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domingo, 14 de outubro de 2018

O dilema salvação-riqueza no Evangelho de Marcos (Mc 10,17-30)


Esta passagem evangélica (do XXVIII domingo do Tempo Comum no Ano B) distribui-se por três itens: a busca da vida eterna (salvação) por parte dum homem rico (17-22 – Mateus refere “um jovem “e Lucas “certo chefe”); o perigo das riquezas (23-27); e a recompensa pelo desprendimento (28-31). 
Um dilema surge neste evangelho de difícil solução: a salvação, que desejamos, e as riquezas, que nos seduzem. A salvação postula a prática dos mandamentos; e a posse das riquezas implica que, em vez da atitude avara, se assuma  a partilha com os mais necessitados. Porém, a situação é problemática porque o desejo ou a posse obsessiva da riqueza torna o homem rico e apegado aos bens materiais levando-o à acumulação sem freios. E, deste modo, se a riqueza não é compartilhada, arvora-se em ídolo que, exigindo a escravidão pessoal e alheia, se torna fonte de iniquidade. Ou, como assenta o Evangelho, o deus Mammon opõe-se ao Senhor e, nesta oposição, servimos a um e desprezamos o outro – escolha, difícil que, pressupondo a abertura do homem, depende da graça de Deus que pode atuar onde o homem falha totalmente.
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Alguém corre pressuroso para o Senhor
Efetivamente, um determinado indivíduo (eis, em grego), um homem reto, na sua inquietude e prontidão, corre para Jesus e, prostrando-se (gonypetêras) ante Ele, pergunta o que precisa de fazer para alcançar a vida eterna (A ideia de que a salvação depende das nossas obras!). A sua atitude de prostração foi um modo de adoração a Jesus  ou assumiu os contornos da proskinese oriental ou, ainda, se assimilou à maneira como os discípulos manifestavam a reverência pelos mestres, não só ajoelhando-se, mas abraçando-lhe os pés e beijando-os, visível em Madalena, que se abraçou aos pés do ressuscitado (Jo 20,17). A palavra “didáskale” (mestre) com que se dirige a Jesus parece apontar para a terceira hipótese. Mas a expressão vocativa completa é “didáskale agathê”. Ora, o adjetivo agathós originariamente significa “bom”, mas, ao qualificar nome que denota função ou profissão, não exprime a moralidade do referente, mas a sua excelência no mister. Assim, Jesus foi tratado por Mestre insigne ou excelente, que sabe dar as respostas, pois tem uma sabedoria incomum, a sabedoria de Deus. 
A pergunta denota insatisfação com a vida cómoda e rica face ao ambiente de pobreza e dificuldades da generalidade das pessoas. Algo teria de fazer o jovem para não ser excluído das bem-aventuranças que terá escutado dos lábios de Jesus (Mt 5,3-11). Esta inquietude quer dizer que as palavras de Jesus não tinham caído em terra baldia (Mc 4,8), pois, enquanto os outros mestres falavam da Lei como se fora um deus a quem se devia adorar (Eram puros intérpretes, que não distinguiam entre o verdadeiramente essencial e transcendente do contingente das normas de pureza ritual), Jesus falava da vida, dum Deus que é Pai e dum futuro muito mais relevante que a contingência circunscrita a um corpo mortal e aos bem materiais. E o interlocutor, sabendo que a sua riqueza não lhe proporcionava segurança e bem-estar por tempo ilimitado e pretendendo assegurar a vida futura, perguntava o que fazer. Por sua vez, Jesus pedagogicamente sustenta que ninguém é bom senão Deus (Com efeito, não era a hora de reiterar o segredo messiânico, mas de manter o mistério do homem-Deus que tudo recebe do Pai) e avança para a solução: para alcançar a vida, é imperativo guardar os mandamentos. É a resposta que revela que todo o ser humano é por natureza falível e limitado e que só Deus é o mestre por excelência, tendo só Ele a resposta a todas as interrogações da vida. Assim, Jesus afirma que a moralidade depende apenas de Deus, sendo a Lei a concretização da sua bondade, pois favorece os mais desamparados, as vítimas e não os carrascos. Os mandamentos remetem para Deus como o bom (cf Sl 118,1), o melhor dos mestres para obter a vida, de acordo com o que afirmou Moisés, após a Teofania do monte Horeb: 
Por todo o caminho que vos ordenou o Eterno, vosso Deus (Jahvé Elohim), andareis para que vivais e seja bem para vós e prolongueis os dias na terra que haveis de herdar (Dt 5,29).”.
Da bondade divina dão testemunho os salmos: “Provai e vede que o Senhor é bom” (Sl 34,8);  e “Tu és bom e fazes o bem; ensina-me os teus decretos” (Sl 119,68). Ao invés dos rabinos da  época, que tinham como norma a sentença de que não há nada bom exceto a Lei, o salmista indica que é do Senhor que devemos escutar, como discípulos, os preceitos e Jesus está na verdadeira linha da tradição, indicando que também Ele tem como mestre o único Deus. Neste sentido recorda ao seu interlocutor os mandamentos referentes às relações com o próximo (Ex 20,12-17  e Dt 5,16-21), os da segunda tábua do decálogo. O texto mais antigo (Êxodo) tem esta ordem: adultério, roubo, homicídio. Já  o Deuteronómio põe o homicídio a anteceder o roubo. E há uma diferença entre Marcos e os outros dois evangelistas dos sinóticos:  só Marcos completa a citação da tábua com “não defraudarás” (não privarás o próximo do que lhe é próprio, como em Dt 24, 14), o que significará: “não cobiçarás a casa do teu próximo, nem a mulher, nem o campo, nem o servo, nem a serva, o boi ou o asno, ou tudo que seja do teu próximo”. Marcos é, pois, o único dos sinóticos a referir este preceito e utiliza o verbo “apostereîn”, que sugere que não se pode reter o salário dos trabalhadores O preceito de não assassinar deve, contra os budistas que citam o texto para evitar a matança de animais, ser entendido como referido só à morte de seres humanos. E a honra devida aos pais expressa a preocupação com o seu sustento. Na sua resposta, Jesus aponta que no homem existe um dever que ele reduzirá ao amor e respeito para com o próximo, sem o qual a vida terrena se inferniza por falta de convivência e a vida eterna será a continuidade dessa desordem.
Quando à noção de próximo, são de referir, segundo os diversos textos, significados como: irmão, companheiro, camarada, amigo, esposo, amante e vizinho. Como mandamento da Lei, aparece em Dt 5, 20: Não dirás falso testemunho contra teu próximo. Com o significado de amigo temos: Teu amigo que amas como à tua alma (Dt 13,6). A passagem que o escriba [nomikós] cita em Lc  10,27 é Lv 19,18 é: Não te vingarás nem guardarás ira contra os filhos do teu povo, antes amarás o teu próximo como a ti mesmo. Segundo o comentário do rabino Meir Matziliah, “réa- amith- ben- am- ah” são os termos utilizados para designar “companheiro, próximo e irmão” (Ah é irmão e era usado para todo israelita). O livro do Levítico (19,17-18) tem: ah (irmão) amith (companheiro), ben (filho) am (povo) e rea (próximo). Assim, a citação será: 
Não odiarás o teu irmão [ah] no teu coração; repreenderás a teu companheiro [amith] e por causa dele não levarás sobre ti pecado. Não te vingarás nem guardarás ira contra os filhos [ben] do teu povo [am], mas amarás o teu próximo [reya] como a ti mesmo.
Próximo era todo o que merece o nosso amor. Jesus, com a parábola do bom samaritano (Lc cap 10) estende a ideia de próximo a todo homem, incluindo o que é nosso inimigo (desde que precise de nós). O próprio doutor da Lei, que pretendia saber quem era o seu próximo, descobriu que o próximo é aquele de que devemos ter compaixão, bem como aquele que tem compaixão de nós.
