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sábado, 20 de janeiro de 2018

Francisco no Chile ou a mensagem papal em contexto de protesto

O Papa esteve no Chile numa visita oficial de três dias antes de visitar o Peru. O evento ficou marcado por protestos devido a abusos sexuais na igreja (são indiciados de abuso sexual infantil cerca de 80 membros do clero chileno) e aos direitos dos indígenas.
Segundo um estudo, os chilenos atribuíram a Francisco a pontuação de 5,3, numa escala de 0 a 10, enquanto a confiança na Igreja ficou apenas nos 36%, a mais baixa da América Latina. E, dias antes da chegada papal, vários templos tinham sido atacados e vandalizados. 
Porém, à chegada, o Pontífice quebrou o protocolo e dirigiu-se aos fiéis que o esperavam nas ruas. E manifestou o seu pesar afirmando sentir vergonha pelo dano irreparável causado a crianças por parte de ministros da igreja.
No dia 17, reuniu-se na cidade de Temuco com representantes da etnia Mapuche, que estão em pé de guerra contra o Chile e a Argentina para reivindicar a soberania de terras que lhes foram retiradas no século XIX.
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No encontro com as Autoridades, com a Sociedade Civil e com o Corpo Diplomático, frisou o desenvolvimento da democracia, nos últimos decénios, que potenciou “um notável progresso”, a marcar o destino do Chile “como povo, baseado na liberdade e no direito”, que soube enfrentar e superar “vários períodos turbulentos”. A este respeito retomou as palavras do Cardeal Silva Henríquez, num Te Deum:

Nós – todos – somos construtores da obra mais bela: a pátria. A pátria terrena que prefigura e prepara a pátria sem fronteiras. Esta pátria não começa hoje, connosco; mas não pode crescer nem frutificar sem nós. Por isso, a recebemos com respeito, com gratidão, como uma tarefa iniciada há muitos anos, como uma herança que nos orgulha e simultaneamente nos compromete.”.

Depois, sustentou que “cada geração deve fazer suas as lutas e as conquistas das gerações anteriores e levá-las a metas ainda mais altas”, não se podendo contentar com o que se obteve no passado como se “esta situação nos levasse a ignorar que muitos dos nossos irmãos ainda sofrem situações de injustiça que nos interpelam a todos”. Com efeito, este povo tem pela frente o desafio grande e apaixonante de “continuar a trabalhar para que a democracia” não se limite aos aspetos formais, mas seja “verdadeiramente um lugar de encontro para todos”, sem exceção, construírem casa, família e nação.

Para tanto, segundo Francisco, é preciso apurar o sentido da escuta: povo e autoridades – capacidade que “adquire um grande valor nesta nação, onde a pluralidade étnica, cultural e histórica exige ser protegida de qualquer tentativa feita de parcialidade ou supremacia e que coloca em jogo a capacidade de deixar cair dogmatismos exclusivistas numa sã abertura ao bem comum”. Assim, sustenta o Papa:

É indispensável escutar: ouvir os desempregados, que não podem sustentar o presente e menos ainda o futuro das suas famílias; ouvir os povos nativos, muitas vezes esquecidos e cujos direitos necessitam de ser atendidos e a sua cultura protegida, para que não se perca uma parte da identidade e riqueza desta nação. Ouvir os migrantes, que batem às portas deste país à procura duma vida melhor e, por sua vez, com a força e a esperança de querer construir um futuro melhor para todos. Ouvir os jovens, na sua ânsia de ter maiores oportunidades, especialmente no plano educativo, e assim sentir-se protagonistas do Chile que sonham, protegendo-os ativamente do flagelo da droga que lhes rouba o melhor das suas vidas. Ouvir os idosos, com a sua sabedoria tão necessária e a carga da sua fragilidade. Não podemos abandoná-los. Ouvir as crianças, que assomam ao mundo com os seus olhos cheios de deslumbramento e inocência e esperam de nós respostas reais para um futuro de dignidade.”.

