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terça-feira, 27 de março de 2018

Dom António dos Santos, Bispo emérito da Guarda


Soube do falecimento de Dom António dos Santos, pelo que, tal como qualquer um dos crentes na Ressurreição final e na convicção de que Deus o recompensa dos seus lavores apostólicos, dirijo a Deus a prece pela sua alma e a oração de ação de graças por tudo quanto Deus lhe deu a ele e sobretudo pelos benefícios que, por seu intermédio, concedeu às comunidades a cujo serviço foi chamado a colocar-se e às pessoas e grupos que tiveram a sorte de o ter em sua companhia e com elas na defesa dos valores evangélicos.
Porém, não posso deixar de vincar a sua simpatia pessoal que nele encontrei aquando da comum participação numas jornadas de reflexão teológico-pastorais que decorreram, por iniciativa do Grupo Promotor do Movimento por um Mundo Melhor, na Casa da Sagrada Família, na Praia de Mira, numa das semanas do mês de dezembro de 1975, tendo sido recentemente eleito Bispo Auxiliar de Aveiro, com o título de Bispo de Tábora. Ali se mostrou um homem piedoso, bem disposto, bom conversador e paciente. Tanto assim foi que um padre alentejano e eu, um de cada lado do leito de merecido repouso, lhe atribulámos, a pé firme, a paciência com anedotas contadas à vez durante a maior parte da noite na presença de outros jovens tão irreverentes como nós. E o recém-eleito Sucessor dos Apóstolos ria e aturava-nos.
É certo que poucas mais vezes o encontrei. No entanto, recordo-me de termos tomado um café em Moimenta da Beira, na Pastelaria Martins, num dos primeiros dias de março de 1980, em trânsito para Lamego para a celebração das exéquias do Bispo emérito Dom João da Silva Campos Neves. E, quando me apresentou a dois dignitários da diocese da Guarda, assenti dizendo que sabia porque é estava tudo tão certinho. Também conversei com ele na celebração do encerramento do último curso de professores do ensino primário da Escola do Magistério Primário da Guarda. E, irreverente como eu era, a partir da sacristia da Sé Catedral, apontei para a cadeira episcopal e disse-lhe: “Aquela cadeira há de ser minha”. E a resposta foi pronta: “É provável, mas não enquanto eu cá estiver”.
E a última vez que ouvi a sua palavra publicamente proferida foi na Covilhã, na celebração da Eucaristia da bênção das pastas dos finalistas da Universidade da Beira Interior, a 22 de maio de 2004.
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Sobre o óbito do bispo emérito da Guarda, Dom António dos Santos – que morreu ontem dia 26 de março, pelas 19,30 horas, aos 85 anos, no Hospital Sousa Martins, onde estava internado – o Bispo diocesano Dom Manuel da Rocha Felício refere que o prelado emérito foi “um bispo amigo dos seus padres e próximo de todos”.
Em mensagem publicada na página da Internet da diocese, o Bispo da Guarda assegura que, neste momento, a diocese lhe expressa “profunda gratidão, sabendo nós que as suas últimas palavras também foram estas: ‘Gosto muito das pessoas da Guarda. Levo a Guarda no meu coração’.”. Com efeito, “depois dos tempos difíceis vividos pelo seu antecessor Dom Policarpo da Costa Vaz, as vocações e as ordenações sacerdotais nesta diocese da Guarda tiveram com Dom António dos Santos significativo crescimento”, a ponto de ter chegado a “ordenar só num ano cinco novos padres”.
Na nota, o prelado diocesano diz também que a Guarda lhe deve “a decisão de promover a ordenação de diáconos permanentes, importante serviço que hoje é uma realidade na diocese”.
Além disso, o Bispo emérito atraiu para a diocese da Guarda “a comunidade contemplativa das Irmãs Carmelitas, em meados dos anos 90 do século passado, e mandou construir para elas o Convento da Santíssima Trindade”.
