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quinta-feira, 13 de setembro de 2018

A comunidade é essencial para a vida em geral e para a vida cristã



É uma das pertinentes asserções do Arcebispo emérito de Évora, que presidiu à Peregrinação Internacional Aniversária de 12 e 13 de setembro deste ano de 2018, comemorativa da 5.ª aparição em 1917. Efetivamente, Dom José Francisco Sanches Alves, assegurou a 12 de setembro na Missa da vigília, concelebrada por 70 sacerdotes, três bispos e um cardeal:
Ninguém pode viver isolado e de costas voltadas para outros homens e mulheres, todos fazemos parte de uma grande família e não podemos estar bem com Deus se não estivermos bem com os irmãos”.
No Recinto de Oração, como divulgou o Santuário de Fátima, o prelado emérito eborense assinalou que “dar graças a Deus pelos imensos dons que tem concedido ao mundo, ao nosso país e a cada um” é o que congrega os peregrinos na “Casa da Mãe”. E, sendo que a Mãe nos adverte e encaminha para Deus, desenvolveu:
Meditando na nossa vida, descobriremos que perante as nossas infidelidades, indiferenças e esquecimentos, Deus permanece Pai que nos ama com um amor indefetível e que nos espera para celebrar a festa do encontro e da alegria como fez o pai do filho pródigo”.
Outro dos nossos motivos tem a ver com a escuta e a meditação da Palavra de Deus que é “vida, e verdadeira luz espiritual que nos aponta o caminho a seguir em todos os dias da nossa vida e nomeadamente quando a escuridão nos oculta o caminho ou quando as encruzilhadas nos dificultam a opção correta”. Assim, “Deus chamou-nos à vida, e pelo Batismo agregou-nos à família divina, enriqueceu-nos com dons e graças especiais e tornou-nos filhos Seus”.
O Arcebispo emérito da arquidiocese eborense explicou que “o Pai Celeste” quer que todos se congreguem “na unidade e na comunhão”, porque “a inserção comunitária começa no interior de cada um”. Com efeito, como observou, “os pais amam ilimitadamente os seus filhos e a maior alegria que podem ter é vê-los a todos unidos e em paz”. 
Deus nunca fica insensível aos corações atribulados”, alertou, porfiando que, “tal como Jesus procedia com os doentes, sempre nos olha com compaixão, sara as feridas do pecado e aponta o caminho a seguir para alcançar a plena inserção na comunidade”. Segundo o Arcebispo, “a comunidade é essencial para a vida em geral e também para a vida cristã”, pois “ninguém pode viver isolado e de costas voltadas para outros homens e mulheres, todos fazemos parte de uma grande família e não podemos estar bem com Deus se não estivermos bem com os irmãos”.
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A peregrinação aniversária de setembro evocou a 5.ª aparição da Virgem aos Pastorinhos, com o tema ‘Tempo de graça e misericórdia: dar graças pelo dom de Fátima’, contou com a presença de 46 grupos de peregrinos organizados de 18 países – dos continentes europeu, asiático, africano e americano – e teve início na tarde do dia 12, na Capelinha das Aparições.
Neste momento inicial, o do arranque da Peregrinação, o Cardeal Dom António Marto, Bispo de Leiria-Fátima, confiou os “problemas atuais da igreja” à proteção especial de Nossa Senhora para que possam ser ultrapassados rapidamente e se alcance a paz no mundo. E explicitou:
Queremos confiar a Nossa Senhora, nesta peregrinação,  os problemas da Igreja que vivemos na atualidade, bem como pedir o dom da paz para o mundo, em especial para o Médio Oriente, para a Nicarágua e para a Venezuela”.
Aqui experimentamos de modo particular que temos Mãe” – sublinhou o prelado do Lis –, que “através do Seu Imaculado Coração nos convida a deixarmo-nos  envolver no amor de Deus e assim curar as feridas e aquecer os corações desalinhados e reavivar a fé”.
Por sua vez, Dom José Francisco Alves, frisando que em Fátima “sentimos que há lugar para todos”, começou por dizer: “Sou peregrino neste Santuário como todos vós”. E vincou:
Aqui estamos todos em casa: com uma língua que nos une – o amor – e um vínculo muito profundo que nos liga uns aos outros, a Maria e a Deus, que é a nossa fé”.
Por isso, exortou:
Abramos o nosso coração ao mundo pedindo a Maria que nos faça mais irmãos, mais unidos e mais construtores da paz”.
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A Peregrinação prosseguiu com a recitação do Rosário, seguida da procissão das Velas e da Missa Internacional no Recinto de Oração. Durante a noite e madrugada, animaram a Vigília vários grupos, incluindo o grupo de colaboradores do Santuário de Fátima, como é habitual no mês de setembro. E, no dia 13, depois do da recitação do Terço às 9 horas, foi a procissão da Capelinha das Aparições para o altar do Recinto de Oração e a celebração da Missa Internacional, com a Bênção dos Doentes, tendo a Peregrinação terminado com a Procissão do Adeus a Nossa Senhora e a reposição da sua imagem na Capelinha.
Inscreveram-se nos serviços do Santuário para esta celebração da Missa Internacional cerca de 150 doentes, que nela participaram a partir da colunata norte da Basílica de Nossa Senhora do Rosário de Fátima.
