Mostrar mensagens com a etiqueta Guardas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Guardas. Mostrar todas as mensagens

sábado, 14 de setembro de 2019

“Se a esperança é fechada numa cela, não há futuro para a sociedade”


Foi a grande advertência do Papa Francisco no encontro que teve hoje, dia 14 de setembro, na Praça de São Pedro, com cerca de 11 mil membros da Polícia Penitenciária, pessoal ligado à Administração Penitenciária e ao Tribunais de menores e de comunidades e pessoal que trabalha nas prisões. Na sua alocução, o Santo Padre sustentou que ninguém deve ser privado do direito de recomeçar, pois “a prisão perpétua não é a solução para os problemas, mas um problema a ser resolvido”.
Em torno de três palavrasobrigado”, “em frente” e “coragem” – o discurso papal exprimiu a gratidão da Igreja a quem profissionalmente cumpre uma das grandes obras de misericórdia, cuidar dos reclusos; encorajou o serviço pastoral de ministros ordenados, religiosos e leigos; e estimulou a esperança daqueles e daquelas que se veem sem a liberdade pessoal que sentem ser-lhes tão cara, mas perdida.
***
Francisco começou por dizer obrigado para agradecer o trabalho da Polícia Penitenciária e do pessoal administrativo: “um trabalho escondido, muitas vezes difícil e mal pago, mas essencial”. E, sublinhando o significado deste trabalho não apenas “como uma vigilância necessária, mas como um apoio àqueles que são fracos”, observou:
Sei que não é fácil, mas quando, além de serdes guardiões da segurança, sois uma presença próxima daqueles que caíram nas redes do mal, vós tornais-vos construtores do futuro, lançais as bases para uma convivência mais respeitosa e, portanto, para uma sociedade mais segura. Obrigado porque, ao fazerdes isso, vos tornais, dia após dia, artesãos de justiça e esperança”.
Citando a passagem da Epístola aos Hebreus “Lembrai-vos dos presos, como se estivésseis juntamente com eles na prisão” (Heb 13,3), o Papa recordou que estes agentes se encontram na mesma situação, “ao atravessarem os limiares de tantos locais de dor todos os dias, enquanto passam muito tempo entre os diversos setores, enquanto se comprometem a garantir a segurança sem nunca perder o respeito pelos seres humanos”. E, face à necessidade de reconhecer a dignidade diante da humanidade ferida, exortou:
Por favor, não esqueçais o bem que podeis fazer todos os dias. O vosso comportamento, as vossas atitudes, os vossos olhares são preciosos. Sede pessoas que, diante de uma humanidade ferida e muitas vezes devastada, reconhecem nela, em nome do Estado e da sociedade, a dignidade irreprimível.”.
O Papa reconhece que os agentes não são apenas vigias; mas são sobretudo protetores das pessoas que lhes são confiadas, porque, ao tomarem consciência do mal praticado, acolhem as perspetivas de renascimento para o bem de todos. Enfim, são vocacionados a “ser ponte entre a prisão e a sociedade”, pelo que o Pontífice explicitou contra os medos e a indiferença:
Vós sois assim chamados a ser uma ponte entre a prisão e a sociedade civil: com o vosso serviço, exercitando uma reta compaixão, vós podeis contornar os medos recíprocos e o drama da indiferença”.
Depois, exortou-os a não perderem a motivação, mesmo diante das tensões que possam surgir nos centros de detenção e prisões, recordando a importância do apoio das famílias, o incentivo recíproco e a partilha entre os colegas, o que permite enfrentar as dificuldades e ajudar a enfrentar as deficiências, como o “problema da superlotação nas instituições penitenciárias, que faz aumentar em todos a sensação de fraqueza e mesmo de exaustão”. E Francisco enfatizou:
Quando as forças diminuem, a desconfiança aumenta”. Por isso, apontou que “é essencial garantir condições de vida decentes”, para que as prisões não se tornem “depósitos de raiva em vez de locais de recuperação”. De facto, a prisão não pode esgotar-se na punição, pois, não é um mecanismo de vingança, mas um instrumento de regeneração e de recuperação da liberdade. É a dignidade humana que está em jogo, apesar dos erros e crimes. Os reclusos não perdem a face humana, apesar de temporariamente privados da liberdade pessoal.
