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segunda-feira, 10 de junho de 2019

Libertar a educação da “ditadura dos resultados”


Francisco enviou uma videomensagem aos participantes na OIEC (Organização Internacional da Educação Católica) que se reuniram em Nova Iorque de 5 a 8 de junho para o seu Congresso Mundial. O tema do evento é “Educar ao humanismo da fraternidade para construir uma civilização do amor”. E foi justamente ao humanismo que o Pontífice dedicou a sua mensagem, referindo que a pessoa na sua integralidade deve estar no centro da ação educativa, o que é fundamental ter em conta face à complexa série de desafios que os educadores contemporâneos são chamados a superar.
Recordando, a este propósito, o ensinamento do Concílio Vaticano II e citando o magistério de São João Paulo II, Francisco afirmou que a perspetiva humanística não pode não compreender a educação ecológica, para promover uma aliança entre a humanidade e o meio ambiente. E, recordando o testemunho de santas e santos educadores, cujo exemplo é um farol luminoso que pode iluminar o serviço da Organização, observou que se trata de “um desafio não fácil, que certamente não pode ser enfrentado isoladamente”.
No âmbito dos desafios acima aludidos, o Pontífice vincou a tendência à desconstrução do humanismo, verificando:
O individualismo e o consumismo geram uma competição que mina a cooperação, ofusca os valores comuns e ameaça na raiz as regras de convivência mais basilares”.
A este junta-se o panorama da cultura da indiferença, para o que Francisco propõe uma sinergia entre as diversas realidades educativas, sentenciando:
Reconstruir o humanismo significa também orientar o trabalho educativo rumo às periferias sociais e existenciais”.
Lembrando que os frutos da educação ultrapassam os muros das escolas, assegura que se estendem á sociedade, gerando uma ampla inclusão e criando a igualdade de oportunidades.
Não obstante, o Pontífice sente a necessidade de alertar para outro perigo que ameaça a delicada tarefa da educação: é a “ditadura dos resultados”. Esta ditadura considera a pessoa como um objeto de laboratório, guiada pela lógica da produção e do consumo. E é ela que gera um outro risco, o representado pela obsessão da “rapidez”, que desfecha a existência no vórtice da velocidade, transformando continuamente os pontos de referência. E frisa o Santo Padre:
Ao caos da velocidade deve responder-se restituindo ao tempo o seu fator primário, especialmente na idade evolutiva da infância à adolescência. De facto, a pessoa necessita de um próprio percurso temporal para aprender, consolidar e transformar as consciências. Reencontrar o tempo significa também apreciar o silêncio e parar para contemplar a beleza da criação.”.
E, para vencer estes obstáculos, diz o Papa que é preciso colocar no centro da ação educativa a pessoa na sua integralidade. Para tanto, necessita-se de educadores competentes, qualificados e, ao mesmo tempo, ricos em humanidade, pois, segundo o Pontífice, “o educador deve unir em si qualidades de ensino e capacidade de atenção e cuidado amoroso pelas pessoas”.
Por fim, vem o apelo a que não se perca a confiança, se olhe para o alto sem temor e se trabalhe para libertar a educação de um horizonte relativista para que ela se abra à formação integral de cada um e de todos.
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A reflexão sobre a videomensagem papal tem pleno cabimento em Portugal pelo estado a que chegou a escola e a educação – estado bem espelhado no JN, de 7 de junho, na página 6, que denuncia que “a indisciplina nas salas de aulas está a prejudicar o ensino” e é um dos motivos por que muitos pais procuram “cada vez mais explicadores para os filhos” e cada vez mais cedo, “logo no 1.º Ciclo”. Com efeito, a ansiedade e a pressão pelas notas impõem a venda de explicações e aulas particulares não apenas a disciplinas tradicionalmente consideradas mais complicadas, como a Matemática, mas também cada vez mais a outras, como “as línguas, as Ciências e, até, o Português”.
Assim, no OLX, música, guitarra e piano são as disciplinas mais caras, seguidas de Direito (19€) e Contabilidade (16€). No ExplicaMais, os valores rondam 12€/hora (Ensino Básico) a 14€/hora (Ensino Secundário). O preço médio estável há vários anos é 12€/hora.
Quem está no setor garante que o preço não tem subido porque há cada vez mais explicadores: a partir de 5€/hora para o 1.º Ciclo e podendo passar dos 20€ por hora no Secundário.
Desculpam-se os pais com a indisciplina e esquecem que, muitas vezes, as aulas particulares, quando não se justificam realmente, só complicam mais as situações de desinteresse dos alunos e indisciplina em sala de aula.
Ora, se o explicador prestasse um serviço de apoio suplementar ao trabalho do professor, tirando dificuldades ao aluno, poderia daí advir mais-valia. Mas isso encontra-se estatuído na escola nos apoios pedagógicos, salas de estudo e estudo acompanhado, só que os pais, porque os filhos não querem esses apoios preferem pagar fora. E anda o Estado a fazer o esforço orçamental para prestar um serviço educativo gratuito. Depois, se o explicador não tivesse a sua própria agenda, que a tem e refinada, se integrado nos ditos centros de estudos (muitos com explicações do 1.º ao 12.º ano), o que leva, não à explicação, mas ao adestramento pela multiplicação de exercícios de teste de exame ou de prova, para o que até, por ínvios atalhos, alguns conseguem fotocopiar testes e matrizes de testes que são feitos na escola pública, obviamente após executados e avaliados. Por outro lado, às vezes, o explicador, em vez de efetivamente explicar, o que se torna difícil, faz ou ajuda a fazer os exercícios, o que dá ao aluno em sala de aula a sensação do trabalho feito, o desinteresse, a arrogância e a insolência, quando o professor dá conta de que algo está errado, por diferença de critérios de interpretação das questões, por má transcrição ou porque o aluno não percebera nem decorara ou porque não sabe aplicar a novas situações.   
Isto resulta de quê? Exatamente da ditadura dos resultados que o Papa denuncia. Recordo que, aquando da publicação da LBSE (Lei de Bases do Sistema Educativo), a Lei n.º 46/86, de 14 de outubro, muito se insistia em que a avaliação devia ter um pendor predominantemente formativo e recair não só nos resultados, mas em todo o processo de avaliação-aprendizagem. Mais: os testes ou provas (“prova” é palavra melhor para a realidade portuguesa) são um instrumento de avaliação, a par de tantos outros. As próprias direções-gerais de ensino chegaram a referir que não é obrigatório sujeitar os alunos a testes, o que ficaria ao critério do professor.
Porém, a partir do momento em que o Ministério da Educação decidiu disponibilizar dados para a organização de rankings de resultados, matou a filosofia da LBSE e, por mais voltas que deem ao texto, são os resultados de exame que mais contam, até porque os professores fazem o serviço que as instituições do ensino superior deviam fazer. As escolas bem tentaram, no quadro da avaliação interna continuar a obedecer aos normativos que impõem a avaliação diagnóstica, a avaliação formativa e a avaliação sumativa. Mas duvido de que hoje consigam ultrapassar a cultura do teste e da preparação para exame. Até as novelas badalam que os alunos não podem faltar ao teste e têm que estudar para os testes (como as escolas de condução automóvel). E a escola resume-se aos testes – isto para não observar, porque fecho os olhos, que há encarregados de educação que fazem o “copianço” ao/à menino/a, talvez porque o/a menino/a não teve tempo para estudar. Talvez por isso é que os programas não devem mudar! Pouco interessa que o aluno saiba; importa é a nota alta. Adeus, desenvolvimento do “eu” do aluno e preparação para a participação na vida social, laboral, cultural, económica e política!