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Na homilia desta Missa, que foi concelebrada por 3 bispos e 125 sacerdotes, Dom José Alves exortou os peregrinos a serem “operadores da paz”, visto que a paz é um bem essencial, para o bem-estar da humanidade, mas precário, pelo que é preciso protegê-lo e promovê-lo e apenas alcançável com o empenho, sacrifício e oração de todos.
Dom José Alves, relembrando o apelo que o Papa Francisco deixou, há pouco mais dum ano, na Cova da Iria, para reforçar a confiança no “amor maternal” de Nossa Senhora, garantiu:
Maria nunca nos abandona, nunca se separa de nós, nunca nos deixa órfãos e, aqui em Fátima, por graça de Deus, manifestou, mais uma vez, a grandeza e o poder do Seu amor maternal, convidando a humanidade a pôr de lado tudo o que divide, tudo o que afasta e tudo o que incita à guerra, para dar lugar ao que une, aproxima e conduz à comunhão fraterna”.
Depois e em contraponto com o progresso tecnológico “acelerado” do último século, o presidente da concelebração chamou a atenção para a “progressão lenta” nos esforços pela paz mundial, no mesmo período. E realçou a atualidade da mensagem deixada por Nossa Senhora aos Pastorinhos a 13 de setembro de 1917, na qual a Virgem pediu aos Videntes continuassem a rezar o Terço para que a guerra terminasse, deixando pistas para a construção global de uma união fraterna entre os homens. E reforçou:
A paz precisa da colaboração de todos e alcança-se pela oração e pelos sacrifícios voluntários, através dos quais se obtém a conversão dos corações que, voltados para Deus, repudiam o mal e a guerra, e adotam comportamentos de moderação, de compaixão, de acolhimento, de partilha fraterna”.
Evocando a Anunciação da Virgem Maria, proclamada no Evangelho, na qual Nossa Senhora, enfrentando todas as dificuldades, “conserva a paz no Seu coração e se coloca à disposição de Deus como humilde serva”, o prelado emérito exortou os peregrinos a seguirem o exemplo da “Rainha da Paz” e terminou a homilia com a seguinte prece à Mãe de Deus:
Ó Maria, Mãe de Jesus e Nossa Mãe, ensina-nos, como tu, a confiar em Deus, a tornarmo-nos operadores da paz, a colocar a nossa vida nas mãos de Deus e a rezar incessantemente pela paz, como pedistes aos Pastorinhos e, hoje, nos pedes a nós”.
Já a direção da palavra aos doentes coube ao Padre Pedro Viva, capelão do Hospital de Santo André, em Leiria, que integra o Centro Hospitalar de Leiria, e diretor do Serviço de Pastoral da Saúde de Leiria-Fátima, que sublinhou a dignidade humana na doença e convidou os doentes presentes a confiarem a sua dor e sofrimento a Deus, que “está sempre presente e conhece cada um profundamente”.
E, no fim da Missa, o Cardeal Dom António Marto saudou os peregrinos em diversas línguas, partilhou a graça de poder voltar como peregrino a Fátima, o “oásis espiritual” onde encontra “repouso, ânimo e paz”, e deixou votos de um bom ano para todas as crianças, adolescentes e jovens que, durante esta semana, estão a iniciar um novo ciclo escolar.
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Alguns cristãos, mesmo dos que se dizem católicos não aceitam o serviço de Maria a intervir junto dos homens chagados pelo pecado a avisá-los para a necessidade de conversão, que postula o arrependimento das culpas e a aceitação do perdão, elemento fulcral na pregação do reino messiânico, bem como a evidência da sua atitude e postura junto dos mais doentes, pobres e descartados como estímulo para os crentes a tirarem todas as consequências da adesão à fé.
Também são relutantes à capacidade de intercessão da Virgem junto de seu Filho primogénito, que nos quer filhos consigo. Muito menos A aceitam a partir dos santuários marianos, reduzindo-os ao devocionismo ultrapassado e alienante. E, em face de santuários fundados em aparições ou visões, não têm pejo em considerar tudo uma fantochada e um instrumento do poder hierárquico ao serviço de desígnios políticos e económicos.
Independentemente da veridicidade das aparições, há que ter em conta a mensagem, seus conteúdos e contornos e aceitá-la naquilo que seja presentificação do Evangelho, aproveitar a afluência das multidões e os diversos fluxos para a evangelização e catequese ocasionais, a intensificação da santificação pela celebração litúrgica e, se possível, fazer do santuário um alfobre de permanente catequização, celebração da Reconciliação e da Eucaristia, exercício da caridade fraterna pelo acolhimento dos peregrinos e colocando uma parte dos rendimentos para o serviço das populações carenciadas. Isto vale para todos os santuários, mesmo os que se baseiam num dado lendário ou no achado de uma imagem, mas a fortiori para os que se baseiam em aparições e são portadores de uma mensagem. Esclareça-se que as revelações particulares não são de adesão obrigatória para o curso da fé (a Igreja Católica apenas declara que na sua mensagem nada vem de contrário ao Evangelho) nem acrescentam ponto algum ao conteúdo da revelação. Chamam, no entanto, a atenção para algum ou alguns conteúdos da revelação oficial e servem de incentivo a uma melhor assunção das exigências da vida cristã e do compromisso com o Evangelho.