E não deixou de sublinhar como resultado desta escuta a atenção preferencial à nossa Casa Comum, promovendo uma cultura que saiba cuidar da terra, não nos contentando com oferecer respostas pontuais aos graves problemas ecológicos e ambientais que se apresentem”. Pretende o Papa “a ousadia de oferecer ‘um olhar diferente, um pensamento, uma política, um programa educativo, um estilo de vida e uma espiritualidade que oponham resistência ao avanço do paradigma tecnocrático’, que privilegia a irrupção do poder económico em prejuízo dos ecossistemas naturais e, consequentemente, do bem comum dos nossos povos”. E porfia que “o Chile possui, nas suas raízes, uma sabedoria capaz de ajudar a transcender a conceção meramente consumista da existência para adquirir uma atitude sapiencial em relação ao futuro”.

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Na celebração da Eucaristia “Pela Paz e Justiça”, em Santiago, no Parque O’Higgins, comentou o Evangelho das Bem-aventuranças, nomeadamente as que se referem à Paz e à Justiça, pondo o acento na necessidade de olhar para as pessoas como fez Jesus e referindo que a bem-aventurança da paz nos faz entrar na condição de filhos de Deus e a da justiça nos faz arrebatar o Reino dos Céus. E o Pontífice ensina:
As Bem-aventuranças são aquele novo dia para quantos continuam a apostar no futuro, continuam a sonhar, continuam a deixar-se tocar e impelir pelo Espírito de Deus”.
Interpreta o discurso da Montanha como a pedra de toque para o compromisso em prol da reconciliação:
Felizes aqueles que são capazes de sujar as mãos e trabalhar para que outros vivam em paz. Felizes aqueles que se esforçam por não semear divisão. […] Queres felicidade? Felizes aqueles que trabalham para que outros possam ter uma vida ditosa. Queres paz? Trabalha pela paz.”.
Recordando palavras do já mencionado Cardeal Henriquez – “se alguém nos perguntar: ‘Que é a justiça?’ ou se porventura consiste apenas em ‘não roubar’, dir-lhe-emos que existe outra justiça: a que exige que todo o homem seja tratado como homem” – Francisco sustenta:
Semear a paz à força de proximidade, de vizinhança; à força de sair de casa e observar os rostos, de ir ao encontro de quem se encontra em dificuldade, de quem não foi tratado como pessoa, como um digno filho desta terra. Esta é a única maneira que temos para tecer um futuro de paz, para tecer de novo uma realidade sempre passível de se desfiar.”.