Depois, não admira que as explicações se vendam em plataformas online como o OLX, sítio onde “mais se anunciam e procuram explicadores”, referindo o JN que, “com perto de dois mil anúncios na categoria ‘explicações e aulas particulares’, no OLX os termos mais pesquisados nos últimos dois meses são “1.º Ciclo” e “preparação exame”; e que, em termos de disciplinas, “a Estatística vem antes da Contabilidade e só depois surgem Físico-Química, Francês, Biologia, Inglês e Português”.
João Carlos Pereira, um dos líderes do Movimento Professores Precários, sublinha:
A indisciplina leva os professores a perderem grande parte das aulas a falar de regras e não a dar matéria. As turmas com quase 30 alunos também não ajudam. O resultado é que, quem quiser que os filhos estejam preparados tem de procurar ajuda fora.”.
Embora veja a coisa ao contrário, tem razão numa coisa: para os profissionais deslocados de casa e com horários incompletos, “o rendimento das explicações” acaba por ser ‘uma questão de sobrevivência’ para muitos”.
Para Rui Martins, presidente da CNIPE (Confederação Nacional Independente de Pais e Encarregados de Educação), aumentou “a pressão dos pais para os filhos terem boas notas”. E Jorge Ascensão, presidente da CONFAP (Confederação Nacional das Associações de Pais), responsabilizando o sistema por estar “demasiado orientado para resultados quantitativos”, rejeita a responsabilidade das famílias na “indisciplina, que sempre existiu” e fala de “irreverência”, com que “os professores não sabem lidar” numa altura em que “a escola mudou”, tendo de acomodar todos, os que querem lá estar e os que não querem”.
É óbvio que a escola mudou, mas os professores também se adaptaram. E só é pena que o Estado persista na desumanidade de manter na escola professores sujeitos a burnout laboral sobre a idade avançada e carreira contributiva relativamente longa numa profissão de enorme desgaste. Porque não lhes faculta a aposentação sem penalizações, renovando os quadros?   
Quanto à irreverência apontada pelo líder da CONFAP, dispenso o eufemismo, porque sempre fui irreverente e nunca fui indisciplinado nas aulas. E a maior parte da indisciplina e arrogância dos alunos vem de famílias que ou não dão exemplo ou não cuidam da educação dos filhos, bem como do caldo de cultura de irresponsabilidade e consumismo criado na sociedade. Além disso, quem deve intervir para a correção destas situações pouco faz porque não lhe é reconhecida autoridade ou não apoia quem tenta inverter a situação.
Filinto Lima, presidente da ANDAEP (Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas), admite que a escolaridade obrigatória pode ser como que uma pena para “os alunos desmotivados, que se transformam em indisciplinados”, e castigo para os colegas pressionados pelos pais para terem boas notas. Mas garante que não é por falta de preparação dos professores que os alunos precisam de explicações.
Para os explicadores, como refere João Carlos Pereira, as explicações são uma “oportunidade de conseguir suportar as despesas de deslocação”, pois, muitas vezes, com horários incompletos, mal conseguem pagar o alojamento e alimentação”. Ora, o rico esquece que isto não é forma de resolver a vida do professor, que não pode andar às migalhas. E o Estado tem de intervir pagando melhor e disciplinando as autorizações para acumular.
Outra razão para a caça às explicações é a tecnologia. Com efeito, os jovens licenciados encontram oportunidades no setor. Há-os ainda novinhos que dão explicações online e não têm mãos a medir. Começaram pelas explicações presenciais, mas, com a mudança de cidade, passaram a dar explicações 100% online. Descobriram que muitos dos alunos estão mais atentos ao computador do que em presença e alguns até melhoraram as notas. Conseguem trabalhar de segunda-feira a sábado de manhã e, por vezes, aos domingos. Têm a vantagem de poderem fazer isto em qualquer parte do Mundo”.
Melhoram as notas. Resta saber se incorporam o conhecimento e as habilidades…
Segundo o JN, um pouco mais de metade dos inscritos nos exames nacionais pretendem seguir estudos superiores (55% em 2018). Este ano, o total de inscritos variará pouco em relação ao ano passado (cerca de 160 mil alunos), pelo que se mantém a estrutura dos cursos de origem (a maioria provém de Ciências e Tecnologias) e dos exames a realizar. Português é a prova com mais inscritos (perto de 80 mil) – não admira: e comum a todos os alunos –, seguindo-se Biologia e Geologia (48 mil) e Matemática A (48 mil). Filosofia será o primeiro exame da primeira fase, a 17 de junho.
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Alberto Verones (https://www.comregras.com/indisciplina-nas-aulas-vende-mais-explicacoes/) escreveu, a 7 de junho, no blogue “Com Regras”, que “talvez se comece a perceber” que a indisciplina “é o mal maior das escolas públicas em Portugal”. Na verdade, que se pode dizer quando se recorre “às explicações apenas para que os explicadores façam o que os professores não conseguem, por estarem constantemente a interromper as aulas para chamar a atenção, relembrar regras”?
De facto, é incompreensível que tenhamos “desde do primeiro ano de escolaridade alunos que carecem de explicações, não devido a dificuldades, mas sim devido à impossibilidade da criação de um ambiente propício em diversas escolas do país”.
E o professor interroga-se se “é este o papel inclusivo que se quer de uma educação universalizada e de inclusão” e se “a flexibilização e inclusão resolvem este problema”.
Por isso, segundo este professor, tem de haver coragem “para que se assuma o problema” e “ para atacá-lo de frente sem medos nem receios”.
Reconhecendo que “muito fazemos nós, que em ambientes, por vezes, de enorme hostilidade ainda conseguimos”, sentencia:
Quando um aluno depende, exclusivamente, de uma explicação para aprender o que a escola não lhe consegue ensinar, estamos a caminhar perigosamente para o fim dessa escola”!
Concordo em absoluto com estas asserções e sugiro que a escola não se deixe enredar com eufemismos como a da substituição da “indisciplina” pela “irreverência”, dos alunos “mal comportados” pelos “alunos hiperativos” e outros que tais. Por outro lado, acabe-se com a fantochada da avaliação na área dos valores, atitudes e comportamentos. Essa história é um pressuposto para a frequência da escola no exercício equilibrado do direito de aprender e na correspondência à oferta educativa. Assim, a assiduidade, a pontualidade, regras e tarefas são um dever; e as outras valências valorativas (autonomia, responsabilidade, cooperação, etc.) devem ser todas em conta em casos-limite em que o aluno está numa situação tangencial de sucesso. O resto é poesia e muito barata.    
2019.06.10 – Louro de Carvalho