De facto, como conclui Dom Manuel Felício, “a experiência pastoral de pároco e de vigário geral que trouxe da sua diocese de origem, a diocese de Aveiro, em muito ajudou o bom trabalho desenvolvido” na diocese da Guarda.
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Dom António dos Santos nasceu a 14 de abril de 1932, na localidade de Quintã, do concelho de Vagos, e foi ordenado presbítero em 1 de julho de 1956, em Albergaria-a-Velha. Exerceu funções na diocese de Aveiro, sendo coadjutor na paróquia da Branca, pároco em Oiã e ílhavo e, depois, vigário geral da diocese. Em 6 de dezembro de 1975, foi nomeado Bispo Auxiliar de Aveiro, com o título de Bispo de Tábora, e a celebração da sua ordenação episcopal foi realizada em 7 de abril de 1976 no pavilhão municipal de Ílhavo.
Entre 1976 e 1979 exerceu as funções de bispo auxiliar na diocese de Aveiro e, em 17 de novembro de 1979, foi nomeado bispo da Guarda, dando entrada solene na diocese no dia 2 de fevereiro de 1980, mantendo-se em atividade até 1 de dezembro de 2005, altura em que foi aceite o seu pedido de resignação, por motivos de saúde, pelo Papa Bento XVI, tendo-lhe sucedido Dom Manuel da Rocha Felício, que por ele fora recebido como Bispo Coadjutor em 16 de janeiro de 2005.
A diocese assinalou os 60 anos de ordenação sacerdotal do bispo emérito da Guarda, no dia 1 de julho de 2016.
O corpo do prelado emérito está a ser velado na igreja da Misericórdia e as exéquias solenes serão realizadas na Sé da Guarda, na quarta-feira, dia 28, às 15 horas, seguindo depois o cortejo fúnebre para a sua terra natal, na paróquia de Santo António de Vagos, na diocese de Aveiro.
O bispo da Guarda, Manuel Felício, enviou uma mensagem a todos os padres da diocese a quem pediu que, no dia de hoje, toquem os sinos “de cada igreja paroquial para assinalar o falecimento” do Bispo emérito.
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A página da internet da diocese de Aveiro, cujo Bispo diocesano, Dom António Manuel Moiteiro Ramos, é oriundo do clero da diocese da Guarda, tem uma nota do prelado atual sob o título “Em memória de Dom António dos Santos” e, na portada, a frase lapidar “O pastor seja o primeiro na ação, na contemplação, no silêncio e próximo de todos pela compaixão”, tirada do livro Estímulo de Pastores, do Beato frei Bartolomeu dos Mártires, o virtuoso Arcebispo de Braga e notável Padre do Concílio de Trento, que “define, de uma forma muito expressiva, a vida, o sacerdócio e o episcopado do Senhor Dom António dos Santos”.
Da sua extensa atividade apostólica, Dom António Moiteiro destaca “o seu amor às vocações sacerdotais e de consagração, apelando constantemente às comunidades cristãs a darem as mãos nesta causa de primeira importância na Igreja”. E explica com algum pormenor e muita emoção:
Os testemunhos que vou ouvindo do seu amor pelas vocações nas várias paróquias onde exerceu o seu ministério sacerdotal e, sobretudo, a sua ação na Diocese da Guarda – onde ordenou mais de quatro dezenas de sacerdotes, dos quais eu sou um deles – manifestam o seu amor à Igreja e a sua preocupação pelo futuro das comunidades cristãs. Ainda estou a ouvi-lo pedir às paróquias o seu compromisso por esta causa e a cadeia de orações que ele intensificou na Diocese.”.
E atrevia-se a afirmar, no momento das ordenações, que “os maiores benfeitores da Diocese eram as famílias que davam o melhor que tinham, isto é, os seus filhos”.
Do seu modo de vida, escreve o Bispo de Aveiro;
Viveu uma vida simples e austera, e para aqueles que o conhecemos mais de perto fica a sua amizade, o seu zelo de pastor e a espiritualidade profunda que transmitia a todos nós”.
