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quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

A 4 de fevereiro de 2019, o diálogo inter-religioso marcou o dia do Papa


O decurso do dia
Na tarde do dia 4, realizou-se o ato central da visita do Papa a Abu Dhabi, capital dos Emirados Árabes Unidos (EAU): o Encontro Inter-religioso no Founder’s Memorial, uma conferência global sobre a fraternidade humana, em que Francisco pronunciou o seu primeiro discurso.
Nesse dia, dedicado ao diálogo inter-religioso, após celebrar a missa no Palácio Al Mushrif, onde pernoitou na sua estada em Abu Dhabi, o Pontífice dirigiu-se, para a cerimónia de boas-vindas, ao Palácio Presidencial, onde foi acolhido pelo príncipe herdeiro, Xeque Mohammed bin Zayed Al Nahyan. Executados os hinos e apresentadas as delegações, os dois líderes reuniram-se em privado, após o que o Pontífice regressou ao Palácio Al Mushrif para o almoço.
O príncipe herdeiro, filho do Xeque Zayed bin Sultan Al Nahyan, considerado o “pai da nação” e primeiro presidente dos Emirados Árabes Unidos, é irmão do Xeque Khalifa bin Zayed Al Nahyan, presidente dos Emirados Árabes Unidos.
Na parte da tarde, ocorreu o encontro privado com os membros do Conselho Islâmico dos Anciãos na Grande Mesquita do Xeque Zayed, tendo o Papa sido recebido pelo Grande Imame de al-Azhar, Ahmad al-Tayeb, que já visitou duas vezes o Papa no Vaticano e o acolheu na sua viagem apostólica ao Egito.
O Conselho, uma organização internacional independente, com sede em Abu Dhabi, promove a paz nas comunidades islâmicas, reúne estudiosos, especialistas e dignitários muçulmanos estimados pelos princípios de justiça, independência e moderação. Os membros dedicam uma atenção especial aos conflitos internos das comunidades muçulmanas e às causas que as originam, com a finalidade de defender os valores humanitários e os princípios de tolerância do Islão em oposição ao sectarismo e à violência.
Da Mesquita, o Papa dirigiu-se para o grande evento do dia e motivo da sua viagem: o Encontro Inter-religioso no Founder’s Memorial.
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Apreciação do trabalho desenvolvido neste dia
No final do Encontro Inter-religioso, procedeu-se à assinatura da Declaração conjunta sobre a “Fraternidade Humana para a paz mundial e a convivência comum”, que o diretor interino da Sala de Imprensa da Santa Sé, Alessandro Gisotti, considera a indicação dum “caminho de paz e reconciliação” por parte de Francisco e do Grande Imame de Al-Azhar ou “um passo de grande importância no diálogo entre cristãos e muçulmanos e um poderoso sinal de paz e esperança para o futuro da humanidade”. Na declaração de Gisotti, lê-se:
O Documento é um apelo vibrante a responder ao mal com o bem, a fortalecer o diálogo inter-religioso e a promover o respeito mútuo para bloquear o caminho daqueles que sopram no fogo do conflito de civilizações”.
Alessandro Gisotti, frisando que Francisco e Al-Tayyib “indicaram juntos um caminho de paz e reconciliação em que podem caminhar todos os homens de boa vontade, não apenas cristãos e muçulmanos”, define o documento como “corajoso e profético”, por enfrentar (chamando-os pelos nomes) os temas mais urgentes do nosso tempo, sobre os quais quem acredita em Deus é exortado a questionar a própria consciência e a assumir com confiança e decisão a sua responsabilidade de dar vida a um mundo mais justo e solidário”. “Com palavras inequívocas (continua o diretor interino da Sala de Imprensa da Santa Sé), o Papa e o Grande Imam advertem que “ninguém está autorizado a instrumentalizar o nome de Deus para justificar a guerra, o terrorismo e qualquer outra forma de violência”. E reiteram que “a vida deve sempre ser preservada como devem ser plenamente reconhecidos os direitos das mulheres, rejeitando qualquer prática discriminatória contra elas”. E Gisotti salienta, no quadro da convicção de que “promover a cultura não é utopia”:
Diante de uma humanidade ferida por tantas divisões e fanatismos ideológicos, o Pontífice e o Grande Imame de Al-Azhar mostram que promover a cultura do encontro não é uma utopia, mas a condição necessária para viver em paz e deixar às gerações futuras um mundo melhor do que aquele em que vivemos”.
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Segundo o jornalista italiano Andrea Tornielli, 800 anos depois do encontro entre São Francisco de Assis e o sultão al-Malik al-Kāmil, o Papa que leva o nome do santo de Assis apresentou-se aos “irmãos muçulmanos” como um “cristão sedento de paz”. E, juntamente com o Grande Imame de Al-Azhar, assinou uma Declaração destinada a marcar não só a história das relações entre o Cristianismo e o Islão, mas também a própria história do mundo islâmico. Francisco, inventor da expressão “guerra mundial em pedaços”, com esta viagem e este gesto, insere-se no rumo traçado pelos seus antecessores, dando um passo a mais.
