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sexta-feira, 22 de novembro de 2019

O missionário é um mendigo que reconhece a falta dos irmãos, irmãs e mães


É uma das poderosas pérolas afirmativas da homilia do Papa no Estádio Nacional de Bancoque, no dia 21 de novembro.
Partindo da passagem do Evangelho de Mateus (Mt 12,46-50) em que Jesus, que estava a ensinar, é avisado de que a sua família estava à sua procura, Francisco frisa que o Mestre desafiou a multidão com a pergunta “Quem é a minha mãe e quem são os meus irmãos?” (v. 46). E, porque a missão de Jesus era ensinar, dá a resposta à sua maneira, não à dos homens: “Todo aquele que fizer a vontade de meu Pai que está no Céu, esse é que é meu irmão, minha irmã e minha mãe” (v. 50), banindo as convenções e “toda a pretensão de quem poderia julgar-se com direitos preferenciais sobre Ele”. De facto, o Evangelho “é convite e direito gratuito” para todos.
Vincando que o Evangelho, tecido de perguntas desinquietantes, convida os discípulos a porem-se a caminho, na busca da verdade que dá e gera vida, o Papa considera que são interrogações a procurar abrir o coração para horizontes de novidade e a querer “renovar incessantemente a nossa vida e a da nossa comunidade com uma alegria sem par”.
Assim, prosseguiu o Pontífice, os primeiros missionários puseram-se a caminho e chegaram a estas terras; escutaram a palavra do Senhor e, tentando responder às suas solicitações, viram que “pertenciam a uma família muito maior do que a gerada pelos laços de sangue, cultura, região ou filiação num determinado grupo”. Impelidos pelo Espírito Santo e cheios da esperança nascida do Evangelho, procuraram “os membros desta sua família que ainda não conheciam”; vieram em demanda dos seus rostos, não só pelo que podiam oferecer, mas também pelo que necessitavam de receber deles para crescerem na fé e na compreensão das Escrituras. Isto deu-lhes o ensejo de melhor vislumbrarem o desígnio amoroso do Pai, que “é imensamente maior que todos os nossos cálculos e previsões”. Deste modo, ficamos a saber que “o discípulo missionário não é um mercenário da fé nem um caçador de prosélitos, mas um mendigo que reconhece que lhe faltam os irmãos, as irmãs e as mães com quem [é preciso] celebrar e festejar o dom irrevogável da reconciliação que Jesus nos oferece a todos”.
Passados 350 anos da criação do Vicariato Apostólico de Sião (1669-2019), “sinal do abraço familiar produzido nestas terras”, o Papa evocou os dois missionários que lançaram as sementes que têm vindo a crescer e florescer numa variedade de iniciativas apostólicas que contribuíram para a vida da nação. Longe de significar nostalgia do passado, este aniversário é fogo de esperança para que hoje respondamos com a mesma determinação e confiança; é “comemoração festiva e agradecida, que nos ajuda a sair de coração feliz para partilharmos a vida nova, que brota do Evangelho, com todos os membros da nossa família que ainda não conhecemos”.
Com efeito, disse o Santo Padre, “todos somos discípulos missionários”, quando decidimos ser “parte viva da família do Senhor” partilhando à maneira d’Ele, que “não teve medo de Se sentar à mesa dos pecadores, para lhes assegurar que, na mesa do Pai e da criação, havia um lugar reservado também para eles”. Na verdade, Jesus tocou os considerados impuros e, deixando-Se tocar por eles, “ajudou-os a compreender a proximidade de Deus” e que “eram eles os bem-aventurados”.
E, pensando nas vítimas da prostituição e do tráfico (crianças e mulheres), nos escravos da droga e da falta de sentido (jovens), nos migrantes privados de casa e família, nos esquecidos, órfãos, e abandonados, nos pescadores explorados, nos mendigos ignorados e em tantos outros e outras, espoliados da sua dignidade, o Pontífice afirma categoricamente que “fazem parte da nossa família, são nossas mães e nossos irmãos”. Por conseguinte, não podemos privar “as nossas comunidades dos seus rostos, das suas chagas, dos seus sorrisos, das suas vidas”; e não podemos privar “as suas chagas e as suas feridas da unção misericordiosa do amor de Deus”.
Com efeito, como assegura o Papa, “o discípulo missionário sabe que a evangelização não é acumular adesões” nem mostrar poder, mas “abrir portas para viver e partilhar o abraço misericordioso e sanador de Deus Pai que nos torna família”. Por isso, há que retornar à senda dos primeiros missionários para “reconhecer com alegria todos os rostos de mães, pais e irmãos que o Senhor nos quer dar e que faltam ao nosso banquete dominical”.
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Já no encontro com as Autoridades, com a Sociedade Civil e o Corpo Diplomático, na sala “Inner Santi Maitri” da Casa governamental (Bangcoque), também no dia 20, Francisco, antecipando o que iria dizer na Missa referida supra, se deteve numa referência aos movimentos migratórios, um dos sinais caraterísticos do nosso tempo. Não estando em causa o fenómeno da mobilidade, pôs em evidência as condições em que ela se desenrola e que representam “um dos principais problemas morais colocados à nossa geração”. E frisou que a Tailândia, conhecida pela hospitalidade que oferece a migrantes e refugiados, se viu em sério desafio com a fuga trágica de refugiados dos países vizinhos. Por isso, o Papa insistiu em que a comunidade internacional atue com responsabilidade e clarividência, para resolver os problemas que levam a este êxodo trágico e promover “uma migração segura, ordenada e regulamentada”, devendo cada nação desenvolver “mecanismos eficazes para proteger a dignidade e os direitos dos migrantes e refugiados, que enfrentam perigos, incertezas e exploração na sua busca da liberdade e duma vida digna para as suas famílias”.   
A pari, neste ano em que se comemora o 3.º aniversário da Convenção sobre os Direitos da Infância e da Adolescência, o Pontífice evocou as mulheres e crianças de hoje particularmente feridas, violentadas e expostas à exploração, escravidão, violência e abuso, agradecendo ao Governo tailandês os esforços que faz para extirpar este flagelo, tal como às pessoas e organizações que incansavelmente trabalham para erradicar este mal e proporcionar um caminho de dignidade. Na verdade, este ano convida a refletir e trabalhar, com determinação, perseverança e rapidez, para proteger o bem-estar e desenvolvimento social e intelectual das crianças, o seu o acesso à educação e o seu crescimento físico, psicológico e espiritual, pois “o futuro de nossos povos depende, em grande parte, do modo como garantirmos aos nossos filhos um futuro na dignidade”.
Considerando que a Tailândia “é detentora de tantas maravilhas naturais e guardiã esplêndida de antigas tradições espirituais e culturais, bem como da hospitalidade que lhe é dado experimentar pessoalmente, apraz ao Sumo Pontífice propor a extensão e aumento de laços de maior amizade entre os povos.
Depois, observou o caráter global dos problemas que hoje o nosso mundo enfrenta, visto que “envolvem toda a família humana e exigem que se desenvolva um decidido esforço em prol da justiça internacional e da solidariedade entre os povos”. Salientou o facto de, nestes dias, a Tailândia concluir o seu período de presidência da ASEAN, expressando, assim, o seu histórico empenhamento nos problemas mais amplos que enfrentam os povos de toda a região do sudeste asiático e seu interesse constante em promover a cooperação política, económica e cultural na região. Na verdade, desde há muito que o país reconhece, enquanto nação multicultural e caraterizada pela diversidade, “a importância de construir a harmonia e a convivência pacífica entre os seus numerosos grupos étnicos, mostrando respeito e apreço pelas diferentes culturas, grupos religiosos, filosofias e ideias”, pois “a experiência concreta duma unidade que respeite e salvaguarde as diferenças serve de inspiração e incentivo para quantos têm a peito o mundo tal como o desejamos legar às gerações futuras”.