***
A todos quantos trabalham na pastoral penitenciária – capelães, religiosas, religiosos e voluntários que trabalham nas prisões –, a palavra do Santo Padre foi: “Em frente”. E vincou, de modo anafórico, as diversas circunstâncias em que essa determinação de seguir em frente se torna necessária, oportuna e eficaz, compartilhada e solidária: 
Em frente, quando entrais nas situações mais difíceis com a única força de um sorriso e de um coração que escuta, em frente quando carregais os fardos dos outros e os levais na oração. Em frente quando, em contacto com a pobreza que encontrais, vedes a vossa própria pobreza. É um bem, porque é essencial antes de tudo reconhecer-se necessitado de perdão. Então as próprias misérias tornam-se recetáculos da misericórdia de Deus; então, perdoados, tornam-se testemunhas credíveis do perdão de Deus, caso contrário corre-se o risco de levar a si mesmo e as próprias presumidas autossuficiências. Em frente, porque com a vossa missão vós ofereceis consolo. E é tão importante não deixar sós aqueles que se sentem sozinhos.”.
E aos religiosos, pacientes semeadores da Palavra e verdadeiros pastores das ovelhas fracas, veio um “Em frente” específico:
Em frente então com Jesus e no sinal de Jesus, que vos chama a serdes pacientes semeadores da sua Palavra, buscadores incansáveis daquilo que está perdido, anunciadores da certeza de que cada um é precioso para Deus, pastores que carregam as ovelhas mais fracas nos próprios ombros. Em frente com generosidade e alegria: “com o vosso ministério, consolais o coração de Deus”.
Como se pode ver, Francisco fez a ponte entre o consolo dado aos reclusos e o consolo que se dá a Deus, que a todos sorri, apesar da miséria humana tantas vezes manifesta na pobreza, no erro e no sofrimento.
***
E a terceira e última palavra – “coragem” – foi dirigida aos reclusos. Diz o Papa que a palavra “coragem” vem de “coração” (no latim, “cor, cordis”, que deu “coraticum). E é palavra que o próprio Jesus diz a quem está preso, porque estes estão “no coração de Deus”, “são preciosos aos seus olhos” e mesmo que se sintam perdidos e indignos, não podem desanimar, pois “são importantes para Deus”, que quer realizar maravilhas neles. E Francisco exortou:
Nunca vos deixeis aprisionar na cela escura de um coração sem esperança, não cedais à resignação. Deus é maior do que qualquer problema e espera por vós para vos amar. Colocai-vos diante do Crucifixo, sob o olhar de Jesus: diante d’Ele, com simplicidade, com sinceridade.”.
Considerou em jeito de justificação:
Dali, da coragem humilde daqueles que não mentem para si mesmos, renasce a paz, floresce novamente a confiança de ser amados e a força para seguir em frente. Eu imagino-me a olhar para vós e ver a deceção e a frustração em vossos olhos, enquanto no coração bate ainda a esperança, muitas vezes ligada à recordação dos vossos entes queridos.”.
E reforçou o apelo à coragem:
Coragem, nunca sufoqueis a pequena chama da esperança”.
Convicto de que nunca é lícito privar alguém do direito de recomeçar, o Santo Padre falou do dever que incumbe a todos de “reavivar esta pequena chama”. E desenvolveu:
Cabe a toda a sociedade alimentá-lo, fazer de forma que a penalidade não comprometa o direito à esperança, que sejam garantidas perspetivas de reconciliação e de reintegração. Enquanto os erros do passado são remediados, não se pode cancelar a esperança no futuro.”.
Pronunciou-se claramente contra a prisão perpétua:
A prisão perpétua não é a solução para os problemas, mas um problema a ser resolvido. Porque se a esperança é fechada numa cela, não há futuro para a sociedade. Nunca privar do direito de recomeçar!”.