Ora, tão mau é “endeusar” a Virgem Maria ou uma sua imagem – que não passa de pretexto para nos reunirmos a seu lado para celebrar o Mistério de Cristo – ou tentar comercializar com Ela um favor como reduzi-la à figura de Maria de Nazaré, que para muitos não passa de uma mulher comum, que quase por acaso foi a mãe carnal de Jesus.
É óbvio que o seu revestimento da plenitude da Graça não a separou do comum das mulheres de Nazaré e o facto de o Senhor estar com Ela não constitui uma marca exterior. Mas é a mãe dum homem especial – Deus ou do Deus feito homem. E por isso Maria tem a discreta capacidade de ser modelo de libertação de mulheres e homens. Se é verdade que Ela foi sempre discreta e humilde, a serva e a morada da Palavra, também o é a predizer que todas as gerações a proclamarão bem-aventurada e, enquanto se diz “bendita és tu entre as mulheres”, chega-se ao “e bendito é Jesus, o fruto do teu ventre”, que é a grande referência dos crentes no Evangelho.
Por isso, Fátima tem razão para prosseguir todo o trabalho de ação pastoral e cultural, porque Maria passou de Mãe do Mestre para Mãe de todos os crentes, que a devem acolher e ouvir.                   
2018.09.13 – Louro de Carvalho

sexta-feira, 20 de abril de 2018

O lado negro de Hans Asperger


Segundo o que foi veiculado pela comunicação social nos últimos dias, Hans Asperger, o médico que identificou o que mais tarde seria conhecido como síndrome de Asperger (mercê do nome do inventor), doença relacionada com o autismo, terá colaborado com o regime nazi, enviando crianças para o programa de eutanásia nazi para serem assassinadas.
Obviamente que chamar àquele mecanismo programa de eutanásia não passa dum terrível eufemismo. Trata-se, antes dum mecanismo de eugenia, defendido pelo regime em que nasceu a II Guerra Mundial. Bastava não ser da raça ariana para já não ser considerado imune de deficiência congénita. Ao contrário de outros posicionamentos, o regime nazi considerada a eliminação dos judeus por razões biológicas.
Quanto aos seres marcados pela síndrome de Asperger, é de referir a ironia de num momento se decidir pela dita eutanásia e no momento seguinte se descobrir o tratamento para a doença.
A polémica hipótese foi investigada, segundo o JN on line de ontem, pelo historiador e médico Herwig Czech, da Universidade de Medicina de Viena, na Áustria, que concluiu que o pediatra recomendou o envio de crianças com deficiência para ‘Am Spiegelgrund’, clínica que praticava o programa de eutanásia nazi. Quase 800 (mais propriamente 789) crianças morreram eutanasiadas por não terem suficiente higiene racial entre 1940 e 1945.
Asperger sempre negou ter colaborado com o império hitleriano, mas, segundo Czech, o médico “acomodou-se ao regime nazi e foi recompensado”. É a conclusão dum estudo divulgado pela revista especializada “Molecular Autism” e sustentado pelos seus editores, que sublinharam a profundidade da investigação, apoiando todas as suas conclusões, sabendo tratar-se dum tema delicado da história da Medicina. Na informação de Czech, “o programa (de eutanásia infantil) serviu o objetivo nazi de projetar uma sociedade geneticamente ‘pura’, eliminando as vidas de quem possa ser considerado um fardo”. Pela sua lealdade, o médico austríaco foi recompensado com oportunidades de carreira. Em 1938, descreveu pela primeira vez um grupo de crianças com a condição de ‘psicopatas autistas’ e assinou relatórios com ‘Heil Hitler’. A síndrome de Asperger, forma leve de autismo, recebeu esse nome pelo contributo de Hans, pioneiro na pesquisa sobre autismo. No programa de ‘eutanásia’ infantil, o médico examinou mais de 200 pacientes, dos quais 35 foram considerados ‘ineducáveis’ e mortos por injeção letal e em câmaras de gás.
Estas novas conclusões estão a ser recebidas de forma cautelosa pela comunidade ligada à Síndrome de Asperger. À BBC, Carol Povey, diretora do Centro de Autismo da Sociedade Nacional Autista do Reino Unido, apelou a todas as pessoas diagnosticadas com Asperger a que “não se deixem afetar de forma alguma por uma história tão perturbadora”.
Asperger morreu em 1980, aos 74 anos, sabendo-se agora que cooperou ativamente com o programa nazi. Porém, o pediatra e psiquiatra negou sempre o seu envolvimento até à data da sua morte.
Hans Asperger descobriu a doença em 1944, mas só em 1981 ela ficaria registada como síndrome de Asperger.
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Hans Asperger, que viveu entre 1906 e 1980, afirmava que protegera os seus doentes do regime nazi. Pouco tempo antes de morrer, num discurso na Universidade de Viena, chegou a afirmar que era perseguido pela Gestapo por recusar entregar-lhe crianças doentes. Porém, a recente investigação, acima referida, a documentos pessoais e relatórios médicos nunca dantes examinados revela que Asperger enviava crianças para uma clínica onde se praticava eutanásia, a clínica Am Spiegelgrund em Viena.