E o líder da Igreja Católica congratulou-se com a iniciativa da criação duma ‘Comissão Ético-Social’, para cuja participação foram convidadas “as religiões tradicionais do país a fim de acolher as suas contribuições e manter viva a memória espiritual” deste povo e disse que o encontro que, a seguir, iria ter com o Supremo Patriarca Budista era “sinal da importância e urgência de promover a amizade e o diálogo inter-religioso” e “serviço à harmonia social na construção de sociedades justas, compassivas e inclusivas”. Por outro lado, assegurou “todos os esforços da pequena mas vivaz comunidade católica, para manter e promover as caraterísticas tão peculiares dos tailandeses”, evocadas no Hino Nacional: “pacíficos e carinhosos, mas não covardes”. E considerou: 
Esta terra tem como nome ‘liberdade’. Sabemos que esta só é possível se formos capazes de nos sentir corresponsáveis uns pelos outros e superar toda e qualquer forma de desigualdade. Por isso, é necessário trabalhar para que as pessoas e as comunidades possam ter acesso à educação, a um trabalho digno, à assistência sanitária e assim alcançar os níveis mínimos indispensáveis de sustentabilidade que tornem possível um desenvolvimento humano integral.”.
Por fim, evidenciou que “as nossas sociedades” precisam, a par de discípulos missionários, de ‘artesãos da hospitalidade’, homens e mulheres que cuidem do desenvolvimento integral de todos os povos, no seio duma família humana que se empenhe a viver na justiça, solidariedade e harmonia fraterna”, devendo cada qual, a partir da própria posição, viver a vida ajudando a que “o serviço ao bem comum possa chegar a todos os cantos desta nação” (“esta é uma das tarefas mais nobres duma pessoa”) nas “sendas da sabedoria, da justiça e da paz”.
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Hoje, dia 22, à homilia da Missa com os jovens na Catedral da Assunção, o Bispo de Roma clamava: “Vamos ao encontro de Cristo Senhor, que vem!”. E comentava o Evangelho tomado para a Liturgia da Palavra (Mt 25,1-13) e que nos convida a pormo-nos em movimento com o olhar fixo no futuro, para acolhermos a vinda definitiva de Cristo à nossa vida e ao nosso mundo. Com efeito, antes de sairmos à sua procura, já Ele nos procurava e vem ao nosso encontro a chamar-nos “a partir da história que é necessário construir, criar, inventar”. Assim, ir ao seu encontro é responder à sua chamada e à sua caminhada, sabendo que Ele nos espera.
Diz o Papa que o Senhor sabe que, pelos jovens, entra o futuro nestas terras e no mundo e conta com eles para continuar hoje a sua missão, pois, tal como Deus tinha um plano para o povo escolhido, também tem um plano para cada um dos jovens.
Falando o Evangelho de dez jovens convidadas a olhar para o futuro e participar na festa do Senhor, assinala-se que algumas não estavam preparadas para O receber, não por terem adormecido, mas por lhes faltar o combustível para manter aceso o fogo do amor. Queriam, com entusiasmo, tomar parte na convocação do Mestre, mas, como as forças e os anseios se foram amortecendo, chegaram tarde. É a parábola do que pode suceder com os cristãos. Por isso, o Santo Padre perguntou: 
Quereis manter vivo o fogo que vos pode iluminar no meio da noite e no meio das dificuldades? Quereis preparar-vos para responder à chamada do Senhor? Quereis estar prontos para cumprir a sua vontade? Como obter o azeite que possa manter-vos em movimento e encorajar-vos a buscar o Senhor em todas as situações?”.
E vincou a herança de fé que os jovens receberam e de que é testemunha a Catedral vincando: 
Sois herdeiros duma magnífica história de evangelização, que vos foi transmitida como um tesouro sagrado. Esta bela Catedral é testemunha da fé em Jesus Cristo que tiveram os vossos antepassados: a sua fidelidade, profundamente arraigada, impeliu-os a cumprir boas obras, a construir o outro templo ainda mais esplêndido, composto de pedras vivas para poder levar o amor misericordioso de Deus a todas as pessoas do seu tempo. E conseguiram fazê-lo, porque estavam convencidos do que o profeta Oseias diz na 1.ª Leitura de hoje: Deus falara-lhes com ternura, abraçara-os com um amor forte, para sempre (cf Os 2, 16.21-22).”.
Depois, exortou a que não deixem apagar o fogo do Espírito Santo e possam manter despertos o olhar e o coração, para o que é necessário firmarem-se na fé dos mais velhos, não para ficarem prisioneiros do passado, mas para aprenderem a ter “a mesma coragem”, que ajude “a responder às novas situações históricas”. Os mais velhos resistiram a muitas provações e sofrimentos e foram descobrindo que “o segredo dum coração feliz é a segurança que encontramos quando estamos ancorados, enraizados em Jesus: na sua vida, nas suas palavras, na sua morte e ressurreição”. E confidenciou em jeito de metáfora, citando o Christus vivit, 179:
Já me aconteceu ver árvores jovens, belas, que elevavam seus ramos sempre mais alto para o céu; pareciam uma canção de esperança. Mais tarde, depois duma tempestade, encontrei-as caídas, sem vida. Estenderam os seus ramos sem se enraizarem bem na terra e, por terem poucas raízes, sucumbiram aos assaltos da natureza. Por isso, custa-me ver que alguns propõem aos jovens construir um futuro sem raízes, como se o mundo começasse agora. Com efeito, é impossível uma pessoa crescer, se não possui raízes fortes que a ajudem a estar firme de pé e agarrada à terra. [Moços e moças, é muito] fácil extraviar-se, quando não temos onde agarrar-nos, onde firmar-nos.”.
Tendo em conta que, “sem este sentido forte de enraizamento, podemos ficar perplexos com as vozes deste mundo que reclamam a nossa atenção”, muitas delas atraentes, mas que deixam, com o passar do tempo, apenas o vazio, o cansaço, a solidão e a frustração, proclamou que “os jovens são ‘uma nova geração’, com novas esperanças, sonhos e interrogações – seguramente com algumas dúvidas, mas, enraizados em Cristo”. E Papa convidou-os “a manter viva a alegria e a não ter medo de olhar para o futuro com confiança”. E reforçou:
Arraigados em Cristo, olhai com alegria, olhai com confiança. Esta condição nasce da certeza de se saber procurado, encontrado e amado infinitamente pelo Senhor. A amizade cultivada com Jesus é o azeite necessário para iluminar o caminho; não só o vosso caminho, mas também o de todas as pessoas que vos rodeiam: amigos, vizinhos, colegas de estudo e trabalho, mesmo o caminho de quantos estão em total desacordo convosco.”.
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É, de facto, importante garantir a nossa condição de discípulos missionários e de hospedeiros, sentindo-nos concidadãos e familiares uns dos outros e sabendo radicar no passado a nossa vivência do presente com os olhos no futuro, sem medos e sem aviltamentos. Na verdade, lá no futuro está à nossa espera “o Senhor para preparar e celebrar a festa do seu Reino”, onde está preparado lugar para todos e donde ninguém está excluído à partida.
2019.11.22 – Louro de Carvalho

