Mostrar mensagens com a etiqueta Espetáculo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Espetáculo. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 20 de maio de 2019

Oito agentes da PSP condenados por agressões, injúrias e sequestro...


Foi lido hoje, dia 20 de maio, no Tribunal de Sintra, o acórdão atinente ao processo em que 17 agentes da Esquadra da PSP de Alfragide são acusados pelo Ministério Público (MP) de vários crimes (denúncia caluniosa, injúria, agressão ou ofensa `integridade física, falsificação de documento e falsidade de testemunho sequestro, tortura, ódio racista…) contra 6 jovens da Cova da Moura – isto quase um ano após o começo do julgamento (22 de maio de 2018).
Regista a comunicação social que a tarde foi marcada pelo reforço da segurança no tribunal com mais quatro militares da GNR e pelo ambiente de tensão. Com efeito, no átrio estavam cerca de 50 pessoas, entre jornalistas e muitos agentes da PSP que foram apoiar expressamente os colegas e lotaram a sala de audiências, embora muitos polícias tenham sido barrados à porta, só tendo entrado os representantes das suas associações sindicais. Assistentes e outros ativistas apoiantes dos ofendidos ficaram de fora da sala e mostraram a sua indignação aos oficiais de justiça. Entretanto, o tribunal acabou por desocupar uma fila para permitir a entrada dos assistentes e de três observadores da AMI (Amnistia Internacional). A juíza-presidente não permitiu a permanência de pessoas em pé para assistir à leitura do acórdão. Entre as várias pessoas que ficaram de fora, destaca-se Mamadou Ba, dirigente do SOS Racismo, que de imediato se manifestou no Facebook, classificando de “vergonha” o sucedido no Tribunal, acusando:
O Tribunal consentiu que os sindicatos da polícia se organizassem para impedir que cidadãos assistissem a leitura da sentença em que 17 agentes são acusados entre outros de sequestro, tortura, racismo, coação, falsificação de provas. Uma vergonha!”.
Foram ouvidos, ao longo de 30 sessões, os 17 arguidos (logo nas primeiras quatro), os 6 ofendidos e dezenas de testemunhas. A juíza-presidente, Ester Pacheco, referiu que eram mais de 100.
Manuel das Dores, o procurador que acompanha o julgamento, deixou cair as acusações de tortura e ódio racial, de que também os acusava o despacho do MP de julho de 2017. Manteve a acusação a pelo menos 7 polícias pelos crimes de ofensas à integridade física. Neste grupo está João Nunes, o agente que disparou uma shotgun e que tem, aliás, o maior número de acusações. 
A acusação inicial conheceu dois momentos: o primeiro, a 5 de fevereiro de 2015, em que uma equipa da PSP foi à Cova da Moura fazer patrulhamento e deteve Bruno Lopes, por este alegadamente ter atirado pedras à carrinha da polícia, tendo um agente disparado dois tiros e atingido duas moradoras; e o segundo, em que amigos do jovem, entre eles membros do Moinho da Juventude, se dirigiram à esquadra para, segundo os próprios, pedirem esclarecimentos, tendo, porém, sido detidos e acusados de invasão. Os agentes da PSP, como é natural, sempre porfiaram a sua inocência. Mantiveram em tribunal as descrições que passaram aos autos de notícia: primeiro, que o ofendido é que os agredira atirando uma pedra; segundo, que houve tentativa de invasão da esquadra por parte dum grupo de jovens. Negaram em absoluto as agressões físicas e racistas, afirmando que usaram apenas a força necessária.
O procurador considerou que não ficou provado em sede de julgamento que as lesões dos jovens foram tão graves que configurem o crime de “tortura” e “sofrimento atroz”, alegando:
Não estamos na presença de tal grau de severidade. Era preciso mais, que as acusações estivessem mais suportadas nas lesões que apresentam.”.
Também referiu não ter ficado provado que as injúrias proferidas se enquadrem no crime de ódio racial. Um dos exemplos aduzidos para deixar cair o crime de tortura diz respeito ao ofendido Rui Moniz, que tem um braço imobilizado por uma tala. O despacho descreve que lhe foram desferidos diversos murros e pontapés, bofetadas, pisadelas nas costas e puxões de cabelo. O relatório médico refere que ele teve uma contusão lombar, com 10 dias de cura e 3 de impossibilidade para o trabalho geral, “inexistindo perigo para a vida”. Por isso, o procurador achou que não constituía prova suficiente para tortura, segundo as várias definições que leu.
Além disso, Manuel das Dores entendeu que a tese de tentativa de invasão da esquadra por 6 jovens, defendida pelos agentes e apresentada como justificativa para a sua detenção, tinha legitimidade, pois foi essa “a perceção da realidade” por parte dos agentes ao verem os jovens a aproximarem-se e que agiram de acordo com essa perceção. Vinham efetivamente indignados com o que se passara no bairro da Cova Moura, onde detiveram Bruno Lopes. Assim, encararam o grupo “como hostil”, porque os jovens não vieram com “uma atitude de pura paz”.
***
Os factos da acusação do MP datam de 5 de fevereiro de 2015. Nessa, alegava o MP que 6 jovens desceram a rua da Cova da Moura em direção à esquadra da PSP, em Alfragide, indo procurar Bruno, conhecido e amigo que fora detido no bairro, havia poucos minutos, vítima de alegadas agressões por parte dos agentes. Dos 6, acabaram detidos 4 (pois António e Fernando fugiram), juntamente com Bruno e Rui, apanhados pela PSP um pouco depois nas imediações da esquadra. Nas 72 horas que estiveram à guarda desta força de segurança, dizia o MP, foram torturados, agredidos, humilhados e injuriados por todos os 18 agentes (9 de cada turno) da PSP da EIFP (Esquadra de Investigação e Fiscalização Policial) de Alfragide, agindo “por sentimento de ódio racial, de forma desumana, cruel e pelo prazer de causarem sofrimento” aos 6 jovens.
A acusação deduzida pelo procurador Helder Cordeiro, coordenador do DIAP da Amadora, em julho de 2017, caiu como uma bomba na PSP e no bairro. Na polícia, mercê da quantidade de agentes acusados (uma mulher oficial foi depois despronunciada), da gravidade e da dimensão dos factos descritos e porque, pela primeira vez, era posta em causa a sua palavra, segundo os dados da investigação que o procurador Paes de Faria decidiu delegar na UNCT (Unidade Nacional de Contraterrorismo) da PJ (Polícia Judiciária). No bairro porque, pela primeira vez, se acreditou que a justiça podia estar do lado dos jovens do bairro.
O julgamento começou a 22 de maio de 2018, mais de 3 anos após os incidentes. Do processo constam cerca de 90 testemunhas (entre vizinhos, amigos e pais, quer das vítimas, quer dos arguidos).
Numa primeira fase do processo, os jovens foram constituídos arguidos sob a acusação da PSP de terem tentado invadir a esquadra para libertar o outro jovem detido. Ficaram sujeitos a TIR (termo de identidade e residência), indiciados pelos crimes de resistência e coação contra funcionário, injúria, dano, tirada de presos e ofensa à integridade física. Porém, a PJ verificou na sua investigação que a narrativa não era verosímil, pelo que a versão dos jovens vingou em fase de inquérito, baseada em 30 testemunhos, relatórios médicos e cruzamento de informações recolhidas. Extrema frieza, prazer de ver sofrer, cenário de barbárie – são expressões que a advogada das vítimas utilizou para caraterizar o que se passou na esquadra.
