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domingo, 23 de dezembro de 2018

Morreu Catalina Pestana, “uma mulher de muitas convicções”


A notícia foi avançada, em primeira mão, pela SIC Notícias, referindo que a antiga provedora da Casa Pia de Lisboa estava doente há alguns anos e que terá morrido na sequência de uma infeção hospitalar.
Maria Catalina Batalha Pestana foi a primeira mulher – e a última – a assumir o cargo de provedora daquela instituição, para o qual foi nomeada pelo então Ministro da Segurança Social António Bagão Félix, em 2002, na sequência do escândalo de abusos sexuais que envolveu alunos e um ex-funcionário da instituição. É lembrada como “mulher de muitas convicções”, “uma força da natureza” e a mulher que esteve “sempre ao lado dos que não têm voz”.
A antiga provedora foi o rosto da instituição e das crianças vítimas de abuso sexual durante o processo da Casa Pia. “Nunca desistiu de combater pelas causas em que acreditava”, como recorda Marcelo Rebelo de Sousa em nota da Presidência da República, onde se pode ler:
 O Presidente da República apresenta as suas sentidas condolências à família de Catalina Pestana nesta hora de luto, recordando a vida de uma mulher que marcou a luta pelos direitos das crianças em Portugal.
Foi a primeira mulher a assumir a direção da centenária Casa Pia de Lisboa, num dos momentos mais difíceis que a instituição atravessou.
Catalina Pestana, professora e cuidadora, nunca desistiu de combater pelas causas em que acreditava, nomeadamente a defesa das crianças acolhidas. Depois da Casa Pia encarregou-se da refundação da Casa do Gaiato de Lisboa.
O Presidente Marcelo Rebelo de Sousa recorda a sua coragem no desempenho das funções profissionais e genuinidade com que tratava todos com quem convivia.”.
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A antiga professora, que faleceu aos 72 anos, nasceu em 1946 (em entrevista ao jornal I, diz ter nascido em 1947), cresceu no Barreiro e estudou em Setúbal antes de entrar para o curso de Filosofia na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, após o que, aos 24 anos de idade, começou a sua carreira profissional como professora dum colégio feminino, tendo chegado a ser alvo de vigia da PIDE, como recorda o Diário de Notícias, por ser uma das organizadoras dos campos de férias para os filhos de presos políticos. Um ano depois do 25 de Abril de 1974, assumiu a direção do Colégio de Santa Catarina, em Lisboa, que estava sob a tutela da Casa Pia de Lisboa, cargo que exerceu durante mais de uma década (melhor, 12 anos). 
Nunca abandonou o ensino, concluiu o mestrado em Psicologia Educacional, na década de 80 deu aulas na Faculdade de Motricidade Humana e, no início da década de 90, foi coordenadora nacional do Projeto Vida de Prevenção da Toxicodependência em Meio Escolar. Em 1998, foi diretora do Plano para a Eliminação de Exploração do Trabalho Infantil
Em dezembro de 2002, após a exoneração de Luís Rebelo do cargo na sequência do maior escândalo de abusos sexuais em Portugal, foi convidada pelo Ministro Bagão Félix para ocupar o cargo de provedora da Casa Pia. Assumiu até ao fim uma postura de defensora acérrima dos menores que afirmavam ter sido vítimas de abuso, muito embora insistisse lucidamente que os abusos na Casa Pia não eram “questão de fé”, mas “de prova”.
Durante o processo judicial, Catalina foi várias vezes ouvida pelos investigadores e juízes e manteve a convicção de que as vítimas estavam a dizer a verdade. Em 2003, na sequência da prisão preventiva de Carlos Silvino (conhecido por “Bibi”), a provedora garantia, em entrevista à agência Lusa, que isso estaria a contribuir para que mais vítimas relatassem os abusos de que foram vítimas. Em Tribunal, afirmou que o historial de abusos sexuais na instituição é longo:
Esta história é longa, não posso dizer se tem décadas ou mais, nem se houve algum período em que não acontecesse, nem lhe posso garantir que agora não aconteça”.
Questionada sobre como classificaria a intensidade do abalo provocada pelo caso, Catalina respondeu que seria um “terramoto de grau sete”. E afirmou em tribunal:
Quando se fizer a história deste processo, todos verão que, se houvesse legislação que permitisse investigar tudo o que me foi dito a mim, à Polícia Judiciária e ao Ministério Público, o terramoto teria consequências devastadoras”.
Permaneceu à frente da instituição até ao ano de 2007, quando o julgamento do caso Casa Pia ainda decorria. E, em outubro de 2007, mais de 5 anos depois de o escândalo ter rebentado, a já ex-provedora veio a público afirmar que os abusos sexuais na instituição continuavam.
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A antiga professora morreu na madrugada do dia 22, vítima de doença, como declarou à agência Lusa o advogado da Casa Pia. De acordo com Miguel Matias, Catalina estava internada numa unidade hospitalar em Lisboa e “morreu durante a noite” vítima de uma infeção generalizada.
O advogado lembrou, em declarações à Lusa, o “trabalho gigantesco” (contra muitas dificuldades) da antiga provedora da Casa Pia de Lisboa na defesa das vítimas de abusos e da instituição.
Segundo o jurista, que trabalhou na defesa das vítimas com Catalina, sempre a antiga provedora enfrentou as dificuldades do processo da Casa Pia “de peito aberto” e “preocupada com a defesa das crianças, do bom nome da instituição e dos funcionários”, num período que classificou como “muito conturbado e difícil”, tendo a provedora tido sempre em mente “a justiça”.
Afirmando ser uma pessoa com quem teve a sorte e o privilégio de trabalhar e de encetar uma amizade que ficou para sempre, engrandeceu a imagem que fica “de uma pessoa amiga, muito determinada, muito boa” e que “soube reunir uma equipa” para levar a cabo um trabalho de modo que a defesa das crianças fosse “efetivamente salvaguardada”.
Do seu lado, o conselho diretivo da Casa Pia de Lisboa destaca, em comunicado, o legado “particularmente relevante” deixado pela antiga provedora Catalina Pestana na “defesa intransigente” dos direitos das crianças e jovens.
E Bagão Félix, o responsável pela nomeação de Catalina como provedora da instituição, também em declarações à agência Lusa, disse que “foi uma pessoa admirável, com rosto, alma e coração”, que “esteve sempre ao lado dos que não têm voz, não têm poder e que não fazem notícias, não abrem telejornais, dos que estão indefesos”. E acrescentou que Portugal perdeu “uma grande senhora, uma portuguesa de eleição, uma pessoa que ao longo da sua vida juntou qualidades essenciais para as causas cívicas e públicas em que se envolveu”. Com efeito, era alguém “que juntava o sentido de dever, a força da coragem, a enorme sensibilidade humana e a consistência da vontade” e que “trabalhou sempre em nome de um valor ético que às vezes desprezamos, que é o valor ético da esperança”.
