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domingo, 26 de maio de 2019

Votar – atitude cívico-política chave da democracia representativa


Em dia de eleições para o Parlamento Europeu (PE), pairava no ar o fantasma real da abstenção. E vêm alguns desculpar-se com a campanha trivial, medíocre e acintosa, oca de conteúdos de interesse europeu; outros entendem que estas eleições são de pouco interesse porque o PE está lá muito longe, passa-nos ao lado e o poder maior está no Conselho; e o Presidente da República, que subscreveu, nos princípios deste mês, um apelo comum dos chefes de Estado e de Governo da União Europeia à participação nestas eleições, veio apelar, de forma lancinante, no dia da reflexão, à participação no ato eleitoral.
Na verdade, como refere Leonete Botelho no Público de hoje, dia 26 de maio, a abstenção nas eleições europeias “é sempre muito elevada e este ano há uma agravante: a entrada em vigor do recenseamento automático dos emigrantes fez crescer de 300 mil para 1,4 milhões os cidadãos no estrangeiro que entraram no sistema”. E o Presidente Marcelo verifica:
Eu sei que o mais de um milhão de compatriotas que vive por esse mundo fora pode estar ainda longe destas suas primeiras eleições”.
E, assinalando o tom em que correu a campanha, disse:
Também sei que, nas campanhas eleitorais europeias, se fala de muito mais do que de Europa, sobretudo num ano, como este, em que daqui por quatro meses, há novas eleições, as eleições para a Assembleia da República. É, por isso, tentador ficar em casa e deixar a outros o encargo de irem votar, guardando para Outubro o voto considerado essencial. (…) Mas é um erro. É um erro enorme.”.
 Tem razão o Chefe de Estado em fazer este apelo ao “pequeno sacrifício do voto” e nos termos em que o fez. De facto, é melhor esquecer o que desgostou o eleitorado na campanha eleitoral e ir votar. Grosso modo os portugueses sabem aquele poucochinho que, no fundo, querem os diversos partidos, mesmo os mais pequenos, pelo que têm elementos suficientes para decidir o voto. Sabem também que todos prometem e têm muita dificuldade em cumprir: é a vida. E não é com um virar de costas que resolvem o problema. Pelo contrário, o perigo espreita e, como advertiu o Presidente, “assim começou, em tantos casos, a fraqueza das democracias; assim começou, vezes de mais, o caminho para a sedução dos poderes absolutos”.
Antes, se querem resolver o problema do divórcio entre partidos e eleitores, governança e cidadãos, os eleitores, primeiro, devem votar e, depois, usar a voz e a caneta para a crítica oportuna e importuna, utilizar o exercício dos direitos de reclamação, reunião, associação e manifestação. Não se pode, como diz Marcelo, deixar nas mãos de poucos (era melhor que não tivesse referido valores percentuais para não “legitimar” as previsões de grande abstencionismo em 20% ou 25%) o destino do país e o destino da Europa, mas também não se podem proibir os abstencionistas de virem queixar-se ou criticar no futuro se estiverem descontentes. Isto, porque não votar é também um direito, tal como o silêncio, porque o abstencionista de hoje pode ser o votante de amanhã, porque o direito de crítica não pode ser cerceado só porque “sim” ou por retaliação e porque todos têm culpas no cartório: Partidos, Governo, Deputados, Comunicação Social, Escolas, Massa Associativa, Agentes Culturais, etc. – por descurarem a formação, o esclarecimento, a divulgação.
Por outro lado, as aspirações do votante só podem ser integralmente satisfeitas se a formação política em que votou ganhar a maioria dos mandatos ou se, pelo menos, obtiver uma representação significativa no universo do órgão. É por isso que se fala, por vezes do voto útil, diferente do voto fútil, apregoado nesta campanha por alguns a alguns! Não é lícito subestimar os adversários e os eleitores. E o labéu era para ambos.                    
E para o direito à abstenção se revestir de eficácia como tomada de posição política, era necessário que o abstencionista comparecesse na mesa de voto e declarasse a abstenção à boca das urnas e esta fosse registada, como acontece nas votações dos órgãos colegiais. Aliás, nas eleições autárquicas é conferido ao eleitor a faculdade de se abster à boca das urnas na votação para um ou mais órgãos em causa.
Dizer que pouco se falou da Europa na campanha é demasiado curto. É muito difícil distinguir o que distingue a lógica nacional da lógica europeia, pois as posições dos partidos relativamente às questões nacionais repercutem-se necessariamente na postura que assumirão na Europa e vice-versa, porque na Europa se tomam muitas decisões que implicam o país, dada a transferência de soberania, e porque, para a Europa ter uma voz forte no mundo, é necessária a a lucidez e a força corroborada de cada um dos Estados-membros.
Se intentarmos supinamente na omissão do voto, teremos sempre razões, mas o bem comum postula que nos decidamos a sair do buraquinho de conforto ou a perder uns minutos de praia, clube ou meditação.
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Manuel Carvalho, no Público, opina que a existência da larga maioria de cidadãos que não sabe o nome de nenhum dos candidatos é parte da “atitude demissionária” do eleitorado e, embora haja culpa na campanha e suas circunstâncias, “este distanciamento representa uma forma muito lamentável de ser português”, a do “crítico sistemático de tudo e todos”, a dos “que se gabam de fugir aos impostos, a dos arquitetos e engenheiros de obras feitas ou dos advogados das causas perdidas. Por isso, com justiça, critica “o abstencionismo crónico e deliberado” e preconiza que “não votar sem causa justa é fugir a uma responsabilidade social” e sentencia – e bem – que, se muitos não trocam a praia ou a patuscada pelo direito/dever de votar, “é porque preferem essa forma de ser videirinha que tende a considerar os assuntos nacionais como um problema que não é deles”, pelo que “não merecem a nossa condescendência”. Porém, avisa:
Não basta apontar o dedo. Limpar os cadernos eleitorais, por exemplo, é tarefa que devia ter sido feita e atualizada há muito. Instalar o sistema de voto electrónico tornaria simples o ato de votar. Os políticos e quem governa podem fazer muito mais para travar este flagelo.”.
Mas reconhece que “todos fizeram questão de chamar a atenção para o que está em causa”.
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Outro problema é o dos eleitores jovens cujo desinteresse é preocupante.
Cerca de 114 mil jovens (dados do INE) capacitaram-se, este ano, para votar por terem atingido a maioridade. Porém, não se sabe se cumprem esse dever e exercem esse direito ou não.
Natália Faria, do Público, vê-os “matraqueados com a ideia de que não terão emprego nem reforma”, “preocupados ‘com a ideia de sobrevivência’ e desenganados em relação aos partidos”. Se alguns garantem que não abdicam de votar nestas eleições, tendo até já escolhido o partido, ainda que não saibam de cor o nome do cabeça de lista, outros há que não se tinham decidido, por não estarem muito a par do assunto, e outros que decidiram não votar, e pronto.
Margarida Gaspar de Matos, coordenadora em Portugal do estudo da Organização Mundial de Saúde sobre a adolescência, diz que “não é estupidez nem desinteresse”, mas “é porque estão desenganados em relação aos partidos e não estão para perder tempo com uma estrutura que não lhes dá nada”. Ora, a meu, isso é fugir à questão e desculpar a irresponsabilidade.  
É verdade que, nas europeias de 2014, apenas votaram 19% dos jovens portugueses com idades entre os 18 e os 24 anos, o que resulta em 81% de abstencionistas nesta faixa etária. Porém, os eleitores mais adultos não têm autoridade para recriminação, pois, em termos gerais, a abstenção ultrapassou os 66%. E, segundo as previsões, desta feita, só 3% dos jovens portugueses entre os 15 e os 24 anos declararam ser provável irem votar – alegadamente por o voto não alterar nada (33%) e pela desconfiança no sistema político (30%).
Uma estudante que se preparava para integrar a franja dos que foram às urnas, tendo acompanhando alguns debates televisivos (caso excecional em relação aos da sua idade) e apontando como positiva “a transversalidade das preocupações com o clima”, lamentava:
Gostava de ter ouvido falar da igualdade de género, étnica, e também em termos de orientação sexual, porque estas eleições podiam ser uma oportunidade de a Europa marcar uma posição, sobretudo agora que os Estados Unidos estão a retroceder no tempo”.