sexta-feira, 6 de abril de 2018

Dizer a humanidade com voz de mulher / Repensar o humanismo


São dois temas a abordar nos próximos dias 10 e 11 de abril, no Auditório Padre José Bacelar e Oliveira, na Universidade Católica (UCP), em Lisboa (Edifício Antigo), numa conferência em italiano e português com tradução simultânea, com entrada livre.
É uma iniciativa do CITER (Centro de Investigação em Teologia e Estudos de Religião), da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa, em parceria com o Instituto Italiano de Cultura, a corresponder ao desígnio da Comissão Episcopal da Educação Cristã e Doutrina da Fé. E integra o programa “Lições sobre os Estudos de Religião”, que, segundo o CITER, procura promover a disciplina académica dos Estudos de Religião enquanto Estudos de Cultura, investigadores reconhecidos nesta área que apresentam os seus estudos recorrentes.
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A iniciativa traz a Lisboa Lucetta Scaraffia, professora de História Contemporânea da Universidade de Roma La Sapienza, para nova lição sobre os “Estudos da Religião”.
A “lição” realizar-se-á a 10 de abril, pelas 16,30 horas, na sede da UCP em Lisboa. Segundo o comunicado da UCP oportunamente divulgado, Lucetta Scaraffia vai destacar o modo como “entre os humanismos a construir num diálogo entre vozes diferentes e não necessariamente reconciliáveis, não pode faltar a voz da mulher, como uma forma de expressão de subjetividades que, na história milenar da humanidade, foram confinadas à mera funcionalidade biológica e a uma condição de subordinação e mutismo social, na radical remoção e mortificação da sua autonomia simbólica, ética e antropológica”. Com efeito, “nenhum humanismo pode renascer no nosso tempo se não for nele audível uma inconfundível voz de mulher”.
Neste sentido, a também ensaísta e coordenadora do suplemento mensal “Donne Chiesa Mondo” do “L’Osservatore Romano” vem desenvolver o tema “Dizer a humanidade com voz de mulher. Instâncias antigas, novas respostas”. Luísa Almendra, a moderadora da sessão, abrirá o debate em tempo oportuno.
A investigadora da história das mulheres e da história religiosa, dois campos de pesquisa que convergem numa série de trabalhos sobre a religiosidade feminina, nos últimos anos dedicou-se intensamente à reflexão histórica e teológica sobre o papel da mulher na sociedade e, em particular, na Igreja. Tornando-se porta-voz da necessidade de pensar e implementar novos espaços e modalidades de participação feminina na vida eclesial, Scaraffia destaca, em escritos como o seu diário de participação no Sínodo sobre a família, o facto de que “a Igreja estará dramaticamente atrasada em relação à história e ao Evangelho enquanto a diversidade de carismas que derivam da diferença de género permanecerem conjugados como exclusão e subordinação e não como igualdade efetiva.
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No dia 11 de abril, no mesmo local e à mesma hora, o teólogo Enzo Bianchi e o filósofo Massimo Cacciari conversarão sobre “O humanismo trágico da razão e o humanismo redimido da cruz. Diálogo ou ‘disputatio’?”. E o Padre José Tolentino Mendonça, que moderará a sessão, abrirá o debate em tempo oportuno.  
Massimo Cacciari é professor emérito da Faculdade de Filosofia da Universidade Vita-Salute San Raffaele de Milão, de que foi cofundador e primeiro presidente. Exerceu os cargos de professor de Estética na Faculdade de Arquitetura da Universidade de Veneza e de diretor do Departamento de Filosofia da Academia de Arquitetura de Lugano de 1998 a 2005. Foi cofundador e codiretor de algumas das revistas que marcaram a vida política, cultural e filosófica italiana entre os anos ‘60 e ‘90, de Angelus Novus a Contropiano, de Laboratorio Politico a Centauro e Paradosso.
Conhecido internacionalmente, ensina em várias universidades europeias e as suas obras estão traduzidas em muitas línguas. Combinou sempre as atividades científicas e culturais com um forte compromisso civil e político que o levou a ocupar o cargo de Parlamentar Europeu e de Presidente da Câmara Municipal de Veneza.
Enzo Bianchi nasceu em Castel Boglione, em Itália, a 3 de março de 1943. É o fundador e prior da Comunidade Monástica de Bose. É um monge secular, teólogo e ensaísta. A sua comunidade propõe uma escolha de vida cristã orientada para a radicalidade evangélica, que conjuga a tradição monástica em chave ecuménica, acolhendo monges católicos, protestantes e ortodoxos.
Formou-se em Economia na Universidade de Turim e é autor de um grande número de livros sobre espiritualidade e tradição de diálogo da Igreja com o mundo cristão contemporâneo. Colaborador regular de inúmeros jornais e revistas, em Itália, escreve para La Stampa e, em França, para La Croix, sendo os seus livros editados pela conceituada Einaudi. Fé, esperança, ética e perdão são alguns dos seus temas fundamentais. O Papa Francisco nomeou-o consultor pontifício do Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos.
Enzo Bianchi é uma das figuras de referência do catolicismo italiano: a nova humanidade que nasce do encontro com Cristo encarna-se na sua vida e na sua palavra num luminoso testemunho de fé em Cristo e de fidelidade ao homem e à Igreja.
O trabalho, a oração, a meditação da Palavra na lectio divina e a pregação catequética são os principais carismas desta Regra monástica. Porém, a comunidade de Bose não é uma ordem religiosa, mas uma associação de fiéis que vinculam a sua vida comunitária às regras da fidelidade ao Evangelho, da comunhão de bens e do celibato.
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Os intervenientes dos dois dias vão falar da “humanidade trágica e humanidade crucificada, perguntando-se o quão ‘sustentável’ seja uma humanidade desprovida de futuro, que desespera, ao reconhecer a própria condição trágica, e quão o seja uma humanidade que escandalosamente afirma poder esperar precisamente a partir da cruz, dando-se um futuro a partir da morte”.
A este respeito, a organização do evento assinala:
Se for verdade que a categoria do humanismo caracteriza o “nascimento” da sociedade moderna como um ‘renascimento’, no qual recuperar a continuidade com o passado constitui a condição para criar algo de radicalmente novo, reatar com a grande tradição do humanismo italiano é um passo indispensável para começar esta jornada para o futuro”.
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A filologia é dimensão essencial de um pensamento que se reconhece como dialógico, processual, nascido do encontro crítico com o passado para produzir propostas de interpretação do presente.
No projeto do CITER, a focalização desta passagem está confiada ao contributo do professor Cacciari, autor de um estudo fundamental sobre os humanistas italianos, que se apresenta como uma introdução histórico-filológica a um pensamento humanista do presente. Nesta reconstrução, o professor Cacciari mostra como a natureza dialógica da reflexão humanista não interessa apenas a interlocução com os autores do passado, mas também com o homem do futuro, numa radicalidade trágica (por encarar um desafio impossível) que obriga a razão a questionar as razões da fé, numa confrontação não pacífica, mas inquieta e dolorosa, num diálogo que é também disputa irreconciliável e sem fim. Tendo isto em conta, esta complexidade será transmitida de forma mais efetiva, se não for formulada apenas em termos de conteúdos, mas for explicada na forma da sua partilha, de modo que a intervenção do professor Cacciari será concebida na modalidade de diálogo-disputa em que se confrontam, colidem e se encontram duas tradições, duas imagens do futuro, dois recursos de humanidade – a razão e a fé.
O filósofo Massimo Cacciari e o monge leigo Enzo Bianchi são convidados a falar-nos de humanidade trágica e humanidade crucificada, perguntando-se o quão ‘sustentável’ seja uma humanidade desprovida de futuro, que “des-espera”, ao reconhecer a própria condição trágica, e quão o seja uma humanidade que escandalosamente afirma poder esperar precisamente a partir da cruz, dando-se um futuro a partir da morte.
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Criado em 2017, o CITER tem por objetivo a organização, promoção e divulgação, numa perspetiva multi e interdisciplinar, das investigações em Teologia e Estudos de Religião, favorecendo um intercâmbio ativo entre estas áreas científicas, bem como as ligações de cada uma delas com outros campos do saber. Ao tentar estabelecer uma ponte entre ciência e sociedade, o Centro favorece um debate público tanto em relação a questões centrais da atualidade sociocultural bem como aos fundamentos espirituais do ocidente.
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Uma grande oportunidade de debate e de repensamento da partilha de vida e de intervenção da parte de homens e mulheres, mais igualitária, e da reassunção do verdadeiro humanismo atento ao imanente e aberto ao transcendente!
2018.04.06 – Louro de Carvalho