Já São João Paulo II, a partir do encontro de Assis em 1986 (quando sobre o mundo pairava a ameaça nuclear que, infelizmente, se pressente hoje), envolveu líderes religiosos a reiterar que as religiões devem promover a paz, a coexistência, a fraternidade. Depois de 11 de setembro de 2001, quando o fundamentalismo terrorista voltou à cena internacional de forma violenta, o Pontífice polaco fez todos os esforços para extirpar das justificações religiosas o abuso do nome de Deus a justificar a violência, o terrorismo e a morte de homens, mulheres e crianças inocentes. E Bento XVI percorreu a mesma rota ao longo do seu pontificado. Em setembro de 2006, o Papa Ratzinger disse aos líderes dos países muçulmanos:
É necessário que, fiéis aos ensinamentos das suas próprias tradições religiosas, cristãos e muçulmanos aprendam a trabalhar juntos, como já se verifica em diversas experiências comuns, para evitar qualquer forma de intolerância e se opor a todas as manifestações de violência”.
Desta feita, Francisco assinou um documento em que se rejeita firmemente qualquer justificação para a violência cometida em nome de Deus e são feitas declarações importantes e vinculativas sobre o Islão e certas interpretações do mesmo. Assim constituem um forte empenho as palavras relativas ao respeito pelos fiéis de diferentes religiões, à condenação de toda e qualquer discriminação, à necessidade de proteger todos os locais de culto e ao direito à liberdade religiosa, bem como ao reconhecimento dos direitos das mulheres. E é significativa a ênfase de uma das raízes mais profundas do terrorismo niilista, que deriva de interpretações erróneas de textos religiosos, mas também duma “deterioração da ética, que condiciona a ação internacional, e um enfraquecimento dos valores espirituais e do senso de responsabilidade”. Tais elementos favorecem a frustração e o desespero, “levando muitos a cair no turbilhão do extremismo ateu e agnóstico, ou no fundamentalismo religioso, extremismo e fundamentalismo cego”.
Ocidente e Oriente, fiéis de diferentes religiões que se reconhecem como irmãos – declaram o Bispo de Roma e o Grande Imame de Al-Azhar – podem ajudar-se mutuamente na tentativa de evitar que a guerra mundial em pedaços se deflagre em todo o seu poder destrutivo.
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A Declaração conjunta
O “Documento sobre a fraternidade humana pela paz mundial e a convivência comum”, assinado, na tarde do dia 4, por Francisco e o Grão Imame de Al-Azhar Ahmad Al-Tayyib, não é apenas um passo fundamental nas relações entre o Cristianismo e o Islão, mas representa também uma mensagem com um forte impacto no cenário internacional. No prefácio, depois de ter afirmado que “A fé leva o crente a ver no outro um irmão a ser ajudado e amado”, fala-se do texto como “um documento elaborado com sinceridade e seriedade” a convidar “todas as pessoas que carregam no coração a fé em Deus e a fé na fraternidade humana a unirem-se e a trabalharem juntas”. Abre com uma série de invocações: o Papa e o Grão Imame falam “em nome de Deus que criou todos os seres humanos iguais nos direitos, nos deveres e na dignidade”, em nome da inocente alma humana que Deus proibiu de matar, “Em nome dos pobres, dos “órfãos e das viúvas, dos refugiados e dos exilados, de todas as vítimas das guerras e “das perseguições. Al-Azhar e a Igreja Católica declaram adotar a cultura do diálogo como caminho, a colaboração comum como conduta e o conhecimento recíproco como método e critério. E explicitam em plangente exortação:
Pedimos a nós mesmos e aos líderes do mundo, aos artífices da política internacional e da economia mundial, que se empenhem seriamente em difundir a cultura da tolerância, da convivência e da paz, que intervenham, quanto antes, para deter o derramamento de sangue inocente e acabar com as guerras, os conflitos, a degradação ambiental e o declínio cultural e moral que vive o mundo de hoje.
Os dois líderes pedem aos homens de religião e de cultura, além dos meios de comunicação, que redescubram e difundam “os valores da paz, da justiça, do bem, da beleza, da fraternidade humana e da convivência comum”. E verificam:
Entre as causas mais importantes da crise do mundo moderno há uma consciência humana anestesiada e o afastamento dos valores religiosos assim como o predomínio do individualismo e das filosofias materialistas.
Embora reconheça os passos positivos feitos pela civilização moderna, a Declaração destaca “a deterioração da ética, que condiciona a ação internacional, e um enfraquecimento dos valores espirituais e do sentido de responsabilidade, que leva muitos a “cair na voragem do extremismo ateu e agnóstico, ou no integralismo religioso, no extremismo e no fundamentalismo cego. Efetivamente, o extremismo religioso e nacional, juntos com a intolerância “deram origem aos sinais de uma ‘terceira guerra mundial em pedaços.
E o Papa e o Grão Imame afirmam sobre a má distribuição dos recursos naturais:
As fortes crises políticas, a injustiça e a falta de uma distribuição equitativa dos recursos naturais – dos quais se beneficia apenas uma minoria de ricos, prejudicando a maioria dos povos da terra – geraram, e continuam a fazê-lo, um grande número de doentes, de necessitados e de mortos, causando crises letais das quais são vítimas vários países. … Diante de tais crises que levam a morrer de fome milhões de crianças já reduzidas a esqueletos humanos – por causa da pobreza e desnutrição –, reina um silêncio internacional inaceitável..