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Ante a resposta de Jesus, o rico reage perplexo dizendo que  vem guardando tudo isto desde a sua juventude [neotëtos]. Nestas palavras evidencia-se a integridade do homem que indica a sua boa disposição face aos ensinamentos de Jesus a quem chama de Mestre pela segunda vez e a afirmação da sua maturidade, pois a sua juventude era um passado mais ou menos recente. E Lucas refere que era um príncipe ou principal entre os judeus, o que requeria uma idade superior a 30 anos. Porém, Mateus (19,22) apresenta o interrogador como um jovem [neaniskos]. É uma divergência a testemunhar as diversas origens na transmissão das narrativas (Lucas segue com bastante precisão o relato de Marcos e, como Mateus, tem essa divergência). E, longe de jogar contra a história do facto, esta divergência, não sendo essencial, mostra como os evangelhos têm uma componente humana, dependente da condição do tempo e das testemunhas. Provavelmente “desde a minha juventude” (neotëtos]) transformou o indivíduo no homem jovem (neaniskos) de Mateus ou será tradução imperfeita do aramaico. E, Jesus, tendo-o olhado, amou-o e disse-lhe:
Uma só coisa falta: vai, vende quanto tens e dá aos pobres. E terás um tesouro no céu e vem. Depois, vem e segue-me (tendo tomado a cruz). – vd AugustinusMerk, para a inclusão de “tendo tomado a cruz” .
Marcos diz que, tendo fixado a vista nele, “o amou”, ao passo que outros traduzem por “lhe demonstrou o seu amor”. Em todo o caso, é gesto de ternura da parte de Jesus (talvez o beijo na fronte como os mestres faziam aos discípulos), que revela que reconhecia a verdade do testemunho do rico, humanamente dotado dos requisitos para entrar no círculo dos discípulos. E Jesus declara que a coisa em falta não é para ingressar na vida eterna, mas para se tornar um dos prediletos: é o despojamento total das riquezas, que são obstáculo à perfeição. Jesus exige a privação das riquezas, não como fim absoluto, mas como meio para obter a felicidade.  De facto, a causa importante é seguir o Mestre. Por outro lado, o despojamento não é destruição, mas repartição entre os necessitados. Ptöchos, no grego, é o homem que sobrevive com a caridade de outros. É usado o termo para descrever a viúva que deu duas moedas ao tesouro (Mc 12,42 e Lc 21,3) e os discípulos que tudo deixaram. Caso semelhante é o de Zaqueu que promete, em sinal de conversão, dar metade dos bens aos pobres, após ter restituído, segundo Lei, 4 vezes o injustamente roubado (Lc 19,8). Pobre é Lázaro, o mendigo da parábola do  epulário. Hoje, diríamos necessitados e não mendigos, já que pobres são os que não têm riquezas, propriedades.
Com a sua proposta, Jesus coloca o bem e a felicidade, não na proibição do decálogo, mas na prática generosa do desprendimento e do amor ao próximo. Assim, para entrar na vida, devemos evitar o mal; mas, para obter o tesouro celeste, temos mesmo de praticar o bem. Não fazer o mal ao próximo é compatível com a posse das riquezas, mas para fazer o bem devemos usá-las como meio e repartir. E este despojamento é a condição que Jesus exige dos discípulos: negar-se a si mesmo (Mc 8,34), ou seja, renunciar as todas as riquezas – materiais e espirituais – à ambição, posição social e poder, bem como renunciar a preeminências e privilégios. Assim o entenderam os primeiros cristãos que vendiam os seus bens e entregavam o produto da venda à comunidade.
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Contrariado e anuviado, o jovem afastou-se triste e pesaroso, pois tinha muitas propriedades. Esta retirada significa a dificuldade em o rico de seguir Jesus, por implicar uma renúncia muito difícil, e a tristeza que acompanha o homem rico quando contempla as necessidades do próximo e não o ajuda com os seus bens. Lucas não fala de retirada, mas supõe-na ao afirmar que ficou muito triste porque era enormemente rico (Lc 18,23).
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O comentário de Jesus sobre as riquezas
Tendo lançado o olhar ao redor, Jesus adverte os discípulos de como é difícil os que têm riquezas ("chrëmata"), bens (ou dinheiro, “chrëma) entrarem no reino do Deus, o que os deixou admirados. Porém, Jesus reitera:
Filhos, como é difícil aos que têm confiado nas riquezas entrarem no Reino de Deus” (Mc 10,24).
O termo utilizado no singular é dinheiro (chrema), como em At 4,37 – o dinheiro da venda do terreno de Barnabé, traduzido por pretium em latim, e em AT 8, 18 era o dinheiro (argýrion) que o mago Simão ofereceu a Pedro para obter os dons do Espírito Santo.
O jovem rico, que era um dos príncipes ou principais de Israel (Lc 18,18), ao ouvir que devia deixar a suas posses, afastou-se com amargura e tristeza, talvez porque pensava ser escolhido para integrar a chefia do novo Messias (aliás, era a ambição dos apóstolos). Foi a retirada do jovem o pretexto para Jesus falar abertamente com os discípulos, que acreditavam serem os ricos, os privilegiados de Jahvé (portanto, os que deviam ser escolhidos pelo Messias).  E, dado o espanto dos discípulos, Jesus matiza o discurso: não são apenas os ricos quem tem dificuldade em ingressar no Reino, mas também os que põem a esperança nas riquezas, ou seja, os que não as possuem, mas labutam por adquiri-las a todo custo.  Com efeito, as riquezas constituem a razão de ser e do agir de muitos, que tudo subordinam às riquezas, cuja sedução (com as demais concupiscências) leva ao sufoco da palavra  que fica sem fruto (Mc 4,19). E elas constituem em si mesmas um deus que escraviza e exige adoração divina (Mt 6,24). Por isso, ao transformarem-se em ídolo, são iníquas (mamona iniquitatis / mamoma tês adikías – Lc 16,9.11), sendo que “iniquidade” (adikia) é a palavra para significar “injustiça” no sentido humano, a lesão da justiça, a virtude correspondente (em Lc especialmente do juiz [18,6] e do desonesto administrador [16,8]).
O argumento de Jesus, além de insistente, é audaz e eloquente: “é mais fácil um camelo passar (dielthein) pelo orifício duma agulha que um rico entrar (eiselthein) no Reino de Deus” (Mc 10,25). O aoristo infinitivo de “dielthein” e eiselthein indica um tempo quase futuro de possibilidade e não um presente já em andamento. O buraco duma agulha  era símbolo de pequenez, ao passo que o camelo era então o animal de maior tamanho. Hoje, diríamos “um elefante”, tal como sucede na escola babilónica em que o Rabi Rabba troca o camelo pelo elefante e compara sonhos irrealizáveis com quem sonhou com uma palmeira de ouro ou com um elefante a passar pelo ocelo duma agulha. A comparação aduzida por Jesus evoca uma pequena parábola ou um provérbio da época que pretende sublinhar a dificuldade. Também Maomé, que foi educado num mosteiro cristão, afirma no Alcorão: 
Aos que desmentem e menosprezam nossas revelações, as portas do céu serão fechadas e não entrarão no paraíso até que o camelo passe pela fenda duma agulha” (Alc 7,40).
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Face ao discurso pedagogicamente subversivo de Jesus, os discípulos ficavam estupefactos dizendo entre si: Então quem pode ser salvo? Somente Lucas refere que eram os ouvintes quem comentava. Assim, as palavras de Jesus foram proferidas mais ou menos publicamente como uma asserção para toda a gente. Entende-se a perturbação emergente pela convicção epocal: os abençoados por Deus, os ricos, não se salvam ou dificilmente se podem salvar. Então é de perguntar o que se pode passar com o resto maioritário dos mortais.
Porém, Jesus, tendo fixado neles o olhar, esclarece através duma antítese em que sobressai o poder de Deus: para os homens é impossível, mas não para Deus (cf Lc 1,37), uma vez que para Deus todas as coisas são possíveis. Jesus afirma que o impossível (adynaton) para os homens é possível (dynaton) para Deus. E a história abunda em casos destes – como revelam os exemplos de António do Egito, de Francisco de Assis e de muitos outros – a confirmar a possibilidade exposta por Jesus. Os outros sinóticos escrevem o comentário final de Jesus com as mesmas palavras usando a oposição “impossível e  possível” correspondentes ao poder humano e à absoluta faculdade divina. Jesus sabia, por exemplo, que tanto José de Arimateia como Nicodemos eram pessoas ricas, mas que o amor deles à verdade era muito superior à sua ambição terrena. Nicodemos submete a sua sabedoria a Jesus quando lhe faz perguntas e lhe aceita as respostas. E José, num momento em que todos abandonam Jesus, faz-se seu coveiro, dando-lhe um sepulcro rico como a uma personagem amiga e venerada.