Mais lembrou Bagão Félix que a antiga provedora lutou sempre contra “a tecnocracia estatística”, que transforma pessoas em números e “teve uma vida feita pela grande luta pelas causas em que acreditava, com total autenticidade”.
Por seu turno, Edmundo Martinho, provedor da SCML (Santa Casa da Misericórdia de Lisboa), que trabalhou “muito próximo e em vários momentos da vida” com Catalina, disse que era uma mulher de muitas convicções, muito combativa e muito enérgica a defender os seus pontos de vista, mesmo que não fossem consensuais” – caraterísticas que não são muito comuns hoje em dia”, mas que fazem dela “um exemplo de participação cívica”. 
Para Rui Godinho, diretor para a Infância, Juventude e Família da SCML, Catalina Pestana “era uma força da natureza”. Foi há “25 ou 30 anos” que este responsável da SCML se cruzou pela primeira vez com a professora. Tinha 16 anos quando trabalharam juntos no âmbito dum programa do “Projeto Vida”, o “Viva a Escola”, para prevenção da toxicodependência nas escolas. E refere que era um jovem quando a conheceu e “foi uma grande inspiração”, pois tinha “uma força contagiante e era muito empenhada e dedicada”.
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A edição on line do jornal I de 22 de dezembro antepublica sob o título “Catalina Pestana. O adeus às armas”, o texto de parte duma entrevista com a antiga provedora, a publicar na íntegra na edição em papel do dia 24. Dado o seu interesse, pelo conhecimento que dá da vivência em semiclandestinidade no tempo do Estado Novo, retiram-se do texto alguns dos dados mais pertinentes.
Começou por referir que, aos 4 anos, “ouviu pela primeira vez um discurso incendiário contra o regime” por parte do pai, “um operário anarco-sindicalista que a tratava como ao macho que lhe falhara”. E a menina, “ainda um palmo de gente”, registou o tom de voz, que não as palavras.
Era véspera do 1.º de Maio de 1951, feriado “em vários países europeus como o dia do trabalhador, mas proibido em Portugal”. Agostinho Pestana, do alto duma pedreira, esquecera-a por momentos e, fixando os colegas da indústria do mármore apelava à greve: “Amanhã é 1.º de Maio e aqui ninguém trabalha!”.
O pai, um operário diferenciado, fizera o 3.º ano do Liceu e, quando ficou órfão, foi internado na Casa Pia de Beja. Era um homem culto e transmitia cultura à sua menina, que sabia de cor, já aos 10 anos, poemas de Guerra Junqueiro, poeta de cabeceira de Agostinho, “um anticlerical que no fundo apenas tinha no sangue o selo das injustiças e tanto ajudava o padre da paróquia por este viver na miséria como dava apoio, nada ortodoxo para um anarco-sindicalista, ao PCP”. E, nos palcos das coletividades, era aproveitada a infância de Catalina, que recitava, sem lhe faltar o fôlego, “poemas que o pai escolhia por medida enquanto no subpalco elementos do partido da classe operária concertavam estratégias”. Na adolescência, a menina tentou matar o fantasma do progenitor: “uma professora de liceu despertou-a para a existência de Deus e ela acertou a fé, um sentimento revolucionário no seu entender, com o seu percurso”.
Como reza o texto do I, carregara “combustível suficiente para nunca aceitar compromissos avessos à verdade ou à justiça”, pelo que “nunca foi militante de qualquer partido”. E, “quando o escândalo da Casa Pia abalou o país e, entre arguidos e suspeitos, deparou com velhos amigos usou os mesmos pesos da balança que utilizou toda a vida”.
Como memoria mais antiga que guardava da infância, registou que, aos dois anos e meio, os pais a deixaram à avó, por estar para nascer a irmã. E, embora adorasse a avó, quando viu os pais afastarem-se, disfarçou e só não chorou para não a contristar.
Dado que o pai era operário da indústria de mármores e animador da coletividade de cultura e recreio, Catalina herdou uma cultura operária, alimentada em pleno tempo do fascismo. O pai, que era presidente do sindicato (do que era nomeado pelo Ministério das Corporações), conseguia falar aos trabalhadores e convocar greves do alto das pedreiras.
Considerava-se “a grande frustração” da vida do pai ou “o filho que ele não teve”. Nasceu outro a seguir, mas, como os pais tinham incompatibilidade de RH (na altura ninguém sabia o que era...), nasceu bem, mas depois morreu.
Vivia-se com muito aperto: “os operários ganhavam à semana e muito pouco”. Quando chegou o tempo de irem para a escola, a mãe começou a fazer camisas, em casa, para o Casão Militar, pois antes não trabalhava: viviam do magro salário de Agostinho.
Os pais eram naturais de Moura, no Alentejo. “Fazem parte da primeira revoada de migração do interior alentejano para o litoral”. Por não haver dinheiro, era o pai que, que morreu muito cedo, quem fazia os brinquedos. E fazia molduras nas horas extraordinárias, para aumentar o parco salário. Era um operário diferenciado: “na forma de lidar com os patrões, no sentido crítico, na animação cultural e no desejo de fazer outras coisas”. A certa altura, ele e um amigo fizeram o curso de guarda-livros por correspondência e, quando acabou o curso, foram morar para Pero Pinheiro (tinha Catalina 6 ou 7 anos) e o pai deixou de trabalhar como operário (em 1953/54), pois já fazia as escritas de muitas pequenas empresas.
O pai, como se disse, era “sindicalista e anticlerical” e tinha Guerra Junqueiro como “poeta preferido”. Naquele tempo, Catalina tinha memória de elefante e aprendeu poemas enormes – como ‘Aos Simples’ e ‘O Melro’, de A Velhice do Padre Eterno, que é anticlerical.
Questionada se percebia alguma coisa do que dizia, respondeu:
Os do Guerra Junqueiro percebia, porque o meu pai explicava mil vezes. E dizia que Nosso Senhor Jesus Cristo era muito bom, mas a Igreja Católica tinha estragado tudo. Proibiu-nos mesmo de ir à catequese, – mas as miúdas todas iam e eu e a minha irmã Madalena também queríamos ir. Os meus pais tinham casado pela Igreja e nós fomos batizadas apenas porque era um ato social. Para ele, era evidente que a catequese estava fortemente conotada com o regime e que na Igreja iriam meter-nos na cabeça os seus princípios totalitários. Mas era completamente solidário: como o padre da paróquia vivia com dificuldades, ele promoveu uma quotização, a seu favor, entre os associados do sindicato. E o padre passou a ir comer connosco muitas vezes.”.
