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segunda-feira, 2 de julho de 2018

Padre e poeta, profeta e apóstolo


Ainda está fresca na retina da memória portuguesa a nomeação, pelo Papa Francisco, do Padre e poeta português José Tolentino Mendonça, ocorrida no passado dia 26 de junho, como arquivista do Arquivo Secreto do Vaticano e bibliotecário da Santa Sé, passando a tutelar a mais antiga biblioteca do mundo e sucedendo na liderança daqueles serviços ao Arcebispo francês Jean-Louis Bruguès.
O Arquivo Secreto do Vaticano conserva os documentos relativos ao governo da Igreja para, antes de tudo, estarem à disposição da Santa Sé e da Cúria no desempenho do próprio trabalho, e para que depois, por concessão pontifícia, possam representar para todos os estudiosos de história fontes de conhecimento, mesmo profano, das regiões que há séculos estão intimamente ligadas com a vida da Igreja. E a Biblioteca Apostólica do Vaticano apresenta-se como “instrumento da Igreja para o desenvolvimento, a conservação e a divulgação da cultura” e, constituída pelos Papas, oferece, nas suas várias secções, “tesouros riquíssimos de ciência e de arte aos estudiosos que investigam a verdade”.
O sacerdote português, até agora vice-reitor da Universidade Católica Portuguesa (UCP) e diretor da Faculdade de Teologia (por decreto de 22 de maio de 2018, da Congregação para a Educação Católica), foi ainda elevado à dignidade de Arcebispo de Suava, no Norte de África.
O novo Arcebispo, que iniciará funções como arquivista do Arquivo Secreto e bibliotecário do Vaticano no dia 1 de setembro, foi convidado para orientar o retiro anual de Quaresma do Papa Francisco e da Cúria Romana (que decorreu entre 18 e 23 de fevereiro, em Ariccia, nos arredores de Roma), convite que então o deixou tão surpreendido que achou ter “sonhado” com isso.
Conhecido por utilizar referências à literatura nas meditações religiosas, Dom José Tolentino Mendonça chegou a citar Fernando Pessoa nas meditações apresentadas ao Papa Francisco, que lhe agradeceu por conseguir estabelecer uma ponte entre os textos bíblicos e a literatura secular.
Considerando o convite do Papa como uma grande honra para a Igreja portuguesa, para Portugal e para a UCP, a reitora Isabel Gil Capeloa lembra, em comunicado, que Tolentino Mendonça tinha assumido o pelouro das relações culturais e bibliotecas da Católica nas últimas duas equipas reitorais. Segundo a reitora da UCP, o Professor “contribuiu para tornar a atividade artística um eixo central da ação da Universidade Católica Portuguesa, incentivando um diálogo renovado e fecundo com a sociedade através da sua intervenção cultural e literária” e trabalhou no desenvolvimento do Código de Ética e Deontologia da UCP.
O novo arquivista e bibliotecário da Santa Sé manifestou à agência Ecclesia a sua determinação de “servir a Igreja na Cultura”, referindo:
A Cultura faz-nos viajar à raiz arquitetural da pessoa, àquilo que constitui o núcleo fundante da sua aventura existencial, mas também nos permite interrogar e iluminar o seu horizonte de sentido”.
Dom José Tolentino Mendonça sustenta que a sua missão como “Arquivista e Bibliotecário da Santa Igreja Romana” se insere numa tradição papal de “conservar num arquivo próprio a memória dos mártires e a gesta dos pastores, bem como os livros que asseguravam a atividade litúrgica e as necessidades administrativas da comunidade eclesial”. O Arcebispo salienta que há, desde o século VIII, notícias da existência duma biblioteca, enriquecida ao longo dos tempos com “monumentais e preciosos espólios”, que colocam a atual Biblioteca Apostólica Vaticana entre “as mais fascinantes instituições culturais do mundo”. Diz o novel prelado:
O arquivo e a biblioteca são assim lugares referenciais da memória específica do cristianismo, mas também da cultura universal; são espaços de ciência e de construção de pensamento, procurados por investigadores de todo o mundo que ali encontram o rastro da história e a capacidade que esta tem de iluminar o presente; são grandes repositórios daquela beleza capaz de ferir de infinito o coração humano”.
