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quinta-feira, 6 de junho de 2019

A ampliação repentina da corte de admiradores de Agustina


Obviamente que me revejo na postura dos académicos que, por ocasião da morte, velório e exéquias de Agustina Bessa Luís, porque evidentemente sabem do que falam, estudaram a obra e captaram aspetos relevantes da personalidade da escritora. Também aceito a postura da atual Ministra da Cultura, que disse em nome do Governo, na sua atitude discreta, embora assertiva, o que a um governante de bom senso cabe salientar.
Assim, gostei de ouvir Isabel Pires de Lima, professora catedrática que se dedica ao estudo e divulgação da nossa Literatura, a considerar a romancista (integrou Conselho Diretivo da Comunitá Europea degli Scrittori – 1961-1962) como “uma contadora de histórias absolutamente compulsiva” e a assegurar que “a obra romanesca de Agustina Bessa-Luís é de uma singularidade e torrencialidade que configuram uma espécie de apetência quase descontrolada pela ficção”.
Em declarações à Lusa, o Professor Arnaldo Saraiva, investigador científico e literário, ensaísta, cronista, crítico e poeta, refere que Agustina ocupa “o espaço da maior escritora que Portugal já teve” na memória do país. E explicitou:
Tivemos algumas escritoras importantes no século XX, de Florbela Espanca a Sophia de Mello Breyner Andresen e Maria Velho da Costa, mas de longe a maior figura feminina da literatura portuguesa será sempre Agustina”.
O insigne professor universitário, que fundou o Centro de Estudos Pessoanos e é um especialista na obra de Eugénio de Andrade, lembra a “escritora muito produtiva, que só em romances deixou cerca de quatro dezenas de obras e também inúmeras crónicas”, mas cujo legado também se vê em “livros infantis, teatro, contos, com um selo de qualidade invulgar em todas essas obras” – trabalho de “uma escritora absolutamente excecional”.
Apesar de, internacionalmente, não ser a “mais conhecida”, de que é exemplo o “Brasil, que a conhece pouco e onde Saraiva tentou, “desde 1965”, ajudar a revelá-la, é uma “personalidade humana invulgar, uma mulher sábia, bem portuguesa e bem ligada às coisas portuguesas”.
Arnaldo Saraiva conheceu esta mulher “atenta às relações humanas e laços sociais”, a destacada “conhecedora de espaços rurais e urbanos, sobretudo no Norte”, que procurou “entender algumas figuras da cultura portuguesa, de Santo António a Florbela Espanca e Vieira da Silva”.
Salta à memória “a companheira fabulosa para viagens ou para conversas risonhas, sobre isto e aquilo”, além da “excelente cozinheira” que fazia “doces maravilhosos” ou a mulher “muito irreverente”, mas “extremamente séria e intensa”, que tem na sua carreira “páginas incríveis, de escrita exaltante, envolvente, profunda e densa”, como recorda o ensaísta e crítico.
Deixa uma obra que será “cada vez mais objeto de estudo, análise, referência e citações”, por ser “muito rica e complexa, que fala muito de nós mesmos, mesmo quando parece falar do homem universal” – diz o professor, que reforça que “faz bem ler Agustina, mesmo quando alguns dos seus livros parecem ter alguns obstáculos”, até porque nos leva “para mundos que são afinal os mundos do desconhecido, os mundos enigmáticos que queremos perceber e que nos ajudam a perceber”, pois “encontramos ali, talvez, o que possamos definir como a alma portuguesa, se é que isso existe” ou, por outras palavras, “um espaço muito nosso”.
***
Porém, quem lhe presta melhor justiça é o Professor José Carlos Seabra Pereira, Diretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, que nela vê, com António José Saraiva, “o segundo milagre do século XX português e, a par do brasileiro Guimarães Rosa, a mais original das contribuições da prosa lusa para a literatura mundial” – com romance, novela e conto, teatro e guião fílmico, biografia romanceada e crónica, ensaio e especulação aforismática, literatura infanto-juvenil –, pois “o mundo sortílego que a sua imaginação, a sua penetração psicológica e a sua magia verbal erguem, não deixa de ser um universo existencial sintomaticamente revelado” logo com Mundo Fechado (1948). 
E este lustroso académico desfia, embora em linhas sintéticas, mas pertinentes, as caraterísticas mais marcantes dos livros da escritora pluriforme, cuja obra abraça o romance que assume as feições histórico-corográficas com o espelho do realismo ou a construção ficcionista, sempre com cor e unção e, por vezes, até com a vidência e a oracularidade. E diz o professor:    
O universo romanesco de Agustina é atravessado pela volúpia ante o sentido trágico da vida, mas também por um sentido de orgulho perante o insondável abismo da morte (decisivo, afinal, porque «Ah, sim, a verdadeira presença está na morte!»). No entanto, vislumbra-se porventura outro sentido em momentâneas fulgurações do fluxo congeminativo e sentencioso que distingue o discurso de Agustina.”.
Assenta em que as personagens de Agustina “parecem pulverizar-se ou enredar-se na disseminação que o mundo nelas provoca”, porém, ao assumirem a crise, “parecem dispor-se a partir”, vindo “a imaginação mediatriz do narrador (e da autora textual) a advertir contra a verosimilhança fácil do senso comum” e a libertar “para o salto, a cargo das personagens ou do leitor, do existir nas situações para o Ser da origem transcendente”.
Agustina, segundo Seabra Pereira, “sobressai pela singularidade genial, eticamente norteada e esteticamente criativa, que é a da seriedade brincada da escrita sob o princípio da incerteza – com seus estilemas de cognição inferencial e sentenciosa, que dotam o discurso de uma aura sapiencial e conferem à sua receção um índice abissal de profundidade ou um índice sideral de projeção (mas também certamente, de quando em vez, motivos de reticente questionação)”. E a arte do texto “deslumbra quase sempre pela feição fulgurante, desconcerta, às vezes, pelo salto epistemológico sem grandes preocupações de irrepreensível nexo ou insofismável motivação na cadeia textual, leva outras vezes a suspeitar, além do rasgo de autoparódia, de certa componente lúdica em que a enunciação se compraz e que deixa o leitor dividido entre julgar-se privilegiado pela partilha do rito iniciático e julgar em risco a sua confiada boa-fé”.
Depois, frisa que a obra agustiniana “não pretende insinuar-se como literatura edificante”, mas “levantar e trazer à perceção estética um mundo que supostamente tem uma força íntima como impulso pregnante e como tecido conjuntivo”. E, “pensando na particular forma (nela subentendidamente literária) do testemunho que o homem deve deixar na História, cada um iluminando ‘com paixão uma realidade’, Agustina estatui que ‘O escritor, desde os seus começos, tem que obedecer a uma ideia, que é a mesma pela vida fora’, como dizia em 1979”, tendo frisado noutra oportunidade a urgência de “primeiro escolher uma ética”, que “não exclui a estética” e onde “a nossa personalidade está centralizada”.