Esta centena de milhar de jovens que pode votar agora pela primeira vez insere-se na geração Z, a que não sabe viver sem o smartphone no bolso e, segundo os sociólogos que lhes estudaram os estilos de vida, trata-se de jovens realistas, pragmáticos, focados em si próprios, que “não leem jornais, não integram associações”, são pouco contestatários, vão aos mesmos concertos que os pais e imitam-nos nos valores. Ora, apesar de não caber ao sociólogo a avaliação do mérito, devo dizer que esta situação atitudinal e comportamental é deveras preocupante. De que valores se fala? Namoro do telemóvel? Diversão em concertos? Resignação? Ninguém nos veio dar de bandeja emprego, casamento, bem-estar. E a generalização da mesada não é antiga… e quem é que teve garantido emprego e reforma? Alguns escolhem o partido em que votam por influência dos pais, predominantemente regida por valores atreitos ao tradicionalismo. Que valores!
A psicóloga Margarida Gaspar de Matos, já referida, assinala diferenças relativamente à geração anterior, a dos millenials, explicitando que “apanharam com a crise aquando da entrada na adolescência: “em vez de amores, sonhos, viagens, ouviram falar de gente deprimida, crise, desemprego”. E, percebendo que os pais “não eram tão invulneráveis” como pensavam, adquiriram “um pragmatismo que não é suposto terem”. Por conseguinte:   
São hoje miúdos sem grandes ideias ou sonhos, sem uma visão hedónica da vida. São inteligentes, aplicados. Vejo-os muito aflitos com as notas – competitivos até –, não porque queiram ser melhores do que os outros, mas porque sabem que só haverá lugar para alguns.”.
É caso para questionar onde está a solidariedade que a família e a escola deveriam ensinar?
Acho esquisito como psicólogos e sociólogos se resignam à resignação dos jovens. O sociólogo Elísio Estanque diz que para estes jovens “o mundo laboral tornou-se imprevisível, instável e precário por definição”. E Margarida Gaspar aponta que “eles estão todos convencidos de que não terão reforma”.
Estanque, assacando culpas aos dirigentes, atira:
As instituições tradicionais da democracia representativa deixaram que se instalasse a ideia de que a democracia era um estado natural de vida, que estava madura e consolidada. (…) Cabe às estruturas partidárias, principais responsáveis pelos velhos clichés ‘do dirigismo partidário e dos jogos de poder’ a tarefa de reverter a imagem negativa e suja que a política ganhou.”.
Entretanto, uma jovem, cujos pais a habituaram a discutir política, repara:
Os jovens perderam noção do valor que tem o facto de termos liberdade para votar. Se vivemos em democracia, alguém fez com que isso acontecesse. Mas nas escolas não se aposta muito neste tipo de mensagem.”.
Porém, um jovem de 20 anos e que desperdiçou a oportunidade de votar nas autárquicas de 2017, assume que também em dia de eleições não se desligará do YouTube para ir às urnas, porque não está “dentro desse mundo”, só ouve falar “nas dívidas e no dinheiro”, não vê televisão nem lê jornais, está “mais, tipo, no computador”, “não conhece os partidos e muito menos sabe enquadrá-los à esquerda ou à direita”.
Isto é, além de iliteracia política e cívica, misantropia. E os psicólogos descuram esta doença?
Estanque aduz que “os velhos critérios ideológicos têm pouco significado para esta geração”, pois os jovens identificam-se “com os valores do ambiente e do combate a uma indústria excessivamente corrosiva, as desigualdades, a ausência de oportunidades”.
Ora bolas! Mas isso só se consegue através de intervenção política ativa e solidária, que postula o voto, a crítica e a associação, mas não o braço dado com o computador ou o telemóvel. 
Margarida Gaspar pensa que, “se sentirem que podem ter voz, estes jovens são motiváveis” (Então porque não os motivam?), pois o alheamento juvenil não é em relação ao mundo mas “aos partidos que veem como uma coisa para gente crescida e desinteressante”. Embora os partidos tenham culpa por se autoenredarem no aparelho e formarem de forma enviesada as juventudes partidárias, isso não iliba os professores (Que é feito da formação cívica e da educação para a cidadania?) e psicólogos da responsabilidade da séria educação para o mundo da política, em detrimento de tantas fantochadas que povoam a escola e a sociedade.  
Margarida Gaspar identifica como problema o facto de não termos descoberto nenhum novo figurino para a democracia e discorre:
Nós gastámos a galinha dos ovos de ouro sem conseguir fazer passar a relevância da organização partidária aos jovens. Portanto, o perigo advém de não termos uma alternativa trabalhada para lhes propor.”.
Estanque adverte que, sem novas soluções à vista, a democracia vai-se aguentado “com maiorias eleitas por menos de 10% dos eleitores” e, entre os jovens que votam essas maiorias, elas são aqui e ali escolhidas com a ajuda de algoritmos. E o jovem Pedro Melo, por exemplo, diz que, a votar, se apoia num questionário na Internet que tem umas trinta questões de escolha múltipla e que, no final, dá uma estatística sobre em quem estamos mais inclinados a votar. Eu também vi esse questionário paupérrimo e confesso que o meu perfil indicava uma formação partidária em que nunca votei.  
Para Estanque, devia ser mais escrutinado o papel das redes sociais no comportamento dos jovens que as têm “como prolongamento do corpo”, pois, numa altura em que a relação com os media digitais é incontornável, falta saber a que ponto o volume de informação tão vasto e tão disperso a que acedem se pode tornar paralisante”.
O politólogo Carlos Jalali fala do “efeito de habituação”, referindo:
O voto é um hábito que se ganha nas primeiras eleições em que a pessoa pode votar e, se a pessoa não ganha esse hábito, não é mais tarde que o vai adquirir”.
Mas descarta o voto obrigatório, “porque mata o mensageiro, no sentido em que a abstenção também nos diz algo sobre a vitalidade dos sistemas democráticos”.
O politólogo entende que deve a escola incluir uma disciplina de cidadania de implicações práticas e sugere uma lotaria para eleitores a modo de orçamento participativo, “sendo que as propostas não podem ser em interesse próprio”. A lógica é semelhante a um Euromilhões, mas, em vez de os jogadores, na semana em que jogam, “mesmo sabendo que as probabilidades de ganhar são escassas”, se porem a conjeturar hipóteses de mudança de vida em caso de ganho (‘E se eu ganhasse? Deixava de trabalhar?’), deveriam conjeturar: ‘E, se eu ganhar, o que é que vou propor’? E conclui que gerar “esta reflexão nas pessoas já é uma forma de mobilização”.
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A democracia não é um dado adquirido nem um figurino único nem a inventar. É obra a construir, obra de todos e a convocar muitas sinergias. Há que para ela reorientar os adultos, educar os jovens e afinar as estruturas partidárias, de governança e de administração.   
2019.05.26 – Louro de Carvalho

domingo, 14 de abril de 2019

A mundanidade espiritual é a mais pérfida tentação a ameaçar a Igreja


Disse-o, citando Henri de Lubac, o Papa Francisco na homilia da Missa do Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor, a que presidiu na Praça de São Pedro.
No início da celebração, o Pontífice deslocou-se ao centro da Praça, junto ao obelisco de origem egípcia que ficava no antigo circo romano – onde morreu, crucificado de cabeça para baixo por não se considerar digno de morrer como o Mestre, o Apóstolo Pedro – e ali abençoou as palmas e os ramos de oliveira. Depois da proclamação de apropriada perícopa do Evangelho de Lucas (Lc 19,28-40), presidiu à procissão para o altar, situado em frente à fachada da Basílica, para a celebração da Missa.
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Na homilia sublinhou a notória contradição entre “as aclamações da entrada em Jerusalém e a humilhação de Jesus”, os clamores de júbilo e festas seguidos do encarniçamento feroz a exigir a crucifixão do Senhor. E vincou a necessidade de, animados pelo Espírito Santo, obtermos o que se pede na oração: acompanhar com fé o caminho do Salvador e ter presente o ensinamento da sua Paixão “como modelo de vida e de vitória contra o espírito do mal”. Com efeito, o Senhor ensina atitudinalmente “como enfrentar os momentos difíceis e as tentações mais insidiosas, guardando no coração uma paz que não é isolamento”, mas abandono confiante nas mãos do Pai e entrega à sua vontade de salvação, de vida, de misericórdia. Apesar de se ver, em toda a sua missão (“desde o início, nos 40 dias no deserto, até ao fim, na Paixão”), “assaltado pela tentação de ‘fazer a sua obra’, escolhendo Ele o modo e desligando-Se da obediência ao Pai”, Jesus repele tal ideia-força e obedece confiadamente ao Pai.