Recitava em todos os sítios que o pai queria. “Só muito mais tarde percebeu o que estava a fazer”: a camuflar os vários comités clandestinos do PCP, que reuniam, entretanto, no subpalco.
O pai escrevia as peças de teatro (às vezes), fazia os cenários, encenava e depois pedia aos patrões para usar uma das camionetas descobertas e aos fins de semana percorriam várias localidades. A primeira vez que a menina subiu a um palco foi aos 4 anos (‘traindo’ a mãe, que era contra). O pai escrevia durante a noite e, ao pequeno-almoço, dava-lhe a ler os papéis. E ela decorava tudo até ir para a escola.
Tinha ela 9 ou 10 anos, foram viver para umas pequenas vivendas na Quinta da Lomba, ao pé do Barreiro, onde abrira uma fábrica de mármores. Também para lá foi um casal que tinha dois filhos e que ninguém sabia donde vinha, sendo que a mulher nunca chamava o marido pelo nome. Passaram a chamar-lhe o vizinho político.
Em cada sessão, Catalina entrava e o pai dava início à reunião; e ela só saía quando o pai mandava. Depois, mandava-a voltar ao palco ou não, consoante a reunião já tivesse acabado. Foi por essa altura que a família passou a ter um tipo de ‘objecto de estimação’, “uma bomba.
***
Claramente esta vivência de luta em que foi induzida criou-lhe a fibra de mulher livre e empenhada nas grandes causas em que acreditava, não lhe restando tempo para a mediocridade ou para a sujeição.
2018.12.23 – Louro de Carvalho

sexta-feira, 24 de março de 2017

O equívoco do cancelamento/adiamento da conferência de Nogueira Pinto

Afinal, o cancelamento da conferência de Jaime Nogueira Pinto em relação ao dia aprazado ou o seu adiamento para outra ocasião em que fossem debatidos os temas daquele conferencista e os de outros tem explicações e conheceu desenvolvimentos que passaram ao lado de comentadores e críticos da tomada de posição do diretor da FCSH da Universidade Nova de Lisboa.
Se a conferência tinha um conteúdo anódino e, pelo menos em parte, aceitável conforme é habitual no discurso do referido politólogo, o contexto era bem mais problemático.
Muitos não entenderam a justificação lacónica do Diretor da FCSH. E a prontidão com que o Presidente da República se pronunciou publicamente contra a decisão da autoridade académica, a discussão parlamentar quase imediata, a ambiguidade e teor evasivo com que o Ministro do Ensino Superior esclareceu o Parlamento e a franca disponibilidade da Associação 25 de Abril em ceder instalações para a realização da conferência foram elementos de equívoco em que muitos caíram (incluo-me nesse número).
Na verdade, a Universidade deve promover e favorecer a liberdade de pensamento e de expressão sobre tudo e a todos. Porém, não sem cuidar da segurança das pessoas e dos bens de que elas têm o direito de desfrutar ali. E eram exatamente as condições de segurança que estavam a falhar – o que levaria a que a liberdade de expressão perigasse. E foi um esclarecimento que o laconismo do comunicado da direção da FCSH não facultou.
Por isso – e bem – Daniel de Oliveira publicou um texto de uma certa retratação no Expresso a dar algum esclarecimento mais pormenorizado dos factos e a pedir desculpa ao Diretor da FCSH e aos seus leitores. Esteve bem. E, depois disto, veio inexplicavelmente Jaime Nogueira Pinto a responder-lhe com outro conjunto de pormenores que não constituem qualquer resposta a Daniel de Oliveira ou desmentido em relação às afirmações do colunista do referido semanário.   
É dos estatutos que a deliberação da reunião geral da Associação de Estudantes (AE) da Faculdade vincula a sua direção e é factual que a deliberação foi no sentido de ser cancelada a cedência da sala requisitada para a conferência – o que foi requerido ao Diretor da Faculdade.
Obviamente que os membros da AE conhecem as caraterísticas do núcleo Nova Portugalidade e as suas habituais intenções. Poderão ter sido radicais ou intolerantes na forma da deliberação. Porém, os desenvolvimentos seguintes não permitem dizer da bondade da intenção, estilo e bondade democrática do referido núcleo Nova Portugalidade, que acaba por inviabilizar um debate civilizado e sereno dos temas anunciados para conferência e debate.
***
Com efeito, confrontados com a decisão do Diretor da FCSH propõem a entrega da segurança à PSP – o que fez desnecessariamente recordar tempos de má memória em que a polícia, a pretexto de impor a ordem e garantir a segurança, penetrava nas instalações universitárias e corria à bastonada os ditos rebeldes (por não alinharem com o pensamento único, eram tidos como comunistas e, por conseguinte, inimigos do Estado). Perante a não aceitação do seu interlocutor, prontificaram-se a trazer os seus seguranças para garantirem a ordem e o debate. Obviamente, o Diretor viu aqui a solução do “pior a emenda que o soneto” e entendeu que essa prontificação potenciaria eventuais confrontos e escudou-se no adiamento por falta de condições.
Os promotores da conferência não desistiram dos seus intentos. Como se verá a seguir.
O Partido Nacional Renovador (PNR) convocou para o passado dia 21 de março um protesto em frente à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (FCSH) “contra o totalitarismo do pensamento único e pela liberdade de expressão para todos”.
A convocação vem na sequência deliberação dos estudantes da FCSH no sentido da não cedência do auditório da Faculdade à organização Nova Portugalidade para a realização duma conferência do politólogo Jaime Nogueira Pinto sobre “Populismo ou Democracia? O Brexit, Tump e Le Pen em debate”, alegadamente por o evento estar “associado a argumentos colonialistas, racistas, xenófobos”. O PNR refere na convocatória divulgada na sua web:
“Ao menos, que estes casos mediáticos que já afetam João Braga e Jaime Nogueira Pinto sirvam para despertar mentes e consciências. E que, uma vez despertas, percebam que só o PNR luta verdadeiramente contra o totalitarismo do pensamento único.”.
João Braga (fadista) escrevera na página do Facebook “Agora basta ser-se preto ou 'gay' para ganhar Óscares", criticando a cerimónia de entrega de óscares em Hollywood – afirmação que gerou polémica e levou a associação SOS Racismo a queixar-se à Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial. E o PNR salienta que “sempre sentiu na pele a discriminação, o boicote, a censura e a ameaça por parte dos donos do poder estabelecido”, frisando:
“Quando alertámos, centenas de vezes, que esta era a realidade no Portugal do século XXI, a maioria daqueles que nos ouviam 'sacudia a água do capote' e dizia-nos que era por sermos 'extremistas', apenas por fazermos a diferença, pensarmos de modo diferente e dizê-lo sem medo”.