Para este colaborador do Papa, a Cultura é uma das “fronteiras proféticas” para o catolicismo de todos os tempos e, “de um modo talvez ainda mais incisivo, para o catolicismo contemporâneo”. Neste sentido, declarou:
A cultura documenta o que somos, é verdade. Mas espelha e potencia as grandes buscas interiores, o contacto com as grandes perguntas, a vizinhança das razões maiores que funcionam como patamares do caminho a que a nossa humanidade vai chegando, a proximidade daquele vastíssimo e inconsútil silêncio que, porventura ainda melhor do que a palavra, exprime em nós o mistério do Ser.”.
No pontificado de Francisco o Arcebispo destaca a “arte do encontro” que o Papa tem promovido e que encontra na Cultura “um espaço de desenvolvimento natural”, aliás na linha dos antecessores, embora com um tom muito próprio. E, sobre a cultura, diz neste sentido:
A Cultura, no seu sentido mais verdadeiro, é prática de escuta, de atenção, de intercâmbio e de interdependência; é exercício interminável de hospitalidade. Não admira que um dos serviços que a Igreja de cada tempo presta ao futuro seja, por isso, o investimento no diálogo entre a Fé e a Cultura, que constitui um horizonte inequívoco para uma apresentação credível do Evangelho ao coração das mulheres e dos homens nossos contemporâneos e uma reparadora fonte de esperança e de paz.”.
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Dom José Tolentino Mendonça nasceu em Machico (Região Autónoma da Madeira) em 1965 e foi ordenado sacerdote em 28 de julho de 1990. Deslocou-se para Roma, onde concluiu, no Pontifício Instituto Bíblico, o mestrado em Ciências Bíblicas. Regressado a Portugal, ingressou na UCP, onde foi capelão e lecionou as disciplinas de Hebraico e Cristianismo e Cultura. Aí se doutorou em teologia bíblica, tornando-se seu professor auxiliar. Dirigiu até ao ano de 2014 o Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, da Igreja Católica em Portugal, de que foi o primeiro Diretor e a revista Didaskália editada pela Faculdade de Teologia. As linhas de investigação privilegiadas do teólogo e poeta são Bíblia e literatura, teologia de Paulo, representações de Jesus nos textos cristãos e na cultura contemporânea, a par do tema do corpo nos textos cristãos das origens.
O novo Arcebispo, consultor do Conselho Pontifício da Cultura (Santa Sé) desde 2011, por designação de Bento XVI, era capelão na Capela do Rato e na UCP, foi reitor do Pontifício Colégio Português, em Roma, e era diretor da Faculdade de Teologia da UCP. O seu livro “A Mística do Instante” foi galardoado com o Prémio literário Res Magnae 2015, um importante prémio italiano atribuído no campo da ensaística. Foi o primeiro português e o único não italiano, até à data, a receber este prémio. Em 2016, a sua obra de cronista foi distinguida com o prémio APE e a sua obra poética com o Prémio Teixeira de Pascoaes. A 9 de junho de 2016, foi designado Membro do Conselho das Antigas Ordens Militares. E, em 2012, foi considerado um dos 100 portugueses mais influentes em 2012, pela REVISTA do jornal Expresso.
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Este padre poeta é um exemplo do que devia ser qualquer sacerdote: poeta, profeta e apóstolo.
Com efeito, Deus é poeta por Se comunicar-se por versos e metáforas. É certo que a Sua linguagem, carregada de símbolos, é hermética, misteriosa, para o coração duro e rude, e que, para O entender, se precisa de ouvido espiritual, sensível ao êxtase transcendental, mas, quando Deus declama, o universo dança, as donzelas e os jovens saltam de alegria, as crianças sorriem e gritam e os anciãos e anciãs têm sonhos e visões. E todos fazem associar-se a si a terra, o mar e o firmamento, os animais e plantas e as próprias pedras para enarrarem as maravilhas de Deus.