Acentuou o Papa:
Agora, o príncipe deste mundo tinha uma carta para jogar: a carta do triunfalismo. Mas o Senhor respondeu permanecendo fiel ao seu caminho, o caminho da humildade.”.
E vincou:
O triunfalismo procura tornar a meta mais próxima por meio de atalhos, falsos comprometimentos. Aposta na subida para o carro do vencedor. O triunfalismo vive de gestos e palavras, que não passaram pelo cadinho da cruz; alimenta-se da comparação com os outros, julgando-os sempre piores, defeituosos, falhados... Uma forma subtil de triunfalismo é a mundanidade espiritual, que é o maior perigo, a mais pérfida tentação que ameaça a Igreja (Henri de Lubac). Jesus destruiu o triunfalismo com a sua Paixão.”.
E, frisando que Jesus Se alegrou com a iniciativa do povo e com os clamores dos jovens que gritavam o seu nome, aclamando-O Rei e Messias, a ponto de retorquir a quem desejava calá-los, que, se eles se calassem, gritariam as pedras (cf Lc 19,40), Francisco realça que “humildade não significa negar a realidade, e Jesus é realmente o Messias, o Rei”. Não obstante, segundo o Pontífice, o coração de Cristo estava no caminho santo que só Ele e o Pai conhecem, o que vai da ‘condição divina’ à de servo, pois, “sabe que, para chegar ao verdadeiro triunfo, deve dar espaço a Deus; e, para dar espaço a Deus, só há um modo: o despojamento, o esvaziamento de si mesmo”, e “com a cruz, não se pode negociar: abraça-se ou recusa-se”. Ora, pela humilhação, Ele “quis abrir-nos o caminho da fé e preceder-nos nele”. E, neste sentido da precedência de Cristo no caminho da fé, o Santo Padre evocou o percurso de sua Mãe, Maria, a primeira discípula, enfatizando que “a Virgem e os santos tiveram de padecer para caminhar na fé e na vontade de Deus”. E explicitou, citando São João Paulo II, Enc. Redemptoris Mater, 17:
No meio dos acontecimentos duros e dolorosos da vida, responder com a fé custa ‘um particular aperto do coração’. É a noite da fé. Mas, só desta noite é que desponta a aurora da ressurreição. Ao pé da cruz, Maria repensou as palavras com que o Anjo Lhe anunciara o seu Filho: ‘Será grande (...). O Senhor Deus vai dar-Lhe o trono de seu pai David, reinará eternamente sobre a casa de Jacob e o seu reinado não terá fim’ (Lc 1,32-33). No Gólgota, Maria depara-Se com o desmentido total daquela promessa: o seu Filho agoniza numa cruz como um malfeitor. Deste modo o triunfalismo, destruído pela humilhação de Jesus, foi igualmente destruído no coração da Mãe; ambos souberam calar. [E], precedidos por Maria, incontáveis santos e santas seguiram a Jesus pelo caminho da humildade e da obediência.”.
Depois, em Dia Mundial da Juventude, lembrando os inúmeros santos e santas jovens, especialmente os de ‘ao pé da porta’, pediu aos jovens que não se envergonhem de manifestar o seu entusiasmo por Jesus, “gritar que Ele vive, que é a vossa vida”, e que não tenham medo “de O seguir pelo caminho da cruz”. E exortou-os ao seguimento de Jesus na total confiança no Pai:
Quando sentirdes que vos pede que renuncieis a vós mesmos, que vos despojeis das próprias seguranças confiando-vos completamente ao Pai que está nos céus, então alegrai-vos e exultai! Encontrais-vos no caminho do Reino de Deus.”.
Salientando que Jesus vence mesmo a tentação de responder, de ser ‘mediático’, observou:
Nos momentos de escuridão e grande tribulação, é preciso ficar calado, ter a coragem de calar, contanto que seja um calar manso e não rancoroso. A mansidão do silêncio far-nos-á aparecer ainda mais frágeis, mais humilhados, e então o demónio ganha coragem e sai a descoberto. Será necessário resistir-lhe em silêncio, ‘conservando a posição’, mas com a mesma atitude de Jesus.”.
Com efeito, para Francisco, a guerra entre Deus e o príncipe deste mundo não se trava empunhando a espada, mas permanecendo calmos, firmes na fé. Sendo a hora de Deus, a “hora em que Deus entra na batalha, é preciso deixá-Lo agir” e “o nosso lugar seguro será sob o manto da Santa Mãe de Deus”. E o Pontífice desafia todos os crentes cristãos:
Enquanto esperamos que o Senhor venha e acalme a tempestade (cf Mc 4, 37-41), com o nosso testemunho silencioso e orante, demos a nós mesmos e aos outros a ‘razão da esperança que está em [nós]» (1Pe 3,15). Isto ajudar-nos-á a viver numa santa tensão entre a memória das promessas, a realidade do encarniçamento palpável na cruz e a esperança da ressurreição.”.
***
Da mensagem homilética de Francisco, o Vatican News destaca a evidência da mundanidade espiritual como forma subtil de triunfalismo a constituir “o maior perigo, a mais pérfida tentação que ameaça a Igreja”; a destruição do triunfalismo por Jesus com a Paixão”; o convite aos jovens, nesta Jornada Mundial da Juventude a nível diocesano, a não terem vergonha de manifestarem o seu entusiasmo por Jesus.
Depois, sobressai a antítese entre a carta do triunfalismo, jogada pelo maligno, o príncipe deste mundo, e o caminho da humildade com que o Senhor respondeu, o seu caminho, e em que permanece fiel. E, sendo verdade que Jesus aceitou a iniciativa do povo e se alegrou com os gritos dos jovens, o seu coração estava no caminho ditado pelo desígnio do Pai, o caminho da humilhação até à morte e morte de cruz, num silêncio impressionante, só interrompido pelas tradicionalmente conhecidas como as sete palavras de Jesus no alto da cruz:
- Pai, perdoa-lhes porque eles não sabem o que fazem (Lc 23,34).
- Ámen te digo: hoje mesmo estarás comigo no Paraíso (Lc 23,43).
- Mulher, Eis aí o seu filho...[ao discípulo]: Eis aí tua mãe... (Jo 19,26.27).
- Meu Deus, meu Deus, para que me desamparaste? (Elí, Elí, lama sabacthani? – Mt 27,46; ou Eloí, Eloí, lama sabacthani? – Mc 15,34).
- Tenho sede (Jo 9,28).
- Está consumado (Jo 19,30).
- Pai, em tuas mãos entrego meu espírito (Lc 23,46).
Referindo que Jesus sabe dar espaço a Deus e que, para tanto, se exige o despojamento, o esvaziamento de si mesmo, o Mestre soube e quis abrir-nos o caminho da fé e preceder-nos nele”, no que foi acompanhado pela Mãe e por muitos santos e santas, o Papa sublinhou que “no Gólgota, Maria se deparou com a aparente negação total daquela promessa davídica da anunciação: o seu Filho agoniza numa cruz como um malfeitor. Mas destruiu assim, o triunfalismo.
Por fim, explica o teor o triunfalismo no dizer do Papa:
O triunfalismo procura tornar a meta mais próxima por meio de atalhos, falsos comprometimentos. Aposta na subida para o carro do vencedor. O triunfalismo vive de gestos e palavras, que não passaram pelo cadinho da cruz; alimenta-se da comparação com os outros, julgando-os sempre piores, defeituosos e falhos...”.
E reitera: “Uma forma subtil de triunfalismo é a mundanidade espiritual, que é o maior perigo, a mais pérfida tentação que ameaça a Igreja. Jesus destruiu o triunfalismo com a sua Paixão”.
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Celebrou-se também, neste domingo, a 34.ª Jornada Mundial da Juventude. Ora, as JMJ são realizadas anualmente no âmbito diocesano, no Domingo de Ramos. Este ano, o tema da Jornada Mundial da Juventude diocesana é “Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38). A esse propósito o Papa disse na homilia:
Queridos jovens, não tenhais vergonha de manifestar o vosso entusiasmo por Jesus, gritar que Ele vive, que é a vossa vida. Mas, ao mesmo tempo não tenhais medo de segui-lo pelo caminho da cruz. E, quando sentirdes que Ele vos pede que renuncieis a vós mesmos, para vos despojardes das próprias seguranças confiando completamente no Pai que está nos céus, então alegrai-vos e exultai! Vós estais no caminho do Reino de Deus.”.
