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sábado, 12 de outubro de 2019

Canonização do Cardeal Newman, doutor da razão, da fé e da relação


No contexto do Sínodo dos Bispos para a região pan-amazónica, Francisco vai canonizar, a 13 de outubro, o Cardeal John Henry Cardeal Newman, as religiosas Giusepinna Vannini, Mariam Thresia Chiramel Mankidiyan, Dulce Lopes Pontes, e a leiga Marguerite Bays.
O percurso eclesial do Cardeal a canonizar suscita uma oportuna reflexão.
John Henry Cardeal Newman, (nascido em Londres, a 21 de fevereiro de 1801, e falecido em Edgbaston, a 11 de agosto de 1890), foi um sacerdote anglicano inglês convertido ao catolicismo, posteriormente feito cardeal pelo Papa Leão XIII em 1879: Cardeal-diácono de São Jorge em Velabro, passando a Cardeal-protodiácono em 8 de fevereiro de 1890. Proclamado venerável, em 1991, por São João Paulo II, depois de uma intensa investigação sobre a sua vida e as suas obras feita pela Congregação para as Causas dos Santos, foi beatificado pelo Papa Bento XVI no dia 19 de setembro de 2010, em Birmingham, no âmbito da visita de estado papal ao Reino Unido. Nessa ocasião, o escultor Tim Tolkien (bisneto de J.R.R. Tolkien) apresentou uma estátua de Newman que o Papa benzeu.
John Henry Newman, nascido de família anglicana (sua mãe tinha ascendência francesa huguenote) e falecido em 1890, tendo estudado no Trinity Cllege de Oxford (1816) e no Oriel College (1822), foi sacerdote oratoriano, teólogo e cardeal. Destacou-se como homem de incessante e apaixonada busca pela verdade, não deixando que renome, títulos ou a honra pessoal se interpusessem entre ele e o objetivo maior que almejava. Assim, é eloquente o seu epitáfio “Ex umbris et imaginibus in veritatem”. Por isso, teve longa e frutuosa vida caraterizada pelas conversões. Passou pela primeira conversão aos 15 anos, quando começou a destinar-se ao serviço eclesial. Depois, foi ordenado na Igreja Anglicana, em 1824, onde se desenvolveu como um dos seus mais brilhantes pensadores e teólogos, ensinando e pregando na prestigiosa Universidade de Oxford. Durante o período anglicano envolveu-se em diversas controvérsias contra o liberalismo teológico, tendo sido um dos protagonistas do Movimento de Oxford, sobretudo na oposição ao racionalismo e ao fideísmo, diatribe típica do século XIX. Na sua carreira académico-teológica, pontuada por uma riquíssima vivência espiritual, dedicou-se ao estudo da Igreja primitiva, o que lhe fez compreender que a plenitude da Revelação se encontra na Igreja Católica Romana, a verdadeira Igreja fundada por Cristo. Ao deparar-se com esta verdade, tomou a decisão de se converter ao catolicismo em 1845, o que lhe acarretou muitos dissabores, sobretudo pela sua posição de destaque na Igreja Nacional Inglesa. Dois anos depois, foi ordenado sacerdote católico em Roma e fundou, já na Inglaterra, a Congregação do Oratório de São Felipe Néri, santo italiano do período da Reforma com quem se identificou. E, já quase octogenário, foi criado cardeal pelo Papa Leão XIII, sendo que o lema que então adotou diz muito da sua postura religiosa e espiritual: Cor ad cor loquitur.
Em termos filosófico-teológicos, não foi um tomista tout court, foi mais um seguidor de Santo Agostinho, quer pela identificação psicológica típica do convertido, quer pela influência que a Patrística exerceu sobre ele desde o seu período anglicano. A proximidade com Agostinho fica patente na análise da interioridade que promove nos seus trabalhos, em especial na sua obra-prima, a Apologia Pro Vita Sua – o que não impediu que o Cardeal saudasse vivamente o Papa Leão XIII aquando da publicação da encíclica Aeterni Patris, sobre a restauração da Filosofia Cristã nas Escolas Católicas no Espírito do Doutor Angélico, São Tomás de Aquino:
Dirijo estas linhas a Vossa Santidade para expressar o agradecimento que todos sentimos pela oportuna encíclica que publicou (...).”.
É o teólogo cronologicamente mais próximo citado pelo Catecismo da Igreja Católica (1992), onde é aparece quatro vezes, e um dos pouquíssimos ali presentes que não constava do rol de Beatos e Santos (com Tertuliano, por exemplo) – observação que deixa de fazer sentido a partir do dia 13. Também é citado na Encíclica Veritatis splendor e em locuções de São João Paulo II (como um dos campeões mais universais e ilustres da espiritualidade inglesa) e do então Cardeal Ratzinger, quando prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé (“Newman pertence deveras aos grandes doutores da Igreja, porque ele toca ao mesmo tempo o nosso coração e ilumina o nosso pensamento”).
As suas obras distribuem-se por muitos tomos, entre obras de Apologia, Dogmática, Romances, Poesia, Sermões, Traduções etc. E ainda se conservam no Oratório de Birmingham milhares de cartas aos mais diversos destinatários (parentes, amigos, políticos, Papas etc.). Com efeito, considerava o apostolado epistolar de grande validade e eficácia. Também como fundador da Universidade de Dublin, torna-se um grande nome na Pedagogia e, em especial, no âmbito educação católica.
A Apologia Pro Vita Sua e a Carta ao Duque de Norfolk constituem a sua obra mais famosa, escrita para se defender dos ataques feitos por um anglicano contra a sua conversão e contra a Igreja Católica. Na Apologia, tece uma série de comentários sobre a sua vida espiritual, estudos teológicos e motivos para se ter convertido; e, na Carta, trata a questão da infalibilidade papal, defendendo-a contra as considerações erróneas do Primeiro-Ministro Gladstone e traça luminosamente os contornos da consciência individual, seus direitos e deveres.
A propósito de Newman, o Cardeal Dom José Tolentino Mendonça publica, na Revista do Expresso de hoje, na rubrica “Que coisa são as nuvens”, um texto sob o título “John Henry Cardeal Newman”, em que afirma que Newman é um dos precursores do Concílio Vaticano II. E destaca três vertentes: a valorização do laicado, transcrevendo-se praticamente o seu pensamento na Lumen Gentium, n.º 12, ao referir-se o papel dos fiéis leigos em matéria de fé; o primado da consciência (e Tolentino Mendonça menciona a Carta ao Duque de Norfolk), enquanto a capacidade que o homem tem de reconhecer a verdade e o dever de se encaminhar para ela –doutrina assumida na Gaudium et Spes, n.º 16 (“a consciência é o centro mais secreto e o santuário do homem, no qual ele se encontra a sós com Deus, cuja voz se faz ouvir na intimidade do seu ser”); e o ecumenismo. Para este item Tolentino de Mendonça menciona e transcreve alguns versos de um poema de Newman que se tomou um dos hinos espirituais mais repetidos nas igrejas cristãs:
Sê tu a conduzir-me, luz gentil/ Sê tu a guiar-me na escuridão que me cerca;/ A noite avança e a minha casa é distante/ Sê tu a conduzir-me, luz gentil”.
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A produção bibliográfica do Cardeal Newman, distribuída pelo período anglicano e pelo período católico, é vastíssima. Registam-se os títulos para se aquilatar da sua grande quantidade e de cuja qualidade falam os estudiosos, incluindo Sumos Pontífices.
Assim, do período anglicano: Arians of The Fourth Century (1833-1871); Tracts for the Times (1833-1841); British Critic (1836-1842); On the Prophetical Office of the Church (1837 | 1877) (Via Media, vol. 1) com prefácio à 3.ª edição; Lectures on Justification (1838 | 1874); Parochial and Plain Sermons, vol. 1 (1834 | 1869), vol. 2 (1835 | 1869), vol. 3 (1836 | 1869), vol. 4 (1839 | 1869), vol. 5 (1840 | 1869), vol. 6 (1842 | 1869), vol. (1842 | 1869) e vol. 8 (1843 | 1869); Select Treatises of St. Athanasius (1842, 1844); Lives of the English Saints (1843-4); Via Media, vol. 2 (várias | 1883); Essays on Miracles (1826, 1843 | 1870); Oxford University Sermons (1843 | 1871); Sermons on Subjects of the Day (1843 | 1869); Development of Christian Doctrine (1845 | 1878) e Retractation of Anti-Catholic Statements (1845 | 1883).