Por que nos criou à Sua imagem e semelhança, Deus põe os Seus olhos na procura e na mira de homens e mulheres disponíveis para encarnar os divinos sentimentos. Ora, nesta linha, vêm os profetas, que foram todos chamados e enviados por Deus para, por metáforas e imagens, porem dramaticamente o dedo nas chagas sociais, morais e religiosas cavadas pelos homens, anunciarem, na alegria do Espírito, o compromisso de Deus com a vida e construírem as sólidas plataformas da esperança messiânica, vindo, as plantas venenosas congraçar-se com as sãs, os animais opostos a juntar-se em convivência e as espadas da guerra a transformar-se em relhas de arado – e, na doçura do poema inspirado, se eleva ao Altíssimo o melhor hino à vida e ao amor.   
Porque o compromisso de Deus é só com a vida, o Senhor faz alçar homens e mulheres que se indignam com a sordidez, mas se apaixonam com o sublime. E toda a sua profecia é vertida em linguagem poética. Inundados do Espírito de Deus, os profetas cantam em elevado lirismo o sentimento do amor devotado, infinito e misericordioso de Deus para com o Seu Povo, o ser humano, e cantam a resposta eucaristicamente anafórica do Povo e do Homem ao seu Deus. Se dramaticamente levam ao Deus da misericórdia a miséria e debilidade humanas para que Se apiede, também com a ousadia recebida do Alto põem a humanidade a cantar a épica Odisseia do Deus que desceu à condição humana para o elevar ao patamar da condição divina, tornando-o filho com o Filho e com Ele herdeiro dos tesouros da Verdade, da Bondade e da Beleza.  
A vocação poética do profeta pode não o levar ao jeito de fazer rimas ou versos segundo qualquer métrica tradicional, mas leva-o ao derrame das lágrimas sobre o ambão da preleção, ao suor do esforço da caminhada à procura de quem precisa de chamada de atenção, conforto, metanoia, a sangrar no texto que deseja que perdure para a posteridade. A expressão rítmica do coração de Deus vaza na tinta da sua pena. O poeta-profeta pressente o que presente deveria ser, mas ainda não é; e vê-se convocado para reencantar os desanimados, curar os desesperançados, destilar beleza de mundos imaginários em terras áridas. E esta atividade dá-lhe o júbilo de Deus.
A matéria-prima do profeta é a poesia. Como artesão de polifacetados vasos de cristal ou oleiro de frágeis vasos de barro, o poeta-profeta maneja a palavra com simplicidade natural, mas com encantadora delicadeza. Pretende mostrar que o quotidiano, nas suas perversas contradições, poderia seguir por outra via. O poeta-profeta derrama-se como óleo perfumado no texto que é todo seu, mas que se torna todo para os outros porque o recebeu de Deus; faz-se lenho do fogo abrasador que aquece a história e gera a luminosidade que dá a vista aos cegos; torna-se mola do coxo que precisa de andar, estímulo para o surdo que precisa de ouvir, bálsamo para o doente que necessita da cura, farinha e água para quem precisa de pão e de água para saciar a fome e a sede. Ansioso por conjugar os extremos na síntese promotora do bem, sabe que o único Absoluto é o Amor, o único Bem é Vida e o único Alvo é a valorização do instante de Deus.