Na celebração da Eucaristia “Pelo Progresso dos Povos”, em Temuco, no Aeródromo de Maquehue, Francisco partiu da hipótese da aproximação do solo a quem ouviremos cantar a pena que não pode calar, a das “injustiças de séculos que todos veem aplicar”, sendo “neste contexto de ação de graças por esta terra e pelo seu povo, mas também de tristeza e dor, que celebramos a Eucaristia”. Neste aeródromo, verificaram-se “graves violações de direitos humanos”, pelo que esta celebração é oferecida pelas “pessoas que sofreram e foram mortas e pelas que diariamente carregam aos ombros o peso de tantas injustiças”, recordando o sacrifício de Jesus na cruz repleto do pecado e do sofrimento dos nossos povos, “um sofrimento a ser resgatado”.
Depois, dissertou em torno do versículo evangélico “que todos sejam um só” (Jo 17,21), como Jesus pediu ao Pai numa hora crucial da sua vida, sabendo que “uma das piores ameaças que atinge, e atingirá, o seu povo e toda a humanidade será a divisão e o conflito, a subjugação de uns pelos outros”. E esta unidade “é um dom que devemos pedir insistentemente pelo bem da nossa terra e seus filhos”, estando com atenção a tentações que possam aparecer e contaminar pela raiz este dom com que Deus nos quer presentear. Entre tais tentações, contam-se os falsos sinónimos e as equivocas armas da unidade.
Assim, unidade não é sinónima de uniformidade, que silencia as diferenças. Ao invés, “a riqueza duma terra nasce precisamente do facto de cada parte saber partilhar a sua sabedoria com as outras”. Nestes termos, segundo o Pontífice, “a unidade é uma diversidade reconciliada, porque não tolera que, em seu nome, se legitimem as injustiças pessoais ou comunitárias”.
Quanto às armas da unidade, construída no reconhecimento e na solidariedade, não se pode aceitar qualquer meio. Por exemplo, os acordos “lindos” que não se concretizam frustram a esperança. Depois, a violência e a destruição que podem ceifar vidas humanas nunca produzem unidade, mas acabam por tornar falsa a causa mais justa. São “como lava de vulcão que tudo destrói, tudo queima, deixando atrás de si apenas esterilidade e desolação”.
Em vez disso, exorta o Papa: “procuremos e não nos cansemos de procurar o diálogo para a unidade”, rezando: “Senhor, fazei-nos artesãos de unidade”.
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Na missa da “Virgem do Carmo e de Oração pelo Chile, em Iquique – Campus Lobito, o Papa desenvolveu a pregação em torno do versículo joânico “Em Caná da Galileia, Jesus realizou o primeiro dos seus sinais miraculosos” (Jo 2,11), numa festa, a instâncias de sua Mãe. E sublinhou o ambiente de festa como ambiente do Evangelho, boa nova da alegria, “uma alegria que se propaga de geração em geração e da qual somos herdeiros”, porque “somos cristãos”.
Assumindo-se como peregrino a celebrar com o Chile a maneira linda de viver a fé, frisou:
As vossas festas patronais, as vossas danças religiosas (que chegam a durar uma semana), a vossa música, os vossos vestidos fazem desta região um santuário de piedade e de espiritualidade popular. De facto, não é uma festa que fica fechada dentro do templo, mas conseguis vestir de festa toda a aldeia. Sabeis celebrar cantando e dançando ‘a paternidade, a providência, a presença amorosa e constante de Deus’; e, deste modo, gerais atitudes interiores que raramente se observam no mesmo grau em quem não possui esta religiosidade: paciência, sentido da cruz na vida quotidiana, desapego, aceitação dos outros, dedicação, devoção.”.
A seguir, apresentou a ação de Maria, para que, no ambiente de festa, a alegria prevaleça. Atenta a tudo o que sucede ao seu redor e, como boa mãe, consegue dar-se conta de que, na festa, na alegria geral, algo estava para arruinar a festa. E, aproximando-Se do Filho, diz: “Não têm vinho” (Jo 2,3).