Czech, o responsável pela investigação, afirma que Asperger “conseguiu adaptar-se ao regime nazi e foi recompensado pelas suas afirmações e lealdade com oportunidades de carreira”. E o editorial da mesma revista Molecular Autism, escrito por académicos de Cambridge, afirma que Asperger “se tornou voluntariamente parte da engrenagem da máquina de matar nazi” e “parte dos olhos e ouvidos do III Reich”. O médico não era, no entanto, membro do partido nazi e afirmava que salvava as crianças do programa de eugenia nazi.
O mencionado historiador concluiu que Asperger fez de facto concessões à ideologia nazi para conseguir progredir na carreira, o que “envolveu um certo grau de colaboração com o aparelho de limpeza da raça.

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A síndrome de Asperger é uma forma de autismo que foi identificada por Hans Asperger em 1944, embora o médico a tenha denominado de “psicopatia autista”, denominação por que ficou conhecida até 1981. Neste ano, a psiquiatra britânica Lorna Wing referiu-a como síndrome de Asperger, passando a ser conhecida por esta designação a partir dali.
Assim, a síndrome de Asperger é uma forma de autismo, pela qual os doentes têm maior dificuldade em dizer o que sentem e em fazer amizades; e têm dificuldade em perceber o outro e o que o outro sente. Tem muitas semelhanças com o autismo, mas estes doentes têm, apesar de tudo, menos problemas em comunicar e têm muitas vezes inteligência acima da média.
Johann Hans Friedrich Karl Asperger, nascido numa fazenda nos arredores de Viena, a 18 de fevereiro de 1906, era o mais velho de três irmãos. Ainda muito novo, mostrou talentos especiais com a linguagem e, nos primeiros anos de escola, tornou-se conhecido por recitar o poeta austríaco Franz Grillparzer. Tinha dificuldade em fazer amigos, sendo por muitos considerado “distante,  mas, nos anos 1920, formou amizades que duraram a vida toda. Formou-se em Medicina em 1931 e assumiu a direção da estação ludo-pedagógica na clínica infantil da Universidade em Viena, em 1932. Casou em 1935 e teve 5 filhos. Desde 1934 esteve envolvido com a clínica psiquiátrica, em Leipzig. Com especial atenção em crianças fisicamente anormais, submeteu em 1943, o artigo “Die ‘Autistischen Psychopathen’ im Kindesalter” (A psicopatia autista na infância) à revista Archiv für Psychiatrie und Nervenkrankheiten, que o publicou no ano seguinte – trabalho baseado em estudos que envolveram mais de 400 crianças.
Observou que o padrão de comportamento e habilidades descrito ocorria preferencialmente em meninos; denominou-o de psicopatia autista, desordem da personalidade que incluía: falta de empatia, baixa capacidade de formar amizades, conversação unilateral, intenso foco num assunto de interesse especial e movimentos descoordenados. Asperger chamava as crianças que estudou de pequenos professores, devido à habilidade de discorrerem detalhadamente sobre um tema. No entanto, como viajava pouco e todas as suas publicações eram em alemão, apenas na década de 1980 o seu nome foi reconhecido como um dos pioneiros no estudo do autismo. Além disso, o seu principal trabalho foi publicado durante a Guerra. No final da II Guerra Mundial, serviu como soldado na Croácia. Depois em 1944, foi contratado como professor na Universidade de Viena e tornou-se diretor da clínica infantil em 1946. Tornou-se, em 1957, professor na clínica infantil da universidade – a Universitäts-Kinderklinik, em Innsbruck, e, desde 1962, manteve a mesma posição em Viena. Em 1964, encabeçou o posto médico das SOS-Kinderdörfer (Aldeias SOS Infantis) em Hinterbrühl. Ficou professor emérito em 1977. Trabalhou até ao fim, ministrando aulas até seis dias antes de morrer, a 21 de outubro de 1980. Publicou 359 trabalhos, a maioria sobre dois temas: psicopatia autista e morte.
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Também conhecida por seus estudos sobre o autismo foi a médica psiquiatra inglesa Lorna Wing, nascida a 7 de outubro de 1928 e falecida a 6 de junho de 2014.
Tendo uma filha autista, envolveu-se em pesquisas sobre distúrbios do desenvolvimento, sobretudo os conexos com o espectro da desordem autista. Com outros pais de crianças portadoras da síndrome, fundou a NAS (National Autistic Society) no Reino Unido, em 1962.
Nascida a filha, na década de 50, a visão dominante do autismo era sob o prisma psicanalítico, o que envolvia a análise primacial do tratamento dado à criança pelos pais. Essa visão é atribuída aos estudos de Leo Kanner, pois em textos sobre 11 crianças autistas questiona o papel dos pais na produção do quadro evasivo no desenvolvimento dos pacientes, mas foi com os escritos de Bruno Bettelheim que a ideia das “mães geladairas” teve infeliz aceitação. Mais tarde, tal visão foi transformada, passando a sugerir influência da genética e o desenvolvimento do cérebro.
Foi então que Wing se juntou a Judith Gould para um estudo no bairro londrino de Camberwell, em que descobriram que as crianças alvo de análise possuíam elementos comuns nos vários distúrbios, sendo um deles a dificuldade de relacionamento social. No autista, perde-se a capacidade imaginativa, que é aquela que nos permite enfrentar as situações da vida e emerge a presença de grande dificuldade de comunicação – carateres que Wing denominou de tríade.