Apontam a essencialidade da família e a urgência do despertar do sentido religioso, especialmente nos jovens, “para enfrentar as tendências individualistas, egoístas, conflituais, o radicalismo e o extremismo cego em todas as suas formas e manifestações. E recordam que o Criador nos “concedeu o dom da vida para custodiá-lo” – “um dom que ninguém tem o direito de tirar, ameaçar ou manipular conforme seu agrado”. Por conseguinte, acentuam:
Condenamos todas as práticas que ameaçam a vida como os genocídios, as ações terroristas, os deslocamentos forçados, o tráfico de órgãos humanos, o aborto e a eutanásia e as políticas que sustentam tudo isso.
Além disso, declaram firmemente:
As religiões não incitam nunca à guerra, não solicitam sentimentos de ódio, hostilidade, extremismo, e nem convidam à violência ou ao derramamento de sangue. Essas calamidades são fruto do desvio dos ensinamentos religiosos, do uso político das religiões e também das interpretações de grupos de homens de religião..
Pedem o cessar da instrumentalização das religiões a incitar ao ódio, violência, extremismo e fanatismo cego, o cessar do uso do nome de Deus para “justificar atos de homicídio, exílio, terrorismo e opressão”
Recordam que Deus não precisa de ser defendido por ninguém e não quer que o Seu nome seja usado para aterrorizar as pessoas. E atestam:
A liberdade é um direito de cada pessoa: cada um possui a liberdade de credo, de pensamento, de expressão e de ação. O pluralismo e as diversidades de religião, de cor, sexo, raça e língua são uma sábia vontade divina [de que] vem o direito à liberdade de credo e à liberdade de ser diferentes. Por isso, se condena o facto de constringir as pessoas a aderir a uma certa religião ou a uma certa cultura, como também de impor um estilo de civilização que os outros não aceitam.”.
Em seguida, afirmam: 
A proteção dos lugares de culto - templos, igrejas e mesquitas - é um dever garantido pelas religiões, pelos valores humanos, pelas leis e convenções internacionais. Toda a tentativa de atacar os lugares de culto ou ameaçá-los através de atentados ou explosões ou demolições é um desvio dos ensinamentos das religiões, bem como uma violação clara do direito internacional.”.
E insistem:
O terrorismo execrável que ameaça a segurança das pessoas, tanto no Oriente como no Ocidente... espalhando pânico, terror e pessimismo não se deve à religião – mesmo que os terroristas a instrumentalizem –, mas é devido a acumuladas interpretações erradas dos textos religiosos, às políticas de fome, de pobreza, de injustiça, de opressão e de arrogância. Por isso, é necessário interromper o apoio aos movimentos terroristas através do fornecimento de dinheiro, de armas, de planos ou justificativas e também a cobertura da media, e considerar tudo isso como crimes internacionais que ameaçam a segurança e a paz mundial.”.
O documento sustenta: 
É necessário comprometer-se em estabelecer nas nossas sociedades o conceito de cidadania plena e renunciar ao uso discriminatório do termo minorias, que traz consigo as sementes do sentir-se isolados ou de inferioridade”.
Na Declaração define-se a necessidade indispensável de reconhecer o direito da mulher à educação, ao trabalho e ao exercício dos próprios direitos políticos”, vincando:
Deve-se trabalhar para a libertar das pressões históricas e sociais contrárias aos princípios da própria fé e da própria dignidade. É necessário também protegê-la da exploração… Por isso, devem ser interrompidas todas as práticas desumanas e os hábitos vulgares que humilham a dignidade da mulher e [deve-se] trabalhar para modificar as leis que impedem às mulheres de desfrutar plenamente de seus direitos.”.
Depois de reiterarem o direito das crianças de crescerem num ambiente familiar, à alimentação e educação, os dois líderes afirmam:
É preciso condenar toda prática que viola a dignidade das crianças ou os seus direitosÉ também importante vigiar contra os perigos a que são expostas, especialmente no ambiente digital, e considerar como crime o tráfico de sua inocência e toda violação de sua infância.”.
Enfim, os dois líderes pedem que este Documento se torne objeto de pesquisa e reflexão em todas as escolas, universidades e institutos de educação e formação, esperando que se torne um “símbolo do abraço entre Oriente e Ocidente, entre Norte e Sul.
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O discurso do Papa
No seu discurso, o Bispo de Roma fez votos por que as religiões ajudem a família humana amadurecer itinerários de paz. E disse:
Quanto ao futuro do diálogo inter-religioso, a primeira coisa que devemos fazer é rezar. Rezar uns pelos outros: somos irmãos! As religiões não podem renunciar à tarefa urgente de construir pontes entre povos e culturas.”.
Na linha de condenação de toda a forma de violência, Francisco explicitou o seu objetivo:
De ânimo reconhecido ao Senhor, aproveitei o ensejo do VIII centenário do encontro entre São Francisco de Assis e o sultão al-Malik al-Kamil para vir aqui como fiel sedento de paz, como irmão que procura a paz com os irmãos. Desejar a paz, promover a paz, ser instrumentos de paz: para isto, estamos aqui”.
