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segunda-feira, 8 de julho de 2019

Deus envia-nos a testemunhar o seu Reino


É o que está evidenciado no Evangelho do 14.º domingo do Tempo Comum no Ano C (Lc 10,1-12.17-20), que, apresentando o número simbólico “72” dos discípulos enviados, nos quer dizer que a sua missão envolve todos os escolhidos e se dirige a todos os seres humanos, a todos os povos. É de si mobilizadora de todos os que são discípulos (pelo batismo e, nalguns casos, por vocação especial confirmada pelo sacramento da Ordem) e um destino universal.
Com efeito, aquele episódico envio em missão (exclusivo de Lucas), que tem de ser entendido em relação com Gn 10 (na versão grega do AT), onde o número se refere à totalidade das nações que habitam a terra, é antecipação do mandato confiado aos discípulos no fim do texto evangélico (cf Lc 24,47-48; Mc 16,15-18; Mt 28,1-20) e é lido à luz da Ressurreição e dos dons messiânicos. Se na perícopa em referência o conteúdo fundamental da pregação é “A paz esteja nesta casa… O Reino de Deus já está próximo de vós”, nos aludidos textos dos sinóticos, fala-se expressamente em ir por todo o mundo, fazer discípulos de todas as nações, ser testemunhas em toda a parte, pregar o arrependimento e o perdão dos pecados, provocar a conversão aos valores do Reino…  
Lucas, assinalando que os discípulos foram enviados dois a dois, assegura que o testemunho deles tem valor jurídico (cf Dt 17,6; 19,15) e que o anúncio do Evangelho é tarefa comunitária, não por iniciativa pessoal e própria, mas por mandato de Jesus e em comunhão com os irmãos. E, indicando que os discípulos são enviados às aldeias e localidades aonde Jesus “devia de ir”, quer dizer que a tarefa dos discípulos não é pregar a sua própria mensagem, mas preparar o caminho de Jesus e dar testemunho d’Ele.
Depois, o evangelista descreve o modo de concretização missão. Primeiro, temos o aviso sobre a dificuldade: os discípulos são enviados “como cordeiros para o meio de lobos” (v. 3), com reporte à imagem que, no AT (Antigo Testamento), descreve a situação do justo, perdido no meio dos pagãos (cf Sir 13,17; nalgumas versões, a imagem aparece em 13,21). Aqui, é a situação do discípulo fiel ante a hostilidade do mundo. A seguir, vem a exigência de pobreza e simplicidade: os discípulos não levam consigo bolsa, alforge ou sandálias; não se detêm a saudar ninguém pelo caminho (v. 4); não saltaricam de casa em casa (v. 7). Estas indicações sugerem que a força do Evangelho não reside nos meios materiais, mas na força libertadora da Palavra; indicam a urgência da missão, que não permite aos discípulos deterem-se nas intermináveis saudações peculiares da cortesia oriental, sob pena de o essencial – o anúncio do Reino – ser adiado; e querem dizer que a preocupação fundamental dos discípulos deve ser a dedicação total à missão e não o encontro duma hospitalidade mais confortável.
Os discípulos devem começar por desejar “a paz” (vv 5-6), não só como saudação normal entre os judeus, mas significando a paz messiânica que preside ao Reino e configurando o anúncio do mundo novo da fraternidade, da harmonia com Deus, consigo próprio, com os outros e com a criação, do bem-estar, da felicidade, enfim de tudo quanto significa a palavra hebraica “shalom”. E esse anúncio tem de ser acompanhado por gestos concretos de libertação, que mostrem a presença do Reino no meio dos homens (v. 9), tal como disse Jesus, segundo Marcos:
Estes sinais acompanharão aqueles que acreditarem: em meu nome expulsarão demónios, falarão línguas novas, apanharão serpentes com as mãos e, se beberem algum veneno mortal, não sofrerão nenhum mal; hão de impor as mãos aos doentes e eles ficarão curados. (…) Eles, partindo, foram pregar por toda a parte; o Senhor cooperava com eles, confirmando a Palavra com os sinais que a acompanhavam.” (Mc 16, 17-18.20).
Em Lucas, o Senhor diz:
E Eu vou mandar sobre vós o que meu Pai prometeu. Entretanto, permanecei na cidade até serdes revestidos com a força do Alto.” (Lc 24,49).
E, em Mateus, garante:
E sabei que Eu estarei sempre convosco até ao fim dos tempos” (Mt 28,20).
A ameaça às cidades que recusem o acolhimento da mensagem (vv. 10-11), que não deve ser tomada à letra, é uma forma de dizer que a rejeição do Reino trará consequências nefastas à vida de quem escolhe continuar em caminhos de egoísmo, orgulho e autossuficiência.
E Lucas (vv. 17-20) refere o resultado daquela ação missionária dos discípulos. As palavras com que Jesus acolhe os discípulos evocam os sinais da presença do Reino enquanto realidade libertadora. Assim, as serpentes e escorpiões, frequentemente tidos como símbolos das forças do mal que escravizam o homem, mas aqui dominados, e a “queda de Satanás” significam que o reino do mal começa a desfazer-se em confronto com o Reino de Deus. Porém, não obstante o êxito da missão, Jesus alerta os discípulos contra o orgulho pela obra feita: não devem ficar contentes pelo poder que lhes foi confiado, mas porque os seus nomes estão “inscritos no Céu”. Anote-se que a imagem dum livro onde estão inscritos os nomes dos eleitos é frequente nesta época, particularmente na literatura apocalíptica (cf Dn 12,1; Ap 3,5; 13,8; 17,8; 20,12.15; 21,27).
Como se pode facilmente verificar, Lucas continua a situar-nos no contexto da caminhada de Jesus para Jerusalém. É mais uma etapa catequética, esta exclusiva do relato lucano, do “caminho espiritual”, em que Jesus vai oferecendo aos discípulos a revelação do Pai e os prepara para continuarem, após a sua partida, a missão de levar o Evangelho a todos os homens.
Nesta catequese, Lucas ensina que o cristão tem de continuar no mundo a missão de Jesus, tornando-se testemunha, para todos os homens, da proposta de salvação que Ele veio trazer.
***
A perícopa tomada para 1.ª leitura (Is 66,10-14c) insere-se no quadro desenhado pelos capítulos 56-66 do Livro de Isaías (designados como “Tritoisaías”), atribuídos pela maior parte dos estudiosos a diversos autores, vinculados espiritualmente ao Deuteroisaías (o autor dos capítulos 40-55) e que apresentaram a sua mensagem nos últimos anos do século VI e primeiros do século V a.C. Em Jerusalém, vários anos após o regresso do Exílio da Babilónia, a reconstrução é muito lenta e penosa; a maioria da população mergulha na miséria; os inimigos, atacando continuamente, põem em causa o esforço da reconstrução; e a esperança definha, com o Povo a perguntar “quando é que Deus vai realizar as promessas que fez, ainda na Babilónia”. Por isso, os profetas apresentam uma mensagem de salvação e alimentam a esperança para que o Povo recobre forças e confie em Deus. É neste contexto que se situa o hino que a perícopa em referência contém: o profeta apresenta um quadro de restauração (cf Is 66,7-14) e convoca os seus habitantes para a alegria. Neste quadro, o objetivo fundamental do profeta é “consolar” o Povo sofrido, que não vê perspetivas de futuro. Todo o quadro gravita em torno de Jerusalém como mãe. Depois de dar à luz o filho (o povo), sem esforço e antes do tempo (cf Is 66,7), Jerusalém alimenta-o com o leite abundante e reconfortante (cf Is 66,11). A referência à sucção do leite “até à saciedade”, ao “seio glorioso” evoca a imagem da fecundidade e da vida em abundância. No entanto, o profeta está consciente de que é Deus quem está por detrás desta corrente de vida e de fecundidade que a mãe-cidade dispensa ao filho-povo. Por isso, põe Deus a fazer chegar à cidade/mãe a paz e a riqueza das nações, para que ela as distribua pelo filho/povo. A paz (“shalom”) inclui aqui a saúde, fecundidade, prosperidade, amizade com Deus e com os outros – enfim, a felicidade total, que Deus Se propõe oferecer em abundância ao Povo. E é sugestiva a forma como se fala de Deus. É o pai que dá ao filho-povo a vida plena, o acaricia e consola como faz a mãe. O profeta apresenta a este Povo um Deus que ama e que, em cada dia, vem ao encontro dos homens para lhes trazer a salvação. Daí o insistente convite à alegria.