No diagnóstico de autismo usa-se a análise dos três défices, a “Tríade de Wing” (em homenagem à proponente), atinentes às dificuldades das crianças na imaginação, socialização e comunicação. Por esse prisma, o número de crianças diagnosticadas como autistas, que no Reino Unido é de 4 ou 5 por 10 mil, passa a ser de 15 a 20, quando relacionados à tríade. E a doença ocorre 4 vezes mais em meninos que em meninas, mas nestas o quadro tende a ser mais severo.  
Wing criou parâmetros para a diagnose do autismo, com a proposição de 6 pontos básicos: verbalização correta, mas estereotipada e pedante; comunicação não verbal caraterizada por gestos inadequados, voz sem entonação e poucas expressões faciais; ausência de empatia; preferência pela repetição, aversão às mudanças; defeitos de coordenação motora, como postura e movimentos; e boa memória mecânica e limitados interesses especiais.
Morando em Sussex, embora aposentada, trabalhava como consultora psiquiátrica no Centro para Distúrbio sócio-comunicativo (Centre for Social and Communication Disorders) no Elliot House, da NAS. A entidade batizou o centro de autismo com o nome da Dra. Wing – NAS Lorna Wing Centre for Autism, que é o primeiro no Reino Unido a tratar do diagnóstico, avaliação e serviço de aconselhamento para crianças, adolescentes e adultos portadores da doença.
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Nem sempre a ciência e o cientista são imunes ao serventualismo a regimes políticos e económicos, perversos e condicionantes da carreira (quem paga manda) como também o estudo é motivado por razões de família. Seja como for, bem-vindo o progresso. Mas haja liberdade!
2018.04.20 – Louro de Carvalho   

domingo, 11 de fevereiro de 2018

“Jesus deixou, como dom à Igreja, o seu poder de curar”


Este enunciado, tão inusitado como verdadeiro, constitui o n.º 6 da Mensagem de Sua Santidade Francisco, datada do passado dia 26 de novembro – Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo, para o XXVI Dia Mundial do Doente, que a Igreja celebra hoje, dia 11 de fevereiro de 2018, desta vez, um domingo, o 6.º do Tempo Comum, no Ano B.
A efeméride foi instituída a 11 de fevereiro de 1992, pelo Papa João Paulo II, o qual lembrou, na carta de instituição, que a data representa
Um momento forte de oração, de partilha, de oferta do sofrimento pelo bem da Igreja e de apelo dirigido a todos para reconhecerem na face do irmão enfermo a Santa Face de Cristo que, sofrendo, morrendo e ressuscitando, operou a salvação da humanidade”.
O dia 11 de fevereiro é marcado pela memória litúrgica de Nossa Senhora de Lourdes (França), que se intitulou de Imaculada Conceição e cujo santuário é mundialmente conhecido pelas inúmeras curas de doentes. E Francisco, antes da recitação do Angelus com os fiéis reunidos na Praça de São Pedro, sublinhou hoje:
Nestes domingos, o Evangelho, segundo a narração de Marcos, apresenta-nos Jesus que cura os doentes de todos os tipos. Neste contexto, se insere bem o Dia Mundial dos Enfermos que se celebra precisamente hoje, 11 de fevereiro, memória de Nossa Senhora de Lourdes. Portanto, com o olhar do coração dirigido à gruta de Massabielle, contemplamos Jesus como o verdadeiro médico dos corpos e das almas, que Deus Pai enviou ao mundo para curar a humanidade, marcada pelo pecado e suas consequências.”.

A cura dos doentes no quadro da missão da Igreja
Porém, dá-me a impressão de que o Papa Francisco, na sua mensagem para este dia, pretende salientar a tarefa da cura dos doentes – miraculosa ou não – no quadro da missão da Igreja e no sentido mais amplo e profundo do poder de curar (cuidar de). Com efeito, o n.º 6 do documento pontifício em referência cita várias passagens neotestamentárias referentes ao poder-dom de curar confiado à Igreja: “Estes sinais acompanharão aqueles que acreditarem: (...) hão de impor as mãos aos doentes e eles ficarão curados” (Mc 16,17.18); Pedro curou, em Jerusalém, à entrada do Templo, “um homem, coxo desde o ventre materno” (cf At 2,4-8); e Paulo curou, em Listra, “um homem aleijado dos pés, coxo de nascença e que nunca tinha andado” (cf At 14, 8-11).
E sucede que, em Portugal, este dia mundial do doente culmina a semana de oração pelos doentes, que se situa entre duas passagens emblemáticas do dom da cura que o poder de Jesus concede a doentes do corpo ou do espírito que lhe são apresentados ou que se lhe apresentam a suplicar o milagre.
A perícopa do Evangelho de Marcos (Mc 1,29-39), proclamada na missa do 5.º domingo do tempo comum deste Ano B, refere que Jesus – tendo saído da sinagoga de Cafarnaum, onde pregara com tanta autoridade a ponto de um homem possuído de espírito maligno o interpelar sobre o que Jesus tinha a ver connosco (como tantos seres humanos o questionam hoje), embora soubesse que Ele “é o Santo de Deus”, e ganhara tanta fama por ter expulsado o espírito maligno e o mandasse calar – foi para casa de Simão e André, com Tiago e João. Ali, curou a sogra de Simão, que estava de cama com febre. À noitinha, trouxeram-lhe todos os enfermos e possessos, e a cidade inteira estava reunida junto à porta. Curou muitos enfermos atormentados por toda a espécie de males e expulsou muitos demónios (é a preocupação holística com o homem todo). E, após o necessário tempo de descanso e um longo momento de oração a sós, decidiu ir com os discípulos para outra parte, para as aldeias vizinhas, para ali pregar, pois foi para isso que veio.
