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domingo, 25 de março de 2018

Por favor, decidi-vos antes que gritem as pedras...


O segmento apelativo enunciado em epígrafe é a exortação final aos jovens presentes na Praça de São Pedro e a todos aqueles que estavam em ligação com Roma nesta XXXIII Jornada Mundial da Juventude (com o tema “Não tenhas medo, Maria! Encontraste graça junto a Deus” - Lc 1,30) em 25 de março de 2018, Domingo de Ramos na Paixão do Senhor.
Comemora-se a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém. Como refere o Evangelho de Marcos, proclamado depois da Bênção dos Ramos e antes da procissão aclamatória, “levaram, como previsto, o jumentinho a Jesus, lançaram-lhe por cima as capas e Jesus montou nele. Muitos estenderam as capas pelo caminho; outros, ramos de verdura que tinham cortado nos campos. E tanto os que iam à frente como os que vinham atrás gritavam: Hossana! Bendito seja o que vem em nome do Senhor! Bendito o Reino do nosso pai David que está a chegar. Hossana nas alturas! (Mc 11,7-10).
Por isso, na sua homilia, o Papa sublinha que a Liturgia convida “a intervir e a participar na alegria e na festa do povo que é capaz de aclamar e louvar o seu Senhor”. Com efeito, como refere o texto homilético de hoje, “Jesus entra na cidade rodeado pelos seus, rodeado por cânticos e gritos rumorosos”. E o Pontífice discorre:
Podemos imaginar que são a voz do filho perdoado, a do leproso curado ou o balir da ovelha extraviada que ressoam, intensamente e todos juntos, nesta entrada. É o cântico do publicano e do impuro; é o grito da pessoa que vivia marginalizada da cidade. É o grito de homens e mulheres que O seguiram, porque experimentaram a sua compaixão à vista do sofrimento e miséria deles... É o cântico e a alegria espontânea de tantos marginalizados que, tocados por Jesus, podem gritar: ‘Bendito seja o que vem em nome do Senhor!’ (Mc 11,9).”.
É, pois, justo e salutar bendizer “Aquele que lhes restituíra a dignidade e a esperança”, Aquele que é a “alegria de tantos pecadores perdoados que reencontraram ousadia e esperança”. Por isso, “gritam, rejubilam”: É a alegria.
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Não obstante, esta alegria torna-se incómoda para muitos. É a inveja. Como frisa o Pontífice, “vê-se claramente em toda a narração evangélica que, para alguns, a alegria suscitada por Jesus é motivo de fastídio e irritação”, nomeadamente para quem se considera justo e fiel aos preceitos rituais e se sente contestado por não sair do ritualismo. Aí a alegria dos outros torna-se incómoda, absurda, escandalosa e insuportável, sobretudo para quem teve de reprimir “a sensibilidade face à angústia, ao sofrimento e à miséria”. E Francisco retoma palavras suas da exortação apostólica Evangelii gaudium, documento programático do seu pontificado:
Uma alegria intolerável para quantos perderam a memória e se esqueceram das inúmeras oportunidades por eles usufruídas. Como é difícil, para quem procura justificar-se e salvar-se a si mesmo, compreender a alegria e a festa da misericórdia de Deus! Como é difícil, para quantos confiam apenas nas suas próprias forças e se sentem superiores aos outros, poder compartilhar esta alegria!” (EG, 94).
Por isso, os inimigos de Jesus lançaram a cizânia da contra-aclamação entre as multidões levando-as a gritar não “Hossana”, mas “Crucifica-O!”. E este domingo é de Paixão, porque o Senhor entra em Jerusalém para padecer e morrer. Assim seria glorificado e mereceria a salvação oferecida pelo Pai a todos os homens. Assim se compreende que o Papa anote que alegria da entrada triunfal “esmorece dando lugar a um sabor amargo e doloroso depois que acabámos de ouvir a narração da Paixão” (Is 50,4-7; Fl 2,6-11; Mc 14,1-15,47). Com efeito, nesta celebração de Igreja e Juventude, cruzam-se histórias de alegria e sofrimento, erros e sucessos que fazem parte da nossa vida diária como discípulos, porque consegue revelar sentimentos e contradições que hoje, com frequência, aparecem em nós, homens e mulheres deste tempo: “capazes de amar muito” e “de odiar” – capazes de sacrifício heroico e de saber ‘lavar-se as mãos’ no momento oportuno; capazes de fidelidade e de grandes abandonos e traições.