Assim, Deus é a esperança, a alegria, a consolação e a paz.
O convite de Isaías à alegria, à exultação e ao júbilo, depois de termos participado no pranto de Jerusalém, resulta da capacidade e vontade consoladoras e esperançosas de Deus. Na palavra do profeta, Deus mostra consolar o Seu Povo a partir de imagens tiradas da vida familiar, sobretudo da relação mãe-filho. Compara-nos à criança que chora faminta e desconsolada e a quem a mãe se esforça por consolar. E, nesta visão profética, o Senhor promete bens que contrastam com a situação atual do Povo. O clima humano em que vive contrasta com o ambiente inseguro e triste em que se encontrava nos tempos do cativeiro de Babilónia. Veja-se como era dantes:
Nas margens dos rios da babilónia sentamo-nos a chorar, lembrando-nos de Sião. / Nos salgueiros daquela terra, pendurávamos as nossas harpas, / porque os que nos tinham deportado pediam-nos um cântico. / Os nossos opressores exigiam de nós um hino de alegria: Cantai-nos um dos cânticos de Sião. / Como poderíamos nós cantar um cântico do Senhor em terra estranha? / Se eu me esquecer de ti, ó Jerusalém, que minha mão direita se paralise! /Que minha língua se me apegue ao paladar, se eu não me lembrar de ti, se não puser Jerusalém acima de todas as minhas alegrias.” (Sl 137,1-7).
Ora, importa que aceitemos os dons que o Senhor nos oferece na Sua Igreja. Se teimássemos em procurar teimosamente o prazer dos sentidos, estaríamos na situação de quem procura matar a sede com água salgada. Com efeito, para termos verdadeira alegria, precisamos de mudar de mentalidade, convertermo-nos às promessas de Deus. Ele será a nossa alegria e conforto.
Porque assim fala o Senhor: ‘Farei correr para Jerusalém a paz como um rio e a riqueza das nações como torrente transbordante’.”. Ora, a verdadeira paz é tranquilidade na ordem. Com efeito, há tranquilidade na desordem quando ela é fruto do medo, da prepotência de alguns que nos mantêm imobilizados. Mas é mais que tranquilidade na ordem: é a força anímica de crescer harmonicamente, conviver de forma saudável e partilhar; é servir e aceitar o serviço dos outros; é o exercício em concreto da fraternidade. Assim, a paz é um dom de Deus e nasce de uma consciência que, secundando o dom, procura conhecer e seguir a Sua vontade.
É curioso notar que, no mundo político – quando todos deveríamos estar à procura de uma melhoria de vida para todos, cada grupo reivindica o próprio interesse, mesmo que não seja justo. Ora, ao invés, é necessário reconhecer que pertencemos todos à mesma família dos filhos de Deus na terra, que somos irmãos uns dos outros e vamos todos a caminho do Céu. Se não alcançássemos esta meta, seríamos as mais desgraçadas de todas as pessoas, participando para sempre no ódio e tristeza de Satanás. Por isso, é tempo de parar com os gritos, os amuos, as formas de agressividade ou os entretenimentos egoístas, e fazer a aposta no sorriso e interajuda.
A falta de paz vem da falta de segurança interior em que muitas pessoas vivem porque, no fundo, sabem que estão enganadas e querem sufocar a voz da consciência para não ouvirem os seus gritos a pedir mudança radical de vida. Ora, Deus será a nossa paz, se O deixarmos entrar no nosso coração, para aí a derramar como um bálsamo confortante. É preciso lutar contra a desordem, os falsos deuses que entronizámos na nossa vida, para que a paz possa reinar.
Como a mãe que anima o filho, também Eu vos confortarei: em Jerusalém sereis consolados”.
Constitui uma verdade axial da nossa fé a filiação divina. Deus ama-nos tanto que nos torna Seus filhos pela morte e ressurreição de Cristo, em quem nos incorporamos pelo Batismo. Não somos filhos segundo a natureza, porque não somos deuses, mas não podemos reduzir a nossa filiação divina à simples filiação adotiva, que é uma ficção jurídica: a pessoa arvora-se em pai ou em mãe, mas não há uma verdadeira comunicação da riqueza contida em cada natureza. Os pais adotivos não podem fazer correr o seu próprio sangue nas veias do filho adotado. Na filiação divina é diferente. Pedro afirma, na sua primeira carta, que nós somos “participantes da natureza divina”. E Isaías, ao transmitir-nos a mensagem do Senhor, recorre a imagens da vida familiar: a criança que chora com desconforto – como os regressados do cativeiro de Babilónia – e a mãe que faz apelos ao seu carinho para a confortar. É a segurança dos braços da mãe e o calor do seu afeto que dá à criança a alegria de que precisa. Assim procede Deus para connosco. Deus faz-nos seus verdadeiros filhos e é por isso que o Ressuscitado trata aos discípulos por irmãos. E, na Carta aos Gálatas (é a única), o termo “irmãos” aparece na saudação final: é grito de angústia e de confiança, apelo à comunhão, expressão da esperança na fraternidade total.
E isto traz consequências. Não podemos viver uma vida esquizofrénica, acreditando, dentro do templo, na filiação divina, para logo a seguir, nos deixarmos mergulhar num pessimismo sem horizontes. A única coisa que o Senhor recusa fazer (porque é o melhor dos pais) é satisfazer-nos todos os caprichos, porque muitas vezes são maus e não nos resolvem os problemas.
Por outro lado, uma das consequências da nossa filiação divina é testemunhar e irradiar fraternidade. Deus quer agir no mundo para resolver os problemas que nos afligem, mas precisa da nossa cooperação. Sem esse pequeno nada que podemos fazer, Deus não agirá.
Designou o Senhor 72 discípulos e enviou-os dois a dois à sua frente, a todas as cidades e lugares aonde Ele havia de ir”. Jesus enviou, pois, à Sua frente os discípulos, para uma missão bem definida: preparar o acolhimento a Jesus Cristo. Todo o apostolado que fazemos se concretiza não na afirmação pessoal ou num projeto individual, mas na preparação do acolhimento a Jesus Cristo pela conversão pessoal. Quando somos enviados aos outros, não há uma separação física entre nós e Jesus, mas levamo-Lo presente. O Espírito Santo faz que Ele fale pela nossa boca. Não é a nossa eloquência que faz mudar as pessoas, mas a ação misteriosa e eficaz da Terceira Pessoa da Santíssima Trindade presente em cada pessoa. É uma grande honra e um grande dever dar visibilidade a Jesus Cristo no mundo, restituir-Lhe o lugar a que Ele tem direito, na família, no trabalho, nos divertimentos e nas leis. Para isso precisamos de apostar na identificação com a vontade de Deus e na coerência de vida.
Identificação com a vontade de Deus. É preciso purificar a nossa mente e desprendê-la de interesses pessoais; e querer o que Deus quer, sem forçar a verdade teológica e moral para os nossos gostos e interesses. Mas, para querermos o que Deus quer, temos de saber o que Ele quer, ou seja, requer-se formação doutrinal e pedagógica. Aliás, podemos dar conselhos que, em vez de ajudar as pessoas, as afastam de Jesus Cristo e as levam a não O acolher.