Chamando a atenção para “a coerência da obra de Agustina”, diz que “é tal que os vetores fundamentais que a distinguem até A Ronda da Noite (2006) podem vislumbrar-se já nas suas primícias”, sendo que, “em dois textos seminais, até há pouco conservados inéditos – o conto Colar de Flores Bravias, de 1947, e a novela Cividade, de 1951 – já germina a conexão matricial a uma opção ética que é congénita da criação estética ou que nem sequer existe fora da configuração estética”, conexão que “toma a forma de tensão, se não de antinomia, entre um princípio do desejo (de ser) e um princípio da conservação (da ordem social) e da consequente tensão entre a ética/estética da singularidade sibilina e a ética social”. Enfim, conclui o professor, “questão de ética do desejo estético e questão de estética da ética do desejo”.
Salientando que, na ficção agustiniana, as relações humanas dependem sobretudo “de pressupostos familiares, sentimentais, etnográficos, eróticos, temporais, e de afinidades ou repulsões filhas de uma eletividade nascida em profundezas inconscientes” (e pouco da “hierarquia económico-social”) – “porque o que se revelava essencial nessa ficção agustiniana era a sondagem aberta e a expressão plástica das possibilidades nos circuitos de analogias cognitivas e cósmicas” – acrescenta a tudo isso “as consequências do espaço, físico e humano, percetivo e imaginário, empírico e simbólico, em que se realizam cada personalidade e suas relações interpessoais – em especial, aquela peculiar correlação entre tempo ritual e espírito do lugar que distinguirá a ficção da autora de A Brusca e o interseccionismo visionário da sua escrita, tal como a valoração de “mundo fechado” e a relação com um “mundo fechado”.
Por fim, destaca-se a alusão “à irónica duplicidade de primazia atribuída à linguagem como meio supremo de proximidade humana e de primazia da opção pertinente pelo silenciar da fala”, que surge “na abstenção do agir e do avançar” (no sentido hoje polarizador da narrativa de Gonçalo M. Tavares). Mas o lustroso professor anota que, “mesmo aí, é indelével o tom nietzschiano da liberdade na Necessidade e, oriundo do Romantismo originário, o grande sopro de saga do Espírito humano, na peculiar fenomenologia da imaginação arquetípica (forma do conteúdo) e na forte intromissão da consciência narradora e sua voz imperiosa, torrencial, a um tempo ácida e lírica, cruel e misericordiosa (forma da expressão) – correlatos da tematização axial de ‘o anterior tempo anónimo, o tempo do sangue, dos presságios, do ancestral cuidado’ (Eduardo Lourenço) e da ‘refração do inconsciente coletivo’ (António Quadros).
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Em comunicado, a Ministra da Cultura lamentou a morte de Agustina Bessa-Luís, “autora de uma obra tantas vezes virada para o passado, mas sempre contemporânea, sempre presente, [que] marcou a escrita em português a partir dos anos 50, inaugurando um novo espaço ficcional, à imagem de outras grandes mulheres e que, em conjunto com ela, revolucionaram radicalmente a prosa em português, como Maria Velho da Costa ou Maria Gabriel Llansol”. E Graça Fonseca descreveu a longa carreira da escritora como “o legado de Agustina” que é “vasto, composto por personagens, visões da história, lugares e, acima de tudo, um percurso pessoal e autoral, únicos e exemplares”.
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Entretanto, vieram figuras gradas da sociedade a elogiar a escritora, o que nunca tinham feito, mas que fizeram agora em nome do social e politicamente correto. Não esqueço que chegou a ser uma das três estrelas (Agustina, Fernando Pessoa e Bernardo Santareno) do programa de Literatura Portuguesa do 4.º Curso de Literatura Portuguesa do 12.º ano, quando este foi criado. A reforma de Roberto Carneiro deixou-a no acervo de obras que a escola podia adotar, mas a simplificação dos programas de Português de Manuela Ferreira Leite, com vista aos exames nacionais que passaram a realizar-se a partir de 1996, deixou A Sibila fora das prateleiras do supermercado. Por isso, sabe a pouco e a hipocrisia o hodierno elogio rasgado vindo de alguns.
A revista Sábado, saída hoje, dia 6 de junho, realça que a escritora, que escrevera à mão todos os seus livros, “esteve mais de uma década doente e retirada da vida pública, ao ponto de ser ostensivamente ignorada pelo meio cultural e pela generalidade dos media”, tanto assim que, “durante a participação na feira do livro de Guadalajara (México, 2018) – com uma comitiva de 40 escritores e mais de um milhão de euros gastos – não houve qualquer menção à maior escritora portuguesa, ainda viva”. Aliás, a Guimarães Editores pôs fim a uma relação com a autora que datava de 1954 (Parece que já não lhe reconheci interesse editorial!).
Era, segundo a Sábado, aquela que, vendo um papel em branco, lhe apetecia a escrever, “muitas vezes até na folha de rosto dos livros” em que lhe pediam “para fazer um autógrafo” e que, apesar de nunca ter frequentado a Universidade, as movidas estudantis, as tertúlias de literatos”, se tornou “mais culta, mais preparada, mais inteligente”, porque, na mulher que considerava a escrita como “uma confissão espontânea que coloco no papel, “não havia espaço para informações’, mas sim para conhecimento com todo o cortejo de glória e tragédias que ele traz”.
A escritora Hélia Correia recordava num colóquio na UTAD (Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro), em dezembro pp, quão assombroso era o conhecimento de Agustina, “que parecia saber tudo e sobre tudo tinha uma opinião, uma piada, uma tirada irreverente, uma conclusão na ponta da língua, como as suas personagens”. E, num encontro de escritores no Brasil, o poeta Hélder Macedo perguntou-lhe o que ela fazia que não tinha inimigos, ao que Agustina respondeu, gargalhando, que não os tinha, mas que os fazia. Ora, durante as seis décadas em que escrevia romances, peças de teatro, biografias, memórias, literatura infanto-juvenil, ensaios, guiões para filmes, crónicas, artigos de opinião, “foi sempre difícil de engolir pelo meio literário que tende a desdenhar dos que insistem em não idolatrar os deuses que ele insiste em proclamar”. Mesmo entre aqueles de quem o desdém não era de esperar, ele aflorava. Assim, a Sábado relata:
Quando, em 1948, publica o seu primeiro romance, ‘Mundo Fechado’, tinha apenas 26 anos, mas não se recolheu ao anonimato à espera de elogios. Mandou o livro para os maiores escritores vivos da altura: Miguel Torga, Aquilino Ribeiro, Teixeira de Pascoais. Torga foi o único que não lhe respondeu. Ofendida, Agustina mandou-lhe nova missiva onde o informava de que, quando passava junto à casa dele, tinha vontade de lhe atirar pedras aos vidros das janelas”.