E acrescenta:
“[Com] o crescimento nacionalista no Ocidente, a esquerda, que domina o sistema, que dita as regras e que impõe o marxismo-cultural, começa a ficar nervosa e a endurecer a luta. É ela quem define os conceitos, decide quem pode ter voz, o que é certo e errado e criminaliza quem se lhe opõe.”.
Entretanto, pré-respondendo à manifestação convocada pelo PNR para as 18 horas do mesmo dia 21, duas horas antes (às 16, portanto), já muitos antigos e atuais estudantes, professores e investigadores estavam em grande concentração no átrio da Faculdade, havendo “reforço policial” nas imediações. Na verdade, cerca de 450 pessoas, entre antigos e atuais alunos, docentes e investigadores da FCSH, tinham subscrito, a meio da tarde do dia 20, o manifesto “Primavera na FCSH, Contra o Fascismo”, que convocava, para as 16 horas do dia seguinte, uma concentração no átrio da Faculdade. Era uma resposta, por antecipação, à manifestação que o PNR realizaria em frente à FCSH, na Avenida de Berna, em Lisboa.
Ambas as iniciativas são desenvolvimento da polémica que levara ao adiamento da conferência de Nogueira Pinto sobre os populismos. Tanto a manifestação do PNR como a concentração na “esplanada” da Faculdade (vista como uma “contramanifestação”) estão perpassadas de uma retórica que parece saída dos escaninhos dos anos quentes de 70 do século XX, evidenciando uma desnecessária e artificiosa clivagem esquerda-direita (alguns adiantam: extrema esquerda vs extrema direita) que preocupa as forças de segurança estatais. Por isso, a polícia preparou o dispositivo em conformidade com as informações recolhidas no terreno e nas redes sociais. Algumas equipas da PSP estiveram de prevenção junto da Universidade e outras nas proximidades.
A iniciativa do PNR fora anunciada no pico da discussão sobre o adiamento da conferência. O partido de extrema-direita, liderado por José Pinto-Coelho, iria realizar um “protesto contra o marxismo cultural e o pensamento único esquerdista”.
Com o lema “PREC nunca mais” (PREC é a sigla pela qual ficou conhecido o Período Revolucionário em Curso, em 1975, também conhecido como Verão Quente, no qual Portugal terá estado à beira de guerra civil), o PNR vinha manifestar-se “em frente à Faculdade que tenta cortar a raiz ao pensamento”. Os insensatos dos nacionais renovadores diziam “protestar para prevenir a sombra de um novo PREC, mais colorido e travestido que o anterior, mas certamente mais tenebroso, porque dissimulado”. O líder do PNR dizia que tivera conhecimento da concentração através da página do Facebook de um dirigente do Bloco de Esquerda e garantia que da parte dos militantes do PNR “não haverá tensões nenhumas”.
É sempre assim: é normal colocar no cesto alheio todas as maldades, sobretudo as praticadas do lado de cá! Ainda gostava de saber (de um saber bem feito) quem provocou o PREC ou os PREC.
Sobre o número de simpatizantes do PNR que poderiam estar presentes em frente à Faculdade, Pinto-Coelho não fazia previsões. Era um dia de semana, às seis da tarde… não poderiam contar com militantes vindos de outros pontos do país. E dizia que “o protesto do PNR vale por si”, negando tratar-se de um ato de solidariedade para com Nogueira Pinto.
Se era fácil saber quem iria manifestar-se no exterior da FCSH, mais difícil era perceber quem estava por detrás do movimento que convocou as hostes para a concentração no interior. O lema era: “Punho erguido” contra o fascismo. Sai à rua no Dia Internacional para a Eliminação da Discriminação Racial. E o documento tem, entre os signatários, a jornalista Alexandra Lucas Coelho, os historiadores Fernando Rosas, Irene Pimentel, José Neves e Raquel Varela, além de elementos da direção da associação de estudantes.
O grupo defende um ideário assumidamente de esquerda e aproveita o Dia Internacional para a Eliminação da Discriminação Racial promovido pela ONU (a celebrar precisamente no dia 21) para convocar os “antifascistas que trabalham e estudam na FCSH, assim como ex-alunos e alunas”.
O pretexto de tal congregação era “celebrar a Primavera”. Depois, em resposta à polémica do adiamento da predita conferência, vinha a declaração de princípios: “Não seremos intimidados por grupos radicais de extrema direita que aproveitam o momento para denegrir a faculdade e os seus diferentes órgãos legítimos de representação e de direção”. E o manifesto prosseguia:
“Não podemos pactuar com o silêncio num momento em que ideologias fascistas e xenófobas se mobilizam para atacar o pluralismo e a democracia, componentes incontornáveis do ensino no nosso país”.
Quando se quis saber junto de diversos signatários do texto que estaria por detrás desta jogada de antecipação à manifestação do PNR, as respostas eram evasivas do tipo, “É um movimento o mais alargado possível” ou alegando desconhecer o nome das pessoas em causa.
No entanto, a concentração no interior da Faculdade não suscitou o consenso gera, pois há quem entenda que a mesma vem dar “demasiada importância” à manifestação do PNR.
***
Antes da concentração, uma primeira iniciativa decorreu na FCSH para assinalar o Dia contra a Discriminação Racial. Era um debate promovido pela AE, que teve início às 14 horas e em que participaram associações de combate ao racismo. A AE não divulgava a lista de presenças, pois alegava estar ainda a receber confirmações.
Da parte do movimento Nova Portugalidade (que esteve na origem da polémica, pois foi o promotor da conferência de Nogueira Pinto), nenhuma das iniciativas do dia 21 recolheu o seu apoio. O grupo já se demarcara do PNR (antagonismo que, aliás, foi recíproco). Fez desta vez o mesmo (num tom menos agreste, mas que vai dar ao mesmo) em relação ao movimento que clama “Contra o Fascismo”. E diz, nas palavras de Rafael Pinto Borges, condenar “sempre mais o fascismo do que quem tentou censurar uma conferência na FCSH, desrespeitando a liberdade de expressão e violando a Constituição”, acrescentado: “como somos pela liberdade, não podemos rever-nos em nenhuma manifestação desta terça-feira”.
***
Mais do que saber quem iria estar ou esteve nas distas manifestações, o caso havia de servir para se colherem algumas lições:
- Quem toma decisões públicas deve, para evitar equívocos, explicar bem as razões da sua tomada de posição.
- Não se deve julgar de imediato e com base e estados de alma quem toma decisões graves.