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O valor do desprendimento total
Então Pedro desafia: “Eis que nós abandonamos todas as coisas e te seguimos” (Mc 10,28). Lucas expressa com as mesmas palavras o pensamento de Pedro. Porém, Mateus adiciona a pergunta, implícita nos outros dois: Que podemos esperar? Ou seja: Que recebem os que abandonam tudo para seguir Jesus? Segundo Marcos, Jesus, em resposta, declara: 
Em verdade vos digo: Não há ninguém que tenha abandonado casa, ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe, ou mulher, ou filhos, ou campos por minha causa e do evangelho que não receba centuplicados agora neste tempo casas e irmãos e irmãs e mães e filhos e campos no meio de perseguições e na outra época que vem a vida eterna.” (Mc 29-31).
Lucas praticamente coincide com Marcos, enquanto Mateus contém um inciso peculiar. Antes de se dirigir aos seus seguidores em geral, Jesus fala aos seus imediatos apóstolos, os doze: 
Em verdade vos digo: No dia da regeneração de todas as coisas, quando o Filho do Homem se sentar no seu trono de glória, vós, que me seguistes, haveis de sentar-vos em doze tronos para julgar as doze tribos de Israel(Mt 19,28). 
Para Mateus, a resposta tem duas componentes: a dada aos doze apóstolos; e a dirigida a todos os abandonam tudo para seguir Jesus. A primeira, que só Mateus relata porque se refere diretamente a Israel – que não interessava aos gentios – releva a fundação dum reino novo sob o poder do Messias, em que o poder judicial, definindo quem é inocente (entra) e quem é culpado (fica de fora), seria dado aos apóstolos. Mateus identifica esse tempo com uma regeneração ou novo nascimento [palingenesia], que implica a instauração do Reino, significando o tempo após a ascensão de Jesus (quando o Filho do Homem estiver assentado no trono de sua glória), em que eles então se tornarão juízes das doze tribos de Judá. A segunda, narrada pelos três sinóticos, apresenta Jesus a enumerar esse tudo que abrange a família (o mais próximo e sagrado que há) e os bens, por escolha do evangelho; os tais  receberão neste mundo (en to kairo touto) o cêntuplo   (máximo rendimento duma semente e dum capital) que Lucas (mais moderado) afirma ser muitas vezes mais, e assegurarão a vida eterna. Esta promessa, válida em todos os tempos, tem levado muitos à vida religiosa, como anacoretas e cenobitas nos primeiros séculos, como monges e frades na Idade Média e como regulares e associados de institutos religiosos e seculares nos tempos modernos. E pode dizer-se que a promessa se cumpre, já aqui na terra, com os notáveis aumentos de paz e bem-estar na vida dos que O seguem, bem como na comunhão fraterna, como o entenderam os primeiros cristãos. Marcos tem um inciso surpreendente: “juntamente com perseguições” – o que era factual quando ao tempo da escrita do seu evangelho (antes dos anos 50), posterior à morte de Estêvão (ano 40, vd At 6, 8 – 7,1-60) à perseguição de Agripa (43-44, vd At 12,1-19) em que morre Tiago e é encarcerado Pedro. E é isso o que podem esperar os cristãos que o sã a sério.
O jogo dos últimos e primeiros com que termina a perícopa configura a profecia de que aqueles que, ao modo do jovem rico, não renunciam, passam de primeiros a últimos, mas quem se despoja de tudo e segue o Mestre, passa de último a primeiro.
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É de convocar a sabedoria que o hagiógrafo preferiu e implorou (Sb 7,7) para compreendermos e degustarmos esta Palavra de Deus cortante, viva e eficaz, que nos penetra o íntimo (Heb 4,12-13).
2018.10.14 – Louro de Carvalho

domingo, 15 de julho de 2018

A missão é um imperativo profético para os cristãos


Falar em nome de Deus, testemunhar o seu nome e desígnio junto das pessoas é imperativo inerente à condição dos profetas, que são chamados por Deus e enviados para falarem em nome d’Ele denunciando erros e injustiças, trazerem a consolação de Deus e anunciar na esperança a era da paz e da justiça e comprometerem-se com o que anunciam. Esse chamamento de Deus é pessoal e incide sobre pessoas das mais diversas condições; e a missão é para cumprir, ainda que tenha de enfrentar a oposição dos instalados na religião, na política e na sociedade.  
A Liturgia da Palavra do 15.º domingo do Tempo Comum no Ano B seleciona para proclamação e reflexão um pequeno texto de Amós (Am 7,12-15), que nos dá conta do diálogo do profeta com Amasias, sacerdote de Betel, que sentiu o incómodo da profecia, que o desinstalava, e como solução exigia a fuga de Amós para a terra de Judá. Com efeito, Betel dispunha de santuário e sacerdotes, pelo que, na sua autossuficiência, não precisava de profecia. Os outros, os de longe, os que são maus, é que precisam de ouvir a Palavra e converter-se. Além disso, podem pagar o serviço da profecia e sustentar o profeta, como se a obrigação de professar estivesse dependente do pagamento do serviço.
Ora, o profeta reage esclarecendo Amasias de que não se alcandorara ao estado de profeta por si próprio, pois até nem era profeta nem filho de profeta (como eram os sacerdotes em Israel), mas um simples pastor de gado e cultor de sicómoros. Porém, foi surpreendido pelo chamamento do Senhor que o tirou da guarda do rebanho e o enviou a profetizar ao povo de Israel.
Assim, cumpre ao profeta ser fiel à vocação e cumprir com alegria e entusiasmo a missão que Deus lhe confiou, mesmo que incomode ou tenha a oposição dos destinatários ou os líderes instalados o tentem impedir.
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Também o Evangelho (Mc 6,7-13) nos apresenta Jesus a chamar os doze apóstolos e a enviá-los dois a dois. Tinha-os escolhido para discípulos e, como tais, deveriam aprender os ensinamentos do Mestre. Mas não basta aprender a doutrina; é preciso seguir o Mestre nas suas indicações e nos seus passos. 
O Evangelho de Marcos começa por vincar a ideia de Jesus, o Messias que proclama o Reino de Deus. Depois, Jesus apresenta a sua proposta ao grupo de discípulos, que escutam o apelo e aceitam embarcar nesta aventura. E Marcos narra como Jesus, com palavras e gestos concretos, vai explicitando a nova realidade do Reino e intercala as propostas de Jesus com as respostas (positivas ou negativas) dos fariseus, do povo e dos próprios discípulos. E, à medida que se avança no “caminho do Reino”, os discípulos surgem cada vez mais ligados a Jesus e implicados no seu projeto. Chamados Ele, responderam positivamente e seguiram-no; e, na caminhada que fizeram com Ele, escutaram os seus ensinamentos e testemunharam os seus gestos e sinais. Formados na escola do Reino, podem agora ser guindados à missão de apóstolos e ser enviados ao mundo, a fim de anunciarem a todos os homens a chegada desse mundo novo, o “Reino de Deus”.
Ora, a perícopa em causa constitui um exercício que antecipa a missão futura dos doze. De discípulos hão de passar a apóstolos em pleno, a missionários, a enviados a toda a Terra a fazer discípulos, que, por seu turno, hão tornar-se apóstolos/missionários. Neste envio, embora ocasional, como se disse, o Senhor deu-lhes poder sobre os espíritos impuros e ordenou-lhes o despojamento: que nada levassem para o caminho, a não ser o bastão – nem pão, nem alforge, nem dinheiro. Mais: deviam assumir a condição de peregrinos, calçados com sandálias e levando apenas uma túnica. Também deu uma indicação metódica: entrando numa casa, deviam ali permanecer até ao momento da partida; e, se não fossem recebidos em alguma localidade, se os seus habitantes não os ouvissem, ao saírem de lá, sacudiriam o pó dos pés como testemunho contra eles. E os Apóstolos partiram e efetivamente pregaram o arrependimento, expulsaram muitos demónios, ungiram com óleo a muitos doentes e curaram-nos.
O texto evangélico é uma a catequese sobre a missão no meio do mundo. As instruções postas na boca de Jesus conservam o seu sentido e valor para os discípulos de todos os tempos e lugares. Marcos deixa claro que a iniciativa do chamamento é de Jesus: Ele “chamou-os”. E não há explicação sobre os critérios que levaram a essa escolha. Assim, falar de vocação e eleição é falar dum mistério insondável, que depende de Deus e que o homem nem sempre atinge.