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À recitação da oração mariana do Angelus, no final da Missa celebrada na Praça São Pedro, o Papa saudou todas as pessoas que participaram na celebração eucarística e também as que a acompanharam pelos meios de comunicação. Ademais, quis estender a sua saudação pastoral a todos os jovens que hoje, em torno dos seus bispos, celebram a Jornada da Juventude em todas as dioceses do mundo e convidou-os a todos a rezarem pela paz e a tornarem suas e viverem quotidianamente as indicações da recente Exortação Apostólica Christus vivit, fruto do Sínodo que também envolveu muitos dos jovens seus coetâneos. Com efeito, segundo o Pontífice, cada um deles “pode encontrar inspirações fecundas para a sua vida e caminho de crescimento na fé e no serviço aos  irmãos”.
Também Francisco ofereceu aos fiéis, na Praça São Pedro, um Terço de madeira de oliveira feito na Terra Santa para a Jornada Mundial da Juventude no Panamá, em janeiro passado, e para este Domingo de Ramos. E considerou:
No contexto deste domingo, quis oferecer a todos vós reunidos na Praça de São Pedro, um Terço especial. As contas desse Terço de madeira de oliveira foram feitas na Terra Santa expressamente para o Encontro Mundial da Juventude no Panamá, em janeiro passado, e para o Dia de Hoje. Por isso, renovo o meu apelo aos jovens e a todos a que rezem o Terço pela paz, especialmente pela paz na Terra Santa e no Oriente Médio.”.
Por fim, o Papa pediu à Virgem Maria que nos ajude a viver bem a Semana Santa.
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Na verdade, é conveniente que a vivência desta semana nos torne mais discípulos, mais amigos do Senhor, mais irmãos dele e uns dos outros e mais apóstolos no sentido de que a proposta de salvação chegue a toda a gente, sobretudo na promoção de mais liberdade e dignidade para todos os seres humanos independentemente do credo que professem, da cor étnica de que são portadores, da condição social que lhes bateu à porta e da filiação ou da independência política em que fazem questão de se abrigar. Porque o Senhor veio para que tenhamos vida e a tenhamos em abundância. E nós somos vocacionados para este serviço à vida, à dignidade e à liberdade de todos e de cada um. Sem isto, não há fraternidade e a igualdade estará cada vez mais distante.
Temos, pois, que ser contemplativos e ativos num doseamento adequado às nossas reais possibilidades e às necessidades dos outros.
2019.06.14 – Louro de Carvalho

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Tenham a ousadia de construir uma vida política verdadeiramente humana


Foi um dos apelos deixados pelo Papa Francisco no discurso que proferiu no encontro com as autoridades, corpo diplomático e representantes da sociedade civil, no passado dia 24 de janeiro, no Palácio Bolívar – Ministério das Relações Exteriores (Panamá).
Confesso que me apraz ler os discursos do Pontífice neste tipo de encontros com as referidas entidades, porque juntamente com a videomensagem que antecede habitualmente as suas viagens apostólicas, além de deixar explícitos o objetivo geral e o objetivo circunstancial do evento, tece, fundado na Historia e Geografia do país respetivo, um conjunto de considerações sobre a boa construção da sociedade. Por outras palavras, é o momento mais político da sua estada num país, o que não sucedeu, por exemplo, quando veio a Fátima: vinha como peregrino, não vinha em visita de Estado.
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O insigne visitante saudou o povo panamense, que abriu as portas de casa ao Bispo de Roma e a tantos jovens vindos dos quatro cantos do mundo, esforço incalculável de todos, de Darién até Chiriqui e Bocas del Toro.   
Depois, evocou o significado simbólico do local histórico onde começou a sua peregrinação, o mesmo local onde Simon Bolívar “afirmou que, ‘se o mundo tivesse de escolher a sua capital, para este augusto destino teria assinalado o istmo do Panamá’, e convocou os líderes coevos a fim de forjar o sonho da unificação da Pátria Grande”.
Considerando que tal convocação é inspiradora por ajudar a compreender a capacidade destes povos em “criar, forjar e, sobretudo, sonhar uma pátria grande que saiba e possa acolher, respeitar e abraçar a riqueza multicultural de cada povo e cultura”, afirma que se pode olhar o Panamá como uma terra de convocação e de sonho.
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Para assinalar o Panamá como terra de convocação, o Pontífice escuda-se na memória do que pensava o Congresso Anfictiónico e no facto da “chegada de milhares de jovens” que trazem consigo o desejo e a vontade do encontro e da celebração.
Com efeito, “pela sua localização privilegiada”, o país “constitui um ponto estratégico” para a região e para o mundo inteiro. O país mais estreito do continente americano, sendo “ponte entre os oceanos e terra natural de encontros” (está sobre um istmo e tem ao canal), apresenta-se como sinal e instrumento da “sustentabilidade” nascida da “capacidade de criar vínculos e alianças” configuradora do “coração do povo panamense”.
Assegurando que, ocupando cada um dos presentes e dos demais cidadãos “um lugar especial na construção da nação” e sendo “chamado a assegurar que a mesma cumpra a sua vocação de terra de convocação e de encontros”, Francisco considera que isto “requer decisão, empenho e trabalho diário” para que todos os habitantes do território se sintam” atores do seu próprio destino, das suas famílias e de toda a nação”. Por isso, requer-se a “participação ativa” de cada membro da nação “para que a dignidade seja reconhecida e garantida através do acesso a uma instrução de qualidade e à promoção dum trabalho digno”, realidades que, juntas (instrução e trabalho), ajudam “a reconhecer e valorizar a genialidade e o dinamismo criativo deste povo” e compaginam “o melhor antídoto” contra qualquer tutela limitadora da liberdade, subjugante ou transcurante “da dignidade dos cidadãos, especialmente dos mais pobres”.
E Francisco vê a genialidade do país espelhada na riqueza dos seus povos nativos, que enumera: Bribri, Buglé, Emberá, Kuna, Nasoteribe, Ngäbe e Waunana – que “muito nos têm a dizer (…) a partir da sua cultura e visão de mundo” – pois, na ótica papal, é “um sinal de esperança” o facto de esta Jornada Mundial da Juventude ter começado, há uma semana, com a “Jornada dos jovens dos povos indígenas” e a “Jornada dos jovens de descendência africana”. De facto, assinala o Papa, “ser terra de convocação” postula “celebrar, reconhecer e escutar” o específico de “cada um destes povos e de todos os homens e mulheres que compõem a fisionomia panamense”, sabendo “tecer um futuro aberto à esperança”. Na verdade, só “a firme decisão de partilhar com justiça os próprios bens” capacita para a defesa do bem comum “acima dos interesses de poucos” ou evitar que a ação se ponha “ao serviço de poucos”.
E não deixou de fazer uma substanciosa referência aos jovens, que, na sua “alegria e entusiasmo”, na sua “liberdade, sensibilidade e capacidade crítica”, exigem aos adultos, sobretudo àqueles que detêm “um papel de liderança na vida pública”, “uma conduta conforme à dignidade e autoridade de que estão revestidos e que lhes foi confiada”, o que implica “viver com austeridade e transparência, na responsabilidade concreta pelos outros e pelo mundo” e levar uma vida que demonstre o serviço público como “sinónimo de honestidade e justiça contrapondo-se a qualquer forma de corrupção”. Efetivamente, “os jovens exigem um empenhamento, em que todos – a começar por quantos se dizem cristãos – tenham a ousadia de construir uma vida política verdadeiramente humana (GS, 73), que coloque a pessoa no centro como coração de tudo”. E o Papa, mencionando a oração que os panamenses fazem pela Pátria – “Dai-nos o pão de cada dia: que o possamos comer na nossa casa e com a saúde digna de seres humanos” – sustenta que a política verdadeiramente humana impele à criação de “uma cultura de maior transparência entre os governos, o setor privado e toda a população.
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Assinalando que o Panamá é terra de sonhos, Francisco acentua que, nestes dias, o país será efetivamente apontado como “centro da região ou ponto estratégico para o comércio e para o trânsito de pessoas”, mas, sobretudo, ”transformar-se-á numa ‘confluência’ de esperança”, porque é “ponto de encontro” para jovens dos cinco continentes, que, “cheios de sonhos e esperanças”, celebram, reúnem, rezam e reavivam “o desejo e o compromisso de criar um mundo mais humano”. Nesta perspetiva, crê o Pontífice:
Desafiarão as visões míopes de curto alcance que, seduzidas pela resignação, pela ganância, ou prisioneiras do paradigma tecnocrático, creem que o único caminho possível passa pelo ‘jogo da competitividade’, da especulação ‘e da lei do mais forte, onde o poderoso engole o mais fraco’ (Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium, 53), fechando o futuro a uma nova perspetiva para a humanidade”.