segunda-feira, 26 de março de 2018

Reunião pré-sinodal dos jovens ou um forte sobressalto eclesial?


Vimos que no primeiro dia da reunião pré-sinodal, a 19 de março, Francisco incitava os 315 jovens a falar com coragem, sem medo, porque eles têm o direito de falar e de ser ouvidos, embora também devessem escutar o outro com humildade e respeito.
Os trabalhos inaugurados pelo Papa foram acompanhados por mais 15 mil jovens, através de 6 grupos linguísticos no Facebook, incluindo o português, com contributos incluídos no documento conclusivo.
E, no dia 25, Domingo de Ramos Na Paixão do Senhor, sabendo que havia muitas maneiras de calar os jovens para os distraírem, manipularem e não se deixarem interpelar por eles, o Pontífice desafiou-os a que se decidissem a não se calarem, antes que as pedras gritem.
Estes apelos-desafios trazem-me à memória o sobressalto democrático a que apelou Cavaco Silva a 9 de março de 2011, no discurso da posse e inauguração do seu segundo mandato presidencial, subentendendo referir-se a uma manifestação de jovens agendada para o dia 12 de março daquele mesmo ano. Mas há diferenças de atitude: o espírito do Papa é alimentar a participação eclesial global e setorial e não propriamente ou somente a política; o fim é o congraçamento e não a tensão; o Papa deu a cara estando presente quer na sessão inaugural quer no fórum da Praça de São Pedro; e foi entregue um documento final que o Pontífice e os dicastérios implicados vão analisar e que o Sínodo vai ter em conta.  
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A Via Sacra
Ora, no final duma semana de trabalhos, os jovens que participaram, em Roma, na assembleia pré-sinodal de preparação para o Sínodo dos Bispos que decorrerá em outubro foram convidados a participar numa Via Sacra na Basílica de São João de Latrão, sob a presidência do Cardeal Kevin Farrell, Presidente do Dicastério da Família, Leigos e Vida. Em cada estação, a leitura da Bíblia era acompanha da leitura dum testemunho dum jovem que já tinha morrido ou que tinha passado por dificuldades. No final, Farrell desafiou os jovens a conseguirem “olhar para Jesus e pedir a Graça de seguir o Seu exemplo, para não termos vergonha de ver quem foi preso, está doente, foi abandonado ou abusado, pois “não podemos mais fechar os nossos olhos para o sofrimento neste mundo”.
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O desafio à Igreja Católica a assumir mudanças da era dos ‘social media’
Foi neste ambiente de simplicidade com os olhos em Cristo presente na cruz do sofrimento dos homens que chegou ao fim a inédita reunião pré-sinodal que levou ao Vaticano mais de 300 jovens de todo o mundo, crentes e não crentes, para falarem da sua situação. E dela saíram apelos à Igreja a assumir as mudanças da era dos ‘social media’. O documento conclusivo dos trabalhos, divulgado pela sala de imprensa da Santa Sé refere:
Desejamos uma Igreja acessível através das redes sociais e dos vários espaços sociais”.
O texto original, que, ao contrário do habitual, é vertido em inglês e não em italiano, explicita:
O impacto dos ‘social media’ na vida dos jovens não pode ser subestimado, as redes sociais são uma parte significativa da identidade e do modo de vida dos jovens; os ambientes digitais têm um grande potencial para unir pessoas por cima de distâncias geográficas, como nunca antes”.
Porém, os participantes, incluindo três portugueses, admitem que a tecnologia pode potenciar situações de isolamento e aborrecimento, limitando os contactos a quem pensa da mesma forma. Com efeito, como assinala o documento, “faltam espaços e oportunidades para encontrar-se com a diferença”. Por outro lado, os participantes deixaram uma nota sobre o “desacordo” que existe entre muitos jovens em relação a ensinamentos da Igreja Católica nas áreas mais “controversas”, como a contraceção, o aborto, a homossexualidade ou o casamento. E observam que “os jovens podem querer que a Igreja mude o seu ensinamento” ou, pelo menos, que lhes dê acesso “a uma melhor explicação e a mais formação sobre estas questões”. Neste sentido, sublinham que os jovens “em conflito” com o ensinamento oficial querem “continuar a ser parte da Igreja” e que muitos outros aceitam estes ensinamentos como “fonte de alegria”.
O documento convida os católicos a irem ao encontro das pessoas nos locais onde elas socializam – nos bares, cafés, estádios ou espaços culturais –, além de locais onde se vivem dificuldades, como “orfanatos, hospitais, periferias, zonas de guerra, prisões, comunidades de recuperação e bairros de luz vermelha”.
A reunião pré-sinodal, convocada por Francisco para preparar a próxima reunião do Sínodo dos Bispos, que em outubro vai debater, no Vaticano, o tema ‘Os jovens, a fé e o discernimento vocacional’ produziu o aludido documento que, ao longo de 14 páginas, contém a síntese dos vários contributos recolhidos, manifestando o desejo de uma “Igreja autêntica, uma comunidade transparente, honesta, convidativa, comunicadora, acessível, alegre e interativa”.
O documento está dividido em três partes: os desafios e oportunidades dos jovens no mundo de hoje; a fé e a vocação, discernimento e acompanhamento; e a ação educativa e pastoral da Igreja. Nele, os jovens oferecem a sua visão como “instrumento de navegação” para uma maior compreensão da sua realidade por parte da hierarquia católica. E, face a uma imagem de Igreja demasiado severa ou moralista, os jovens esperam “uma Igreja acolhedora e misericordiosa”, que ama todos.
As preocupações apresentadas passam por temas como a sexualidade, a toxicodependência, os casamentos falhados, as famílias desagregadas, os problemas sociais, a criminalidade organizada, o tráfico de seres humanos, a violência, a corrupção, o feminicídio, as perseguições e a degradação ambiental. “Inclusão, acolhimento, misericórdia e ternura” são palavras-chaves nas propostas do mundo juvenil à Igreja Católica, a que se somam desafios para o mundo, como a paz, a “ecologia integral” ou uma “economia global sustentável”. Os participantes denunciam ainda a “chaga da pornografia”, incluindo os abusos de menores, e o “cyberbullyng”.
Em relação ao anúncio da mensagem cristã, os jovens esperam “testemunhas autênticas” de fé, que saibam transmiti-la com paixão, e propõem um “regresso às Escrituras”, à Bíblia, para aprofundar o conhecimento da “pessoa de Cristo”.
O documento foi entregue no domingo ao Pontífice por um jovem do Panamá, cujo país irá acolher a próxima edição internacional da Jornada Mundial da Juventude, em janeiro de 2019.
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As diferenças culturais e as preocupações comuns dos jovens
Três participantes na reunião pré-sinodal sublinharam, em conferência de imprensa, no Vaticano, a experiência única e comentaram o documento dito “revolucionário”.
As diferenças culturais dos mais de 300 jovens que participaram fisicamente na reunião pré-sinodal, que terminou no Vaticano, no dia 24 de março, ajudaram a mostrar que as suas preocupações e sentimentos são “muito semelhantes”. A este respeito, Laphidil Twumasi, uma jovem de origem ganesa a viver em Itália, que integrou a equipa de redação do documento final que apelidou de ” revolucionário”, afirmou que, “tendo diferentes bagagens culturais, quase todos temos as mesmas ideias e pensamos sobre os mesmos temas”. E acrescentou:
Isso reforça a minha opinião de que temos o mesmo objetivo e necessidade. Preocupamo-nos com o progresso da Igreja e da sociedade em geral. E isto mostra que, como disse o Papa Francisco, nós, jovens, não somos estúpidos e que a nossa voz deve ser ouvida e levada em consideração.”.
Por seu turno, o jovem indiano Percival Holt sublinhou que respeitar e sintetizar as preocupações que surgiram no pré-sínodo parecia uma tarefa “hercúlea”, mas o processo resultou num documento “apelativo”.
Sustentando que a maioria dos jovens enfrenta uma “tremenda crise de personalidade”, maioritariamente devido a pressões externas e a falta de introspeção, de relação com o divino e com os outros, o jovem explicitou que “a espiritualidade é importante para muitos de nós, mas é ambígua para outros”. E reconheceu que os jovens, na Índia, enfrentam o “desenvolvimento repentino de uma rápida globalização que causou uma exposição a um estilo de vida que se tornou difícil de digerir, tornando-nos vulneráveis e dependentes da tecnologia”.