E concluiu:
Vós, queridos irmãos e irmãs sois testemunhas desse direito com o vosso trabalho e o vosso serviço: o direito à esperança, o direito de recomeçar. Renovo-vos o meu ‘obrigado’. Em frente, coragem, com as bênçãos de Deus, guardando os que vos foram confiados. Rezo por vós e também peço que rezeis por mim.”.
***
A pari, entre nós,
A coordenação nacional da Pastoral Penitenciária esteve hoje na sua peregrinação ao Santuário de Fátima, entre as 11 horas e as 16,30, com o tema ‘Peregrinos Missionários: Todos, Tudo, Sempre!’, sob a presidência de Dom Joaquim Mendes, bispo auxiliar do Patriarcado de Lisboa e membro da Comissão Episcopal da Pastoral Social e Mobilidade Humana.
O tema da peregrinação surge no contexto do Ano Missionário promovido pela Conferência Episcopal Portuguesa e do Mês Missionário Extraordinário proposto a toda a Igreja pelo Papa para o próximo mês de outubro. E o coordenador deste setor pastoral disse, em declarações à agência Ecclesia, que “é sempre importante que as pessoas se encontrem e convivam descontraidamente”. Segundo o padre João Gonçalves, quando se fala em Pastoral Penitenciária, é em “três dimensões”: “a prisão, a prevenção e a reinserção social”.
Em relação à prevenção, referiu que “há um trabalho imenso a fazer, que ultrapassa em muito aqueles que estão nas prisões – paróquias, associações religiosas, congregações religiosas, e com as comunidades, que devem procurar ocupar crianças e jovens para que não entrem em caminhos da criminalidade ou próximos disso”.
No âmbito da reinserção social, exemplificou com as pessoas que saem das prisões, que procuram “acompanhá-los” e um dos trabalhos que têm neste momento, “é realojar naquelas saídas imediatas em que muitos não têm para onde ir” e querem dar uma resposta imediata”, num protocolo entre a Direção Geral dos Serviços Prisionais e a Cáritas Portuguesa.
***
A 4.ª peregrinação nacional da Pastoral Penitenciária a Fátima começou com o acolhimento, às 11 horas, no Parque 5 do Santuário, de onde se partiu em peregrinação simbólica até à Capelinha das Aparições, para rezar a oração do Terço (12 horas) e participar na Eucaristia (12,30 horas). Almoçaram, depois, no parque, em regime de piquenique, partilha, convívio. Houve quem tocasse guitarra e cantaram-se canções.
Do programa destaca-se, às 15,30 horas, no auditório do Hotel Santo Amaro, uma “pequenina sessão muito simbólica só para sublinhar” os 10 anos do Decreto-Lei n.º 252/2009, de 23 de setembro, sobre a ‘Assistência Espiritual e Religiosa nos Estabelecimentos Prisionais’, que “regulamenta” esta “presença nas prisões”.
Nesta iniciativa da Pastoral Penitenciária de Portugal, participaram reclusos (eram “elegíveis” os que se encontrem em condições de beneficiarem de licença de saída jurisdicional ou de licença de saída de curta duração) e seus familiares, ex-reclusos e seus familiares, assistentes espirituais e religiosos prisionais e colaboradores, voluntários, dirigentes das prisões, guardas prisionais, técnicos que trabalham nas prisões, familiares de todos estes agentes e todos os simpatizantes deste setor da Igreja Católica. Segundo a carta-convite, de 28 de junho, os destinatários eram:
Reclusos e seus familiares, ex-reclusos e seus familiares, assistentes espirituais e religiosos prisionais e seus colaboradores, voluntários, candidatos a voluntários, dirigentes das prisões, guardas prisionais, técnicos que trabalham nas prisões, familiares de todos estes agentes e todos os simpatizantes da Pastoral Penitenciária que desejem estar presentes”.
Em relação à participação de reclusos, eram “elegíveis”:
Os que se encontrem em condições de beneficiarem de licença de saída jurisdicional ou de licença de saída de curta duração, ou seja, em situação de ‘precária’ (dependente do seu processo e da respetiva autorização judicial). Para tal, recomenda-se uma articulação próxima entre os respetivos reclusos e o assistente espiritual e religioso de cada Estabelecimento Prisional.”.