E, do período católico: Faith and Prejudice and Other Sermons (várias); Discourses to Mixed Congregations (1849); Difficulties of Anglicans (1850); Present Position of Catholics in England (1851); Idea of a University (1852 and 1858 | 1873); Cathedra Sempiterna (1852); Callista (1855 | 1888); The Rambler (1859-1860) com On Consulting the Faithful (1859); Apologia (1865); Apologia (1864 and 1865); Letter to Dr. Pusey (1865) (Anglican Difficulties, vol. 2); The Dream of Gerontius (1865); Grammar of Assent (1870); Sermons Preached on Various Occasions (várias | 1874); Letter to the Duke of Norfolk (1875) (Anglican Difficulties, vol. 2); Five Letters (1875); Sermon Notes (1849-1878); Meditations and Devotions; Select Treatises of St. Athanasius (1881 | 1887) vol. 1 – Translations vol. 2 – Appendix of Illustrations; On the Inspiration of Scripture (1884) e Development of Religious Error (1885). Miscelâneas: Addresses to Cardinal Newman and His Replies with Biglietto Speech (1879); Discussions and Arguments (várias | 1872); Essays Critical and Historical (várias | 1871) vol. 1, vol. 2; Historical Sketches (várias | 1872) vol. 1, vol. 2 (with Church of the Fathers) vol. 3; Historical Tracts of St. Athanasius (1843); Prefaces Froude’s Remains (1838), Hymni Ecclesiae (1838), Library of Fathers (various), Catena Aurea (1841), Church and Empires (1873), Notes of Visit to the Russian Church (1882), Sayings of Cardinal NewmanTracts Theological and Ecclesiastical (várias | 1871) e Verses on Various Occasions (várias | 1867).
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A sabedoria e a ortodoxia doutrinária de Newman foram louvadas por Leão XIII, por São Pio X e pelo Servo de Deus Pio XII. No séc. XX, já depois da morte do cardeal inglês, Pio XII chegou mesmo a afirmar que Newman é a “Glória da Inglaterra e de toda a Igreja”.
Por ocasião da comemoração do centenário da sua morte, o então Cardeal Joseph Ratzinger (hoje, o Papa emérito Bento XVI), prefeito para a Congregação para a Doutrina da Fé, referiu-se a Newman, em 28 de abril de 1990, dizendo que dele aprendemos a compreender o primado do Papa e que a liberdade de consciência “não se identifica de modo algum com o direito de “dispensar-se da consciência, de ignorar o Legislador e o Juiz, e de ser independente de deveres invisíveis”. Assim, no seu significado autêntico, a consciência é o verdadeiro fundamento da autoridade do Papa. De facto, a sua força vem da Revelação, que completa a consciência natural iluminada de maneira apenas incompleta, e “a sua razão de ser é o facto de ser o campeão da lei moral e da consciência”.
No âmbito do desenvolvimento do dogma, Ratzinger considerava que a doutrina de Newman sobre a consciência fora o seu contributo decisivo para a renovação da teologia, pois, com isto, deu-nos a chave para inserir na teologia um pensamento histórico, ou seja, ensinou-nos a pensar historicamente a teologia e a reconhecer a identidade da fé em todas as mutações.
Depois, salienta que a conceção de Newman sobre a ideia do desenvolvimento marcou o seu caminho rumo ao catolicismo. Mas adverte:
Contudo não se trata apenas de um desenvolvimento coerente de ideias. No conceito de desenvolvimento está em jogo a própria vida pessoal de Newman. Parece-me que isto se torna evidente na sua conhecida afirmação, contida no famoso Ensaio sobre o Desenvolvimento da Doutrina Cristã: ‘aqui, na terra, viver é mudar, e a perfeição é o resultado de muitas transformações’. Newman foi ao longo de toda a sua vida uma pessoa que se converteu, que se transformou e, desta forma, permaneceu sempre ele mesmo, e tornou-se sempre mais ele mesmo.”.
Na verdade, continua Ratzinger, Newman expôs na ideia do desenvolvimento a própria experiência pessoal de uma conversão jamais concluída e, assim, ofereceu-nos a interpretação não só do caminho da doutrina cristã, mas também da vida cristã. E arrisca: O sinal caraterístico do grande doutor da Igreja parece-me que seja aquele que ele não ensina só com o seu pensamento e com os seus discursos, mas também com a sua vida, porque nele pensamento e vida compenetram-se e determinam-se reciprocamente. Se isto é verdade, então Newman pertence deveras aos grandes doutores da Igreja, porque ele toca ao mesmo tempo o nosso coração e ilumina o nosso pensamento.”.
E Tolentino Mendonça, na rubrica citada, diz-nos mais sobre a perspetiva cristã, académica, antropológica e de fé de Newman. Newman mostra que o contributo dos crentes se joga também na construção cultural e fá-lo, por exemplo, ajudando a pensar que o que é uma universidade: não como um lugar fragmentado de saberes e especialidades, mas como laboratório de consciência crítica que ensina a pensar com rigor e com humildade, tendo como finalidade prática formar pessoas capazes de elevarem o tom da sociedade. Mas é no campo da hermenêutica da experiência religiosa e na defesa da legitimidade racional do ato de fé que o mestre de Oxford mais se empenhou. E foi concluindo que “o ato ou processo de fé é certamente um exercício da razão”. Recusa a redução do homem a uma máquina de raciocínios, mas “complementa o raciocínio raciocinante com o exercício da relação continuamente operado pelo homem”, podendo deduzir-se do raciocínio e da obra de Newman que “um grande livro de teologia é sempre um texto de cultura capaz de ressoar para lá do seu tempo”.

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A partir do dia 13 de outubro, além de se estudar Newman, também se invocara como santo. Esperemos que, em consonância com o que sustentava Ratzinger, ele venha a ser declarado doutor da Igreja.
Confesso que fiquei intrigado quando, no ano letivo de 1969-70, o vice-reitor do Seminário de Lamego, o Cónego Simão Morais Botelho, me ofereceu o livro “Cardeal Newman – ecumenismo e fidelidade”, de Christopher Hollis para eu ler e estudar. Mas fi-lo e verifiquei o modo como o teólogo britânico articulava tão bem as duas vertentes do crente: a fidelidade e a capacidade de pensar. E, noutro campo, o rigor do pensamento e a capacidade de relação, a certeza da fé católica e a obrigação da abertura ao diálogo ecuménico. Isto em tempos da valorização excessiva dos ritos, da crença anatematizante, da obediência cega ou do hipercriticismo como forma de estar e agir.
Veio o Concílio Vaticano II com Paulo VI e tudo se tornou mais claro, veio o Papa Francisco e tudo se torna mais atraente e empático.
Cf Hollis, Christopher, Cardeal Newman – ecumenismo e fidelidade, Livraria Civilização Editora, Porto: 1969; Mendonça, José Tolentino, Que coisa são as nuvens, in Revista, Expresso, 12-10-2019; Pêcego, Daniel, Cardeal Newman, in AQUINATE, n.° 5, (2007), 380-383; e https://pt.wikipedia.org/wiki/John_Henry_Newman.
2019.10.12 – Louro de Carvalho

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

“Aperuit illis”


Com a Carta Apostólica Aperuit illissob a forma de Motu Proprio, Francisco institui o “Domingo da Palavra de Deus”. Em conformidade com este documento pontifício,o III Domingo do Tempo Comum de cada ano litúrgico será dedicado à celebração, reflexão e divulgação da Palavra de Deus”.
O Motu Proprio, que responde aos muitos pedidos dos fiéis para que na Igreja se celebrasse o Domingo da Palavra de Deus, foi publicado a 30 de setembro passado, o dia em que a Igreja celebra a memória litúrgica de São Jerónimo, início dos 1.600 anos da morte do insigne tradutor da Bíblia para latim que vincava: “A ignorância das Escrituras é a ignorância de Cristo”.