domingo, 21 de julho de 2019

Uma liturgia marcada pelo valor da hospitalidade



O Evangelho do 16.º domingo do Tempo comum no Ano C (Lc 10,38-42) situa-nos na caminhada de Jesus com os discípulos para Jerusalém (9,51-19,27), onde vai viver os últimos acontecimentos da Sua passagem pela terra. Durante o percurso, alojou-se em casa de amigos e pessoas bem conhecidas. Desta feita, visita a casa das discípulas Marta e Maria, que viviam em Betânia com o irmão Lázaro (cf Jo 11).  
O episódio da perícopa em referência integra uma estrutura quiástica com a anterior (Lc 10, 25-37): Palavra de Deus sobre a caridade (amor a Deus e ao próximo); prática espelhada na parábola do samaritano; relato da preocupação de Marta para com o próximo; e Palavra de Cristo sobre a necessidade primária da fé para o cristão. Quer dizer que a prática cristã só tem sentido se estiver ensanduichada pela fé e pelo amor, que se quer não interesseiro, lúcido, afetivo e efetivo.
O nome “Marta”, sendo a forma feminina de “marêh” (senhor) significa “senhora”; e Maria aqui não é a de Magdala, mas a que se identifica no 4.º Evangelho (Jo 1,1ss; 12,1-11), pois a descrição destas irmãs assim o leva a inferir. A evocação da viagem, do caminho (en dè tô poreúesthai autoús) neste episódio é de caráter estilístico, pois, do ponto de vista lucano, Jesus ainda não está em Betânia, onde residem as duas irmãs. Marta andava muito atarefada, pois era provável que no encalço de Jesus chegassem mais hóspedes. “Só é necessária uma coisa” – reza o texto atual, o que não é concorde com a tradição manuscrita: Só umas poucas coisas são necessárias, mas certamente só uma, referem alguns manuscritos, enquanto outros rezam Só umas poucas coisas são necessárias (os mais antigos) e outros, Só uma coisa é necessária. Enquanto a segunda versão manuscrita parece indicar que são precisas apenas algumas coisas sobre a mesa para comer, pois estamos no contexto dum banquete, a terceira aponta para a necessidade de algo mais espiritual, sendo que a primeira congraça as duas hipóteses de insinuação.   
Marta, que recebe Jesus, preocupa-se em acolhê-lo e oferecer-lhe uma generosa hospitalidade, enquanto Maria, sentada aos pés do Senhor, na posição e atitude de discípula (8,35; At 22,3), o escutava. Marta, envolvida pelas ocupações quotidianas, reclama com o Mestre, mas é advertida afetuosamente: “Marta, Marta! Tu ocupas-te com muitas coisas, porém uma só é necessária. Maria, ao escutar a palavra, manifesta em Jesus, escolhe a melhor parte que não lhe será tirada. A escolha do único necessário que é Cristo, Amor e Verdade do Pai, assegura o bom êxito do serviço, da diakonia cristã. Aos pés do Senhor, Maria aprende a escuta e ação em consonância com o projeto de vida e salvação. E revela-se aqui o caminho do discipulado caraterizado pela fidelidade à palavra: Felizes os que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática (11,28). Alicerçadas na Palavra, contemplação e ação tornam-se dimensões complementares ao serviço do Reino. O encontro com a Palavra torna fecundo o serviço generoso e compassivo ao próximo. Sem a disposição para escutar o Mestre, corre-se o risco de escolher a parte menos boa, arriscando o desvio do caminho do Reino de Deus.
Marta aparece como dona de casa diligente, ativa, preocupada em bem receber os hóspedes. Sente que nem tudo será perfeito, que precisa de ajuda. Intervém junto de Jesus enquanto Ele fala, pedindo que mande Maria a ajudá-la. Mostra-se agastada por lhe parecer, talvez injusto, que todo o trabalho recaia sobre ela e que Maria seja dispensada dele.
A resposta de Jesus é bastante misteriosa: Marta, Marta andas inquieta e agitada. Uma só coisa é necessária … Maria escolheu a melhor parte que não lhe será tirada. Jesus censura a inquietação e a agitação de Marta, que faz muitas coisas ao mesmo tempo; a preocupação de bem receber o seu hóspede domina tudo o resto, quando o importante já não é receber bem o Senhor, mas fazer com que a receção seja um êxito. Marta, invadida pelas preocupações acaba por inverter o valor e a importância das coisas. O zelo tinha-a levado longe de mais: o que era acessório tomara o lugar do essencial.
Há, no texto, um pormenor relevante, o da “posição” de Maria: “sentada aos pés de Jesus”. É a posição típica do discípulo diante do mestre (cf Lc 8,35; At 22,3). É situação surpreendente num contexto sociológico em que as mulheres tinham um estatuto de subalternidade e viam limitados alguns direitos religiosos e sociais; por isso, nenhum “rabbi” da época se dignava aceitar uma mulher no grupo dos discípulos que se sentavam aos seus pés para escutar as suas lições. Lucas (que procura dizer que Jesus veio libertar e salvar os que eram oprimidos e escravizados, nomeadamente as mulheres) mostra, neste episódio, que Jesus não faz qualquer discriminação: o facto decisivo para ser seu discípulo é estar disposto a escutar a sua Palavra.
Não raro, o episódio foi lido em chave de oposição entre ação e contemplação; no entanto, não é isso que está em causa. Lucas não está, nesta catequese, a explicar que a vida contemplativa é superior à vida ativa; está é a dizer que a escuta da Palavra de Jesus é o mais importante para a vida do crente, pois é o ponto de partida da caminhada da fé. Isto não significa que “fazer coisas”, “servir os irmãos” não seja importante; mas significa que tudo deve partir da escuta da Palavra, pois é essa escuta que nos projeta para os outros e nos faz perceber o que Deus espera de nós. Assim, a experiência de Marta é preciosa, pois é um aviso salutar para nós, que não devemos confundir os fins com os meios nem pôr estes acima daqueles. Um único fim é importante: servir o Senhor e não servirmo-nos do dele para as nossas ambições ou desejos pessoais. O próprio serviço do Senhor pode contribuir para isso se não estivermos atentos.
Quantas vezes, até quando nos empenhamos nas obras de apostolado (catequese, liturgia, pastoral social, pastoral familiar, acolhimento, etc.) não nos procuramos mais a nós próprios, ao nosso êxito pessoal do que propriamente a servir os outros ou a Deus!
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A 1.ª leitura (Gn 18,1-10a) apresenta o acolhimento de Abraão e Sara aos três visitantes, que manifestam a salvação de Deus. A hospitalidade, oferecida pelos pais da fé, é recompensada pela promessa de um filho, o maior desejo de Abraão.
Os capítulos 12-36 do Génesis são textos sem grande unidade e sem caráter de documento histórico ou de reportagem jornalística. Estamos ante uma mistura de “mitos de origem” (narravam a chegada dum “fundador” a um determinado local e a tomada de posse daquela terra), de “lendas cultuais” (relatavam como um deus qualquer apareceu em determinado local a um desses “fundadores” e como esse lugar se tornou um local de culto) e de relatos onde se expressa a realidade da vida nómada durante o 2.º milénio antes de Cristo. Na origem do texto em referência estará uma antiga “lenda cultual” que narrava como três figuras divinas terão aparecido a um cananeu anónimo junto do carvalho de Mambré (perto de Hebron), como o cananeu os acolhera na sua tenda e como fora recompensado com um filho pelos deuses (Mambré era um santuário cananeu, já no terceiro milénio a.C., antes de Abraão aí ter chegado). Mais tarde, quando Abraão ali se estabeleceu, a lenda cananeia foi-lhe aplicada e ele passou a ser o herói desse encontro com as figuras divinas.
No séc. X a.C. (reinado de Salomão), os autores jahwistas recuperaram essa velha lenda para apresentarem a sua catequese. No estado atual do texto, a personagem central é Abraão, a figura que os catequistas jahwistas apresentam aos israelitas da época de Salomão, como um modelo de vida e de fé.
Abraão está “sentado à entrada da tenda, na hora de maior calor do dia”. De súbito, aparecem três homens diante de Abraão, que os convida a entrar, não se limitando a trazer-lhes água para lavar os pés, mas improvisando um banquete com pão recém-cozido, um vitelo “tenro e bom” do rebanho, manteiga e leite. Depois, fica de pé junto deles, na atitude do servo vigilante para que nada falte aos convidados: é a lendária hospitalidade nómada no seu melhor. Abraão surge como o modelo do homem íntegro, humano, bondoso, misericordioso, atento a quem passa e disposto a repartir com ele, de forma gratuita, o que tem de melhor.
Terminada a refeição, é anunciada a Abraão a próxima realização dos seus mais profundos anseios: a chegada dum filho, o herdeiro da sua casa, o continuador da sua descendência. Aparentemente, o dom do filho é a resposta de Deus à ação de Abraão: o autor jahwista quer dizer-nos que Deus não deixa passar em claro, mas recompensa uma tal atitude de bondade, de gratuitidade, de amor.
Complementarmente, fica espelhada a atitude do verdadeiro crente face a Deus. Ao longo do relato – sem que fique expresso se Abraão tem ou não consciência de que está diante de Deus – transparece a serena submissão, o respeito, a confiança total (num desenvolvimento em que Sara ri diante da “promessa”, mas Abraão conserva um silêncio digno, sem manifestar qualquer dúvida): tais são as atitudes que o crente é convidado a assumir diante deste Deus que vem ao encontro do homem.
Atente-se, também, na sugestiva imagem de um Deus que irrompe repentinamente na vida do homem, que aceita entrar na sua tenda e sentar-Se à sua mesa, constituindo-Se em comunidade com ele. Por detrás desta imagem, está o significado do comer em conjunto: criar comunhão, estabelecer laços de família, partilhar vida. O jahwista apresenta, assim, um Deus dialogante, que estabelece laços familiares com o homem, com quem deseja estabelecer uma história de amor e de comunhão. O jahwista aproveitou a velha “lenda cultual” e a figura inspirativa de Abraão para apresentar aos homens do seu tempo o modelo do crente: ele é aquele a quem Deus vem visitar, que o acolhe na sua casa e na sua vida de forma exemplar, que põe tudo quanto possui nas mãos de Deus e que manifesta, com este comportamento, a sua bondade, humanidade, confiança e fé; ele é aquele que partilha o que tem com quem passa e cumpre em grau extremo o sagrado dever da hospitalidade. A realização dos anseios mais profundos do homem é a recompensa de Deus para quem age como Abraão.