A acusação contra os 17 polícias apontava para dezenas de crimes: 17 crimes de tortura e outros tratamentos cruéis, degradantes ou desumanos, 28 crimes de injúria agravada, 45 crimes de ofensa à integridade física qualificada; 96 crimes de sequestro agravado; um crime de omissão de auxílio, 3 crimes de denúncia caluniosa, 5 crimes de falsificação de documento agravado.
Assim, os arguidos responderam por denúncia caluniosa, injúria, sequestro, ofensa à integridade física, falsificação de documento e falsidade de testemunho, por alegadas agressões e insultos racistas a 6 jovens, na Cova da Moura e no interior da esquadra de Alfragide. E, no PIC (Pedido de Indemnização Civil) apresentado em conjunto, a que a agência Lusa teve acesso, os seis assistentes pedem que os arguidos sejam condenados a pagar, entre todos, uma indemnização total de 327.000 euros, por danos patrimoniais e não patrimoniais, incluindo despesas relativas a tratamentos, reparações de danos e deslocações.
Segundo a acusação, os elementos da PSP, à data dos factos a prestar serviço na Esquadra de Intervenção e Fiscalização Policial (EIFP) da Amadora, espancaram, ofenderam a integridade física e trataram de forma vexatória, humilhante e degradante as 6 vítimas, além de incitarem à discriminação, ao ódio e à violência por causa da raça.
O MP considerava que os agentes agiram com ódio racial, de forma desumana, cruel, tiveram prazer em causar sofrimento e, além das agressões, alvejaram os jovens com frases xenófobas e racistas durante a detenção nas esquadras de Alfragide e da Damaia e no trajeto para o Comando Metropolitano de Lisboa da PSP, onde pernoitaram deitados no chão e algemados.
Porém, em tribunal, o procurador do MP, Manuel das Dores, não viu provas, nem nas lesões dos jovens, nem nos seus testemunhos, que demonstrassem a “tortura” e o “sofrimento atroz”, tendo apenas pedido a condenação de 7 dos polícias – a maior parte dos quais pelos factos ocorridos no bairro, aquando da detenção de Bruno Lopes. O magistrado considerou provado que, em relação a esse momento, a versão dos jovens era a verdadeira e que os polícias tinham mentido, quer em relação à localização da detenção, quer quanto aos motivos, quer quanto ao uso da força, mas ficou com dúvidas quanto ao que acontecera na esquadra. Enquanto no bairro havia várias testemunhas de moradores que assistiram à cena, na esquadra era só palavra dos jovens contra a dos polícias. Na dúvida, Manuel das Dores, não acreditou nas vítimas.
O MP sustenta a condenação de alguns dos agentes pelos crimes de sequestro, de falsificação de documento e de ofensas à integridade física qualificada, dando como provado que estes arguidos agrediram os ofendidos, detiveram um jovem de forma ilegal na Cova da Moura e falsificaram os autos de notícia para “branquearem” o que realmente se passou no bairro e nos subsequentes confrontos ocorridos no exterior da esquadra.
***
Quatro anos e mais de três meses depois da data dos factos, os 17 agentes da PSP ouviram a leitura do acórdão. Foram condenados 8: um a pena de prisão efetiva; e 7 a prisão com suspensão de pena. Mas nenhum agente foi condenado pelos crimes de tortura. E, apesar de ter havido condenações por injúrias de caráter xenófobo, foi descartada da decisão a motivação racial, que agravaria as penas. As condenações foram sobretudo por crimes de sequestro agravado, ofensas à integridade física qualificada, injuria, denúncia caluniosa e falso testemunho. As penas foram agravadas porque nenhum se mostrou arrependido. “O que aconteceu foi sem dúvida um grave abuso de autoridade” – destacou a juíza Ester Pacheco, que presidiu ao coletivo que julgou este caso sem precedentes.
As penas de condenação são de dois meses a 5 anos e as vítimas receberão indemnizações de 10 mil euros. Embora sejam só 8 condenados em 18 acusados (só 17 chegaram a tribunal, pois uma oficial foi despronunciada), é o maior número de sempre de agentes condenados num processo.
À saída da sala de audiências, Jakilson Pereira, da direção da Associação Cultural Moinho da Juventude, da Cova da Moura, assinalava tratar-se de “uma decisão histórica e uma esperança de que a Justiça pode funcionar”, mas entende que “devia ter havido mais condenações a prisão efetiva”. Com efeito, o único agente condenado a prisão efetiva foi Joel Machado, porque do seu cadastro constava uma condenação pelo crime de ofensa à integridade física qualificada, por atos praticados em 2010. A juíza-presidente assinalou que os crimes praticados no âmbito deste processo ocorreram quando ainda vigorava a suspensão da pena anterior, o que é indicador do não funcionamento da medida como dissuasora dos comportamentos criminosos. Assim, “por uma questão de prevenção”, o Tribunal entendeu dever condená-lo a prisão efetiva de um ano e 6 meses, por ofensa à integridade física qualificada de Rui Moniz.
Todos os outros arguidos viram as suas penas serem suspensas. E foi Luís Anunciação, então chefe da esquadra, quem teve a pena mais elevada, com 5 anos, pelos crimes de ofensa à integridade física qualificada, sequestro agravado (pela detenção ilegal de 5 jovens), denúncia caluniosa e sequestro agravado (por ter mentido no auto de notícia, acusando os jovens de terem tentado invadir a esquadra, alegação que o tribunal não acreditou). O Tribunal considerou que João Nunes disparou a shot-gun contra duas pessoas no bairro (Jailza e Neusa) sem justificação e contra Celso Lopes e depois mentiu no relatório que fez sobre os acontecimentos. Foi condenado a 4 anos de prisão, suspensos por igual período, pelos crimes de ofensa à integridade física qualificada e falsificação de documento. André Quesado foi condenado a 2 anos e 6 meses, suspensos por igual período, por um crime de sequestro agravado (subsequente à detenção ilegal de Bruno Lopes no bairro). Arlindo Silva foi condenado a um ano e um mês de prisão, pena suspensa por um ano, pelo crime de ofensa à integridade física e injúria agravada. E, por último, Hugo Gaspar foi condenado a uma pena de 2 meses de prisão, suspensa por um mês, pelo crime de injúria contra os ofendidos.
“Pese embora não se tenha apurado que os arguidos agiram com motivação racial e que praticaram a tortura, é evidente que houve um grave abuso de autoridade”, afiançou a juíza.
Tal como já tinha concluído o MP, depois das audições de julgamento, também o coletivo de juízes entendeu que as alegações de tortura e de “tratamentos desumanos e cruéis”, não ficaram demonstrados nas lesões apresentadas nos relatórios hospitalares das vítimas.