A Carta Apostólica parte da seguinte passagem do Evangelho de Lucas (Lc 24,45):
Encontrando-se os discípulos reunidos, Jesus aparece-lhes, parte o pão com eles e abre-lhes o entendimento à compreensão das Sagradas Escrituras”.
Ora, no dizer do Sumo Pontífice, o Senhor “revela àqueles homens, temerosos e desiludidos, o sentido do mistério pascal”, ou seja, segundo o desígnio do Pai, “Ele devia sofrer a paixão e ressuscitar dos mortos para oferecer a conversão e o perdão dos pecados”, para o que “promete o Espírito Santo que lhes dará a força para serem testemunhas deste mistério de salvação”.
E, como Jesus abre as mentes para a compreensão das Escrituras, impõe-se na Igreja de discípulos a redescoberta da Palavra de Deus, que, não obstante os esforços desenvolvidos no sentido da sua proclamação, reflexão, estudo aprofundado e leitura para iluminar e enformar a vida, ainda é terreno desconhecido para tantos crentes que a conhecem pela rama ou que mal ouviram falar dela. Assim, o Santo Padre almeja que “possa o domingo dedicado à Palavra fazer crescer no povo de Deus uma religiosa e assídua familiaridade com as sagradas Escrituras, tal como ensinava o autor sagrado já nos tempos antigos: esta palavra ‘está muito perto de ti, na tua boca e no teu coração, para a praticares’ (Dt 30,14).”.
Francisco estriba-se, por um lado, na 2.ª Carta de Paulo a Timóteo, em que o apóstolo, como que, em testamento espiritual, “recomenda ao seu fiel colaborador que frequente assiduamente a Sagrada Escritura”, porque “toda a Escritura é inspirada por Deus e adequada para ensinar, refutar, corrigir e educar na justiça”. Mas, por outro lado e em conformidade com o discurso de Paulo, apoia-se no Concílio Vaticano II que “deu um grande impulso à redescoberta da Palavra de Deus” sobretudo com a Constituição Dogmática Dei Verbum”, o que pôs a Igreja a refletir sobre a importância da Palavra de Deus, a dar-lhe significativo relevo na liturgia e a perspetivar a reflexão eclesial e eclesiológica à luz da Palavra divina. E, mais perto de nós, Bento XVI convocou o Sínodo, em 2008, sobre o tema “A Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja” e escreveu a Exortação Apostólica “Verbum Domini” que “constitui um ensinamento imprescindível para as nossas comunidades” e onde se aprofunda “o caráter performativo da Palavra de Deus, sobretudo quando o seu caráter sacramental emerge na ação litúrgica”.
No dizer do Papa Bergoglio, o Domingo da Palavra de Deus situa-se num período do ano que em Igreja se convida ao reforço dos laços com os judeus e “a rezar pela unidade dos cristãos”. Não se trata, pois de mera coincidência temporal, pois “celebrar o Domingo da Palavra de Deus expressa um valor ecuménico, porque as Sagradas Escrituras indicam para aqueles que se colocam à escuta o caminho a percorrer para alcançar uma unidade autêntica e sólida”. E a Bíblia e o interesse por ela é comum a todas as confissões cristãs.
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Sobre modo de celebrar o Domingo da Palavra de Deus, Francisco exorta a vivê-lo “como um dia solene, podendo entronizar-se o texto sagrado na celebração litúrgica, de modo a tornar evidente aos olhos da assembleia o valor normativo que possui a Palavra de Deus. Também os Bispos poderão celebrar o rito de instituição do ministério de Leitor ou conferir um ministério semelhante, de modo a chamar a atenção para a importância da proclamação da Palavra de Deus na liturgia. Deve, pois, fazer-se todo o esforço possível no sentido de preparar alguns fiéis para serem verdadeiros anunciadores da Palavra com uma preparação adequada. Os párocos poderão encontrar formas de entregar a Bíblia, ou um dos seus livros, a toda a assembleia, para fazer emergir a importância de continuar na vida diária a leitura, o aprofundamento e a oração com a Sagrada Escritura, com particular referência à lectio divina.
Com efeito, como escreve o Pontífice, “A Bíblia não pode ser património só de alguns”, nem “uma coletânea de livros para poucos privilegiados”. Na verdade, “a Bíblia é o livro do povo do Senhor que, escutando-a, passa da dispersão e divisão à unidade”. De facto, a Palavra que nos convoca une-nos e faz de nós “um só povo”.
E o Papa reitera a importância da preparação da homilia, dada a obrigação de explicar a Sagrada Escritura, sem discurso enfatuado e sem divagações despropositadas:
Os Pastores têm a grande responsabilidade de explicar e fazer compreender a todos a Sagrada Escritura (...) com uma linguagem simples e adaptada a quem escuta (...). Para muitos dos nossos fiéis, esta é a única ocasião que têm para captar a beleza da Palavra de Deus e a ver referida à sua vida diária (...). Não se pode improvisar o comentário às leituras sagradas. Sobretudo a nós, pregadores, pede-se o esforço de não nos alongarmos desmesuradamente com homilias enfatuadas ou sobre assuntos não atinentes. Se nos detivermos a meditar e rezar sobre o texto sagrado, então seremos capazes de falar com o coração para chegar ao coração das pessoas que escutam.”.
Evocando o episódio dos discípulos de Emaús, o Santo Padre vinca a indivisível relação entre a Sagrada Escritura e a Eucaristia”. Citando a Constituição Dogmática “Dei Verbum”, que ilustra “a finalidade salvífica, a dimensão espiritual e o princípio da encarnação para a Sagrada Escritura”, o Papa argentino explicita:
A Bíblia não é uma coletânea de livros de história nem de crónicas, mas está orientada completamente para a salvação integral da pessoa. A inegável radicação histórica dos livros contidos no texto sagrado não deve fazer esquecer esta finalidade primordial: a nossa salvação. Tudo está orientado para esta finalidade inscrita na própria natureza da Bíblia, composta como história de salvação na qual Deus fala e age para ir ao encontro de todos os homens e salvá-los do mal e da morte.”.
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E há um elemento fundamental para que a palavra de homens, formulada e passada à escrita verdadeiramente encarnada em contextos culturais, históricos e geográficos, se torne Palavra de Deus e palavra da salvação: o papel do Espírito Santo na Sagrada Escritura. Diz o Papa:
Para alcançar esta finalidade salvífica, a Sagrada Escritura, sob a ação do Espírito Santo, transforma em Palavra de Deus a palavra dos homens escrita à maneira humana. O papel do Espírito Santo na Sagrada Escritura é fundamental. Sem a sua ação, estaria sempre iminente o risco de ficarmos fechados apenas no texto escrito, facilitando uma interpretação fundamentalista, da qual é necessário manter-se longe para não trair o caráter inspirado, dinâmico e espiritual que o texto possui. Como recorda o Apóstolo, ‘a letra mata, enquanto o Espírito dá a vida’.”.
Por isso, se torna oportuna a afirmação dos Padres conciliares “segundo a qual a Sagrada Escritura deve ser lida e interpretada com o mesmo Espírito com que foi escrita”. Na verdade, com Jesus Cristo, a revelação de Deus alcança a sua realização e plenitude; e o Espírito Santo continua a sua ação. Mas a ação do Espírito Santo não se circunscreve à natureza divinamente inspirada da Sagrada Escritura e aos seus diversos autores. Antes, ela “continua a realizar uma peculiar forma de inspiração, quando a Igreja ensina a Sagrada Escritura, quando o Magistério a interpreta de forma autêntica e quando cada fiel faz dela a sua norma espiritual” – escreve o Papa Francisco. De facto, a fé bíblica funda-se na Palavra viva, não sobre um livro.