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A atitude de hospitalidade perpassa por toda a celebração litúrgica. Deus acolhe-nos, nós acolhemos Deus. A iniciativa é sempre d´Ele que nos ama primeiro. A hospitalidade implica também estar à mesa: Ele está à nossa porta e bate é preciso ouvir a sua voz e abrir, assim cearemos juntos (antífona da comunhão; cf Ap 3,20). Não é comer por comer, mas a partilha da mesa implica em nossa vida partilhar do mesmo destino de Jesus Cristo e para isto é necessário que Ele nos ajude a despojarmos do velho homem e para uma vida nova (oração pós-comunhão).
Para fomentar um ambiente agradável entre as pessoas é indispensável o cultivo dos bons hábitos, chamados vulgarmente virtudes humanas. Entre muitas outras, encontra-se a virtude da hospitalidade, que nos aparece com grande relevo na Sagrada Escritura e é ainda em muitos lugares tida em grande conta. No entanto, podemos perguntar até que ponto ela é possível nos nossos ambientes. As pessoas debatem-se com magros rendimentos, territórios destruídos pelas catástrofes (naturais e humanas), falta de tempo, habitações reduzidas, condicionamentos dos horários de trabalho e séria ameaça à segurança que aconselha a não receber em casa pessoas estranhas. Ademais, parece que é menos necessária hoje a hospitalidade. As pessoas deslocam-se rapidamente dum lugar para o outro, não tendo necessidade de se hospedarem fora de casa.
Não obstante, a hospitalidade, como todas as virtudes, é de todos os tempos. O importante é configurá-la aos tempos em que vivemos, encontrar formas novas de a viver.
Abraão, que recebeu três misteriosas personagens no seu acampamento, quando estava à porta da tenda, por causa do calor sufocante que se fazia sentir, surge como modelo da hospitalidade.
Uma virtude humana indispensável. “Abraão estava sentado à entrada da sua tenda, no maior calor do dia. Ergueu os olhos e viu três homens de pé diante dele. Logo que os viu, deixou a entrada da tenda e correu ao seu encontro.”. Abraão levanta-se prontamente, logo que se dá conta da presença os três personagens. Esta prontidão deixa-nos entrever que estava já habituado a fazê-lo. A hospitalidade, virtude humana que consiste em acolher bem os outros, acolhê-los e partilhar a vida com eles, traz consigo um grande número de virtudes-satélites.
Entre estas, contam-se a cordialidade e a simpatia. Abraão não espera que lhe venham ao encontro e peçam algo de que necessitam. Aproxima-se pressuroso, manifestando a sua alegria em recebê-los. Com efeito, é preciso que as pessoas sintam a nossa alegria em recebê-las.
Outra virtude conexa com a hospitalidade é o espírito de sacrifício. Era a hora mais quente do dia. Numa situação destas, somos tentados a pensar só em nós procurando evitar a temperatura incómoda, desejando que ninguém nos incomode e nos deixem em paz. Ora, sem esta dimensão do sacrifício, as pessoas tornam-se ilhas fechadas e isoladas, tornando impraticável a convivência humana. E o Senhor bate-nos à porta em horas incómodas, misteriosamente presente nos nossos irmãos.
Depois é necessária a abertura do coração. Mais do que abrir a porta de casa ou a bolsa, a hospitalidade consiste em abrir as portas do coração, em encontrar tempo e paciência para escutar e aceitar a partilha de problemas, dores ou preocupações. Abraão nem sequer tem casa para receber, porque vive ainda em nomadismo. Mas nós, hoje temos muitas oportunidades de praticar esta virtude. O isolamento, sobretudo dos mais idosos e doentes que são forçados a permanecer em casa é realidade gritante; muitas pessoas sentem-se asfixiadas pelos problemas da vida e vão até ao desespero. Precisam de quem as oiça. Fomenta-se o voluntariado e as obras de apostolado que oferecem ajuda e são uma forma preciosa de viver em solidariedade, porque trabalham sem qualquer recompensa e apoiam-se num compromisso de continuidade.
Acolher com generosidade. “Mandarei vir água, para que possais lavar os pés e descansar debaixo desta árvore. Vou buscar um bocado de pão, para restaurardes as forças antes de continuardes o vosso caminho, […].”. Abraão segue os costumes do seu tempo. Ofereceu aos misteriosos visitantes água para lavar os pés da poeira dos caminhos e o melhor que tinha nos seus rebanhos e na tenda para lhes preparar uma refeição.
No acolhimento é preciso situar-se bem entre dois extremos: esbanjamento, que tem como origem a tentação da vaidade, de aparentar um luxo que não existe, o que pode acontecer também com o tempo, ocupando espaço que pertence à oração, ao trabalho profissional, aos deveres de estado, etc.; e mesquinhez, que denuncia um coração tacanho, que leva a fazer o menos possível para receber alguém, não estando o problema tanto no que se dá, mas no modo como se dá. A falta de tempo, de disponibilidade, para acolher, pode ser uma máscara para encobrir o egoísmo. Para nos defendermos desta tentação, pensemos em que gastamos o tempo. Talvez houvesse outras coisas menos importantes que poderiam ter cedido o seu lugar a um acolhimento. É generosidade acolher com um rosto sereno quando temos muito que fazer e o tempo é reduzido e quando estamos em más condições de saúde ou cansados ou temos coisas urgentes à nossa espera.
Deus (e Jesus, a sua melhor imagem) recompensa a hospitalidade. “Depois eles disseram-lhe: ‘Onde está Sara, tua esposa?’. Abraão respondeu: ‘Está ali na tenda’. E um deles disse: “Passarei novamente pela tua casa daqui a um ano e então Sara tua esposa terá um filho’.”. Esta promessa aparece diretamente relacionada com o gesto de hospitalidade que Abraão tivera para com eles. Também a viúva de Sarepta ofereceu o último punhado de farinha e as últimas gotas de azeite para que se fabricasse o pão com que Elias matasse a fome, e nunca mais o alimento lhe faltou, até que acabou a seca naquela terra, pois Deus nunca se deixa vencer em generosidade e recompensa sempre a hospitalidade feita por amor d’Ele.
A primeira recompensa que Deus nos oferece pela hospitalidade é uma grande paz e alegria interiores. É o que deve ter sentido Abraão e Sara, depois deste acolhimento caloroso. É alegria de ver o outro feliz, e ter vencido o egoísmo, fazendo algo que talvez nos custasse. Depois, o coração de quem pratica esta virtude dilata-se, cresce na sua capacidade de amar e de vencer o egoísmo que nos fecha em nós mesmos.
A hospitalidade é uma das obras de misericórdia e merece recompensa eterna. No Evangelho do juízo final, Jesus faz consistir o julgamento apenas sobre a caridade que se exprime por estas obras. “Vinde, benditos de Meu Pai…!” (Mt 25,31-46).
E o Evangelho mostra à saciedade o valor da hospitalidade, que merece a recompensa eterna e já neste mundo a recompensa a cem por um. Jesus lava os pés aos discípulos e quer que eles façam o mesmo aos outros, aceita a unção duma pecadora, tal com aceitou o convite do fariseu para um banquete (Lc 7,37-50), como aceitou a unção de Maria de Betânia (Jo 12,1-11). 
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A hospitalidade pratica-se entre famílias com relações de amizade, que se encontram em almoços, jantares, passeios em comum e, mesmo, acolhendo-se na casa uns dos outros.
Quando as viagens eram longas e penosas, esta espécie de hospitalidade era mais necessária. A mãe de São João Bosco e os pais de São João Maria Vianney recebiam em sua casa viajantes, pobres e desertores dos exércitos, ofereciam-lhes comida e dormida. Hoje, porém, por causa dos exigentes horários de trabalho, habituações reduzidas ao mínimo indispensável, e até por causa da falta de segurança crescente, fica desmotivada esta espécie de hospitalidade. Ademais, parece que agora é menos necessária, por as viagens serem rápidas, e não se dispõe de tempo. Mas há formas de hospitalidade e de acolhimento muito necessárias no nosso tempo.
Hoje a hospitalidade concretiza-se em encontrar tempo e disposição para os outros: visitando idosos e doentes que passam o dia sós ou em lares perdidos no anonimato, embora identificados; disponibilizando-se para ouvir os que sofrem e iluminar o seu sofrimento e debilidades à luz da fé com a ternura do coração magnânimo; e acolhendo quem nos surge no caminho a abrir o seu coração e receber uma palavra amiga que lhe possa orientar a vida.
2019.07.21 – Louro de Carvalho