Disse o Papa que, para salvaguardar a paz, “precisamos de entrar juntos, como uma única família, numa arca que possa sulcar os mares tempestuosos do mundo: a arca de fraternidade”, fundada nas raízes da nossa humanidade comum e sentida como “vocação contida no desígnio criador de Deus” a dizer-nos que “todos temos igual dignidade” e que “ninguém pode ser dono ou escravo dos outros”. Depois, manifestou apreço pelo compromisso dos Emirados Árabes Unidos de “tolerar e garantir a liberdade de culto, contrapondo-se ao extremismo e ao ódio”, sustentando que “a coragem da alteridade”, que a família humana postula para reconhecimento do valor do outro, “é a alma do diálogo, que se baseia na sinceridade de intenções” e que “as religiões não podem renunciar à tarefa urgente de construir pontes entre povos e culturas”, sendo que “a paz precisa das asas da educação e da justiça”.
E Francisco sublinha a importância da oração, que “encarna a coragem da alteridade em relação a Deus”, “purifica o coração de fechar-se em si mesmo” e, se feita com o coração, “é um restaurador de fraternidade”. Neste sentido, facilita, prepara e alimenta o diálogo.
Neste contexto de necessidade de diálogo, o Pontífice assegura:
Não há alternativa: ou construiremos juntos o futuro ou não haverá futuro. De modo particular, as religiões não podem renunciar à tarefa impelente de construir pontes entre os povos e as culturas. Chegou o tempo de as religiões se gastarem mais ativamente, com coragem e ousadia e sem fingimento, em ajudar a família humana a amadurecer a capacidade de reconciliação, a visão de esperança e os itinerários concretos de paz.”.
Mas, para a obtenção da paz, são necessárias as duas asas já apontadas, como se dum avião ou de uma pomba se tratasse: a educação e a justiça. A primeira leva ao conhecimento de si e do irmão, imprime um estilo de vida baseado no amor e esconjurando o ódio, estilo que leva ao desenvolvimento da cultura própria e ao encontro das outras culturas. A segunda tem a sua regra de ouro: O que quiserdes que vos façam os homens, fazei-o também a eles, porque isto é a Lei e os Profetas” (Mt 7,12). E, citando as palavras do profeta Isaías, “A paz será obra da justiça” (Is 32,17), o Papa discorre sobre a estreita relação entre a paz e a justiça:
A paz morre, quando se divorcia da justiça, mas a justiça revela-se falsa se não for universal. Uma justiça circunscrita apenas aos familiares, aos compatriotas, aos crentes da mesma fé é uma justiça claudicante… uma injustiça disfarçada!”.
Aplicando este raciocínio à função das religiões no mundo, observa:
As religiões têm também a tarefa de lembrar que a ganância do lucro torna néscio o coração e que as leis do mercado atual, ao exigirem tudo e de súbito, não ajudam o encontro, o diálogo, a família: dimensões essenciais da vida que precisam de tempo e paciência”.
E faz votos por que
As religiões sejam voz dos últimos – estes não são estatísticas, mas irmãos – e estejam da parte dos pobres; velem como sentinelas de fraternidade na noite dos conflitos, sejam apelos diligentes à humanidade para que não feche os olhos perante as injustiças e nunca se resigne com os dramas sem conta no mundo.”.
Depois, assumindo a imagem do deserto que floresce, considera que o país em que arranha-céus e areia se tocam e se cruzam Ocidente e Oriente, Norte e Sul, é “lugar de desenvolvimento, onde espaços outrora inóspitos proporcionam empregos a pessoas de várias nações”. Mas adverte:
O desenvolvimento também tem os seus adversários. E, se o inimigo da fraternidade é o individualismo, como obstáculo ao desenvolvimento apontaria a indiferença, que acaba por converter as realidades florescentes em áreas desertas.”.
Recordando o 1.º Fórum da Aliança inter-religiosa por Comunidades mais seguras, de Abu Dhabi, sobre o tema da dignidade da criança na era digital, na sequência do Congresso internacional sobre o mesmo tema, em Roma, Francisco frisa ter-se aberto, no deserto, “um caminho de desenvolvimento fecundo que, a partir do trabalho, dá esperança a muitas pessoas de vários povos, culturas e credos”, contribuindo “para o crescimento e bem-estar do país” e para suscitar “a convivência fraterna, fundada na educação e na justiça, e o desenvolvimento humano, construído sobre a inclusão acolhedora e sobre os direitos de todos”, quais “sementes de paz, que as religiões são chamadas a fazer germinar” – contra “a corrida aos armamentos, o alargamento das respetivas áreas de influência, as políticas agressivas em detrimento dos outros” que nunca trarão estabilidade”, que redundam em guerra, miséria e morte.
E Deus, “do céu, abençoa cada passo sobre a terra que se realiza nesta direção”.
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Valeu a pena esta jornada em prol da alteração da situação mundial? Pelo menos o dardo está lançado. Prosit!