Assim, prossegue o Papa Bergoglio, o Panamá, ao hospedar os sonhos destes jovens, “torna-se terra de sonhos” a desafiar “muitas certezas do nosso tempo” e a criar “horizontes vitais que conferem uma nova espessura ao caminhar com uma visão nova, respeitosa e cheia de compaixão para com os outros”. E fica definido o rumo: “seremos testemunhas da abertura de novos canais de comunicação e compreensão, de solidariedade, criatividade e ajuda mútua – canais à medida do homem que deem impulso ao compromisso e quebrem o anonimato e o isolamento, tendo em vista um novo modo de construir a história”.
Porque se vislumbra outro mundo”, “os jovens convidam-nos a envolver-nos na sua construção”, para que os sonhos não sejam efémeros ou etéreos, mas impulsionem “um pacto social” em que “todos possam ter a oportunidade de sonhar um amanhã: o direito ao futuro também é um direito humano”. E, a propósito, Francisco cita Patria de mis amores, de Ricardo Miró, quando cantava à sua pátria tão amada: “Porque vendo-te, ó pátria, se diria / que te formou a vontade divina / para que sob o sol que te ilumina / se unisse em ti a humanidade inteira”.
Por fim, releva todo o esforço feito para que este encontro fosse possível, deseja a todos os mais venturosos votos de renovada esperança e alegria no serviço do bem comum e roga a Santa Maria La Antigua, de cuja Catedral vai dedicar o altar, que abençoe e proteja o Panamá.
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Na videomensagem que Francisco enviou à pré-jornada mundial, ou seja, ao encontro mundial da juventude indígena de 17 a 21 de janeiro, em Soloy, Ngäbe-Bugle, Diocese de David, no Panamá, recorda o que dissera aos voluntários após a JMJ de Cracóvia: “Tomamos a memória do nosso passado para construir a esperança, com coragem”. E felicita os participantes por terem escolhido tal apelo como lema daquele encontro, por ser a primeira vez que se realiza uma pré-jornada específica para jovens de povos indígenas, de povos indígenas em todo o mundo – uma louvável iniciativa da Secção Pastoral Indígena da Conferência Episcopal do Panamá, apoiada pelo CELAM e que proporciona a reflexão sob a égide do lema selecionado e a celebração da “fé em Jesus Cristo a partir da riqueza milenar das próprias culturas originais”. 
Assim, exorta aqueles jovens a constituírem “uma oportunidade para responder ao convite feito aos jovens em outros momentos” a serem “gratos pela história dos seus povos e corajosos face aos desafios que os cercam para avançarem cheios de esperança na construção de outro mundo possível”. Enfim, é preciso voltar às culturas de origem, assumir as raízes, porque delas advém a força que nos fará “crescer, florescer e dar frutos”. Além disso, é um momento propício a mostrar “o rosto indígena” da Igreja e “afirmar o nosso empenho em proteger a Casa Comum e colaborar na construção dum mundo mais justo e mais humano”. Por outro lado, os temas que são objeto da reflexão juvenil incentivam à busca de respostas, em leitura evangélica, a tantas “situações escandalosas de marginalização, exclusão, descarte e empobrecimento a que milhões de jovens, especialmente jovens dos povos originários, são condenados no mundo”. E a ação sob a consciência de pertença será o antídoto conta a cultura do descarte e do esquecimento das raízes rumo a um futuro líquido e volátil, sem base de sustentabilidade.
E o Papa recorda-lhes o dito dum poeta “tudo que a árvore tem de flor, vem do que está enterrado”, para incitar aqueles jovens à valorização das suas raízes, do seu sentido de pertença e da sua capacidade de construir o seu futuro.  
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Em suma, o líder da Igreja Católica reconhece a posição estratégica e a função de ponte deste pequeno país e encara-o como inspiração para convocação das diversidades e para albergue da capacidade de sonhar; e entende que todos e cada um são pedras vivas para a construção da nação em prol do bem-estar de todos na lógica da conceção e prática duma política verdadeiramente humana com vista à construção dum mundo mais justo, mais harmonioso e mais fraterno. Saúda o encontro mundial das juventudes indígenas em antecâmara da JMJ; apela à consciência de pertença e valorização das raízes contra a cultura do empobrecimento, da exploração e do descarte; e propõe o regresso às raízes, o fortalecimento da capacidade da defesa comum do planeta, a construção duma sociedade harmoniosa e mais justa e a perspetivação dum um futuro assente em bases sustentáveis.   
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Porque Francisco o mencionou quase no início do seu discurso, deixa-se a seguinte informação sobre o Congresso Anfictiónico do Panamá. Idealizado por Simón Bolívar, que, desde a Carta da Jamaica, de 1815, desejava articular uma confederação hispano-americana, realizou-se de 22 junho a 5 de julho de 1826, com a participação dos representantes do México, da Federação Centro-Americana, da Grã-Colômbia (Colômbia, Venezuela, Equador) e do Peru (incluindo então, a Bolívia). Enviaram observadores a Grã-Bretanha e os Países Baixos. Porém, registou-se a ausência dos demais países independentes no continente: Argentina, Chile, Paraguai, Uruguai, Brasil, Estados Unidos da América e Haiti. O próprio Bolívar, que propusera o encontro, não compareceu, por se encontrar como interventor no Peru, à frente duma força de 6.000 homens da Colômbia, onde ficou até setembro de 1826.
Como resultado, os delegados estabeleceram: uma confederação das repúblicas hispânicas, com o objetivo de defesa comum, solução pacífica de conflitos e preservação da integridade dos territórios dos estados-membros; a abolição do tráfico de escravos africano; o contingente dos efetivos militares, no Exército e na Marinha – uma força interamericana –, buscando um equilíbrio entre as forças dos estados-membros e a defesa comum dos seus povos; e a fixação bianual das futuras reuniões do congresso a realizar em tempos de paz ou de guerra, tendo Símón ajudado na constituição da UNASUL (União de Nações Sul-Americanas).
A preocupação dos signatários, recém-emancipados à época, era com uma possível intervenção da Espanha visando a recolonização, considerando as futuras emancipações de Porto Rico e de Cuba, bem como o fortalecimento conjunto frente a outras nações, como os EUA e o Brasil.
Devido às rivalidades entre os países e à oposição dos Estados Unidos, que não desejavam a formação dum sistema de estados federados na América do Sul, os acordos só foram ratificados pela Grande Colômbia e não tiveram consequências efetivas.
Ainda hoje assim acontece: boas intenções teóricas e timidez na aplicação prática. Falta coragem aos decisores para a fraternidade solidária e tendencialmente universal!
2019.01.28 – Louro de Carvalho

sábado, 26 de janeiro de 2019

“Beber da fonte de água que dá a vida eterna”


No quadro da sua viagem apostólica ao Panamá a fim de acompanhar a XXXIV Jornada Mundial da Juventude e no terceiro dia desta JMJ, Francisco celebrou a Santa Missa com a dedicação do altar da Catedral Basílica Santa Maria La Antigua, acabada de restaurar, com a presença de numerosos Sacerdotes, Consagrados e Movimentos Leigos. Trata-se do ato de libertar esta antiga diocese do mero estatuto de diocese antiga, que alguns pretendiam transformar em título para bispo auxiliar, a fim de a acoplar à diocese do Panamá, como temos em Portugal Bragança-Miranda, Portalegre e Castelo Branco ou Leiria-Fátima, ficando Santa Maria La Antigua como Concatedral.
Francisco, como refere Jane Nogara a partir da Cidade do Vaticano, iniciou a sua homilia comentando um trecho do Evangelho de João (Jo 4, 6-7) em que se refere que Jesus, “cansado da caminhada, sentou-Se, sem mais, na borda do poço. Era por volta do meio-dia”. Entretanto, chegou uma samaritana para tirar água, a quem Jesus pediu: “Dá-Me de beber”.
O Pontífice partiu do facto de Jesus, cansado de caminhar, ter precisado de aplacar e saciar a sede e recuperar as forças para continuar a sua missão de “levar a Boa-Nova aos pobres, curar os corações feridos, proclamar a libertação aos cativos e consolar os que sofriam”. E aplicou o episódio de Jesus na história da sua vida pública à vida do mundo de hoje – em que todas as situações de cansaço “são situações que nos tolhem a vida e a energia” – ousando dizer:
“O Senhor cansou-Se e, nesta fadiga, encontra lugar tanto cansaço dos nossos povos e da nossa família, das nossas comunidades e de todos aqueles que estão cansados e oprimidos” (cf Mt 11,28).