sábado, 20 de janeiro de 2018

Francisco no Chile ou a mensagem papal em contexto de protesto

O Papa esteve no Chile numa visita oficial de três dias antes de visitar o Peru. O evento ficou marcado por protestos devido a abusos sexuais na igreja (são indiciados de abuso sexual infantil cerca de 80 membros do clero chileno) e aos direitos dos indígenas.
Segundo um estudo, os chilenos atribuíram a Francisco a pontuação de 5,3, numa escala de 0 a 10, enquanto a confiança na Igreja ficou apenas nos 36%, a mais baixa da América Latina. E, dias antes da chegada papal, vários templos tinham sido atacados e vandalizados. 
Porém, à chegada, o Pontífice quebrou o protocolo e dirigiu-se aos fiéis que o esperavam nas ruas. E manifestou o seu pesar afirmando sentir vergonha pelo dano irreparável causado a crianças por parte de ministros da igreja.
No dia 17, reuniu-se na cidade de Temuco com representantes da etnia Mapuche, que estão em pé de guerra contra o Chile e a Argentina para reivindicar a soberania de terras que lhes foram retiradas no século XIX.
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No encontro com as Autoridades, com a Sociedade Civil e com o Corpo Diplomático, frisou o desenvolvimento da democracia, nos últimos decénios, que potenciou “um notável progresso”, a marcar o destino do Chile “como povo, baseado na liberdade e no direito”, que soube enfrentar e superar “vários períodos turbulentos”. A este respeito retomou as palavras do Cardeal Silva Henríquez, num Te Deum:

Nós – todos – somos construtores da obra mais bela: a pátria. A pátria terrena que prefigura e prepara a pátria sem fronteiras. Esta pátria não começa hoje, connosco; mas não pode crescer nem frutificar sem nós. Por isso, a recebemos com respeito, com gratidão, como uma tarefa iniciada há muitos anos, como uma herança que nos orgulha e simultaneamente nos compromete.”.

Depois, sustentou que “cada geração deve fazer suas as lutas e as conquistas das gerações anteriores e levá-las a metas ainda mais altas”, não se podendo contentar com o que se obteve no passado como se “esta situação nos levasse a ignorar que muitos dos nossos irmãos ainda sofrem situações de injustiça que nos interpelam a todos”. Com efeito, este povo tem pela frente o desafio grande e apaixonante de “continuar a trabalhar para que a democracia” não se limite aos aspetos formais, mas seja “verdadeiramente um lugar de encontro para todos”, sem exceção, construírem casa, família e nação.

Para tanto, segundo Francisco, é preciso apurar o sentido da escuta: povo e autoridades – capacidade que “adquire um grande valor nesta nação, onde a pluralidade étnica, cultural e histórica exige ser protegida de qualquer tentativa feita de parcialidade ou supremacia e que coloca em jogo a capacidade de deixar cair dogmatismos exclusivistas numa sã abertura ao bem comum”. Assim, sustenta o Papa:

É indispensável escutar: ouvir os desempregados, que não podem sustentar o presente e menos ainda o futuro das suas famílias; ouvir os povos nativos, muitas vezes esquecidos e cujos direitos necessitam de ser atendidos e a sua cultura protegida, para que não se perca uma parte da identidade e riqueza desta nação. Ouvir os migrantes, que batem às portas deste país à procura duma vida melhor e, por sua vez, com a força e a esperança de querer construir um futuro melhor para todos. Ouvir os jovens, na sua ânsia de ter maiores oportunidades, especialmente no plano educativo, e assim sentir-se protagonistas do Chile que sonham, protegendo-os ativamente do flagelo da droga que lhes rouba o melhor das suas vidas. Ouvir os idosos, com a sua sabedoria tão necessária e a carga da sua fragilidade. Não podemos abandoná-los. Ouvir as crianças, que assomam ao mundo com os seus olhos cheios de deslumbramento e inocência e esperam de nós respostas reais para um futuro de dignidade.”.

E não deixou de sublinhar como resultado desta escuta a atenção preferencial à nossa Casa Comum, promovendo uma cultura que saiba cuidar da terra, não nos contentando com oferecer respostas pontuais aos graves problemas ecológicos e ambientais que se apresentem”. Pretende o Papa “a ousadia de oferecer ‘um olhar diferente, um pensamento, uma política, um programa educativo, um estilo de vida e uma espiritualidade que oponham resistência ao avanço do paradigma tecnocrático’, que privilegia a irrupção do poder económico em prejuízo dos ecossistemas naturais e, consequentemente, do bem comum dos nossos povos”. E porfia que “o Chile possui, nas suas raízes, uma sabedoria capaz de ajudar a transcender a conceção meramente consumista da existência para adquirir uma atitude sapiencial em relação ao futuro”.

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Na celebração da Eucaristia “Pela Paz e Justiça”, em Santiago, no Parque O’Higgins, comentou o Evangelho das Bem-aventuranças, nomeadamente as que se referem à Paz e à Justiça, pondo o acento na necessidade de olhar para as pessoas como fez Jesus e referindo que a bem-aventurança da paz nos faz entrar na condição de filhos de Deus e a da justiça nos faz arrebatar o Reino dos Céus. E o Pontífice ensina:
As Bem-aventuranças são aquele novo dia para quantos continuam a apostar no futuro, continuam a sonhar, continuam a deixar-se tocar e impelir pelo Espírito de Deus”.
Interpreta o discurso da Montanha como a pedra de toque para o compromisso em prol da reconciliação:
Felizes aqueles que são capazes de sujar as mãos e trabalhar para que outros vivam em paz. Felizes aqueles que se esforçam por não semear divisão. […] Queres felicidade? Felizes aqueles que trabalham para que outros possam ter uma vida ditosa. Queres paz? Trabalha pela paz.”.
Recordando palavras do já mencionado Cardeal Henriquez – “se alguém nos perguntar: ‘Que é a justiça?’ ou se porventura consiste apenas em ‘não roubar’, dir-lhe-emos que existe outra justiça: a que exige que todo o homem seja tratado como homem” – Francisco sustenta:
Semear a paz à força de proximidade, de vizinhança; à força de sair de casa e observar os rostos, de ir ao encontro de quem se encontra em dificuldade, de quem não foi tratado como pessoa, como um digno filho desta terra. Esta é a única maneira que temos para tecer um futuro de paz, para tecer de novo uma realidade sempre passível de se desfiar.”.