Coerência. Deus não pede que nos tornemos santos antes de começarmos a fazer apostolado, mas que estejamos sinceramente dispostos a cumprir o que aconselhamos aos outros.
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Enfim, somos enviados a testemunhar o Reino de Deus, a sua força e dinamismo. E o Reino merece tudo: empenhamento total, atenção aos seus sinais no mundo, seguimento das pegadas do Mestre, docilidade ao Espírito Santo, doação à comunidade e serviço aos que mais precisam – dando o rosto sempre que necessário, sabendo optar pela discrição quando ela convir ao desenvolvimento do Reino e sempre cantando “A terra inteira aclame o Senhor”.
2019.07.07 – Louro de Carvalho

domingo, 12 de maio de 2019

Ele conhece as suas ovelhas e elas seguem-No


Jesus é o Cordeiro que revela Deus-Pastor ou a faceta pastoral de Deus, o Cordeiro porque segue o Pai, Bom-Pastor. É o Cordeiro porque, sendo Filho, se faz cordeiro manso e amigo, próximo e voz do Bom Pastor, que dá a vida pelas suas ovelhas. É o Cordeiro que vai à frente do rebanho, como Mestre, e nos desafia a ser cordeiros à sua imagem e no seu seguimento. É o Cordeiro frágil e de coração grande, cuja palavra é vida e luz, que a todos purifica e faz ver o valor que o quotidiano esconde.
Este Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo, além do chamamento que a todos e a todas faz à vida da Graça e de apostolado, que deriva do Batismo que nos foi ministrado, chamou e continua a chamar vocações de especial consagração: monges, frades, freiras, leigas e leigos consagrados, sacerdotes, missionários e missionárias. São vidas de cordeiro obediente que se tornam bons pastores, num mundo inquieto e a grande velocidade, que vertiginosamente corre à volta de si correndo o risco de se aniquilar. São opções de vida alternativa que transfiguram o sentido da vida e mostram a força da liberdade de servir com alegria. Constituem um modo dinâmico de aprendizagem com o Cordeiro a fazer a diferença no rebanho, não pela vestimenta, pela aparência ou pela ausência, mas pelo olhar, pelo sentir, pelo amar e pelo acreditar. É necessário um excesso de contemplação do Cordeiro imaculado, no meio de tantos programas de distração a passar.
O Senhor, Bom Pastor, ontem, hoje e para sempre, desvela-se em cuidado paciente, amoroso e misericordioso. Cristo, Cordeiro de Deus, que é o rosto humano do Bom Pastor, abre-nos o coração à Palavra que nos ama e ilumina, para que não nos cansemos em vão nem esqueçamos os irmãos ao longo desta sacra peregrinação terrestre. De coração magnânimo nos chama ao serviço da missão e coloca o tesouro do Evangelho no barro frágil das nossas vidas, que se encarregam de retransmitir o programa de Deus. Ele dá força e entusiasmo àqueles e àquelas que chama a segui-Lo numa vida consagrada ao Evangelho e à Igreja, para que saibam dizer “sim” e serem fiéis ao chamamento divino, em ordem à transformação do mundo.
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O 4.º domingo da Páscoa é o “Domingo do Bom Pastor”, pois todos os anos a liturgia propõe um trecho do capítulo 10 do Evangelho de São João, em que Jesus Se apresenta como o Bom Pastor. Por outro lado, a perspicácia de São Paulo VI fez deste domingo o Dia Mundial de Oração pelas vocações Sacerdotais e Religiosas, a cujo tema a evolução dos tempos acabou por consagrar a semana que o antecede e alargou o sentido do dia a todas as vocações especiais que acima se referiram. Como foi referido, no Evangelho (Jo 10,27-30) apresenta-Se Cristo como o Bom Pastor, cuja missão é trazer a vida plena às ovelhas do seu rebanho, as quais, por sua vez, são convidadas a escutar o Pastor, a acolher a sua proposta e a segui-Lo para encontrarem a vida em abundância. Ante a proposta do Pastor, a 1.ª leitura (At 13,14.43-52) evidencia duas atitudes: a das ovelhas autossuficientes e comodamente instaladas nas suas certezas; e a das ovelhas atentas à voz do Pastor e dispostas a arriscar segui-Lo até às pastagens verdejantes da vida abundante e plena. Obviamente, esta segunda atitude é que é evangélica. E a 2.ª leitura (Ap 7,9.14b-17) apresenta a meta final do rebanho que seguiu Jesus, o Bom Pastor: a vida total, de felicidade infinda.  
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A partir do cap. 13, o livro dos Atos dos Apóstolos apresenta a via da Igreja no mundo greco-romano, etapa cujo protagonista humano é Paulo (animado e conduzido pelo Espírito do Ressuscitado).
Efetivamente, a comunidade cristã de Antioquia da Síria, ansiosa por fazer chegar a todos os povos a Boa Nova de Jesus, envia Barnabé e Paulo a evangelizar. Entre 13,1 e 15,35, descreve-se o envio dos missionários, a viagem, a evangelização de Chipre e da Ásia Menor (Perga, Antioquia da Pisídia, Icónio, Listra, Derbe) e os problemas colocados à jovem Igreja pela entrada maciça de gentios, para os quais ela sentiu a necessidade de se voltar.
A perícopa proclamada nesta liturgia dominical situa-nos na cidade de Antioquia da Pisídia (a atual Yalvas, na Turquia), na Ásia Menor. Nos versículos anteriores, o autor de Atos pôs na boca de Paulo, em longo discurso, uma síntese da catequese primitiva sobre Jesus, que enquadra no plano de Deus a oferta de salvação que Jesus trouxe (cf At 13,16-41). E a questão central gira em torno da reação dos judeus (e os cristãos provindos do judaísmo) e pagãos (e os cristãos provindos do paganismo) ao anúncio de salvação apresentado por Paulo e Barnabé. Os que pensavam ter o monopólio de Deus e da verdade, instalados em suas certezas, não estavam dispostos a “embarcar” na aventura do seguimento de Cristo. Porém, os que, no desafio do Evangelho, descobriram a universalidade da vida verdadeira, questionaram-se, arriscaram e responderam com alegria e entusiasmo à oferta libertadora feita por Deus por intermédio dos missionários. Na verdade, a Boa Nova de Jesus é dirigida a todos os homens, de todas as raças e nações; não é proposta fechada, exclusivista, destinada a um grupo de eleitos, mas uma oferta universal em prol de todos os homens (sem exceção). Decisivo não é ter nascido neste ou naquele ambiente, mas a capacidade de aceitar o desafio, acolher com simplicidade, alegria e entusiasmo a oferta de Jesus e partir, no quotidiano, para e pelo caminho onde Deus nos põe a encontrar a vida total.
Os judeus e cristãos provindos do judaísmo são hoje os que se acomodaram à religião morna, segura, feita de hábitos, leis, devoções, ritos externos e fórmulas fixas, mas que não põe em causa a consciência e o coração, nem tem impacto real na vida diária da família e da sociedade. É a religião dos certinhos, que têm medo da novidade de Deus. São o irmão mais velho da parábola do Pai Misericordioso (vd Lc 15,11-32). Ao invés, os cristãos provindos do paganismo e os próprios pagãos são hoje os que, tendo tantas vezes uma história pessoal complicada e uma caminhada de fé nem sempre exemplar, estão abertos à novidade de Deus e se deixam questionar por Ele. São o irmão o filho mais novo da parábola do Pai Misericordioso. Não têm medo de se desinstalar, de arriscar partir para uma vida nova e mais exigente, ainda que seja um caminho de cruz e de perseguição.