***
Funcionou a Justiça. A decisão judicial é histórica. Mas queriam mais. No entanto, pergunto-me como é que a PJ conseguiu concluir pela mentira dos agentes da PSP; como é que, não tendo sido provado ter havido atos de tortura e ódio rácico, se demonstra que a PSP ultrapassou a utilização da força necessária; e como se consegue provar a inocência de jovem que atira pedra(s) a uma patrulha e de uns jovens que vão em grupo a uma esquadra.      
Depois, temos mais um caso de justiça-espetáculo. Com efeito, o espetáculo justiçoso televisionado não é só o juiz ir pessoalmente ao Parlamento pedir o levantamento da imunidade dum deputado; prender ou deter um ex-primeiro-ministro na manga do aeroporto; escancarar perante as câmaras a residência ou os escritórios de altas figuras públicas; filmar e exibir os preparativos e a entrada de um ex-ministro na prisão; passar o videograma dos interrogatórios no DCIAP; mostrar na TV a apresentação às autoridades por parte do suspeito de crimes de sangue… O espetáculo também aconteceu em Sintra hoje. É óbvio que são públicos o julgamento e a leitura do acórdão, mas não têm de ser espetaculares. O público acedia à Sala por ordem de chegada, devendo ter sido garantido lugar para os observadores da AMI. Mas para quê lugares para representantes dos sindicatos? Só é reservável lugar ao Tribunal e às partes.
2019.05.20 – Louro de Carvalho    

sábado, 12 de janeiro de 2019

No centenário do nascimento de Sophia de Mello Breyner Andresen


Cai, a 6 de novembro, o centenário do nascimento de Sophia de Mello Breyner Andresen, um dos poetas maiores da nossa literatura, quer do lado da poesia integral – ora contemplativa e reflexiva, ora arrebatadora e subversiva –, quer do lado da literatura infanto-juvenil onde o tom poético está vivamente atuante no que tem de inventivo e criativo, na capacidade de ficcionar com total veracidade e no fluir da palavra e da ternura.
O site da revista “Visão” antecipou hoje, dia 12 de janeiro e dia do arranque das comemorações centenárias, o “Guia para bem celebrar Sophia em 2019”, que sigo, embora cotejado com o programa oficial.
Segundo esse instrumento previsional, começaram já este sábado, as celebrações com a subida ao palco do Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, às 16 horas e às 21, de “O Cavaleiro da Dinamarca, um projeto de dança clássica e contemporânea de homenagem aos clássicos infanto-juvenis, de Sophia, publicados entre 1958 e 1985. O libreto do espetáculo dedicado ao cavaleiro dinamarquês em peregrinação à Terra Santa, que “une literatura, dança, música e audiovisual”, é de Paulo Ferreira e Pedro Mateus; a composição musical, de Daniel Schvetz; a cenografia, de José Manuel Castanheira; e a interpretação, dos alunos da Escola Artística de Dança do Conservatório Nacional, com a colaboração da Escola Artística de Música do Conservatório Nacional.
***
Como consta do mencionado guia, as celebrações são preenchidas por espetáculos, colóquios, exposições, leituras, concertos, prémios, filmes – que atravessam vida e obra da poeta contista e lançam pistas para o seu futuro. Segundo a “Visão”, trata-se de celebrar amplamente, “cem anos depois do nascimento desta “poeta” maior (nunca aceitou a designação de poetisa), a 6 de novembro de 1919”, a palavra que professou nos versos do seu poema Creta:Pertenço à raça dos que percorrem o labirinto/sem nunca perderem o fio de linho da palavra”. E isso será concretizado através duma vasta programação que tem início já neste dia 12, mas cujas iniciativas se estendem por todo o país e “contemplam outras artes presentes na ampla esfera de afetos e influências de Sophia, como a dança, a música, as artes plásticas, o cinema, o teatro”.
Ancorada no Centro Nacional de Cultura – em que “a poeta e o marido, o jornalista Francisco Sousa Tavares, assumiram funções de direção no fim da década de 1950, tendo-a transformado numa casa livre e eclética nos tempos difíceis de ditadura” – a Comissão das Comemorações do Centenário de Sophia de Mello Breyner Andresen sustenta, em manifesto, que comemorar Sophia é “lembrá-la em comum” – ideia espoletada pela filha Maria Andresen, poeta e académica que integra a comissão coordenadora com Federico Bertolazzi, Fernando Cabral Martins, Guilherme d’Oliveira Martins e José Manuel dos Santos, que defende a ambição e internacionalização da homenagem, tendo ainda “trunfos por revelar ao longo de 2019”.
A pari, as comemorações contam com um programa criado em torno da “Galeria da Biodiversidade – Centro de Ciência Viva”, no Porto (antiga casa da família Andresen), no Campo Alegre, cujo curador é o maestro Martim Sousa Tavares, o neto mais novo de Sophia, que “procurou criar uma programação geradora de conteúdos novos e inéditos”, com “encomendas criativas que estabelecem pontes entre passado, presente e futuro” e, pode dizer-se também, entre os diversos setores sociais, muito embora sempre do lado dos mais frágeis. E justifica-se o curador frisando que a avó “sempre foi uma pessoa muito generosa com outros criadores e com as gerações mais novas”, pelo que se encontra aqui “uma maneira de ela ser a figura central, ao lado de outros artistas e autores, inspirados a criar pela sua obra”.
***
Assim, as comemorações de Sophia em 2019 passam pelas seguintes vertentes:
Música, dança e teatro
Além do espetáculo a que se fez referência para o dia de hoje, vai ser estreado em maio, no Teatro LU.CA, em Lisboa – e orientado para o público infanto-juvenil –, o conto musical A Menina do Mar, baseado numa das obras mais famosas de Sophia (sobre a amizade possível entre as coisas da terra e as coisas do mar). E está programada uma apresentação especial da peça, sem cenários, mas com uma projeção de ilustrações originais da autoria de Mariana, a Miserável, na antiga Casa Andresen, no dia de nascimento de Sophia. A encenação é de Ricardo Neves-Neves; a direção musical, de Martim Sousa Tavares; a música, de Edward Luiz Ayres d’Abreu; a interpretação, de Catarina Rôlo Salgueiro, Eduardo Breda, Nuno Nolasco, Rafael Gomes e Teresa Coutinho; e a produção, do MPMP (Movimento Patrimonial pela Música Portuguesa), que tem em agenda uma digressão posterior por várias cidades do país: Lisboa, Porto, Braga, Guimarães, Penafiel, Ovar, Coimbra, Aveiro, Lagos, Loulé e Bragança.
Por outro lado, em resultado da parceria entre MPMP e Museu de História Natural e da Ciência da Universidade do Porto, surge o “Prémio Musa”, celebração musical do centenário da poeta – que toma o título de um dos livros de Sophia, Musa – para “distinguir a excelência musical da composição contemporânea de tradição erudita ocidental”. As partituras a concurso (a enviar até 31 de janeiro) deverão partir da poesia da autora de Navegações e ser escritas para coro a capella. O autor premiado pelo júri (composto pelo compositor João Pedro Oliveira e pelos maestros Pedro Teixeira e Martim Sousa Tavares) será contemplado com um prémio pecuniário de €3 mil (que será entregue a 31 de março), com a estreia num concerto coral dedicado a Sophia a realizar-se na Casa Andresen e com a gravação das suas partituras pelo Ensemble MPMP.