Como o poeta-profeta é o apóstolo. Porém, enquanto o profeta se constitui chamado, predestinado e discípulo mediante uma teofania em que não pôde ver o rosto de Deus, o apóstolo constitui-se como discípulo privando com o Deus encarnado em Seu Filho Jesus, sendo convidado a segui-Lo, ouvindo-O no quotidiano, partilhando com Ele o banquete da Salvação, o trabalho, os direitos e as obrigações; sente com Ele o momento da celebração da Aliança, come do Seu corpo e bebe do Seu sangue. Depois, tem o privilégio de rezar com o próprio Jesus/Deus. Não assistiu à Sua morte porque teve medo ou, se assistiu, recebe como testamento da caridade divina a Mãe do próprio Deus e confia-se a Ela. Tem mãe. Fixa e contempla o Ressuscitado e com alegria, movido pela força do Espírito Santo, vai anunciar que Aquele que estava morto vive e é constituído o Senhor em quem encontramos o perdão. E esta mensagem é comunicada a partir de Jerusalém, em círculos concêntricos, até aos últimos confins da Terra.
Queremos melhor pretexto para o dinamismo poético-profético-apostólico?
Mas há mais. Enquanto os profetas antigos tinham uma missão provinda dum passado teofânico, mas nubloso, com vista à aquisição das coisas que iriam acontecer, o apóstolo é enviado porque foi constituído testemunha ocular e auditiva (ou equivalente nos seus fundamentos) de factos já ocorridos que persistem no presente e permitem um futuro assente não apenas na esperança, que se reforça como força motriz, mas sobretudo na abundância da caridade divina que se torna mandamento irrecusável com intensidade pessoal e abrangência universal tornada marca indelével e contagiante dos novos seguidores, discípulos e apóstolos – quiçá mártires até ao sangue ou professores da fé até à entrega ilimitada, heroica e docente.
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Poetas-profetas discípulos-apóstolos, mártires-professores da fé rejeitam redomas, estufas, viveiros, gaiolas. Quererem diminuir-se para que Ele cresça. Não aprisionam a mensagem, o mistério, o projeto. Comunicam-no, divulgam-no, consolidam-no, celebram-no.
Trocam os tapetes pelo chão batido. Solitários, não se vergam aos homens; só obedecem a Deus, que marca o compasso do próprio coração; indomáveis, revoltam-se com o trivial; irrequietos, perturbam o normal. São verdadeiros revolucionários da ternura e da misericórdia de Deus. Fazem a poesia da vida e transformam a desgraça em sublimação do desígnio divino presente nos homens mais pobres, doentes, descartados ou no coração das almas generosas, dedicadas. De gente dispersa constroem a comunhão, com indivíduos isolados fazem comunidade viva na fé, na esperança e no amor. É a verdadeira poesia factiva!
Poetas-profetas discípulos-apóstolos, mártires-professores da fé não defendem a própria reputação. Alvos fáceis dos ímpios quando negam a história, só as gerações futuras lhes fazem justiça. Pedras do meio do caminho incomodam; indestrutíveis, semeiam trigo que se fará o pão do idealista, do revolucionário, mesmo que perturbado pelo crescimento irritante da cizânia.
Poeta-profeta discípulo-apóstolo, mártir-professor da fé é alquimista, pois faz das palavra poção encantante e o seu feitiço condimenta a vida. Cria sabores exóticos; usa verbo forte, inebria a imaginação e gera o sonho. Conhece o segredo de transformar o transcendental no plausível. Alado, vive nas nuvens, mantém parceria perpétua com os anjos e adora a Deus em espírito e verdade, na intimidade do quarto, no interior do Templo, no silêncio das montanhas ou no bulício das praças. Escuta a bruma do vale, agasalha-se sob o manto platinado da lua e expõe-se ao fulgor e calor do sol. Não teme ausências e a solidão não o intimida. É selvagem como o tigre, altivo como a águia e acutilante ou encantador como a serpente.
Poeta-profeta discípulo-apóstolo, mártir-professor da fé nascera no pé do arco-da-velha; salvo das águas, cresce como o cedro do Líbano; sensível, plora com o dedilhar da harpa; torna-se parceiro dos humildes, dos mansos e dos puros de coração. Contudo, o seu destino é a cruz.