2019.02.06 – Louro de Carvalho

quinta-feira, 12 de julho de 2018

Cardeal Tauran, o homem que anunciou Francisco Urbi et Orbi


Ocorreu, no Altar da Basílica de São Pedro, nesta quinta-feira, 12 de julho, às 10,45 horas, a celebração das exéquias por alma e em memória do Cardeal Jean-Louis Tauran, Titular da diaconia de Santo Apolinário nas Termas Neronianas-Alexandrinas. A Liturgia decorreu sob a presidência do cardeal Angelo Sodano, Decano do Colégio Cardinalício, junto com os cardeais, arcebispos e bispos. Além da presença do Papa, também foi notada a presença de Geneviève Dubert, irmã do cardeal, à qual o Pontífice enviou um telegrama de condolências há alguns dias.
No final da celebração eucarística, o Papa Francisco presidiu ao rito da Ultima Commendatio e da Valedictio.
O camerlengo da Santa Igreja Romana e presidente do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-Religiosoícone da promoção do diálogo, que tinha completado 75 anos em abril, faleceu em 5 de Julho em Hartford, nos Estados Unidos, após longa doença. Será sepultado na basílica de Santo Apolinário nas Termas neronianas-Alexandrinas, da qual era titular.
Ao recordar o “inesquecível” cardeal francês, Angelo Sodano disse “foi um irmão” que serviu “corajosamente a Santa Igreja de Cristo”, apesar do “peso da sua doença”.
“No Evangelho, Jesus – explicou Sodano, como refere o Vatican News – recordou-nos quais são as verdadeiras bem-aventuranças do cristão”. Na verdade, “é comovedor ouvir-lhe proclamar estas bem-aventuranças na nossa Igreja: Bem-aventurados os pobres de espírito. Bem-aventurados os mansos, bem-aventurados os puros de coração, bem-aventurados os que promovem a paz”.
E o presidente da Liturgia, frisando que foi “testemunha por muitos anos do grande espírito apostólico do cardeal Tauran”, enfatizou que “são bem-aventuranças que iluminaram toda a vida” do eminente purpurado “como estrelas luminosas no seu caminho”.
Mais o Decano do Sacro Colégio Cardinalício evidenciou que o cardeal Tauran era “uma grande figura” de sacerdote, bispo e cardeal, que “dedicou, como muitos, a sua vida ao serviço da Santa Sé, da Igreja e nos últimos anos particularmente ao diálogo com todos os homens de boa vontade”. Desta maneira, seguiu a linha traçada pelo Concílio Ecuménico Vaticano II no compromisso – segundo a Gaudium et spes – da fraternidade universal (com efeito, todos somos irmãos), a qual nos leva à consciência clara de que, “chamados pela mesma vocação humana e divina”, podemos e devemos cooperar pacificamente, “sem violência, nem engano” na edificação “do mundo na verdadeira paz”.
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Para recordar o cardeal Tauran, o Cardeal espanhol Santos Abril y Castelló, ligado por uma profunda amizade com o cardeal francês, aceitou ser entrevistado por Hélène Destombes, do que se registam as seguintes palavras:
A minha recordação do cardeal Tauran é verdadeiramente uma recordação de amizade e lamentação pelo facto de ele nos ter deixado. Ultimamente, eu via-o evidentemente enfraquecido. Mas mesmo neste período, ele colocava o seu dever em primeiro lugar: o de procurar aproximar as posições com o mundo das outras religiões, especialmente com o Islão. E ele fazia isso com um grande sentido de respeito para com todos, de grande competência e com uma grande capacidade de diálogo, de propor possíveis soluções. Ele fez tudo isso também com grande sacrifício, porque a sua saúde era muito fraca nos últimos tempos: ele percebia que não estava nas condições ideais para continuar o magnífico trabalho que estava fazendo para a Igreja.”.
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É abundante e polifacetada a folha de valorização e serviço que transparece da sua biografia como se pode ver pelo Observador on line, a 6 de julho, e pela  Wikipédia – enciclopédia livre.
O Cardeal Jean-Louis Pierre Tauran, que em 13 de março de 2013, foi encarregado, por ser o cardeal protonotário, de vir à varanda principal da Basílica de São Pedro proclamar o pregão “Annuntio vobis gaudium magnum, Habemus Papam” e dizer, a seguir, o nome do Cardeal Mario Georgio Bergoglio, que assumiu o nome papal de Francisco, nasceu em Bordéus, a 5 de abril de 1943, era o presidente do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso e camerlengo da Câmara Apostólica.
O seu nome de batismo é Louis-Pierre e o prenome é Jean. Recebeu o sacramento da confirmação em 5 de junho de 1955, das mãos de Paul-Marie-André Ricchau, Arcebispo de Paris e futuro cardeal.
Estudou na Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma, onde se licenciou em Filosofia e Teologia e se doutorou, em 1973, em Direito Canónico, e no Instituto Católico de Toulouse. Também estudou na Pontifícia Academia Eclesiástica, em Roma. Além do francês como língua materna, falava correntemente espanhol, inglês e italiano.
