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domingo, 21 de julho de 2019

Uma liturgia marcada pelo valor da hospitalidade



O Evangelho do 16.º domingo do Tempo comum no Ano C (Lc 10,38-42) situa-nos na caminhada de Jesus com os discípulos para Jerusalém (9,51-19,27), onde vai viver os últimos acontecimentos da Sua passagem pela terra. Durante o percurso, alojou-se em casa de amigos e pessoas bem conhecidas. Desta feita, visita a casa das discípulas Marta e Maria, que viviam em Betânia com o irmão Lázaro (cf Jo 11).  
O episódio da perícopa em referência integra uma estrutura quiástica com a anterior (Lc 10, 25-37): Palavra de Deus sobre a caridade (amor a Deus e ao próximo); prática espelhada na parábola do samaritano; relato da preocupação de Marta para com o próximo; e Palavra de Cristo sobre a necessidade primária da fé para o cristão. Quer dizer que a prática cristã só tem sentido se estiver ensanduichada pela fé e pelo amor, que se quer não interesseiro, lúcido, afetivo e efetivo.
O nome “Marta”, sendo a forma feminina de “marêh” (senhor) significa “senhora”; e Maria aqui não é a de Magdala, mas a que se identifica no 4.º Evangelho (Jo 1,1ss; 12,1-11), pois a descrição destas irmãs assim o leva a inferir. A evocação da viagem, do caminho (en dè tô poreúesthai autoús) neste episódio é de caráter estilístico, pois, do ponto de vista lucano, Jesus ainda não está em Betânia, onde residem as duas irmãs. Marta andava muito atarefada, pois era provável que no encalço de Jesus chegassem mais hóspedes. “Só é necessária uma coisa” – reza o texto atual, o que não é concorde com a tradição manuscrita: Só umas poucas coisas são necessárias, mas certamente só uma, referem alguns manuscritos, enquanto outros rezam Só umas poucas coisas são necessárias (os mais antigos) e outros, Só uma coisa é necessária. Enquanto a segunda versão manuscrita parece indicar que são precisas apenas algumas coisas sobre a mesa para comer, pois estamos no contexto dum banquete, a terceira aponta para a necessidade de algo mais espiritual, sendo que a primeira congraça as duas hipóteses de insinuação.   
Marta, que recebe Jesus, preocupa-se em acolhê-lo e oferecer-lhe uma generosa hospitalidade, enquanto Maria, sentada aos pés do Senhor, na posição e atitude de discípula (8,35; At 22,3), o escutava. Marta, envolvida pelas ocupações quotidianas, reclama com o Mestre, mas é advertida afetuosamente: “Marta, Marta! Tu ocupas-te com muitas coisas, porém uma só é necessária. Maria, ao escutar a palavra, manifesta em Jesus, escolhe a melhor parte que não lhe será tirada. A escolha do único necessário que é Cristo, Amor e Verdade do Pai, assegura o bom êxito do serviço, da diakonia cristã. Aos pés do Senhor, Maria aprende a escuta e ação em consonância com o projeto de vida e salvação. E revela-se aqui o caminho do discipulado caraterizado pela fidelidade à palavra: Felizes os que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática (11,28). Alicerçadas na Palavra, contemplação e ação tornam-se dimensões complementares ao serviço do Reino. O encontro com a Palavra torna fecundo o serviço generoso e compassivo ao próximo. Sem a disposição para escutar o Mestre, corre-se o risco de escolher a parte menos boa, arriscando o desvio do caminho do Reino de Deus.
Marta aparece como dona de casa diligente, ativa, preocupada em bem receber os hóspedes. Sente que nem tudo será perfeito, que precisa de ajuda. Intervém junto de Jesus enquanto Ele fala, pedindo que mande Maria a ajudá-la. Mostra-se agastada por lhe parecer, talvez injusto, que todo o trabalho recaia sobre ela e que Maria seja dispensada dele.
A resposta de Jesus é bastante misteriosa: Marta, Marta andas inquieta e agitada. Uma só coisa é necessária … Maria escolheu a melhor parte que não lhe será tirada. Jesus censura a inquietação e a agitação de Marta, que faz muitas coisas ao mesmo tempo; a preocupação de bem receber o seu hóspede domina tudo o resto, quando o importante já não é receber bem o Senhor, mas fazer com que a receção seja um êxito. Marta, invadida pelas preocupações acaba por inverter o valor e a importância das coisas. O zelo tinha-a levado longe de mais: o que era acessório tomara o lugar do essencial.
Há, no texto, um pormenor relevante, o da “posição” de Maria: “sentada aos pés de Jesus”. É a posição típica do discípulo diante do mestre (cf Lc 8,35; At 22,3). É situação surpreendente num contexto sociológico em que as mulheres tinham um estatuto de subalternidade e viam limitados alguns direitos religiosos e sociais; por isso, nenhum “rabbi” da época se dignava aceitar uma mulher no grupo dos discípulos que se sentavam aos seus pés para escutar as suas lições. Lucas (que procura dizer que Jesus veio libertar e salvar os que eram oprimidos e escravizados, nomeadamente as mulheres) mostra, neste episódio, que Jesus não faz qualquer discriminação: o facto decisivo para ser seu discípulo é estar disposto a escutar a sua Palavra.