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Que de junto de São Pedro e imerso na sua Cultura, Dom José Tolentino, brilhe com a poesia, a profecia e o apostolado.
2018.07.02 – Louro de Carvalho

segunda-feira, 25 de junho de 2018

Do precursor ao apóstolo


A solenidade do Nascimento de São João Batista dá azo a reflexão na linha do enunciado vertido em epígrafe. Com efeito, no hino de Vésperas, dirigindo-nos ao Santo, rezamos:
Um mensageiro vindo das alturas / Vosso nome bendito anunciou, / Profetizando o vosso ministério / Precursor”.
O Evangelho da Missa da Vigília (repare-se que esta é das poucas solenidades com textos próprios para a Missa da Vigília – as outras são: a do Natal, a da Páscoa, a do Pentecostes, a de São Pedro e São Paulo e a da Assunção de Nossa Senhora), tomado de Lucas, no atinente ao anúncio do nascimento de João (Lc 1,5-17), refere que o anjo Gabriel apareceu ao sacerdote Zacarias já de avançada idade, que oficiava no Templo, a predizer-lhe que Isabel, sua esposa, estéril e de idade avançada (eram um casal justo e cumpridor irrepreensível  de todos os mandamentos e leis do Senhor) iria conceber e dar à luz um filho, ao qual ele poria o nome de João. E, ante a estupefação de Zacarias, o mensageiro marcou detalhadamente a missão de João como precursor, o que vai à frente:
Será cheio do Espírito Santo desde o seio materno e reconduzirá muitos dos filhos de Israel ao Senhor, seu Deus. Irá à frente do Senhor, com o espírito e o poder de Elias, para fazer voltar os corações dos pais a seus filhos e os rebeldes à sabedoria dos justos, a fim de preparar um povo para o Senhor”. 
E o Evangelho da Missa do Dia, também de Lucas (Lc 1,57-66.80) mostra Zacarias aquando da circuncisão do menino (8 dias de pois do seu nascimento) a colocar por escrito (pois tinha emudecido) a ordem do anjo “João é o seu nome”, tal como Isabel tinha dito aos circunstantes. Depois, abriu-se-lhe a boca e soltou-se-lhe a língua; e, começando a falar, bendisse a Deus, com a admiração de todos, que se encheram de temor e levaram  a que por toda a região montanhosa da Judeia se tenham divulgado estes factos. 
Por outro lado, o cântico do “Benedictus”, proferido por Zacarias na mesma ocasião, se bem revela que este nascimento significa a visita misericordiosa de Deus ao seu povo e a redenção do mesmo povo pela mão dum salvador poderoso que aí vem e que nos fará viver em santidade e justiça todos os dias da nossa vida na presença do Senhor, também precisa que João não é o Salvador, mas o menino que será chamado profeta do Altíssimo porque irá à frente do Senhor a preparar os seus caminhos e a dar a conhecer ao povo a salvação pela remissão dos pecados.
Assim e por isso, o precursor “será grande aos olhos do Senhor e cheio do Espírito Santo desde o seio materno” e “muitos se alegrarão com o seu nascimento” (Lc 1,15.14), pois foi enviado por Deus para dar testemunho da luz e preparar o povo para a vinda do Senhor (cf Jo 1,6-7; Lc 1,17).
Na sua estrita e importante missão de precursor, João advertiu: Eu não sou o Messias” (Jo 1,20). E declarou: Eu sou a voz de quem grita no deserto:Retificai o caminho do Senhor’, como disse o profeta Isaías” (Jo 1,23; cf Mt 3,3; Mc 1,2-3). E Lucas refere ainda os resultados esperados:
Toda a ravina será preenchida, todo o monte e colina serão abatidos; os caminhos tortuosos ficarão direitos e os escabrosos tornar-se-ão planos. E toda a criatura verá a salvação de Deus.” (Lc 3,5-6).
Assim, João justificou:
Eu batizo com água, mas no meio de vós está quem vós não conheceis. É aquele que vem depois de mim, a quem eu não sou digno de desatar a correia das sandálias.” (Jo 1,26).