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Enfim, morreu a escritora portuguesa de maior fôlego romanesco (tanto no romance histórico como no da pura ficção), das mais genuínas em literatura infanto-juvenil e a mais intensa e plurifacetada; a mulher completa que alternava a escrita com a costura, sendo ela própria quem arranjava os seus vestidos e chegou a fazer peças de lingerie; a romancista de A Sibila ou de A Ronda da Noite; aquela que foi mandatária nacional da candidatura presidencial de Freitas do Amaral, diretora de O Primeiro de Janeiro, membro da Academia de Ciências de Lisboa, na Classe das Letras, da Academie Européenne des Sciences, des Arts et des Lettres, de Paris, e da Academia Brasileira de Letras; aquela que recebeu inúmeros prémios, algumas condecorações e o doutoramento honoris causa pela Universidade do Porto e pela UTAD – mas que dizia que “nenhum prémio, nem sequer o Nobel, a fazia tão feliz como comprar um vestido novo”.
Dom Manuel Linda, Bispo do Porto, que presidiu à missa exequial na Catedral do Porto, evocou, na homilia, a religiosidade da escritora natural de Vila Meã, Amarante, destacando “a condição humana” como uma das “marcas” da sua “vastíssima obra literária”, afirmando saber que “se prostrava muitas vezes sobre um oratório que tinha em casa”. E o prelado rezou:
Obrigado, meu Deus, que nos deste uma pessoa com tão alta categoria intelectual, religiosa e cristã, e obrigado, Agustina, por esta extraordinária lição de teologia que a tua vida acabou por nos dar”.
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Resta aguardar pela publicação dos inéditos que a única filha de Agustina, Mónica Baldaque, anunciou que seriam em breve publicados, ela que, em 2013, referiu que estava a ser organizado o arquivo de Agustina, onde há “centenas de papelinhos escritos por si”, notas que registava em faturas ou agendas e “aforismos, pensamentos que iria utilizar na obra”.
2019.06.06 – Louro de Carvalho

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Está à venda a casa que inspirou a “A Ilustre Casa de Ramires”


A Casa da Torre da Lagariça, construída no século XII, que, juntamente com jardins e paisagem, serviu de inspiração para o romance de Eça de Queirós A Ilustre Casa de Ramiresestá à venda.  
Como aduzem os técnicos do Marketing, nem Eça de Queirós resistiu ao fascínio da Casa da Torre da Lagariça, em São Cipriano, freguesia do concelho de Resende. A torre causou tal impressão, que o romancista apostou em escrever um livro em torno dela: “A Ilustre Casa de Ramires”. Passados 119 anos da publicação do romance, a quinta – que foi um dos primeiros berços da nobreza portuguesa – está à venda na Remax por 990 mil euros.
Classificada como Imóvel de Interesse Público desde 19 de setembro de 1977, tem 934 metros quadrados e 20 assoalhadas. Entre elas, 8 a 12 podem ser revertidas em quartos. No entanto, está em mau estado – são 907 anos de vida – e a precisar de reconstrução.
Além da casa, os investidores dispõem de “belos campos de cultivo e árvores de fruto”, vários jardins “de inspiração romântica”, uma “mata com bancos de pedra” e uma “réplica da torre que serviu de pombal”. E ainda é possível admirar a paisagem na Eira Velha – o ponto mais alto da quinta, onde se diz que Eça escreveu parte do predito romance cuja ação se passou no local.
O negócio está a cargo do consultor imobiliário António Trindade e o investimento financeiro tem potencial para obtenção do visto Gold, que autoriza a entrada e a residência em Portugal de quem investir no País um valor igual ou superior a 500 mil euros.
A este respeito, disse à à NiT António Trindade, da Remax:
Tudo na vida é negociável, mas nem sempre é o preço. Estamos a promover um artigo exclusivo. Um imóvel com quase mil anos de história, famoso pelo livro de Eça de Queirós. Isto cria um valor intangível, que vai além do preço do terreno ou da condição do imóvel.”.
Efetivamente, aquando do nascimento de Portugal como nação e como reino, o local que serviu de inspiração ao autor já existia, pois a Torre da Lagariça foi construída entre 1112 e 1128, durante a regência de Dona Teresa. Dentro daqueles muros viveu toda uma linhagem nobre de Portugal. “A torre é um sólido torreão militar de linhas de planta quadrada, que serviu de ponto de vigia e prisão, sendo mais tarde construído o casario em volta da torre e tornada casa de habitação dos fidalgos” – diz-se.
Na altura da reconquista cristã, tinha a função militar de defender a linha do Douro, mas perdeu esta funcionalidade com o estabelecimento das fronteiras mais a norte. Contudo, em 1538, a Casa recebeu o foral de Capitania-Mor de Aregos das mãos do Rei Dom João III. E, nesse mesmo século XVI, passou para as mãos da família Pinto, senhores da Torre da Chã e do Paço de Covelas. Em 1610, a torre medieval foi vendida à família Cochofel, que pôs agora a histórica propriedade à venda.
Em 48 horas de anúncio, investidores do mercado hoteleiro, particulares e também muitos curiosos já entraram em contacto para saber mais informações sobre o imóvel, mas nenhum negócio foi ainda fechado.
***
Em relação ao romance, é de referir o contraste que estabelece entre o presente (o tempo da escrita) e o passado de Portugal, bem como se torna premonitório para o futuro (o nosso hoje).
José Maria Eça de Queirós foi o mais fecundo autor do século XIX em Portugal, nenhum outro conseguiu suplantá-lo em sua capacidade analítica da sociedade do seu tempo.
O romance realista “A Ilustre Casa de Ramires”, de Eça de Queirós, publicado em 1900, é uma obra tida por muitos como escrita durante o apogeu e amadurecimento literário do autor, no que é chamada a sua terceira fase de produção literária.
Com efeito, Eça faz no livro uma analogia com o que estava a acontecer em Portugal política e culturalmente falando e com o passado histórico do país. Através da personagem, principal tenta evidenciar os valores do passado em confronto com os valores da atualidade entrados em falência. E, no âmbito da metaliteratura, o escritor professa que escrever é uma arte.
A narrativa é processo e produto dum narrador heterodiegético (a história é narrada na terceira pessoa), e omnisciente (não se limita a uma observação cinematográfica nem ao conhecimento apenas através da ação através do olhar de uma ou duas personagens).