A sua experiência mostra-lhe que os jovens são hoje “mais sensíveis, práticos e objetivos e partilham sem problemas os seus sentimentos e expectativas”. Porém, precisam de “quem os guie e acompanhe na sua vida”. Por isso, considera o documento como “um grito dos jovens para que sejam escutados e lhes seja indicado o caminho neste mundo caótico”.
Também Briana Santiago, uma jovem de 26 anos, do Texas, nos EUA, que estuda filosofia em Roma, integrou o grupo das redes sociais e destacou a qualidade da participação dos que não estiveram no Vaticano, mas puderam contribuir via mundo digital. Disse ela:
Os jovens que participaram através das redes sociais manifestaram desejo de criar famílias unidas e fortes, desejo de participação nas suas igrejas locais, honrar a beleza da liturgia, mergulhar na tradição dos nossos predecessores, encontrar guias que ajudem a discernir e a tomar decisões importantes”.
E salientou que nunca tiveram de “intervir devido à falta de respeito ou linguagem menos própria que rapidamente pode ser encontrada nas plataformas on line” e que “a organização registou cerca de 15 mil participações on line”.
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O documento final a que se aludiu resulta do material recolhido dos 20 grupos divididos por idiomas: 9 de língua inglesa, 4 de língua espanhola, 4 de língua italiana e 3 de língua francesa; e, ainda, de 6 grupos que apresentaram sugestões de jovens que não estavam fisicamente na reunião pré-sinodal.
Laphidil Twumasi precisou que trabalharam “três dias até à meia-noite no documento” e que o objetivo era “inscrever as ideias de modo “direto, preciso, claro, fazendo com que todos os jovens, sem excluir ninguém, se reconhecessem no documento”. E Briana Santiago acrescentou:
Passámos mais horas em frente ao computador do que imaginávamos, mas sentimo-nos maravilhados e com sentido de humildade perante a profundidade da reflexão, o desejo de partilha, a vulnerabilidade e a grande sinceridade que as respostas claramente demonstraram”.
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Uma Igreja transparente, credível e em diálogo com modernidade
O Secretário-Geral do Sínodo apresentou publicamente o documento resultante da reunião pré-sinodal, em que se refere que os jovens querem uma Igreja “transparente”, que “reconheça os erros do passado” e que “dialogue com a modernidade”.
A síntese do documento que resulta da reunião pré-sinodal, que desde o dia 19 juntou mais de 300 jovens para preparar a próxima assembleia do Sínodo dos Bispos, em outubro, foi apresentada, na manhã do dia 24, no Vaticano, pelo Secretário-Geral da assembleia sinodal, Cardeal Lorenzo Baldisseri – um texto que apresenta “um grande desejo de transparência e credibilidade”, em particular “dos pastores”, e pede que a Igreja reconheça “com humildade os erros do passado e do presente e se empenhe com coragem a viver o que professa”.
O responsável sinodal assinalou que os jovens procuram educadores “com rosto humano”, disponíveis para “reconhecer a sua fragilidade”.
Numa outra “categoria fundamental do documento” que apresenta a vocação, discernimento e acompanhamento, fica evidenciado o quanto os jovens de hoje “sofrem com a falta de acompanhamento que os ajude a percorrer a estrada da sua vida” e como pedem à comunidade cristã que “assuma a responsabilidade” desta necessidade enquanto “guias autorizados”.
O Cardeal Baldisseri sublinha que os jovens falam numa Igreja jovem, ou seja, “os jovens definem-se no plural como Igreja jovem que não está em confronto com uma Igreja de adultos, mas dentro da Igreja”.
O Secretário-Geral do Sínodo indicou o desejo de uma Igreja “extrovertida”, empenhada em “dialogar sem preconceitos com a modernidade”, em particular com o mundo das novas tecnologias, “cujo potencial deve ser reconhecido e o uso correto orientado”.
Baldisseri registou ainda uma frase emblemática do documento: “Uma igreja atrativa é uma Igreja relacional”. Mais: os jovens preconizam uma instituição de “diálogo, acolhimento, renovamento e de escuta”, “tal como o Santo Padre pede desde o início do seu ministério petrino”. E, segundo o Cardeal, os jovens deram nestes dias uma demonstração de “grande seriedade, de procura apaixonada por um sentido, de generosa abertura e espontaneidade”.
O responsável sinodal assinala ainda a “confiança na Igreja” e as “expectativas” que os jovens depositam nela.
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Em síntese
 Se é difícil para os jovens sentirem que pertencem à Igreja e que a lideram, isso “é muito mais difícil para as jovens mulheres”, lê-se no aludido documento que elenca as conclusões dos jovens, que estiveram reunidos ao longo da semana em Roma e que foi entregue ao Papa.
Mais mulheres em posições de chefia na Igreja, maior poder de decisão para os jovens e uma presença mais forte em espaços de lazer como bares, cafés ou ginásios. São estes os pedidos dos jovens que participaram num encontro promovido pelo Vaticano ao longo da passada semana. As conclusões foram apresentadas ao Papa Francisco neste Domingo de Ramos na Paixão do Senhor e serão discutidas pelos bispos no Vaticano, no próximo Sínodo, em outubro.
A sugestão mais repetida pelos jovens que participaram na reunião é a de uma maior inclusão das mulheres nas posições de chefia da Igreja – ao todo, foi repetida 4 vezes no documento de 14 páginas que elenca as conclusões do grupo. O grupo incita a Igreja a “empoderar jovens mulheres”, dando-lhes modelos a seguir, pois, “se é difícil para os jovens sentirem que pertencem à Igreja e que a lideram, é muito mais difícil para as jovens mulheres”.
Por outro lado, o documento realça o distanciamento da Igreja face aos jovens, que querem ser envolvidos nos processos de tomada de decisão. Pedem mais humildade e transparência e queixam-se do “moralismo excessivo” dos burocratas religiosos. Os jovens querem que a Igreja admita que é feita por humanos e que, por isso, comete erros. No documento, o grupo cita os escândalos de abuso sexual de menores como erros que afastaram as pessoas da Igreja:
Alguns mentores são postos num pedestal e, quando caem, a devastação impacta a capacidade dos jovens de se comprometerem com a Igreja”.
Estes jovens querem uma Igreja mais próxima dos assuntos que costumam discutir, os meios que costumam usar e dos espaços que costumam frequentar. Nestes termos, vincam:
A Igreja devia encontrar formas novas e criativas de encontrar as pessoas onde elas estão confortáveis e onde naturalmente socializam: bares, cafés, parques, ginásios, estádios e outros centros culturais populares”.
Querem uma instituição mais presente no mundo tecnológico e pedem mais indicações sobre como usar a tecnologia de forma responsável, evitando vícios como a pornografia, por exemplo.
O grupo, que integrou alguns membros não católicos, não cristãos e ateus, não chegou a um consenso quanto aos temas da homossexualidade, aborto ou coabitação. Uns pedem que a Igreja mude os ensinamentos nestas matérias; outros dizem-se satisfeitos com a abordagem atual. Ainda assim, concordam que o diálogo devia ser mais prático:
Nós, na Igreja jovem, pedimos aos nossos líderes para falarem em termos práticos acerca de assuntos como a homossexualidade e as questões de género, sobre os quais os jovens já falam livremente”.
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Os jovens responderam assim ao repto do Papa, que os incitou a falarem de forma livre e corajosa. Francisco notou que os jovens se afastavam da Igreja por encontrarem “indiferença, julgamento e rejeição” – posição confirmada por este grupo, que se exprimem nestes termos:
Precisamos de uma Igreja que seja acolhedora e misericordiosa, que aprecie as suas raízes e património e que ame toda a gente, mesmo aqueles que não seguem os standards”.
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E esta Igreja é desejável, é possível e já existe, mas precisa de ser e estar sempre em renovação.
2018.03.26 – Louro de Carvalho