Também agora Maria vai pelas nossas aldeias, ruas, praças, casas, hospitais. É “a Virgem da Tirana, a Virgem Ayquina em Calama, a Virgem das Penhas em Arica, que passa por todos os nossos problemas familiares, aqueles que parecem sufocar-nos o coração, para Se aproximar de Jesus e dizer-Lhe ao ouvido: Olha! Não têm vinho”. E, como então se aproximou dos que serviam na festa a dizer-lhes “Fazei o que Ele vos disser” (Jo 2,5), também agora esta mulher de poucas palavras, mas muito concreta, se aproxima de cada um de nós para nos dizer: “Fazei o que Ele vos disser”. E é por esta via que vira o milagre.
Disse o Papa argentino que “o milagre começa quando os serventes aproximam as vasilhas de pedra com água que se destinavam à purificação”, pelo que “também cada um de nós pode começar o milagre” e “cada um de nós é convidado a participar do milagre para os outros”.
E Francisco passou a apontar Iquique, “terra de sonhos”, como palco do milagre para os outros:
Uma terra que soube albergar pessoas de diferentes povos e culturas, pessoas que tiveram de deixar os seus queridos e partir. Uma marcha sempre baseada na esperança de obter uma vida melhor, mas sabemos que sempre se faz acompanhar por bagagens carregadas de medo e incerteza pelo que virá.”.
Esta região de imigrantes mostra “a grandeza de homens e mulheres, de famílias inteiras que, perante a adversidade, não se dão por vencidas, mas se mexem à procura de vida”, quais “ícones da Sagrada Família, que teve de atravessar desertos para poder continuar a viver”.
Assim, o Pontífice quer que esta é terra de sonhos “continue a ser também terra de hospitalidade” e de hospitalidade festiva, pois “não há alegria cristã, quando se fecham as portas; não há alegria cristã, quando se faz sentir aos outros que estão a mais ou que não têm lugar no nosso meio” (cf Lc 16,19-31).
Pretende que, tal como Maria em Caná, estejamos atentos nas praças e aldeias e reconhecer os “que têm a vida ‘arruinada’, que perderam – ou lhes roubaram – as razões para fazer festa”. E as nossas vozes a dizer ‘Não têm vinho’ serão “o grito do povo de Deus, o grito do pobre, que tem forma de oração e alarga o coração, e nos ensina a estar atentos”. Por isso, apela:
Estejamos atentos a todas as situações de injustiça e às novas formas de exploração que fazem tantos irmãos perder a alegria da festa. Estejamos atentos à situação de precariedade do trabalho que destrói vidas e famílias. Estejamos atentos a quem se aproveita da irregularidade de muitos migrantes porque não conhecem a língua ou não têm os documentos em ‘regra’.”.
Mas também – ensina – como os serventes da festa, traremos o que temos, por pouco que pareça, de modo que “a nossa solidariedade e o nosso compromisso em prol da justiça sejam parte da dança ou do cântico que hoje podemos entoar a Nosso Senhor”, deixando-nos “impregnar pelos valores, a sabedoria e a fé que os migrantes trazem consigo, sem nos fecharmos a essas ‘vasilhas’ cheias de sabedoria e história que trazem quantos continuam a chegar a estas terras”, e não nos privando “de todo o bem que eles têm para oferecer”.
Depois, exorta o Santo Padre:
Deixemos que Jesus possa completar o milagre, transformando as nossas comunidades e os nossos corações em sinal vivo da sua presença, que é jubilosa e festiva porque experimentamos que Deus está connosco, porque aprendemos a hospedá-Lo no meio de nós, no nosso coração”.
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O Papa teve ainda, no Chile, encontros com o Centro Penitenciário Feminino de Santiago, com os Sacerdotes, Consagrados e Seminaristas, com os Bispos, com os jovens; e almoçou com alguns habitantes de Araucanía.
A caminho para a missa em Iquique, desfilou no Papamóvel pelas ruas saudando fiéis. No trajeto, desceu do Papamóvel para ajudar uma policial que caiu do cavalo em que estava quando passou ao lado do Pontífice.
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Mais de meio milhão de estrangeiros vive, atualmente, no Chile em situação legal, segundo dados oficiais, ou seja, 3% da população de 17,5 milhões. De acordo com números divulgados pela imprensa local, apenas no ano passado cerca de 105 mil haitianos e mais de 100 mil venezuelanos chegaram ao território.