***
Enfim, enquanto há vida, há esperança e ninguém a pode aniquilar! E o Estado tem de o saber.
2019.09.14 – Louro de Carvalho

sábado, 31 de março de 2018

Selaram a pedra do sepulcro e confiaram-no à vigilância dos guardas


Este dia de sábado é considerado dia litúrgico, mas recomenda-se a recitação das horas do Ofício divino e a meditação do silêncio.
Esta meditação do silêncio pode incidir sobre vários pontos relacionados com palavras e gestos de Cristo, com o simbolismo do sepulcro e com a situação da Mãe de Jesus.
O Padre César Augusto dos Santos SJ diz-nos, lá do Vaticano, que “hoje fazemos experiência do vazio”. Com efeito, o Senhor cumpriu a sua missão redimindo-nos através da sua paixão e cruz, através da sua entrega obediente até a morte, sendo entregue ao coração da terra.
O Evangelho de Marcos refere:
Ao cair da tarde, visto ser a Preparação, isto é, véspera do sábado, José de Arimateia, respeitável membro do Conselho que também esperava o Reino de Deus, foi corajosamente procurar Pilatos e pediu-lhe o corpo de Jesus. Pilatos espantou-se por Ele já estar morto e, mandando chamar o centurião, perguntou-lhe se já tinha morrido há muito. Informado pelo centurião, Pilatos ordenou que o corpo fosse entregue a José. Este, depois de comprar um lençol, desceu o corpo da cruz e envolveu-o nele. Em seguida, depositou-o num sepulcro cavado na rocha e rolou uma pedra sobre a entrada do sepulcro. Maria de Magdala e Maria, mãe de José, observavam onde o depositaram.” (Mc 15,42-47).
O evangelista regista todos os atos do piedoso ofício da sepultura, mas, abstendo-se de qualquer descrição, como era seu jeito, insinua que o sepultamento teve de ser feito à pressa. Porém, o material utilizado era de boa qualidade – um lençol branco de linho ou síndone, como prescrito pelo ritualismo judaico. E também o sepulcro onde Jesus foi sepultado, que não era dele, era de pessoa de haveres, talvez de José de Arimateia, que esperava o Reino de Deus: escavado na rocha, compreendia um átrio, um pequeno corredor e a cela mortuária com um ou dois bancos de pedra e um nicho para depósito do cadáver. A entrada do átrio era fechada por uma pedra redonda que se rolava num plano inclinado.
A referência à postura das mulheres que observavam de olhar fixo no sepulcro pode sugerir a preparação da narração da descoberta do túmulo vazio e do anúncio da ressurreição.
Mateus refere um episódio meio burlesco:
No dia seguinte, que era o dia a seguir ao da Preparação, os sumos-sacerdotes e os fariseus reuniram-se com Pilatos e disseram-lhe: ‘Senhor, lembrámo-nos de que aquele impostor disse, ainda em vida: Três dias depois hei de ressuscitar. Por isso, ordena que o sepulcro seja guardado até ao terceiro dia, não venham os discípulos roubá-lo e dizer ao povo: Ressuscitou dos mortos. E seria a última impostura pior do que a primeira.’. Pilatos respondeu-lhes: ‘Tendes guardas. Ide e guardai-o como entenderdes.’. E eles foram pôr o sepulcro em segurança, selando a pedra e confiando-o à vigilância dos guardas.” (Mt 27,62-66).
Quer dizer: o morto ainda incomodava – podia fugir ou os discípulos que fugiram podiam vir arredar a pedra e roubar o cadáver e bradar a ressurreição. Selaram o sepulcro, rolaram em definitivo a pedra e puseram soldados de guarda. Como sabemos, foram precauções inúteis.
***
Face a estes factos, o Padre César Santos anota que, “tal como Maria, com o coração em luto, a Igreja aguarda esperançosa que a promessa de Cristo se cumpra, que ele surja, que ele ressuscite”, pois a ausência não se limita à experiência do vazio, mas apela ao aprofundamento da presença desejada. Assim, na manhã do sábado pré-pascal, “a saudade está presente”, mas é “uma saudade cheia de paz e de esperança”.