E finaliza com um recado-prece em prol de Aveiro e Guarda, em especial pelos seminários e sacerdotes:
Senhor Dom António: Junto de Jesus, o centro da sua vida, e de Maria, a quem tanto amava, interceda pelos seminários e sacerdotes de Aveiro e da Guarda para que sejamos pastores segundo o coração misericordioso de Deus”.
***
É, pois, com sentido do dever e da amizade que lamento a morte do Bispo simpático e dedicado, por ele também rezando, bem como para que, por seu rogo, a Igreja, consagrada na Verdade, seja mais inserida, ativa e missionária e o mundo seja mais justo e fraterno.
2018.03.27 – Louro de Carvalho

domingo, 10 de dezembro de 2017

A ajuda de Maria a desenvolver anticorpos contra os vírus do nosso tempo

“Maria Imaculada,
pela quinta vez venho aos vossos pés como Bispo de Roma,
para fazer-vos uma homenagem em nome de todos os habitantes desta cidade.
Quero agradecer-vos pelo cuidado constante
com que acompanhais o nosso caminho,
o caminho das famílias, das paróquias, das comunidades religiosas;
o caminho daqueles que todos os dias, e com muito esforço,
atravessam a cidade de Roma para trabalhar,
o caminho dos doentes, idosos e todos os pobres,
o caminho dos imigrantes aqui, provenientes de terras de guerra e fome.
Obrigado, porque assim que vos dirigimos um pensamento,
um olhar ou uma Ave Maria fugaz,
sentimos sempre a vossa presença materna, carinhosa e forte.”.
“Ó Mãe, ajudai esta cidade a desenvolver os anticorpos
contra alguns vírus dos nossos tempos:
a indiferença, que diz: “Não me interessa”;
a má educação cívica que despreza o bem comum;
o medo do diferente e do estrangeiro;
o conformismo disfarçado de transgressão;
a hipocrisia de acusar os outros, enquanto se fazem as mesmas coisas;
a resignação à degradação ambiental e ética,
a exploração de muitos homens e mulheres.
Ajudai-nos a rejeitar estes e outros vírus
com os anticorpos que vêm do Evangelho.
Fazei com que tenhamos o bom costume
de ler todos os dias uma passagem do Evangelho
e sob o vosso exemplo, proteger no coração a Palavra,
para que, como uma boa semente, dê fruto em nossa vida.”.
“Virgem Imaculada,
cento e setenta e cinco anos atrás, pouco distante daqui,
na igreja de Sant’Andrea delle Fratte,
vós tocastes o coração de Afonso de Ratisbonne, que naquele momento
de ateu e inimigo da Igreja se tornou cristão.
Vós vos mostrastes a ele como Mãe da graça e da misericórdia.
Concedei também a nós, especialmente na provação e na tentação,
manter o olhar fixo em vossas mãos abertas,
que deixam cair sobre a terra as graças do Senhor,
e nos despojar da arrogância orgulhosa
para nos reconhecermos como realmente somos:
pequenos e pobres pecadores, mas sempre vossos filhos.
E assim, pegando em vossas mãos,
nos deixar reconduzir a Jesus, nosso irmão e salvador,
e ao Pai celeste, que nunca se cansa de nos esperar
e nos perdoar quando retornamos a Ele.”.
“Obrigado, ó Mãe, por nos ouvir sempre!
Abençoai a Igreja aqui em Roma,
e abençoai também esta cidade e o mundo inteiro”.
Amen.
***
Na tarde do dia 8 de dezembro, dia da Solenidade da Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria, o Papa Francisco, cumprindo um hábito que vem desde o tempo de Pio XII – que foi o primeiro a enviar flores à Praça de Espanha na Solenidade da Imaculada –, foi a esta Praça, localizada no centro de Roma, para rezar aos pés do monumento à Imaculada, a Ela dedicado e construído na Praça Mignanelli, próximo à Praça de Espanha, renovando o tradicional ato de homenagem à Virgem Maria. E pronunciou a oração acima transcrita (tradução da Rádio Vaticano).