Não raro, o episódio foi lido em chave de oposição entre ação e contemplação; no entanto, não é isso que está em causa. Lucas não está, nesta catequese, a explicar que a vida contemplativa é superior à vida ativa; está é a dizer que a escuta da Palavra de Jesus é o mais importante para a vida do crente, pois é o ponto de partida da caminhada da fé. Isto não significa que “fazer coisas”, “servir os irmãos” não seja importante; mas significa que tudo deve partir da escuta da Palavra, pois é essa escuta que nos projeta para os outros e nos faz perceber o que Deus espera de nós. Assim, a experiência de Marta é preciosa, pois é um aviso salutar para nós, que não devemos confundir os fins com os meios nem pôr estes acima daqueles. Um único fim é importante: servir o Senhor e não servirmo-nos do dele para as nossas ambições ou desejos pessoais. O próprio serviço do Senhor pode contribuir para isso se não estivermos atentos.
Quantas vezes, até quando nos empenhamos nas obras de apostolado (catequese, liturgia, pastoral social, pastoral familiar, acolhimento, etc.) não nos procuramos mais a nós próprios, ao nosso êxito pessoal do que propriamente a servir os outros ou a Deus!
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A 1.ª leitura (Gn 18,1-10a) apresenta o acolhimento de Abraão e Sara aos três visitantes, que manifestam a salvação de Deus. A hospitalidade, oferecida pelos pais da fé, é recompensada pela promessa de um filho, o maior desejo de Abraão.
Os capítulos 12-36 do Génesis são textos sem grande unidade e sem caráter de documento histórico ou de reportagem jornalística. Estamos ante uma mistura de “mitos de origem” (narravam a chegada dum “fundador” a um determinado local e a tomada de posse daquela terra), de “lendas cultuais” (relatavam como um deus qualquer apareceu em determinado local a um desses “fundadores” e como esse lugar se tornou um local de culto) e de relatos onde se expressa a realidade da vida nómada durante o 2.º milénio antes de Cristo. Na origem do texto em referência estará uma antiga “lenda cultual” que narrava como três figuras divinas terão aparecido a um cananeu anónimo junto do carvalho de Mambré (perto de Hebron), como o cananeu os acolhera na sua tenda e como fora recompensado com um filho pelos deuses (Mambré era um santuário cananeu, já no terceiro milénio a.C., antes de Abraão aí ter chegado). Mais tarde, quando Abraão ali se estabeleceu, a lenda cananeia foi-lhe aplicada e ele passou a ser o herói desse encontro com as figuras divinas.
No séc. X a.C. (reinado de Salomão), os autores jahwistas recuperaram essa velha lenda para apresentarem a sua catequese. No estado atual do texto, a personagem central é Abraão, a figura que os catequistas jahwistas apresentam aos israelitas da época de Salomão, como um modelo de vida e de fé.
Abraão está “sentado à entrada da tenda, na hora de maior calor do dia”. De súbito, aparecem três homens diante de Abraão, que os convida a entrar, não se limitando a trazer-lhes água para lavar os pés, mas improvisando um banquete com pão recém-cozido, um vitelo “tenro e bom” do rebanho, manteiga e leite. Depois, fica de pé junto deles, na atitude do servo vigilante para que nada falte aos convidados: é a lendária hospitalidade nómada no seu melhor. Abraão surge como o modelo do homem íntegro, humano, bondoso, misericordioso, atento a quem passa e disposto a repartir com ele, de forma gratuita, o que tem de melhor.
Terminada a refeição, é anunciada a Abraão a próxima realização dos seus mais profundos anseios: a chegada dum filho, o herdeiro da sua casa, o continuador da sua descendência. Aparentemente, o dom do filho é a resposta de Deus à ação de Abraão: o autor jahwista quer dizer-nos que Deus não deixa passar em claro, mas recompensa uma tal atitude de bondade, de gratuitidade, de amor.
Complementarmente, fica espelhada a atitude do verdadeiro crente face a Deus. Ao longo do relato – sem que fique expresso se Abraão tem ou não consciência de que está diante de Deus – transparece a serena submissão, o respeito, a confiança total (num desenvolvimento em que Sara ri diante da “promessa”, mas Abraão conserva um silêncio digno, sem manifestar qualquer dúvida): tais são as atitudes que o crente é convidado a assumir diante deste Deus que vem ao encontro do homem.
Atente-se, também, na sugestiva imagem de um Deus que irrompe repentinamente na vida do homem, que aceita entrar na sua tenda e sentar-Se à sua mesa, constituindo-Se em comunidade com ele. Por detrás desta imagem, está o significado do comer em conjunto: criar comunhão, estabelecer laços de família, partilhar vida. O jahwista apresenta, assim, um Deus dialogante, que estabelece laços familiares com o homem, com quem deseja estabelecer uma história de amor e de comunhão. O jahwista aproveitou a velha “lenda cultual” e a figura inspirativa de Abraão para apresentar aos homens do seu tempo o modelo do crente: ele é aquele a quem Deus vem visitar, que o acolhe na sua casa e na sua vida de forma exemplar, que põe tudo quanto possui nas mãos de Deus e que manifesta, com este comportamento, a sua bondade, humanidade, confiança e fé; ele é aquele que partilha o que tem com quem passa e cumpre em grau extremo o sagrado dever da hospitalidade. A realização dos anseios mais profundos do homem é a recompensa de Deus para quem age como Abraão.