E porque são doze os enviados? A resposta passa pela consideração do simbolismo do número 12, que remete para as 12 tribos do antigo Povo de Deus. E os “doze” representam a totalidade do novo Povo de Deus. É a totalidade do Povo de Deus que é enviada em missão.
O envio de dois a dois provavelmente terá a ver com o costume judaico de viajar acompanhado, para ter ajuda e apoio em caso de necessidade, e com as exigências da lei judaica, segundo a qual eram precisas duas testemunhas a credibilidade dum anúncio. Por outro lado, a exigência de partirem “dois a dois” sugere que a evangelização tem dimensão comunitária. O discípulo não deve trabalhar a sós, à margem da comunidade; não deve anunciar as suas ideias, mas a fé da Igreja. O anúncio do Evangelho é feito em nome da comunidade e deve estar em sintonia com a fé da comunidade.
A seguir, o evangelista define a missão (“deu-lhes poder sobre os espíritos impuros). Os espíritos impuros tudo o que escraviza o homem e o impede de chegar à plenitude da vida. A missão consiste, pois, em lutar contra tudo o que destrói a vida e a felicidade do homem. É da ação libertadora dos discípulos que nasce um mundo novo, o mundo de homens livres.
Depois, vêm as indicações para a missão. Na ótica de Jesus, os discípulos devem partir num despojamento de bens e seguranças. Têm de ser totalmente livres como Amós o foi e não estar reféns de bens materiais; ao invés, a preocupação com esses bens pode tirar-lhes a liberdade e a disponibilidade. Por outro lado, a atitude de pobreza e despojamento ajudá-los-á a perceber que a eficácia do anúncio não depende da abundância de bens materiais, mas da ação divina. A sobriedade e o desapego são sinais de que o discípulo confia em Deus e contribuem para a credibilidade do testemunho.
Também é referido o comportamento dos discípulos ante a hospitalidade oferecida: devem permanecer na casa onde forem acolhidos, pois é necessário construir comunidade. O saltar ao sabor de disposições, amizades, interesses ou conveniências pessoais é contraindicado. E, se não forem recebidos num lugar, ao abandoná-lo, devem “sacudir o pó dos pés” – gesto que os judeus praticavam ao regressarem de território pagão a simbolizar a renúncia à impureza e, no Evangelho, a significar o repúdio pela recusa das propostas de Deus.
Por fim, Marcos descreve a realização da missão: pregavam a metanoia ou conversão de mentalidade, valores, de atitudes, voltando-se para Jesus a acolher o seu projeto; expulsavam demónios; e curavam os doentes – tudo na sequência da missão do Messias.
O anúncio confiado aos discípulos é o anúncio que Jesus fazia e os gestos que eles são solicitados a fazer no anúncio do “Reino” os gestos de Jesus, o que significa que Jesus convida a Igreja a continuar na história a sua obra libertadora em prol do homem.
Veja-se o paralelismo que há entre esta cena e a referida no fim do Evangelho de Marcos. Os elementos de composição da missão são muito semelhantes:
Apareceu, finalmente, aos próprios Onze [Judas tinha desertado e entregado o Mestre] quando estavam à mesa, e censurou-lhes a incredulidade e a dureza de coração em não acreditarem naqueles que o tinham visto ressuscitado. E disse-lhes: ‘Ide pelo mundo inteiro, proclamai o Evangelho a toda a criatura. Quem acreditar e for batizado será salvo; mas, quem não acreditar será condenado. Estes sinais acompanharão aqueles que acreditarem: em meu nome expulsarão demónios, falarão línguas novas, apanharão serpentes com as mãos e, se beberem algum veneno mortal, não sofrerão nenhum mal; hão de impor as mãos aos doentes e eles ficarão curados.’ Então, o Senhor Jesus, depois de lhes ter falado, foi arrebatado ao Céu e sentou-se à direita de Deus. Eles, partindo, foram pregar por toda a parte; o Senhor cooperava com eles, confirmando a Palavra com os sinais que a acompanhavam.” (Mc 16,12-20).
No Evangelho deste domingo, parece que a ação missionária (envio, conteúdos e sinais) ficaria reservada aos apóstolos, que se sujeitavam quer ao bom acolhimento quer à oposição. Em contraponto, a perícopa final de Marcos comporta uma ampliação dos destinatários e dos conteúdos, bem como a extensão da obrigação e poder inerentes ao envio apostólico. Assim, os enviados não se ficam por Israel, mas irão a todo o mundo a pregar o Evangelho a todos; o arrependimento a que exortam fica enquadrado por toda a dinâmica do Evangelho, cujo ponto fulcral é a Ressurreição de Jesus como base da nossa fé e como garantia esperançosa da nossa ressurreição. Depois, a pregação é selada pelo batismo. E será o batismo, aliado à fé, que dará o estatuto de discípulos e de apóstolos a quem o recebe. Por isso, os sinais acompanharão aqueles que acreditarem; e estes expulsarão demónio sem nome de Cristo, imporão as mãos aos doentes e eles ficarão curados.
Obviamente, o Senhor previu a oposição dos destinatários, mas isso não impediu que os apóstolos fossem por toda a parte e que o Senhor cooperasse com eles, confirmando a Palavra com os sinais que a acompanhavam.
Há, porém, uma notável diferença: no texto do 15.º domingo, Jesus está visivelmente à espera dos discípulos para Lhe darem contas do desempenho; e, no texto final de Marcos, o Senhor já ressuscitado foi arrebatado ao Céu e sentou-se à direita de Deus. Não os espera visivelmente aqui, mas enviou-lhes o Espírito Santo para garantir a presença de Cristo junto deles até ao fim dos tempos e para os revestir da força do Alto (cf Mt 28,20; Lc 26,49).
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Como se pode ver a partir do Evangelho, o dever de falar em nome de Deus, de o testemunhar, de pôr o dedo nas feridas causadas pelo mal às pessoas e à sociedade e de anunciar na esperança a nova era da liberdade, da paz e da justiça – chamemos-lhe profecia ou apostolado – não fica refém dum grupo específico de pessoas. Ao invés, todos os batizados são chamados por Deus quer à prática da santidade – pelo culto da Palavra, pela oração e participação nos sacramentos e pela prática da caridade – quer à profecia. E esta faz-se pela utilização da palavra, sim, mas sobretudo pelo testemunho que quem está no mundo, mas não é do mundo.
Naturalmente, nem todos terão as mesmas possibilidades e os mesmos papéis a desempenhar, mas todos temos de estar implicados no processo de anúncio do Evangelho: não nos podemos calar e temos de obedecer antes a Deus que aos homens (cf At 5,29). O ideal é que os interesses dos homens coincidam com os interesses de Deus.
E, embora precisemos de líderes e de saber apreciar a diversidade de carismas num único Espírito (cf 1Cor 12,4-31) para aspiramos aos melhores dons, cada um segundo a sua condição deve fazer-se discípulo ativo e, por consequência, tornar-se apóstolo de Cristo e tentar imbuir do espírito evangélico as estruturas sociais onde desenvolve a sua atividade ou onde a sua presença é assídua e também estar disponível para o desempenho de missões extraordinárias e eventualmente em lugares aonde lhe for dado ir. É a profecia tornada apostolado e missão!
2018.07.15 – Louro de Carvalho

domingo, 5 de novembro de 2017

Na terra não chameis a ninguém vosso pai nem vos deixeis tratar por mestres e doutores

A recomendação de Cristo sintetizada em epígrafe, se levada à letra, escandalizará quem repare na profusão de títulos académicos e honrarias, cerimoniais e adereços que emolduram as pessoas que detêm responsabilidades políticas, militares, académicas e religiosas. Quem não prefere o tratamento de marechal e general ou almirante e vice-almirante, Professor Catedrático, Doutor, Mestre, Eminência, Excelência Reverendíssima, Patriarca, Cardeal, Arcebispo, Bispo, Monsenhor, Cónego, Padre…? É a expressão do carreirismo e subida, se possível, a pique na hierarquia social, política, militar e eclesiástica que domina pessoas e instituições em vez do profissionalismo, o título plasmado em diploma pelo título baseado na competência certificada.