De facto, o Papa fala de uma situação que “parece ter-se instalado nas nossas comunidades”, que tem muitas causas e motivos – uma “espécie subtil de cansaço, que nada tem a ver com o cansaço do Senhor”. É o “cansaço da esperança”, que não deixa avançar e nem olhar para diante. Como se tudo ficasse confuso” e “pondo em questão as forças, os recursos e a viabilidade da missão neste mundo que não cessa de mudar e interpelar”. “É um cansaço paralisador” e que põe “em dúvida, a própria viabilidade da vida religiosa no mundo de hoje” – disse o Pontífice, que vincou:
O cansaço da esperança nasce da constatação de uma Igreja ferida pelo seu pecado e que, muitas vezes, não soube escutar tantos gritos nos quais se escondia o grito do Mestre: ‘Meu Deus, porque me abandonaste?’ ”.
Ora, isso faz com que se instale um pragmatismo cinzento no coração das nossas comunidades” dando espaço a “uma das piores heresias do nosso tempo: pensar que o Senhor e as nossas comunidades não têm nada para dizer nem dar a este mundo novo em gestação”. E, “então aquilo que um dia nasceu para ser sal e luz do mundo acaba por oferecer a sua versão pior”.
Por isso, devemos ter a ousadia, como Jesus, de pedir “Dá-me de beber” para recebermos daquela “fonte de água que dá a vida eterna” para voltar, sem medo, ao poço originário do primeiro amor, quando Jesus se cruzou connosco no nosso caminho, nos olhou com misericórdia e pediu que O seguíssemos” – miserando et eligendo (o lema episcopal deste Papa) – e “nos fez sentir que nos amava, e não só pessoalmente mas também como comunidade”.
Com efeito, a imploração “Dá-Me de beber” significa “recuperar a parte mais autêntica dos nossos carismas fundacionais – que não se limitam apenas à vida religiosa, mas se estendem a toda a Igreja – e ver as modalidades em que se podem expressar hoje” (…) e “significa reconhecer-se necessitado de que o Espírito nos transforme em homens e mulheres memoriosos de uma passagem, a passagem salvífica de Deus”. Só assim “a esperança cansada será curada”, pronta para retomar a missão com a força de Jesus – assegura o Papa latino-americano.
Por fim, Francisco falou da reabertura da Catedral depois de longo tempo de restauração: “uma Catedral espanhola, índia e afro-americana torna-se, assim, Catedral panamenha, dos panamenhos de ontem, mas também dos de hoje que a tornaram possível”. E, garantindo que “já não pertence só ao passado, mas é beleza do presente”, o Pontífice apelou a que não deixemos alguma vez “que nos roubem a beleza herdada dos nossos pais” e que “seja ela a raiz viva e fecunda que nos ajuda a continuar a fazer bela e profética a história da salvação” aqui e agora.
Esta Catedral a partir de hoje torna a ser um espelho do modo como age o Senhor: é, de novo, “um regaço que impele a renovar e nutrir a esperança, a descobrir como a beleza de ontem pode tornar-se base para construir a beleza de amanhã”.
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Como o Senhor, também os discípulos experimentaram e experimentam hoje em si próprios o que significa a dedicação e disponibilidade do Senhor para levar a Boa-Nova aos pobres, curar os corações feridos, proclamar a libertação aos cativos e dar a liberdade aos prisioneiros, consolar quem estava de luto e proclamar um ano de graça para todos (cf Is 61,1-3; Lc 4,18-19). Pobreza, cativeiro, feridas luto tanto podem tolher a energia como podem constituir desafios. E, na ótica de desafio, muitos discípulos de hoje (como os de então) presenteiam-nos com tantos momentos importantes na vida do Mestre em que podemos encontrar uma palavra de Vida, porque Ele é a Vida e veio para que tenhamos a vida e a tenhamos em abundância.
Diz o Papa que, “para a nossa imaginação, sempre em movimento”, “é fácil contemplar e entrar em comunhão com a atividade do Senhor”, mas, por vezes, custa-nos não sabermos ou não podermos contemplar e acompanhar as fadigas do Senhor, como se estas não se apropriassem à sua condição divina. Mas, porque o Senhor Se cansou, é-nos lícito sentir o cansaço e procurar lenitivo em quem no-lo pode dar, o próprio Senhor manso e humilde de coração, que nos incita:
Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, que Eu aliviar-vos-ei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração e encontrareis descanso para o vosso espírito. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve.” (Mt 11,28-30).  
Francisco, apesar da impossibilidade de as abranger a todas, especificou muitas situações de fadiga nos sacerdotes, nos consagrados e consagradas, nos membros dos movimentos laicais: as longas horas de trabalho, que deixam pouco tempo para comer, descansar e estar com a família; as ‘tóxicas’ condições laborais e afetivas, que levam ao esgotamento e desgastam o coração; a simples dedicação diária; o peso rotineiro de quem já não sente gosto ou não encontra reconhecimento e apoio para enfrentar as exigências de cada dia; as situações complicadas já habituais e previsíveis até aos momentos urgentes e angustiantes de pressão – um complexo de pesos a suportar. E frisou que todas as situações nos quebrantam a vida fazem emergir “a necessidade urgente de encontrar um poço onde se possa aplacar e saciar a sede e o cansaço do caminho; todas clamam, num “grito silencioso”, por “um poço donde começar de novo”.
Este poço vem obviar ao cansaço e à sede, pois, saciando a nossa sede, retempera-nos as forças.   
Não é só o cansaço “de quem, ao fim do dia, apesar de quebrantado pelo trabalho, consegue mostrar um sorriso sereno e agradecido”, mas também o “que surge quando o sol, no pino – como sugere o Evangelho –, dardeja a pique os seus raios, tornando as horas insuportáveis”, fazendo-o “com tal intensidade que não deixa avançar nem olhar para diante, como se tudo ficasse confuso”, o “cansaço que nasce ao olhar o futuro” ou quando a realidade nos cai em cima “pondo em questão as forças, os recursos e a viabilidade da missão neste mundo, que não cessa de mudar e interpelar”.
Diz o Papa que este cansaço paralisador “nasce de olhar para frente e não saber como reagir face à intensidade e incerteza das mudanças que estamos atravessando como sociedade”, que parecem pôr em causa “as nossas modalidades de expressão e compromisso, os nossos hábitos e atitudes ao enfrentar a realidade” e questionam “a viabilidade da vida religiosa no mundo atual”.
Porém, temos que vigiar e orar para não nos habituarmos “a viver com uma esperança cansada perante o futuro incerto e desconhecido”, porque isso tende a instalar “um pragmatismo cinzento no coração das nossas comunidades”, fazendo com que pareça que tudo continua “dentro da normalidade”, mas induzindo, na verdade, a fé a deteriorar-se e a degenerar. E, dececionados com uma realidade que não compreendemos ou em que pensamos “não haver lugar para a nossa proposta”, podemos dar guarida de cidadania a uma das piores heresias do nosso tempo: o vazio da vida cristã e apostólica, consentindo em que a luz do mundo e o sal da terra que somos chamados a ser possam vir a ter por destino, respetivamente, a extinção ou o lançamento ao lixo.
Como a Samaritana, “não queremos aplacar a sede com uma água qualquer, mas com aquela “fonte de água que dá a vida eterna” (Jo 4,14). Como ela, deveremos, pois, ter a ousadia de pedir: Senhor, dá-me dessa água, para eu não ter sede, nem ter de vir cá tirá-la” (Jo 4,15). E diz o Papa Francisco:
Como bem sabia a Samaritana que, desde há anos, carregava cântaros vazios de amores falidos, também nós sabemos que não é qualquer palavra que pode ajudar a recuperar as forças e a profecia na missão, nem é qualquer novidade, por mais sedutora que pareça, que pode aliviar a sede. Sabemos, como ela bem sabia, que nem mesmo o conhecimento religioso e a justificação de certas opções e tradições, passadas ou presentes, nos tornam sempre fecundos e apaixonados ‘adoradores (…) em espírito e verdade’.” (Jo 4,23).
Depois, entenderemos que a solicitação de Jesus à Samaritana “Dá-Me de beber” ficará a ser para nós a abertura da “porta da nossa esperança cansada para voltar, sem medo, ao poço originário do primeiro amor, quando Jesus passou pelo nosso caminho”, o retorno dos nossos passos a, “na fidelidade criativa, escutar que o Espírito não criou uma obra particular, um plano pastoral ou uma estrutura para ser organizada, mas, através de tantos ‘santos ao pé da porta’ – entre os quais encontramos padres e madres fundadores dos vossos Institutos, bispos e párocos que souberam colocar bases sólidas nas suas comunidades –, deu vida e respiração a um determinado contexto histórico que parecia sufocar e esmagar toda a esperança e dignidade”.