Falando sobre a encarnação do Verbo de Deus que “dá forma e sentido à relação entre a Palavra de Deus e a linguagem humana, com as suas condições históricas e culturais”, o Pontífice frisa que “muitas vezes corre-se o risco de separar Sagrada Escritura e Tradição, sem compreender que elas, juntas, constituem a única fonte da Revelação”. Na verdade, a maior parte dos livros bíblicos passaram à escrita após a vivência e o filtro da tradição, que os fixou, sendo que o Espírito Santo lhes deu o aval de inspirados. Assim, “quando a Sagrada Escritura é lida com o mesmo Espírito com que foi escrita, permanece sempre nova”; e “quem se alimenta dia a dia da Palavra de Deus torna-se, como Jesus, contemporâneo das pessoas que encontra; não se sente tentado a cair em nostalgias estéreis do passado, nem em utopias desencarnadas relativas ao futuro”. “Por isso, é necessário que nunca nos abeiremos da Palavra de Deus por mero hábito, mas nos alimentemos dela para descobrir e viver em profundidade a nossa relação com Deus e com os irmãos. A Palavra de Deus apela constantemente para o amor misericordioso do Pai, que pede a seus filhos que vivam na caridade. A Palavra de Deus é capaz de abrir os nossos olhos, permitindo-nos sair do individualismo que leva à asfixia e à esterilidade enquanto abre a estrada da partilha e da solidariedade.
E a carta conclui com uma referência a Maria, a serva do Senhor e a facilitadora da ação da Palavra e que nos acompanha “no caminho do acolhimento da Palavra de Deus”, sendo que “a bem-aventurança de Maria antecede todas as bem-aventuranças pronunciadas por Jesus para os pobres, os aflitos, os mansos, os pacificadores e os que são perseguidos, porque é condição necessária para qualquer outra bem-aventurança”.
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Em entrevista ao Vatican News, o Arcebispo Rino Fisichella, presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização, explica os principais temas da Carta Apostólica “Aperuit Illis”, dizendo que “temos necessidade de entrar em confidência constante com as Escrituras Sagradas, caso contrário o coração permanece frio e os olhos permanecem fechados, atingidos como somos por inúmeras formas de cegueira”. Por outro lado, permitindo-nos a leitura constante da Sagrada Escritura abrir os olhos para sair “do individualismo”, também se nos constitui como a chave para nos levar à partilha e à solidariedade.
Ao comentar a Carta, Rino Fisichella, destaca o “valor histórico” da iniciativa do Pontífice para o amadurecimento do povo cristão, definindo-a como “uma oportunidade pastoral” para revigorar o anúncio neste momento histórico cheio de desafios, sendo que a Palavra de Deus se expressa com o testemunho.
Diz o Arcebispo que, apesar de resultar de tantos pedidos de pastores e leigos após o Jubileu da Misericórdia, esta ideia do Papa não é só de agora:
Então, na sua Carta Apostólica ‘Misericordia et Misera’, na conclusão do Jubileu, ele havia acenado a que nas Igrejas, segundo a própria criatividade – porque muito já é feito a esse respeito – fosse instituído um domingo no qual a Palavra de Deus fosse colocada no centro do coração da vida da comunidade cristã, como sinal unitário e assim, dessa maneira, a força da Palavra de Deus para a comunidade poderia emergir ainda mais, mas também a responsabilidade que a comunidade sente de ter de tornar partícipe por meio de uma ação realmente evangelizadora”.
É certo que todos os domingos são da Palavra de Deus. Mas Rino Fisichella, afirmando que o domingo tem um valor histórico, explica:
Cada domingo (…) celebramos o sacrifício de sua Paixão, a morte e o mistério de sua ressurreição. Portanto, a ação litúrgica com a celebração da Eucaristia torna-se o ápice da vida cristã. (…) É verdade que todos os domingos escutamos a Palavra de Deus, mas isso não impede que num domingo a Palavra de Deus possa estar em toda a Igreja, em todas as comunidades cristãs, proclamada com maior solenidade e possa haver uma reflexão particular acompanhada por sinais mais visíveis sobre a importância que essa Palavra tem para a Igreja.”.
Quanto ao valor ecuménico deste domingo, explica o presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização:
O Papa escolheu celebrar este domingo no III Domingo do Tempo Comum, quando todas as leituras que são proclamadas no Evangelho apresentam a figura de Jesus como anunciador do Reino de Deus. Não esqueçamos, porém, que isso ocorre também em um momento temporal em que se celebra, alguns dias antes, o Dia do Diálogo com os Judeus e, em seguida, é celebrada a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos. Não esqueçamos, isso não é o mesmo que os Dias Mundiais, como normalmente estamos acostumados a pensar, este é um domingo que, mesmo que apenas uma vez por ano, vale por todo o ano. O Papa diz isso explicitamente: o dia dedicado à Bíblia quer ser não uma vez por ano, mas uma vez por todo o ano, a fim de se tornar mais familiar com o texto sagrado.”.
Depois, Rino Fisichella abordou as três imagens bíblicas apontadas por Francisco. A de Emaús, serve ao Papa para fazer as pessoas compreenderem como, por meio da Palavra do Senhor, Ele acompanha a vida de cada fiel, a vida da Igreja e “queima o coração de cada um de nós quando essa Palavra é proclamada porque fala d’Ele”. A do retorno do povo judeu após o exílio e a redescoberta dos livros da Lei, ressaltando a proclamação então feita no livro de Neemias, que recorda esse momento histórico do povo judeu (com esta imagem indica-se que a Palavra cria um povo e faz com que as pessoas se sintam reunidas para a ouvirem e a viverem e que a palavra proclamada vivida traz a alegria). E, por fim, vem imagem mista da doçura e amargura da Palavra, espelhada no profeta Ezequiel e no Apocalipse, com que o Pontífice nos explica que a Palavra de Deus é doce, mas ao mesmo tempo é amarga porque às vezes não é acolhida, não é vivida ou é rejeitada.
A Carta abunda em indicações concretas aos batizados, mas, como se pode ver lendo-a, também há indicações concretas aos sacerdotes  e aos bispos. O Papa recorda aos sacerdotes o valor da homilia como “ocasião pastoral que não deve ser perdida”, que requer dos sacerdotes o chamamento ao contacto diário com aquela Palavra que depois devem explicar e da qual o povo “tem o direito de ter uma explicação inteligente e coerente que toque a vida e as necessidades presentes em cada um”. E recorda aos bispos que, neste domingo, poderão celebrar, por exemplo, a criação do Ministério da Leitura. Mas o Papa vai mais além e diz que, a partir dos próximos anos, “é bom que o papel de um serviço extraordinário seja mais enfatizado, assim como existe o serviço extraordinário da Comunhão, que também possa haver um ministério e um mandato específico com o qual as pessoas se preparam primeiro para um contacto mais imediato de estudo, de reflexão com a Palavra de Deus, e depois sejam também instituídos e em um ministério extraordinário”. E Fisichella vê aqui “uma provocação pastoral”. Com efeito, sucede em nossas igrejas, que muitas vezes lê a primeira pessoa que achamos disponível. Mas isto não é valorizar devidamente a Palavra de Deus, que “deve encontrar pessoas, mulheres, homens capazes de uma proclamação autêntica” e capaz da “inteligência do texto sagrado”.
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É uma Carta Apostólica que merece ser lida e refletida. A Palavra de Deus merece-o e espera o entusiasmo dos fiéis e o cuidado dos pastores.
2019.09.01 – Louro de Carvalho

quarta-feira, 29 de maio de 2019

Dia 29 de maio, dia de São Paulo VI


Pela primeira vez se celebra a 29 de maio a memória litúrgica de São Paulo VI, dia da sua ordenação sacerdotal, que ocorreu a 29 de maio de 1920 (Já lá vão 99 anos!), pois a Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos divulgou, a 6 de fevereiro, o decreto, de 25 de janeiro que (Festa da Conversão de São Paulo), que, por determinação do Papa Francisco, inscreve a celebração de São Paulo VI no Calendário Romano Geral, com o grau de memória facultativa, e estabelece, como dia próprio, o da sua ordenação sacerdotal, 29 de maio. E estabelece:
Esta nova memória deverá ser inserida em todos os Calendários e Livros Litúrgicos para a celebração da Missa e da Liturgia das Horas e os textos litúrgicos a serem adotados devem ser traduzidos, aprovados e, depois da confirmação deste Dicastério, publicados sob a autoridade da Conferência Episcopal”.