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A atitude de hospitalidade perpassa por toda a celebração litúrgica. Deus acolhe-nos, nós acolhemos Deus. A iniciativa é sempre d´Ele que nos ama primeiro. A hospitalidade implica também estar à mesa: Ele está à nossa porta e bate é preciso ouvir a sua voz e abrir, assim cearemos juntos (antífona da comunhão; cf Ap 3,20). Não é comer por comer, mas a partilha da mesa implica em nossa vida partilhar do mesmo destino de Jesus Cristo e para isto é necessário que Ele nos ajude a despojarmos do velho homem e para uma vida nova (oração pós-comunhão).
Para fomentar um ambiente agradável entre as pessoas é indispensável o cultivo dos bons hábitos, chamados vulgarmente virtudes humanas. Entre muitas outras, encontra-se a virtude da hospitalidade, que nos aparece com grande relevo na Sagrada Escritura e é ainda em muitos lugares tida em grande conta. No entanto, podemos perguntar até que ponto ela é possível nos nossos ambientes. As pessoas debatem-se com magros rendimentos, territórios destruídos pelas catástrofes (naturais e humanas), falta de tempo, habitações reduzidas, condicionamentos dos horários de trabalho e séria ameaça à segurança que aconselha a não receber em casa pessoas estranhas. Ademais, parece que é menos necessária hoje a hospitalidade. As pessoas deslocam-se rapidamente dum lugar para o outro, não tendo necessidade de se hospedarem fora de casa.
Não obstante, a hospitalidade, como todas as virtudes, é de todos os tempos. O importante é configurá-la aos tempos em que vivemos, encontrar formas novas de a viver.
Abraão, que recebeu três misteriosas personagens no seu acampamento, quando estava à porta da tenda, por causa do calor sufocante que se fazia sentir, surge como modelo da hospitalidade.
Uma virtude humana indispensável. “Abraão estava sentado à entrada da sua tenda, no maior calor do dia. Ergueu os olhos e viu três homens de pé diante dele. Logo que os viu, deixou a entrada da tenda e correu ao seu encontro.”. Abraão levanta-se prontamente, logo que se dá conta da presença os três personagens. Esta prontidão deixa-nos entrever que estava já habituado a fazê-lo. A hospitalidade, virtude humana que consiste em acolher bem os outros, acolhê-los e partilhar a vida com eles, traz consigo um grande número de virtudes-satélites.
Entre estas, contam-se a cordialidade e a simpatia. Abraão não espera que lhe venham ao encontro e peçam algo de que necessitam. Aproxima-se pressuroso, manifestando a sua alegria em recebê-los. Com efeito, é preciso que as pessoas sintam a nossa alegria em recebê-las.
Outra virtude conexa com a hospitalidade é o espírito de sacrifício. Era a hora mais quente do dia. Numa situação destas, somos tentados a pensar só em nós procurando evitar a temperatura incómoda, desejando que ninguém nos incomode e nos deixem em paz. Ora, sem esta dimensão do sacrifício, as pessoas tornam-se ilhas fechadas e isoladas, tornando impraticável a convivência humana. E o Senhor bate-nos à porta em horas incómodas, misteriosamente presente nos nossos irmãos.
Depois é necessária a abertura do coração. Mais do que abrir a porta de casa ou a bolsa, a hospitalidade consiste em abrir as portas do coração, em encontrar tempo e paciência para escutar e aceitar a partilha de problemas, dores ou preocupações. Abraão nem sequer tem casa para receber, porque vive ainda em nomadismo. Mas nós, hoje temos muitas oportunidades de praticar esta virtude. O isolamento, sobretudo dos mais idosos e doentes que são forçados a permanecer em casa é realidade gritante; muitas pessoas sentem-se asfixiadas pelos problemas da vida e vão até ao desespero. Precisam de quem as oiça. Fomenta-se o voluntariado e as obras de apostolado que oferecem ajuda e são uma forma preciosa de viver em solidariedade, porque trabalham sem qualquer recompensa e apoiam-se num compromisso de continuidade.
Acolher com generosidade. “Mandarei vir água, para que possais lavar os pés e descansar debaixo desta árvore. Vou buscar um bocado de pão, para restaurardes as forças antes de continuardes o vosso caminho, […].”. Abraão segue os costumes do seu tempo. Ofereceu aos misteriosos visitantes água para lavar os pés da poeira dos caminhos e o melhor que tinha nos seus rebanhos e na tenda para lhes preparar uma refeição.
No acolhimento é preciso situar-se bem entre dois extremos: esbanjamento, que tem como origem a tentação da vaidade, de aparentar um luxo que não existe, o que pode acontecer também com o tempo, ocupando espaço que pertence à oração, ao trabalho profissional, aos deveres de estado, etc.; e mesquinhez, que denuncia um coração tacanho, que leva a fazer o menos possível para receber alguém, não estando o problema tanto no que se dá, mas no modo como se dá. A falta de tempo, de disponibilidade, para acolher, pode ser uma máscara para encobrir o egoísmo. Para nos defendermos desta tentação, pensemos em que gastamos o tempo. Talvez houvesse outras coisas menos importantes que poderiam ter cedido o seu lugar a um acolhimento. É generosidade acolher com um rosto sereno quando temos muito que fazer e o tempo é reduzido e quando estamos em más condições de saúde ou cansados ou temos coisas urgentes à nossa espera.
Deus (e Jesus, a sua melhor imagem) recompensa a hospitalidade. “Depois eles disseram-lhe: ‘Onde está Sara, tua esposa?’. Abraão respondeu: ‘Está ali na tenda’. E um deles disse: “Passarei novamente pela tua casa daqui a um ano e então Sara tua esposa terá um filho’.”. Esta promessa aparece diretamente relacionada com o gesto de hospitalidade que Abraão tivera para com eles. Também a viúva de Sarepta ofereceu o último punhado de farinha e as últimas gotas de azeite para que se fabricasse o pão com que Elias matasse a fome, e nunca mais o alimento lhe faltou, até que acabou a seca naquela terra, pois Deus nunca se deixa vencer em generosidade e recompensa sempre a hospitalidade feita por amor d’Ele.
A primeira recompensa que Deus nos oferece pela hospitalidade é uma grande paz e alegria interiores. É o que deve ter sentido Abraão e Sara, depois deste acolhimento caloroso. É alegria de ver o outro feliz, e ter vencido o egoísmo, fazendo algo que talvez nos custasse. Depois, o coração de quem pratica esta virtude dilata-se, cresce na sua capacidade de amar e de vencer o egoísmo que nos fecha em nós mesmos.
A hospitalidade é uma das obras de misericórdia e merece recompensa eterna. No Evangelho do juízo final, Jesus faz consistir o julgamento apenas sobre a caridade que se exprime por estas obras. “Vinde, benditos de Meu Pai…!” (Mt 25,31-46).
E o Evangelho mostra à saciedade o valor da hospitalidade, que merece a recompensa eterna e já neste mundo a recompensa a cem por um. Jesus lava os pés aos discípulos e quer que eles façam o mesmo aos outros, aceita a unção duma pecadora, tal com aceitou o convite do fariseu para um banquete (Lc 7,37-50), como aceitou a unção de Maria de Betânia (Jo 12,1-11). 
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A hospitalidade pratica-se entre famílias com relações de amizade, que se encontram em almoços, jantares, passeios em comum e, mesmo, acolhendo-se na casa uns dos outros.
Quando as viagens eram longas e penosas, esta espécie de hospitalidade era mais necessária. A mãe de São João Bosco e os pais de São João Maria Vianney recebiam em sua casa viajantes, pobres e desertores dos exércitos, ofereciam-lhes comida e dormida. Hoje, porém, por causa dos exigentes horários de trabalho, habituações reduzidas ao mínimo indispensável, e até por causa da falta de segurança crescente, fica desmotivada esta espécie de hospitalidade. Ademais, parece que agora é menos necessária, por as viagens serem rápidas, e não se dispõe de tempo. Mas há formas de hospitalidade e de acolhimento muito necessárias no nosso tempo.
Hoje a hospitalidade concretiza-se em encontrar tempo e disposição para os outros: visitando idosos e doentes que passam o dia sós ou em lares perdidos no anonimato, embora identificados; disponibilizando-se para ouvir os que sofrem e iluminar o seu sofrimento e debilidades à luz da fé com a ternura do coração magnânimo; e acolhendo quem nos surge no caminho a abrir o seu coração e receber uma palavra amiga que lhe possa orientar a vida.
2019.07.21 – Louro de Carvalho