A solicitação “Dá-Me de beber” constituirá para nós a coragem da purificação e da recuperação da “parte mais autêntica dos nossos carismas fundacionais – que não se atingem apenas a vida religiosa, mas toda a Igreja” – e da visão das “modalidades em que se podem expressar hoje”, olhando “com gratidão o passado”, indo “à procura das raízes da sua inspiração” e deixando que ressoem novamente com força entre nós”. Significa aceitar a necessidade de o Espírito nos transformar em pessoas memoriosas da passagem salvífica de Deus, ajudando-nos a viver o presente, a viver a vida com a paixão de nos sentirmos comprometidos com a história, imersos nas coisas. E a esperança cansada será curada e gozará do ‘particular aperto do coração’, quando não tiver medo de, voltando ao primeiro amor, encontrar, nas periferias e desafios de hoje, “o mesmo cântico, o mesmo olhar que suscitou o cântico e o olhar dos nossos pais”.
Grande Papa em espiritualidade sacerdotal, consacral e laical!
2019.01.26 – Louro de Carvalho

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Uma Igreja que se coloca à escuta buscando respostas


É um bom ponto de partida para ensinar esta postura que se respira, quer na aula sinodal, quer nos seus bastidores. Presente na Sala de Imprensa da Santa Sé no briefing do dia 8, o auditor Thomas Leoncini (de 33 anos), escritor, estudioso de modelos psicológicos e sociais, expressou satisfação pelo encontro sinodal, que manifesta a vontade de escuta da Igreja, não se limitando à “simples tomada de consciência”, mas buscando “respostas radicais”, pois, como referiu, o Sínodo não se dirige somente aos jovens católicos, mas também aos ateus, agnósticos”, a todos “aqueles jovens que buscam uma esperança e um futuro” nestas sociedades “líquidas”.
No mesmo briefing Dom Charles Scicluna, Padre sinodal e Arcebispo metropolitano de Malta, destacou os temas que surgiram até então durante o Sínodo: a solidariedade entre as gerações, a contribuição das mulheres na missão da Igreja, a questão das migrações e da sexualidade, bem como a da santidade. E, assegurando que “sem justiça não se pode viver”, apontou que, no caso dos abusos, “buscar a verdade é essencial”.
Respondendo aos jornalistas credenciados, o prelado disse que o escândalo dos abusos sexuais, que figura no parágrafo 66 do  “Instrumentum laboris (Instrumento de trabalho) é fonte de “vergonha”, sobretudo porque “a maior parte das vítimas é constituída de jovens, com feridas infligidas por quem deveria curá-las” e que é preciso elevar o “nível de responsabilidade”. Porém, advertiu que a “justiça não deve tomar para si um tempo exagerado” e que o Papa sofre com esta morosidade, embora consciente do tempo necessário da “jurisdição civil”. E insistiu, atendendo à fraqueza humana, no facto de que “todos precisamos de misericórdia”, mas que “a misericórdia é vazia se não respeita a verdade e a justiça”.
Evocando o encontro realizado no Vaticano entre os dias 21 a 24 de fevereiro de 2019, para discutir a proteção dos menores e a prevenção aos abusos, disse da importância de ir à “raiz” do problema, sendo que o “ministério deve ser um serviço e não um abuso de poder”. Por fim, recordou aqueles muitos sacerdotes “santos” que trabalham e “confiam no Senhor”, frisando que “a santidade é o encontro entre a fraqueza do homem e a misericórdia de Deus”.
Durante o briefing o Padre sinodal e Bispo auxiliar de Lyon, Dom Emmanuel Gobilliard, tendo presente também os temas que surgiram até então durante o Sínodo, declarou que “todo o jovem é chamado à felicidade, à santidade, ao encontro com Cristo”. E, recordando as recomendações de Francisco aos bispos, afirmou que o ser humano “deve ser acolhido em sua complexidade e não encerrado numa simples identidade”, ou seja, deve “ser substantivo e não adjetivo”.
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Por sua vez, o Cardeal Dom Lorenzo Baldisseri, secretário-geral do Sínodo, deu entrevista sobre a 1.ª fase da Assembleia que se concluiu no dia 9, em que afirmou: “queremos dar espaço suficiente aos jovens, seja na Igreja, seja na sociedade e no mundo da política e da economia”.
As três fases do Sínodo correspondem às partes do Instrumentum Laboris, a referência da Assembleia por conter a síntese de testemunhos, reflexões e demandas provenientes de diferentes partes do mundo. A 1.ª parte do Documento de Trabalho foi de reconhecimento, com a Igreja “escutando” a realidade, como explica o Cardeal Baldisseri:
Este é o momento em que os Padres apresentam os relatórios ao público, porque já estão efetivamente publicados a todos os círculos menores, entre os grupos de trabalho. E já temos uma ideia de como os Padres são concernentes e profundamente incluídos no assunto que estamos trabalhando, através dos modos e emendas do texto-base, do Instrumentum Laboris, muito importantes e eficazes.”.
A 2.ª fase de interpretação, como esclareceu Dom Baldisseri, será feita por uma comissão de integração do Instrumentum Laboris, inicialmente de caráter provisório, mas fundamentalmente para ver como os Padres Sinodais interpretam o texto-base, pois todos os procedimentos do Sínodo estão regulamentados com vista a facilitar os debates e a troca de opiniões, de modo que emerja a voz das Igrejas espalhadas pelo mundo ao refletir a atual realidade juvenil. E vincou:
Estamos dentro deste grande tema que é global e não como uma forma, mas uma indicação substancial da realidade de hoje em que os jovens, infelizmente, não têm espaço. Nós queremos dar espaço suficiente seja na Igreja, seja na sociedade e no mundo da política e da economia. Esses jovens, como consequência, não veem um futuro. E nós queremos dar-lhes esperança.”.
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Nos círculos menores, evidencia-se a ideia dos jovens como sismógrafo da realidade e protagonistas da Igreja, dizendo os Padres sinodais, em nome da necessidade de uma Igreja empática, em diálogo, que “os jovens devem ser valorizados”. E desenvolvem:
A sua participação ativa na vida eclesial deve ser promovida e relançada, o seu compromisso deve ser bem aproveitado numa perspetiva de verdadeira sinodalidade, para que sejam protagonistas, com responsabilidade, de processos e não de eventos individuais. Deste modo, eles serão evangelizadores de seus coetâneos.”.
Em 14 sínteses, 6 línguas e um tema, “a escuta”, se articula o trabalho dos Círculos Menores centrado na 1.ª parte do Instrumentum Laboris a afirmar a necessidade duma Igreja empática, em diálogo, que evite autorreferencialidade e preconceitos e evidencie pontos sobre a credibilidade do testemunho. Com efeito, sendo “sismógrafo da realidade, os jovens são Igreja”, como reitera o Sínodo. Por isso, é preciso oferecer-lhes com alegria as razões para viver e esperar, evitando moralismos e mostrando que a vida é a resposta à vocação que Deus dá a cada um de nós, pois, “no fundo, a vida é bonita porque tem sentido” e, sendo os jovens capazes de tomar decisões, “é preciso ajudá-los a tomar decisões a longo prazo”.
Os Círculos menores detêm-se detalhadamente sobre o tema da cultura digital, rica de luz, mas também de sombras, como aumento do sentimento de solidão, risco duma atitude compulsiva para com a “cultura da tela”, duma “demência digital” que implica a incapacidade de concentração e compreensão de textos complexos, duma “migração virtual” que leva os jovens para um mundo próprio, às vezes fruto da invenção. Aí, a presença da Igreja é essencial para os acompanhar, advertindo-os que a internet deve ser usada, mas sem que sejam usados, e sendo de recordar que muitos jovens “não conectados” vivem em áreas rurais sem internet.
Também o tema dos abusos também foi examinado pelos 14 Círculos menores como escândalo que ameaça a credibilidade da Igreja e deve ser abordado de forma profunda, reconquistando a confiança dos fiéis, sem se esquecer o que já foi feito pela Igreja para combater e prevenir esse crime e evitar outras faltas catastróficas. É importante ajudar os sobreviventes dos abusos a encontrar o caminho do perdão e da reconciliação. Por outro lado, sublinha-se a necessidade duma articulação melhor da questão da sexualidade, que deve ser enfrentada com clareza e humanidade, sem negligenciar a linguagem teológica.