quinta-feira, 27 de julho de 2017

O texto de Camões no exame de Português do 12.º ano, em 2017 – 2.ª fase

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Nas naus estar se deixa, vagaroso,
Até ver o que o tempo lhe descobre;
Que não se fia já do cobiçoso
Regedor, corrompido e pouco nobre.
Veja agora o juízo curioso
Quanto no rico, assi como no pobre,
Pode o vil interesse e sede imiga
Do dinheiro, que a tudo nos obriga.
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Este rende munidas fortalezas;
Faz trédoros e falsos os amigos;
Este a mais nobres faz fazer vilezas,
E entrega Capitães aos inimigos;
Este corrompe virginais purezas,
Sem temer de honra ou fama alguns perigos;
Este deprava às vezes as ciências,
Os juízos cegando e as consciências.
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A Polidoro mata o Rei Treício,
Só por ficar senhor do grão tesouro;
Entra, pelo fortíssimo edifício,
Com a filha de Acriso a chuva d’ouro;
Pode tanto em Tarpeia avaro vício
Que, a troco do metal luzente e louro,
Entrega aos inimigos a alta torre,
Do qual quási afogada em pago morre.

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Este interpreta mais que sutilmente
Os textos; este faz e desfaz leis;
Este causa os perjúrios entre a gente
E mil vezes tiranos torna os Reis.
Até os que só a Deus omnipotente
Se dedicam, mil vezes ouvireis
Que corrompe este encantador, e ilude;
Mas não sem cor, contudo, de virtude!

Luís de Camões, Os Lusíadas, Canto VIII, edição de A. J. da Costa Pimpão, 5.ª ed., Lisboa, MNE/IC, 2003, p. 221