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A liturgia do 3.º domingo da Páscoa apresentava-nos o Cordeiro, o Senhor da história, que Se prepara para abrir e ler o livro dos sete selos (sete o número simbólico da totalidade), o livro onde estava escrita a história humana. Segundo o autor do Apocalipse, a abertura dos selos expõe a realidade do mundo: na caminhada histórica dos homens, pontifica Cristo vitorioso em combate permanente contra tudo o que escraviza o homem (1.º selo – o cavaleiro branco); está patente a guerra e o sangue (2.º selo – o cavaleiro vermelho), a fome e a penúria (3.º selo – o cavaleiro negro), a morte, a doença, a decomposição (4.º selo – o cavaleiro esverdeado). Em pano de fundo jazem os mártires, os que sofreram perseguições por causa da fé e que, dia a dia, clamavam a Deus por justiça (5.º selo). Por conseguinte, prepara-se o “grande dia da ira”, que anuncia a intervenção de Deus na história para destruir o mal (6.º selo). E a revelação final apresenta o combate definitivo, em que as forças de Deus derrotam as do mal (7.º selo). Os 4 primeiros selos representam o nosso mundo, sobressaindo o mais excelso dos homens, Cristo, o cavaleiro branco (branca é a cor de Deus e a cor originária da luz), o da alegria da vitória, ao passo que os outros três selos, representam o mundo que ostenta o poder de Deus concretizado na bem-aventurança dos mártires, no domínio da natureza a reagir à soberba humana e nas trombetas a anunciar o juízo de Deus. 
A perícopa proclamada na liturgia de hoje situa-nos no contexto do 7.º selo (o anúncio do “Dia do Senhor”). Aos mártires que clamam por justiça, o autor do “Apocalipse” descreve o que vai resultar da intervenção de Deus: a libertação definitiva. Como que através da fresta duma janela entreaberta, João apresenta-nos uma inumerável, imensa e universal multidão. Os seus componentes estão de pé, em sinal de vitória, pois participam da ressurreição de Cristo; envergam túnicas brancas, já que pertencem à esfera de Deus, aclamam com palmas e louvam Deus e o Cordeiro. Esta aclamação e louvor aludem à Festa das Tendas, celebrada no final das colheitas, marcada pela alegria e pelo louvor, em memória do êxodo (em que os israelitas viveram em “tendas”) e que, por influência de Zc 14,16, assume claras ressonâncias escatológicas. Na liturgia dessa festa, a multidão entrava em cortejo no recinto do Templo, agitando palmas e cantando.
Estes – como diz o vidente – são os que “vieram da grande tribulação e que branquearam as vestes no sangue do Cordeiro” (v. 14), isto é, que suportaram a perseguição mais feroz e alcançaram a redenção pela entrega de Jesus. Diante de Deus tributam-Lhe, dia e noite, o culto, que não é o somatório dum conjunto de ritos, mas fruto da gozosa presença diante de Deus e do Cordeiro.
Recorde-se que a Festa das Tendas aludia à marcha do Povo de Deus pelo deserto, desde a terra da escravidão até à terra da liberdade. A referência a esta festa significa que se cumpre agora o novo e definitivo êxodo: depois da intervenção final de Deus na história, a multidão dos que aderiram ao Cordeiro alcança a libertação definitiva, acolhida na tenda de Deus (É Deus que faz a colheita), onde não haverá a morte, o sofrimento, as lágrimas. Cristo ressuscitado, sentado no trono, é o Pastor deste novo Povo e condu-lo para “as fontes de águas vivas”, isto é, à plenitude dos bens definitivos. Aos santos que gritam por justiça, anuncia-se a mensagem da esperança sustentada. O quadro antecipa o tempo escatológico: o da intervenção definitiva de Deus na história, de que resultará a libertação definitiva do Povo de Deus.  
O autor do Apocalipse deixa-nos, assim, a mensagem da esperança sustentada, pois em vez da condenação ao fracasso, teremos a vida plena, a felicidade total. Basta que acolhamos o dom da salvação que nos é feito por Deus. A resposta positiva à oferta de salvação que Deus nos faz introduz em nós um novo dinamismo que nos fortalece a coragem e nos permite continuar a lutar, desde já, pela concretização do novo céu e da nova terra.
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O capítulo 10 do 4.º Evangelho contém a catequese do Bom Pastor. O autor utiliza esta imagem para apresentar a missão de Jesus: a obra do Messias consiste em conduzir o homem às pastagens verdejantes e às fontes cristalinas de onde brota a vida em plenitude.
Não foi o autor do 4.º Evangelho que inventou a imagem do Bom Pastor. Este discurso simbólico está construído com materiais do Antigo Testamento. Tem presente Ez 34 onde se encontra a chave de compreensão da metáfora do pastor e do rebanho. Falando aos exilados na Babilónia, Ezequiel realça que os líderes de Israel foram falsos pastores que levaram o Povo por ínvios caminhos de morte e de desgraça; mas, segundo Ezequiel, Deus vai assumir a condução do seu Povo e porá à frente dele um Bom Pastor, o Messias, ali referido como “o meu Servo David”, que o livrará da escravidão e o conduzirá à vida. Assim, a catequese que o 4.º Evangelho nos faz do Bom Pastor sugere que a promessa de Deus afirmada por Ezequiel se cumpre em Jesus. O texto joânico acentua, sobretudo, a relação estabelecida entre o Pastor, Cristo, e as ovelhas, os seus discípulos (e todos aqueles que são chamados à salvação). A missão do Pastor é dar vida às e pelas ovelhas. Sendo assim, João descreve a ação de Jesus como uma recriação e revivificação do homem, no sentido de fazer nascer o Homem Novo (cf Jo 3,3.5-6), o homem que, seguindo Jesus, se torna “filho de Deus” (cf Jo 1,12) e que é capaz de oferecer a vida por amor lúcido e generoso. Quem aceita a oferta de Jesus não se perderá (“nunca hão de perecer e ninguém as arrebatará da minha mão” – Jo 10,28), pois a qualidade de vida que Jesus lhes comunica supera a própria morte (cf Jo 3,16;8,51). Jesus está disposto a defender os seus até dar a própria vida por eles (cf Jo 10,11), a fim de que nada nem ninguém (os dirigentes, os que estão interessados em perpetuar mecanismos de egoísmo, de injustiça, de escravidão) possa privar os discípulos dessa vida em abundância. As ovelhas (os discípulos), por sua vez, têm de fazer a sua parte: escutar a voz do Pastor e segui-Lo (cf Jo 10,27), ou seja, comprometer-se com Ele e, como Ele, entregar-se sem reservas numa vida de amor e de doação ao Pai e aos homens.
O texto termina com uma referência à identificação plena entre o projeto do Pai e o projeto de Jesus: para ambos, o objetivo é fazer nascer uma nova humanidade. Em Jesus está presente e manifesta-se o plano salvador do Pai de dar vida ao homem e pelo homem; pela ação de Jesus, a obra criadora de Deus atinge o seu ponto culminante.
Na nossa cultura urbana, a imagem do pastor é uma parábola de outras eras. Em contraponto, conhecemos a figura do líder: não raras vezes, é alguém que que exige, que manipula, que arrasta, que se impõe despoticamente. Mas o Evangelho convida-nos a descobrir a figura bíblica do Pastor, que evoca doação, simplicidade, amor gratuito, a ponto de dar a vida para defender das garras das feras as ovelhas que lhe foram confiadas. Para os cristãos, o Pastor é Cristo: só Ele nos leva para as “pastagens verdadeiras”, onde encontramos vida em plenitude.