Na celebração da Eucaristia “Pelo Progresso dos Povos”, em Temuco, no Aeródromo de Maquehue, Francisco partiu da hipótese da aproximação do solo a quem ouviremos cantar a pena que não pode calar, a das “injustiças de séculos que todos veem aplicar”, sendo “neste contexto de ação de graças por esta terra e pelo seu povo, mas também de tristeza e dor, que celebramos a Eucaristia”. Neste aeródromo, verificaram-se “graves violações de direitos humanos”, pelo que esta celebração é oferecida pelas “pessoas que sofreram e foram mortas e pelas que diariamente carregam aos ombros o peso de tantas injustiças”, recordando o sacrifício de Jesus na cruz repleto do pecado e do sofrimento dos nossos povos, “um sofrimento a ser resgatado”.
Depois, dissertou em torno do versículo evangélico “que todos sejam um só” (Jo 17,21), como Jesus pediu ao Pai numa hora crucial da sua vida, sabendo que “uma das piores ameaças que atinge, e atingirá, o seu povo e toda a humanidade será a divisão e o conflito, a subjugação de uns pelos outros”. E esta unidade “é um dom que devemos pedir insistentemente pelo bem da nossa terra e seus filhos”, estando com atenção a tentações que possam aparecer e contaminar pela raiz este dom com que Deus nos quer presentear. Entre tais tentações, contam-se os falsos sinónimos e as equivocas armas da unidade.
Assim, unidade não é sinónima de uniformidade, que silencia as diferenças. Ao invés, “a riqueza duma terra nasce precisamente do facto de cada parte saber partilhar a sua sabedoria com as outras”. Nestes termos, segundo o Pontífice, “a unidade é uma diversidade reconciliada, porque não tolera que, em seu nome, se legitimem as injustiças pessoais ou comunitárias”.
Quanto às armas da unidade, construída no reconhecimento e na solidariedade, não se pode aceitar qualquer meio. Por exemplo, os acordos “lindos” que não se concretizam frustram a esperança. Depois, a violência e a destruição que podem ceifar vidas humanas nunca produzem unidade, mas acabam por tornar falsa a causa mais justa. São “como lava de vulcão que tudo destrói, tudo queima, deixando atrás de si apenas esterilidade e desolação”.
Em vez disso, exorta o Papa: “procuremos e não nos cansemos de procurar o diálogo para a unidade”, rezando: “Senhor, fazei-nos artesãos de unidade”.
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Na missa da “Virgem do Carmo e de Oração pelo Chile, em Iquique – Campus Lobito, o Papa desenvolveu a pregação em torno do versículo joânico “Em Caná da Galileia, Jesus realizou o primeiro dos seus sinais miraculosos” (Jo 2,11), numa festa, a instâncias de sua Mãe. E sublinhou o ambiente de festa como ambiente do Evangelho, boa nova da alegria, “uma alegria que se propaga de geração em geração e da qual somos herdeiros”, porque “somos cristãos”.
Assumindo-se como peregrino a celebrar com o Chile a maneira linda de viver a fé, frisou:
As vossas festas patronais, as vossas danças religiosas (que chegam a durar uma semana), a vossa música, os vossos vestidos fazem desta região um santuário de piedade e de espiritualidade popular. De facto, não é uma festa que fica fechada dentro do templo, mas conseguis vestir de festa toda a aldeia. Sabeis celebrar cantando e dançando ‘a paternidade, a providência, a presença amorosa e constante de Deus’; e, deste modo, gerais atitudes interiores que raramente se observam no mesmo grau em quem não possui esta religiosidade: paciência, sentido da cruz na vida quotidiana, desapego, aceitação dos outros, dedicação, devoção.”.
A seguir, apresentou a ação de Maria, para que, no ambiente de festa, a alegria prevaleça. Atenta a tudo o que sucede ao seu redor e, como boa mãe, consegue dar-se conta de que, na festa, na alegria geral, algo estava para arruinar a festa. E, aproximando-Se do Filho, diz: “Não têm vinho” (Jo 2,3).
Também agora Maria vai pelas nossas aldeias, ruas, praças, casas, hospitais. É “a Virgem da Tirana, a Virgem Ayquina em Calama, a Virgem das Penhas em Arica, que passa por todos os nossos problemas familiares, aqueles que parecem sufocar-nos o coração, para Se aproximar de Jesus e dizer-Lhe ao ouvido: Olha! Não têm vinho”. E, como então se aproximou dos que serviam na festa a dizer-lhes “Fazei o que Ele vos disser” (Jo 2,5), também agora esta mulher de poucas palavras, mas muito concreta, se aproxima de cada um de nós para nos dizer: “Fazei o que Ele vos disser”. E é por esta via que vira o milagre.
Disse o Papa argentino que “o milagre começa quando os serventes aproximam as vasilhas de pedra com água que se destinavam à purificação”, pelo que “também cada um de nós pode começar o milagre” e “cada um de nós é convidado a participar do milagre para os outros”.
E Francisco passou a apontar Iquique, “terra de sonhos”, como palco do milagre para os outros:
Uma terra que soube albergar pessoas de diferentes povos e culturas, pessoas que tiveram de deixar os seus queridos e partir. Uma marcha sempre baseada na esperança de obter uma vida melhor, mas sabemos que sempre se faz acompanhar por bagagens carregadas de medo e incerteza pelo que virá.”.
Esta região de imigrantes mostra “a grandeza de homens e mulheres, de famílias inteiras que, perante a adversidade, não se dão por vencidas, mas se mexem à procura de vida”, quais “ícones da Sagrada Família, que teve de atravessar desertos para poder continuar a viver”.
Assim, o Pontífice quer que esta é terra de sonhos “continue a ser também terra de hospitalidade” e de hospitalidade festiva, pois “não há alegria cristã, quando se fecham as portas; não há alegria cristã, quando se faz sentir aos outros que estão a mais ou que não têm lugar no nosso meio” (cf Lc 16,19-31).
Pretende que, tal como Maria em Caná, estejamos atentos nas praças e aldeias e reconhecer os “que têm a vida ‘arruinada’, que perderam – ou lhes roubaram – as razões para fazer festa”. E as nossas vozes a dizer ‘Não têm vinho’ serão “o grito do povo de Deus, o grito do pobre, que tem forma de oração e alarga o coração, e nos ensina a estar atentos”. Por isso, apela:
Estejamos atentos a todas as situações de injustiça e às novas formas de exploração que fazem tantos irmãos perder a alegria da festa. Estejamos atentos à situação de precariedade do trabalho que destrói vidas e famílias. Estejamos atentos a quem se aproveita da irregularidade de muitos migrantes porque não conhecem a língua ou não têm os documentos em ‘regra’.”.
Mas também – ensina – como os serventes da festa, traremos o que temos, por pouco que pareça, de modo que “a nossa solidariedade e o nosso compromisso em prol da justiça sejam parte da dança ou do cântico que hoje podemos entoar a Nosso Senhor”, deixando-nos “impregnar pelos valores, a sabedoria e a fé que os migrantes trazem consigo, sem nos fecharmos a essas ‘vasilhas’ cheias de sabedoria e história que trazem quantos continuam a chegar a estas terras”, e não nos privando “de todo o bem que eles têm para oferecer”.
Depois, exorta o Santo Padre:
Deixemos que Jesus possa completar o milagre, transformando as nossas comunidades e os nossos corações em sinal vivo da sua presença, que é jubilosa e festiva porque experimentamos que Deus está connosco, porque aprendemos a hospedá-Lo no meio de nós, no nosso coração”.
***
O Papa teve ainda, no Chile, encontros com o Centro Penitenciário Feminino de Santiago, com os Sacerdotes, Consagrados e Seminaristas, com os Bispos, com os jovens; e almoçou com alguns habitantes de Araucanía.
A caminho para a missa em Iquique, desfilou no Papamóvel pelas ruas saudando fiéis. No trajeto, desceu do Papamóvel para ajudar uma policial que caiu do cavalo em que estava quando passou ao lado do Pontífice.
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Mais de meio milhão de estrangeiros vive, atualmente, no Chile em situação legal, segundo dados oficiais, ou seja, 3% da população de 17,5 milhões. De acordo com números divulgados pela imprensa local, apenas no ano passado cerca de 105 mil haitianos e mais de 100 mil venezuelanos chegaram ao território.