Sim, não é fácil o discípulo manter-se fiel até ao fim, assumir os próprios erros, deixar de acusar os outros ou escudar-se no lodaçal da indiferença lavando as mãos como Pilatos ou questionar-se sobre quem o nomeou guarda do irmão.
E é no contexto da inveja, do incómodo ou da indiferença (que nos faz alinhar com quem dá ou promete mais) que “nasce o grito da pessoa a quem não treme a voz para bradar: ‘Crucifica-O!’ (Mc 15,13). E, frisando a índole manipulável desse brado, verifica o Pontífice:
Não é um grito espontâneo, mas grito pilotado, construído, que se forma com o desprezo, a calúnia, a emissão de testemunhos falsos. É o grito que nasce na passagem dos factos à sua narração, nasce da narração. É a voz de quem manipula a realidade criando uma versão favorável a si próprio e não tem problemas em ‘tramar’ os outros para ele mesmo se ver livre.”.
Além de provir de falsa narrativa, diz o Papa, acentuando a trama, soberba e autossuficiência:
O grito de quem não tem escrúpulos em procurar os meios para reforçar a sua posição e silenciar as vozes dissonantes. É o grito que nasce de ‘maquilhar’ a realidade, pintando-a de tal maneira que acabe por desfigurar o rosto de Jesus fazendo-O aparecer como um ‘malfeitor’. É a voz de quem deseja defender a sua posição, desacreditando especialmente quem não se pode defender. É o grito produzido pelas ‘intrigas’ da autossuficiência, do orgulho e da soberba, que proclama sem problemas: crucifica-O, crucifica-O!”.
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E, voltando à apoteose da entrada de Jesus na sua Cidade de Jerusalém e no Templo onde, como diz Marcos, “tendo examinado tudo em seu redor, como a hora já ia adiantada, saiu para Betânia com os Doze” (Mc 11,11), constata o Papa argentino:
No fim, silencia-se a festa do povo, destrói-se a esperança, matam-se os sonhos, suprime-se a alegria; deste modo, no fim, blinda-se o coração, resfria-se a caridade. É o grito do ‘salva-te a ti mesmo’, que pretende adormecer a solidariedade, apagar os ideais, tornar insensível o olhar... O grito que pretende cancelar a compaixão, aquele ‘padecer com’, a compaixão, que é o ponto fraco’ de Deus.”.
Perante cenários como este, o discurso papal apresenta como o melhor antídoto a atitude de “olhar a cruz de Cristo” e a de se deixar “interpelar pelo seu último grito”. Na verdade, “Cristo morreu, gritando o seu amor por cada um de nós: por jovens e idosos, santos e pecadores, amor pelos do seu tempo e pelos do nosso tempo”. E é curioso notar como o Papa sustenta a profundeza e sobrevivência da alegria e a genuinidade da misericórdia:
Na sua cruz, fomos salvos para que ninguém apague a alegria do Evangelho; para que ninguém, na própria situação em que se encontra, permaneça longe do olhar misericordioso do Pai. Olhar a cruz significa deixar-nos interpelar nas nossas prioridades, escolhas e ações. Significa deixar-nos interrogar sobre a nossa sensibilidade face a quem está a passar ou a viver momentos de dificuldade.”.
Face ao mistério da alegria e misericórdia cravadas na cruz, é de perguntar o que vê o coração de cada um, ou seja, se “Jesus continua a ser motivo de alegria e louvor no nosso coração” ou se nos envergonhamos “das suas prioridades para com os pecadores, os últimos, os abandonados”.
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Depois, articulando o espírito da celebração litúrgica de hoje com a da XXXIII Jornada Mundial da Juventude, tendo como pano de fundo a reunião pré-sinodal terminada a 14 de março, cujas conclusões forma hoje entregues, e no horizonte do próximo Sínodo sobre Os jovens, a fé e o discernimento vocacional”, Francisco volta-se para os jovens ali presentes:
E, no vosso caso, queridos jovens, a alegria que Jesus suscita em vós é, para alguns, motivo de fastídio e também irritação, porque um jovem alegre é difícil de manipular. Um jovem alegre é difícil de manipular.”.
E recordou o possível terceiro grito de hoje, o das pedras. Com efeito, alguns fariseus, do meio da multidão, pediram a Jesus que repreendesse os discípulos. E ele replicou:
Digo-vos que, se eles se calarem, gritarão as pedras” (Lc 19,39-40).