Esta imagem de Nossa Senhora é obra do escultor Giuseppe Obici e está no alto da coluna projetada pelo arquiteto Luigi Poletti.
Pio XII, em 1953, foi o primeiro Pontífice, como se disse, a prestar esta homenagem, dando assim início a esta tradição que perdura desde então.
Acolhido na Praça de Espanha por volta das 16 horas  pelo Arcebispo Angelo De Donatis, Vigário Geral de Sua Santidade para a Diocese de Roma, o Papa caminhou até ao monumento onde rezou e depositou flores.
No final da cerimónia, Francisco fez uma visita privada à Basílica paroquial de “Sant’Andrea delle Fratte”, para rezar diante da efígie de Nossa Senhora do Milagre, no 175.º aniversário da aparição a Alfonso Ratisbonne.
Também diversas organizações fizeram sua homenagem a Maria Imaculada, a começar, como reza a tradição, pelos bombeiros, que com a colocação duma coroa de flores no alto do monumento às 7,30 horas, recordaram os 220 colegas que a 8 de dezembro de 1857 inauguraram o monumento.
Ao longo de todo o dia, diversas fraternidades e associações, religiosas e leigas, se revezaram para prestar a sua homenagem com procissões provenientes de diversas partes, momentos de oração e caminhadas acompanhadas por bandas de música.
Entre estes grupos, os Cavaleiros e Damas da Ordem do Santo Sepulcro, a Ordem de Malta, os Frades Menores Conventuais, a Fraternidade Sacerdotal São Pio X, Grupos de Oração do Padre Pio, a Legião de Maria, a Cruz Vermelha, estudantes e populares. Também trabalhadores de diversas empresas romanas, guiados pelo capelão Oliviero Pellicccioni, fizeram uma caminhada que culminou com uma oração de consagração à Imaculada.
***
O tom da oração papal é de prece impetratória e de gratidão. E o texto espelha as preocupações do Pontífice pelos problemas que afligem o mundo e a atenção que ele tem ao pensamento e aos gestos da Virgem Mãe.
O Papa homenageou a Virgem em nome de todos os habitantes da cidade de Roma. E agradeceu a solicitude com que Maria acompanha o percurso de todos, em especial, o das famílias das paróquias, das comunidades religiosas, dos que diariamente e com muito esforço atravessam a cidade para o trabalho, dos doentes, dos idosos, de todos os pobres, dos imigrantes provenientes de terras de guerra e de fome, sendo a leal peregrina com todos os que peregrinam, mesmo aos tropeções. Agradeceu por todas as vezes que pensamos em Maria ou Lhe dirigimos uma simples Ave Maria e ela nos mima com a sua “presença materna, carinhosa e forte”.
E Francisco pede expressamente a ajuda da Mãe contra o que chama os vírus do nosso tempo: a indiferença do “Não me interessa”; a má educação cívica que despreza o bem comum; o medo do diferente e do estrangeiro; o conformismo; a hipocrisia de acusar os outros do que nós mesmos fazemos; a resignação à degradação ambiental e ética; a exploração de muitos homens e mulheres. Contra estes vírus o Papa pretende a ajuda de Maria para desenvolvermos os necessários anticorpos, que vêm do Evangelho, e quer que tenhamos o costume de ler todos os dias uma sua passagem e, sob o exemplo da Virgem fiel, saibamos “proteger no coração a Palavra, para que, como uma boa semente, dê fruto em nossa vida”.
Fez referência explícita à conversão de Afonso de Ratisbonne, tocado pela mão da Virgem na igreja de Sant’Andrea delle Fratte. E, reconhecendo que Ela Se mostrou a ele como Mãe da graça e da misericórdia, pediu-lhe que nos ensine e ajude, “especialmente na provação e na tentação”, a “manter o olhar fixo” nas mãos abertas de Maria, “que deixam cair sobre a terra as graças do Senhor”, e a “nos despojar da arrogância orgulhosa para nos reconhecermos como realmente somos: pequenos e pobres pecadores, mas sempre vossos filhos”.