O evangelho de Mateus assumido como proclamação e meditação da Boa Nova no XXXI domingo do Tempo Comum no Ano A (Mt 23, 1-12) escalpeliza estas pretensões nos discípulos de Cristo e que se tornam aberrantes no foro eclesiástico e nas sociedades modeladas pelo cristianismo, por maioria de razão se os títulos são forjados ou comprados e os cursos obtidos por meios pouco ortodoxos.
A perícopa do Evangelho de Mateus reflete a “zanga de Deus” com os sacerdotes, evidenciada pelo profeta Malaquias na passagem assumida como 1.ª leitura desta XXXI dominga (Ml 1,14b; 2, 2b.8-10). Na verdade, nas palavras deste profeta veterotestamentário, Deus censurou duramente os que se desviaram do bom caminho e sobretudo aqueles que tinham a obrigação de ensinar os outros a cumprir, mas foram, antes, ocasião de escândalo e de relaxamento da doutrina e dos costumes. Malaquias, provável precursor das reformas religiosas de Esdras e Neemias, censura, por meados do século V aC, os vícios, a negligência e a falta de zelo dos sacerdotes.
E a perícopa foi escolhida, pelos liturgistas organizadores do lecionário dominical, para 1.ª leitura em função do Evangelho em que Jesus escalpeliza os vícios dos escribas e fariseus, na mesma linha da denúncia dos profetas antigos, mas com uma autoridade muito superior.
A censura veiculada pelo profeta constitui uma espécie de ultimatum. Com efeito, Deus já não pode suportar por mais tempo a maneira como alguns sacerdotes celebram o culto e ensinam (ou desensinam) a Lei, bem como as normas de conduta, as frequentes disputas e injustiças do povo. Tudo isto constitui profanação da Aliança celebrada entre Deus e o povo, a qual não pode reduzir-se a meras exterioridades, mas tem de ser vivida com inteligência, forças e coração.
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Fixando-nos à roda do Evangelho, verificamos que o texto refere o último dos ensinamentos públicos de Jesus. É de recordar que Jesus está em Jerusalém, muito próximo do momento da sua prisão, e foi mantendo duros confrontos com as diversas categorias de pessoas: sumos sacerdotes, anciãos, herodianos, escribas, fariseus, etc.. Não contesta a religiosidade judaica como tal, mas a tentativa de alguns, dos chefes em particular, alterarem os valores autênticos com atitudes sem coerência. Com este texto, Mateus chama a atenção da sua comunidade para os cristãos não caírem nos mesmos erros.
A perícopa divide-se em 2 partes distintas: vv.1-7, criticando o Mestre os que se sentaram na cadeira de Moisés (e dela abusaram); e vv.8-12, com as recomendações plasmadas em epígrafe. Porém, é de ter em conta que todo o capítulo 23 do Evangelho de Mateus, pronunciado perante a multidão e os discípulos, configura uma longa e terrível acusação contra os escribas e fariseustendo nós aqui a denúncia duma série de vícios. Jesus, a suma bondade, não despreza nem pretende condenar ninguém, mas quer a conversão de todos. Numa situação extrema, tenta um último recurso: a violenta denúncia pública, no estilo dos antigos profetas, mas com mais autoridade. Mais ainda: Jesus aparece não só a defender o povo humilde dos escândalos com que podia vir a ser desencaminhado, mas, acima de tudo, a estabelecer os princípios que hão de reger a vida dos cristãos: uma moral que se baseia na pureza do coração e na retidão de intenção, bem como um novo culto, não feito de exterioridades ocas. As cores negras das palavras de Jesus também refletem a época da redação definitiva do Evangelho, em que o farisaísmo que sobreviveu à destruição de Jerusalém tinha passado a uma posição hostil ao cristianismo; de facto, entre os contemporâneos de Jesus, havia fariseus e doutores da Lei muito respeitáveis, em especial na escola liberal como Hillel e Gamaliel I, para não falarmos de Nicodemos. De qualquer modo, Jesus não aparece a condenar as pessoas em si mesmas, mas a fustigá-las enquanto detentoras dos vícios denunciados.
O capítulo configura a condenação dos guias cegos de Israel, que se recusam a entrar no Reino messiânico e impedem a entrada nele ao povo eleito, a ponto de terem levado ao extremo a medida da iniquidade dos pais (v.32), tendo assim preparado a extrema desgraça do abandono divino (v.38). O discurso do capítulo, que prepara o dos últimos tempos (cc. 24-25), é um eco da polémica antijudaica com que se defrontou a Igreja primitiva. Podemos, pois, imaginar que as palavras originárias de Jesus se revestiram de tons e cores peculiarmente ásperos próprios de tal polémica. Os outros sinóticos referem apenas a parte da perícopa referente à hipocrisia dos escribas, mas Lucas coloca as duras invectivas contra os fariseus no cenário duma refeição oferecida a Jesus por um fariseu (cf Lc 11,37-52). Em Mateus, o discurso divide-se em 4 partes: a acusação de hipocrisia (vv.2-7); digressão recomendatória sobre a comunidade cristã perfeita (vv. 8-12) – já referidas –; as sete maldições (vv. 13-32); e o juízo condenatório (vv. 33-38), que encerra com um leve aceno de salvação (v.39). A referência ao ensino dos escribas, “sentados na cátedra de Moisés”, era real nas sinagogas, mas também encerra algo simbólico porque se tornou sinal de poder. Por isso, Jesus pregava estando sentado no chão (Mt 5,1), ao invés dos sentados na cátedra donde vociferavam arrogância e jactante soberba. Jesus não veio abolir a Lei, mas para a levar ao cabal cumprimento, isto é, os mandamentos autênticos são para pôr em prática: “Fazei e observai tudo o que eles vos dizem”, mas não façais o que eles fazem.
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Já no Sermão da Montanha Jesus tinha dito: “Se a vossa justiça não for superior à dos escribas e dos fariseus não entrareis no reino dos céus” (Mt 5,20), seguindo-se a interpretação autêntica da Lei: “Ouvistes o que foi dito… mas eu digo-vos”. Assim, supera a observância formal da Lei porque chegou o reino de Deus. Anunciando que o reino de Deus está aqui, Jesus oferece um novo critério de ação que não suprime a Lei, mas revela o seu sentido autêntico.
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A religiosidade pode ser puro motivo de exibicionismo (Mt 23, vv.5-7) contrário ao ensinamento no discurso da montanha. As boas obras devem-se praticar em segredo e não para que os outros vejam e louvem quem as faz. Mais importante para o discípulo não é o consenso social e o respeito dos homens, nem os títulos de honra (Rabbi – mestre). Ora, o trecho dos vv. 8-12, dada a sua tonalidade claramente “cristã”, segundo Angelo Lancellotti, parece estar fora do seu contexto original. É aqui mencionado mercê da referência à palavra “rabbi” (literalmente, “meu senhor” ou “meu mestre”) do v. 7, que o precede. “Rabbi” é o título honorífico que, desde o fim do século I dC, ficou reservado aos doutores da Lei. Dele se origina o termo “rabino”, conhecido.
Neste contexto de soberba arrogante e hipócrita dos fariseus, Jesus pede aos seus que não andem à cata de títulos honoríficos como expressão de preeminência, pois isto romperia o secreto e sagrado vínculo que une numa só família os diversos membros da comunidade cristã entre si e que, ao mesmo tempo, une esta comunidade a Deus Pai e a Cristo Mestre. E a recomendação de que a ninguém chamemos “pai”, contra qualquer aparência, dado o seu caráter tipicamente oriental, não pretende negar a atribuição de pai ao progenitor e a relação de piedade filial do filho para com o pai, mas, por um lado, não atribuir a ninguém indevidamente este título e, por outro, reconhecer que em Deus reside a fonte de toda a paternidade. Além disso, Jesus não pretende quebrar o vínculo espiritual de paternidade entre os mestres e os discípulos ou entre os chefes das comunidades e os seus membros, mas advertir os discípulos de que nunca serão donos da doutrina, não podendo, assim, tornar-se autorreferenciais e fixar definitivamente a doutrina, como faziam os fariseus. A referência evangélica é Jesus, que, por seu turno, se referencia ao Pai: “A minha doutrina não é minha, mas d’Aquele que me enviou” (Jo 7,16); e “Eu sou a verdadeira vide e meu Pai é o agricultor” (Jo 15,1). E aqui o mestre, que nunca se intitulou de Pai, mas chegou ao ponto de chamar “filhinhos” aos discípulos (vd Jo 13,33) e de dizer que não os deixaria órfãos (vd Jo 14,18), diz: “Na terra não chameis a ninguém vosso ‘Pai’, porque um só é o vosso pai, o Pai celeste” (Mt 23,9). A linguagem é chocante para vincar bem a lição a colher.