Ou de outro modo, enfatizando a conversão e referindo o poder judicativo do Messias:
Eu batizo-vos com água, para vos mover à conversão; mas aquele que vem depois de mim é mais poderoso do que eu e não sou digno de lhe descalçar as sandálias. Ele há de batizar-vos no Espírito Santo e no fogo. Tem na sua mão a pá de joeirar; limpará a sua eira e recolherá o trigo no celeiro, mas queimará a palha num fogo inextinguível.” (Mt 3,11-12; cf Mc 1,7-8; Lc 3,16-17).
No dia seguinte, coube-lhe fazer a apresentação presencial de Jesus. Vendo que Ele se dirigia ao seu encontro, exclamou, frisando o dado nuclear da messianidade, o resgate pascal do pecado:
Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo! É aquele de quem eu disse: ‘Depois de mim vem um homem que me passou à frente, porque existia antes de mim’.” (Jo 1,29-30).
Mais, depois do Batismo que João ministrou a Jesus, também Lhe cedeu alguns dos seus discípulos com vista à realização da messianidade, pois, como refere o evangelista,
No dia seguinte, João encontrava-se de novo ali com dois dos seus discípulos. Então, pondo o olhar em Jesus, que passava, disse: ‘Eis o Cordeiro de Deus!’. Ouvindo-o falar assim, os dois discípulos seguiram Jesus, o qual se voltou e, notando que o seguiam, perguntou-lhes o pretendiam. Eles disseram: ‘Rabi (que quer dizer Mestre), onde moras?’. Ele respondeu-lhes: ‘Vinde e vereis’. Foram, pois, e viram onde morava e ficaram com Ele nesse dia.” (Jo 1,35-39).
Mais tarde, surge um novo testemunho do Batista sobre Jesus. Tendo Jesus ido com os seus discípulos para a região da Judeia, onde convivia com eles e batizava, e, estando João a batizar em Enon, perto de Salim, vinha gente ter com um e com outro para ser batizada, em razão da abundância da água. Levantou-se, então, uma discussão entre os discípulos de João e um judeu acerca dos ritos de purificação. Foram, pois ter com João a dizer-lhe ciosamente: ‘Aquele que estava contigo na margem de além-Jordão e de quem deste testemunho está a batizar e toda a gente vai ter com Ele’ (cf Jo 3,22-23.25-26). Aí, João esclareceu desinteressada e perentoriamente:
Um homem não pode tomar nada como próprio, se isso não lhe for dado do Céu. Vós mesmos sois testemunhas de que eu disse: ‘Eu não sou o Messias, mas apenas o enviado à sua frente.’ O esposo é aquele a quem pertence a esposa; mas o amigo do esposo, que está ao seu lado e o escuta, sente muita alegria com a voz do esposo. Pois esta é a minha alegria! E tornou-se completa! Ele é que deve crescer, e eu diminuir.” (Jo 3,27-30).
Ficou, assim replasmado em definitivo, neste segmento, o papel do precursor com a afirmação humilde e designiacional da necessidade do crescimento do Messias e da diminuição funcional daquele que foi enviado à sua frente com uma missão propedêutica. Quantos, porém, ao longo do tempo, não souberam circunscrever-se à missão de precursores e se quiseram empoleirar na função de Messias ou de seus lídimos lugares-tentes, com todos os poderes e honras!
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E Jesus confirma a missão precursora do Batista e tece largos elogios à sua personalidade e ao cumprimento cabal da sua missão propedêutica e antropagógica.