A este respeito, declarou Martim Sousa Tavares à “Visão”:
Este prémio toma o título de um dos livros de Sophia, Musa, que está dividido em andamentos como se fosse música. A ideia foi acrescentar corpo de obra ao repertório, francamente bom, de música clássica baseado na poesia da minha avó, em que os compositores têm liberdade para abordar um ou mais poemas seus. É um apelo à criatividade, em que damos espaço a compositores para que possam brilhar a partir desta grande obra.”.
Entre abril e julho, amplia-se a oferta do espetáculo teatral. Martim Sousa Tavares encomendou três peças para crianças a Tatiana Salem Levy e Flávia Lins, inspiradas em três momentos do jardim da antiga casa dos Andresen: o amanhecer, o entardecer e o anoitecer – uma coprodução com o Teatro do Bolhão, com encenação de Anabela Sousa, que oferece uma experiência imersiva nos cenários da família. Além disso, o maestro-curador convidou o compositor Eurico Carrapatoso a criar uma música original para A Noite de Natal, de que resultou uma peça que inclui sons de harpa para aquele conto de 1959.
Para 6 de novembro, a precisa data em que se cumprem cem anos do nascimento de Sophia, destaca-se o Concerto Comemorativo pela Orquestra Sinfónica Portuguesa no Teatro Nacional de São Carlos, em Lisboa, com um programa igualmente inspirado na obra da poeta e que apresentará novos talentos do canto lírico nacional e ao qual se seguirá uma sessão solene. E, como refere Maria Andresen, estão previstas outras iniciativas, como a realização de três dias dedicados a Sophia, uma celebração com espetáculos, palavra e música, incluindo um concerto de Filipe Raposo, no Palácio de Belém; e a reedição em CD de A Menina do Mar, que recupera o disco editado em 1959 com música do maestro Fernando Lopes-Graça e voz de Eunice Munõz, estando ainda em estudo outros projetos de grande fôlego: “um monumento dedicado a Sophia, expandido em azulejo a partir dum cartão feito pela artista plástica Menez com poemas de Sophia, e um grande prémio dedicado às artes”.
Em data a anunciar, realizar-se-á um concerto concebido a partir de obras musicais preferidas de Sophia, pela Orquestra Sinfónica Juvenil bem como o “Lisbon Orchestra – O mundo de Sophia”, em que músicos, atores e diseurs celebram e interpretam a poesia numa viagem à descoberta e reinvenção da palavra dita
Artes plásticas
Neste âmbito, a 25 de janeiro, é inaugurada na Galeria da Biodiversidade Pour ma Sofie, exposição fotográfica e documental inédita de Oxana Ianin, realizada a partir da biblioteca pessoal de Sophia, em que se revela “uma visão sobre 331 livros com dedicatórias de autores tão diversos como Agustina, Eugénio de Andrade, Herberto, Saramago, Torga, Teixeira de Pascoaes, Vinicius de Moraes, Carlos Drummond de Andrade – um espólio inventariado e comissariado por Martim Sousa Tavares e que será objeto de itinerância em Portugal, Brasil e, provavelmente, Grécia.
Outra exposição documental, comissariada por Marina Bairrão Ruivo e Sandra Santos, abre a 15 de maio no Museu Arpad Szenes-Vieira da Silva, em Lisboa: centrada na relação de amizade de Sophia com o casal de pintores, apresenta obras de Vieira e Arpad, quadros hoje presentes nas casas dos filhos da poeta, bem como cartas trocadas entre as amigas Sophia e Vieira.
E, ainda com data a anunciar, perspetiva-se a mostra itinerante Lugares de Sophia, que se propõe apresentar fotografias de António Jorge Silva, Duarte Belo e Pedro Tropa, convidados a produzir uma “interpretação visual da relação poética de Sophia de Mello Breyner Andresen com os lugares, com especial referência à paisagem marítima”.
Colóquios e leituras
São vários colóquios e conferências que terão lugar ao longo do ano. A Fundação Calouste Gulbenkian recebe, a 16 e 17 de maio, para um Colóquio em Lisboa diversos especialistas nacionais e internacionais que discutirão a obra de Sophia, distribuídos por 4 mesas redondas e cerca de 20 comunicações. A 3 de outubro, também o Centro Cultural de Lagos acolherá o colóquio “O Mediterrâneo e o Atlântico em Sophia, dedicado a “O mar, o diálogo com os poetas do Sul, a importância dos contos para crianças e a presença do sagrado na poesia na obra de Sophia. Nos meses de novembro e de dezembro, ocorrerá, na Fundação de Serralves e na Biblioteca Almeida Garrett, no Porto, um ciclo de conferências sobre Sophia e as Artes. Assim, Sophia e a Música, conversa de Pedro Eiras e Álvaro Teixeira Lopes, moderada por Ana Luísa Amaral; Sophia e a Dança, com Carlos Mendes de Sousa e Joana Providência, sob a moderação de Ana Paula Coutinho; Sophia e as Artes Plásticas, debate entre Maria Filomena Molder e Nuno Faria, moderado por Isabel Pires de Lima; Sophia e a Forma, conversa de Maria Irene Ramalho e Teresa Andresen, sob a moderação de Rosa Maria Martelo.
E fora de Portugal, estão previstas outras iniciativas de cariz literário e académico: a 12 de junho, tem lugar um Colóquio internacional em Roma (Biblioteca Nazionale Centrale di Roma – Sala Macchia), com várias gerações de estudiosos da obra de Sophia. Entre 2 e 5 de setembro (quatro dias), o Rio de Janeiro (Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro – Real Gabinete Português de Leitura) receberá o colóquio internacional “Sena & Sophia – Centenários”, dedicado às obras de Jorge de Sena e de Sophia de Mello Breyner Andresen – amigos que mantiveram longa relação epistolar em que “literatura, política e afetos se cosiam entre linhas”. Organizado por Gilda Santos, Eucanãa Ferraz, Luci Ruas e Teresa Cerdeira, o encontro será acompanhado por recitais de poemas, exibição de filmes, concurso de ensaios e lançamento de livros.
Cinema e edições
Integram a programação do centenário a palavra dita e os filmes. Estão previstos ciclos de cinema relacionados com a vida e obra de Sophia, nomeadamente na Cinemateca Portuguesa, sob a escolha de Maria Andresen, Margarida Gil, Rita Azevedo Gomes, José Manuel Costa e Manuel Mozos: uma seleção de filmes sobre a poeta, a que se juntam obras que refletem os seus gostos pessoais. À espera de aprovação estão os projetos cinematográficos dedicados a Sophia dos realizadores Margarida Gil, que planeia a adaptação cinematográfica de A Viagem, por si definido como “um conto que condensa toda a poesia de Sophia em prosa”, e Manuel Mozos, que prepara o documentário Sophia.