Ordenado presbítero, aos 26 anos, em 20 de setembro de 1969, em Bordéus, pelo Arcebispo de Bordéus Marius Maziers – não sem antes ter sido professor num colégio do Líbano, aos 21/22 anos, como forma de cumprir o serviço militar – tornou-se pároco na sua Arquidiocese, após o que ingressou no serviço diplomático da Santa Sé em 1975, passando trabalhar em definitivo para a Cúria Romana. Foi secretário da Nunciatura, na República Dominicana, entre 1975 e 1978 e secretário da Nunciatura no Líbano, entre 1979 e 1983.
Integrou o Conselho para os Assuntos Públicos da Igreja a partir de julho de 1983. Participou em missões especiais no Haiti, de 1984, e Beirute e Damasco, em 1986. Foi membro da delegação da Santa Sé para as reuniões da Conferência sobre Segurança e Cooperação Europeia, Conferência sobre o Desarmamento, em Estocolmo, na Suécia, e no Fórum Cultural em Budapeste, na Hungria, e sucessivas reuniões em Viena.
Eleito Arcebispo-titular de Telepte e nomeado subsecretário da Secretaria de Estado para as Relações com os Estados (tornando-se o titular da secção dois anos depois – uma espécie de ministro das Relações Exteriores do Papa), a 1 de dezembro de 1990, foi-lhe conferida a ordenação episcopal em 6 de janeiro de 1991, na Basílica de São Pedro, por João Paulo II, sendo coordenantes por Giovanni Battista Re, Arcebispo-titular de Vescovio, substituto da Secretaria de Estado, secção de Assuntos Gerais, e Justin Francis Rigali, Arcebispo-titular de Bolsena, secretário da Congregação para os Bispos. Adotou o lema episcopal Veritate et caritate” (Pela verdade e pela caridade).
É naquela função na Secretaria de Estado que Tauran acabou se torna perante do mundo a voz e o rosto da firme oposição do Papa à Guerra do Iraque no início dos anos 2000. Para Tauran, dar início ou não à guerra era fazer “uma escolha entre a força da lei e a lei da força”. E disse:


Nenhuma regra do direito internacional autoriza um ou mais Estados a recorrer unilateralmente ao uso da força para mudar o regime ou a forma do governo de outro Estado com base na alegação, por exemplo, de que possui armamento de destruição em massa”.
Enfrentou, pois, George W. Bush com ferrenha oposição, dialogou com líderes religiosos do mundo todo e foi o responsável por anunciar uma das notícias mais esperadas da última década.
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Criado cardeal-diácono no consistório de 21 de outubro de 2003, recebeu o barrete e a diaconia de Santo Apolinário nas Termas Neronianas-Alexandrinas. Dois dias depois, a 24 de novembro de 2003, foi nomeado Arquivista e Bibliotecário da Santa Igreja Romana, cargo que exerceu até 25 de junho de 2007 e para o qual acabou de ser designado o português Dom José Tolentino de Mendonça, Arcebispo-Titular eleito de Sauva.
Como representante do Papa participou na inauguração do novo Museu do Holocausto  Yad Vashem, a 15 de março de 2005, em Jerusalém. E, nesse mesmo ano, foi o enviado especial do Papa às celebrações centrais do Extraordinário Ano Jubilar da Diocese de Le Puy-en-Velay, na França, ocorrido a 29 de maio, na Basílica Catedral de Notre Dame du Puy. Participou, por nomeação papal, na X Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, na Cidade do Vaticano, de 2 a 23 de outubro de 2005. Nomeado presidente do Conselho Pontifício para o Diálogo Inter-religioso a 25 de junho de 2007, assumiu o cargo em 1 de setembro de 2007.
Este cargo colocava-o na linha da frente do diálogo com o mundo islâmico. Falou várias vezes em defesa dos cristãos nos países muçulmanos e criticou o facto de, em alguns países árabes, os não-muçulmanos serem tratados como cidadãos de segunda.
Esteve recentemente na Arábia Saudita, donde voltou, como se diz adiante, com uma importante conquista para os muitos cristãos – sobretudo expatriados – que vivem naquele reino, nomeadamente o direito a praticarem a sua religião, o que até então lhes estava vedado.
Participou na XII Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, na Cidade do Vaticano, entre 5 a 26 de outubro de 2008, sobre “A Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja”.
Foi o enviado especial do Papa às cerimónias conclusivas do Ano Paulino em 29 de junho de 2009, na Turquia. Participou na II Assembleia Especial para a África do Sínodo dos Bispos, de 4 a 25 de outubro de 2009, na Cidade do Vaticano, sobre o tema “A Igreja na África, ao serviço da reconciliação, da justiça e da paz: Vós sois o sal da terra, você é a luz do mundo”. Foi o enviado especial do Papa para a celebração do milénio da Abadia de Saint-Pierre de Solesmes, na França, ocorrido em 12 de outubro de 2010. Participou na II Assembleia Especial para o Oriente Médio do Sínodo dos Bispos, de 10 a 24 de outubro de 2010, na Cidade do Vaticano, como membro eleito do Conselho Especial para o Oriente Médio da Secretaria Geral do Sínodo dos Bispos, 23 de outubro de 2010. Em 23 de novembro de 2010, ele recebeu o doutoramento honoris causa do Institut Catholique de Paris. Confirmado pelo Papa Bento XVI no ofício do cardeal protodiácono no consistório de 21 de fevereiro de 2011, há vários anos que sofria do que foi diagnosticado como o mal de Parkinson. Apesar disso, a 19 de junho de 2012, foi confirmado por 5 anos como presidente do Conselho Pontifício para o Diálogo Inter-religioso.