“E foi por toda a Galileia, pregando nas sinagogas deles e expulsando os demónios”.
Já a perícopa do Evangelho deste 6.º domingo (Mc 1,40-45) relata a cura dum doente, um leproso, que, não podendo por lei aparecer junto das pessoas, saltou por cima da Lei, veio ter com Jesus, “caiu de joelhos e suplicou: Se quiseres, podes purificar-me. O Senhor compadeceu-se daquele homem tido como excluído e pecador (a lepra é a imagem do pecado) “estendeu a mão e, na sua misericórdia e audácia, tocou-o e disse: Quero, fica purificado. Mandou que não dissesse nada a ninguém e que fosse, de imediato cumprir o preceito da Lei mostrando-se ao sacerdote e oferecendo pela purificação o estabelecido por Moisés, a fim de servir de testemunho.
Porém, o antigo leproso, assim que se retirou, começou a proclamar e a divulgar o sucedido, a ponto de Jesus não poder entrar abertamente numa cidade; ficava fora, em lugares despovoados. E de todas as partes iam ter com Ele. Se Ele não aparece, os ansiosos vêm ao seu encontro!
Segundo Francisco, este é o poder de Jesus, este é o dom da cura, que se torna “o dever da Igreja, bem ciente de que deve pousar, sobre os doentes, o mesmo olhar rico de ternura e compaixão do seu Senhor”, mesmo à custa da quebra de protocolos. Assim, “a pastoral da saúde permanece e sempre permanecerá um dever necessário e essencial, que se há de viver com um ímpeto renovado começando pelas comunidades paroquiais até aos centros de tratamento de excelência”.
E o Papa entende que este serviço de acompanhamento dos doentes não é exclusivo da Igreja (nem todo o serviço de Igreja requer veste eclesiástica), a qual deve encher-se de zelo, acompanhar e animar, reconhecendo, por exemplo, “a ternura e a perseverança com que muitas famílias acompanham os seus filhos, pais e parentes, doentes crónicos ou gravemente incapacitados”. Na verdade, “os cuidados prestados em família são um testemunho extraordinário de amor pela pessoa humana e devem ser apoiados com o reconhecimento devido e políticas adequadas”. Por outro lado, os “médicos e enfermeiros, sacerdotes, consagrados e voluntários, familiares e todos aqueles que se empenham no cuidado dos doentes, participam nesta missão eclesial” da cura, a qual constitui “uma responsabilidade compartilhada, que enriquece o valor do serviço diário de cada um”.
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O serviço aos doentes na maternidade de Maria e da Igreja e no discipulado e apostolado
É certo que a perícopa do Evangelho recomendada para a missa da memória de Nossa Senhora de Lourdes (Jo 2,1-11), em que Maria, compadecida daquela gente das bodas por causa da necessidade surgida naquela hora, se aproxima do Filho a dizer “Não têm vinho” e, apesar da resposta despiciente de Jesus (e/ou de que ainda não tinha chegado a sua hora), disse aos serventes: “Fazei tudo o que Ele vos disser”. Eles fizeram e o milagre surgiu. Assim, sabe-se que o serviço à colmatação das necessidades, o serviço ao Reino é compartilhado e resulta da atenção, solicitude, vontade, dom e poder: Deus quer a cooperação solícita solidária das pessoas.
Porém, o Papa Francisco, na sua mensagem, enquadra o serviço aos doentes no âmbito da maternidade de Maria e da Igreja e na abrangência do discipulado e do apostolado, partindo da cruz. De facto o emblema da Mensagem é “Eis o teu filho! (…) Eis a tua mãe! E, desde aquela hora, o discípulo acolheu-a como sua” (Jo 19,26-27). O Pontífice realça que “o serviço da Igreja aos doentes e a quantos cuidam deles deve continuar, com vigor sempre renovado, por fidelidade ao mandato do Senhor (cf Lc 9,2-6, Mt 10,1-8; Mc 6,7-13) e seguindo o exemplo muito eloquente do seu Fundador e Mestre”. Com efeito, para Francisco, aquelas palavras do Senhor no Evangelho de João – “Eis o teu filho! (…) Eis a tua mãe!” – “iluminam profundamente o mistério da Cruz”, que longe de representar “uma tragédia sem esperança”, constitui o eminente “lugar onde Jesus mostra a sua glória e deixa amorosamente as suas últimas vontades, que se tornam regras constitutivas da comunidade cristã e da vida de cada discípulo”. E são palavras de Jesus que evidenciam a “vocação materna de Maria em relação a toda a humanidade. Com este mandato, a mãe dos discípulos “cuidará deles e do seu caminho”, o qual engloba os aspetos materiais e os espirituais da sua educação.