Quanto à palavra dita, os Poetas do Povo realizam 4 sessões: O Mar de Sophia (21 de janeiro), Sophia: Liberdade (25 de março), Sophia: A Poesia das Ilhas (24 de junho) e Sophia e os Clássicos (23 de setembro), no Povo-Lisboa, ao Cais do Sodré, em Lisboa. As celebrações continuam a 21 de março, Dia Mundial da Poesia: várias figuras declamarão poemas de Sophia no “Menina e Moça Livraria Bar”, com acompanhamento musical, exibição de imagens e uma instalação criada com versos da autora. E, no espírito da efeméride, o CCB homenageará a autora de Livro Sexto com um programa coordenado por José Manuel dos Santos: feira do livro, leituras, conferências e programação para os mais novos, a partir das 14 horas.
Por fim, em datas ainda a anunciar, o coletivo Lisbon Poetry Orchestra apresentará o espetáculo multimédia O Mundo de Sophia, contando com as vozes dos atores André Gago e Miguel Borges e dos declamadores Nuno Miguel Guedes e Paula Cortes, e ainda com o quarteto de cordas Naked Lunch. E está prevista a edição de um livro/CD.
E, para completar a celebração do Centenário de Sophia 2019, surgirá a publicação de vários livros dedicados à obra da autora: o volume sobre a Antiguidade Clássica, coordenado e organizado por Maria Andresen, e prefaciado por José Pedro Serra, que reúne essa obra de Sophia há muito esgotada, O Nu na Antiguidade Clássica, a uma antologia de poemas seus sobre Grécia e Roma (edição Assírio & Alvim); e um livro com a “prosa ficcional” de Sophia, coordenado por Carlos Mendes de Sousa, uma seleção de prosas dispersas (englobando intervenções em jornais, entrevistas, críticas e ensaios) organizada por Federico Bertolazzi; e uma antologia de poemas bilingue com tradução de Richard Zenith.
***
Um programa ambicioso, diversificado e rico avivará certamente a memória coletiva em torno da poeta e lutadora e contribuirá para a assunção dos valores da liberdade, da criatividade, da fruição e da solidariedade numa perspetiva genuinamente humanista aliando o melhor do classicismo com o melhor da pós-modernidade.
2019.01.12 – Louro de Carvalho

quinta-feira, 28 de junho de 2018

O assalto à carteira dos contribuintes é no mínimo negligência grosseira


Iniciou-se ontem, dia 27, como previsto, a primeira audição da comissão parlamentar de inquérito (CPI) às rendas da energia na tarefa de ouvir 100 personalidades e mais 17 entidades, abrangendo os governos de Durão Barroso a António Costa, cujos depoimentos serão feitos na “fita do tempo”, começando, assim, em 2004. E começou por ser ouvido o professor Pedro Miguel Sampaio Nunes, um dos cinco especialistas convocados, a que acrescem João Peças, Mira Amaral, Clemente Nunes e David Newbery.
Maria das Mercês Borges, do PSD e presidente desta CPI adiantou, a 14 de junho, que se vai “tentar preencher o mais possível todas as disponibilidades” que tem até ao final da presente sessão legislativa e que “seria um bom número” se conseguisse fazer 20 audições neste período.
Entre os nomes chamados, à CPI destacam-se Manuel Pinho e Ricardo Salgado, que estão no centro do caso depois de o antigo banqueiro ter sido constituído arguido, suspeito de ter pago mais de um milhão de euros a Pinho para que o Governo favorecesse a EDP, de quem o BES era acionista. Além destes, prestarão depoimento no Parlamento dos CMEC (Custos de Manutenção do Equilíbrio Contratual) José Sócrates, Santana Lopes, Álvaro Barreto, Carlos Tavares, Henrique Gomes, João Talone, António Mexia, João Manso Neto, João Conceição e Rui Cartaxo.
O objeto da comissão é determinar “a dimensão dos pagamentos realizados e a realizar” no âmbito dos CMEC e o efeito sobre os custos do sistema elétrico produzido pelas alterações legislativas e atos administrativos realizados no âmbito dos CMEC e dos CAE (Contratos de Aquisição de Energia). Analisará ainda as condições da tomada de decisões governativas, designadamente, face a estudos e pareceres de entidades reguladoras, ERSE (Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos) e AdC (Autoridade da Concorrência), e a existência de falha comportamental de relevo ou omissão no cumprimento das obrigações dos serviços e entidades reguladoras.
Desde a sua entrada em vigor, em 2007, e até 2017, os CMEC representaram um custo de 2.500 milhões de euros para os consumidores de eletricidade. Em setembro do ano passado, a ERSE propôs que o valor a pagar à EDP ao longo dos próximos 10 anos seja de 829 milhões de euros, equivalente a 82,9 milhões de euros por ano. Esse montante é inferior em 167,1 milhões, por ano, relativamente às rendas de 250 milhões que a EDP recebeu anualmente na última década.
***
Isto foi o que sucedeu. Agora, veja-se um juízo de valor lançado sobre os factos.
O especialista em energia, ouvido ontem, considera que o pagamento dos CMEC às produtoras de eletricidade viola princípios da legislação europeia, constituindo “uma flagrante e massiva infração das regras previstas no tratado europeu em matéria de concorrência”.
Tendo sido um dos autores da denúncia junto da Comissão Europeia, em 2012, sobre a extensão do prazo de concessão das barragens da EDP em 2007, sem concurso público, o especialista foi diretor daquela Comissão para a Energia, entre 2000 e 2003 (pelo que deu contributo à elaboração da legislação que liberalizou o mercado da eletricidade), e Secretário de Estado da Ciência e Inovação no Governo de Santana Lopes. Ora, logo na sua intervenção inicial de ontem, Sampaio Nunes deixou duras críticas a este sistema de rendas pagas às produtoras, referindo:
Trabalhei durante muito tempo na Comissão Europeia, responsável por esta área, onde iniciámos o processo de colocação em concorrência do setor do gás e da energia, com o objetivo de beneficiar os consumidores. É com grande tristeza que vejo que, no meu país, esse processo é subvertido e, em vez de serem beneficiados, os consumidores são prejudicados.”.
E, apontando a diferença de preços da energia entre Portugal e Europa, criticando a disparidade, questionou como, num contexto de descida da matéria-prima e das tecnologias, os preços em Portugal cresceram muito acima da média europeia. Mas deu a resposta:
É a mistura explosiva entre rendas que são dadas ilegalmente a título de CMEC, as rendas que são dadas a título duvidoso de CAE e um apoio muito massificado a energias renováveis”.
Isto, sem contar com a dívida tarifária, que atualmente ascende a 3.600 milhões de euros. Com efeito, é também esse quase o valor já pago a título de CMEC às produtoras de eletricidade. Desde 2007 e até hoje, os contribuintes pagaram 3.163 milhões em CMEC. E explicou:
O valor dos CMEC pago até hoje é muito próximo do valor da dívida tarifária, o que significa que estivemos a colocar uma dívida em cima dos consumidores, sobretudo os mais frágeis, que corresponde exatamente aos subsídios que demos às produtoras, em cima dos lucros. Isto é profundamente anormal e merece uma análise jurídica cuidadosa. […] Se lermos a metodologia que a Comissão Europeia produziu, tudo o que ali é enunciado como princípio é violado por Portugal.”.