A diegese decorre em dois grandes momentos: o primeiro flui no século XIX, em Portugal, um país cheio de modernidades; e o segundo compagina, por analepse, a novela histórica da Torre de Ramires, que acontece no mesmo local, mas no século XII, a mostrar um povo heroico na Idade Média.
Na primeira parte do romance, começa a narrativa duma história situada no presente e vertida em terceira pessoa, a decorrer na Aldeia de Santa Irineia, a história do jovem Gonçalo Mendes Ramires, um fidalgo de província que vinha de uma família nobre de tradições, anterior à fundação do reino, e agora via a sua família falida económica e moralmente.
Ramires busca meios fáceis de conseguir dinheiro e deixa de lado toda a ética e moral que um dia a sua família teve e ingressa na política. Ao mesmo tempo, começa a escrever uma novela histórica sobre a família, inspirado na torre de Ramires, tendo por base um fado e um poema épico escrito por um tio. A história é sobre um antepassado chamado Tructesindo Ramires.
Surgem, assim, a par dos episódios narrados, pertinentes reflexões sobre a história de Portugal – simbolizadas na genealogia da família Ramires – e de cariz político por exemplo, quando Gonçalo aparece integrado no partido Regenerador.
Mas o protagonista, um homem incoerente e desleixado, toma atitudes impensadas. Vê a literatura como meio de ascensão política. E consegue-o, de facto, através de concessões várias.
Com a passagem do tempo, Gonçalo começa a ter crises com relação a sua honra e honestidade e com tudo quanto a sua família um dia defendeu e era seu apanágio, pois, entrado na política, havia perdido e desonrado os seus ancestrais.
Porém, quando começa a ser conhecido em Lisboa, abandona os encargos políticos e viaja para África onde vai entregar-se a empreendimentos agrícolas que o enriquecem, mas que depois não sabe desenvolver nas suas próprias terras. Realiza-se, assim, a sua regeneração e, através dela, a do nome da sua família. Gonçalo honra, deste modo, os seus antepassados.
E, depois de alguns anos, regressado a Portugal economicamente estável e um novo homem, instala-se no sossego dos campos e enamora-se de uma rica senhora de nome Rosinha Rio-Manso, que irá, certamente, consolidar para sempre a sua fortuna.
A pari, decorre uma outra história, a história da sua irmã Gracinha Ramires, que se casa com o inocente Barolo. Sobressaem como personagens André Cavaleiro, homem frívolo e indigno, inimigo de Ramires e ex-noivo de Gracinha Ramires, irmã de Gonçalo.
Depois de vê-la casada com o inocente Barolo, o inescrupuloso Cavaleiro tenta seduzir a moça.
Enfim, duas histórias no século XIX em certa medida replicadas nas intrigas correntes do nosso século XXI, em que os valores éticos perdem graça e muitos se embrenham nos meandros da mediocridade, da evasão ao dever, da lassidão e da corrupção.
Na segunda parte, o romance, transportando a narrativa para o passado remoto e tendo como narrador a personagem principal da primeira parte, dá a vez à história da Torre de Ramires, que decorreu no século XII. É uma volta ao passado.
A personagem principal é o velho Tructesindo Mendes Ramires, um homem rígido, íntegro, rígido e audaz. Procura vingar a morte do seu filho Lourenço, que ele próprio viu morrer do alto de sua torre, em uma emboscada armada por Lopo de Baião, antigo noivo da sua filha, inimigo e traidor não somente da família Ramires como do rei Dom Sancho.
***
Como se disse, “A Ilustre Casa de Ramires” pertence à terceira fase da produção queirosiana – a fase pós-realista –, juntamente com  A cidade e as serras” e “A relíquia”. Nela o escritor tende a revisitar os exageros de sua vida e críticas pregressas, alça-se no papel de historiador tão típico da sua erudição e refaz-se como nacionalista crítico de Portugal em sua história em romances.
Por curiosidade, refiram-se as fases anteriores: a primeira, de influência nitidamente romântica e de iniciação tímida ao realismo, com várias obras em que sobressai “O mistério da estrada de Sintra”; e a segunda, caráter realista e naturalista, em que desponta o maduro e teórico escritor do naturalismo e sobressai a trilogia: O crime do Padre Amaro – cenas da vida devota”;O primo Basílio – cenas da vida doméstica”; e “ Os Maias – episódios da vida romântica”.
Vazado em estilo apurado, com perfeita técnica narrativa e uma linguagem ora arcaizante, ora próxima da oralidade, o romance retrata dois aspetos da realidade portuguesa: um Portugal do século XIX, de feições modernas, paralelamente a um Portugal do século XII, com a Idade Média lapidando um povo heroico. Porém, ambas as épocas são vividas na aldeia de Santa Irineia e são analisadas a partir da torre dos Ramires, que serve de ligação entre esses dois tempos históricos.
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Se há um património natural e edificado, há também uma obra literária fruir e uma história a projetar no futuro com as lições que dela podem inferir-se.
2019.01.11 – Louro de Carvalho

sábado, 27 de janeiro de 2018

A Justiça em Dom Pedro I segundo o cronista

Dos inúmeros temas tratados ao longo da Crónica de el-rei Dom Pedro I ou Crónica de Dom Pedro, destaca-se a Justiça a que dedicou o Prólogo, para a explicitação do conceito e, pelo menos, mais 5 dos 44 capítulos, para a descrição de casos específicos da aplicação da Justiça.
Na verdade, Fernão Lopes quis dar de Dom Pedro a imagem do rei preocupado com a Justiça, a justificar a razão por que recebeu o cognome de Justiceiro ou Justiçoso, ou de Cruel, neste caso pelo tipo de castigos sentenciados e que executou ou mandou executar mesmo na sua presença.  
Acerca da importância da Justiça no governo do reino, escreve Fernão Lopes no Prólogo:
Justiça é uma virtude que é chamada toda virtude, assim que qualquer que é justo, este cumpre toda a virtude, porque a justiça, assim como a lei de Deus, defende que não forniques nem sejas gargantão e, isto guardando, se cumpre a virtude da castidade e da temperança. E assim podeis entender dos outros vícios e virtudes.”.
É de registar o conceito globalizante que a Justiça assume compendiando todas as virtudes (de que é a rainha), à semelhança do que a Bíblia perfila para o homem justo. Por outro lado, este conceito fernandino de justiça privilegia algumas virtudes: a castidade, contra a luxúria (fornicação); a temperança, contra a gula; e a humildade/discrição, contra a soberba. Tal conceito, sem o negar, ultrapassa o conceito simplista e redutor da justiça pela qual se castigam os maus e se deixam os bons viver em paz.