Depois, salienta o fundamental da devoção mariana: pegando em suas mãos, deixarmo-nos “reconduzir a Jesus, nosso irmão e salvador, e ao Pai celeste, que nunca se cansa de nos esperar e nos perdoar quando retornamos a Ele”.
Finalmente, colocando plena confiança na Mãe, o Papa agradece mais uma vez porque Ela nos ouve sempre e pede que abençoe a Igreja de Roma, a cidade e o mundo.
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Não podemos deixar de considerar esta oração como um modelo de oração mariana, preocupada com o próximo, de que está ausente qualquer forma de egoísmo e que coloca no sítio a devoção mariana, tantas vezes desfigurada.
É a prece confiante e agradecida daquele que, na recitação do Angelus, porfiava contemplar a beleza de Maria Imaculada e, imerso no Evangelho da Anunciação, pretende festejar o mistério replicando a saudação do Anjo, que se dirige à Virgem, não lhe chamando Maria, mas com uma expressão de não fácil tradução: “cumulada de graça”, “criada pela graça”, “cheia de graça”. Na verdade. Maria está repleta da presença de Deus e, porque inteiramente habitada por Deus, não morou nem mora nela o pecado – coisa admirável num mundo contaminado pelo mal.
Isto exige da nossa parte, que somos pecadores, que, olhando para este “oásis entre verde” da humanidade, nos afeiçoemos à graça, adiramos à história nova inaugurada em Maria. Reconhecendo-A cheia de graça, entendemos a razão por que é Ela sempre jovem. Com efeito não é a idade que envelhece, mas o pecado; é o pecado que esclerotiza o coração e o torna inerte. Maria é, pois, a pessoa mais jovem do género humano, a mais bela, a excelsa. E o segredo da sua beleza é a Palavra que Ela lia e escutava, guardava e servia, cumprindo totalmente a vontade do Pai. A vontade do Pai era o seu paraíso, mesmo no turbilhão das muitas tribulações. Com efeito, depois que o anjo se afastou, os problemas aumentaram, mas a Virgem não desfaleceu, não teve medo, não desistiu.
E, sobretudo, está sempre disponível para o desígnio de Deus, para amparo do povo de Deus e para rogar por nós.
É a mesma a quem Francisco homenageou na Praça de Espanha com flores e oração, agradecendo e pedindo, confiando à sua ternura de Mãe as preocupações com a Igreja e com o Mundo e sentindo na vida da Igreja e dos crentes – e até dos pecadores – o toque materno da compaixão e da graça eficaz.

2017.12.09 – Louro de Carvalho

quinta-feira, 8 de junho de 2017

“Um povo ordeiro e entusiasta, crente e sem respeitos humanos”

Foram divulgadas, a 7 de junho, duas cartas do Papa Francisco, datadas de 22 de maio, uma dirigida a Dom Manuel Clemente e outra a Dom António Marto.
Na carta que enviou ao Cardeal Patriarca de Lisboa e Presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), renova a expressão do seu “grato apreço” aos “bispos, sacerdotes, pessoas consagradas e fiéis leigos” pelo “cuidado pastoral e espiritual com que as diversas dioceses se prepararam e estão a viver o centenário das Aparições de Fátima, nomeadamente com a visita da Virgem Peregrina a tudo quanto era cidade e aldeia desse abençoado Portugal, donde agora vieram pessoas sem conta ‘ver’ a Mãe do Céu”. Na que enviou ao Bispo de Leiria-Fátima, exprime a este prelado “e aos seus colaboradores de sempre e para esta especial ocasião, nomeadamente ao Padre Carlos Cabecinhas”, Reitor do Santuário e coordenador da visita papal, a sua “profunda gratidão pelo acolhimento fraterno e a hospitalidade fidalga” que reservaram ao Pontífice e aos seus colaboradores, “frutificando em solertes atenções e obras que lhes vinham do coração e chegavam ao coração”.