- Os comentadores devem certificar-se da integridade dos factos e tentar perceber que organizações divergentes usualmente se apresentam com as melhores das intenções, escondendo sob a pele de cordeiro, ou as armas da violência ou as garras do exagero na rotulação das intenções e estilo dos outros, sendo que os outros é que são maus e têm a culpa de tudo.
- O Chefe de Estado deveria evitar pronunciar-se precipitadamente e na obediência a eventuais estados de alma, antes de lhe ser dado conhecimento dos factos, correndo o risco de ser mal interpretado ou de ter uma agenda ideológica ou de serviço a interesses setoriais.
- E o Parlamento deveria proceder a um grande debate sobre estas matérias e promover a sua discussão na sociedade dita civil.
Finalmente, não tenhamos dúvidas: na atual conjuntura espreita a Europa muito mais o perigo do avanço da extrema-direita que qualquer outro, já que as forças políticas moderadas se deixaram capturar pela teia de interesses e esqueceram os cidadãos com os seus problemas vitais: sustento, saúde, trabalho, habitação, democracia genuína, justiça, segurança pública, segurança social… Não há dinheiro para prover ao bem-estar das populações, mas tira-se ao rendimento do trabalho para satisfazer os caprichos do “poder” financeiro que pratica a economia de casino e alberga a gestão ruinosa.
Salve-se a Europa desta mediocridade podre!

2017.03.24 – Louro de Carvalho 

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Os Espiões do Papa – A Guerra Secreta de Pio XII contra Hitler

Há muitos anos – pelo menos desde o teatro de 1963 de Rolf Hochhuth “O Deputado” – que a opinião pública mundial vem absorvendo a tese de que Pio XII fora o “Papa de Hitler”. Com efeito, muitos o apresentaram como aliado do regime nazi. Não obstante, há décadas que pessoas bem informadas suspeitam que a referia tese não passa de uma distorção deliberada, pois, vários líderes judeus vieram em defesa de Pacelli. Agora surge a certeza, sem margem para dúvidas, de que tais acusações não só estavam erradas como são precisamente o oposto da verdade. Na verdade, com base em documentos do Vaticano, o historiador Mark Riebling conta o outro lado de um dos mais importantes dilemas do século XX.
***
Como surge a ideia do filogermanismo do cardeal Pacelli? O Secretário de Estado de Pio XI tinha sido núncio apostólico na Baviera e, depois, em Berlim – cargo que desempenhou com proficiência. É normal que tivesse conhecimento apurado da idiossincrasia do povo alemão e da Igreja na Alemanha. E  é natural que, enquanto diplomata tentasse equilíbrios difíceis ou até incorrido na crença de que o Governo estaria bem intencionado, pois Hitler chegou ao poder por via eleitoral em tempo de crise social, política e económica. Por outro lado Riebling recorda:
“Quando os nazis tomaram o poder, em 1933, Pio XII [aliás, Pacelli] elogiou o anticomunismo de Hitler e aceitou a proposta deste para formalizar os direitos dos católicos. Pacelli negociou uma concordata garantindo o financiamento da Igreja com 500 milhões de marcos de receitas fiscais anuais.”.
Entretanto, a Igreja Católica estabelecera, como Riebling refere, uma concordata com o Estado alemão como o fizera com o Estado italiano e outros Estados. Ora, a concordata é um pacto entre Estados que estabelece obrigações entre as partes, reconhecimento de legitimidades mútuas e cedências em matérias que não descaraterizem as partes.
Foi com base na confiança mútua que, em 11 de fevereiro de 1929, Pio XI e o Estado italiano celebraram o Tratado de Latrão, que reconhecia a soberania dos Estado Pontifício na atual faixa territorial e nos locais onde se situam imóveis da Santa Sé, bem como a concordata.
Não obstante, os acontecimentos cedo ultrapassaram os tratados. E, logo em 29 de junho de 1931, promulgou a encíclica “Non abbiamo bisogno” (Não Precisamos) que possuía uma postura fortemente antifascista, recebendo como retaliação à sua publicação, da parte do ditador Benito Mussolini, que seguia tal política, a ordem de que fossem dissolvidas as associações católicas de jovens na Itália. Por ouro lado, o Papa teve de limitar fortemente a ação do Partido Popular, até que ele foi dissolvido, negou qualquer tentativa de Sturzo de reconstruir o partido e viu-se forçado a lidar com enormes conflitos e embates com o fascismo por causa de tentativas do regime de hegemonizar a educação dos jovens e da intromissão do regime na vida da Igreja. É óbvio que Pio XI foi também muito crítico sobre o papel da pessoa social imposto pelo capitalismo e, na encíclica “Quadragesimo anno”, de 1931, apelou à urgência de reformas sociais já identificadas 40 anos antes pelo Papa Leão XIII, reiterando a condenação de todas as formas de liberalismo e de socialismo. E condenou fortemente o nacional-socialismo (nazismo), em 1937, por meio da encíclica “Mit brennender Sorge, sobretudo na vertente da estatolatria  e na racista alegadamente por motivos biológicos.
No entanto, num primeiro momento, o Episcopado alemão manifestou-se por Hitler, a ponto de o Presidente da CEP ter sido chamado ao Vaticano com ordem de promover a retratação.
Também, ao emitir a encíclica “Quas primas”, em 1925, com a qual estabeleceu a festa de Cristo Rei para lembrar a lei da religião a permear todas as áreas da vida quotidiana (o Estado, a economia e as artes), chamou os leigos a um maior envolvimento religioso e, em 1938, promoveu a reorganização da Ação Católica.
Contudo, a uns meses antes de morrer, Pio XI deixou de suportar o regime italiano e o regime alemão, sobretudo por causa da disseminação violenta do racismo e pelo endeusamento dos dois líderes – estado de alma de que dada conta nas audiências em Castelgandolfo. E encomendou um projeto de encíclica sobre a unidade do género humano a um padre da Companhia de Jesus, que agregou a si, para o trabalho, mais dois colaboradores jesuítas sob os auspícios do superior geral. Ora, é exatamente ante a atitude do Secretário de Estado, o cardeal Pacelli, que os colaboradores vaticanos se interrogam: Porque é que Pacelli fez desaparecer os papéis com o texto que estavam na escrivaninha do Papa moribundo?
À partida, poderia ser por discordância. Mas também poderia ser por não haver tempo de tratar o texto-projeto de encíclica de modo a dar-lhe forma encíclica e publicável em nome do Papa, o qual tinha preparado um discurso duro contra os dois regimes – italiano e alemão – que não chegou a pronunciar, embora a Rádio Vaticano tivesse feito algumas referências claras às disposições do Papa nos últimos dias de vida. No entanto, sabe-se hoje que Pio XII incluiu a maior parte das ideias na sua primeira encíclica “Summi Pontificatus” (publicada 10 meses depois da eleição papal), em que traça o programa do seu ministério petrino e exprime a sua angústia pelo sofrimento que atinge os indivíduos, as famílias e toda a sociedade. 