sábado, 27 de outubro de 2018

Sínodo alerta para Igreja mais atenta a vozes de jovens e mulheres


A atenção da Igreja aos fenómenos que se passam no seu interior e às vozes que bradam dentro de si mesma e a partir do mundo é condição necessária para que se ponha em saída. Caso contrário, terá dificuldade em saber qual o objetivo da saída ou as ações que prioritariamente devem ser desencadeadas.

Poderá dizer-se que a saída é pautada pelo Evangelho. Certamente que sem Evangelho não é possível qualquer saída não errática. No entanto, o Evangelho implica que se perscrutem os sinais dos tempos e estes espelham, não só o que o mundo apresenta de pior, mas também o que há de melhor e o que é tendencialmente bom, se daí se partir para o seu reto ordenamento.
O Sínodo dos Bispos sob o tema ‘Os jovens, a fé e o discernimento vocacional’, que está a encerrar, consagrou um momento de escuta entre os participantes, mas também da parte dos jovens oportunamente reunidos em assembleia pré-sinodal e de todos os que houveram por bem dar o seu contributo através da internet, do correio eletrónico e das redes sociais.
Se pensarmos no panorama por que se move a juventude e o enquadrarmos no âmbito dos sinais dos tempos, talvez possamos verificar a indiferença, o distanciamento e até hostilidade em relação às Igrejas e mesmo às religiões, como podemos assinalar que muitas instâncias sociais, societárias, culturais, estéticas, económicas, políticas e desportivas tentam formatar os jovens capturando-os para os interesses poderosamente instalados. Mas também verificamos que surgem grupos de jovens inteiramente empenhados numa onda de reflexão e ações sérias, coerentes e norteadas pelos altos ditames do espírito com vista à realização pessoal, sim, mas também com vista à disponibilidade em favor do próximo. Tanto assim é que as grandes campanhas de sensibilização em nome de causas altruístas contam com numerosos grupos de jovens. E há aqueles jovens sem formação académica e/ou sem trabalho que não encontram sentido na vida e que se sentem à parte, porque ninguém se aproxima deles ou porque ninguém os convoca. Por outro lado, muitos quando ouvem linguagens ou lhes propõem comportamentos que não são do seu mundo ou se as linguagens utilizadas são herméticas ou obsoletas e os comportamentos propostos lhes soam a desajustados, não se sentem bem nos átrios da Igreja e nos seus espaços. Por isso, é urgente a escuta das suas vozes para se ajustarem as propostas em linguagens e instrumentos aceitáveis e se poder discernir até que ponto e de que modo as atitudes e comportamentos que se propõem se inserem no âmbito da mensagem evangélica ou em que medida foram impostos por força de tradições ou de construções humanas, embora com o fito de implantar o Evangelho entre as pessoas e nos povos.
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Como foi referido, o Sínodo, embora tenha sido uma assembleia de Bispos, contou com a presença de umas dezenas de jovens. E, se os Padres Sinodais elaboraram uma Carta aos jovens do mundo inteiro, aprovada juntamente com o Documento Final do Sínodo, também os jovens auditores ofereceram ao Papa o compromisso de compartilharem o seu “sonho de uma Igreja em saída”. Com efeito, em mensagem lida no final da tarde do dia 26, após um momento de reunião dos Padres Sinodais e dos jovens auditores com música, dança e poesia – o próprio Cardeal Lorenzo Baldisseri, Secretário-Geral do Sínodo, deu um show a parte ao piano –, os jovens disseram ao Papa:
Estamos contigo e com todos os bispos da nossa Igreja, mesmo nos momentos de dificuldades. Pedimos-te para continuares o caminho que tomaste e prometemos-te o nosso total apoio e a nossa oração diária.”.
Depois de lida, a mensagem foi entregue ao Papa Francisco, assinada com canetas de cores diferentes. Ei-la na íntegra, de acordo com o Vatican News, com adaptações ao nosso português:
Nós jovens, presentes no Sínodo, queremos colher esta ocasião para te exprimir a nossa gratidão por nos teres dado o espaço para fazer, juntos, este pequeno pedaço da história. As ideias novas necessitam de espaço e tu deste-nos este espaço. O mundo de hoje, que nos apresenta a nós, jovens, oportunidades inéditas junto a tantos sofrimentos, tem necessidade de novas respostas e de novas energias de amor. Tem necessidade de reencontrar a esperança e de viver a felicidade que se experimenta no dar mais que receber, trabalhando por um mundo melhor.
Nós queremos afirmar que compartilhamos o teu sonho: uma Igreja em saída, aberta a todos, sobretudo aos mais vulneráveis, uma Igreja ‘hospital de campanha’. Já somos parte ativa desta Igreja e queremos continuar a comprometer-nos concretamente para melhorar as nossas cidades e escolas, o mundo sociopolítico e os ambientes de trabalho, difundindo uma cultura da paz e da solidariedade e colocando no centro os pobres, nos quais se reconhece o próprio Jesus.
Ao final deste Sínodo, desejamos dizer-te que estamos contigo e com todos os bispos da nossa Igreja, mesmo nos momentos de dificuldades. Pedimos-te para continuares o caminho que tomaste e prometemos-te o nosso total apoio e a nossa oração diária.”.
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No briefing do dia 26 na Sala de Imprensa da Santa Sé sobre o evento sinodal, os intervenientes falaram em “grande sinal”, “momento de graça”, “orquestra maravilhosa”, como expressões classificativas deste Sínodo. E emergiu a esperança que o afirmado pelos jovens e bispos sobre as situações de sofrimento e de injustiça presentes nos seus países, encontre eco público.
Assim, declarou o Cardeal Christoph Schönborn (Arcebispo de Viena e Presidente da Conferência Episcopal Austríaca):
Faço votos por que também exista uma voz forte para dizer ao mundo político-económico quantas injustiças existem no mundo”.