Trata-se de um gesto de cortesia, sem dúvida, mas também de apreço pela índole da alma portuguesa, como se pode comprovar atentando pela sua asserção na carta ao Presidente da CEP: “Vi um povo ordeiro e entusiasta, crente e sem respeitos humanos, no roteiro que me levou de Monte Real até Fátima e vice-versa”. Só se espera, digo eu, que este sentir do povo e seus pastores nunca venha a desmentir aquilo que o Papa generosamente afirmou de nós e se redima pela sua atitude nem sempre consentânea com tal enunciado papal.
Mas Francisco vai mais longe no elogio rasgado àquela multidão que o comoveu pela fé, esperança e caridade manifestadas no silêncio orante, nas velas acesas, na ovação aos novos santos e no acenar Feliz à Branca Senhora:
“E, no Santuário de Nossa Senhora, comoveu-me a solidez da fé, a indómita esperança e a ardente caridade que anima o caminho humano e cristão daquele povo santo fiel de Deus, com destaque para o silêncio de um milhão de peregrinos unidos ao meu silêncio orante, o mar de luz feito por um milhão de velas acesas na noite de vigília, a ovação elevada por dois milhões de mãos aos novos Santos Francisco e Jacinta e o acenar de lenços brancos à Branca Senhora por um milhão de corações felizes: Mãe, nunca Vos esqueceremos!”.
E não deixou de sublinhar a felicidade dos corações revelada pela multidão na proclamação da realeza universal de Maria e no seu adeus sentido e comovido espelhado na pureza branca mas largas centenas de milhar de lencinhos. Não sei mesmo se merecemos aqueles adjetivos “indómita” aplicado à nossa esperança, a de quem vive num mundo mais de profetas da desgraça que de anunciadores da Boa Nova, ou o adjetivo de “ardente” caraterizador da nossa caridade, tantas vezes à mistura com interesses e egoísmos. E que dizer da “solidez” da nossa fé, por vezes, contente com a mera exterioridade ou com o pietismo estéril ou com o momento de fervor efémero? Oxalá que o Papa tenha razão nos elogios que nos faz!  
Como recompensa, assegura a sua “oração pela Igreja de Portugal para que continue a caminhar com perseverança e coragem, testemunhando a todos o amor misericordioso do Pai do Céu” e, enquanto de coração nos abençoa, pede que rezemos por si.
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Na missiva enviada ao prelado leiriense, o Sumo Pontífice reconhece que foi “envolvido pelo carinho e entusiasmo da fé da multidão incontável de peregrinos”, pelo que exprime a sua gratidão ao Bispo e colaboradores pelo acolhimento fraterno e hospitalidade fidalga de que foi alvo no Santuário, aliás na diocese de Leiria-Fátima. Acentua que tais atitudes frutificaram “em solertes atenções e obras que lhes vinham do coração e chegavam ao coração”.
Depois, falou de Fátima e dos pastorinhos. No dizer do Pontífice, “Fátima oferece a todos um Coração grande de Mãe e convida o coração de cada um a parecer-se um pouco mais com o d’Ela”. Aos dois pastorinhos já canonizados considera-os como corações parecidos com o coração grande da Mãe e confessa que lhe deu muita alegria “o facto de poder propô-los à veneração da Igreja inteira”.
E Dom António Marto bem pode sentir-se contente por via de o Papa ter encontrado na terra um coração semelhante ao de Maria e ao dos pastorinhos na pessoa do Bispo fatimita e “na legião de ‘anjos’ que o representavam, com igual solicitude e eficácia de serviço, em toda a parte desde a mesa ao altar”.