A fundamentação para o estabelecimento desta memória liturgia no dia em referência resulta da boa conta em que Francisco tem “a santidade de vida deste Sumo Pontífice, testemunhada nas obras e palavras”, “o grande influxo exercido pelo seu magistério apostólico pela Igreja dispersa por toda a terra” e “a petição e desejos do Povo de Deus”. Com efeito, São Paulo VI respondeu ao convite de “Jesus Cristo, plenitude do homem, vivo e agindo na Igreja”, a que “todos os homens caminhem ao encontro transfigurante com Ele, “caminho, verdade e vida” (Jo 14,6) (vd preâmbulo). Recorde-se, a propósito da expressão “encontro transfigurante”, que São Paulo VI faleceu, em Castel Gandolfo, a 6 de agosto de 1978, Festa da Transfiguração do Senhor recitando o Pater noster. Entregou, assim, a alma a Deus e, segundo as suas diretrizes, foi sepultado humildemente, do mesmo modo como tinha vivido.
Do decreto destacam-se alguns pontos significativos do perfil de São Paulo VI:
- “Colaborou com os Sumos Pontífices Pio XI e Pio XII e, ao mesmo tempo, exerceu o ministério sacerdotal junto dos jovens universitários”.
- Como Substituto da Secretaria de Estado, durante a II Guerra Mundial, “empenhou-se em dar exílio aos perseguidos hebreus e aos refugiados”.
- Como Pro-Secretário de Estado para os Assuntos Gerais da Igreja, “conheceu e encontrou muitos impulsionadores do movimento ecuménico”.
- No múnus de Arcebispo de Milão, “dedicou-se inteiramente ao cuidado da Diocese”.
- Eleito para a Cátedra de Pedro, a 21 de junho de 1963, “perseverou incansavelmente na obra iniciada pelos seus predecessores, em particular, levando a cabo o Concílio Vaticano II”.
- Tomou “numerosas iniciativas como sinal da sua viva solicitude nos confrontos da Igreja com o mundo contemporâneo”, entre as quais sobressaem as suas viagens de peregrino, realizadas como atividade apostólica”, servindo para “preparar a unidade dos Cristãos” e “para reivindicar a importância dos direitos fundamentais dos homens”. Assim, exerceu um poderoso “Magistério em favor da paz, promoveu o progresso dos povos e a inculturação da fé”.
– No quadro da reforma litúrgica, aprovou “ritos e orações”, na linha da tradição e em consonância com os novos tempos; promulgou, para o Rito Romano, o Calendário, o Missal, a Liturgia das Horas, o Pontifical e quase todos os Rituais, a fim de favorecer a participação dos fiéis na liturgia; e empenhou-se em que as celebrações pontifícias ganhassem simplicidade.
- Com referência especial aos vigários de Cristo, o documento vinca: 
Deus, Pastor e guia de todos os fiéis, confia a sua Igreja, peregrina no tempo, àqueles que Ele mesmo constituiu vigários do seu Filho. Entre estes, resplandece São Paulo VI, que uniu na sua pessoa a fé límpida de São Pedro e o zelo missionário de São Paulo.”.
- Sobre a dupla consciência petrina e paulina de Paulo VI, refere o documento:
A sua consciência de ser Pedro, aparece clara se nos recordamos de que, em 10 de junho de 1969, na visita ao Conselho Mundial das Igrejas em Genebra, se apresentou dizendo: ‘O meu nome é Pedro’; mas a missão pela qual se sentia eleito deriva, também, do nome escolhido. Como Paulo, consumiu a sua vida pelo Evangelho de Cristo, cruzando novas fronteiras e fazendo-se testemunha d’Ele no anúncio e no diálogo, profeta de uma Igreja extroversa que olha para os distantes e cuida dos pobres.”.
- E, sobre o entendimento que teve da Igreja e sobre o seu afeto por ela, regista:
A Igreja, de facto, foi sempre o seu amor constante, a sua solicitude primordial, o seu pensamento fixo, o primeiro e fundamental fio condutor do seu pontificado, porque queria que a Igreja tivesse melhor consciência de si mesma e pudesse levar cada vez mais longe o anúncio do Evangelho”.
***
Na homilia da Missa da beatificação do Servo de Deus Paulo VI, a 19 de outubro de 2014, no encerramento do Sínodo Extraordinário dos Bispos sobre a Família, o Papa Francisco recordou algumas das palavras com que o Papa Montini instituiu o Sínodo dos Bispos pela Carta Apostólica sob a forma de Motu proprioApostolica sollicitudo”, que marcam a necessidade do caminho sinodal para acolher o impulso Espírito Santo e as aspirações hodiernas:
Ao perscrutar atentamente os sinais dos tempos, procuramos adaptar os métodos (...) às múltiplas necessidades dos nossos dias e às novas caraterísticas da sociedade”.
E, falando “deste grande Papa, deste cristão corajoso, deste apóstolo incansável, diante de Deus”, Francisco disse que “hoje só podemos dizer uma palavra tão simples como sincera e importante”: “Obrigado”! E prosseguiu:
Obrigado, nosso querido e amado Papa Paulo VI! Obrigado pelo teu humilde e profético testemunho de amor a Cristo e à sua Igreja!”.
Depois, evocou a autorreflexão paulina a partir do diário pessoal do grande timoneiro do Concílio, após o encerramento da Assembleia Conciliar:
Talvez o Senhor me tenha chamado e me mantenha neste serviço não tanto por qualquer aptidão que eu possua ou para que eu governe e salve a Igreja das suas dificuldades atuais, mas para que eu sofra algo pela Igreja e fique claro que Ele, e mais ninguém, a guia e salva” (P. Macchi, Paolo VI nella sua parola, Brescia 2001, pp. 120-121).
E, segundo o Papa Bergoglio, é nesta humildade que “resplandece a grandeza do Beato Paulo VI, que soube, quando se perfilava uma sociedade secularizada e hostil, reger com clarividente sabedoria – e às vezes em solidão – o timão da barca de Pedro, sem nunca perder a alegria e a confiança no Senhor”. A seguir, citando dois documentos do timoneiro da Igreja Conciliar e Pós-Conciliar, o Sumo Pontífice sublinhou:
Verdadeiramente Paulo VI soube ‘dar a Deus o que é de Deus’, dedicando toda a sua vida a este ‘dever sacro, solene e gravíssimo: continuar no tempo e dilatar sobre a terra a missão de Cristo’ (Homilia no Rito da Coroação, Insegnamenti, I, (1963), 26), amando a Igreja e guiando-a para ser ‘ao mesmo tempo mãe amorosa de todos os homens e medianeira de salvação’. (Carta enc. Ecclesiam suam, prólogo).”.
A 14 de outubro de 2018, na Missa da canonização, falando da alegria que o Senhor dá a quem O segue e a espalha pelo mundo dos filhos de Deus, citando a Exortação Apostólica “Gaudete in Domino”, de São Paulo VI sobre a alegria cristã, Francisco observou:
O Santo Papa Paulo VI escreveu: ‘É no meio das suas desgraças que os nossos contemporâneos precisam de conhecer a alegria e de ouvir o seu canto’ (Exort. ap. , I). Hoje, Jesus convida-nos a voltar às fontes da alegria, que são o encontro com Ele, a opção corajosa de arriscar para O seguir, o gosto de deixar tudo para abraçar o seu caminho. Os Santos percorreram este caminho.”.
E, antes de se referir aos demais que inscrevera naquele dia no catálogo dos santos, disse:
Fê-lo Paulo VI, seguindo o exemplo do Apóstolo cujo nome assumira. Como ele, consumiu a vida pelo Evangelho de Cristo, cruzando novas fronteiras e fazendo-se testemunha d’Ele no anúncio e no diálogo, profeta duma Igreja extroversa que olha para os distantes e cuida dos pobres. Mesmo nas fadigas e no meio das incompreensões, Paulo VI testemunhou de forma apaixonada a beleza e a alegria de seguir totalmente Jesus. Hoje continua a exortar-nos, juntamente com o Concílio de que foi sábio timoneiro, a que vivamos a nossa vocação comum: a vocação universal à santidade; não às meias medidas, mas à santidade.”.
