menino e acolhe todos os que vierem por bem, nunca lhes tolhendo a entrada, mas facilitando-lha.
Por isso, o presépio – manjedoura e cabanal – sou eu e és tu. E seremos cada mais presépio se aceitarmos ser anjos que fazem e cantam a glória de Deus e a paz entre os homens e pastores que também vêm adorar e incitam os outros à adoração.
Para tanto, teremos também de ser outros sinais do presépio: a árvore, ao resistirmos aos ventos e dificuldades da vida e semearmos a esperança; a luz, quando iluminamos com a nossa vida o caminho dos outros com a bondade, paciência, alegria e generosidade; o sino, quando chamamos, envolvemos e convidamos, congregamos e procuramos unir; as decorações, as nossas virtudes, que são as cores que embelezam a nossa vida; os anjos, quando cantamos para o mundo uma mensagem de paz, justiça e amor; a estrela, quando levamos alguém ao encontro com o Senhor; os magos, quando damos o melhor que temos sem termos em conta a quem o damos; o presente de Natal, ao sermos verdadeiros amigos e irmãos de todos os seres humanos; os cantares de Natal, quando conquistamos e irradiamos a harmonia dentro de nós; os votos de Natal, se perdoamos e restabelecemos a paz, mesmo quando sofremos por isso; a ceia, quando saciamos com pão e esperança o pobre que está ao nosso lado; a noite, quando, humildes e conscientes, recebemos no silêncio da noite o Salvador do mundo, sem ruídos nem grandes celebrações, sendo o sorriso da confiança e ternura na paz interior de um Natal perene que estabelece o reinado de Deus, dentro de cada um de nós.
O Natal somos nós, quando decidimos nascer de novo em cada dia e deixar que Deus entre e permaneça na nossa alma, na nossa vida. Se efetivamente assim acontecer, se assim o quisermos, o presépio será mesmo lugar de encontro em casa, na igreja e na rua!
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Por isso e para isso, ante as dificuldades, mesmo que catastróficas, temos que ousar erguer-nos e levantar a cabeça porque a nossa libertação está próxima. Mas devemos ter cuidado connosco: o nosso grande inimigo será o coração pesado pela intemperança (a falta de tempero ou de moderação) ou devassidão (viver não vivendo, andar ao toledo, em roda livre, sem leme), a embriaguez (do álcool, das drogas, dos prazeres, das ambições) e as preocupações (ainda que lícitas) da vida. E, sobretudo, devemos vigiar e orar em todo o tempo, para que possamos livrar-nos de tudo o que vai acontecer
e comparecer diante do Filho do homem (vd Lc 21,28.34.36).

E teremos de  crescer e abundar na caridade, uns para com os outros e para com todos e progredir cada vez mais numa santidade irrepreensível (cf 1 Ts 3,12.13; 4,1).
O presépio és tu, o presépio sou eu, o presépio somos nós; e o nosso presépio são os pobres!
2018.12.02 – Louro de Carvalho