A demanda sobre o que se passou com a projetada encíclica de Pio XI “Humani Generis Unitas”, bem como a dupla posição de Pacelli pode ler-se no livro “O Papa e Mussolini”, de David I. Kertzer (ed. Individual Livros: 2015), que desvenda o relacionamento entre duas das mais importantes figuras políticas europeias do século XX.
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“Pio XII” foi o nome escolhido pelo cardeal romano Eugénio Pacelli, eleito papa a 2 de março de 1939, num conclave que, “pela primeira vez desde que havia memória, atraiu uma multidão de correspondentes da imprensa estrangeira, cujas teleobjetivas, no dizer de uma testemunha, faziam lembrar canhões antitanque”. E, mal o cardeal Eugenio Pacelli se tornou o Papa Pio XII, em 1939, o chefe das SS, Heinrich Himmler, ordenou a Albert Hartl, padre laicizado, que preparasse um dossiê sobre o novo Papa. Hartl documentou como Pacelli tinha usado a Concordata que negociara com o Governo de Hitler em 1933 de forma vantajosa para a Igreja, fazendo pelo menos 55 queixas formais por violações da mesma. Pacelli – dizia Hartl – acusou o Estado nazi de conspirar para exterminar a Igreja e “convocou todo o mundo para lutar contra o Reich”. Mais: pregava a igualdade racial, condenava a “superstição do sangue e da raça” e rejeitou o antissemitismo. Citando um oficial das SS, Hartl concluiu a sua análise dizendo que “a questão não é saber se o novo Papa vai lutar contra Hitler, mas sim como”.
Entretanto, Pio XII reunia-se com cardeais alemães a discutir o problema de Hitler. E queixou-se de que “os Nazis tinham frustrado os ensinamentos da Igreja, banido as suas organizações, censurado a sua imprensa, fechado os seminários, confiscado as suas propriedades, despedido os professores e fechado as escolas”. Citou um oficial nazi, que sustentou que “depois de derrotar o bolchevismo e o judaísmo, a Igreja Católica será o único inimigo restante”.
O cardeal Michael von Faulhaber, de Munique, retorquiu que os problemas tinham começado depois da encíclica de 1937, “Mit Brennender Sorge”, publicada em alemão e não em latim e distribuída por um exército de motociclistas. O texto, escrito em parte por Pacelli antes de se haver tornado Papa, enfureceu o Hitler. O Papa disse a Faulhaber:
“A questão alemã é a mais importante para mim. O seu tratamento está reservado diretamente para mim… Não podemos abdicar dos nossos princípios… Quando tivermos tentado tudo, e ainda assim eles quiserem absolutamente a guerra, lutaremos… Se eles recusarem, então teremos de lutar”.
Faulhaber recomendou “intercessão de bastidores”, propondo que os bispos alemães encontrassem “uma forma de fazer chegar a Sua Santidade informação precisa e atualizada.” E o Cardeal Adolf Bertram acrescentou que “é preciso fazê-lo de forma clandestina”, pois, “quando São Paulo se fez descer num cesto das muralhas de Damasco, também não contava com a autorização da polícia local”. Tais sugestões mereceram a concordância do Papa XII.
Assim nasceu o plano de construção duma rede de espionagem que apoiaria, entre outras coisas, planos para assassinar Hitler.
No seu livro “Church of Spies: The Pope’s Secret War Against Hitler” (agora a chegar às livrarias em português, editado pela Presença), Mark Riebling recorre a documentos do Vaticano e atas secretas, ora divulgadas que descrevem as táticas clandestinas de Pio XII para o derrube do regime nazi.
Após a invasão da Polónia por Hitler em 1939, o Papa reagiu aos relatos de atrocidades contra judeus e católicos. A encíclica “Summi Pontificatus", já mencionada, rejeitou o racismo, no pressuposto de que a raça humana está unificada em Deus. E condenou também os ataques ao judaísmo. Mais: o Pontífice escreveu que “ainda que à custa de ‘tormentos e martírio’, há que ‘confrontar essa perversidade dizendo: Non licet – não é permitido!’”. No mesmo texto, o Papa consagrou “a unidade do género humano”, sublinhando “que essa unidade negava o racismo” e rematou declarando: “Não há gentio nem judeu”.
O Papa foi amplamente louvado por isso. A este propósito, um título do New York Times dizia “Papa condena ditadores, violações de tratados, racismo” – mas sentia que era pouco.
Depois, “conforme afirmou um oficial das SS [organização paramilitar nazi], seria absurdo acusar Pacelli de ser pró-nazi” e, por outro lado, “as declarações públicas de Pacelli incomodavam Berlim”.
Convicto de que o regime nazi cumpria os requisitos para justificar o tiranicídio, conforme os ensinamentos da Igreja, Pio XII permitiu aos jesuítas e aos dominicanos que colaborassem com ações clandestinas. O seu principal agente – a quem os nazis se referiam como “o melhor agente dos serviços de informação do Vaticano” – era Josef Muller, advogado e herói da I Guerra Mundial, que organizou uma rede de “amigos das forças armadas, escola e faculdade, com acesso a oficiais nazis e que trabalhavam em jornais, bancos e até mesmo nas SS”. Estes forneciam ao Vaticano informação vital, incluindo planos de batalha que eram depois passados aos aliados. Em 1942, Muller introduziu Dietrich Bonhoeffer no Vaticano para planear uma estratégia cujo objetivo era fazer as pontes entre grupos de diferentes religiões para os cristãos poderem coordenar a luta contra Hitler.
As tentativas de assassinato de Hitler falharam devido, segundo Muller, à “sorte do diabo”. Mas, em relação a tais planos, Riebling comenta: “Todos os caminhos vão de facto dar a Roma, a uma secretária com um simples crucifixo, com vista sobre as fontes da Praça de São Pedro”.
Depois do falhanço do plano “Valquíria”, a Gestapo prendeu Muller. Descobriram uma nota escrita em papel timbrado do Vaticano por um dos assistentes de topo do Papa, o padre Leiber, que dizia que “Pio XII garante uma paz justa em troca da ‘eliminação de Hitler’”.
Muller foi enviado para Buchenwald. A 4 de abril de 1945, juntamente com Bonhoeffer, foi transferido para Flossenburg. E, depois dum julgamento fantoche, foram condenados à morte. Bonhoeffer foi imediatamente executado. Mas, temendo a aproximação de forças americanas, as SS transferiram Muller e outros reclusos para Dachau, depois para a Áustria e, finalmente, para o Norte de Itália. Foram então libertados pelo 15.º Exército dos EUA.