O excerto corresponde às estâncias finais do Canto VIII de Os Lusíadas, e vem complementado pelas seguintes notas explicativas: 
Acriso (v. 12) – rei de Argos que, para impedir o cumprimento da profecia de que seria morto por um neto, prendeu a filha [Dánae] numa torre, porém, Júpiter introduziu-se na torre sob a forma de chuva de ouro e [engravidando-a] tornou-a mãe de Perseu, que veio a assassinar Acriso; “A Polidoro mata o Rei Treício” (v. 9) – quando a cidade de Troia estava prestes a cair em poder dos Gregos, o soberano mandou o filho, Polidoro, com uma considerável riqueza em ouro, ao “Rei Treício”, para que o protegesse, mas este apoderou-se do metal e matou o jovem; cor (v. 32) – aparência exterior; munidas (v. 17) – bem fortificadas; perjúrios (v. 27) – juramentos falsos, mentiras; Regedor (v. 4) – Catual; Tarpeia (v. 13) – jovem romana que, na esperança de obter anéis de ouro dos Sabinos, que sitiavam Roma, lhes abriu as portas da cidade, mas os inimigos não a pouparam [ficou soterrada debaixo do ouro que exigia para se render]; trédoros (v. 18) – traidores.
As indicações entre [] não constam do enunciado.
No texto transcrito – correspondente ao conjunto dos comentários, sentenças, exclamações, lamentos e elogios do poeta (uma vertente que assume a sua importância a par das vertentes da mitologia, da historia de Portugal e da narrativa da Viagem) – o poeta – verdadeiro condutor do discurso épico – faz advertências e tece considerações sobre o vil poder do ouro, que leva à corrupção a outros hediondos crimes.
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Contextualização
O comentário-dissertação surge quando os portugueses ainda estavam na Índia. Enquanto Vasco da Gama aguardava a resposta do Samorim aos tratados que lhe havia proposto em nome do Rei de Portugal, Paulo da Gama explicava ao Catual, que estava a bordo, as figuras representadas nas bandeiras das embarcações, contando os episódios com elas relacionados: Luso (figura mítica), Ulisses (figura histórico-lendária), Viriato, Sertório, Conde Dom Henrique, Dom Afonso Henriques, Egas Moniz, Dom Fuas Roupinho, São Teotónio, Mem Moniz, Geraldo Sem Pavor, Martim Lopes, o Bispo Dom Mateus, Dom Paio Correia, Dom Nuno Álvares Pereira, Pero Rodrigues, os Infantes Dom Pedro e Dom Henrique, Dom Pedro e Dom Duarte,
Retoma-se assim o plano da História de Portugal, em narração homodiegética, desta vez a cargo de Paulo da Gama. E, voltando ao plano da Viagem, regista-se a retirada do Catual da armada, a audiência de Vasco da Gama com o Samorim e o confronto deste com o Catual. Com efeito, depois da partida do Catual, surgiram novas dificuldades, mais uma vez maquinadas por Baco junto do ex-hóspede da armada portuguesa e do próprio Samorim. Baco aparece em sonhos a um sacerdote brâmane e instiga-o contra os visitantes estrangeiros através da informação de que vieram com o intuito de pilhagem, pelo que era forçoso aniquilar a frota dos ocidentais. É um passo do plano da Mitologia a ilustrar a realidade das intrigas contra os portugueses, tecidas pelos humanos em contexto religioso.
O Samorim interroga Vasco da Gama, que acaba por o deixar regressar às naus. Entretanto, é retido no caminho pelo Catual, que põe como condição para deixar partir os portugueses a entrega das fazendas que traziam: ouro e outros bens, nomeadamente especiarias.
É na real a segunda vez que Vasco da Gama se salva sem a ajuda de Vénus (a primeira foi com o Adamastor em que valeu a postura firme e interpelante da pergunta de Gama ao monstro: “Quem és tu? Que esse estupendo corpo, certo me tem maravilhado!”) nem de mais ninguém, mas só pelos seus próprios meios.
Camões, nas estâncias transcritas, assume uma vez mais a sua postura de condução da espinha dorsal da epopeia no quadro do entretecimento dos mencionados três planos da narrativa (Viagem, História e Mitologia) e constitui-se como a voz do ideólogo e pedagogo humanista em termos do bom senso e da ética, servindo o aviso de correção e de apelo à mudança atitudinal. É a ocasião oportuna para que o Vate teça considerações sobre o poder do ouro, que tudo e a todos corrompe, mesmo os eclesiásticos, “Até os que só a Deus omnipotente Se dedicam”.
Em termos da prova de exame, parece suficiente o enquadramento contextual fornecido para obviar às respostas às três questões colocadas aos alunos:
“Após a chegada a Calecute, os portugueses são recebidos pelo Catual; entretanto, Baco aparece em sonhos a um sacerdote, convencendo-o de que o objetivo dos portugueses era subjugar os indianos. O Catual prende Vasco da Gama e só o liberta a troco de mercadorias trazidas das naus. Finalmente, Vasco da Gama regressa a bordo, onde ‘estar se deixa, vagaroso’.”
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Análise do texto
O texto transcrito pode dividir-se em duas partes lógicas: a 1.ª abrange a estância 96, em que o Poeta parte do exemplo concreto daquilo que sucedeu com Vasco da Gama para enunciar em tese o poder do dinheiro, que explana nas estâncias seguintes; a 2.ª parte é constituídas pelas estâncias 97 a 99, em que o Vate ilustra com exemplos mitológicos e lendários da Antiguidade a sua tese sustentada proximamente no episódio ocorrido com o Gama e, depois, com situações várias de corrupção transtemporal provocadas pelo perfume do dinheiro.
Assim, na estância 96, o Poeta dirige-se aos que têm a curiosidade de ajuizar, de julgar do bem e do mal, “juízo curioso”, advertindo-os de que devem ver o poder negativo e ilimitado que o dinheiro exerce sobre todos, sem distinção de classes ou de condição social e económica, “quanto no rico, assi como no pobre”.
É de relevar a utilização da primeira pessoa do plural ‘nós’ (a enálage de pessoa), o pronome indefinido ‘tudo’ (a modos de quantificador universal) e o verbo obrigar. Ao incluir o sujeito de enunciação na trama urdida pelo vil metal, o humanista alarga a crítica a todos, incluindo-se ele próprio no barco dos atingidos pela crítica e assumindo-a também para si. Com efeito ninguém, nem aquele que reflete sobre o problema, escapa ao poder aviltante do dinheiro. A palavra ‘tudo’ implica a não exclusão de nada do objeto desta crítica sobre o dinheiro: permitem-se todos os dislates, atropelam-se todos os valores. E o verbo obrigar mostra a situação de arrastamento a que o dinheiro leva quer voluntariamente por força da depravação quer involuntariamente por força do instinto de supremacia, poder e ganância.
- Em relação à 1.ª questão de interpretação do texto levantada na prova, “Relacione o conteúdo da estância 97 com a opinião formulada na estância anterior”, há que responder.
Não se trata de uma simples opinião, mas dum apelo ditado pela sabedoria do raciocínio e da experiência. É um apelo à reflexão ponderada e não a juízos precipitados sobre o que é bom ou mau. É certo que a curiosidade representa uma mais-valia no humanismo, mas ela tem de ser acompanhada pela ponderação e pelo discernimento. Ademais, o apelo-sentença ou advertência surge após a má experiência de Vasco da Gama na relação com os interlocutores que ele considerava estarem de boa-fé, tendo vindo a descobrir que o tal Regedor afinal era “cobiçoso”, “corrompido e pouco nobre” (caraterizado com três adjetivos). Ora, não podendo fiar-se dele, “nas naus estar se deixa, vagaroso”. Há de ser o tempo que lhe descobrirá o que deve fazer.