***  
É oportuno o comentário do Cardeal Robert Sarah sob o título Apóstolo corajoso do Evangelho.
O Prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos explicita que o dia da celebração será 29 de maio, data da sua ordenação presbiteral em 1920, porque, a 6 de agosto, dia do seu nascimento para o céu, é a festa da Transfiguração do Senhor. E afirma:
Se o santo é aquele que conforma a sua própria vida a Cristo, fazendo frutificar a graça divina nas suas obras, Paulo VI fê-lo respondendo à vocação à santidade como batizado, sacerdote, Bispo, Sumo Pontífice. E agora contempla Deus face a face. Sempre sublinhou que ‘só na busca sincera de Deus, feita com a oração, com a penitência, com a metanoia de todo o ser, se podem assegurar os êxitos verdadeiros da vida cristã e apostólica, e pôr em prática o primeiro e sempre vivo chamamento do Senhor à santidade’: ‘Impletum est tempus, et appropinquavit regnum Dei; paenitemini et credite evangelio’ (- Completou-se o tempo, está próximo o Reino de Deus; arrependei-vos e crede no Evangelho – Mc 1,15). ‘Estote ergo vos perfecti sicut et Pater vester caelestis perfectus est’ (- Sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito – Mt 5, 48). (Discurso ao Colégio Cardinalício nas felicitações pela festa onomástica, 21 de junho de 1976).”. 
E sublinha o Prefeito do susodito Dicastério:
Depois de ter escrito que não queria ‘nenhuma regra, nenhum acrescento extraordinário’ que distinguisse a sua vida cristã da forma normal, acrescentou que gostaria de cultivar ‘um amor particular àquilo que é essencial e comum na vida espiritual católica’. Assim – escrevia – ‘terei a Igreja como mãe da caridade: a sua Liturgia será a regra preferida para a minha espiritualidade religiosa’. E meditando sobre o ‘imitamini quod tractatis’ (Imitai-me no modo como procedeis), deduzia do mistério da Eucaristia a consequente necessidade da ‘imolação da sua própria vida sempre’, indicando-a como ‘a missa na vida’ unida ao ‘semper gratias agentes’ (sempre dando graças).”. 
Com o decreto, são publicados os textos a acrescentar nos Livros Litúrgicos (Calendário, Missal, Liturgia das Horas, Martirológio).
Na oração coleta ressoa “o que Deus realizou no seu fiel servidor: ‘confiaste a tua Igreja à guia do Papa São Paulo VI, apóstolo corajoso do Evangelho do teu Filho; e pede-se: ‘Faz que, iluminados pelos seus ensinamentos, possamos cooperar contigo para dilatar no mundo a civilização do amor’.
E Sarah vê aqui sintetizadas as caraterísticas” do pontificado e ensinamentos de São Paulo VI:
Uma Igreja, que pertence ao Senhor (Ecclesiam Suam), dedicada ao anúncio do Evangelho, como recordava na Evangelii nuntiandi, chamada a testemunhar que Deus é amor”. 
São indicadas as leituras bíblicas para a Missa, escolhidas do Comum para os Papas, e, como leitura para o Ofício de Leitura, alguns passos da homilia da última Sessão pública do Concílio, a 7 de dezembro de 1965, sintetizada no tema: Para conhecer a Deus é preciso conhecer o homem. E o Prefeito do Dicastério assegura:
 “Paulo VI viveu, antes e depois de ser papa, olhando constantemente para Cristo, de quem sentia e proclamava a necessidade para todos os homens. Tinha-o mostrado com a sua primeira Carta Pastoral, enquanto Arcebispo de Milão, intitulada com a expressão de Santo Ambrósio: Omnia nobis est Christus (Cristo é tudo para nós).”.
A 5 de agosto de 1963, segundo o Cardeal Sarah, Paulo VI refletia:
Devo regressar ao princípio: a relação com Cristo… que deve ser fonte de sinceríssima humildade: ‘afasta-te de mim, que sou um homem pecador…’; tanto na disponibilidade: ‘farei de vós pescadores…’; como na simbiose da vontade e da graça: ‘para mim a vida é Cristo…’. O amor a Cristo é o amor à sua Igreja.”.
No Pensamento sobre a morte, com razão, escreveu:
Peço ao Senhor que me dê a graça de fazer da minha próxima morte um dom de amor à Igreja. Poderei dizer que sempre a amei e que por ela, e por mais nada, me parece que vivi”. 
Fascinado pela figura e atividade de Paulo de Tarso, não poupou energias ao serviço do Evangelho, da Igreja e da humanidade, à luz do plano divino de salvação. E o Cardeal assinala:
Defensor da vida humana, da paz e do verdadeiro progresso da humanidade, como mostram os seus ensinamentos, quis que a Igreja, inspirando-se no Concílio e pondo em prática os seus princípios normativos, redescobrisse cada vez mais a sua identidade, superando as divisões do passado e muito atenta aos novos tempos: Igreja de Cristo, que põe a Deus no primeiro lugar, o anúncio do Evangelho, mesmo quando se prodigaliza pelos irmãos, para construir a ‘civilização do amor’ inaugurada pelo Espírito no Pentecostes”. 
E, sustentado no que São Paulo VI escreveu em “Notas para o meu testamento”, Paulo VI escreveu, “Nenhum monumento para mim”, o Cardeal Sarah conclui:
Ainda que lhe tenha sido erigido um monumento na Catedral de Milão, em outubro de 1989, o verdadeiro monumento foi o próprio Paulo VI que o construiu com o seu testemunho, com as obras, com as viagens apostólicas, com o ecumenismo, com o trabalho para a Nova Vulgata, com a renovação litúrgica e com os seus múltiplos ensinamentos e exemplos, mostrando assim o rosto de Cristo, a missão da Igreja, a vocação do homem moderno e conciliando o pensamento cristão com as exigências da hora difícil em que teve de guiar, sofrendo muito, a Igreja”. 
***
Por fim, os textos (em tradução livre), da Liturgia de São Paulo VI (nascido com o nome de João Batista Henrico Maria Montini a 26 de setembro de 1897 em Concesio, província de Brescia):
- Para o Calendário Romano Geral:
Maio, 29 – São Paulo VI, Papa
- Para o Missal Romano
Comum dos Pastores, para um Santo Papa
Oração Coleta:
Ó Deus, que entregastes a guia da vossa Igreja ao Bem-aventurado Papa Paulo, intrépido apóstolo do Evangelho vosso Filho, concedei-nos que, iluminados pelos seus ensinamentos, possamos cooperar Convosco para dilatar no mundo a civilização do amor. Por nosso Senhor Jesus Cristo… 
Liturgia da Palavra:
1.ª Leitura: 1 Cor 9, 16-19.22-23
Salmo responsorial: Sl 95 (96), 1-2a.2b-3.7-8a
Aleluia: Mc 1,17
Evangelho: Mt 16,13-19
- Para a Liturgia das Horas (além de nota biográfica, com lugar e dia de nascimento, ordenação sacerdotal, eleição como Sumo Pontífice, dia da morte e menções de serviço à Santa Sé e à arquidiocese de Milão, prossecução e completamento do Concílio, renovação da Igreja e envolvimento na reforma litúrgica, no ecumenismo e no anúncio do Evangelho ao mundo contemporâneo)
Comum dos Pastores, para um Santo Papa
Ofício de Leitura
- Segunda Leitura: Das homilias de São Paulo VI, Papa
(Na última sessão publica do Concílio Ecuménico Vaticano II, dia 7 de dezembro de 1965: AAS 58 [1966] 53. 55-56. 58-59),
Sob o tópico: Para se conhecer Deus, é preciso conhecer o homem.
- Responsório (cf Fl 4,8):
R/. Tudo o que é verdadeiro, nobre, justo, puro, amável, respeitável * tende-o em mente (T.P. Aleluia).
V/. Tudo o que possa ser virtude e mereça louvor * tende-o em mente (T.P. Aleluia).