E o Pontífice reconhece que “silenciar os jovens é uma tentação que sempre existiu” e que “há muitas maneiras de tornar os jovens silenciosos e invisíveis” ou “muitas maneiras de os anestesiar e adormecer para que não façam barulho, para que não se interroguem nem ponham em discussão”. E insiste:
‘Vós… calai-vos!’ Há muitas maneiras de os fazer estar tranquilos, para que não se envolvam, e os seus sonhos percam altura tornando-se fantastiquices rasteiras, mesquinhas, tristes.”.
Nós bem sabemos quantas iniciativas, festas e espetáculos se organizam para distrair os jovens e os desviar do trabalho, do acesso ao conhecimento, da reflexão temática e da consequente intervenção na vida social e política, ficando margem de manobra para a serventia aos grandes interesses, sem contestação anímica e sustentável.  
Por isso, o Papa entende que, neste Domingo de Ramos, em que celebramos o Dia Mundial da Juventude, nos faz bem “ouvir a resposta de Jesus aos fariseus de ontem e de todos os tempos (também os de hoje): ‘Se eles se calarem, gritarão as pedras’.” (Lc 19,40).
E em tom interpelativo, desafia:
Queridos jovens, cabe a vós a decisão de gritar, cabe a vós decidir-vos pelo Hossana do domingo para não cair no ‘crucifica-O’ de sexta-feira... E cabe a vós não ficar calados. Se os outros calam, se nós, idosos e responsáveis (tantas vezes corruptos), silenciamos, se o mundo se cala e perde a alegria, pergunto-vos: vós gritareis?”.
E, por fim, o apelo claro:
Por favor, decidi-vos antes que gritem as pedras...”.
2018.03.25 – Louro de Carvalho

domingo, 25 de fevereiro de 2018

Fez da Santidade o seu caminho, sempre ao lado dos mais necessitados


É a grande referência que o Presidente da República fez ao Padre Dâmaso Lambers, sacerdote luso-holandês que se distinguiu pela pastoral das prisões e pela comunicação através da Rádio Renascença e que faleceu no Hospital da Ordem Terceira, em Lisboa, no passado dia 22 de fevereiro, com 87 anos de idade. Escreveu Marcelo Rebelo de Sousa em nota publicada na página Web da Presidência da República:
Morreu um Homem Bom, que fez da Santidade o seu caminho, sempre ao lado dos mais necessitados; o Padre Dâmaso Lambers, nascido na Holanda mas que morreu, como era seu desejo, em Portugal, país que fez seu há mais de seis décadas”.
O Chefe de Estado prestou, assim, homenagem ao homem que viveu “uma vida feita de constante dádiva, mas também de combate pela Liberdade” e que, a 10 de junho de 2009, o então Presidente da República, Cavaco Silva, agraciou com o grau de Grande-Oficial da Ordem do Mérito. Marcelo conclui, na mensagem divulgada através da Presidência da República:
O Padre Dâmaso deixa, na Rádio Renascença e nos seus ouvintes, nos ex-reclusos que quis reintegrar através d’O Companheiro, em cada um dos que foram tocados pela sua Alegria, um testemunho vibrante de Fé e de amor pelo próximo”.
Era inconfundível o sotaque arranhado e o entusiasmo com que falava da vida. “Jesus é fantástico!”, não se cansava de repetir. Dâmaso Lambers nasceu na Holanda, sofreu a II Guerra Mundial e, aos 27 anos, passou a dedicar a vida a Portugal. Conhecido como o padre das prisões, nunca aceitou a normalização da pobreza, fez da Renascença a segunda paróquia e a sua cátedra. Morreu deixando por onde passou um rasto de amor paciente, não interesseiro.
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Hermano Nicolau Maria Lambers – de seu nome de nascimento e de Batismo – nasceu a 9 de junho de 1930 na Holanda, ainda na ressaca na I Guerra Mundial. Sendo o mais novo de seis irmãos, adoecera aos poucos meses de idade; e os pais consagraram-no a Deus e entregaram-no aos cuidados de Santa Teresinha. Salvou-se. Aos 7 anos, fez a Primeira Comunhão e desde aí recebeu o Senhor todos os dias da sua vida.