Porém, o rei-centro desta crónica não é lá muito exemplo naquelas matérias setoriais da justiça. Lopes diz de Dom Pedro que era guloso (viandeiro), contrariando a moderação e temperança. Só não terá sido tão gargantão por ser gago, mas não se livra da fama de rispidez e sobranceria para com os prevaricadores, excedendo-se na ira e na determinação da crueldade, a executar por si ou por outrem. E, quanto à castidade, soube bem, valendo-se da condição de príncipe e de soberano “filhar” as damas por quem se deixava seduzir. E mesmo a relação com outros homens não era tão sadia como seria de esperar do rei. O cronista não se coíbe de afirmar que a um determinado pajem o rei “amava-o mais do que devia”.
Relativamente à noção da Justiça enquanto “virtude que é toda a virtude”, provavelmente Lopes terá conhecido os textos de Aristóteles, que, na Ética a Nicómaco, cita um provérbio grego com uma ideia da qual muito se aproxima o cronista: “A justiça contém todas as outras virtudes”.
***
No âmbito da incumbência de contar a vida ou, melhor, o reinado dos reis, Lopes, no Prólogo da Crónica de Dom Pedro, revela uma outra finalidade da sua escrita. Munido de grande domínio retórico, reflete sobre a justiça, as virtudes, os vícios, o papel do rei e o papel do povo.
 “Esta virtude é mui necessária ao rei e isso mesmo aos seus súbditos, porque havendo no rei virtude de justiça fará leis por que todos vivam direitamente e em paz. E os seus sujeitos, sendo justos, cumprirão as leis que ele puser e, cumprindo-as, não farão cousa injusta contra ninguém, e tal virtude como esta pode cada um ganhar por obra de bom entendimento.”.
Assim, na conceção do cronista, a justiça entende-se em duas dimensões: no soberano e nos súbditos. Se o soberano está imbuído do sentido da justiça, produzirá leis justas, que darão paz à comunidade; e, se os súbditos forem justos, cumprirão as leis que o soberano estabelecer e as relações entre os súbditos serão sadias e exemplares. Sem a justiça, a aplicar aos súbditos e aos de fora, o Reino desconjunta-se tal como acontece ao corpo quando a alma dele se aparta. É a justiça que faz a coesão do povo e o mantém no rumo certo, promovendo assim o bem comum.
Porém, a questão da justiça não está só do lado da produção da lei e do espírito do legislador. Está também e, sobretudo, na aplicação da lei quando as atitudes e comportamentos dos súbditos indiciam a transgressão da lei. O juiz eivado do sentido de justiça aprecia as condições da prática do crime e julga segundo a lei e não segundo os estados de alma ou o acinte pessoal. Por outro lado, pune de modo equitativo e respeitando o princípio da proporcionalidade e tendo em vista o bem comum. O que Dom Pedro muitas vezes não fez.
É certo que o Justiceiro nunca julgou sem a lei do seu lado, mas, sentindo-se acima da lei e não sujeito à lei (havia até o princípio de que o legislador não estava sujeito à lei e é por isso que o legislador moderno é um coletivo, sendo que, por não ser a lei emanada de um indivíduo, nenhum se pode considerar fora da alçada porque nenhum é legislador). Aliás, o Prólogo afirma a proeminência do rei:
“Porque se a lei é regra do que se há de fazer, muito mais o deve de ser o rei que a põe e o juiz que a há de encaminhar, porque a lei é príncipe sem alma, como dissemos, e o príncipe é lei e regra da justiça com alma […] Quanto a cousa com alma tem melhoria sobre outra sem alma, tanto o rei deve ter excelência sobre as leis.”.
Nos cinco capítulos da crónica que tratam de casos específicos de justiça, capítulos 6 a 10, um descreve o roubo e assassínio de um judeu (cap. 6), que Dom Pedro castiga porque os cristãos não têm o direito de matar nem perseguir por motivos religiosos, sendo os restantes quatro casos de adultério. Em dois dos cinco casos referidos, o caso dum bispo (alto clero, cap. 7) e outro do almirante do reino (alta nobreza, cap. 10), os castigos decididos numa primeira fase pelo rei acabaram por não ser aplicados face aos pedidos de clemência por parte de pessoas influentes.
Por outro lado, foi extremamente duro, cruel sanguinário no castigo que mandou infligir aos carrascos que liquidaram Inês de Castro, não tendo em conta que obedeceram a ordens régias ou que aconselharam o monarca reinante em função do que entendiam como interesse do Reino. Contudo, apercebendo-se, no leito da morte de que um dos algozes, que não fora morto por ter fugido, mas a quem confiscara os bens, era inocente, arrependeu-se e determinou o perdão com a devolução dos bens.
***
Noutro lugar do Prólogo, Lopes declara que “el Rei Dom Pedro, cujo reinado se segue, usou da justiça de que a Deus mais praz”. O cronista é explícito na intenção que tem na crónica, o de responder ao desejo de saber dos outros: “alguns desejam saber que virtude é esta, e pois é necessária ao Rei, se o é assim ao povo”. Por isso, pode concluir-se que pretende, através da exposição dos feitos do rei – justo ou não tanto assim – provocar o fortalecimento das virtudes no povo português, fortalecimento que ocasiona a “formosura do espírito”, mais importante que a do corpo. E reitera, ao final do Prólogo, que “desta virtude da justiça, que poucos acha que a queiram por hóspeda, […] usou muito el Rei Dom Pedro”.
Percebe-se que o supremo ideal cristão terá guiado a vida do rei e a composição da história de Lopes. O Cristianismo sai enfatizado ao declarar que o rei “de cuidar é que houve o galardão da justiça, cuja folha e fruto é: honrada fama neste mundo e perdurável folgança no outro”.
Porém, surpreendentemente a crónica desnuda o rei, evidenciando os hábitos e caraterísticas pessoais do rei, até pela forma como o faz. São disto exemplos: “este Rei Dom Pedro era muito gago”; “ele era muito viandeiro sem ser comedor mais que outro homem”, “este Rei não quis casar depois da morte de Dona Inês […] mas houve amigas com quem dormiu”.
O tempo verbal do pretérito e a pretensa omnisciência do narrador, resultante de pesquisas em diversas fontes, parecem remeter para a caraterização duma personagem fictícia. Recordem-se, a este respeito, outras passagens como: “não fazemos mais longo processo por não sabermos quanto prazeriam aos que as ouvissem”; “foram armados outros cavaleiros cujos nomes não curamos dizer”; “não curamos de dizer mais, por não sair fora de propósito”. Estes segmentos revelam o processo de seleção dos factos para garantir a verosimilhança interna ou do projeto historiográfico. Longe de querer desqualificar a escrita fernandina, o escopo é perceber como um modelo historiográfico interessado na escrita da verdade, transmissor da totalidade dos factos ou da verdade sem mescla, assume a sua incapacidade de representar a realidade na sua totalidade. Contudo, isto não abala propriamente a verdade, mas a reconstituição das falas das personagens históricas, como atesta a seguinte:
“– Crede-me de conselho e ser-vos-á proveitoso; apartai-vos dos vossos e vamos a um vale não longe daqui, e ali vos direi a maneira como vos ponhais em salvo”.