Nas nossas comunidades cristãs, temos pessoas que presidem e que animam. Aceitamos, sem problemas, que receberam essa missão de Cristo e da Igreja, apesar dos seus limites e imperfeições, mas não podemos parar nelas, mas, através delas, escutar e seguir sem condições Cristo, o único e Bom Pastor. As ovelhas da grei de Jesus têm de “escutar a voz” do Pastor e segui-Lo, ou seja, percorrer o mesmo caminho de Jesus, numa entrega total ao projeto de Deus e numa doação total, de amor e de serviço aos irmãos.
A voz de Jesus, o nosso Pastor, distingue-se de outros apelos, de cantos de sereia que não conduzem à vida em plenitude, pelo confronto permanente com a Palavra, pela participação nos sacramentos onde se nos comunica a vida que o Pastor nos oferece e num permanente e íntimo diálogo com Ele. E isto nos fará ver o que se passa no mundo e analisá-lo com o olhar de Deus, estando atentos aos seus sinais neste tempo e nestes lugares, sujeitando o que observamos ao juízo de Deus, e, segundo este juízo, colocarmo-nos em ação para a transformação, mas, se calhar, começando pela aproximação, atendimento, escuta e apoio.
Pessoas que vivem da Páscoa e a testemunham não podem ficar ensimesmadas. Têm que romper cadeias, partir pedra, ser apóstolos, estar e ir em missão.
2019.05.12 – Louro de Carvalho

domingo, 5 de maio de 2019

Testemunhar o Ressuscitado postula obedecer a Deus, não aos homens


Todos os dias, no templo e nas casas, os apóstolos não cessavam de ensinar e de anunciar a Boa-Nova de Jesus, o Messias (vd At 5,42). É o que nos diz o livro dos Atos dos Apóstolos a encerrar um capítulo problemático da história da comunidade primitiva dos seguidores de Jesus.
Com efeito, depois de denunciada a mentira de Ananias e Safira ao Espírito Santo (alegadamente ofereciam aos apóstolos todo o produto da venda dum campo, quando a venda fora por valor superior), são relatados factos atinentes à palavra e aos prodígios que os apóstolos faziam, induzindo  o ajuntamento “em massa [de] homens e mulheres, que acreditavam no Senhor” (id, 14).
Entretanto, o Sumo Sacerdote e os seus sequazes deitaram as mãos aos Apóstolos, metendo-os na prisão. Mas, de noite, o Anjo do Senhor abriu-lhes as portas, conduziu-os para fora e mandou-os para o templo a anunciar ao povo a Palavra da Vida. E eles, obedientes a estas ordens, entraram no templo de manhã cedo e começaram a ensinar. Os que mandaram prender os apóstolos convocaram o Sinédrio e o Senado e mandaram buscar os apóstolos à cadeia. Porém, os guardas, não os encontrando na prisão, voltaram e declararam: ‘Encontrámos a cadeia fechada com toda a segurança e os guardas de sentinela à porta, mas, depois de a abrirmos, não encontrámos ninguém no interior’. Então os sumos sacerdotes e o comandante do templo numa grande perplexidade perguntavam a si próprios o que poderia significar aquilo. Entrementes, alguém veio dizer que aqueles homens estavam no templo a ensinar o povo. O comandante do templo dirigiu-se para lá com os guardas e trouxeram os Apóstolos à presença do Sinédrio, não à força, pois receavam ser apedrejados pelo povo. E o Sumo Sacerdote sentenciou: “Proibimo-vos formalmente de ensinardes nesse nome, mas vós enchestes Jerusalém com a vossa doutrina e quereis fazer recair sobre nós o sangue desse homem”.
Aí, Pedro e os Apóstolos responderam: “Importa mais obedecer a Deus do que aos homens”. E explicaram com entusiasmo:
O Deus dos nossos pais ressuscitou Jesus, a quem matastes, suspendendo-o num madeiro. Foi a Ele que Deus elevou, com a sua direita, como Príncipe e Salvador, a fim de conceder a Israel o arrependimento e a remissão dos pecados. E nós somos testemunhas destas coisas, juntamente com o Espírito Santo, que Deus tem concedido àqueles que lhe obedecem.”.
“Obedecer” é um verbo que no latim se dizia “oboedire”, de ob+audire (pôr-se diante de alguém para escutar, ouvir; e quem ouve crê e, crendo, faz o que lhe é mandado). Em grego, dizia-se, por exemplo, “peitharkheîn”, de peithein+arkeîn (entregar-se docilmente, submeter-se a quem tem o poder de mandar).
Gamaliel aconselhou o Sinédrio a que deixasse correr, pois, se aquilo fosse mera obra humana, acabaria por si própria (como outras de que reza a experiência), mas se fosse obra de Deus, não conseguiriam destruir aqueles homens sem o risco de guerra contra Deus. As suas palavras prudenciais foram tidas em conta: chamaram os apóstolos, mandaram-nos açoitar, proibiram-nos de falarem no nome de Jesus e libertaram-nos. E os apóstolos saíram da sala cheios de alegria por terem sido considerados dignos de sofrer vexames por causa do Nome de Jesus, quiçá lembrados da bem-aventurança profética de Jesus e respetiva exortação a eles dirigidas: 
Felizes sereis, quando vos insultarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o género de calúnias contra vós, por minha causa. Exultai e alegrai-vos, porque grande será a vossa recompensa no Céu; pois também assim perseguiram os profetas que vos precederam.” (Mt 5,11-12).  
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Enviados por Jesus como testemunhas de quanto Lhe aconteceu e movidos pelo Espírito Santo, os apóstolos não podiam calar-se, tinham que falar, na certeza de que os prodígios, sempre que necessário, corroborariam a palavra da Verdade e o ensinamento de que a todos os homens é oferecido o arrependimento e o perdão dos pecados, pregados em nome do Messias Senhor, que é exatamente Aquele a quem os chefes de Israel dera a morte crucificando-O, mas que Deus Pai ressuscitou e tornou o Senhor.
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Os apóstolos nunca mais esqueceriam as aparições do Ressuscitado: a do dia da Ressurreição, em que Ele lhes deixou a sua paz como prometera no fim da Ceia, mostrou as marcas da Paixão, soprou sobre eles insuflando-lhes o Espírito Santo e lhes confiou a missão de perdoar (cf Jo 20,19-23); a de oito dias depois, em que mostrou em especial a Tomé, incrédulo, as marcas da Paixão e o desafiou a meter o dedo no lugar dos cravos e a mão no lado aberto, ao que o até ali incrédulo se prostrou numa atitude de fé, espanto e adoração, “Meu Senhor e meu Deus”, tendo Jesus acabado por exortar à fé sem a necessidade de ver (cf Jo 20,24-29); e a da pesca milagrosa (Jo 21,1-14), que se comenta a seguir.
A perícopa em referência, carregada de simbolismo teológico, mostra como o Ressuscitado se presentifica no quotidiano da comunidade e lhe assegura a eficácia da missão.
Começa o trecho evangélico por nos apresentar um grupo de sete discípulos. Como o número sete é um número simbólico da totalidade, nestes sete discípulos estão englobados todos os discípulos de Cristo. Estes sete alinharam na iniciativa de Pedro, porque este tem um lugar relevante na comunidade, e vão pescar. Também esta pesca tem o seu simbolismo. Com efeito, Jesus, aquando da escolha dos discípulos, disse que a sua missão é de serem pescadores (haleeîs) de homens (cf Mc 1,17; Mt 4,19; Lc 5,10), pois, à imagem da missão de Jesus, consiste em tirar todos os homens do mar do sofrimento e da escravidão em que vivem. O mar era, para os judeus, o lugar dos monstros, forças e espíritos demoníacos que procuravam roubar a vida e a felicidade dos homens. Assim, agora ressuscitado, Jesus retoma e reforça a missão haliêutica de Pedro e de todos os discípulos: a de pescar/tirar/libertar os homens do poder do mal e das forças da morte.