- Oração
Ó Deus, que entregastes a guia da vossa Igreja ao Bem-aventurado Papa Paulo, intrépido apóstolo do Evangelho vosso Filho, concedei-nos que, iluminados pelos seus ensinamentos, possamos cooperar Convosco para dilatar no mundo a civilização do amor. Por nosso Senhor Jesus Cristo… 
- Para o Martirológio Romano:
No dia 29 de maio, em primeiro lugar, São Paulo VI, Papa (com uma nota apostólica que indica ser este o dia da ordenação presbiteral e menciona que foi arcebispo de Milão e, eleito para a Sé Romana, prosseguiu com êxito o Concílio Ecuménico, promoveu a renovação da Igreja e o diálogo ecuménico e cuidou do anúncio do Evangelho aos homens deste tempo até que adormeceu no Senhor a 6 de agosto de 1978).
  Laus Deo
2019.05.29 – Louro de Carvalho

sexta-feira, 12 de abril de 2019

Gesto surpreendente e comovente com sabor evangélico


Depois de ter pedido “como irmão” aos líderes do Sudão do Sul o esforço de “permanecerem na paz”, o Santo Padre, com visível sofrimento, quis ajoelhar-se ante eles para lhes beijar os pés. Prostrou-se então diante do presidente da República do Sudão do Sul, Salva Kiir Mayardit, e dos vice-presidentes designados presentes, entre eles, Riek Machar e Rebecca Nyandeng de Mabio. E este gesto do Servo dos Servos de Deus foi a marca – surpreendente e comovente de profundo sabor evangélico – de encerramento do retiro espiritual de cariz ecuménico e diplomático pela paz no Sudão do Sul, que o Sumo Pontífice acolheu na sua casa.
Para Andrea Tornielli, como referiu ao Vatican News, o gesto de Francisco no final do retiro espiritual de dois dias pela paz tem um sabor evangélico e aconteceu precisamente uma semana antes de o mesmo gesto se repetir nas igrejas de todo o mundo para lembrar a atitude de Jesus na Última Ceia, quando, na véspera da sua Paixão, ao lavar e oscular os pés dos apóstolos, lhes apontou o caminho do serviço como promoção e resultado do amor fraterno.
***
Sob proposta do Arcebispo de Cantuária, Justin Welby, Primaz da Igreja Anglicana, que o Papa aprovou e assumiu, realizou-se nos dias 10 e 11 de abril, na Casa Santa Marta, no Vaticano, um retiro espiritual com a participação de autoridades civis e eclesiásticas do Sudão do Sul – tudo em conformidade com a notícia divulgada, no passado dia 9, pelo diretor interino da Sala de Imprensa da Santa Sé, Alessandro Gisotti, que havia anunciado, na semana passada, a possibilidade deste evento.
As autoridades civis que participaram no retiro são os membros da presidência do Sudão do Sul, que, nos termos do “Acordo Revitalizado sobre a Resolução de Conflitos no Sudão do Sul”, assumirão altos cargos de responsabilidade nacional no próximo dia 12 de maio: o Presidente da República, Sr. Salva Kiir Mayardit, e 4 dos 5 vice-presidentes designados: Srs. Riek Machar Teny Dhurgon, James Wani Igga, Taban Deng Gai, e a Sra. Rebecca Nyandeng De Mabior.
Recorde-se que o Sudão do Sul, com uma população maioritariamente cristã, obteve a sua independência ao separar-se do Norte árabe e muçulmano em 2011, mas no final de 2013 mergulhou num conflito civil causado pela rivalidade entre o presidente, Salva Kiir, e o seu então vice-presidente, Riek Machar.
Da parte das autoridades eclesiásticas do país, participaram no evento ecuménico e diplomático os oito membros do Conselho de Igrejas do Sudão do Sul. E os pregadores do retiro foram o Arcebispo de Gulu, Uganda, Dom John Baptist Odama, e o presidente da Conferência dos Superiores Maiores da África e Madagascar, Padre Agbonkhianmeghe Orobator, S.J.
No entanto, foi o Cardeal Pietro Parolin, Secretário de Estado do Vaticano, quem abriu este retiro espiritual que reuniu, durante dois dias, na Casa Santa Marta, as autoridades máximas civis e eclesiásticas do Sudão do Sul, para oferecer reflexão e oração tendo em vista um futuro de paz para o povo do país.
No início da sua intervenção, no dia 10, o purpurado foi portador da saudação do Pontífice e recordou o encontro do Pontífice com os participantes ao final do retiro, na tarde do dia 11.
Estas jornadas, simultaneamente espirituais, ecuménicas e diplomáticas, foram organizadas de comum acordo entre a Secretaria de Estado e o Departamento do Arcebispo de Cantuária, com o objetivo de oferecer, da parte da Igreja, uma ocasião profícua para a reflexão e oração, e também para o encontro e a reconciliação, num espírito de respeito e confiança, para os que, neste momento, têm a missão e a responsabilidade de trabalhar por um futuro de paz e prosperidade do povo do Sudão do Sul.
O retiro terminou na tarde do dia 11, quando às 17 horas, o Papa pronunciou o seu discurso.
A seguir, foi entregue aos participantes uma Bíblia assinada pelo Papa Francisco, pelo Primaz da Igreja Anglicana, Justin Welby, e pelo Rev. John Chalmers, ex-Moderador da Igreja Presbiteriana da Escócia, com a mensagem “Procurai o que une. Superai o que divide”. E, por fim, foi dada a bênção aos líderes que assumirão o compromisso comum com a paz.
Segundo o Cardeal Secretário de Estado, o encontro constituiu um “período de graça” dedicado à reflexão e à oração para pedir a Deus “um futuro de paz e prosperidade para o povo” daquele país. Trata-se de uma “oportunidade” de encontro e reconciliação  no espírito “do respeito e da confiança” por aqueles que, “neste momento, têm a missão e a responsabilidade especial de trabalhar pelo desenvolvimento” do Sudão do Sul, precipitado numa guerra civil sangrenta em 2013, com ao menos 400 mil mortes.
E o Arcebispo de Cantuária, que propôs o retiro ao Papa, ainda em viagem para Roma, enviou uma saudação e o agradecimento ao Pontífice pela hospitalidade “na sua casa”. O Primaz da Igreja Anglicana enfatizou a solicitude de Francisco pelo Sudão do Sul, com o auspício de que o Espírito Santo “pouse” sobre todos os líderes do país, presentes ou não no retiro.
O padre jesuíta Agbonkhianmeghe Orobator, um dos pregadores e presidente da Conferência dos Superiores Maiores da África e Madagáscar, abordou o verdadeiro significado do retiro espiritual, interpretado como um período “para encontrar Deus” ou, melhor, como um período em que “Deus nos possa encontrar”. O Senhor – explicou o sacerdote – “fala-nos aqui”, não “com o telefone celular” e nem pelo “Twitter, Facebook e Instagram”, mas num percurso de cura, purificação e missão como “artesãos da paz”.
O pregador desenvolveu a sua reflexão em torno do hino nacional do país, intitulado “South Sudan Oyee!”, ao solicitar que os presentes o declamassem e escutassem no retiro. Nele, explicou o jesuíta, Deus é mencionado duas vezes, no início e no fim do texto, pois o povo do Sudão do Sul é “de fé” e, com “uma única voz”, reza, glorifica e expressa confiança no Senhor, “em paz e harmonia”. E o maior recurso e a maior riqueza do país não vêm da terra, da água ou do petróleo: é o povo. O jesuíta lembrou o dia da independência da Khartoum, em 9 de julho de 2011, quando havia alegria, euforia e exultação de todas as etnias porque a nação “nascia” com uma esperança de paz, justiça, prosperidade e liberdade. No entanto, disse o pregador, hoje “quase a metade da população” local, isto é, cerca de “7 milhões de pessoas”, passam por fome extrema e sofrem duramente com a realidade das escolas abandonadas por causa das violências intercomunitárias e entre etnias. Além disso, 4 milhões de pessoas foram obrigadas a deixar as suas casas, buscando abrigo em campos de refugiados. O apelo, então, a recuperar o “sonho” interpretado no hino nacional: ir além do “ódio” e das “incompreensões”, entre a guerra e a paz escolher “a vida” para uma reconciliação não só “pessoal”, mas “nacional”.