Esta fala é dum manco. E é o que sabemos desta personagem. Parece que a sua inserção na história, para dar conta da fuga de Diogo Lopez, como esta amostra do seu discurso parecem fruto da criatividade, que não de fontes históricas. Este e outros casos geram a dúvida se Lopes estava mais preocupado com a transmissão da verdade factual ou com a sensação de verdade através da linguagem. Torquato de Sousa Soares (in Fernão Lopes. Crónica de D. Pedro I: Trechos Escolhidos. Lisboa: Clássica, 1963), diz:
Fernão Lopes não se limita a seriar os factos já descritos: toma uma atitude crítica que lhe impõe desde logo um primeiro postulado – a certidam da verdade, que é ‘fruito prinçipal da alma... pela qual todallas cousas estam em sua firmeza’, e que, por isso, ‘há de ser clara e nom fingida’. Ele próprio o afirma […] dizendo que todo o seu desejo foi ‘escrepver verdade, sem outra mestura, leixamdo nos boõs aqueeçimentos todo fimgido louvor, e nuamente mostrar ao poboo, quaaes quer comtrairas cousas, da guisa que aveherom’.” (SOARES, 1963, pgs. 26-27).
Das duas, uma: ou Lopes age contrariando o seu plano; ou o que chama “verdade correspondia” à investigação das mentalidades epocais (assim, a antecipação da nova história não seria tão forçada ou audaz) a um trabalho levantador das possibilidades de realização dos factos. Torquato Soares (1963, p.36) sustenta uma conceção estética à historiografia de Fernão Lopes, caraterizando-a pela capacidade de fazer renascer a cena histórica a partir da organização linguística. É curioso registar que Dom Pedro, prestes a morrer, segundo o cronista, “lembrou-se como, depois da morte d’Alvoro Gonçalves e Pero Coelho, ele fora certo que Diego Lopez não fora em culpa da morte de Dona Inês”. E, mesmo que a devolução dos bens ateste o arrependimento do rei, a construção da sentença aponta para a intromissão do narrador no pensamento do moribundo (focalização interna) – procedimento que manifesta a dimensão de causa-efeito na História, em que supostamente repousam as decisões dos grandes líderes, cujos atos – legislativos, executivos moderadores ou justiceiros – são sempre eminentemente políticos enquanto perseguem o bem comum, a causa pública e a tranquilidade na ordem e no progresso.
(cf também Thiago da Camara Figueredo, Na Fronteira entre os discursos histórico e literário; facto e ficção m Amadis de Gaula e na Crónica de El-rei Dom Pedro I, http://www.assis.unesp.br/Home/PosGraduacao/Letras/RevistaMiscelanea/Artigo23-Thiago_da_Camara_Figueredo.pdf)
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Aqui se transcreve, para ilustração do que foi referido e como joia histórico-político-literária o Prólogo, com atualização da grafia.
Deixados os modos e definições da justiça, que, por desvairadas guisas, muitos em seus livros escrevem, somente daquela para que o real poderio foi estabelecido, que é por serem os maus castigados e os bons viverem em paz, é nossa intenção, neste prólogo, muito curtamente falar, não como buscador de novas razões, por própria invenção achadas, mas como ajuntador, em um breve molho, dos ditos de alguns que nos aprouveram. À uma, por espertar os que ouvirem, que entendam parte do que fala a história; à outra, por seguirmos inteiramente a ordem do nosso arrazoado, no primeiro prólogo já tangida.
E porquanto el-rei Dom Pedro, cujo reinado se segue, usou da justiça, de que a Deus mais praz que cousa boa que o rei possa fazer, segundo os santos escrevem, e alguns desejam saber que virtude é esta, e pois é necessária ao rei, se o é assim ao povo: vós, naquele estilo que o simplesmente apanhámos, o podeis ler por esta maneira.
Justiça é uma virtude, que é chamada toda virtude; assim que qualquer que é justo, este cumpre toda virtude; porque a justiça, assim como lei de Deus, defende que não forniques nem sejas gargantão e, isto guardando, se cumpre a virtude da castidade e da temperança, e assim podeis entender dos outros vícios e virtudes.
Esta virtude é mui necessária ao rei, e isso mesmo aos seus sujeitos, porque, havendo no rei virtude de justiça, fará leis por que todos vivam direitamente e em paz, e os seus sujeitos sendo justos, cumprirão as leis que ele puser, e cumprindo-as não farão cousa injusta contra nenhum. E tal virtude, como esta, pode cada um ganhar por obra de bom entendimento, e às vezes nascem alguns assim naturalmente a ela dispostos, que com grande zelo a executam, posto que a alguns vícios sejam inclinados.
A razão por que esta virtude é necessária nos súbditos, é por cumprirem as leis do príncipe, que sempre devem de ser ordenadas para todo bem, e quem tais leis cumprir sempre bem obrará, cá as leis são regra do que os sujeitos hão de fazer, e são chamadas príncipe não animado, e o rei é príncipe animado, porque elas representam, com vozes mortas, o que o rei diz por sua voz viva: e porém a justiça é muito necessária, assim no povo como no rei, porque sem ela nenhuma cidade nem reino pode estar em sossego. Assim, que o reino, onde todo o povo é mau, não se pode suportar muito tempo, porque, como a alma suporta o corpo e partindo-se dele, o corpo se perde, assim a justiça suporta os reinos e partindo-se deles perecem de todo.
Ora, se a virtude da justiça é necessária ao povo, muito mais o é ao rei; porque se a lei é regra do que se há de fazer, muito mais o deve de ser o rei que a põe e o juiz que a há de encaminhar, porque a lei é príncipe sem alma, como dissemos, e o príncipe é lei e regra da justiça com alma. Pois quanto a cousa com alma tem melhoria sobre outra sem alma, tanto o rei deve ter excelência sobre as leis: cá o rei deve de ser de tanta justiça e direito, que cumpridamente dê às leis a execução; de outra guisa, mostrar-se-ia seu reino cheio de boas leis e maus costumes, que era cousa torpe de ver. Pois duvidar se o rei há de ser justiçoso, não é outra cousa senão duvidar se a regra há de ser direita, a qual, se em direitura desfalece, nenhuma cousa direita se pode por ela fazer.