Recorde-se que, enquanto Mateus e Marcos escrevem “haleeîs” para chamar pescadores e pescadores de homens aos discípulos, segundo o dito do Senhor, Lucas (cf Lc 5,10) emprega a frase “apó toû nyn anthrópous ésêi zôgrôn” (doravante serás o que apanha vivos homens, ou os reanima – em conformidade com o particípio presente do berbo zogréô), referente a Simão Pedro.
Os apóstolos quiseram realizar esta pesca de noite, na ausência de Jesus. E ela não resultou, porque sem Ele nada podemos fazer (cf Jo 15,5). É a sua presença que garante a eficácia da missão e é à luz do dia, sob a luz de Cristo que ela se desenvolve, ouvindo, vendo e falando claro. Assim e apesar da sensação da noite da ausência de Jesus, não perdemos a esperança, porque o Senhor Ressuscitado não nos abandona: torna-se presente na nossa vida permitindo que a noite ceda o seu lugar ao romper da aurora de um novo dia e de um mundo novo.
Com a presença do Senhor Ressuscitado e seguindo docilmente a sua palavra (obedecendo-Lhe), a missão não está condenada ao fracasso, mas redunda em êxito. Visto que Jesus está presente e porque os discípulos seguem as suas indicações: mesmo sem o terem reconhecido de pronto, os discípulos executam a missão com êxito: pescam 153 grandes peixes (símbolo da totalidade da humanidade, pois, ao tempo eram 153 as espécies de peixes conhecidas). Nestes termos, o texto deixa claro que o êxito desta missão universal não se deve ao mero esforço humano, mas à presença e à Palavra do Senhor Ressuscitado, embora nós tenhamos de fazer a nossa parte. No entanto, esta presença é uma presença diferente. Jesus não se coloca no barco onde os discípulos estão a pescar, mas em terra e continua a interpelá-los e a convidá-los para terra, para a refeição que preparou, solicitando que tragam algo do que pescaram. Ele não abandona a comunidade, mas no hoje da história é a comunidade cristã – os discípulos de Jesus – a continuadora da missão.
Outro dado relevante a sublinhar é o ambiente evocador da eucaristia. Na verdade, quando os discípulos puxaram as redes carregadinhas de peixes para terra, Jesus convidou-os a comer do pão e dos peixes que Ele já tinha preparado, junto com peixes que eles acabaram de pescar. Diz o evangelista: “Jesus aproximou-Se, tomou o pão e deu-lho, fazendo o mesmo com os peixes. É a mesma fórmula utilizada na ocasião da multiplicação dos pães e dos peixes, na última ceia e na refeição com os discípulos de Emaús, após a ressurreição. Desde os primeiros tempos da Igreja, o pão foi referido à eucaristia, e o peixe foi sinal e contrassenha de Cristo e, por assimilação, dos cristãos, que são fundamentalmente pessoas eucarísticas.
E outro aspeto a sublinhar nesta perícopa é o facto de o discípulo predileto, modelo de todos os discípulos de Jesus, ter reconhecido a presença do Senhor Jesus ao ver o êxito da pesca. E isso deve-se a um fator determinante: o amor – amar, ser amado e ter a consciência de ser amado. Como na visita ao sepulcro vazio, o amor ajudou: “Viu e acreditou” (Jo 20,8). E será o amor praticado como Ele mandou que nos tornará idóneos para reconhecer, à imagem do discípulo predileto, a presença do Ressuscitado na simplicidade e banalidade do nosso dia a dia e na pessoa daqueles e daquelas que precisam da nossa atenção, entrega e doação.  
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E, por falar de amor com base da dinâmica da fé escutante, obediente, confiada e disponível para a ação pastoral, é de considerar a perícopa que vem a seguir à pesca milagrosa no capítulo 21 do 4.º Evangelho (Jo 21,14-19) e que mostra como o Ressuscitado, apesar das nossas negações e traições, com o seu amor nos reabilita como suas testemunhas e arautos neste mundo. 
O belo diálogo do Senhor com Pedro restabelece a relação de amor entre Pedro e Jesus e onde o Senhor confia a Pedro a missão de apascentar o seu rebanho. Jesus pergunta, por três vezes, a Pedro se O ama e, à medida que obtém uma resposta positiva, confia-lhe o cuidado dos seus cordeiros, das suas ovelhas. 
A tríplice interrogação e a subsequente tríplice resposta constituem um claro paralelo às três negações de Pedro na noite da Paixão. Com efeito, a relação de amor entre Pedro e Jesus, quebrada pelo pecado, tem de ser restaurada. Porém, a iniciativa desta restauração reconciliante não parte de Pedro, mas de Jesus. É Ele o pastor que vem em busca da ovelha perdida.
Jesus volta a chamar Pedro de “Simão, filho de João”. Só há dois casos em que Jesus se dirige a Pedro deste modo: quando lhe impõe o nome de Pedro (cf Jo 1,42); e aquando da confissão messiânica de Pedro em Cesareia de Filipe e lhe confia a Igreja (vd Mt 16,16-19). Sendo assim, conclui-se que, neste texto, se está a renovar e a corroborar a vocação/missão de Pedro. Jesus vai confiar a Pedro a missão de apascentar o seu rebanho.
Não obstante, para que Pedro possa desempenhar tal missão, foi sujeito a um exame sobre o amor a Jesus, tendo de responder à questão: “Tu amas-Me?”, já que, para apascentar as ovelhas, que não são suas, mas do Bom Pastor, tem de entrar pela porta do aprisco que é Jesus (cf Jo 10), estar e viver em comunhão de amor com Jesus.
É por isso que a pergunta de Jesus a Pedro é uma pergunta sobre o amor. E não é um verbo qualquer que Jesus utiliza. Jesus, nas duas primeiras vezes, utiliza segmento verbal agapâs me, ou seja, se Pedro ama a Jesus com um amor divino, profundo, intelectual e gerador de comunidade e, por outro lado, se O ama “mais do que estes”. O pronome demonstrativo “estes” (tútôn, em genitivo do plural, igual para o masculino, feminino e neutro) pode referir-se aos outros discípulos que estavam com Pedro e também se pode referir a estas coisas, isto é, o trabalho de pescador. Assim, Jesus pode estar a pedir a Pedro que deixe a sua vida habitual de pescador e se dedique exclusivamente à missão do pastoreio do rebanho. Pedro respondeu à pergunta: “Sim, Senhor, Tu sabes que Te amo”. Contudo, o verbo grego que na resposta é traduzido por amar não é o que aparece na pergunta de Jesus. Pedro responde com o amor de simples amizade (philô se). Esta diferença de verbos mostra que Pedro se conhece bem e deixou de ser orgulhoso. Não temos aqui a resposta soberba que Pedro deu a Jesus na última ceia (cf Mt 26,36). A resposta de Pedro mostra, não só a consciência da sua debilidade e do seu fracasso, mas também a vontade de, na sua debilidade, amar Jesus até ao fim. E, na terceira pergunta de Jesus a Pedro, Jesus, condescende e já não usa o verbo “agapáô”, mas o verbo “philéô” (phlileîs me). E é a este Pedro débil que Jesus confia o seu rebanho e convida ao seguimento, um seguimento até ao fim, até dar a sua vida por Ele. E é Pedro, restabelecido no amor e consciente da responsabilidade da missão de apascentar o rebanho, que anuncia a morte e a ressurreição de Jesus e enfrenta todos os perigos, porque “deve obedecer-se antes a Deus que aos homens” (cf At 5,29sss).