O Papa, apesar de alguma densidade de contexto, fez passar a mensagem essencial da reconciliação, do sonho, da unidade nas diferenças, da hospitalidade, do acolhimento, da denúncia das injustiças e da alegria evangélica, mobilizando para a oração/reflexão e para ação solidária – sempre numa linha de aprendizagem e de busca de vida – implicando neste dinamismo todos: autoridades, forças vivas do povo e agentes da pastoral.

2018.01.20 – Louro de Carvalho

terça-feira, 26 de setembro de 2017

O bispo que “perseguiu sem descanso o sonho de um mundo de justiça”

Cerca de 3 mil pessoas marcaram presença nas cerimónias fúnebres do 1.º Bispo emérito de Setúbal, que, segundo Dom José Ornelas, atualmente Bispo daquela diocese sadina, “teve um percurso de vida que marcou os últimos decénios da história recente do nosso povo e da Igreja” e que fica lembrado pela sua postura corajosa e de defesa dos mais desprotegidos. Chegou à ousadia de apelidar de “malditos aqueles que exploram ou se demitem de denunciar e reverter as situações de injustiça e exploração”.
As exéquias solenes, a que presidiu Dom José Ornelas, foram celebradas no Mosteiro de Leça do Balio, em Matosinhos, estando presente a vice-presidente da Assembleia da República, Teresa Caeiro, mas não qualquer membro do Governo ou qualquer líder partidário. Participaram na celebração os vários bispos portugueses e inúmeros sacerdotes e fiéis tanto da diocese de Setúbal como da do Porto, onde nasceu, formou-se e viveu os últimos anos da sua vida. Porque muitas pessoas presentes no Largo do Mosteiro não puderam entrar, presenciaram a celebração através de três ecrãs gigantes colocados no exterior.
Depois, o corpo de Dom Manuel Martins foi sepultado no cemitério, junto ao mosteiro do Balio, da paróquia donde era natural, e o local que escolheu para sua última morada – tendo sido transportado sob os aplausos de quantos ali permaneciam para lhe prestar homenagem. Ao longe, nos grandes monitores, via-se, a acenar ao seu povo, a imagem fixa do Bispo que foi.
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O Bispo de Setúbal lembrou o seu antecessor como uma voz corajosa e inconformada. Com efeito, Dom Manuel, segundo o presidente da concelebração, “ergueu a voz em denúncia das atitudes, políticas e economias que se esquecem dos mais fracos e indefesos”, e “perseguiu sem descanso o sonho de um mundo de justiça, fraternidade e de paz” por haver entendido que foi para isso que foi chamado para bispo. E esta missão levou-o a indignar-se sempre contra os que “exploram ou se demitem de denunciar e reverter as situações de injustiça e de exploração”.
Frisou, na sua homilia, a circunstância de Dom Manuel, “chamado e conduzido por Deus”, dele ter aprendido “a cuidar a dedicar-se aos outros como cuidador sensível e misericordioso para com o seu povo. Assim se encheu de gosto e preocupação de estar perto daqueles a quem foi enviado, de defendê-los de quantos os manipulam e exploram, de encher-se de “compaixão” pelas suas dores e feridas, perseguindo, sem descanso, o sonho de um mundo de justiça, de fraternidade e de paz”.
Agradecendo a herança que Dom Manuel Martins deixou na diocese, o prelado de Setúbal lembrou o seu estilo próximo e o seu empenho em congregar vontades e esforços. E disse aos fiéis presentes na missa:
Tornou-se solidariamente criativo, para apoiar e cuidar para os que eram deixados à margem das grandes manobras económicas, para congregar pessoas de boa vontade e promover obras que servissem os que mais precisavam”.
Considerou Dom Manuel Martins um
Homem de pontes e diálogo, buscando consensos e colaborações para que possamos, com todas as pessoas de boa vontade, criar todos um mundo mais humano e mais justo, onde sejamos mais cuidadores e menos predadores”.
Por tudo isto, deixou “um estilo matricial na diocese de Setúbal”, onde todos o recordam como um “pastor próximo e cuidadoso”, preocupado com os seus sacerdotes e diáconos. E o Bispo de Setúbal deixou ainda uma palavra de gratidão aos familiares do falecido e também à diocese do Porto, lembrando que foi ali que aprendeu com “outras vozes proféticas”, como a de Dom António Ferreira Gomes, a erguer-se para “denunciar injustiças e apontar caminhos”.
Dom Januário Torgal Ferreira, no final da celebração, disse à Rádio Renascença que “falamos de um homem que amou o mundo e que sofreu os riscos do mundo”, lamentando que a “Igreja em Portugal ainda não o tenha conseguido seguir como estilo” e “ocupar-se dos problemas do mundo sem recear de ser confundida com os poderes do mundo”.