E nada impede que recordemos os sábados santos da nossa vida, as experiências de vazio após sofrimentos e perdas e que reflitamos sobre eles. E o orientador desta reflexão Interpela-nos:   
Como vivenciamos os mistérios dolorosos quando irrompem em nossa existência? Permitimos que a luz da fé na certeza da vitória da Vida ilumine a nossa mente e aqueça o nosso coração? Preenchemos esse vazio abrindo as portas do nosso coração a Jesus, Palavra de Vida, de Eternidade? Ou fragilizamo-nos mais ainda, permitindo que a escuridão da morte nos envolva?”.
E, em jeito de resposta, assegura que “Jesus é Vida” e que “Nossa Senhora, a verdadeira discípula, na manhã de sábado permaneceu, apesar da dor, do luto, esperançosa”, pois “Ela acreditou nas palavras de seu Filho e não permitiu que o sofrimento pela perda dissesse a última palavra, mas que a palavra definitiva fosse a promessa de seu Filho, a própria Palavra, que disse que iria ressuscitar, que Ele era o Caminho, a Verdade, a Vida”.
Neste dia, poderemos enveredar pelo exercício da Via Matris meditando as sete dores de Maria, designadamente a profecia de Simeão, a fuga para o Egito, a perda do menino no Templo, o encontro de Jesus a caminho do Gólgota, a contemplação da crucifixão e morte de Jesus, a descida de Cristo da cruz e a sua reclinação no regaço da Mãe e a desolação do sepultamento.   
Porém, na noite da Vigília Pascal, celebramos a Vitória da Vida, a ressurreição de Jesus, o encontro do Filho ressuscitado com a Mãe, a qual deixará de ser a Senhora das Dores, para ser a Senhora da Glória e a Senhora da Alegria.
Contudo, nós que vamos perdendo entes queridos, não aplicamos literalmente a eles e anos esse encontro pascal nesta vida terrena. Por isso, se a fé nos leva à celebração jubilosa da ressurreição de Jesus, temos de fazer o esforço da esperança, nem sempre fácil, da espera por eles no encontro final dos ressuscitados, crentes de que Cristo é o primeiro dos ressuscitados – as primícias.
Nestes termos, a nossa vida deverá ser um permanente Sábado Santo, não com vazio, mas pleno de fé, de esperança na certeza da vitória da Vida e de que também teremos o reencontro que Maria teve, que será para sempre. E, quanto mais nos deixarmos envolver pela Palavra de Vida, que é Jesus, mais nos aproximaremos da estupefação surpreendente da manhã da ressurreição e da alegre tarde das aparições do Ressuscitado. De modo mais intenso essa divina palavra nos iluminará e aquecerá.
***
Mas o sábado pré-pascal é o dia em que o nosso Pastor, fonte de águas vivas e por cuja morte ficamos provisoriamente apartados dele e na qual o sol se obscureceu, prendeu aquele que mantinha preso o primeiro homem. Hoje o nosso Salvador destruiu as prisões do inferno e esmagou o poder do demónio, quebrou as portas e as cadeias da morte. Chorado como se chora o filho único, porque morreu inocente, Ele livra-nos das portas do abismo e garante-nos:
Eu estive morto, mas agora vivo para sempre e tenho comigo as chaves da morte e do abismo” (Ap 1,18).
Está a cumprir-se o sinal de Jonas, o único dado àquela geração má e adúltera: “Assim como Jonas esteve três dias e três noites no ventre da baleia, também o Filho do Homem estará três noites no seio da terra” (Mt 12,40). Cumpre-se o desafio de Jesus aos judeus: “Destruí este templo, e em três dias Eu o levantarei! […] Ele falava do templo que é o seu corpo.” (Jo 2,19.21).
Por outro lado, o sepulcro do Senhor é um santuário, um relicário em que se guarda temporariamente o divino corpo, mas donde Ele saltará para a oferta da salvação à morada dos mortos, se levanta redivivo para que os apóstolos e as santas mulheres O vejam, acreditem Nele e sejam testemunhas e missionários do Reino de Deus.