Como cardeal-protodiácono foi ele quem anunciou ao mundo a eleição do novo Papa e o seu nome papal, no termo do Conclave de 2013, como foi referido, e impôs o pálio sobre Francisco na inauguração do ministério petrino do pontífice em 19 de março de 2013.
Em 15 de abril de 2013, foi nomeado enviado especial do Papa às celebrações do quarto centenário da chegada do ícone da Virgem Maria em Budslau, na Bielorrússia, ocorrido em 5 e 6 de julho de 2013, no Santuário Nacional, que se encontra no território da Arquidiocese de Minsk-Mohilev. A 26 de junho de 2013, o Papa nomeou-o membro da Pontifícia Comissão Relativamente ao Instituto para as Obras de Religião (Banco do Vaticano). A 24 de agosto de 2013, foi nomeado enviado especial do Papa às celebrações do primeiro centenário da Arquidiocese de Lille, na França, que tiveram lugar em 26 e 27 de outubro de 2013. Foi confirmado como membro da Congregação para os Bispos em 16 de dezembro de 2013.
A 12 de junho de 2014, passou para a ordem de  cardeais-presbíteros, mantendo o seu título pro hac vice. E, a 20 de dezembro de 2014, Francisco nomeou-o Camerlengo da Santa Igreja Romana, sendo, nesta condição, o responsável pela administração das propriedades e receitas da Santa Sé e devendo assumir as responsabilidades de Chefe de Estado do Vaticano entre a morte ou resignação de um Papa e a eleição de outro.
A sua última viagem em nome da Santa Sé, em abril, foi uma visita de oito dias à capital saudita, Riad, onde se encontrou com o rei Salman bin Abdulaziz e com o secretário-geral da Liga Muçulmana Mundial, o sheik Mohammed Al-Issa. Foi a primeira visita dum cardeal ao país em que ficam os dois grandes santuários do Islão, Meca e Medina. Na pátria do wahabismo, uma das correntes mais fundamentalistas do islão, o Cardeal fez discursos corajosos, pedindo que os cristãos “não sejam considerados cidadãos de segunda classe” e apostando na educação como caminho para o diálogo e a tolerância.
Esta viagem a Riad, já bastante debilitado, constituiu um marco para as relações entre a Igreja e o mundo muçulmano. Nela sustentou que a ameaça não provém do “choque de civilizações”, mas do “choque de ignorâncias e radicalismos”. Assim, defendia que “a religião pode ser proposta, mas jamais imposta”. E, numa entrevista em dezembro do ano passado, explicou como ele e a Santa Sé viam com apreço o recurso ao diálogo:
Nós cremos que, no fundo, não obstante as posições que às vezes possam parecer distantes, é necessário promover espaços de diálogo sincero. Apesar de tudo, estamos convencidíssimos de que se pode viver juntos.”.
Dizia ele que frequentemente “é a ignorância que fundamenta o medo”. E assinalava a verificação de que “a maior parte dos europeus nunca teve um encontro com um muçulmano nem nunca abriu o Corão” e que “o contrário também é verdade: muitos muçulmanos jamais abriram a Bíblia”. E com este espírito de diálogo movia-se na Cúria Romana, sem intriguismos, pois nem tinha tempo para isso. E assegura o vaticanista Andrea Tornielli que “deu o exemplo de como se serve ao papa na Cúria Romana, sem protagonismos, fazendo sempre presentes as próprias objeções e sugestões, sem nunca as vazar em blogs ou entrevistas”.
(cf https://www.semprefamilia.com.br/acreditamosnoamor/quem-foi-o-cardeal-jean-louis-tauran-icone-da-promocao-do-dialogo/)
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No telegrama de condolências enviado à irmã do cardeal, o Papa disse que Tauran “marcou profundamente a vida da Igreja universal”. Era, pois, “um conselheiro ouvido e apreciado, nomeadamente graças às relações de confiança e estima que construiu com o mundo muçulmano”. E Francisco elogiou-lhe o sentido de serviço e “amor pela Igreja”, confessando-se “emocionado” pelo modo como soube “servir corajosamente a Igreja de Cristo até ao fim, apesar do peso da doença” (agência Ecclesia).
Como dizia o Papa em Fátima, o doente não é só objeto do cuidado da parte dos demais, mas é também à sua medida um cuidador, um evangelizador.
É motivo de ação de graças a vida deste servidor da Igreja e do mundo. Laus Deo!
2018.07 – Louro de Carvalho


quinta-feira, 26 de abril de 2018

O que fará correr os agressores contra fiéis reunidos num templo


Em ataque a uma igreja na Nigéria, foram mortos dois sacerdotes e 16 fiéis. O ataque armado aconteceu em Mbalom, no Estado de Benue, logo após a celebração da Missa.