Referindo que “o caminho sinodal é o do discernimento” e que, “no final falará o Papa, como já falou”, mas que “primeiro vem a escuta”, sublinhou que “o Sínodo é um grande sinal”, pelo que faz votos por que “seja visto, ouvido e transmitido”. E, recordando o que lhe disse um jovem africano proveniente dum país abalado pela guerra civil, vincou:

A Igreja é a nossa única esperança, lugar de acolhimento e de compreensão, onde nos podemos sentir em casa”.

Por sua vez, Dom Eamon Martin (Arcebispo de Armagh e Presidente da Conferência dos Bispos irlandeses) anotou que o Sínodo foi “um momento de graça” em que se sentiu “a presença e o poder do Espírito Santo”, devendo essa força e essa alegria ser transferidas para as várias dioceses. Neste sentido, propôs-se “ser um embaixador do Sínodo”, frisando que “a Igreja quer dirigir-se a todos os jovens do mundo”, “trabalhar com jovens, não somente para os jovens”. Por isso, Dom Martin volta para casa “com a ideia de que serão os jovens os agentes de evangelização”.

No briefing, elevou-se a voz da África mercê das reflexões de Dom Anthony Muheria (Arcebispo de Nyeri, Quénia), que espera que do Sínodo “possa surgir uma nova chama que entusiasme os jovens” e crê que os bispos poder “incendiar os jovens com o amor de Deus”.
Para o prelado, participar no Sínodo foi “como ouvir uma maravilhosa orquestra”, que parecia estar, no início, um pouco desafinada, mas que, depois, o Espírito Santo a guiou em direção a “uma grande sinfonia”.

Nesta linha de pensamento, o Padre Enrique Figaredo Alvargonzalez (Prefeito Apostólico de Battambang, Camboja), entendendo que do Sínodo vem “uma nova energia”, declarou:

Certamente o Sínodo tem no próprio coração os jovens, a vocação, o discernimento e, portanto,  teremos uma nova energia para os jovens entre os jovens”.

Esperando o rejuvenescimento da Igreja, sustenta que “será o Espírito Santo a guiar-nos”.

E Erduin Alberto Ortega Leal (jovem auditor e membro da Comunidade de Sant’Egidio, Cuba) frisou que, “na Igreja,  os jovens  não devem ser considerados como espectadores, mas verdadeiros protagonistas” e que “o mundo é atormentado por tantos  problemas” pois “está focado apenas no presente”. Ora, como observou, “os jovens, pelo contrário, precisam de olhar para o futuro”. E “o Sínodo deu-nos a oportunidade de ouvir e ser ouvidos”.