Já para Dom Jorge Ortiga, arcebispo-primaz de Braga, Dom Manuel foi “lutador” e “realizador da doutrina social da Igreja. Um exemplo que também nós devemos seguir, de dar voz a quem não tem voz”. São palavras partilhadas pelo bispo auxiliar do Porto, Dom Pio Alves, que lembrou que Dom Manuel Martins passou os últimos anos na diocese, onde “soube viver de modo discreto a sua condição de sacerdote e de bispo”.
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Segundo Valdemar Cruz, do Expresso, foi ao som do “Requiem”, de Fauré, que se iniciaram hoje, dia 26, no Mosteiro de Leça do Balio, em Matosinhos, as cerimónias fúnebres de Dom Manuel Martins (1927-2017), bispo emérito de Setúbal, falecido no passado domingo, dia 24.
Tornou-se pequeno o mosteiro para acolher tantos devotos e tantos fiéis amigos, a ponto de ter sido necessário colocar grandes monitores e dezenas e dezenas de cadeiras para todos assistirem às exéquias, sempre pontuadas pela solenidade proporcionada pela obra de Fauré, composta entre 1887 e 1890, interpretada pelas vozes do coro portuense “Absolute Vocem Ensemble”.
Com a diocese de Setúbal muito representada, tanto ao nível do clero como ao nível de diocesanos, mas também com a presença de inúmeros bispos e outros membros da Igreja católica, as cerimónias acabaram muito marcadas pela homilia de Dom José Ornelas.
No interior de um mosteiro que é ele próprio testemunha de profundas e marcantes histórias vividas por todo um povo, Dom José deixou um eloquente testemunho destinado à consagração da memória daquele que foi o instalador da diocese e o organizador dos seus serviços.
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No dia em que faleceu Dom Manuel Martins, o Expresso republicou uma entrevista realizada em 2014, pelos 40 anos do 25 de abril, vivendo o país os efeitos da presença da troika. E o Bispo não escondia a “tristeza pela situação” em que Portugal se encontrava, dizendo:
Tenho uma tristeza profunda pela situação de desesperança e desânimo do povo do meu país. E tenho também uma tristeza muito grande ao reparar que não temos um Estado democrático, mas um Estado corporativo, com grupos de interesses que se juntam e defendem, que se penduram no dinheiro, desprezando as pessoas.”.
Chegara a Setúbal, como bispo da nova diocese, no verão quente de 1975. Teve dúvidas e receios, pois nunca tinha ido à cidade – um bastião comunista e zona de forte tradição operária – mas percebeu que o seu “altar não podia estar na Igreja”. Baixou ao terreno e deu voz aos que tinham fome e, sobretudo, sede de justiça. Ele mesmo contou:
“Quando fui chamado à nunciatura e o núncio me disse ‘o Santo Padre quer constituir a Diocese de Setúbal e pensou em si’, pedi que me deixassem pensar durante 8 dias. Tinha tanto medo, constava tanta coisa sobre esta terra... Estávamos no Verão Quente e eu nunca tinha vindo a Setúbal. E sabia que o povo não queria que viesse para cá um colonizador do Norte e que muito boa gente não ficou contente com a minha nomeação! Este povo agitado e contestatário do mundo do trabalho não queria que viesse para aí um padre aconselhar a paciência, organizar peregrinações ao Cristo-Rei ou a Fátima. Queria um bispo que viesse para a rua lutar com eles. Aceitei. E quando foi a minha ordenação houve uma manifestação à porta da Sé. ‘Não precisamos de bispo’, diziam, e ‘muito menos um bispo reacionário do Norte’.”.
Nunca soube quem organizara a predita manifestação, mas soube da confusão e da incapacidade da polícia e da necessidade da presença de militares, porque lho contaram, estranhando, que no fim da ordenação episcopal, a 26 de julho, o tirassem, pela sacristia para um salão, porque o normal seria vir saudar a população. Depois, tudo mudou:
“Nunca tive a mais pequena falta de respeito por parte de ninguém. E, quando me fui embora, a sociedade civil, sindicatos e patronato, prestou-me uma homenagem que está em livro. Houve sempre a melhor relação com toda a gente. Deus deu-me a graça de entender que a minha missão episcopal não estava só no altar. Ou melhor, que o meu altar estava no mundo. No mundo dos homens, onde se grita, onde se sofre, onde se berra.”.