O olhar da Sala Sinodal dirige-se ao tema da migração (que afeta  muitos jovens) como o paradigma do interesse que os jovens dedicam ao compromisso da Igreja no campo da justiça e da política, pelo que urge uma pastoral adequada ao setor e um envolvimento conjunto das Conferências Episcopais afetadas diretamente por esse fenómeno. Daí se infere a necessidade de defender a causa do migrante internacionalmente criando canais de legalidade e segurança e a importância de promover oportunidades nos países de proveniência e nos de acolhimento, não devendo ser esquecidas as pessoas deslocadas e os migrantes internos, bem como os perseguidos e martirizados em muitas áreas do mundo.
Os Padres sinodais enfrentam o tema da formação e da educação – sólida, interdisciplinar e integral. E, evocando a relevância das escolas e universidades católicas, que devem ser valorizadas e não instrumentalizadas, para que possam formar os jovens na fé e na vida cristã, reiteram que o ensino é uma das principais tarefas da Igreja e que, muitas vezes, ante fenómenos como o fundamentalismo e a intolerância, a resposta melhor está na promoção duma educação para o respeito e para o diálogo inter-religioso e ecuménico. A formação passa também através do desafio duma pastoral familiar adequada que ajude na transmissão da fé entre as várias gerações, pois, atualmente, segundo os participantes no Sínodo, “a família está a passar por uma fase de crise, devido à sua desestruturação e ao enfraquecimento da figura paterna”. Os adultos, em geral, muito jovens e individualistas, não ajudaram a perceção da Boa Nova entre os adolescentes. Ora, é responsabilidade de todo fiel acompanhar os jovens ao encontro pessoal com Jesus, porque a juventude se constrói com base no que recebe na família. Por isso, a Igreja, “família de famílias”, deve oferecer-lhes uma verdadeira experiência familiar, na qual se sintam acolhidos, amados, cuidados e acompanhados em seu crescimento, desenvolvimento integral e realização de seus sonhos e esperanças. E, como afirma o Sínodo, a formação correta também diz respeito aos pastores. Na verdade, é necessário um novo estilo de vida sacerdotal e são necessários bispos que saibam acompanhar de forma competente os jovens, porque parecem faltar, no momento, estratégias pastorais eficazes, capazes de se confrontar com o secularismo e com a globalização, que apresenta oportunidades para conciliar modernidade e tradição. No fundo, a Igreja, mãe e mestra, deve ser escola de ensino para cada jovem, superando a falta de sintonia entre ela e os adolescentes.
Além disso, de vários Círculos surge a proposta de que do Sínodo saia uma mensagem aos jovens e que tenha um estilo narrativo adequado para lhes transmitir a esperança cristã com palavras proféticas que relatam o olhar de Deus sobre a juventude. Nesta ótica, é também sugerido o uso de multimédia, a fim de se dirigir aos jovens não apenas com um texto escrito, mas também com vídeos e imagens.
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Também o Cardeal Fernando Filoni, Prefeito da Congregação para a Evangelização dos Povos, sublinhando que “a dinamicidade dos jovens é riqueza para a Igreja”, afirmou, aos microfones de Rádio Vaticano, Itália, numa pausa dos trabalhos desta XV Assembleia Geral ordinária:
É importante que o mundo inteiro, não somente a Igreja, mas também por exemplo a política, considere com atenção a questão sobre que mundo estamos a deixar aos nossos jovens. Como diz o Papa, os jovens não devem deixar-se aprisionar, devem permanecer livres, em busca, seguir adiante.”.
Prosseguindo, disse:
Faço votos para que deste Sínodo saia uma imagem do mundo juvenil como mundo de busca, sempre predisposto à abertura espiritual, interior, psicológica e moral. Jovens abertos às novidades que não se contentam com realidades predefinidas e que se tornarão adultos conscientes e responsáveis.”.
Considerando a índole da juventude, afirmou:
Os jovens não são uma categoria estática: há uma dinamicidade, porque quem é jovem move-se, no espaço de poucos anos torna-se maduro e carrega consigo esta riqueza. Esta dinâmica da abertura é um grande valor e, se o Sínodo conseguir valorizá-la, já será um grande fruto.”.
Tendo em conta que os jovens como “realidade dinâmica” indubitavelmente “obrigam a Igreja a repensar-se a si mesma” e não tendo nós fórmulas que valham para todos, questionou-se de qual juventude falamos. Com efeito, “se falamos da fase entre os 14 os 16 anos, estamos a falar de adolescentes” – uma “fase muito diferente da fase da juventude propriamente dita, entre os 25 e 28 anos”, mas “depois há uma fase intermédia”. E inferiu:
Em suma, não se pode falar genericamente de jovens, caso contrário corre-se o risco de dizer coisas que são corretas para uma faixa de idade e não para outra. Por exemplo, no campo da formação.”.
Admitindo que aos 29 anos um jovem já recebeu a formação e está à procura de trabalho, enquanto aos 16 ainda está em processo de busca ou desorientado, entende que não se podem considerar os jovens “como uma realidade compacta,” mas que se devem “compreender as várias exigências”. Assim, não é a mesma coisa falar sobre os jovens da África, da Ásia ou da Europa. É falar de quase dois biliões de pessoas. E, prosseguindo, disse
Os expoentes das Conferências Episcopais que se pronunciaram no Sínodo trouxeram diferentes experiências. Temos jovens como os do contexto africano que participam muito na vida da Igreja. Em outros contextos, ao invés, esta realidade é muito mais problemática.”.
Depois, no quadro do realismo que lhe assiste, verificou:
O mundo juvenil sempre teve dificuldade em se integrar na Igreja ou em responder de modo completo. Tivemos respostas extraordinárias em muitos casos, em muitos grupos […]. Mas o mundo juvenil, por si, é sempre uma realidade que tende a distanciar-se. Distancia-se da família, da sociedade tradicional, distancia-se também da Igreja. Pensar que o afastar-se, o distanciamento espontâneo dos jovens seja uma realidade somente eclesiológica é, a meu ver, equivocado.”.
Entendendo a realidade psicossocial do afastamento juvenil, concluiu:
É o próprio jovem que, em seu processo de busca, se questiona sobre como estar dentro da Igreja, sobre como ser Igreja. São fases típicas da busca juvenil que depois, por vezes, retornam em períodos sucessivos da maturidade, até mesmo muito mais lá adiante. O entusiasmo juvenil, talvez momentaneamente adormecido, muitas vezes retorna com uma maturidade e sabedoria inesperadas.”.
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E, no âmbito concreto da lusofonia, são de destacar as seguintes posições:
Dom Gilson Andrade da Silva, Bispo coadjutor de Nova Iguaçu (Rio de Janeiro), falando da interação lusófona nos círculos menores a demonstrar a pluralidade da juventude, frisou:
Isso favorece uma amplidão de vista sobre a situação, um olhar maior sobre a realidade. O bonito também é perceber que entre todos os bispos, naquele grupo de língua portuguesa existe uma paixão comum, que é a paixão pela evangelização da juventude.”.
E Dom Gabriel MBILINGI, Arcebispo do Lubango, em Angola, e Presidente do Simpósio das Conferências Episcopais de África e Madágascar (SECAM), em entrevista ao Vatican News, referiu o contributo específico dos jovens do continente africano para este Sínodo e para o futuro da Igreja em geral, falando duma Igreja jovem e viva, Igreja fundamentalmente formada por jovens que carateriza a África, apesar dos diferentes contextos, “uma Igreja, enfim, em que os jovens participam na vida da Igreja, apesar das dificuldades por que passam”.
E, sobre o Sínodo, acentuou o seu caráter “fundamentalmente de escuta e em que os jovens são protagonistas” e cuja metodologia se distingue dos anteriores pela presença de jovens (mais de trinta, de todos os Continentes) nas Congregações gerais. Salientou que, “depois de cada cinco intervenções, o Papa introduziu um momento de silêncio para os Padres Sinodais interiorizarem o que acabam de ouvir”, configurando assim um convite à renovação da própria Igreja e uma chamada à conversão dos Padres Sinodais, para lá dos próprios jovens.
E evocou a sessão de encontro e festa com os jovens no sábado no dia 6 de outubro em que, além de testemunhos comoventes, os jovens apresentaram questões ao Santo Padre e aos Padres Sinodais, que serão integradas nos trabalhos dos círculos menores.
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Um Sínodo multicolor realista, mas carregado de esperança!
2018.10.10 – Louro de Carvalho