A pari, acusa sem papas na língua a Comissão Europeia de “complacência e conivência” no processo dos CMEC, sobretudo pelas “visões tão contraditórias, tão pouco claras”. E diz:
A Comissão Europeia tem um comportamento um pouco cíclico. Depende da força do colégio, quando bate o pé ou quando não bate o pé aos Estados membros. Mas a Comissão tem larguíssimos poderes em termos de concorrência e tem de ser extremamente rigorosa na forma como os aplica.”.
Por isso, apela à CPI a que envie o processo para o Tribunal de Justiça da União Europeia, que pode “pronunciar-se sobre este facto duma forma definitiva e sem recurso”, para se perceber porque é que a Comissão Europeia tem visões tão contraditórias, tão pouco claras”, neste caso, dado que a atribuição destas “rendas ilegais” é “uma situação que brada aos céus e que não encontra paralelo em nenhum outro setor da economia”.
***
Era bom, em meu entender, que isto tivesse sido dito alto e bom som já em 2004 e, depois, em 2007. Por onde andavam os jornalistas e as oposições políticas?
A postura de falar em tempo não útil é bem recorrente. Tantos casos poderiam ser mencionados. Recordo, a título de exemplo, o dum Conselheiro do TdC (Tribunal de Contas) que publicou, após a jubilação, um livro a demonstrar como o Estado esbanja o dinheiro dos contribuintes; e recentemente o do próprio TdC que vem criticar a ineficiência da reversão da privatização da TAP, dando “uma no cravo, outra na ferradura”, como fizera em tempos sobre a “Parque Escolar, EPE” – e sem solicitar a promoção de inquérito para que se fizesse justiça. Até um antigo Presidente da República acusou a posteriori de falta de lealdade institucional um seu antigo primeiro-ministro.
Quanto à postura pouco clara, ambígua, contraditória, e pressões indevidas da Comissão Europeia e da sua Direção-Geral da Concorrência (DGcomp), bem como do BCE, atente-se no que se passou com a resolução do BES e a pressão para a venda do Novo Banco ou a obrigatoriedade de venda do Banif e do Banco Popular (este por um euro) ao Banco Santander. Claro, quem acaba por pagar tudo é o acionista enganado, o cliente, o contribuinte.
Isto para não falarmos do custo de oportunidade ou do “roubo”, no primeiro caso, através das tabelas mensais de retenção na fonte para IRS e do pagamento por conta, e, no segundo, pela duplicação de imposto IA+IVA sobre a venda/compra de automóvel e duplicação de imposto ISP+IVA na venda/compra dos produtos petrolíferos e pela taxa do audiovisual na fatura da eletricidade mesmo para quem paga serviço de televisão por cabo ou wireless.
***
Por outro lado, somos quase diariamente confrontados com informação dos contratos swap e das PPP (Parcerias Público-Privadas), sobretudo na rodovia, e respetivos custos, em que era preciso tudo correr muito bem para o Estado não sair defraudado da cilada, vindo posteriormente a integrar governos alguns dos responsáveis técnicos. E quem não se lembra das declarações a posteriori do que então era Ministro das Obras Públicas sobre os custos da construção do Centro Cultural de Belém para receber, pela primeira vez em Portugal, a presidência europeia rotativa? Questionado, quando já era presidente da Luso-Ponte, sobre a derrapagem orçamental de então, disse que naquela altura não se fizera um orçamento, mas uma estimativa. E o que por aí vai sobre atividade na administração central e, sobretudo em termos proporcionais, na gestão autárquica, em função de interesses particulares? E, se falarmos em falta de inspeção, auditoria e fiscalização? É de questionar como se deixam andar anos e anos casos, por exemplo, de fraude fiscal, de negócios em medicamentos.
***
E não posso deixar de fazer reparo à administração da Justiça, em que todos dizem confiar, quando ela é lenta, se torna complexa e, sobretudo, quando se faz espetáculo ou quando caprichosamente não se deixam anexar no processo meios de prova supervenientes ou alegadamente redundantes.
Detêm-se presumíveis arguidos frente a câmaras televisivas no Parlamento ou na manga do aeroporto; investigam-se instalações residenciais ou escritórios frente à comunicação social; dão-se entrevistas, falando de tudo e de todos, mas confessando que não se fala de processos em concreto; deixam-se passar para a comunicação social informação sobre processos, incluindo excertos de interrogatórios mesmo videogravados. E não se investiga eficazmente o atropelo ao segredo de justiça e, consequentemente, os prevaricadores não podem ser punidos.  
Depois, se a acusação aos arguidos não é deduzida ou o é de forma não sustentada, só temos que esperar o momento certo para os contribuintes serem notificados para pagarem a conta. É o Estado que paga – fico horrorizado com os processos intentados contra o Estado (Até os de objetor de consciência!) –, mas o Estado com o seu verbo convincente vai sempre buscar as verbas aos contribuintes através de contribuições, impostos, taxas, tarifas, emolumentos, vinhetas, etc. ou até de cortes salariais ou em subsídios. Ora, se aplicasse bem as verbas e tivesse verbo contido…
As indemnizações por erros processuais não são nada raras. E, recentemente, tivemos a sancionada pelo TEDH em relação a Paulo Pedroso. Virá aí alguma, a seu tempo, para Carlos Cruz? E porque não para Sócrates, Pinho, Salgado, Vara ou Oliveira e Costa?
Por fim, voltando à CPI, pergunto-me quais as consequências práticas dos inquéritos parlamentares havidos até hoje? Ganhou-se em informação sobre responsabilidades e responsáveis? Houve consequências significativas no foro judicial?
Nada se deslindou por via das CPI sobre Camarate; o caso BPN, apesar do trabalho insano dos deputados, não passou de uma paródia; nada se concluiu de prático sobre o caso GES, ressaltando pouco mais que o zeinal-bavismo crasso; um relatório sobre Domingues e CGD não mereceu aprovação final; e pouco mais.
É mesmo de questionar se fará sentido desenvolver-se um inquérito parlamentar sobre matérias que deviam andar pela alçada da Justiça. Porém, como a discussão é livre e os deputados têm uma palavra a dizer, seja. Mas então não se insista muito, a propósito destes casos, na independência ou separação dos poderes.
2018.06.28 – Louro de Carvalho

sexta-feira, 6 de abril de 2018

Andrea Bocelli em Fátima para Recital de Ação de Graças pelo Centenário


No próximo dia 13 de maio, pelas 16 horas, a Basílica da Santíssima Trindade acolherá um recital de Andrea Bocelli em ação de graças pelo Centenário de Fátima.
Segundo a nota emitida pela Sala de Imprensa do Santuário, “um ano depois de Fátima se ter despedido do Papa Francisco, após a canonização de Francisco e Jacinta Marto, momento que emocionou Portugal e o mundo cristão e selou as celebrações do Centenário das Aparições, o tenor italiano, um dos artistas mais apreciados em todo o mundo, visitará Fátima brindando os peregrinos com a sua música”.
Ou, segundo o site do próprio Bocelli:
Após a grande celebração do Centenário das Aparições de Fátima, cujo auge ocorreu em maio de 2017 com a visita do Papa Francisco a Fátima, como peregrino entre os peregrinos, e com a canonização dos Pastorinhos Francisco e Jacinta Marto, aceitou o Santuário de Fátima a oferta da Dançar Marketing e do Colégio Vértice, em Ação de Graças pelo Centenário de Fátima, de um recital pela voz do tenor italiano Andrea Bocelli e com a participação especial da cantora portuguesa Ana Moura, ambos de renome internacional”.