O Papa, apesar de alguma densidade de contexto, fez passar a mensagem essencial da reconciliação, do sonho, da unidade nas diferenças, da hospitalidade, do acolhimento, da denúncia das injustiças e da alegria evangélica, mobilizando para a oração/reflexão e para ação solidária – sempre numa linha de aprendizagem e de busca de vida – implicando neste dinamismo todos: autoridades, forças vivas do povo e agentes da pastoral.

2018.01.20 – Louro de Carvalho

sábado, 29 de julho de 2017

Santa Marta, mulher de fé

Muitas vezes satisfazemo-nos em enclausurar determinadas personalidades, incluindo santos e santas, em rótulos dourados e isso nos satisfaz. Vem isto a propósito de Santa Marta cuja memória litúrgica é hoje objeto de celebração.
É certo que passou, com alguma razão, para a memória coletiva dos cristãos como a mulher da atividade em contraste com sua irmã Maria de Betânia, a contemplativa. Esquecemos que tal atividade era de serviço ao Senhor e configurava a hospitalidade própria dos judeus, que passou para a doutrina cristã, com base em Mateus (25,35.38.43.44) como uma das obras de misericórdia corporais, concretizada no acolhimento aos peregrinos e sem teto, como serviço prestado ao próprio Jesus (cf 25,40.45).
Assim, a nótula histórica que introduz a Missa e a Liturgia das Horas de Santa Marta especifica:
“Era irmã de Maria e de Lázaro. Quando recebia o Senhor em sua casa de Betânia, servia-O com grande diligência e, com suas orações obteve a ressurreição de seu irmão.”
Também a oração coleta da Missa, que se reza nas diversas horas da Liturgia das Horas, frisa a aceitação da hospitalidade oferecida por Marta a Jesus como pretexto para implorarmos do Senhor, por intercessão da Bem-aventurada, o merecimento de, “servindo a Cristo em cada um dos nossos irmãos”, sermos “recebidos nas moradas eternas”. 
A oração sobre as oblatas regista a nossa proclamação das maravilhas (não se tratará apenas da hospitalidade) realizadas pelo Senhor em Santa Marta como ponto de partida para solicitarmos de Deus que aceite “a oferta do nosso ministério” como aceitou “a sua generosa hospitalidade”. 
Por sua vez, a oração depois da comunhão faz-nos pedir ao Senhor que “a comunhão do Corpo e Sangue” de Cristo “nos afaste das coisas efémeras deste mundo, para que, a exemplo de Santa Marta”, servindo a Deus “com sincera caridade na terra, contemplemos eternamente” o Seu rosto no Céu. Afinal, Marta não se ocupava apenas das coisas da casa!
E um hino proposto para o Ofício de Leituras enaltece essa hospitalidade ativa de Marta como serviço a “tão grande Hóspede” e como forma de promoção da disponibilidade de Maria e de Lázaro para escutarem o Mestre. Vejamos o texto do hino:

Ó Santa Marta, mulher feliz,
nós vos queremos felicitar.
Vós merecestes receber Cristo
por muitas vezes em vosso lar.

Vós recebestes tão grande Hóspede
com mil cuidados, nosso Senhor,
em muitas coisas sempre solícita
e impelida por terno amor.

Enquanto alegre servis a Cristo,
Maria e Lázaro, vossos irmãos,
podem atentos receber dele
a graça e vida por refeição
Enquanto a vossa feliz irmã
com seus aromas a Cristo ungia,
serviço extremo vós dedicastes
a Quem à morte se dirigia.

Ó hospedeira feliz do Mestre,
nos corações acendei o amor,
para que sejam eternamente
lares amigos para o Senhor.

Seja à Trindade eterna glória!
E no céu queira nos hospedar
para convosco, no lar celeste,
louvor perene sem fim cantar.

Além disso, embora o Evangelho recomendado para a Missa seja Jo 11,19-27, pode ler-se em alternativa Lc 10, 38-42, que salienta, dentro da atividade hospitaleira, o ónus do trabalho: 
Jesus entrou em certa povoação e uma mulher chamada Marta recebeu-O em sua casa. Ela tinha uma irmã chamada Maria, que, sentada aos pés de Jesus, ouvia a sua palavra. Entretanto, Marta atarefava-se com muito serviço. Interveio então e disse: ‘Senhor, não Te importas que minha irmã me deixe sozinha a servir? Diz-lhe que venha ajudar-me’. 
O Senhor respondeu-lhe: ‘Marta, Marta, andas inquieta e preocupada com muitas coisas, quando uma só é necessária. Maria escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada’.”. 
Marta, como responsável da casa, na ausência de Lázaro, queria atender o visitante e companheiros como todo o esmero oriental. E, como o trabalho doméstico estaria a ser demasiado pesado, com a familiaridade de que se reveste a interpelação, queixa-se ao Mestre da não ajuda de Maria na preparação da comida (μόνην με κατέλειπεν) e pede-lhe que a obrigue a ajudá-la. Na resposta, Jesus assume o mesmo tom familiar expresso na repetição do nome de Marta, mas dá a grande lição: andava mui atarefada (satagebat circa frequens ministerium; em grego, περιεσπατο περι πόλλην διακονίαν) com tantas coisas (no grego pode perceber-se que andava completamente distraída – da audição das palavra do Senhor – por causa do muito serviço) quando apenas uma só coisa é necessária, a escolhida por Maria.
Esta “uma só coisa” necessária é de tradução incerta: alguns códices permitem traduzir, “de uma só coisa há necessidade”; de outros infere-se, “poucas coisas são necessárias, ou melhor, uma só”. E Frederico Lourenço, no vol. I da sua tradução da Bíblia, refere para o segmento “Maria escolheu a melhor parte (την αγαθην μερίδα – a boa parte), que não lhe será tirada”:
A palavra parte (merís) poderia eventualmente ser entendida como se entende “parte” (méros) em 12:46 [por lapso escreveu 12:26], Mateus 24:51 e João 13:8, isto é no sentido de “lugar”. Segundo esta hipótese, Jesus estaria aqui a dizer: “Maria escolheu o bom lugar, que não lhe será tirado”, sendo esse bom lugar estar simplesmente sentada aos pés de Jesus.
Porém, todas estas hipóteses não eclipsam o sentido fundamental da lição de Jesus (estar aos pés do mestre significava entre os judeus aprender com ele). Com efeito, é mais importante atender à lição e vida do Reino do que atarefar-se com misteres que podem afastar-nos dele. Algo semelhante disse Jesus em Mateus: “Procurai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais se vos dará por acréscimo” (Mt 6,33). Não se trata, porém, diretamente da promoção da vida contemplativa sobre a vida ativa, mas da chamada de atenção para que os trabalhos secundários não se tornem obsessão de vida e impeçam de apreciar devidamente a doutrina do Reino e o Evangelho, que era a palavra que Jesus dirigia a Maria de Betânia.
***
E Marta aprendeu a lição. Na verdade, a antífona da comunhão proposta para a Missa quando não há canto, é uma citação de João (Jo 11,27), Marta disse a Jesus: Vós sois o Messias, o Filho de Deus vivo, que veio ao mundo”. 
Por seu turno, Santo Agostinho ensina num dos seus sermões:
“Marta e Maria eram irmãs, não apenas irmãs de sangue, mas também pelos sentimentos religiosos. Ambas estavam unidas ao Senhor; ambas, em perfeita harmonia, serviam ao Senhor corporalmente presente. Marta recebeu-o como costumam ser recebidos os peregrinos. No entanto, era a serva que recebia o seu Senhor; uma doente que acolhia o Salvador; uma criatura que hospedava o Criador. Recebeu o Senhor para lhe dar o alimento corporal, ela que precisava do alimento espiritual. O Senhor quis tomar a forma de servo e ser, nesta condição, alimentado pelos servos, por condescendência, não por necessidade. Também foi por condescendência que se apresentou para ser alimentado, pois tinha assumido um corpo que lhe fazia sentir fome e sede.” (cf Sermo 103, 1-2. 6: PL 38, 613.615).
***
E o Evangelho recomendado para a Missa (Jo 11,19-27) contém o ato de fé mais expressivo de Marta, o que mostra bem a comunhão de fé na verdade da vida eterna e de esperança messiânica: “Acredito que Tu és o Messias, o Filho de Deus”.  
Muitos judeus vieram visitar Marta e Maria as para condolências pela morte do irmão. 
Ao saber que Jesus chegara, Marta saiu-lhe ao encontro, porém, Maria ficou sentada em casa. 
Marta disse a Jesus: “Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido. Mas sei que, mesmo agora, tudo o que pedires a Deus, Deus To concederá”. 
Disse-lhe Jesus: “Teu irmão ressuscitará”. 
Marta respondeu: “Eu sei que há de ressuscitar na ressurreição do último dia”. 
Disse-lhe Jesus: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem acredita em Mim, ainda que tenha morrido, viverá; e todo aquele que vive e acredita em Mim, nunca morrerá. Acreditas nisto?”. 
Disse-Lhe Marta: “Acredito, Senhor, que Tu és o Messias, o Filho de Deus, que havia de vir ao mundo”. 