Agentes dos serviços de informação dos EUA levaram Muller para o Vaticano. Quando o viu, o Papa abraçou-o, dizendo que se sentia “como se o próprio filho tivesse regressado de uma situação de grande perigo”.
Riebling revela que, durante a visita de Muller ao Vaticano, o diplomata americano Harold Tillman perguntou porque é que Pio XII não tinha sido mais interventivo durante a guerra. Muller disse que durante a guerra a sua organização antinazi na Alemanha tinha insistido muito em que o Papa evitasse fazer afirmações públicas dirigidas especificamente aos nazis e condenando-os, tendo recomendado que as afirmações públicas do Papa se confinassem a generalidades (…) Se o Papa tivesse sido específico, os alemães tê-lo-iam acusado de ceder às pressões das potências estrangeiras, o que teria colocado os católicos alemães ainda mais na mira dos nazis, tendo restringido imensamente a sua liberdade de ação na resistência ao regime. Muller disse que a política da resistência católica no interior da Alemanha era de que o Papa se colocasse nas margens enquanto a hierarquia alemã levasse a cabo a luta contra os nazis. E o Papa seguira sempre este conselho durante a guerra.
De tal modo foi percebido o papel do Papa por Hitler que, segundo alguns historiadores, ordenou o sequestro do Papa por medo de Pio XII vir a aumentar e agravar as suas críticas à perseguição judia levada a cabo pelos nazistas. E temia que a oposição papal inspirasse mais resistência e oposição à ocupação alemã na Itália e outros países católicos. Nessa eventualidade, o Papa disse à Cúria que a sua captura pelos nazistas implicaria resignação imediata, abrindo caminho à eleição do sucessor. Os cardeais teriam de se refugiar em país seguro e neutro, como Portugal, onde iriam restabelecer a liderança da Igreja Católica Romana e eleger novo Papa.
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Graças à pesquisa incansável de Riebling, agora podemos finalmente descartar as alegações absurdas sobre Pio XII. Ele não era o “Papa de Hitler”, era o seu Nêmesis.
É certo que a suposta impassividade do Vaticano face às atrocidades nazis na II Guerra Mundial representa uma das maiores controvérsias da atualidade. A história apelidou Pio XII de “O Papa de Hitler”, considerando-o conivente com a política nazi. Porém, mais do que manter-se distanciado ou cúmplice dos acontecimentos ocorridos num dos mais períodos negros da história, o Papa teve papel fundamental nos eventos que levaram à derrota nazi. Mark Riebling, baseado em documentos recentemente abertos pelos arquivos secretos do Vaticano e pelo British Foreing Office, apresenta a versão que, ao longo de décadas, foi encoberta, abrindo as portas do Vaticano para revelar factos surpreendentes na história do pontificado.

2016.10.19 – Louro de Carvalho

sábado, 20 de agosto de 2016

A hipocrisia e o despudor já saturam

Entre uma e o outro que venha o diabo e escolha, se é que lhe apetece.
Vem o tema a propósito de dois casos: a geringonça das votações no seio do Conselho de Segurança a ONU com a melhor votação para António Guterres pelas duas vezes consecutivas em que se procedeu a tal votação; e a escolha, pela primeira vez, de um português para o comando do JALLC (sigla inglesa de: Joint Analysis and Lessons Learned Centre), ou seja, o centro de investigação analítica da NATO localizado em Lisboa (Monsanto).  
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A 21 de julho, o Expresso on line noticiava que António Guterres fora o candidato mais votado na 1.ª votação para secretário-geral da ONU e que imediatamente atrás do candidato português ficara o ex-Presidente esloveno Danilo Turk. Além disso, explicava:
“Na corrida ao cargo de secretário-geral estão, neste momento, 12 candidatos, metade dos quais mulheres, entre elas a Ministra dos Negócios Estrangeiros da Argentina, Susana Malcorra, a antiga chefe do governo neozelandês e dirigente do Programa da ONU para o Desenvolvimento, Helen Clark, e a ex-ministra dos Negócios Estrangeiros búlgara e diretora da UNESCO, Irina Bokova”.
Por outro lado, anotava que a indicação dum candidato pelo Conselho de Segurança à Assembleia Geral requeria, pelo menos, 9 votos a favor, incluindo os dos 5 membros permanentes do Conselho de Segurança (China, França, Estados Unidos, Reino Unido e Rússia).
A 5 de agosto, o Jornal de Negócios referia que o ex-primeiro-ministro português consolidara a sua posição entre as preferências do Conselho de Segurança para poder tornar-se o 9.º secretário-geral da ONU, ao destacar-se de novo na votação dos 15 países membros do Conselho de Segurança. Com efeito, o candidato recebeu 11 votos de encorajamento, 2 de desencorajamento e 2 sem opinião, continuando à frente de Danilo Turk – o esloveno estava em 2.º lugar na 1.ª ronda de votações e agora passou para 4.º. Logo a seguir a Guterres, nesta votação, ficou Vuk Jeremic, ex-ministro sérvio dos Negócios Estrangeiros, com 8 votos de encorajamento (mas com 4 de desencorajamento e 3 sem opinião). Também com 8 votos de encorajamento ficou a ministra argentina dos Negócios Estrangeiros, Susana Malcorra (mas 6 de desencorajamento e 1 sem opinião). 
Estão, pois, na corrida ao posto cimeiro da ONU 11 candidatos – 6 homens e 5 mulheres – depois de Vesna Pusic, ex-ministra croata dos Negócios Estrangeiros, ter desistido. Porém, apesar de Guterres ter vencido estas duas votações, há senãos. Nesta votação indicativa feita pelos 15 Estados que atualmente compõem o Conselho de Segurança da ONU (5 permanentes e 10 não-permanentes), o candidato recebeu 2 votos de desencorajamento. Se estes 2 votos foram provenientes dum dos membros permanentes, por exemplo da Rússia ou da China, de nada lhe servirá a liderança atual. O português tem contra si o princípio da rotatividade, segundo o qual, desta vez, deveria ser alguém proveniente da Europa de Leste a ocupar a liderança da ONU. Por outro lado, acreditava-se que, desta vez, seria indicada para o cargo uma mulher.
Acresce um outro fator potencialmente desfavorável a Guterres. Moscovo tem-se oposto a candidatos provenientes de países-membros da NATO. E Portugal é um dos fundadores desta organização atlântica. Por sua vez, Ban Ki-moon – que, em recente visita a Portugal a convite do Presidente da República, elogiou António Guterres, que considera “um grande líder, com uma forte visão” e por quem tem uma grande admiração (que “deu um grande contributo à Humanidade como Alto Comissário para os Refugiados“, tendo deixado “um grande legado”) – referiu há, poucos dias, que estava na hora de a ONU ser liderada por uma mulher.