Foi Pedro quem proclamou, em nome dos companheiros, a morte e a ressurreição de Jesus, em forma de denúncia profética e de testemunho pessoal:
Foi este Jesus que Deus ressuscitou, e disto nós somos testemunhas. Tendo sido elevado pelo poder de Deus, recebeu do Pai o Espírito Santo prometido e derramou-o como vedes e ouvis. Saiba toda a Casa de Israel, com absoluta certeza, que Deus estabeleceu como Senhor e Messias a esse Jesus por vós crucificado” (At 2,32-33.36).  
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Também agora em cada dia, mas sobretudo ao domingo, Jesus na eucaristia, à imagem do ocorrido no evangelho, parte o pão que é o seu corpo e no-lo entrega, nos convida ao amor que leva à descoberta da sua presença na nossa vida e ao restabelecimento da comunhão de amor com Ele, tantas vezes rompida pelas nossas negações, traições e pecados.
O que nos vale é a misericórdia divina, cujo anúncio faz parte integrante do núcleo da missão da Igreja. A este respeito, escrevia o Papa Francisco na bula Misericordiae vultus (Mv), pela qual convocava a Igreja para o Jubileu Extraordinário da Misericórdia:  
 A Igreja sente, fortemente, a urgência de anunciar a misericórdia de Deus. A sua vida é autêntica e credível, quando faz da misericórdia seu convicto anúncio. Sabe que a sua missão primeira, sobretudo numa época como a nossa cheia de grandes esperanças e fortes contradições, é a de introduzir a todos no grande mistério da misericórdia de Deus, contemplando o rosto de Cristo. A Igreja é chamada, em primeiro lugar, a ser verdadeira testemunha da misericórdia, professando-a e vivendo-a como o centro da Revelação de Jesus Cristo.” (Mv 25).
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Assim, a liturgia do 3.º Domingo da Páscoa convida-nos a prestar atenção ao modo como a Igreja primitiva de Jerusalém testemunhava Cristo Ressuscitado e vivia a sua fé. Constituída por pessoas que conheceram Jesus, testemunharam os Seus milagres e ouviram a Sua pregação, enfrentava o ambiente de perseguição e preocupava-se em viver com fidelidade o que Jesus ensinou. E a sua vivência ser de estímulo a que a Igreja do nosso tempo, que nós integramos, e do lugar em que vivemos, examine a fidelidade ao que Jesus ensinou, pois só merece o nome de Discípulo do Senhor aquele que procurar viver assim e se dispuser ao apostolado por todos os meios que tenha e possa vir a ter ao seu alcance, tentando entender o mundo e ver nele os sinais de Deus e insuflar-lhe o espírito evangélico.
Ámen. Aleluia!
2019.05.05 – Louro de Carvalho

domingo, 14 de abril de 2019

A mundanidade espiritual é a mais pérfida tentação a ameaçar a Igreja


Disse-o, citando Henri de Lubac, o Papa Francisco na homilia da Missa do Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor, a que presidiu na Praça de São Pedro.
No início da celebração, o Pontífice deslocou-se ao centro da Praça, junto ao obelisco de origem egípcia que ficava no antigo circo romano – onde morreu, crucificado de cabeça para baixo por não se considerar digno de morrer como o Mestre, o Apóstolo Pedro – e ali abençoou as palmas e os ramos de oliveira. Depois da proclamação de apropriada perícopa do Evangelho de Lucas (Lc 19,28-40), presidiu à procissão para o altar, situado em frente à fachada da Basílica, para a celebração da Missa.
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Na homilia sublinhou a notória contradição entre “as aclamações da entrada em Jerusalém e a humilhação de Jesus”, os clamores de júbilo e festas seguidos do encarniçamento feroz a exigir a crucifixão do Senhor. E vincou a necessidade de, animados pelo Espírito Santo, obtermos o que se pede na oração: acompanhar com fé o caminho do Salvador e ter presente o ensinamento da sua Paixão “como modelo de vida e de vitória contra o espírito do mal”. Com efeito, o Senhor ensina atitudinalmente “como enfrentar os momentos difíceis e as tentações mais insidiosas, guardando no coração uma paz que não é isolamento”, mas abandono confiante nas mãos do Pai e entrega à sua vontade de salvação, de vida, de misericórdia. Apesar de se ver, em toda a sua missão (“desde o início, nos 40 dias no deserto, até ao fim, na Paixão”), “assaltado pela tentação de ‘fazer a sua obra’, escolhendo Ele o modo e desligando-Se da obediência ao Pai”, Jesus repele tal ideia-força e obedece confiadamente ao Pai.
Acentuou o Papa:
Agora, o príncipe deste mundo tinha uma carta para jogar: a carta do triunfalismo. Mas o Senhor respondeu permanecendo fiel ao seu caminho, o caminho da humildade.”.
E vincou:
O triunfalismo procura tornar a meta mais próxima por meio de atalhos, falsos comprometimentos. Aposta na subida para o carro do vencedor. O triunfalismo vive de gestos e palavras, que não passaram pelo cadinho da cruz; alimenta-se da comparação com os outros, julgando-os sempre piores, defeituosos, falhados... Uma forma subtil de triunfalismo é a mundanidade espiritual, que é o maior perigo, a mais pérfida tentação que ameaça a Igreja (Henri de Lubac). Jesus destruiu o triunfalismo com a sua Paixão.”.
E, frisando que Jesus Se alegrou com a iniciativa do povo e com os clamores dos jovens que gritavam o seu nome, aclamando-O Rei e Messias, a ponto de retorquir a quem desejava calá-los, que, se eles se calassem, gritariam as pedras (cf Lc 19,40), Francisco realça que “humildade não significa negar a realidade, e Jesus é realmente o Messias, o Rei”. Não obstante, segundo o Pontífice, o coração de Cristo estava no caminho santo que só Ele e o Pai conhecem, o que vai da ‘condição divina’ à de servo, pois, “sabe que, para chegar ao verdadeiro triunfo, deve dar espaço a Deus; e, para dar espaço a Deus, só há um modo: o despojamento, o esvaziamento de si mesmo”, e “com a cruz, não se pode negociar: abraça-se ou recusa-se”. Ora, pela humilhação, Ele “quis abrir-nos o caminho da fé e preceder-nos nele”. E, neste sentido da precedência de Cristo no caminho da fé, o Santo Padre evocou o percurso de sua Mãe, Maria, a primeira discípula, enfatizando que “a Virgem e os santos tiveram de padecer para caminhar na fé e na vontade de Deus”. E explicitou, citando São João Paulo II, Enc. Redemptoris Mater, 17:
No meio dos acontecimentos duros e dolorosos da vida, responder com a fé custa ‘um particular aperto do coração’. É a noite da fé. Mas, só desta noite é que desponta a aurora da ressurreição. Ao pé da cruz, Maria repensou as palavras com que o Anjo Lhe anunciara o seu Filho: ‘Será grande (...). O Senhor Deus vai dar-Lhe o trono de seu pai David, reinará eternamente sobre a casa de Jacob e o seu reinado não terá fim’ (Lc 1,32-33). No Gólgota, Maria depara-Se com o desmentido total daquela promessa: o seu Filho agoniza numa cruz como um malfeitor. Deste modo o triunfalismo, destruído pela humilhação de Jesus, foi igualmente destruído no coração da Mãe; ambos souberam calar. [E], precedidos por Maria, incontáveis santos e santas seguiram a Jesus pelo caminho da humildade e da obediência.”.