O indescritível sofrimento da cruz trespassa a alma de Maria (cf Lc 2,35), como profetizava o velho Simeão, mas não a paralisa. Ao invés, segundo o Papa, “lá começa para Ela um novo caminho de doação, como Mãe do Senhor”, uma vez que, na cruz, Jesus Se preocupa “com a Igreja e toda a humanidade”, sendo que “Maria é chamada a partilhar esta mesma preocupação”. E como nos mostra o livro dos Atos dos Apóstolos, “ao descrever a grande efusão do Espírito Santo no Pentecostes”, Maria “começou a desempenhar a sua tarefa na primeira comunidade da Igreja” – “tarefa que não mais terá fim”.
Por seu turno, João, como discípulo amado, “representa a Igreja, povo messiânico”. Reconhecendo “Maria como sua própria mãe”, “é chamado a recebê-La, a contemplar n’Ela o modelo do discipulado e também a vocação materna que Jesus Lhe confiou incluindo as preocupações e os projetos que isso implica: a Mãe que ama e gera filhos capazes de amar segundo o mandamento de Jesus”. Assim, porque “a vocação materna de Maria, a vocação de cuidar dos seus filhos, passa para João e toda a Igreja”, é “toda a comunidade dos discípulos” que “fica envolvida na vocação materna de Maria”.
Como discípulo que partilhou tudo com Jesus, João “sabe que o Mestre quer conduzir todos os homens ao encontro do Pai” e pode testemunhar que Jesus encontrou muitas pessoas doentes no espírito, porque cheias de orgulho (cf Jo 8,31-39), e doentes no corpo (cf Jo 5,6), tendo a todos concedido “misericórdia e perdão e, aos doentes, também a cura física, sinal da vida abundante do Reino”. Como Maria, “os discípulos são chamados a cuidar uns dos outros” e a cuidar de “todos, sem exclusão”. Na verdade, “a todos deve ser anunciado o Evangelho do Reino, e a caridade dos cristãos deve estender-se a todos quantos passam necessidade, simplesmente porque são pessoas, filhos de Deus”.
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Com este serviço histórico ilumina-se o presente e o futuro
Dando a entender que não está a enunciar uma doutrina e praxe pastoral novas, o Pontífice reconhece que “esta vocação materna da Igreja para com as pessoas necessitadas e os doentes” se vem concretizando, “ao longo da sua história bimilenária, numa série riquíssima de iniciativas a favor dos enfermos” – uma “história de dedicação” que “não deve ser esquecida” e “continua ainda hoje, em todo o mundo”.
E, mesmo “nos países onde existem sistemas de saúde pública suficientes”, há um lugar específico para o trabalho pastoral da Igreja: “o trabalho das congregações católicas, das dioceses e dos seus hospitais, além de fornecer cuidados médicos de qualidade, procura colocar a pessoa humana no centro do processo terapêutico e desenvolve a pesquisa científica no respeito da vida e dos valores morais cristãos”.
É claro que, “nos países onde os sistemas de saúde são insuficientes ou inexistentes, a Igreja esforça-se por oferecer às pessoas o máximo possível de cuidados da saúde, por eliminar a mortalidade infantil e debelar algumas pandemias”. E, mesmo quando não é capaz de curar, ela, em todo o lado, “procura cuidar”, articulando o dever de evangelizar com a promoção social.
Na verdade, evidencia-se como “uma realidade muito concreta” a imagem da Igreja, preferida por Francisco, “como ‘hospital de campo’, acolhedora de todos os que são feridos pela vida”, visto que, “nalgumas partes do mundo, os hospitais dos missionários e das dioceses são os únicos que fornecem os cuidados necessários à população”.
Diz o Papa que “a memória da longa história de serviço aos doentes é motivo de alegria para a comunidade cristã e, de modo particular, para aqueles que atualmente desempenham esse serviço”. Todavia, adverte para a necessidade de “olhar o passado sobretudo para com ele nos enriquecermos”, devendo dele aprender:
A generosidade até ao sacrifício total de muitos fundadores de institutos ao serviço dos enfermos; a criatividade, sugerida pela caridade, de muitas iniciativas empreendidas ao longo dos séculos; e o empenho na pesquisa científica, para oferecer aos doentes cuidados inovadores e fiáveis”.
A boa “herança do passado ajuda a projetar bem o futuro”. Assim, o Papa exorta à preservação dos “hospitais católicos do risco duma mentalidade empresarial, que em todo o mundo quer colocar o tratamento da saúde no contexto do mercado, acabando por descartar os pobres”; e a aproveitar o postulado da “inteligência organizativa e a caridade” para exigir “que a pessoa do doente seja respeitada na sua dignidade e sempre colocada no centro do processo de tratamento”. E pretende o Pontífice que estas orientações sejam “assumidas também pelos cristãos que trabalham nas estruturas públicas, onde são chamados a dar, através do seu serviço, bom testemunho do Evangelho”.
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Da não impureza da doença à impureza do pecado
Hoje, o Papa declarou, comentando a história do leproso, que “o estigma social jamais nos deve afastar daqueles que sofrem”, pois “nenhuma doença é causa de impureza”. Se a doença envolve toda a pessoa, de modo nenhum afeta ou impede seu relacionamento com Deus. “Pelo contrário, uma pessoa doente pode estar ainda mais unida a Deus”. O que nos torna impuros é o pecado, disse o Pontífice enfatizando que “o egoísmo, o orgulho, o entrar no mundo da corrupção, essas são doenças do coração das quais é preciso sermos purificados, dirigindo-se a Jesus como o leproso: ‘Se queres, tens o poder de purificar-me’. E, como acentuou o Papa, “ao ouvir isso, Jesus sente compaixão, muito importante para fixar a atenção sobre essa ressonância interna de Jesus, como fizemos longamente durante o Jubileu da Misericórdia”. De facto, “não se entende a obra de Cristo, não se entende o próprio Cristo, se não entrarmos no seu coração cheio de compaixão”. E “é isso que o leva a estender a mão ao homem que sofre de lepra, tocá-lo e dizer-lhe: Eu quero, fica purificado”.