Tinha 10 anos quando as tropas nazis de Adolf Hitler invadiram o país. Cruzava-se com os soldados alemães na missa de domingo e passava os dias a procurar lenha para aquecer os idosos e doentes, porque os invasores roubavam todo o carvão. No meio da guerra, da destruição e da morte de vizinhos, amigos e conhecidos, Hermano começou a refugiar-se na fé, desaparecendo, muitas vezes, de perto dos irmãos para ser encontrado pouco depois, de joelhos, a rezar no quarto. Ainda Hitler não se tinha rendido quando manifestou a intenção de ser padre. Porém, ao atingir a idade de preparação para concretizar tal desígnio (18 anos), os seminários holandeses estavam totalmente destruídos pelos bombardeamentos. Foi, pois, orientado pelos padres da Congregação dos Sagrados Corações de Jesus e de Maria – à qual se juntou mais tarde – e foi ordenado em 1955, aos 25 anos. Foi nessa altura que adotou o nome Dâmaso.
A 7 de maio de 1945, em Reims, os alemães assinaram a rendição. Era a capitulação do regime nazi e o fim da II Guerra Mundial. Dâmaso passou os anos da guerra na Holanda ocupada pelos alemães. Tinha 15 anos quando o conflito acabou, mas foi no último dia de combates, junto à sua cidade, Breda, que viveu os verdadeiros horrores da guerra.
O jovem queria ser missionário em terras exóticas: segundo alguns, na América Latina, segundo outros, na Polinésia, e ainda, segundo outros, nas ilhas Cook e na Nova Zelândia. Porém, o superior provincial disse-lhe que o Cardeal-patriarca de Lisboa precisava de três padres para as missões populares na Província. E, embora tendo visto a mudança de planos com um natural desagrado, tal como fez sempre, obedeceu. Assim, em 1957, veio para Portugal, donde nunca mais se foi embora. Instalou-se num convento na Penha de França, onde estava a congregação dos “Sagrados do Coração de Jesus e Maria” de que era membro. Aquela zona da cidade era pobre. Eram muitas as barracas, que se espalhavam pelas encostas dos arredores. Começou na JOC com o trabalho social de acolhimento aos pobres e acabou a construir uma pequena capela para celebrar missa para eles e no meio deles. Um pouco mais tarde, viveu o seu período mais feliz como pregador dos Cursilhos de Cristandade cujo movimento ajudou a introduzir em Portugal. Dois ou três anos depois de chegar a Lisboa já era um pregador conhecido e o Padre João Gonçalves, que participara no movimento em Espanha, pediu-lhe ajuda para trazer o movimento para Portugal. Fê-lo durante muitos anos e experimentou com isso uma felicidade crescente, mas sem porquê a hierarquia afastou-o desse trabalho.
Sentiu-se injustiçado a ponto de nem o sentido de perdão e o apurado senso de obediência terem permitido que tal ferida sarasse totalmente, pois, sempre que falava do assunto, parecia que se lhe turvava o olhar – parecendo esta a única coisa “imperdoável” para este padre luso-holandês.
Entretanto, dois anos depois de estar a viver em Portugal, foi convidado para dar uma conferência na prisão feminina de Tires: correu tão bem que o convidaram para repetir a exposição noutras cadeias, um pouco por todo o país. Embora, a princípio, nem achasse grande ideia o ser-lhe confiado, como se de paróquia itinerante se tratasse, o serviço nas prisões, a sua índole pragmática de nórdico fez-lhe perceber que tinha ali encontrado a sua principal vocação, pelo que acolheu obedientemente o pedido do Prelado.
Primeiro como visitador, depois como capelão, ajudou inúmeros homens e mulheres a encontrar Jesus dentro de quatro paredes. Ficou conhecido como o “padre das prisões”.
Porém, a dada altura, reconheceu que pregar a Boa Nova e ajudar com bens ou com o próprio dinheiro deixou de ser suficiente. Decidiu, por isso, fundar, em 1987, “O Companheiro”, uma organização que ainda existe e que se dedica a ajudar ex-reclusos a reintegrar-se na sociedade. Entretanto, conheceu o Monsenhor Lopes da Cruz, fundador da Rádio Renascença, e tornou-se colaborador da Emissora Católica até ao fim da vida. Foi presença diária com o programa “Caminhos da Vida” e mentor para muitos que por lá passaram. Nas novas instalações da Rádio Renascença, na Quinta do Bom Pastor, na Buraca, existe uma sala com o seu nome. Na verdade, além da obra relacionada com a Pastoral penitenciária, de que foi pioneiro, que incrementou e a que deu pernas para andar – trabalho que, marcou profundamente a sua vida, segundo confessou à agência Ecclesia, por ocasião dos 60 anos da sua ordenação sacerdotal, em 2015, quando foi lançado o livro Uma vida de Doação –, tornou-se conhecido como “Voz da Rádio Renascença”.