***
No seu discurso, o Papa pediu aos líderes do Sudão do Sul que “o fogo da guerra se apague de uma vez por todas” – uma imagem forte que não se compreende a não ser no clima de recíproco perdão que caraterizou os dois dias de retiro, que não constituíram uma conferência político-diplomática, mas uma experiência de oração e de reflexão comum entre líderes a quem, mesmo tendo assinado um acordo de paz, custa a garantir que ele seja respeitado. Ora, como “a paz, para os crentes, se invoca diante de Deus e se invoca rezando ainda mais perante o sacrifício de tantas vítimas inocentes do ódio e da guerra”, algo deve ter sucedido naquelas horas em Santa Marta, principalmente entre os líderes do Sudão do Sul que acolheram o convite do Bispo de Roma, que tem como título o de “Servo dos servos de Deus”, pois, ajoelhando-se com dificuldade para lhes beijar os pés, o Papa curvou-se ante aquilo que Deus suscitou durante esse encontro de oração.
Gestos semelhantes, ícone evangélico do serviço, não são novos na história recente do papado. A 14 de dezembro de 1975, São Paulo VI, na Capela Sistina, na celebração dos 10 anos do cancelamento das excomunhões recíprocas entre a Igreja de Roma e a de Constantinopla, desceu do altar no final da Missa e, ainda revestido dos sagrados paramentos, lançou-se aos pés do metropolita Meliton de Calcedónia, representante do Patriarca Demétrio, um gesto que invocava de modo inverso, além do lava-pés realizado por Jesus, os eventos do Concílio de Florença quando, em 1439, os patriarcas ortodoxos recusaram beijar os pés do Papa Eugénio IV.  
Relativamente aos outros irmãos cristãos, como diante de quem se deixa tocar o coração e aceita gestos de reconciliação e de paz, os Papas, Servos dos servos de Deus, não têm temor em se humilhar para imitar o seu Mestre.
O Papa, confirmando que espera poder visitar o Sudão do Sul num futuro próximo, juntamente com os irmãos ali presentes, entre os quais se encontrava o Arcebispo de Cantuária, exortou os líderes políticos do Sudão do Sul a cumprirem o compromisso de paz que assinaram no ano passado, rezando com eles após dois dias de um retiro espiritual – ecuménico e diplomático – sem precedentes no Vaticano. E acrescentou improvisando:
A vós os três que assinastes o Acordo de Paz, peço-vos, como irmão, que permaneçais na paz. Peco-vo-lo com o coração. Vamos seguir em frente. Haverá muitos problemas, mas não tenhais medo, ide em frente, resolvei os problemas. Vós iniciastes um processo: que termine bem. Haverá lutas entre vós dois, sim. Que elas ocorram dentro do escritório; diante do povo, as mãos unidas. Assim, de simples cidadãos, vós vos tornareis Pais da Nação. Permiti-me pedir-vo-lo com o coração, com os meus sentimentos mais profundos.”.
No final do seu discurso de encerramento do retiro espiritual, como já foi referido, o Papa inclinou-se para beijar os pés dos líderes do país reunidos para a iniciativa de paz.
***
O gesto de humildade do Papa comoveu o Sudão do Sul. A Irmã Elena Balatti, missionária comboniana que se encontra em Juba, a capital, testemunhou à agência Fides que o gesto do Papa que beija os pés dos políticos sul-sudaneses comoveu muito a população local:
Os sul-sudaneses ficaram positivamente impressionados ao ver o Papa Francisco suplicar a paz aos políticos do país. O Papa que se ajoelha e beija os pés dos líderes do Sudão do Sul. Os vídeos e as imagens do evento passam ininterruptamente nas emissoras de televisão, nas redes sociais e nos telemóveis das pessoas comuns.”.
E pormenorizou:
A população reconhece e aprecia muito os esforços que o Santo Padre, os bispos e toda a Igreja local estão a fazer pela paz no Sudão do Sul. (…) Ficamos impressionados pela insistência do Papa Francisco em recordar aos políticos as suas responsabilidades para com o povo que está sofrendo muito, que sofreu muitos lutos, além dos que tiveram que abandonar o próprio país. Por isso ajoelhou-se, fez isso em nome do povo sul-sudanês. Trata-se de um gesto muito apreciado, que comoveu as pessoas aqui no Sudão do Sul.”.
Por seu turno, a vice-presidente sul-sudanesa Rebecca Nyandeng Garang disse que o gesto do Papa Francisco a deixou profundamente emocionada: “Nunca tinha visto nada parecido – confessou – as lágrimas corriam dos meus olhos”.
***
O Padre José Vieira, provincial dos missionários combonianos, que viveu em Juba, no Sudão do Sul, durante 7 anos, disse à agência Ecclesia que o gesto do Papa ao beijar os pés dos líderes políticos poderá ajudar a “colocar Deus” no caminho certo para a reconciliação e paz. E vincou:
Eles têm nas mãos o sangue de 400 mil pessoas e o Papa ter aquele gesto mostra que eles podem ter divergências, mas que as devem sanar no gabinete. As divergências são normais, mas o Papa pediu que deem as mãos, como irmãos, do fundo do coração, para serem pais da nação.”.
O missionário comboniano – que acompanhou de perto o sofrimento daquele povo entre 2006 e 2013, um povo sofredor habituado a “viver em guerra e a esperar a guerra” – sobre o magnífico gesto do Pontífice de beijar os pés dos líderes políticos do Sudão do Sul, refere que, na cultura dinka, uma das etnias do Sudão do Sul, “não há palavras para dizer ‘obrigado’ ou ‘desculpa’ e um líder ajoelhar-se e beijar os pés de uma pessoa, vale por mil palavras”.
Assim, o provincial dos combonianos entende que o gesto de Francisco introduz um novo elemento: “o da oração”. E observa:
Se puserem o elemento Deus na reconciliação, talvez consigam, porque entre as pessoas que seguem a religião cristã, os muçulmanos ou anglicanos, Deus está lá. (…) Há um ecumenismo prático nos crentes no Sudão do sul: rezamos ao único Deus com um nome diferente e com diversas linguagens corporais, mas estamos como irmãos.”.
O missionário dá conta de que, ao longo de anos de conflito e pobreza, as Igrejas sempre foram “os grandes defensores do povo”, preconiza a abertura de um processo de reconciliação e verdade à semelhança do que sucedeu na África do Sul, mas com um mediador externo e supõe, relembrando a experiência de paz em Moçambique, que a entrada da Comunidade de Sant’ Egídio poderia ser um dos mediadores da reconciliação.
E o religioso comboniano adverte que, para alcançar a estabilidade política e social, é necessário acabar com a “divisão do poder” e, como pediu o Papa Francisco, “serem pais da nação e esquecerem as diferenças”.
***
Por fim, a versão em português, segundo o Vatican News, do hino nacional do Sudão do Sul:
Oh, Deus,
Nós Te rezamos e glorificamos
Pela Nossa graça do Sudão do Sul,
Terra de grande abundância,
Nós nos apoiamos unidos e em harmonia.
Oh, pátria-mãe,
Levantamo-nos levantando a bandeira com a Estrela do Norte
E cantamos canções com liberdade e com alegria,
Pela justiça, liberdade e prosperidade,
Que reinarão para sempre.
Oh, grandes patriotas,
Deixai-nos em silêncio e com respeito,
Para saudar os nossos mártires cujo sangue
Cimentou a nossa fundação nacional,
Eles prometem proteger a nossa Nação.
Oh, Deus, abençoa o Sudão do Sul.
***
Façamos tudo o que for possível de ação, reflexão e ação pelo diálogo que leve à paz, que resulte da educação para o respeito, tolerância e amizade, que se expresse num estilo de sã convivência e que redunde em maior e melhor desenvolvimento, promoção da dignidade humana, dinamismo comunitário e cuidado da Casa Comum.
2019.04.12 – Louro de Carvalho