É um santuário terreno que funciona como antecâmara do santuário celeste, o coração do Pai. O túmulo vazio é a relíquia do amanhã. Por isso, é adequada a recitação do Salmo 24 no Ofício de Leitura deste dia:
Quem poderá subir à montanha do SENHOR e apresentar-se no seu santuário?
O que tem as mãos inocentes e o coração limpo.
Ó portas, levantai os vossos umbrais! Alteai-vos, pórticos eternos, que vai entrar o rei glorioso.
Quem é esse rei glorioso? É o SENHOR, poderoso herói, o SENHOR, herói na batalha.
Ó portas, levantai os vossos umbrais! Alteai-vos, pórticos eternos, que vai entrar o rei glorioso.
Quem é Ele, esse rei glorioso? É o Senhor do universo! É Ele o rei glorioso. (Sl 24 [23,3-4.7-10]).
O Rei glorioso desceu à terra e sobe ao Céu, deixando-nos em missão e canto de louvor.
***
A Igreja Católica celebra, nas últimas horas deste Sábado Santo e nas primeiras de Domingo de Páscoa, o principal e mais antigo momento do ano litúrgico, a Vigília Pascal, assinalando a ressurreição de Jesus. É uma celebração mais longa do que habitual, em que são proclamadas mais passagens da Bíblia do que as três habitualmente lidas aos domingos, continuando com uma celebração batismal e a comunhão.
A vigília começa com o ritual do fogo e da luz, que evoca a ressurreição de Jesus; o círio pascal é abençoado, antes de o presidente da celebração inscrever a primeira e a última letra do alfabeto grego (alfa e ómega) e inserir 5 grãos de incenso, em memória das 5 chagas da crucifixão de Cristo. A inscrição das letras e do ano no círio são acompanhadas pela recitação da fórmula em latim ‘Christus heri et hodie, Principium et Finis, Alpha et Omega. Ipsius sunt tempora et sæcula. Ipsi gloria et imperium per universa æternitatis sæcula’ (Cristo ontem e hoje, princípio e fim, alfa e ómega. Dele são os tempos e os séculos. A Ele a glória e o poder por todos os séculos, eternamente).
O ‘aleluia’, suprimido na Quaresma, reaparece agora em vários momentos da missa como sinal de alegria.
A celebração articula-se em quatro partes: a liturgia da luz ou “lucernário”; a liturgia da Palavra; a liturgia batismal; a liturgia eucarística. A liturgia da luz consiste na bênção do fogo, na preparação do círio e na proclamação do precónio pascal. A liturgia da Palavra propõe sete leituras do Antigo Testamento, que recordam “as maravilhas de Deus na história da salvação” e duas do Novo Testamento: o anúncio da Ressurreição segundo os três Evangelhos sinóticos (Marcos, Mateus e Lucas) e a leitura apostólica sobre o Batismo cristão. A liturgia batismal é parte integrante da celebração, pelo que, mesmo quando não há qualquer Batismo, se faz a bênção da fonte batismal e a renovação das promessas. Do programa ritual consta, ainda, o canto da ladainha dos santos, a bênção da água, a aspersão de toda a assembleia com a água benta e a oração universal. A Liturgia Eucarística decorre como noutras celebrações.
Nos primeiros séculos, as Igrejas do Oriente celebravam a Páscoa como os judeus, no dia 14 do mês de Nisan, ao passo que as do Ocidente a celebravam sempre ao domingo. O Concílio de Niceia, no ano 325, apresentou prescrições sobre o prazo dentro do qual se pode celebrar a Páscoa, conforme os cálculos astronómicos (primeiro domingo depois da lua cheia que se segue ao equinócio da primavera): de 22 de março a 25 de abril. Em 1951, o Papa Pio XII mandou celebrar a Vigília Pascal de novo como nas origens, isto é, na noite do Sábado Santo para o Domingo da Páscoa; a reforma do Concílio Vaticano II  confirmou esta disposição.
2018.03.31 – Louro de Carvalho