Outra razão por que a justiça é muito necessária ao rei, assim é porque a justiça não tão somente aformoseia os reis de virtude corporal, mas ainda espiritual, pois quanto a formosura do espírito tem avantagem da do corpo, tanta a justiça no rei é mais necessária que outra formosura.
A terceira razão se mostra da perfeição da bondade, porque então dizemos alguma cousa ser perfeita, quando fazer pode alguma semelhante a si, e portanto se chama uma cousa boa, quando sua bondade se pode estender a outros, ao menos, sequer por exemplo, e então se mostra, por prática, quanto cada um é bom, quando é posto em senhorio.
Porém, cumpre aos reis ser justiçosos por a todos seus sujeitos poder vir bem, e a nenhum o contrário, trabalhando que a justiça seja guardada, não somente aos naturais de seu reino, mas ainda aos de fora dele, porque, negada a justiça a alguma pessoa, grande injúria é feita ao príncipe e a toda sua terra.
Desta virtude da justiça, que poucos acha que a queiram por hospeda, posto que rainha e senhora seja das outras virtudes, segundo diz Túlio, usou muito el-rei Dom Pedro, segundo ver podem os que desejam de o saber, lendo parte de sua história.
E pois que ele, com bom desejo, por natural inclinação, refreou os males, regendo bem seu reino, ainda que outras mínguas por ele passassem, de que penitencia podia fazer, de cuidar é, que houve o galardão da justiça, cuja folha e fruto é honrada fama neste mundo e perdurável folgança no outro.”.

2018.01.27 – Louro de Carvalho

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Digressão por terras de Sátão nos contrafortes de Terras do Demo

Sabe sempre bem sair da zona de estada habitual para dar uma volta por lugares calcorreados de antanho e de que afinal ainda se gosta. Foi o que nos sucedeu – a minha mulher e a mim – no passado dia 15. Num misto de obrigação familiar e gesto de camaradagem, percorremos algumas faixas das terras crismadas por Aquilino Ribeiro como Terras do Demo e outras que de Demo nada têm no sentido aquiliniano para terminarmos na vila de Sátão.
É de advertir que “demo”, no contexto aquiliniano, não se refere ao nome grego “dêmos” a significar “povo” (daí a “democracia” como o poder do povo exercido diretamente por ele ou através de seus representantes), mas ao nome do grego tardio “dáimôn” ou “daimónion” (pelo latim “daemon”), a significar “diabo” (acusador), “espírito mau”, “anjo mau”, “demónio”.
Porém, a vila de Sátão já não fica nas ditas Terras do Demo, mas apenas as integram as partes altas do concelho, tal como acontece com as do concelho de Moimenta da Beira, as do de Sernancelhe, as do de Castro Daire praticamente todas as do de Vila Nova de Paiva (a antiga Barrelas). Por isso, digo que estive um bom pedaço do dia 15 num dos contrafortes das Terras do Demo.
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Na verdade, após um almoço de familiares (alguns) que nos levou a pôr a conversa em dia, fizemos escala no Cineteatro Municipal de Sátão para o motivo pelo qual me decidira a sair de São João de Ver nesse dia. Foi o lançamento do segundo livro de ficção do Dr. António Martins Pinto, meu amigo e conhecido das lides da docência, de algumas passagens pela terra onde mora e de alguns contactos a nível da administração de escola. Não esqueço a famosa Marcha da Paz e da Cultura rumo à Lapa, da iniciativa do Instituto Piaget nos tempos da guerra civil em Angola, sendo que a EBI de Ferreira de Aves, de cujo conselho diretivo o professor António Pinto era o Presidente ao tempo, foi um dos pontos obrigatórios de paragem e acolhimento aos caminhantes no dia do Corpo de Deus de 1999.  
Fui dar com o autor do livro já a conceder autógrafos à medida que as pessoas iam fazendo a respetiva aquisição. Além das muitas pessoas da família do professor António Pinto, minhas conhecidas e outras que, pelo menos de vista, também conhecia, tive o ensejo de rever algumas pessoas que já não encontrava há bastante tempo, por exemplo, o Dr. Alexandre Vaz, Presidente da Câmara Municipal; o Acácio Pinto, professor que foi governador civil e deputado e agora é um dos candidatos à presidência do município; o Avantino Beleza, antigo autarca de Vila Nova de Paiva e meu colega na docência e na administração de escola; e a Luísa Coelho, das lides da Escola Profissional de Sernancelhe. E gostei da presença de bastantes elementos do escutismo.
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Pouco depois das 15 horas, dava-se início à sessão do lançamento do livro A Escalada da Ladeira, tendo o autor e anfitrião do momento aberto a sessão com uma ligeira apresentação da obra e dos dois intervenientes seguintes.
O primeiro a usar da palavra foi o senhor Vice-Presidente da Câmara Municipal de Sátão, o vereador Paulo Manuel Lopes dos Santos, que fez as honras da casa em nome do Presidente que, por motivos de agenda ainda não estava presente e apresentou o autor como uma personalidade cheia de qualidades pessoais, profissionais e sociais – ao nível da docência e da administração escolar – e evocou os tempos em que deram aulas juntos e se entregavam a outras atividades de convivência e desporto pautadas pela amizade. E reiterou a vontade do município na atenção a todas as manifestações da cultura e do bem-estar pessoal e social de todos.
Depois, usei também eu da palavra para, de forma sintética, procurando não me repetir em relação ao prefácio que para ele escrevi, apresentar o livro e o autor num sistema de mescla e nos termos seguintes:
“Sucessora de Nas Ondas do Tempo, a narrativa A Escalada da Ladeira, da autoria do Dr. António Martins Pinto – seja-me permitido a partir de agora nomeá-lo, em termos literários por Martins Pinto – vem presentear-nos com a história de vida de uma personagem em que, de algum modo, as cidadãs e os cidadãos da geração do António se reveem. Os caminhos e os atalhos da ladeira até poderão ter sido diferentes no perfil longitudinal e transversal, mas igualmente espinhosos e alegres, escolhosos e prazenteiros, agnósticos e religiosos, no seu teor – enfim, é a vida!
Qualquer um dos leitores desta narrativa há de pressupor e depois concluir que a ladeira é a metáfora da vida e que, mercê do seu teor íngreme, a escalada há de ter sido dura e, às vezes, pobrinha, como justifica o mestre Aquilino Ribeiro, no prefácio à monografia Terras do Alto Paiva, de Fonseca da Gama, para justificar o epíteto com que veio a crismar as pobres terras beiroas a que apelidou de “Terras do Demo”, não por se tratar de terras especiais de pecado ou do diabo (todas o podem ser), mas pela dificuldade da sobrevivência com base na leira, na urze e na espera de que passasse o almocreve.