Ao aproximar-se Jesus de Betânia, alguém se adiantou a dar a notícia da sua chegada. Marta saiu ao seu encontro, ao passo que Maria permaneceu sentada entre a roda de pessoas que apresentavam os pêsames. Tratava-se de visitas de condolências muito apreciadas entre os judeus. E o luto durava sete dias. Segundo o uso rabínico, os primeiros três dias eram dedicados ao pranto e os seguintes ao luto silencioso. Também era usual jejuar-se (1Sm 31,13). O ritual prescrevia, após o regresso do enterramento, sentar-se no chão com os pés descalços e a cabeça coberta. Os primeiros sete dias eram especialmente dedicados às visitas.
Eis um apequena indicação sobre as duas irmãs que está em consonância com o caráter de ambas como as apresenta Lucas (Lc 10,38ss).
Parece, à primeira vista, que a fé de Marta sofre duma certa imperfeição, pois, acreditava no poder da oração de Jesus, mas desde que ele ali estivesse presente – exatamente como a fé de Maria quando é chamada por Marta. Também Maria, quando chegou ao sítio onde estava Jesus, mal o viu, caiu-lhe aos pés e disse-lhe: ‘Senhor, se Tu cá estivesses, o meu irmão não teria morrido’ (Jo 11,32).
E, apesar de Marta dizer a Jesus que sabe que tudo o que Ele pedir Deus, Deus lho concederá, não crê para já na ressurreição imediata do irmão. Por isso, quando o Mestre garante que Lázaro ressuscitará, Marta remete com desconsolo para a ressurreição no último dia – fé que ela tem como firme no contexto da crença ortodoxa de Israel. Contudo, a pedagogia de Jesus conduz a um ensino carregado de grande novidade e riqueza teológica. Jesus afirma-se perentoriamente como “a “ressurreição e a vida” e garante que, “ainda que tenha morrido”, quem acredita n’ Ele “viverá”; e “todo aquele que vive e acredita” n’ Ele, “nunca morrerá”.
Ora, os israelitas não sabiam que a ressurreição em que acreditavam era obra do Messias. Mas Cristo, que se apresentou como o Messias, é o agente da ressurreição dos mortos. Mais: Ele próprio é a ressurreição, porque o Pai lhe outorgou o poder sobre a sua própria vida. Por isso, Jesus é a causa da ressurreição dos mortos, tanto da alma como do corpo. E, como no Antigo Testamento e na literatura rabínica o poder de dar a vida e de ressuscitar é atributo exclusivo de Deus, Jesus está, com este ensinamento, a proclamar-se Deus. Já antes Ele tinha dito: Assim como o Pai ressuscita os mortos e os faz viver, também o Filho faz viver aqueles que Ele quer” (Jo 5,21). Além disso, tal como está redigida a proclamação de Jesus e tendo em conta expressões como ‘aquele que crê em Cristo, ainda que morra, viverá’, ou ‘que este crente nunca mais morrerá’ – expressões valorizadas no contexto da morte de Lázaro – tinham que levar a pensar na ressurreição física.
Não obstante, no pensamento deste Evangelho, o conteúdo é maior. A ressurreição de Lázaro, causada por ser Cristo a própria ressurreição, ainda por cima física, está vinculada à fé em Jesus, que dá a vida sobrenatural (cf Jo 5,19-47; 8,21-58; 14,16; 1Jo5,11-12) que traz consigo a ressurreição (Jo 5,29; 6,40-50.53-58), aqui milagrosamente antecipada.
É esta a fé que Jesus pede expressamente a Marta, desafiando-a: “Acreditas nisto?” E Marta responde afirmativamente envolvendo a sua resposta por invólucro messiânico.
Frederico Lourenço traduz assim: “Sim, Senhor, eu acredito que Tu és o Cristo, o filho de Deus que vem para o mundo”. De facto a forma verbal que significa “que vem” é um particípio presente (voz média); ερχόμενος. E explica a expressão “Sim, Senhor, eu acredito”:
“Marta emprega aqui o perfeito (pepísteuka), com o sentido ‘eu tenho vindo a acreditar e, por isso, acredito’. É o resultado do processo de fé.” (Lourenço, op cit).
Marta confessa que Jesus é o Messias, o filho de Deus, que vem para o mundo. É evidente que Marta confessa a fé no Messias. Mas deve dizer-se que em João o título de Filho de Deus não poder ser apenas um apositivo de Messias ou Cristo, mas expressão clara da filiação divina ontológica.
***
Assim, Agostinho entende a hospitalidade de Marta como ato de fé. No aludido sermão, diz:
As palavras do Senhor Jesus Cristo nos advertem de que, na multiplicidade das ocupações deste mundo, devemos aspirar a um único fim. Aspiramos porque estamos a caminho e não em morada permanente; ainda em viagem e não na pátria definitiva; ainda no tempo do desejo e não na posse plena. Mas devemos aspirar, sem preguiça e sem desânimo, a fim de podermos um dia chegar ao fim.
(…)
O Senhor foi recebido como hóspede, ele que veio para o que era seu, e os seus não o acolheram. Mas, a todos que o receberam, deu-lhes capacidade de se tornarem filhos de Deus (Jo 1,11-12). Adotou os servos e fê-los irmãos; remiu os cativos e fê-los coerdeiros. Que ninguém de entre vós ouse dizer: ‘Felizes os que mereceram receber a Cristo em sua casa!’. Não te entristeças, não te lamentes por teres nascido num tempo em que já não podes ver o Senhor corporalmente. Ele não te privou desta honra, pois afirmou: Todas as vezes que fizestes isso a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fizestes (Mt 25,40).
E, em viva apostrofe, dirige-se a Marta nestes termos:
Aliás, Marta, permite-me dizer-te: Bendita sejas pelo teu bom serviço! Buscas o descanso como recompensa pelo teu trabalho. Agora estás ocupada com muitos serviços, queres alimentar os corpos que são mortais, embora sejam de pessoas santas. Mas, quando chegares à outra pátria, acaso encontrarás peregrinos para hospedar? Encontrarás um faminto para repartires com ele o pão, um sedento para lhe dares de beber, um doente para visitar, um desunido para reconciliar, um morto para sepultar? Lá não haverá nada disso. Então o que haverá? O que Maria escolheu: lá seremos alimentados, não alimentaremos. Lá se cumprirá com perfeição e em plenitude o que Maria escolheu aqui: daquela mesa farta, ela recolhia as migalhas da palavra do Senhor.
Queres mesmo saber o que há de acontecer lá? É o próprio Senhor quem diz a respeito de seus servos: Em verdade eu vos digo: ele mesmo vai fazê-los sentar-se à mesa e, passando, os servirá (Lc 12,37).
***
Em suma, a mulher de tanta atividade é a mulher da fé, porque aceitou desde a primeira hora embarcar no processo de fé e ir aprendendo as lições do Mestre dos mestres com quem tratava familiarmente. E nós, que somos da família de Jesus, também estamos neste processo de fé messiânica e acalentamos a esperança de que o dia melhor vai chegar?

2017.07.29 – Louro de Carvalho