O artista far-se-á acompanhar pela pianista francesa Elisabeth Sombart e pela violinista ucraniana Anastasyia Petryshak, sob a já habitual direção musical de Carlo Bernini. Entre o repertório, composto por 11 temas, está o Ave de Fátima, interpretado por uma convidada de Andrea Bocelli, a fadista portuguesa Ana Moura, no que será um dos momentos mais altos deste recital, especialmente voltado para a interpretação de música sacra.
Andrea Bocelli, que conseguiu fazer do bel canto um dos géneros mais ouvidos em todo o mundo, com êxitos tão importantes como “Con te Partirò”, interpretará “Meditation”, de Jules Massenet; Pietà Signore”, de Alessandro Stradella; “Sancta Maria”, de Pietro Mascagni; “Panis Angelicus”, de Cesar Frank; “Mission”, de Ennio Morricone; “Ave Maria”, de Giulio Caccini; “Ave Maria”, de Charles Gounod;Corale” in Fa minore, de J. S. Bach; Ave Maria”, de Franz Schubert; “Agnus Dei”, de Georges Bizet; “Ave Maria di Fatima”, Anonimo (com Ana Moura); e “Domine Deus”, Gioachino Rossini.
Com uma das melhores vozes de todos os tempos, Bocelli assumiu-se como um prodígio nos anos 90, com mais de 90 milhões de discos vendidos em todo o mundo. Ao aliar a gloriosa tradição do bel canto à sensibilidade e à estética da música moderna, conquista o coração e a alma do público, sem nunca sacrificar a integridade da sua arte. Com dez óperas gravadas – de Werther a Carmen passando por Romeu e Julieta e La Tosca – e vários álbuns de música popular, já venceu cinco BRIT Awards e três Grammy Awards, além de ter realizado vários concertos em espaços icónicos como o Santuário da Aparecida, no Brasil, ou a Praça de São Pedro, onde cantou para o Papa Francisco, em 2015, Amazing Grace, durante o encontro que celebrou os 50 anos de ecumenismo na Igreja Católica.
O recital, patrocinado pela empresa brasileira Dançar Marketing e pelo Colégio Vértice, é uma oferta ao Santuário de Fátima e, consequentemente, aos seus peregrinos, proporcionando um momento de ação de graças pelo Centenário das Aparições, através da música, que é uma das formas mais sublimes de oração.
Há 35 anos que a empresa reúne milhões de espectadores nos seus incontáveis espetáculos, projetos sociais, reunindo no seu portefólio a produção de grandes tournées internacionais de artistas emblemáticos como Sarah Brightman, George Benson, Diana Krall, Chris Cornell, Jeff Beck, Richie Sambora, entre outros.
A entrada é gratuita, mas sujeita à aquisição de um título de ingresso. E sabe-se que, devido à elevada procura de ingressos, nesta fase não há lugares disponíveis.
***
Em termos biográficos, ressalta que Andrea Bocelli nasceu na cidade de Lajatico em 1958. Filho de Alessandro e Edi Bocelli cresceu na fazenda da família a cerca de 40 km da cidade de Pisa. Aos 6 anos de idade, iniciou a frequência de aulas de piano a que se seguiram as de flauta, saxofone, trompete, harpa, violão e bateria. Mas nasceu com glaucoma congénito que o deixou parcialmente cego e, aos 12 anos, numa partida de futebol levou um golpe na cabeça que fez com que a cegueira fosse total. Mas, além de cantor, é um bom poli-instrumentista.
Na infância, tocava órgão na igreja próxima da sua casa, aonde ia todos os domingos com a avó. E foi com essa idade que venceu o prémio Margherita d'Oro, em Viareggio, com a canção “O Sole Mio”, conseguindo a primeira vitória numa competição musical. E, a pós a conclusão do ensino médio, em 1980, foi para a Universidade de Pisa, onde mais tarde foi graduado em Direito. Depois de trabalhar como advogado durante um ano, teve aulas de canto com o maestro Luciano Bettarini, passando a dedicar-se a tempo integral à música. E nunca parou o treinamento vocal, aprendendo master classes com o renomado tenor Franco Corelli, em Turim.
Em 1992, o astro do rock italiano Zucchero Fornaciari testou Andrea enquanto procurava tenores  para um dueto com ele no canto “Miserere”. Ao ouvir a gravação, o tenor Luciano Pavarotti implorou a Zucchero para usar Andrea em sua vez. Enfim, a música foi gravada com Pavarotti, mas Andrea Bocelli acompanhou Zucchero no périplo europeu.
Em 1994, participou no Festival de San Remo (Festival da canção italiana), ganhando o evento com a canção “Il mare calmo della sera”, que o alçou ao primeiro disco de ouro. No mesmo ano, estreou na ópera “Macbeth”, de Giuseppe Verdi, com o papel de Macduff; cantou no concerto de beneficência de Pavarotti em Modena; e apresentou-se ante o Papa João Paulo II no Natal. Em 1995, a sua canção “Con te partirò” ficou em 4.º lugar no Festival de San Remo.
O seu ídolo de infância era Eusébio da Silva Ferreira, jogador de futebol português. Mas, quando Andrea se tornou famoso, foi Eusébio que o quis conhecer e as posições trocaram-se.
***
No âmbito da carreira profissional e artística, salientam-se os seguintes dados:
Em 1996, cantou com a soprano inglesa Sarah Brightman uma versão em dueto de “Con te partirò”, com alteração do título para “Time to Say Goodbye” (“Hora de Dizer Adeus”), que bateu recordes de vendas e ficou no topo das dez canções mais tocadas no mundo durante quase 6 meses. Nos anos seguintes, Andrea apresentou-se em Paris, Bologna, Torre de Lago e Vaticano. Lançou mais álbuns até entrar no mercado americano com um concerto no “John F. Kennedy Center for the Performing Arts”, em Wasshington D.C., e uma receção na Casa Branca. Naquele ano e em 1999, Andrea partiu em digressão pela América do Norte e América do Sul e fez duetos com Céline Dion, além de participar na primeira ópera totalmente transmitida ao vivo pela Internet da “Detroit Opera House” (“Ópera de Detroit), com Dency Graves.
Como vencedor do Festival de San Remo, Bocelli foi convidado a retornar no ano seguinte. Competindo com Con te partirò, o tenor ficou em 4.º lugar. A canção foi incluída no seu 2.º álbum de estúdio Bocelli, produzido por Mauro Malavasi e lançado em novembro de 1995. Na Bélgica, “Con te partirò” tornou-se o single mais vendido de todos os tempos e tornou-se a sua canção-assinatura que nunca pode faltar em shows.