E Aquilino metaforizava a vida como a peregrinação a Santiago de Compostela, orientada, no solo pelas veredas sinuosas e pedregosas, e, no firmamento pelo Sete-Estrelo ou Estrada de Santiago, contável pelas dezenas de carradas de anos que passavam sobre caminhos e pontes. Ora também o narrador de A Escalada da Ladeira, distribui a vida por IX capítulos precedidos dum prólogo redigido à maneira de aperitivo. Assim, é natural que Martins Pinto tenha construído um narrador heterodiegético cujas personagens tenham nascido e crescido sob a égide da Senhora da Lapa em cujo Santuário de há cerca de 520 anos ocorrem as famosas novenas (Fará os 520 anos em 2018). E uma novena é um conjunto de nove elementos: nove dias na Lapa, mas também nove voltas, nove semanas, nove meses, nove anos ou nove lustros, conforme os contextos. Obviamente, para o ser humano que vem a este mundo a única novena pré-definida por que passa habitualmente é a da gestação; depois, é só contar e somar com a ajuda da família, dos amigos e dos mestres – ao menos na escola da vida.
Assim, é natural que o homem da Nave cresça sob a égide da Lapa e seja moldado pela austera rigidez e aspereza do seu granito, mas também é saudável que as novenas da sua peregrinação de vida, de vez em quando, o transportem ao ambiente mais maleável do calcário português de Fátima, cujo centenário decorre neste ano. Penso que é nesta carreira entre a aldeia e Coimbra, com um salto a Fátima, que o protagonista de A Escalada da Ladeira se move, obviamente em esquecer os seus cenários familiares, pinturescos e dinâmicos ou os episódios de seminário, sé, colégio, liceu, universidade e docência. Até parece que Martins Pinto se projeta pessoalmente neste protagonista!
E, já que referi, antes, o número nove e o numeral distributivo-coletivo relacionado com ele, estou a lembrar-me do número sete, considerado na Bíblia e no imaginário popular, o número perfeito ou da totalidade. Ora tanto quanto podemos ler nas orelhinhas do livro, Martins Pinto está a perfazer as suas sete novenas de anos da escalada da ladeira (havíamos de estar amanhã todos em Águas Boas!... – o dia 16 é o do 63.º aniversário de Martins Pinto).
Enquanto se felicita o cidadão com experiência nas lides da docência e da administração da educação formal, espera-se que Martins Pinto não pare na produção da ficção. A sua ladeira já perdeu as malhas da índole íngreme da escalada e atingiu um estatuto de memorial, mas o conhecimento das pessoas e das suas realidades não se limita certamente ao conhecimento da família: há outros mundos a explorar e a colocar em narrativa. Com certeza que não faltam pretextos para histórias em que as personagens vivam em mundos que a história percebe como tão verosímeis que as coincidências com a realidade são mais que muitas e em que a ficção lhes confere um colorido do qual se deve dizer que será mera coincidência qualquer semelhança que apresentem com a realidade.
Porém, não posso terminar sem deixar um repto a Martins Pinto: porque não tentar um legado sobre a docência da disciplina de Matemática, de que tantos e tantas têm medo, e um testemunho sobre a administração escolar, num tempo em que ela mostra algumas ambiguidades, ao nível da dimensão, da democracia e da eficácia, no quadro mais vasto da definição das políticas públicas. Legado e testemunho que bem podem ser exarados em termos reais ou em termos ficcionados ou em ambos.
E não receie que entendam qualquer um destes pretextos de escrita como intervenção política. Com efeito, depois que Almeida Garrett confessou que as suas Viagens na Minha Terra constituíam um ato de intervenção política, um pronunciamento, portanto, quase toda a peça literária não deixa de o ser – o que não quer dizer que seja de política partidária ou política no sentido negativo do termo. Aliás, no seu mais genuíno sentido, política é a preocupação com a pólis e a intervenção na pólis para sua edificação e consolidação. Hoje, refugiamo-nos no eufemismo da “cidadania”, que deveria ser exatamente a mesma coisa (pólis e polítês são palavras gregas; civitas civis são latinas – ambas significam cidade e cidadão, respetivamente). Ademais, tanto Nas Ondas do Tempo, como A Escalada da Ladeira situam a ação no quadro global das políticas coevas e as personagens recebem delas a inevitável influência e o condicionamento.
E, como se vê pelo exemplo de Martins Pinto, um professor aposentado tem muito para dar à comunidade, muito que não pode consistir numa taxa designada por contribuição especial de solidariedade ou a ela ficar alguma vez confinado. Obviamente, Martins Pinto sabe que, lá dizia Cardoso Pires, para o leitor ter prazer, é preciso que o escritor sofra.
Por fim, deixo o apelo a que leiam o livro. Por dois motivos: primeiro, é a curiosidade um dos fatores e fautores da construção da personalidade e do progresso; segundo e último, o autor realiza-se na produção da obra, mas a eficácia da mesma concretiza-se pela leitura.
Ao autor, parabéns e muito sucesso! E é com a palavra, falada e escrita, com a capacidade de ouvir e com a dedicação ao serviço – como as escuteiras e os escuteiros aqui presentes – que se conseguirá encontrar o graal da felicidade, que é para os crentes o cálice pelo qual Jesus terá bebido na Última Ceia e no qual José de Arimateia terá recolhido aquele jorro de sangue e água que brotou do lado adormecido de Cristo na Cruz do Calvário.”.
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Por fim, o autor tomou a palavra para agradecer as intervenções e, com a ajuda da sobrinha Daniela, mostrar aos presentes, através de imagens expressivas e textos legíveis em ecrã e/ou lidos pelo autor, três excertos da vida do protagonista: o diálogo do António (o protagonista) com um petiz companheiro em volta da comida pobrinha (temperada pela conversa infantil); a evocação da cena seminarística duma noviça candidata a deuteragonista, que fatores religiosos fizeram eclipsar, deixando o protagonista amargurado, mas a médio prazo disponível para escalar a ladeira com a cumplicidade doutra deuteragonista, a definitiva; e alegria de festejar com a família a chegada ao topo da ladeira, ver a diversidade de caminhos, que possibilita as melhores escolhas, e celebrar o momento de encanto com alegria humana e da fé sob a égide de Nossa Senhora de Fátima ou a Mãe de todas as graças, mas arregaçando as mangas para o trabalho. E informou de que tinha em mãos a escrita de novo livro, “A equação da Matemática”. Gostei!
Enfim, um dia de serenidade, amizade, cultura e convívio. Por Deus, pelas famílias, pelos amigos e pela literatura.

2017.07.17 – Louro de Carvalho