No briefing também foram apresentadas as estatísticas gerais sobre o Sínodo e dados sobre as redes sociais – facebook, twitter e Instagram – além de dados sobre o L’Osservatore Romano durante Sínodo.
Também Dom Zeca Martins (Bispo de Huambo, Angola) falou ao Vatican News sobre a sua experiência durante o encontro sinodal, dando o seu testemunho sobre a experiência vivida neste período de dedicação à juventude do seguinte modo.
Foram trabalhos muito fecundos e realmente uma experiência única, uma experiência de uma vida partilhada, sobretudo de uma vida que olha para os jovens nas suas muitas dificuldades, mas também nos seus anseios, nas suas esperanças. Essas esperanças que foram apresentadas que, de facto, a Igreja aqui reunida em torno do Santo Padre, tantos bispos de várias partes do mundo reunidos em torno do Santo Padre, vai naturalmente dar uma resposta espiritual, uma resposta teológica e uma resposta pastoral capaz de indicar um caminho no qual, os jovens cristãos – e não só, devem ir trilhando para se sentirem seguros consigo mesmos, na sua fé em Cristo e naquilo que vai sendo discernimento da sua vocação, na vida profissional, na vida familiar, mas sobretudo na vida à chamado ao seguimento de Cristo como consagrados, como religiosos missionários e como aqueles que, de facto, anunciam Cristo diante dos homens.”.
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No contexto do Sínodo, marcado pela escuta em ordem ao discernimento, se pronunciou a teóloga Marinella Perroni (professora de Novo Testamento no Pontifício Ateneu Santo Anselmo) sobre a questão em aberto referente à relação Igreja-mulheres, fazendo remontar a sua reflexão à revolução cultural de 1968, que deu, na sua ótica, um impulso decisivo às reivindicações do mundo feminino que incubavam há tempos sob as cinzas, sendo útil, 50 anos depois, refletir nesta linha sobre tal período de luzes e sombras.
Trata-se dum período histórico, de 50 anos, muito particular, ao menos no Ocidente, de grande fermento em todos os âmbitos da vida civil, política, social com profundos reflexos na vida do quotidiano. No quadro do sonho com uma mudança geral, “os jovens clamavam pelo direito ao estudo para todos, as mulheres exigiam a igualdade de direitos em relação aos homens, a família era com frequência lugar de conflito entre as gerações”. Foi um surto de contestações que abalou a sociedade e as Igrejas. Entraram sacerdotes em crise, diminuíram as vocações religiosas e decresceu a adesão à fé. Porém, hoje, na linha do que acima ficou dito é possível “ver com maior clareza o que houve de positivo e negativo, os prejuízos causados e as conquistas, as contradições e os condicionamentos ocorridos”.
E, falando particularmente das reivindicações das mulheres e do movimento feminista na relação com Igreja Católica, Perroni verifica:
Oficialmente a Igreja Católica, no sentido magisterial e hierárquico, repeliu qualquer reivindicação ligada ao adjetivo ‘feminista’. De facto, Paulo VI começa a ouvir vozes sobre o assunto… recordo-me de um discurso seu que disse: ‘Ouvem-se vozes longínquas às quais mais cedo ou mais tarde teremos que dar atenção: são as vozes de mulheres’. Também não podemos esquecer-nos de que foi João XXIII, em 1963, que recordou, na sua encíclica Pacem in Terris, que o reconhecimento da dignidade, pretendido pelas mulheres, era um sinal dos tempos com o qual os que creem e, portanto, a Igreja, deviam absolutamente ter atenção.”.
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Continua em agenda o debate sobre os direitos das mulheres, do seu papel e da contribuição dentro da sociedade e da Igreja. Francisco volta recorrentemente ao tema reconhecendo a necessidade de nova e profunda reflexão sobre a matéria. Assim, na sua exortação apostólica Evangelium gaudium (a primeira), escreve:
As reivindicações dos legítimos direitos das mulheres, a partir da firme convicção de que homens e mulheres têm a mesma dignidade, colocam à Igreja questões profundas que a desafiam e não se podem iludir superficialmente”.
E, analisando a história dos últimos 50 anos, a distinta teóloga admite:
A posição da Igreja com relação à questão feminina depois de 1968 foi bem diferente. Exatamente por esta recusa de dar atenção a um movimento certamente difícil, confuso, complexo e anárquico, como o das mulheres, a tentação foi de propor uma visão toda católica da figura feminina e das reivindicações das mulheres.”.
As mulheres que mais sentem necessidade de espaço e maior reconhecimento na Igreja Católica são as Religiosas. Há dias, no Sínodo, foi abordado tema e pedida a igualdade de direitos entre as Superioras religiosas presentes nos trabalhos e os seus homólogos não sacerdotes em relação à possibilidade de votar documentos sinodais que por enquanto não é reconhecida às Religiosas.
Neste âmbito, muitas consagradas mostram um certo desencorajamento em relação ao que esperavam, ou seja, uma mudança, que não ocorreu.
Não obstante algo mudou. Por exemplo, no passado não existia a possibilidade de mulheres lecionarem nos institutos académicos de teologia. Agora, abriu-se para elas o múnus de ensinar. E Peroni refere:
É verdade, a partir do Concílio houve a abertura das faculdades teológicas e, portanto, a possibilidade de dar aulas, obter títulos académicos, mesmo as leigas. Por isso, hoje temos um grande número de teólogas nas cátedras universitárias. E isso tem um peso, foi uma mudança significativa.”.
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A este respeito, o Cardeal Reinhard Marx (Arcebispo de Munique e Freiburg e Presidente da Conferência Episcopal da Alemanha), no briefing do dia 24 sobre o Sínodo dos Bispos, sustentou que “seríamos tolos se renunciássemos ao potencial das mulheres”, que devem fazer parte ‘hoje, e não amanhã’, dos processos decisionais referentes à Igreja”. E enfatizou que é fundamental “entender a evolução dos tempos, como já fez João XXIII”.
E Marinella Perroni, registando que estas são palavras de um dos expoentes da Igreja Católica, reconhece que muitas outras de teor semelhante foram pronunciadas nestes dias por outros expoentes da Igreja, que dão boas esperanças. Por isso, faz uma declaração de assumida esperança de alteração do status quo a longo prazo e coloca no trilho certo a responsabilidade das mulheres teólogas, discorrendo:
Acredito que devemos aceitar as estratégias de longo prazo. Certamente há responsabilidade histórica da nossa parte em assumir e aceitar. Mas também há os que sempre, homens e mulheres, quiseram viver a sua fé e a sua pertença eclesial dentro da história e não com uma espiritualidade individual. Portanto, eu entendo que a nossa responsabilidade histórica como teólogas é esta: servir a nossa Igreja na verdade e na liberdade.”.
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Enfim, dois desafios que se colocam à Igreja que emergiram no Sínodo: os jovens e as mulheres. Os jovens, para poderem ser agentes da evangelização, têm de ser mobilizados pela via da autenticidade humana e evangélica e duma linguagem catequética descodificada em relação à origem e ajustada aos seus códigos juvenis, mais ouvidos, mais chamados à participação nas decisões e menos afrontados no que é acessório. Por sua vez, as mulheres, embora devam ter a paciência de esperar pela mudança de médio e longo prazo, têm o direito e o dever de ganhar espaço no tríplice múnus de ensinar, santificar e governar. No ensino, basta seguir em frente, ganhar mais competências e caldear a ciência com a sabedoria, articulando o academismo com o sensus Ecclesiae; no governo, basta dar sequência às competências adquiridas e a adquirir no âmbito do ensino (quem está preparado tem ferramenta para governar); e, no quadro da santificação, há que puxar pelo ser e dinamismo inerentes ao estatuto que o Batismo nos dá e chegar à ponderação teológica dos fatores que têm sido impeditivos da participação almejada. Não se trata de substituir o trabalho de padres, de ganhar direitos inadequados, de obter protagonismo, mas unicamente de servir mais e melhor o Reino de Deus.