Depois, em Dia Mundial da Juventude, lembrando os inúmeros santos e santas jovens, especialmente os de ‘ao pé da porta’, pediu aos jovens que não se envergonhem de manifestar o seu entusiasmo por Jesus, “gritar que Ele vive, que é a vossa vida”, e que não tenham medo “de O seguir pelo caminho da cruz”. E exortou-os ao seguimento de Jesus na total confiança no Pai:
Quando sentirdes que vos pede que renuncieis a vós mesmos, que vos despojeis das próprias seguranças confiando-vos completamente ao Pai que está nos céus, então alegrai-vos e exultai! Encontrais-vos no caminho do Reino de Deus.”.
Salientando que Jesus vence mesmo a tentação de responder, de ser ‘mediático’, observou:
Nos momentos de escuridão e grande tribulação, é preciso ficar calado, ter a coragem de calar, contanto que seja um calar manso e não rancoroso. A mansidão do silêncio far-nos-á aparecer ainda mais frágeis, mais humilhados, e então o demónio ganha coragem e sai a descoberto. Será necessário resistir-lhe em silêncio, ‘conservando a posição’, mas com a mesma atitude de Jesus.”.
Com efeito, para Francisco, a guerra entre Deus e o príncipe deste mundo não se trava empunhando a espada, mas permanecendo calmos, firmes na fé. Sendo a hora de Deus, a “hora em que Deus entra na batalha, é preciso deixá-Lo agir” e “o nosso lugar seguro será sob o manto da Santa Mãe de Deus”. E o Pontífice desafia todos os crentes cristãos:
Enquanto esperamos que o Senhor venha e acalme a tempestade (cf Mc 4, 37-41), com o nosso testemunho silencioso e orante, demos a nós mesmos e aos outros a ‘razão da esperança que está em [nós]» (1Pe 3,15). Isto ajudar-nos-á a viver numa santa tensão entre a memória das promessas, a realidade do encarniçamento palpável na cruz e a esperança da ressurreição.”.
***
Da mensagem homilética de Francisco, o Vatican News destaca a evidência da mundanidade espiritual como forma subtil de triunfalismo a constituir “o maior perigo, a mais pérfida tentação que ameaça a Igreja”; a destruição do triunfalismo por Jesus com a Paixão”; o convite aos jovens, nesta Jornada Mundial da Juventude a nível diocesano, a não terem vergonha de manifestarem o seu entusiasmo por Jesus.
Depois, sobressai a antítese entre a carta do triunfalismo, jogada pelo maligno, o príncipe deste mundo, e o caminho da humildade com que o Senhor respondeu, o seu caminho, e em que permanece fiel. E, sendo verdade que Jesus aceitou a iniciativa do povo e se alegrou com os gritos dos jovens, o seu coração estava no caminho ditado pelo desígnio do Pai, o caminho da humilhação até à morte e morte de cruz, num silêncio impressionante, só interrompido pelas tradicionalmente conhecidas como as sete palavras de Jesus no alto da cruz:
- Pai, perdoa-lhes porque eles não sabem o que fazem (Lc 23,34).
- Ámen te digo: hoje mesmo estarás comigo no Paraíso (Lc 23,43).
- Mulher, Eis aí o seu filho...[ao discípulo]: Eis aí tua mãe... (Jo 19,26.27).
- Meu Deus, meu Deus, para que me desamparaste? (Elí, Elí, lama sabacthani? – Mt 27,46; ou Eloí, Eloí, lama sabacthani? – Mc 15,34).
- Tenho sede (Jo 9,28).
- Está consumado (Jo 19,30).
- Pai, em tuas mãos entrego meu espírito (Lc 23,46).
Referindo que Jesus sabe dar espaço a Deus e que, para tanto, se exige o despojamento, o esvaziamento de si mesmo, o Mestre soube e quis abrir-nos o caminho da fé e preceder-nos nele”, no que foi acompanhado pela Mãe e por muitos santos e santas, o Papa sublinhou que “no Gólgota, Maria se deparou com a aparente negação total daquela promessa davídica da anunciação: o seu Filho agoniza numa cruz como um malfeitor. Mas destruiu assim, o triunfalismo.
Por fim, explica o teor o triunfalismo no dizer do Papa:
O triunfalismo procura tornar a meta mais próxima por meio de atalhos, falsos comprometimentos. Aposta na subida para o carro do vencedor. O triunfalismo vive de gestos e palavras, que não passaram pelo cadinho da cruz; alimenta-se da comparação com os outros, julgando-os sempre piores, defeituosos e falhos...”.
E reitera: “Uma forma subtil de triunfalismo é a mundanidade espiritual, que é o maior perigo, a mais pérfida tentação que ameaça a Igreja. Jesus destruiu o triunfalismo com a sua Paixão”.
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Celebrou-se também, neste domingo, a 34.ª Jornada Mundial da Juventude. Ora, as JMJ são realizadas anualmente no âmbito diocesano, no Domingo de Ramos. Este ano, o tema da Jornada Mundial da Juventude diocesana é “Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38). A esse propósito o Papa disse na homilia:
Queridos jovens, não tenhais vergonha de manifestar o vosso entusiasmo por Jesus, gritar que Ele vive, que é a vossa vida. Mas, ao mesmo tempo não tenhais medo de segui-lo pelo caminho da cruz. E, quando sentirdes que Ele vos pede que renuncieis a vós mesmos, para vos despojardes das próprias seguranças confiando completamente no Pai que está nos céus, então alegrai-vos e exultai! Vós estais no caminho do Reino de Deus.”.
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À recitação da oração mariana do Angelus, no final da Missa celebrada na Praça São Pedro, o Papa saudou todas as pessoas que participaram na celebração eucarística e também as que a acompanharam pelos meios de comunicação. Ademais, quis estender a sua saudação pastoral a todos os jovens que hoje, em torno dos seus bispos, celebram a Jornada da Juventude em todas as dioceses do mundo e convidou-os a todos a rezarem pela paz e a tornarem suas e viverem quotidianamente as indicações da recente Exortação Apostólica Christus vivit, fruto do Sínodo que também envolveu muitos dos jovens seus coetâneos. Com efeito, segundo o Pontífice, cada um deles “pode encontrar inspirações fecundas para a sua vida e caminho de crescimento na fé e no serviço aos  irmãos”.
Também Francisco ofereceu aos fiéis, na Praça São Pedro, um Terço de madeira de oliveira feito na Terra Santa para a Jornada Mundial da Juventude no Panamá, em janeiro passado, e para este Domingo de Ramos. E considerou:
No contexto deste domingo, quis oferecer a todos vós reunidos na Praça de São Pedro, um Terço especial. As contas desse Terço de madeira de oliveira foram feitas na Terra Santa expressamente para o Encontro Mundial da Juventude no Panamá, em janeiro passado, e para o Dia de Hoje. Por isso, renovo o meu apelo aos jovens e a todos a que rezem o Terço pela paz, especialmente pela paz na Terra Santa e no Oriente Médio.”.
Por fim, o Papa pediu à Virgem Maria que nos ajude a viver bem a Semana Santa.
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Na verdade, é conveniente que a vivência desta semana nos torne mais discípulos, mais amigos do Senhor, mais irmãos dele e uns dos outros e mais apóstolos no sentido de que a proposta de salvação chegue a toda a gente, sobretudo na promoção de mais liberdade e dignidade para todos os seres humanos independentemente do credo que professem, da cor étnica de que são portadores, da condição social que lhes bateu à porta e da filiação ou da independência política em que fazem questão de se abrigar. Porque o Senhor veio para que tenhamos vida e a tenhamos em abundância. E nós somos vocacionados para este serviço à vida, à dignidade e à liberdade de todos e de cada um. Sem isto, não há fraternidade e a igualdade estará cada vez mais distante.
Temos, pois, que ser contemplativos e ativos num doseamento adequado às nossas reais possibilidades e às necessidades dos outros.
2019.06.14 – Louro de Carvalho