A Igreja de Setúbal “sofria do mal que sofria toda a Igreja”. Era conservadora num Portugal com “problemas muito graves que tinham a ver com a dignidade da pessoa humana”, sendo os direitos sociais praticamente não existentes. E a Igreja era isto, distraída, “com a agravante de que as autoridades religiosas que nos governavam tinham sucedido imediatamente a Salazar”.
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Falando as relações Igreja/Estado, refere a luta da Igreja entre a República e a monarquia, frisando que a República foi uma coisa boa e providencial, porque “separou a Igreja do Estado”. Mas, estabelecida a República, os ódios que existiam contra a Igreja vieram à tona. E o Estado anulou a personalidade jurídica da Igreja, apoderou-se dos seus bens, com paços e conventos roubados e entregues a boys – o que não é novo. E explicita:
“Os boys são tão velhos como os bois. Mas tudo isto para dizer que não é de admirar que Salazar, um homem formado num seminário e que andava a dar conferências nos meios católicos, chegado ao poder, tenha querido que uma das primeiras coisas a pôr em ordem fossem as relações do Estado com a Igreja. E isso acaba com a concordata de 1940. A maioria dos bispos que nós tínhamos em 1974 eram bispos nomeados no tempo do Salazar. Não temos nada que nos admirar de termos uma Igreja conservadora, porque foi uma Igreja que respirou de alívio quando Salazar pôs as coisas na ordem.”.
Mas assegura que, já com Salazar, “o descontentamento foi nascendo”, porque, “para manter o poder, Salazar desvalorizou os direitos humanos”. E “a Igreja foi uma estrutura em que ele sempre se apoiou”. Até o Papa João Paulo II sabia disso, pois, como frisou, “quando tínhamos as visitas habituais dos bispos ao Papa, de 5 em 5 anos, João Paulo II falava sempre no Salazar”.
E “falava do seu tempo de rapaz, quando vivia num regime comunista”. Explicou Dom Manuel:
“No seu tempo de rapaz lembrava-se de ouvir falar num chefe de um Governo que existia cá para um país chamado Portugal que tinha posto tudo na ordem. Era conhecido como um economista de primeira classe, como o maior político do tempo de rapaz – em pleno comunismo – do futuro Papa João Paulo II.”.
Depois acrescentou que falava em Salazar como falava no Eusébio e na Amália Rodrigues. E sobre a interpelação se alguma vez pôs João Paulo II ao coerente do outro lado do governante, respondeu que, nas primeiras vezes, se calava. Mas, numa ocasião, ocorreu o seguinte episódio:
“A conversa alargou-se e o Papa pegou-me no braço e chamou-me para junto dele. E lá começaram esses elogios a Salazar e alguns bispos, entusiasmados, acrescentaram razões novas. E eu disse ‘Santo Padre, é preciso não esquecer que foi este homem que exilou um bispo português por ele denunciar as injustiças, o que é um das dimensões da evangelização’. Outros começaram a dizer que não era assim. Estabeleceu-se um sururu. E o Papa, ao perceber que eu estava a falar com raiva, pôs-me a mão no braço e disse ‘pronto, vamos falar de outra coisa’.”.
Quanto à relação com os seus pares bispos, assegura ter havido “sempre uma relação fraterna”, até graças ao seu feitio: nunca recebeu “nenhuma repreensão ou chamada de atenção por parte de nenhum bispo”, mas também nunca nenhum lhe deu os parabéns.
No atinente à sua ação no terreno, diz que ia às fábricas e conta:
“Lembro-me de uma, que ia fechar, aqui na estrada do Alentejo e eu fui. Estava lá o credor, o tribunal, a Guarda Republicana, os cães... E, quando, às 16 horas, tocou pela última vez a campainha para os trabalhadores saírem, eu pedi para falar com eles. Lá fiz o meu discurso, e o credor, o homem a quem a fábrica devia dinheiro, ouviu. Os trabalhadores tinham feito um juramento de que não iam deixar as máquinas. Então a polícia entrou para os obrigar e alguns desmaiaram. Foi dramático. A miséria era imensa. As metalomecânicas tinham fechado, as pessoas passavam fome. Só de uma vez houve oito suicídios em Setúbal. No fim daquilo tudo, o homem do dinheiro disse-me ‘O senhor bispo fez o discurso que lhe competia. Mas o meu discurso tem de ser outro porque eu aqui represento o capital e ao capital compete fazer capital, sem se comover com estas coisas’. Fiquei revoltado.”.
Se é esta a filosofia do capitalismo, há que perguntar “onde está a dignidade das pessoas”.
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Sobre o Portugal pós-abrilino, diz que “o 25 de Abril foi um grande sonho, na medida em que nos ia permitir viver, tanto quanto possível, os direitos humanos” e confessa:
Há 55 artigos na Constituição, do 24.º ao 79.º, que são Evangelho puro, da igualdade, da liberdade, justiça, educação, trabalho, remuneração... Mas ao fim e ao cabo as pessoas continuam menosprezadas, menorizadas, sem capacidade de escolha. Na vida política portuguesa temos neste momento uma manipulação permanente. Esse sonho do 25 de Abril falhou. Não passou do papel.”.
Do retrato do Portugal de hoje diz:
A minha sensação permanente é pouco cristã. É uma sensação de tristeza. Tenho muita tristeza pela situação em que Portugal se encontra, em primeiro lugar por não ter encontrado gente capaz de abrir os caminhos necessários para que a ninguém falte o que é minimamente indispensável para ser feliz, o que nós chamamos Estado social: o pão, a saúde… Tenho uma tristeza profunda pela situação de desesperança e desânimo do povo do meu país.”.
E aponta outra situação grave:
Tenho também uma tristeza muito grande ao reparar que não temos um Estado democrático, mas um Estado corporativo, com grupos de interesses que se juntam e defendem, que se penduram no dinheiro, desprezando as pessoas. Também fico triste por ver que os nossos governantes, na sua maioria, não têm pedagogia política, nem têm conhecimentos. Fazem as coisas sem pensar, já não digo no objetivo ou na essência, mas até na oportunidade das medidas.”.
Da raridade de manifestações, considerando o agravamento da pobreza nos últimos anos, diz:
A manifestação é um direito, a pessoa está descontente e manifesta o seu descontentamento. Mas há uma coisa de que eu tenho muita pena é de que boa parte destas manifestações, com clareza ou de forma escondida, tenham partidos por trás. Tenho muita pena e também me causa muito desânimo ver esta multiplicidade de greves que se organizam e que são fruto de organizações corporativas que mais se preocupam com os seus interesses do que com os direitos dos outros.”.
No entanto, reconhece que o povo está muito passivo, o que é um perigo. E adverte:
O povo está muito alérgico, desanimado, descrente, muito conformado. Ao fim e ao cabo, quem fez o 25 de Abril? O povo? O 25 de Abril encontrou um eco imediato na alma do povo, sinal de que o povo sentia necessidade duma revolução, embora não a conseguisse dizer ou fazer. Agora pode estar a acontecer o mesmo. O povo anda muito adormecido porque nunca foi devidamente instruído. O país está pendurado no grande poder económico, no capitalismo selvagem, sem o mínimo princípio de moral, que só explora, que só suga. Nunca tivemos um Governo que mandasse. Os poderes económicos, com mais ou menos evidência, dominaram sempre. E cada vez pior.”.
Acha que “é preciso chamar a atenção para os valores do 25 de Abril e restaurá-los, mas que não é preciso fazer outro. Nem se trata de a democracia estar em risco, mas:
A questão é que nós não temos democracia. A democracia é um Estado organizado, com hierarquias, em que há uma ordem. Nós vivemos num Estado desorganizado, em que não há respeito pela dignidade das pessoas. Antes de mais tivemos conquistas ideológicas. Chegámos à conclusão de que tínhamos vários direitos, mas muitos desses direitos não nos são hoje reconhecidos. Conquistámos muita coisa, mas essas conquistas estão comprometidas. É preciso que a sociedade acorde para que os valores do 25 de Abril sejam uma realidade.”.
Reconhece que faltam vozes na Igreja para fazer o papel de despertar consciências. Com efeito, a Igreja, quando interpelada, desculpa-se sobre as suas obrigações na sociedade. Tem cumprido o seu dever, mas entende-o apenas como o ‘dar de comer a quem tem fome’, faltando-lhe o mais importante: “apontar as causas da fome e denunciá-las sem medo”. Mas se “a Igreja está comprometida com muita coisa” (“com o Governo que dá dinheiro para o seminário, com o presidente da Câmara que dá dinheiro para uma obra...”), se está comprometida com o poder, esquece-se “um bocadinho da sua dimensão profética, que é a de denunciar com coragem e sem medo as causas e os causadores da situação que vivemos”. Ora, o “Papa Francisco disse que prefere uma Igreja mergulhada no mundo” a “uma Igreja bonequinha, muito bem tratadinha dentro de uma redoma”.
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Nunca será excessivo ler este Bispo do futuro. Não basta elogiá-lo. É urgente enveredar por esta escola crítica e profética!

2017.09.26 – Louro de Carvalho