2018.10.27 – Louro de Carvalho

domingo, 21 de outubro de 2018

O contributo dos Bispos portugueses no Sínodo dos Bispos de 2018


A Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) está representada no Sínodo dos Bispos sobre “os jovens, a fé e o discernimento vocacional”, que está a decorrer no Vaticano de 3 a 28 de outubro, por Dom Joaquim Mendes, Bispo auxiliar de Lisboa e Presidente da Comissão Episcopal Laicado e Família (CELF), e por Dom António Augusto Azevedo, Bispo auxiliar do Porto e Presidente da Comissão Episcopal Vocações e Ministérios (CEVM).
Além da participação na aula sinodal plenária, integram, no âmbito dos “Círculos Menores”, o grupo de língua portuguesa, denominado “Circulus Lusitanus” – de que Dom Joaquim Mendes é relator e cujo moderador é o Cardeal João Braz de Aviz, Prefeito da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de vida apostólica – composto por padres sinodais, peritos, auditores e assistentes de Portugal, Brasil, Cabo Verde, Angola e Moçambique.
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Sobre o ambiente “fraterno” e “em família” que se vive entre os participantes no Sínodo, Dom Joaquim Mendes falou ao “Voz da Verdade” no final da segunda parte dos trabalhos do Sínodo, congratulando-se ainda pelo facto de a língua portuguesa ser uma das suas línguas oficiais.
Começando por referir que “o ambiente é de grande fraternidade eclesial, respeito, atenção e estima por parte de todos os participantes, desde o Santo Padre, Cardeais, Bispos, Padres, Leigos, Delegados Fraternos, Assistentes”, aponta o evento como uma experiência de se sentir em casa’, em ‘família’ – um aspeto muito grato aos jovens, “que se sentem à vontade, manifestando-se, por vezes, espontaneamente nas congregações gerais, perante algumas intervenções que tocam mais a sua sensibilidade”. E, no atinente a este clima, pormenoriza:
O ambiente é de grande proximidade, cordialidade, simplicidade, abertura e diálogo, quer nas congregações gerais, quer nos círculos menores, quer nos momentos de pausa, como a meio da manhã para o café, ou nos momentos que precedem as sessões, em que o Santo Padre está no hall de entrada, conversando, fazendo fotos, misturando-se com os Padres Sinodais, como um deles”.
No respeitante à abertura e frontalidade – princípios orientadores dos trabalhos –, aponta o clima de “escuta aberta ao diálogo” e “sem restrições”, segundo a indicação do Papa na sua intervenção inicial, o que sucede, da parte de quem pede a palavra, quer nas sessões plenárias, quer nos círculos menores. Efetivamente, “o Sínodo é sinal da Igreja que se coloca em escuta, em diálogo, aberta ao Espírito, às surpresas de Deus, buscando a Sua vontade” – sublinha.
Acolheu a nomeação de relator do grupo como um serviço, porque esta é a sua “forma de estar na Igreja e de exercer o ministério”, em conformidade com o exemplo e as palavras de Jesus: “Eu estou no meio de vós como aquele que serve” (Lc 22,27), lema que o “acompanha desde o início do sacerdócio.
Quanto à introdução da língua portuguesa como a 6.ª língua do Sínodo, afirma corresponder “a uma aspiração que vem de há muito”, manifestada ao Vaticano por vários Presidentes da CEP, designadamente o Cardeal Dom António Ribeiro, o Cardeal Dom José Policarpo e o Cardeal Dom Manuel Clemente – porta-vozes do sentir, não só da Igreja Portuguesa, mas também das Igrejas dos países de expressão portuguesa. Por isso, o agradecimento “ao Papa Francisco e à Secretaria-Geral do Sínodo por terem acolhido esta aspiração e por terem introduzido o português como língua oficial do Sínodo, que é falada por 350 milhões de pessoas em todo o mundo”.
No concernente ao grupo de trabalho de que é relator, diz que “é o número 11 de 14 círculos, composto por Padres Sinodais oriundos de três continentes:  América Latina (Brasil), África (Angola, Moçambique e Cabo Verde) e Europa (Portugal).”. Integra este grupo um jovem do Brasil, representante do Movimento Internacional de Schoenstatt e membro do Comité Coordenador Nacional para a Pastoral Juvenil da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, e ainda dois Peritos e dois Assistentes. Também aqui o ambiente é de grande cordialidade, abertura, escuta e diálogo”. E cada Padre Sinodal traz a realidade juvenil da sua Igreja particular e local e a experiência, que partilha no debate sobre os temas propostos no Instrumentum laboris, o texto base da reflexão. E pormenoriza:
Todos intervêm, há uma escuta atenta e respeitosa e uma grande sintonia e comunhão, expressa na votação sobre os módulos propostos por cada um, que tem sido unânime. O facto de falar a mesma língua permite expressar melhor o próprio pensamento, ser compreendido e compreender, e facilita o diálogo.”.
Passados que estão dois terços da reunião sinodal, o relator do Circulus Lusitanus” faz um balanço francamente positivo, relatando:
A 1.ª semana, a do debate e reflexão sobre a I Parte do Instrumentum laboris, foi de ‘escuta’ da realidade dos jovens segundo as respostas ao Questionário das Conferências Episcopais e às dadas pelos próprios jovens – dos 100.500 que responderam a todas as perguntas do questionário online; dos 300 que participaram presencialmente no Pré-Sínodo; e dos 15.000 que participaram através do Facebook. E foi considerado ainda o contributo dum Seminário Internacional sobre a condição juvenil, composto por 50 peritos e 20 jovens provenientes de todos os continentes, bem como outros contributos institucionais e particulares.
A 2.ª semana “foi dedicada à II Parte e marcada pela leitura e interpretação da realidade à luz da fé, com o olhar de Jesus, e a tomar consciência dos desafios que ela coloca à Igreja”, tendo a palavra mais referida nesta II Parte sido “acompanhamento” em ordem à maturidade da fé.
Considera esta II Parte como o “núcleo” do Sínodo e, nela, a fé.
No dia 15, foi concluída esta II Parte com as relações dos 14 grupos e prosseguiu a reflexão sobre a III Parte, que incide sobre os percursos de conversão pastoral e missionária a realizar, para que a Igreja cumpra a sua missão para com os jovens.
Adianta que, “na conclusão do Sínodo, a Igreja dirá aos jovens o que podem esperar dela, o que ela tem para lhes oferecer e o que eles também têm para oferecer à Igreja”. Assim, “do caminho percorrido, os jovens podem estar certos de que a Igreja os ama, é a sua ‘casa’, nela todos têm lugar, todos nela podem encontrar abrigo, acolhimento, conforto, compreensão e amor”. Com efeito, “a Igreja quer ser ‘mãe’ que os acolhe como filhos, escuta, caminha com eles, ajudando-os a encontrar Jesus, a sentir-se amados por Ele e a responder à sua chamada à alegria do amor”.