Esta voz finou-se aos 87 anos. O corpo esteve em câmara ardente na Igreja de Nossa Senhora do Amparo de Benfica a partir das 16 horas do dia 23. O Cardeal-patriarca de Lisboa, Dom Manuel Clemente, presidiu ali à celebração das exéquias solenes às 10,30 horas do passado dia 24 – celebração que juntou diversas personalidades, entre elas o anterior e o atual presidente do Conselho de Gerência da Rádio Renascença, os cónegos João Aguiar e Américo Aguiar.
O corpo do Padre Dâmaso Lambers passou às 16,30 horas pelo estabelecimento prisional do Linhó, onde acompanhou vários reclusos e seguiu, depois, para o cemitério de Alcabideche onde foi cremado.
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O Cardeal-patriarca de Lisboa agradeceu hoje ao padre Dâmaso Lambers o seu “testemunho” do que é uma vida “verdadeiramente apanhada por Jesus Cristo”. Dom Manuel Clemente, que visitou o sacerdote hospitalizado, recordou, na homilia, os “sinais e incentivos” de uma “alma cheia de Jesus Cristo”. E especificou:
Não só na sua cama, mas na cama ao lado, eu via livros, Evangelho e orações… tudo cheio de sinais e incentivos para esta vida fantástica de Jesus Cristo, que lhe enchia a alma e, por isso, lhe preencheu a vida”.
A vida do sacerdote “iniciada há muitos anos na Holanda, desde cedo marcada por uma forte vocação” foi relembrada durante a celebração que juntou diversas pessoas que acompanharam “na terra uma vida que já se completa no céu”.
Dom Manuel Clemente recordou as vezes em que, “já noite muito andada, tínhamos o Padre Dâmaso, sacerdote holandês que se tornou cidadão português com a alvorada evangélica”, aos microfones da Renascença, ou no acompanhamento “aos seus reclusos, como dizia”. E frisou:
A consciência de que estivesse onde estivesse, nas prisões, nas pregações, também nesta igreja onde ele tantas vezes pregou a Paixão e Via-Sacra, esta convicção de que não estava por ele, mas por aquele que lhe enchia a vida”. […] Que magnifico exemplo e testemunho forte do que é a vida de Jesus Cristo quando é verdadeiramente apanhada.”.
Na celebração, que “ele quis que fosse já de ressurreição”, aliás como quer a Igreja, as leituras foram antecipadamente escolhidas. E o presidente da celebração declarou e explicou:
Damos graças a Deus. Ele também quis que esta celebração fosse de ação de graças, disse-o e escreveu-o. Que não fosse uma celebração de pesar, mas que fosse já de ressurreição.”.
E Dom Manuel Clemente finalizou com um “Muito obrigado ao Padre Dâmaso”.
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Do Padre Dâmaso Graça Franco, da Renascença diz que “só é difícil explicar o que é um Santo aos que nunca tiveram a sorte de, muitas vezes e ao longo de vários anos, tomar o pequeno-almoço ao lado do padre Dâmaso Lambers”. Com efeito, “quem o conheceu ficou a saber que ‘Jesus é fantástico!’ e que a sua presença real na Eucaristia, ‘ainda é mais fantástica’!”. Era um padre “muito feliz”! Era o que ele repetia vezes sem conta. De facto, “nas suas mãos via a maravilha de trazer ‘um pouco do céu para oferecer a cada um e a cada uma na terra’ e essa maravilha era a causa da sua imensa felicidade”.
Depois, “a cada um e a cada uma repetia ‘sejam felizes’, como se fosse a nossa primeira obrigação nesta passagem pela Terra”. E, tal como o Papa se despediu do povo, logo na sua entrada no papado com um simples “adeus e bom almoço”, ele despedia os fiéis da missa não se limitando ao litúrgico “Ide em paz…” mas adicionando-lhe um “E sejam felizes!”. Assim, “não admira que os seus melhores amigos fossem os que ainda estavam ou já tinham saído da prisão: “gente fantástica” pelo simples facto de ser gente, fosse o que fosse que tivessem feito.
Graça Franco chama “nosso” ao Padre Dâmaso e diz que, “se houve prova encarnada do Amor infinito e misericordioso de Deus, foi o nosso padre Dâmaso”. Na verdade, esteve na Rádio Renascença desde 1976. “Primeiro numa série semanal de três programas (dirigidos aos doentes, aos reclusos e ao cidadão comum) depois nos mais diversos programas incluindo madrugada dentro numa conversa de tu a tu com os ouvintes”.