Deus é, pois, nosso Pai e ninguém se pode interpor a Ele. Por isso, o discípulo de Cristo deve evitar conferir a si mesmo alguns títulos: rabbi (mestre), pai, doutor – pois somos todos irmãos.
A comunidade de Jesus está delineada no discurso das Bem-aventuranças com suas exigências radicais. Esta comunidade tem o seu ideal no ‘serviço’ (Mt 20,28) do Filho do Homem, modelo da Igreja. A autoridade do chefe qua tali perde atração, já não um ideal: “O maior entre vós seja vosso servo” (v.11). Nas palavras de Jesus está muito mais que uma polémica com os escribas e fariseus, que uma exortação a sermos coerentes. É uma chamada de atenção à própria identidade dos discípulos, à novidade que eles são chamados a testemunhar.
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É esta relação com a paternidade divina, que inclui o lado materno, que na sua 1.ª Carta ao Tessalonicenses (vd 1TS 2,7b-9.13), Paulo revela toda a ternura que nutre para com os fiéis que fez nascer para a fé – “como a mãe que acalenta os filhos…” – e vai ao ponto de renunciar a receber qualquer recompensa pelo seu trabalho, não querendo tornar-se pesado, pois todo o seu desejo era “partilhar não só a fémas até a própria vida; ao mesmo tempo, assim, também afirmava a sua independência. No entanto, sabemos que recebia ajudas dos fiéis (cf 2Cor 11,8-9) e chegava reivindicar esse direito: “o Senhor ordenou que aqueles que anunciam o Evangelho vivam do Evangelho” (1Cor 9,3-14). Interessa, pois, que a vida cristã seja de equilíbrio e justiça, sem ambição, com desapego e despojamento até onde for necessário, sacrificada e devotada, mas não estoica – sempre com o sentido positivo e espiritual do sacrifício e mortificação, quando necessários, mas sempre redentores.
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Como notas de informação, diga-se que  os escribas ou doutores da Lei pertenciam, na sua maioria, ao partido dos fariseus, com a missão de ensinar ao povo a Lei de Moisés, quer a tradição escrita, quer a oral, daqui a expressão: “Na cadeira de Moisés sentaram-se…. Usavam as filactérias ou estojos de couro que continham fitas de pergaminho ou papiro escritas com as 4 passagens mais notáveis da Lei (Ex 13,1-10.11-16; Dt 6,4-9; 11,13-21). Os fariseus, interpretando materialmente Ex 13,9, levavam-nas atadas à testa e braço esquerdo (junto ao coração). Atribuíam-lhe um valor de proteção (espécie de amuleto). Daí o nome derivado do grego fylláttein, proteger. Mas alguns pensam que o nome vem do hebraico tefilim, orações, por se usarem especialmente quando se fazia oração. As borlas eram as franjas que habitualmente rematavam as capas e que os fariseus, usavam mais compridas que o comum das pessoas.
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Em suma, o importante é amar a Deus nos irmãos; e tornaremos o mundo melhor
Outrora muitos foram os que se desviaram do bom caminho. Não procederam bem aqueles que os imitaram. Que contas prestaram a Deus por tal procedimento? Os escribas e fariseus foram severamente censurados pelo Senhor. Impuseram aos outros o que não faziam. Que pena não aceitarem a conversão que Jesus Cristo lhes ofereceu! Hoje infelizmente há ainda quem assim proceda. Por isso, vemos tanta desorientação na sociedade; inventam-se obrigações que ninguém consegue cumprir, mas esquece-se o essencial: o amor a Deus e n’Ele ao próximo. Este é o único caminho a seguir, o caminho certo da salvação. Quem ama a Deus não comete o pecado, mas cumpre os Mandamentos, escuta-O e vive unido a Ele pela oração, recebe os sacramentos que Jesus Cristo nos deixou, faz bem aos outros, ajudando, aconselhando e acompanhando. Quem ama a Deus combate o crime, a destruição, os atentados, a guerra. Quem ama a Deus procura viver na verdade e na paz.
Outrora muitos seguiram o bom caminho. Os que os imitaram receberam de Deus força e coragem para seguirem em frente. Os Apóstolos e os Santos foram louvados pelo Senhor, pois com o exemplo apontaram aos outros aquilo em que acreditaram e, por isso, receberam no fim a recompensa merecida. Após a conversão, Paulo consagrou-se inteiramente ao Senhor no apostolado junto dos irmãos. Quantas conversões operou Deus por seu intermédio! Quantos cristãos se tornaram santos com a sua pregação!
Nós, cristãos do século XXI, neste início do III milénio, temos grande missão a cumprir no mundo. Quando entramos nas escolas, ainda vemos em muitas o Crucifixo onde está a imagem d’Aquele que nos salvou. Quantos alunos, professores, funcionários e pais encontram n’Ele a razão de ser das suas vidas! Porque é que o quiseram retirar? Só em nome dum laicismo fundamentalista, que não dum sadio republicanismo ou sã laicidade. Quando vamos pelas estradas do País vemos cruzeiros, alminhas, imagens de Nossa Senhora e dos santos. Não podemos consentir que as substituam por estátuas de pessoas que não são referência.
Quando se tenta legalizar a morte de inocentes no seio da mãe ou de idosos que tanto trabalharam para nós vivermos bem, temos de proclamar que a vida é um dom de Deus e que deve ser respeitada por todos. E, quando tudo se tenta enfraquecer ou destruir a família ou se tenta equiparar o casamento a aberrações que envergonham homens e mulheres, devemos recordar-nos de que a sociedade será feliz na medida em que as famílias forem felizes.
Quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado” (Mt 23,12) – assim termina o texto do evangelho desta XXXI dominga, pata exaltar a humildade (mesmo humilhação) voluntária, não a forçada.

2017.11.05 – Louro de Carvalho

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Referências do Papa Francisco a Nossa Senhora na viagem à Colômbia

Visa este apontamento contribuir para desmontar a ideia de que este Papa não é tão mariano como alguns dos antecessores, nomeadamente João Paulo II, e para acentuar o facto de Maria se situar no mundo dos humildes e dos pobres a quem Deus cobriu com o seu favor, ao invés do que esperavam os soberbos, poderosos e ricos. E a homilia do dia 8 faz luz sobre esta realidade.
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Assim, logo no encontro com os bispos da Colômbia, a 7 de setembro, no Salão do Palácio Cardinalício (Bogotá), Francisco convidou-os a voltarem-se para a Senhora do Rosário de Chiquinquirá, cuja imagem tiveram a delicadeza de trazer do seu Santuário até à Catedral de Bogotá para que também o Papa a pudesse contemplar. E, como “a Colômbia não pode obter só por si a verdadeira Renovação por que aspira”, mas lhe é “concedida do Alto”, sugere a súplica ao Senhor, por Maria, para que, “da mesma forma que, em Chiquinquirá, Deus renovou o esplendor do rosto da sua Mãe, assim continue a iluminar, com a sua luz celeste, o rosto deste país inteiro e abençoe a Igreja na Colômbia com a sua benévola companhia” e abençoe os bispos, a quem agradeceu tudo o que eles fazeis vêm fazendo.
Na saudação ao Povo Colombiano, da Sacada do Palácio Cardinalício (Bogotá), no mesmo dia 7 de setembro, sugeriu a oração de todos juntos à Virgem: “Ave, Maria….
Evocando o ensejo que teve, há 4 anos, no Rio de Janeiro, de falar aos bispos do CELAM sobre a herança pastoral de Aparecida, último evento sinodal da Igreja da América Latina e do Caribe, recordou, a 7 de setembro, ao Comité Diretivo do CLAM (na Nunciatura Apostólica), que destacara então “a necessidade permanente de aprender com o seu método, baseado essencialmente na participação das Igrejas locais e em sintonia com os peregrinos que caminham em busca do rosto humilde de Deus, que quis manifestar-Se na Virgem pescada nas águas”. E disse ser um
Método que se prolonga na missão continental que pretende ser, não a soma de iniciativas programáticas que enchem as agendas e também desperdiçam preciosas energias, mas o esforço por colocar a missão de Jesus no coração da própria Igreja, transformando-a em critério para medir a eficácia das estruturas, os resultados do trabalho, a fecundidade dos ministros e a alegria que são capazes de suscitar”. 