Gosto desta referência de Francisco, já que os anjos são aqueles que servem ao altar de Deus e à mesa dos seus pobres e dos seus ministros – e, neste sentido lato, são ministros de Deus todos os batizados e/ou todos os que sofrem. Também são anjos os mensageiros de Deus e todos os que participam no bom combate por Deus e pelas suas causas.
Além disso, na sua carta, Francisco louvou a “Virgem Mãe pelo bom trabalho que Ela tem feito naqueles que assim A amam e servem” e agradeceu, em especial, ao prelado responsável pela superior orientação do Santuário “pelo seu efusivo testemunho de alegria e amor a Nossa Senhora de Fátima”.
E a toda a diocese de Leiria-Fátima quis encorajá-la “a prosseguir no anúncio e serviço dos desígnios de misericórdia que a Santíssima Trindade nutre pela humanidade inteira”. E, se estávamos habituados a ver esta diocese como uma Igreja predominantemente mariana, temos de nos habituar a olhá-la como uma diocese trinitária e eucarística onde tem lugar de destaque a Virgem Maria e os Santos Pastorinhos por cuja intercessão o Papa invoca “a abundância dos dons e consolações do Céu sobre o Pastor e todos aqueles que lhe estão confiados”. E também a todos estes renova “o pedido de não se esquecerem de rezar” si e a quem, de bom grado, concede “a Bênção Apostólica”.
***
Francisco esteve em Fátima a 12 e 13 de maio no âmbito da celebração do Centenário das Aparições como peregrino da paz e da esperança e propôs a “revolução” centrada na misericórdia e no perdão, pedindo à Senhora que estenda o seu manto de Luz por toda a humanidade.
Do programa constaram essencialmente momentos de oração e três intervenções discursivas – a saudação aos peregrinos na noite de 12 de maio, a homilia da missa do dia 13 e a saudação aos doentes antes da Bênção com o Santíssimo Sacramento.
Francisco aterrou na Base Aérea de Monte Real na tarde de dia 12. Após a cerimónia de boas vindas e o encontro com o Presidente da República, fez uma visita à Capela de Nossa Senhora do Ar, ainda dentro da Base, onde também Paulo VI e João Paulo II tinham rezado.
Chegou ao Santuário de Fátima vindo do Estádio de Fátima, a bordo do papamóvel, após ter sido saudado por milhares de pessoas ao longo do caminho, ter sobrevoado o Recinto de Oração e tendo à sua espera, na Capelinha das Aparições, centenas de crianças das escolas do Sagrado Coração de Maria, de São Miguel e do Centro de Estudos de Fátima.
Na primeira passagem pela Capelinha, onde permaneceu 8 minutos em silêncio orante diante da imagem venerada, secundado pela enorme multidão de peregrinos, o Papa apresentou uma oração mariana em que refletia, à luz da Mensagem de Fátima, as grandes preocupações pela Igreja do Evangelho e dos pobres e pela solidez da fé, a intrepidez da esperança e o ardor da caridade. E antes da recitação do Rosário e da bênção das velas, abordou o devido lugar da devoção e do culto mariano na Igreja e a recolocação da pessoa de Maria no mistério de Cristo e no mistério da Igreja, bem como os candentes temas da justiça e da misericórdia, considerando que é necessário valorizar mais a misericórdia divina no discurso católico, sustentando que “devemos antepor a misericórdia ao julgamento, e em todo o caso o julgamento de Deus será sempre feito à luz da sua misericórdia”. E, lembrando os “desterrados” e “excluídos” da nossa sociedade contemporânea, explicitou:
“No crer e sentir de muitos peregrinos, se não mesmo de todos, Fátima é sobretudo este manto de Luz que nos cobre, aqui como em qualquer outro lugar da Terra, quando nos refugiamos sob a proteção da Virgem Mãe”.