A lepra, no Antigo Testamento, “era considerada uma grave impureza e comportava a separação do leproso da comunidade”, pelo que a condição do leproso, ainda no tempo de Jesus, “era realmente dolorosa, porque a mentalidade do tempo o fazia sentir impuro diante de Deus e dos homens”. Porém, na atitude de Jesus, segundo o Papa, “o facto mais perturbador é que Jesus toca o leproso”, o que “era absolutamente proibido pela lei mosaica”, pois “tocar um leproso significava ser também contagiado também dentro, no espírito, isto é, tornar-se impuro”. Só que, “neste caso, o influxo não vai do leproso a Jesus para transmitir o contágio, mas de Jesus ao leproso para dar-lhe a purificação”. Por isso, nesta cura, admiramos, diz Francisco, a compaixão e a audácia de Jesus, que não se preocupa nem com o contágio, nem com as prescrições, mas apenas com vontade de “libertar aquele homem da maldição que o oprime”.
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Da purificação pessoal à atenção aos doentes e seus cuidadores
E o Papa pediu aos fiéis presentes na Praça de São Pedro que fizessem o exame de consciência e que, depois, repetissem com ele as palavras do leproso ‘Se queres, tens o poder de purificar-me’, garantindo que “todas as vezes que nos aproximamos do sacramento da Reconciliação com o coração arrependido, o Senhor repete também a nós: Eu quero, fica purificado!”. Assim, a desaparecendo a lepra do pecado, voltaremos “a viver com alegria o nosso relacionamento filial com Deus e somos readmitidos plenamente na comunidade”.
E poderia ter falado do sacramento da Santa Unção como canal de comunicação de uma graça especial para enfrentar as dificuldades próprias da doença grave ou da velhice. A este respeito, o n.º 315 do compêndio do Catecismo da Igreja Católica refere:
A Igreja, tendo recebido do Senhor a ordem de curar os enfermos, procura pô-la em prática com os cuidados para com os doentes, acompanhados da oração de intercessão. Ela possui sobretudo um sacramento específico em favor dos enfermos, instituído pelo próprio Cristo e atestado por São Tiago: Quem está doente, chame a si os presbíteros da Igreja e rezem por ele, depois de o ter ungido com óleo no nome do Senhor.” (Tg 5,14-15).
Francisco concluiu a alocução antes do Angelus invocando a intercessão da Virgem Maria, Nossa Mãe Imaculada, dizendo:
Peçamos ao Senhor, que trouxe aos enfermos a saúde doente, que cure também as nossas feridas internas com a sua infinita misericórdia, para assim nos dar novamente a esperança e a paz do coração”.
E, neste exercício de purificação pessoal, das doenças da alma, convém não olvidar a pertinência da recomendação apostólica plasmada no n.º 7 da mensagem papal para este XXVI Dia Mundial do Doente:
A Maria, Mãe da ternura, queremos confiar todos os doentes no corpo e no espírito, para que os sustente na esperança. A Ela pedimos também que nos ajude a ser acolhedores para com os irmãos enfermos. A Igreja sabe que precisa duma graça especial para conseguir fazer frente ao seu serviço evangélico de cuidar dos doentes. Por isso, unamo-nos todos numa súplica insistente elevada à Mãe do Senhor, para que cada membro da Igreja viva com amor a vocação ao serviço da vida e da saúde. A Virgem Maria interceda por este XXVI Dia Mundial do Doente, ajude as pessoas doentes a viverem o seu sofrimento em comunhão com o Senhor Jesus, e ampare aqueles que cuidam delas.”.
Na verdade, se no altar da Eucaristia, adoramos a Carne de Jesus, nos doentes, “encontramos as chagas de Jesus.” O cristão adora Jesus, procura Jesus, “sabe reconhecer as chagas de Jesus”.
Os doentes são convidados a viverem a sua vida “como um dom” e oferecerem-se, por Maria, “a Deus de todo o coração”. Não podem considerar-se “apenas recetores de solidariedade caritativa”, mas devem sentir-se “inseridos a pleno título na vida e missão da Igreja”, pois a presença silenciosa deles é “mais eloquente do que muitas palavras”, a sua oração, a oferta diária dos seus sofrimentos “em união com os de Jesus crucificado pela salvação do mundo”, a aceitação paciente e até feliz da sua condição “são um recurso espiritual, um património para cada comunidade cristã”. Não podem, por isso, ter “vergonha de ser um tesouro precioso da Igreja” (cf Francisco, Saudação aos doentes no final da Santa Missa, Fátima, 13 de maio de 2017).
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Tem mesmo a Igreja – e cada um dos seus membros (todos; e não só os bispos, sacerdotes e diáconos) – que refletir sobre o modo como olha o doente e o serviço que lhe presta ou acompanha.
2018.02.11 – Louro de Carvalho