Assim, confiou “à proteção da Virgem, invocada com os nomes de Guadalupe e Aparecida”, “as Igrejas locais” que estes bispos representam e todo o seu povo, “com a serena certeza de que Deus, que falou a este Continente com o rosto mestiço e moreno da sua Mãe, não deixará de fazer resplandecer a sua luz benigna na vida de todos”.
E, ao chegar à Nunciatura Apostólica (Bogotá) no fim do dia, a 7 de setembro, dirigiu palavras de improviso num encontro com crianças e outras pessoas com deficiência, terminando assim:
Vamos (antes de irmos), vamos rezar juntos uma ‘Ave, Maria’ e dou-vos a bênção. Ave Maria...”.
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No dia 8, no Aeroporto  militar CATAM (Bogotá), nas palavras que dirigiu aos militares e aos polícias, desejou “que possam ver consolidada a paz neste país que bem o merece” e sugeriu:
“E agora, todos juntos, peço-vos que rezemos em silêncio por todos os caídos e por todos os que ficaram feridos, alguns dos quais estão aqui entre nós. Rezemos um instante em silêncio e depois una ‘Ave, Maria à Virgem. [Ave Maria...].”.
E, na Eucaristia da festa da Natividade da Virgem Maria, a que presidiu na Esplanada Catama (Villavicencio), à homilia sob o tema Em Deus, reconciliar-se com os colombianos e com a criação”, começou por evocar a antífona do Benedictus da Hora Litúrgica de Laudes:
O vosso nascimento, Virgem Mãe de Deus, é a nova aurora que anunciou a alegria ao mundo inteiro, porque de Vós nasceu o Sol de Justiça, Cristo, nosso Deus”.
Dizendo que esta festa de Maria
“Projeta a sua luz sobre nós, como se irradia a luz suave do amanhecer sobre a vasta planície colombiana, esta paisagem lindíssima de que Villavicencio é a porta, bem como na rica diversidade dos seus povos indígenas”.
Falou de Maria como o primeiro esplendor que anuncia o fim da noite e a proximidade do dia:
“O seu nascimento faz-nos intuir a iniciativa amorosa, terna e compassiva do amor com que Deus Se inclina sobre nós e nos chama para uma aliança maravilhosa com Ele, que nada e ninguém poderá romper. Maria soube ser transparência da luz de Deus e refletiu os fulgores desta luz na sua casa, que partilhou com José e Jesus, e também no seu povo, na sua nação e na casa comum de toda a humanidade que é a criação.”.
Fazendo menção de mulheres na genealogia de Jesus (nenhuma delas integra a hierarquia das grandes mulheres do Antigo Testamento), sustenta que “são elas que anunciam que, pelas veias de Jesus, corre sangue pagão, que recordam histórias de marginalização e sujeição”. Ora, “em comunidades onde ainda se arrastam estilos patriarcais e machistas, é bom anunciar que o Evangelho começa por salientar mulheres que criaram tendência e fizeram história”. E aqui, surge Maria (a par de Jesus e José), que permitiu “com o seu ‘sim’ generoso” que “Deus cuidasse desta história”. Assim,
“José, homem justo, não deixou que o orgulho, as paixões e os ciúmes o lançassem fora desta luz. (…) Sabemos antes de José o que aconteceu com Maria, e ele toma decisões em que se manifestam as suas qualidades humanas antes de ser ajudado pelo anjo e chegar a entender tudo o que estava a acontecer ao seu redor. A nobreza do seu coração fá-lo subordinar à caridade o que aprendera com a lei; e hoje, neste mundo onde é patente a violência psicológica, verbal e física contra a mulher, José apresenta-se como figura de homem respeitoso, delicado que, mesmo não dispondo de todas as informações, se decide pela honra, dignidade e vida de Maria. E, na sua dúvida sobre o melhor a fazer, Deus ajudou-o a escolher iluminando o seu discernimento.”.
Também na Colômbia “podemos fazer genealogias cheias de histórias”. E o Papa especifica:
Muitas, cheias de amor e de luz; outras, de conflitos, ofensas, inclusive de morte... Quantos de vós poderíeis narrar experiências de exílio e desolação! Quantas mulheres, em silêncio, perseveraram sozinhas, e quantos homens de bem procuraram pôr de lado amarguras e rancores, querendo combinar justiça e bondade!”.
E Maria pode ensinar e ajudar a “deixar entrar a luz” e apontar caminhos de reconciliação:
Como Maria, dizer ‘sim’ à história completa, e não apenas a uma parte; como José, pôr de lado paixões e orgulho; como Jesus Cristo, cuidar, assumir, abraçar esta história, porque nela vos encontrais vós, todos os colombianos, nela está aquilo que somos... e o que Deus pode fazer connosco se dissermos ‘sim’ à verdade, à bondade, à reconciliação. E isto só é possível, se enchermos com a luz do Evangelho as nossas histórias de pecado, violência e conflito.”.
A perícopa do Evangelho de Mateus assumida na festividade culmina com a designação de Jesus como o Emanuel, Deus connosco. E Francisco sublinha que o Evangelho termina como começa: “Eu estarei sempre convosco até ao fim dos tempos” (Mt 28,20). Assim, insiste o Papa:
Jesus é o Emanuel que nasce e o Emanuel que nos acompanha todos os dias, é o Deus connosco que nasce e o Deus que caminha connosco até ao fim do mundo. Esta promessa realiza-se também na Colômbia: Dom Jesús Emilio Jaramillo Monsalve, Bispo de Arauca, e o sacerdote Pedro Maria Ramírez Ramos, mártir de Armero, são sinal disso, expressão dum povo que quer sair do pântano da violência e do rancor.”.
É, pois, neste ambiente maravilhoso que nos cabe “dizer ‘sim’ à reconciliação concreta” e, nele, incluir a natureza. Ela parece pedi-lo, como o canta com primor o poeta colombiano Juanes:
As árvores estão a chorar, são testemunhas de tantos anos de violência. O mar aparece acastanhado, mistura de sangue com a terra.” (in, Minhas Pedras).
Como o refere na Encíclica Laudato SI’, n.º 2, também aqui o Pontífice aduz:
A violência que existe no coração humano, ferido pelo pecado, manifesta-se também nos sintomas de doença que notamos no solo, na água, no ar e nos seres vivos”.
E, recorrendo ao exemplo e postura de Maria, propõe:
“Cabe-nos dizer ‘sim’ como Maria e cantar com Ela as ‘maravilhas do Senhor’, porque, como prometeu aos nossos pais, Ele ajuda todos os povos e ajuda cada povo, e ajuda a Colômbia que hoje quer reconciliar-se e à sua descendência para sempre”.
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No mesmo dia 8, no Encontro de Oração para a Reconciliação Nacional, no Parque Las Malocas (Villavicencio), após a oração ao Cristo negro de Bojayá, disse:
“Rezamos a Jesus, o Cristo, o Cristo mutilado. Antes de vos dar a bênção, convido-vos a rezar à nossa Mãe, cujo coração foi trespassado pela dor: ‘Ave, Maria…’..
No fim do dia 8, na Nunciatura Apostólica (Bogotá), convicto de que é Cristo quem opera a reconciliação, agradece-Lhe bem como a todos os que trabalham por ela e diz:
Ao pé da cruz estava a Mãe, despojada de seu Filho e tendo visto a sua tortura, todo o seu sofrimento. Que Ela acompanhe as mulheres colombianas e lhes ensine, como Ela, o caminho a seguir. Peçamo-lo juntos: Deus te salve, Maria…”.