O seu 3.º álbum, Viaggio Italiano, foi lançado na Itália em 1996. Bocelli foi convidado para um dueto com a soprano inglesa Sarah Brightman a canção “Con te partirò” na última partida do boxeador Henry. Brightman conhecera Bocelli após ouvi-lo cantar a canção num restaurante. Com o título da canção alterado para “Time to Say Goodbye”, os cantores gravaram-na com membros da Orquestra Sinfónica de Londres. O single despontou nas paradas musicais da Alemanha, onde permaneceu em 1.º lugar durante 14 semanas. Com as vendas a aproximarem-se dos milhões de cópias e um certificado de platina sêxtuplo, “Time to Say Goodbye” tornou-se a canção de maior sucesso do artista. Mas Bocelli também liderou as paradas da Espanha em 1996 com a canção “Vivo por Ella” (um dueto com Marta Sánchez). Em 1998, foi lançada a versão portuguesa com a cantora brasileira Sandy, intitulada em português “Vivo por Ela”.
No mesmo ano, Bocelli gravou “Je vis pour ele”, a versão francesa de “Vivo per lei”, em dueto com a cantora francesa Hélène Ségara. Lançada em dezembro de 1997, a canção tornou-se um sucesso de vendas na Bélgica e na França, onde atingiu a primeira colocação nas paradas musicais. A partir de então, a canção passou a ser o maior recorde de vendas de Ségara e o segundo maior de Bocelli, depois de “Time to Say Goodbye”. Em março do mesmo ano, Bocelli e Brightman receberam o Prémio ECHO de “Melhor Single do Ano”.
No verão de 1997, Bocelli realizou uma série de 22 concertos a céu aberto pela Alemanha e um concerto fechado em Oberhausen. Em setembro, apresentou-se na Piazza dei Cavalieri, em Pisa, para a gravação de “A Night in Tuscany”, com a participação especial de Nuccia Focile, Sarah Brightman e Zucchero. O concerto foi também a primeira apresentação clássica televisionada do artista, tendo sido transmitida pela PBS. Em 14 de setembro, em Munique, Bocelli recebeu o Prémio ECHO de “Álbum Mais Vendido do Ano” por “Viaggio Italiano.
Estreou nas gravações de ópera em 1998, ao interpretar Rodolfo numa produção de La bohème em Cagliari. O seu 5.º álbum, Aria: The Opera Album, foi lançando em março. A 19 de abril, fez a sua estreia em solo estadunidense com um concerto no John F. Kennedy Center, em  Washington D.C., seguido duma receção na Casa Branca pelo Presidente Bill Clinton. Em maio, em Monte-Carlo, recebeu o World Music Awards nas categorias “Melhor Artista Italiano” e “Melhor Performance Clássica”. Também foi listado entre as “50 Pessoas mais bonitas de 1998” pela revista People. Entre junho e agosto, Bocelli realizou uma digressão pelo continente americano. Em setembro, recebeu o seu segundo Prémio ECHO Klassik, desta vez na categoria “Álbum Clássico Mais Vendido”, por Aria: The Opera Album. Na noite de Ação de Graças, foi convidado especial de Céline Dion durante o especial televisivo These Are Special Times, em que executaram o dueto “The Prayer” e “Ave Maria”, que foi incluído no álbum de Dion, These Are Special Times, lançado no mesmo ano, e integrou a trilha sonora da animação Quest for Camelot. A canção foi relançada no álbum Sogno, de Bocelli.
No 56.º Globo de Ouro, a canção “The Prayer” venceu o prémio na categoria “Melhor Canção Original”. No Grammy Awards, Bocelli foi indicado na categoria Best New Artist (“Artista Revelação”), mas a cantora estadunidense Lauryn Hill venceu a disputa. Bocelli e Dion realizaram uma performance da canção durante a cerimónia. A canção também foi indicada ao Óscar de Melhor Canção Original.
Na Itália, Bocelli participou em Florença num encontro de chefes de Estado de centro-direita. Em 29 de novembro de 1998, convidado pela Rainha Isabel II, cantou em  Birmingham. A 30 de novembro, lançou a sua autobiografia, intitulada La musica del silenzio. E, em dezembro, realizou uma série de concertos – em Barcelona, Estrasburgo, Lisboa, Budapeste e Messina – alguns dos quais foram televisionados internacionalmente. E o tenor sobressaiu na televisão alemã, no programa “Wetten, dass…?Wetten, dass..?. Pouco depois, participou num concerto de José Carreras em Leipzig. Em 31 de dezembro, fechou uma série de 24 concertos com uma apresentação de Ano Novo no Nassau Veterans Memorial Coliseum, em Nova Iorque.
***
No âmbito da projeção internacional, começa-se por referir que gravou em 1997 com a cantora brasileira Sandy a canção “Vivo por Ela”, música que foi muito executada nas rádios do Brasil.
Em 2002, Andrea repetiu a digressão pela América, ganhando dois “Worlde Music Awards”. E, desde então, continuou a carreira com aparições em concertos no mundo inteiro, cantando inclusive durante o All-Star Weekend da NBA de 2006 em Houston Texas. Cantou “Because We Believe” (“Porque Nós Acreditamos”), do seu álbum Amore (lançado em 2006), na cerimónia de encerramento dos Jogos Olímpicos de Inverno de 2006 em Turim, Itália.
Em 2006, trabalhou com os 6 finalistas do programa de televisão American Idol, ajudando-os a cantar as canções a teor do tema da semana: “classic love songs” (músicas românticas clássicas).
Em 2016, foi indicado ao Grammy Latino de Gravação do Ano por sua canção “Me Faltarás”.
Para 13 de maio de 2018, foi anunciada a sua presença no predito recital especial em Fátima, para ação de graças pelo centenário das aparições de Nossa Senhora na Cova da Iria.
***
Quanto à intervenção em eventos sociais e humanitários, deve dizer-se que Andrea Bocelli tem participado em inúmeros eventos de caridade e várias ocasiões similares em todo o mundo, como uma apresentação no local das ruínas do World Trade Center, o Ground Zero, em outubro de 2001. Participou em várias edições do projeto “Pavarotti & Friends” (Pavarotti e Amigos, no Brasil), liderado pelo amigo pessoal Luciano Pavarotti, e nos concertos para a Fundação ARPA (é seu presidente honorário). Em 2004, participou no concerto de Sharon Osbourne para angariação de fundos para as vítimas do Tsunami de 2004 e, no ano seguinte, protagonizou um concerto televisivo intitulado “Music for Asia”.
***
Não se limitando a cantar, Bocelli contribuiu para vários trabalhos escritos, incluindo um pequeno texto sobre  a amizade em compilação de Doris S. Platt e o prefácio e um capítulo-entrevista para um livro italiano sobre guarda conjunta. E escreveu a referida autobiografia: La musica del silenzio (A música do silêncio), publicada em 1999. A tradução inglesa foi lançada no ano seguinte, com o título Andrea Bocelli: The Autobiography (Andrea Bocelli: A Autobiografia).
***
O recital será uma boa maneira de o Santuário honrar o seu compromisso cultural com os peregrinos e com a sociedade. Depois do arrojado programa centenário, tudo se espera do Santuário da Cova da Iria: evangelização, sacramentos, vida intensa de piedade, atenção ao povo, cultura, ciência, arte e, sobretudo, atenção aos mais fragilizados e contributo para a estruturação da justiça social.
2018.04.06 – Louro de Carvalho