Por mim, pergunto-me por que motivo vem a realizar-se esta palhaçada das votações. Se querem um candidato de Leste ou uma mulher, digam-no claramente. E, sobretudo, acabem de vez com o direito de veto de alguns membros do Conselho de Segurança.
Também se torna irritante o facto de a candidata da Argentina, depois de Angola ter declarado o seu apoio a Guterres, ir a Angola pescar em águas turvas a coberto do hipotético facto de Guterres representar para os angolanos o passado de colonialismo (vd Expesso de hoje, 20 de agosto).
Será que a Argentina ainda vive o trauma do colonialismo espanhol ou britânico? Ainda não cresceu? Ou será que Angola já não teve tempo de em 40 anos se desfazer desse trauma? Para negócios, os angolanos não têm traumas. Mas alguns esqueceram que foi com a formação académica em Portugal que os seus antepassados revolucionários reconheceram o colonialismo.
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Também, há dias, foi notícia que pela primeira vez, o JALLC (sigla inglês para designar “Joint Analysis and Lessons Learned Centre”), ou seja, o Centro Conjunto de Análises e Lições Aprendidas da NATO, vai ser comandado por um português.
O Centro Conjunto de Análises e Lições Aprendidas da NATO, em Monsanto, que depende do Comando Aliado da Transformação (Norfolk, EUA), foi inaugurado no final de 2002 pelo então Ministro da Defesa Paulo Portas. Instalado, pois, na capital há 14 anos, o JALLC é o agente da NATO (sigla, em inglês, da Organização do Tratado do Atlântico Norte) perito em análise conjunta, que tem 66 pessoas ao seu serviço, entre militares e civis, oriundos de 16 países. E, a partir de 19 de agosto, é comandado por Mário da Salvação Barreto, brigadeiro-general da Força Aérea, que sucede ao brigadeiro-general Mircea Mîndrescu, da Roménia.
A cerimónia de tomada de posse, que decorreu nas instalações do JALLC a 19 de agosto, contou com a presença do Ministro da Defesa Nacional, Azeredo Lopes, e com Manfred Nielson, da NATO. Jorge Saramago, 2.º comandante, explicou à agência Lusa que “este centro se situa ao mais alto nível da estrutura da Aliança Atlântica”, apesar de ser “pouco conhecido em Portugal e na própria NATO porque se dedica a procurar soluções, a apresentar propostas para problemas ao mais alto nível”, problemas que não especificou.
Sendo um centro de estudo, o JALLC é “talvez uma das estruturas mais multinacionais de toda a NATO”, na qual são analisados problemas complexos e apresentadas soluções aos dois grandes comandos estratégicos da Aliança Atlântica para “melhorar o emprego operacional das forças ou até a própria estrutura” da organização. De acordo com o seu 2.º comandante, o centro tem ainda a responsabilidade de interagir “com a nação hospedeira, neste caso Portugal, para apoiar toda a comunidade da Aliança Atlântica que reside por motivos de serviço no país”.
O JALLC é o centro responsável pela análise conjunta das atuais missões operacionais da NATO, assim como dos treinos e exercícios, fazendo depois recomendações sobre o desenvolvimento ou melhoria dos conceitos, doutrina e capacidades militares da Aliança. Um exemplo do trabalho do JALLC é o relatório sobre a proteção de vítimas civis no Afeganistão, publicado há um ano e elaborado a partir da missão da NATO nesse país entre 2001 e 2014.
Outra particularidade é o facto de Portugal voltar a ocupar, ao fim duma década, o principal cargo num órgão da estrutura de comandos da NATO – agora com um oficial general da Força Aérea. Tal havia acontecido (entre 1982 e 2004) com militares da Marinha, à frente do comando operacional da Aliança em Oeiras.
Com a posse de Mário Barreto, piloto-aviador dos caças F-16 e ex-comandante da Base Aérea de Beja, cria-se também uma situação rara, senão única, num órgão multinacional da estrutura de comandos da NATO, os dois cargos principais serem ocupados por oficiais da mesma nacionalidade. Esta coincidência passará a ocorrer de três em três anos e decorre da última distribuição de cargos pelos países da NATO, em que ficou assente que o comando do Centro passaria a ser ocupado de forma rotativa entre Portugal e a Roménia. Isto resulta também de o cargo de chefe do Estado-Maior do JALLC, que assegura a ligação da agência ao país hospedeiro, se manter ocupado por um oficial superior português, o coronel Jorge Saramago (Exército).
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A NATO é uma aliança militar composta por 28 países, com sede em Bruxelas (Bélgica), e Portugal foi um dos membros fundadores, em 1949. Por isso, é normal que o comando das suas unidades seja ou não exercido por oficiais portugueses. Porém, a reflexão atinente a esta matéria prende-se com um comentário despudorado de alguém que, em rede social, sustenta que a participação de Portugal na Nato é ilegal, porque então o regime português era fascista.
Sem responder com as palavras do falecido almirante José Batista Pinheiro de Azevedo, apetece-me dizer que o comentador deve ser ilegal, pois terá nascido de pais nascidos (ou será neto de avós nascidos e criados) num país de regime fascista e é herdeiro de localidade, educação, saúde, função pública, forças armadas, casa, agricultura, floresta, minas, comércio, banca, amigos, cafés e tabernas, hotéis e bares, fisco, polícia, segurança social, justiça, desporto, ruas, animais, árvores, jardins, matas, ouro, ferro, aço, igrejas… – tudo com marcas de fascismo. À luz da candeia deste iluminado, eu sou ilegal porque nasci durante o regime anterior. Apesar de tudo, ilegal e fascista como, pelos vistos sou, pago impostos, dei aulas em escolas democráticas como aquelas em que o comentador terá aprendido (pouco, pelos vistos) e, mesmo sem querer, contribuo para a sua liberdade sem limites, saúde ou doença, trabalho ou preguiça e, infelizmente, para a sua atitude de despudor e petulância. Que o leve o diabo!
Finalmente, recordo que o povo democrata aceitou a revolução que garantiu o respeito pelos acordos internacionais e tem votado em partidos que se relacionam com a NATO, a ONU, A UE, o EURO, a Santa Sé, a CPLP.
Será que o douto comentador, a 25 de abril de 1974, pegou em armas ou em cravos, gritou? Ou estaria ainda no hiperurânio? Será que a ONU, com toda a sua hipocrisia e diversão, será menos colonialista e mais democrática que a NATO, que o antigo Pacto de Varsóvia, a OUA, a CPLP ou a OMC?
2016.08.20 – Louro de Carvalho

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