Assim, na resposta, devem ser abordados, pelo menos, os aspetos seguintes: a explicitação da opinião do Poeta, na estância 96 (prefiro “advertência, apelo, sentença…”) de que “a avidez de dinheiro e de ouro pode levar o ser humano a adotar atitudes condenáveis”; e a referência ao conteúdo da estância 97, “apresentação de situações/exemplos que comprovam a tese/opinião do Poeta.
Na estância 97, o Poeta evoca três situações protagonizadas por conhecidas figuras mítico-lendárias da Antiguidade que comprovam a tese sustentada por si na estância anterior, evidenciando o modo como a avidez de dinheiro e de ouro pode levar o ser humano – rico ou pobre – a assumir atitudes condenáveis, como a traição ou a deslealdade. As três situações evocadas são:
O rei Treício recebe da parte do rei de Troia uma considerável riqueza em ouro para a gerir e proteger Polidoro, o filho do rei troiano. Em vez da garantia da proteção, o rei Treício, movido pela ambição de se apoderar do tesouro, matou o jovem e ficou com tudo para si. Foi a ambição!  
Acriso, rei de Argos, para impedir o cumprimento da previsão de que seria morto por um neto, prendeu a filha Dánae numa torre, mas, Júpiter introduziu-se na torre sob a forma de chuva de ouro e engravidou-a, pelo que ela se tornou a mãe de Perseu, que veio a assassinar Acriso. Foi o medo da morte, a afronta ao destino e o capricho da sedução/violentação sexual!
E a sede do dinheiro levou Tarpeia, jovem romana, na esperança de obter anéis de ouro dos Sabinos, que sitiavam Roma, a abrir-lhes as portas da cidade. Porém, os inimigos não a pouparam e soterraram-na debaixo do ouro que ela exigia para se render. A avareza gerou a traição e a traição gerou a subjugação mortal.
Nas estrofes 98 e 99, repete-se sete vezes anaforicamente o pronome demonstrativo “este”, cujo referente é o “metal luzente e louro”, metáfora de ‘dinheiro’, para enunciar, juntamente com o desfile de antíteses (a mostrar que o dinheiro converte tudo no seu contrário), os diversos efeitos perniciosos do dinheiro, que são os seguintes: “faz render munidas fortalezas”; torna traidores e falsos os amigos (“Faz trédoros e falsos os amigos”); corrompe os mais nobres carateres (“a mais nobres faz fazer vilezas”) e as maiores purezas (“corrompe virginais purezas”); “entrega capitães aos inimigos”; deturpa o conhecimento (“deprava às vezes as ciências”) e entorpece a consciência (“os juízos cegando e as consciências”); condiciona os textos e as leis (“interpreta mais que sutilmente os textos; faz e desfaz leis”); origina as difamações (“causa os perjúrios”); favorece a tirania dos reis (“tiranos torna os reis”) e autoridades equiparadas; degrada, sob a aparência de virtude, até os sacerdotes e religiosos (“Até os que só a Deus omnipotente Se dedicam”).
Enfim, Camões ataca todos os subjugados pelo poder do dinheiro e dos demais bens materiais, nomeadamente: militares, cientistas, governos, clérigos e religiosos.
- Assim, há que dar resposta à 2.ª questão da prova, “ Releia os versos 17 a 28. Explicite três dos valores postos em causa pelo poder do “metal luzente e louro” (v. 14). Apresente, para cada um desses valores, uma transcrição pertinente.
Abordados que foram os diversos efeitos perniciosos do dinheiro, a resposta deve abordar três dos valores que o “metal luzente e louro” põe em causa, cada um deles devidamente fundamentado com uma transcrição pertinente (seguem-se no essencial as indicações dos autores da prova): a lealdade (aos amigos) ea amizade, uma vez que transforma amigos em traidores (“Faz trédoros e falsos os amigos”, v. 18); a fidelidade (à pátria), visto que são traídos os interesses da pátria (“Este rende munidas fortalezas”, v. 17, “E entrega Capitães aos inimigos, v. 20); a bondade/a dignidade, pois transforma pessoas nobres em vis (“Este a mais nobres faz fazer vilezas”, v. 19); a honra/a virtude/a castidade, já que corrompe a própria pureza (“Este corrompe virginais purezas”, v. 21); a verdade, dado que corrompe as consciências e origina enganos e intrigas (“Este deprava às vezes as ciências, / Os juízos cegando e as consciências”, (vv. 23 e 24)/ “Este causa os perjúrios entre a gente”, (v. 27); a justiça, na medida em que as leis são manipuladas de acordo com interesses pessoais (“Este interpreta mais que sutilmente / Os textos; este faz e desfaz leis”, (vv. 25 e 26); a justiça social, porque a ganância promove a tirania (“E mil vezes tiranos torna os Reis”, (v. 28). Talvez o pior seja o atropelo à sanidade do juízo e à lucidez, serenidade e responsabilidade das consciências, que devem orientar as justas decisões, bem como à equidade das leis, que devem proteger a sociedade e o homem dos inimigos do bem comum.  
Entre os versos 17 e 28, o Poeta salienta que o “metal luzente e louro” (v. 14) exerce tal poder no ser humano (“Quanto no rico, assi como no pobre” – v. 6) que o induz a agir de forma indigna e em desconformidade com os princípios que defende. Por um lado, aponta-se a fidelidade à pátria como um dos valores não respeitados, na medida em que são traídos os interesses superiores da nação, o que se constata no verso “E entrega Capitães aos inimigos” (v. 20). Por outro lado, também é corrompida a dignidade do ser humano, já que a ganância consegue transformar pessoas nobres de caráter em pessoas vis, como o comprova o verso “Este a mais nobres faz fazer vilezas” (v. 19). Por fim, observa-se que a ganância promove a tirania, pondo em causa a justiça social, o que é evidenciado em “E mil vezes tiranos torna os Reis” (v. 28).
- Os organizadores da prova trataram à parte, na 3.ª questão, os valores atingidos pelo dinheiro nos vv. 29 a 32: “Interprete o sentido dos versos 29 a 32, enquanto crítica dirigida ao clero”.
Na resposta, devem ser abordados os aspetos seguintes: crítica ao clero, classe que, devendo estar imune ao poder do dinheiro, também se deixa corromper; e constatação de que o clero esconde a sua ganância sob uma aparência de virtude. [Não sei se apenas os clérigos escondem a sua ganância sob a capa da virtude ou se é o fumo do dinheiro e valores materiais e sociais congéneres que aparecem sob a forma de virtude]. A este propósito e por analogia, recordo os versos de António Aleixo:
“Pra a mentira ser segura / E atingir profundidade / Tem que trazer à mistura / Qualquer coisa de verdade”.
Nos versos referidos, o poeta estende a crítica ao clero, classe social que, em princípio, estaria imune ao poder de sedução do dinheiro – “este encantador” (v. 31); todavia, o que se verifica é que, frequentemente – “mil vezes ouvireis” (v. 30) –, [o encantador e virtuoso] “metal luzente e louro” (v. 14) não só corrompe o clero como o leva a agir com hipocrisia, escondendo a ganância sob uma aparência (“cor”) de virtude (v. 32).
Concluindo
A crítica do épico dirige-se à cobiça provocada pelos bens materiais, simbolizados metaforicamente no ouro ou no dinheiro, que leva muitas altas ou muito santas figuras (ou tidas como tais) a inesperadas atitudes iníquas. E este drama não é exclusivo o século XVI. É tão intemporal e transtemporal que se verificou na Antiguidade e campeia nos dias de hoje num feroz capitalismo livre ou de Estado, às escâncaras ou sem rosto, marcado pela ambição do ouro, do prestígio ou do poder, levando tudo por diante qual potente e deletério DC 6. É a tirania letal do poder financeiro a condicionar o poder político e a negar a ergoeconomia, a ecologia e a economia ecológica.
Estejamos atentos!

2017.07.26 – Louro de Carvalho