Diz Graça Franco que Dâmaso “não queria ir depressa”, que gostava muitíssimo de “estar vivo” e que gostava de que “a sua vida fosse o mais longa possível, porque aqui dava ideia de já estar plenamente com o Pai” – “essa pessoa ‘fantástica’ com a qual parecia ter-se encontrado num exato momento como se fosse desde sempre”.
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Educado em país protestante, muitas coisas lhe faziam “confusão” no catolicismo “folclórico” português. Pré-conciliar por formação e pós-conciliar por temperamento, não havia carimbo que se lhe pespegasse (esquerda/direita, conservadorismo/progressismo): “era simplesmente ele”. Indignado com os gastos supérfluos enquanto os pobres precisavam de ajuda, não foi à inauguração do Cristo Rei em Almada. A vivência e sobrevivência na II Guerra Mundial marcaram-lhe a vida: recebia mal “um certo aparato ostensivo tido por natural na década de 50/60”. O Rei que ele servia dispensava colunatas de milhares que poderiam ser utilizados para ajuda aos pobres.
Grande devoto de Maria, para ele era quase incompreensível a excessiva religiosidade popular em torno de Nossa Senhora de Fátima. Escandalizava-o, ao levar anos a fio aos pobres a Imagem peregrina, que se reduzisse a Mãe de Deus a uma ‘santinha’ a quem se pedem graças, quando ela viera implorar orações pelos outros, pela paz, pela conversão dos pecadores. Recorde-se o que disse o Papa Francisco em Fátima sobre o culto de Nossa Senhora e veja-se como Dâmaso Lambers tinha razão no seu desconforto e no incómodo que suscitava. “Tinha um amor a toda a prova pela Mãe de Deus, mas no centro da sua fé estava o filho Salvador. É o acento cristológico do culto mariano do “Per Mariam ad Iesum”.
Se ele “mandasse”, deviam ser proibidas as festas e romarias, pois, na sua ótica, eram “um disparate” que “fazia muito mal ao povo”, dando-lhe a falsa ideia de um Deus caricatural. E era-lhe muito difícil de aceitar os Santos Populares, pois, das marchas às sardinhas, ficavam esquecidas, apagadas, a verdadeira figura de Pedro, o primeiro Papa, a de João Batista, o grande precursor de Jesus Cristo, e a de Santo António, o primeiro santo da ordem franciscana e Doutor da Igreja - três homens que nada têm a ver com bailaricos e bebedeiras ou festanças fúteis.
Homens como Dâmaso, em testemunho de humildade, e fé, arrastando pelo exemplo e pela palavra e capazes de nos mover, aproximando o nosso coração de Cristo, são mesmo ‘Santos’ no verdadeiro sentido – “mesmo sem processo de beatificação ou de canonização, mesmo sem nenhum milagre relatado ou provado, e mesmo que tais processos nunca venham a ocorrer”.
O Padre Lambers que não gostava de pedir nada para não incomodar ninguém, nem a Deus porque só via razões para lhe dar graças, partiu com uma série de pedidos de todos nós para apresentar ao Pai do Céu. Fá-lo-á por puro Amor – paciente, prestável, sem inveja ou orgulho, sem inconveniências, não interesseiro, sem ressentimento, justo, alegre com a verdade e tudo desculpando, crendo, esperando e suportando (cf 1Cor 13,4-7) – que foi o segredo e o motor da sua vida. (cf Graça Franco, Rádio Renascença, 22 fev, 2018 - 20:23).
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Da minha parte, devo-lhe especial preito de homenagem. Para lá do que foi referido, orientou, de forma agradável, em setembro de 1979, o retiro do clero de Lamego, em que participámos os que iríamos ser ordenados de sacerdotes a 29 de setembro. Por isso, daqui a minha saudação aos Padres Adriano Alberto Pereira, António Lemos de Almeida e Armindo da Costa Almeida.
E as ideias que ele na ocasião deixou sobre a devoção Maria, o desconforto com o aparato eclesiástico e a crítica ao excesso de despesas com bens materiais em detrimento dos necessitados coincidem com o que diz Graça Franco. Todavia, no atinente às romarias e aos santos populares, embora advertisse para o grave perigo do resvalo para a caricatura de Deus e para o esquecimento do fundamental, pugnava então, contra o que pensávamos nós, pela purificação destes eventos. Seja como for, trata-se dum lutador, dum apóstolo, dum santo!
2018.02.25 – Louro de Carvalho