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Na sua intervenção na Assembleia Sinodal, de que a Voz Portucalense, traz síntese, Dom António Augusto Azevedo, Presidente da CEVM, referiu-se “concretamente ao tema da vocação” inserindo-a no contexto deste Sínodo dos Bispos, que trata, como é sabido, sobre a problemática dos jovens.
Na sua reflexão, assinalou a necessidade de “alargar o sentido da vocação”, pois “todo o jovem tem uma vocação” – declarou Dom António Augusto, que lançou várias pistas de reflexão:
Neste processo podemos ajudá-los a partir das questões essenciais: Qual o sentido da minha vida? Qual é o meu lugar neste mundo? Qual é o significado da minha existência? Qual é o caminho da verdadeira felicidade? Precisamos ainda de acompanhar os jovens na busca das respostas mais autênticas e libertadoras que se encontram na proposta cristã.”.
O Bispo auxiliar do Porto sublinhou ainda a necessidade de “reforçar a perspetiva vocacional nos vários ambientes formativos: a catequese, as escolas e universidades, os grupos e movimentos”. Relevou também “a vocação matrimonial, a vocação artística, a vocação para o compromisso social ou político e tantas outras”.
Em relação à vocação sacerdotal, Dom António Augusto declarou que, para ser despertada, “o testemunho pessoal será sempre um fator decisivo”, recordando a importância do “entusiasmo contagiante de um jovem padre” ou a “fé cheia de sabedoria de um velho sacerdote”. E salientou que se devem “multiplicar experiências, espaços e tempos que favoreçam o encontro pessoal com um Cristo vivo que ama a todos, conta com todos e chama alguns à vocação sacerdotal”.
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E Dom Joaquim Mendes, Presidente da CELF, no âmbito da sua intervenção na 14.ª reunião geral da assembleia sinodal, dedicada às novas gerações, disse que só uma “Igreja-família” é capaz de dar resposta aos anseios dos jovens, assinalando que muitos se sentem órfãos (e muitos são órfãos vivos, talvez mais que os órfãos de pais defuntos) na sociedade atual. E frisou:
Há um sentimento de orfandade em muitos jovens. São numerosos os que nasceram e cresceram numa família desestruturada, que não sabem o que é uma família, que foram abandonados, que não foram amados.”.
A intervenção, com referência particular ao n.º 178, capítulo III, da III Parte do Instrumentum laboris, como se pode ler no “Voz da Verdade”, partiu da necessidade de proporcionar aos jovens “uma experiência familiar de Igreja”. Assim, precisou:
Creio que não se pode educar e evangelizar sem chegar ao coração; e, para chegar ao coração, é preciso amar, acolher incondicionalmente, proporcionar uma experiência impregnada de um verdadeiro espírito de família”.
Partindo do documento de trabalho da assembleia sinodal, o orador sustentou que as paróquias devem ser “profecia de fraternidade”, como uma casa que acolhe, “espaço de encontro, lugar de crescimento e de vida”. E detalhou:
Família para os que têm família, proporcionando aos jovens um ambiente familiar, onde se sintam acolhidos, amados, cuidados, acompanhados no seu crescimento, desenvolvimento integral e na realização dos seus sonhos e esperanças”.
Dom Joaquim Mendes ousou apelar a uma maior confiança nos jovens, para os quais pediu mais “espaços de acolhimento, participação e corresponsabilidade”, no plano pastoral das paróquias, dos movimentos e das escolas católicas, explanando:
O Sínodo é uma oportunidade para uma conversão pastoral e missionária das comunidades cristãs, para que proporcionem aos jovens aquilo a que eles têm direito, anseiam, e esperam: uma Igreja-família, onde eles se sintam parte viva, uma Igreja-casa onde todos têm lugar, onde todos se preocupam com todos, onde se experimenta a fraternidade cristã que brota da fé e do amor de Jesus”.
O Presidente da CELF insistiu na necessidade de oferecer aos jovens “ambientes eclesiais permeados de um verdadeiro espírito de família”. E assegurou:
Só um testemunho de amor materno de uma Igreja-família pode tocar o coração dos jovens e abrir caminho para o seu encontro pessoal com Jesus, com o Evangelho, conduzir à descoberta do sentido da vida, da alegria do serviço e do compromisso na transformação da própria Igreja e da sociedade”.
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É ainda de referir, desde já, que os participantes lusófonos no Sínodo dos Bispos, em que se incluem os preditos dois Bispos portugueses, propuseram, no passado dia 20, a criação dum observatório para a juventude na Santa Sé, no que foram acompanhados por outros grupos linguísticos, que também destacaram a necessidade dum organismo que coordene os “temas relacionados com os jovens”, no Vaticano e a nível mundial.
“Seria oportuna a criação de um ‘conselho’ ou ‘observatório’ mundial da juventude”, sustentam os participantes de Portugal, Brasil, Angola, Cabo Verde, Moçambique e Timor-Leste.
O grupo de trabalho em língua portuguesa apresentou o seu relatório sobre a terceira e última parte do ‘Instrumentum Laboris’, o documento orientador da assembleia sinodal, sublinhando a “necessidade de integração e comunhão de todas as forças eclesiais que trabalham com juventude” e a exigência de estruturas paroquiais, diocesanas e nacionais que “favoreçam o diálogo e a missão”. E frisou a importância de “maior diálogo e colaboração entre os diferentes organismos da Cúria Romana que, de alguma maneira, têm relação com o mundo juvenil”.
O relatório em língua portuguesa, que é utilizada pela 1.ª vez como idioma oficial no Sínodo, apela a uma Igreja e sociedade “inclusivas”, capaz de promover a “solidariedade com os mais necessitados e o cuidado da casa comum”. E, em relação ao mundo digital, os representantes dos episcopados lusófonos pretendem que os jovens sejam “protagonistas na evangelização e não somente destinatários”.
O documento convida a considerar o acompanhamento juvenil como um “verdadeiro processo de iniciação à fé cristã e à vida eclesial”. Nele pode ler-se:
A Igreja é chamada a ajudar os jovens a terem uma visão integral da vocação, que leve em conta as dimensões humana, comunitária, espiritual, pastoral e social”.
O texto adverte que, apesar de o termo “vocação” ser suscetível de “algumas reservas”, é necessário “não descurar a promoção de uma cultura vocacional, com especial atenção à vocação especificamente religiosa e sacerdotal”.
Os participantes desafiam a comunidade católica a fazer “escolhas corajosas” em ordem à renovação da Pastoral Juvenil, investindo nela recursos humanos e materiais, incluindo “pessoas com dedicação exclusiva à pastoral juvenil”.
O Sínodo é uma oportunidade de manifestar a opção preferencial pelos jovens, traduzida em escolhas concretas e corajosas a nível paroquial, diocesano, nacional e internacional”, assinala o relatório, com 18 pontos.
2018.10.21 – Louro de Carvalho