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No dia 9, na homilia da Missa, no Aeroporto Enrique Olaya Herrera (Medellín), sob o tema “A vida cristã como discipulado”, Francisco, depois de enunciar os elementos essenciais do tema – ir ao essencial, renovar-se e envolver-se – e tendo dito:
“A Igreja na Colômbia é chamada a comprometer-se, com mais ousadia, na formação de discípulos missionários, como foi indicado por nós, Bispos reunidos em Aparecida. Discípulos que saibam ver, julgar e agir, como propunha aquele documento latino-americano que nasceu precisamente aqui, nestas terras (cf Medellín, 1968). Discípulos missionários que sabem ver sem miopias hereditárias; que examinam a realidade com os olhos e o coração de Jesus, e a partir daí julgam. E que arriscam, que atuam, que se comprometem.”
Apelou:
Peçamos por intercessão da nossa Mãe, Nossa Senhora da Candelária, que nos acompanhe no nosso caminho de discípulos, para que, colocando a nossa vida em Cristo, sejamos sempre missionários que levem a luz e a alegria do Evangelho a todos os povos”.
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E, no encontro no Lar de São José, em Medellín, falou de Maria, que, juntamente como o Menino Jesus – os tesouros mais preciosos de José –, foi confiada à custódia de São José em obediência à palavra do Anjo. Na verdade, “recebida a palavra do Anjo”, José “obedeceu imediatamente e fez o que Deus lhe ordenara: ‘Levantou-se de noite, tomou o Menino e sua Mãe e partiu para o Egito’.” (Mt 2,14). E o Papa tem a certeza de que, “assim como José protegeu e defendeu dos perigos a Sagrada Família, também nos defende, cuida e acompanha” – e, “com ele, também Jesus e Maria, porque São José não pode estar sem Jesus e Maria”.
Depois, formula o seguinte voto:
Que Jesus e Maria, juntamente com São José, vos acompanhem e protejam, vos encham de ternura, alegria e fortaleza”.
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No encontro com os sacerdotes, consagrados, consagradas, seminaristas e suas famílias, no Estádio Coberto La Macarena (Medellín), falando da alegoria da videira, apontou os gestos de Jesus no cenáculo e anotou que, depois da Ressurreição, naquele Cenáculo, continuaram depois a reunir-se os Apóstolos, com algumas mulheres e Maria, a Mãe de Jesus (cf At 1,13-14).
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E, à recitação do Angelus, na Igreja de São Pedro Claver, a 10 de setembro, depois de recordar que, antes de entrar naquela igreja, em que se conservam as relíquias de Pedro Claver, benzera “as primeiras pedras de duas instituições fundamentais destinadas a cuidar de pessoas com graves necessidades” e visitara “a casa da senhora Lorenza, onde todos os dias recebe muitos dos nossos irmãos e irmãs para lhes dar alimento e carinho”, assegurou que estes encontros o ajudaram muito, “porque lá se pode palpar o amor de Deus que se torna concreto e diário”.
Depois, introduziu a recitação do Angelus, como memória da encarnação do Verbo e pensando “em Maria que concebeu Jesus e O trouxe ao mundo”. E contou a história da imagem de Nossa Senhora que, naquela manhã, fora contemplada por todos sob a invocação de Nossa Senhora de Chiquinquirá:
“Durante um longo período de tempo, esta imagem esteve abandonada, perdeu a cor e encontrava-se rota e esburacada. Era tratada como um pedaço de saco velho, usada sem qualquer respeito até que acabou entre as coisas descartadas. Foi então que uma mulher simples (chamada, segundo a tradição, Maria Ramos), a primeira devota da Virgem de Chiquinquirá, viu naquela tela algo de diferente. Teve a coragem e a fé de colocar aquela imagem arruinada e corroída num lugar de destaque, devolvendo-lhe a sua dignidade perdida. Soube encontrar e honrar Maria, segurando o Filho nos seus braços, precisamente naquilo que, para os outros, era desprezível e inútil.
E, assim, esteja atitude se fez paradigma dos que, de vários modos, “procuram recuperar a dignidade do irmão prostrado pelo sofrimento das feridas da vida, dos que não se conformam e trabalham por lhes construir uma morada decente, assisti-los nas suas impelentes necessidades e sobretudo rezam com perseverança para que possam recuperar o esplendor de filhos de Deus que lhes fora arrebatado”. Com efeito, o Senhor ensina-nos através do exemplo dos humildes e dos que não contam, pois:
“Se à Maria Ramos, uma mulher simples, concedeu a graça de acolher a imagem da Virgem na pobreza daquela tela rota, à Isabel, uma mulher indígena, e ao seu filho Miguel deu-lhes a capacidade de serem os primeiros a ver transformada e renovada aquela tela da Virgem. Foram os primeiros a ver, com olhos simples, este pedaço de pano inteiramente novo e, nele, o esplendor da luz divina, que transforma e faz novas todas as coisas. É aos pobres, aos humildes, aos que contemplam a presença de Deus, que se revela com maior nitidez o Mistério do amor de Deus. Eles, pobres e simples, foram os primeiros a ver a Virgem de Chinquinquirá e tornaram-se seus missionários, arautos da beleza e santidade da Virgem.”.
E aproveitou o ensejo para, à luz de Maria, que de Si própria disse ser “a escrava do Senhor”, focar o exemplo de São Pedro Claver, o “escravo dos negros para sempre”, como a si mesmo se designou desde o dia da sua profissão solene. A ele se referiu o Papa nos termos seguintes:
“Esperava os navios que chegavam da África ao principal mercado de escravos no Novo Mundo. Muitas vezes recebia-os apenas com gestos, gestos evangelizadores, devido à impossibilidade de comunicar pela diferença das línguas. Mas uma carícia ultrapassa todas as línguas; e São Pedro Claver sabia que a linguagem da caridade, da misericórdia era entendida por todos. Na verdade, a caridade ajuda a compreender a verdade, e a verdade reclama gestos de caridade: as duas caminham juntas, não se podem separar. Quando sentia repugnância deles – aqueles infelizes chegavam num estado que era repugnante – Pedro Claver beijava-lhes as feridas.”.
Porém, o mundo não lhe reconheceu mérito. Ao contrário:
“São Pedro Claver testemunhou, de forma estupenda, a responsabilidade e a solicitude que cada um de nós deve ter pelos seus irmãos. Apesar disso, este santo foi injustamente acusado, pelos outros, de ser indiscreto no seu zelo e teve que enfrentar duras críticas e uma tenaz oposição da parte de quantos temiam que o seu ministério ameaçasse o lucrativo comércio dos escravos.”.
E aplicando a situação negreira ao hoje da Colômbia e do mundo em geral, apontou:
“Ainda hoje, na Colômbia e no mundo, milhões de pessoas são vendidas como escravos, ou então mendigam um pouco de humanidade, uma migalha de ternura, fazem-se ao mar ou metem-se a caminho porque perderam tudo, a começar pela sua dignidade e os seus direitos”.
Então, Maria de Chiquinquirá e Pedro Claver não podem servir de biblôs, mas são forte e eloquente  referência para a exigência e o compromisso:
“Convidam-nos a trabalhar pela dignidade de todos os nossos irmãos, especialmente os pobres e descartados da sociedade, aqueles que estão abandonados, os emigrantes, as vítimas da violência e do tráfico humano. Todos eles têm a sua dignidade, e são imagem viva de Deus. Todos fomos criados à imagem e semelhança de Deus, e a todos nos sustenta a Virgem nos seus braços como filhos amados.”.
Neste contexto, Francisco exortou:
“Dirijamos agora a nossa oração à Virgem Mãe, para que nos faça descobrir em cada um dos homens e mulheres do nosso tempo o rosto de Deus. Angelus Domini…”.
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É verdade que a índole mariana deste Bispo de Roma é sólida e forte. E o Papa vê Maria no âmago do Evangelho, no mistério de Cristo e da Igreja – a Virgem, a Mãe, a companheira, a discípula, a que aceita e dá proteção – e, sobretudo aquela que está no junto dos pecadores, dos doentes, dos pobres, dos descartados, daqueles de cujo lado está preferencialmente o nosso Deus e o seu Cristo. Com efeito, tinha razão Dom António Francisco a 4 de abril de 2016:
“Maria, Mãe de Misericórdia, não nos distrai dos acentos pastorais que temos à nossa frente. Melhor do que ninguém, nos ajudará a abrir os olhos e o coração à Boa Nova de Jesus Cristo. A descobrir que “a alegria do Evangelho” é mais que uma frase: é o segredo de uma vida com sentido e é, por isso, “a nossa missão.”.

2017.09.12 – Louro de Carvalho