Durante as celebrações, o Papa frisou “as bênçãos sem conta que o Céu concedeu nestes cem anos, passados sob o referido manto de Luz que Nossa Senhora, a partir deste esperançoso Portugal, estendeu sobre os quatro cantos da Terra (...)”. E exclamou:
“Queridos peregrinos, temos Mãe. Temos Mãe! Agarrados a Ela como filhos, vivamos da esperança que assenta em Jesus”.
Por outro lado, confidenciou que “não podia deixar de vir aqui venerar a Virgem Mãe e confiar-lhe os seus filhos e filhas” e pediu paz e esperança “para todos os seus irmãos no Batismo e em humanidade, de modo especial para os doentes e pessoas com deficiência, os presos e desempregados, os pobres e abandonados”. Aos doentes pediu que não se considerassem apenas beneficiários dos cuidados dos outros, mas verdadeiros participantes no mistério de Cristo e o melhor tesouro da Igreja. E aos peregrinos pediu que vissem nos doentes as chagas do corpo sofrente de Cristo em redenção da humanidade
No avião, a caminho de Roma, Francisco lembrou que a mensagem de Fátima “é uma mensagem de paz, levada à humanidade por três grandes comunicadores”, os pastorinhos. Com efeito, disse que “há uma ligação ao branco: o bispo de branco, a Senhora de branco, a alvura branca da inocência das crianças após o Batismo”. E afirmou que se trata do “desejo de inocência, de paz, de não fazer mal aos outros, não fazer guerra” e que “isto é a paz”.
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No dia seguinte, em Roma, à recitação do Regina Coeli, disse que a prece mariana do dia adquiria “um significado especial, repleto de memória e de profecia para quantos contemplam a história com os olhos da fé”, pois em Fátima, imergira-se “na prece do santo povo fiel, uma oração que lá escorre há cem anos como um rio, para implorar a proteção maternal de Maria sobre o mundo inteiro”. E passou a dizer:
“Desde o início, quando na Capelinha das Aparições permaneci por muito tempo em oração, acompanhado pelo silêncio orante de todos os peregrinos, criou-se um clima de recolhimento e contemplação, no qual tiveram lugar os vários momentos da prece. E no centro de tudo estava e está o Senhor Ressuscitado, presente no meio do seu Povo mediante a Palavra e a Eucaristia; presente no meio dos numerosos enfermos, que são protagonistas da vida litúrgica e pastoral de Fátima, assim como de todos os santuários marianos.”.
Falando de Fátima, referiu que
“A Virgem escolheu o coração inocente e a simplicidade dos pequeninos, Francisco, Jacinta e Lúcia, como depositários da sua mensagem. Estas crianças receberam-na com dignidade, a ponto de serem reconhecidas como testemunhas confiáveis das aparições, tornando-se modelos de vida cristã”.
No atinente ao autêntico sentido da canonização de Francisco e Jacinta, explicitou:
“Eu quis propor à Igreja inteira o seu exemplo de adesão a Cristo e o seu testemunho evangélico, mas também desejei convidar toda a Igreja a cuidar das crianças. A sua santidade não é consequência das aparições, mas da fidelidade e do ardor com que corresponderam ao privilégio recebido, de poder ver a Virgem Maria. Após o encontro com a ‘bela Senhora’ – assim lhe chamavam – elas recitavam frequentemente o Rosário, faziam penitência e ofereciam sacrifícios para alcançar o fim da guerra e pelas almas mais necessitadas da misericórdia divina.”.
Sobre a atualidade da Mensagem de Fátima, verificou:
“Até hoje há muita necessidade de oração e de penitência para implorar a graça da conversão, para suplicar o fim de tantas guerras que existem em toda a parte no mundo e que se difundem cada vez mais, assim como o fim dos conflitos absurdos, grandes e pequenos, que desfiguram o semblante da humanidade”.
E, por fim, o apelo:
“Deixemo-nos guiar pela luz que provém de Fátima. O Coração Imaculado de Maria seja sempre o nosso refúgio, a nossa consolação e o caminho que nos há de conduzir a Cristo.”.

2017.06.08 – Louro de Carvalho