A região é marcada por conflitos entre pastores nómadas da etnia fulani e trabalhadores sazonais. E um sacerdote nigeriano denuncia o caso como “um massacre de que o mundo não toma conhecimento e de que ninguém fala”.
Como se vem verificando, casos destes são recorrentes nos tempos que correm e é de perguntar o que faz correr os agressores para os templos cristãos. Recordo que JMJ de 2016 decorreu em Varsóvia sob a nuvem negra dum ataque a uma igreja francesa.
O “Vatican News” dá conta da ocorrência em causa nos termos seguintes:
Novas violências na Nigéria central. Dois sacerdotes católicos, padre Joseph Gor e padre Felix Tyolaha e pelo menos 16 fiéis foram mortos”, no dia 24, “pela manhã num ataque armado contra a igreja do vilarejo de Mbalom, no Estado de Benue. Homens armados entraram em ação logo depois da celebração da Missa na paróquia de St. Ignatius, que pertence à diocese de Makurdi. Segundo fontes locais, algumas casas também foram incendiadas.”.
Face a estes acontecimentos, o Presidente nigeriano Muhammadu Buhari não se fez esperar na firme condenação dos “hediondos crimes” ora cometidos.
Por seu turno, a diocese de Makurdi manifestou a própria dor, denunciado a insegurança da população. Com efeito, a região é marcada por uma sequência de violências e combates pelo controlo da água e das terras agrícolas. Pastores nómadas de etnia fulani atacam com muita frequência pessoas e propriedades, combatendo com agricultores sazonais. Segundo a organização humanitária Human Rights Watch, desde 2010 as violências já causaram pelo menos 3 mil mortes.
Em seu eloquente testemunho, o Padre Patrick Alumuku, responsável pela comunicação na arquidiocese de Abuja, conta da Nigéria que “entre a população “há um grande medo”. E relata na 1.ª pessoa qual espectador compungido:
Vi a página de Facebook de um dos sacerdotes que morreram. Alguns meses atrás, escreveu: ‘Tenho muito medo, vivo no medo. Os fulani estão a circundar-nos, trazem os seus rebanhos ao redor do território da minha igreja e não sei o que fazer’. E foi morto. O segundo sacerdote que estava em outra paróquia que foi fechada pelo agravamento da situação foi deslocado para esta paróquia onde foi assassinado.”.
São visíveis e incomodam as ações dos fulani.
A este respeito, o sacerdote em referência, recordando o grupo extremista que desde 2009 já causou ao menos 20 mil mortes, referiu:
Nos últimos três anos a região de Benue, onde 95% da população é cristã, já foi atacada várias vezes por grupos de terroristas muçulmanos do norte. A ideia, o sistema e os métodos são os mesmos do grupo Boko Haram.”.
São pastores que ocupam as terras porque é uma região muito fértil. Atacam um vilarejo depois do outro, matando as pessoas. Isso – observa Padre Alumuku – “é um massacre de que o mundo não toma conhecimento e de que ninguém fala”.
Alertando que os grupos de pastores fulani estão a transformar-se em verdadeiro e próprio grupo terrorista, quer pelas vítimas que originam, quer pelo ambiente de terror que criam, disse:
É exatamente assim, os fulani acreditam que têm a missão de levar a religião do islã do norte até ao oceano”.
Porém, não atuam sozinhos. Há armas infiltradas do exterior. O Padre Alumuku explica:
Há um grupo que se chama ‘MyettiAllah’, literalmente ‘Os mensageiros de Deus’, que deixa claro as suas intenções de conquistar esta parte do país. Depois da morte dos sacerdotes e fiéis ocorrida ontem, na noite do mesmo dia homens armados mataram cerca de trinta pessoas num outro vilarejo do mesmo Estado de Benue. O presidente Buhari, que nestes dias está na Inglaterra para a Conferência do Commonwealth, em uma entrevista, acusou os militantes vindos da Líbia, depois do desmantelamento daquele país, de trazerem armas para a Nigéria. Mas a pergunta é: se homens armados chegam de fora e continuam a matar dia após dia, por que não enviar militares locais, prendê-los e tomar o controlo da situação?”.
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Enfim, uma guerra étnica apoiada ou querida por motivos religiosos e a criar problemas a quem precisa de trabalhar – isto pela ambição de dispor de mais terra para a pastorícia.
No entanto, é estranho como estes ataques têm como alvo locais de congregação cultual. Não é um campo de batalha nem a useira e vezeira emboscada.
Além das perdas mortais e dos ferimentos, ataca-se a dignidade das pessoas e dos povos no que têm de profundamente cultural: a religião/fé e a apetência do encontro/reunião.
Interesses de pequena economia e rivalidades étnico-sociais. Que faria se os interesses fossem de grande economia, de cruzada religiosa ou de apetência de ocupação militar imperialista!
Mas não percamos a ideia. Porque surgem efetivamente os grandes conflitos? O imperialismo, a cruzada religiosa ou antirreligiosa, a guerra económica, sobretudo sobre os recursos naturais. Enfim, o homem como homo homini lupus!
Se calhar, é preciso intensificar a cruzada da paz pela educação e pela criação de um novo estilo de vida na fé e na ética.
2018.04.26 – Louro de Carvalho