Assim, para Jesus, João é um profeta e mais que um profeta: aquele de quem está escrito: Eis que envio o meu mensageiro diante de ti, para te preparar o caminho. Tanto assim é que entre os nascidos de mulher, não apareceu ninguém maior do que João Batista; e, no entanto, o mais pequeno no Reino do Céu é maior do que ele, porque o Reino é arrebatado pelos simples, pelos humildes e pelos persistentes. Desde o tempo do Batista até agora, o Reino do Céu tem sido objeto de violência e os violentos apoderam-se dele à força. Todos os Profetas e a Lei anunciaram isto até João. E, quer se acredite quer não, ele é o Elias que estava para vir (cf Mt 11,9-14; Lc 7,26-28). 
Por outro lado, o Mestre faz saber – em resposta a um pedido de esclarecimento de emissários que vinham da parte do precursor, ora preso nas masmorras herodianas – que o Messias estava já em franca atividade missionária a Patre e especificou os sinais:
Ide contar a João o que vedes e ouvis: Os cegos veem e os coxos andam, os leprosos ficam limpos e os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e a Boa-Nova é anunciada aos pobres. E bem-aventurado aquele que não encontra em mim ocasião de escândalo.” (Mt 11,4-6; Lc 7,22-23).
Com efeito, nessa altura, Jesus curava a muitos das suas doenças, padecimentos e espíritos malignos e concedia vista a muitos cegos (Lc 7,21) – totalmente em consonância com a missão messiânica plasmada no cap. 4 de Lucas na sequência da profecia de Isaías, cumprida em Jesus: 
O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para anunciar a Boa Nova aos pobres; enviou-me a proclamar a libertação aos cativos e, aos cegos, a recuperação da vista; a mandar em liberdade os oprimidos, a proclamar um ano favorável da parte do Senhor” (Lc 4,18-19).
No Evangelho de Mateus, o ensinamento de Jesus compendia-se nas Bem-aventuranças, que abrem o discurso do Sermão da Montanha (vd Mt 5,1-12); e, no de João, a finalidade da vinda de Jesus ao mundo é que todos “tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10). E isto pode ser dito e redito de muitos modos a teor do Evangelho, mas basta que retenhamos o segmento fixado perentoriamente no Evangelho de Marcos “o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por todos” (Mc 10,45; cf Mt 20,28) e o apelo do Mestre vertido no Evangelho de João:
Se Eu, o Senhor e o Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns aos outros. Na verdade, dei-vos exemplo para que, assim como Eu fiz, vós façais também.” (Jo 13,14-15). Dou-vos um novo mandamento: que vos ameis uns aos outros; que vos ameis uns aos outros assim como Eu vos amei. Por isto é que todos conhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros.” (Jo13, 34-35).
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E pronto. Já percebemos tacitamente como a missão do discípulo que se fez apóstolo (pois ninguém pode ser apóstolo se não for discípulo; e é insensato e inútil ser discípulo sem ser apóstolo…) passa necessariamente por assumir a missão messiânica com a humildade do precursor e com a alegria de quem tem o privilégio de estar com o esposo e ouvir a sua voz. Com efeito, tanto João como Jesus anunciavam a chegada e a proximidade do Reino de Deus e pediam a adesão ao mistério e projeto do Reino através da metanoia da mente, da do coração, da das atitudes e comportamentos pessoais e da das estruturas sociais.
Por outro lado, é mister do discípulo-apóstolo estar disponível para, à semelhança do Mestre, servir e dar a vida para que todos tenham a vida e a tenham em abundância. E isto implica ser fiel à unção recebida do Espírito do Senhor para estar em saída levando a Boa Nova aos pobres, proclamando a libertação aos cativos, recuperando a vista dos cegos, fazendo andar os coxos, com que fiquem limpos os leprosos, os surdos ouçam e os mortos ressuscitem, mandando em liberdade os oprimidos e proclamando o tempo do favor e graça da parte do Senhor.
Os apóstolos têm o mandato do Senhor, que implica saída, ação e confiança:
Ide, pois, fazei discípulos de todos os povos, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a cumprir tudo quanto vos tenho mandado. E sabei que Eu estarei sempre convosco até ao fim dos tempos.” (Mt 28,19-20; cf Mc 16,19-20).
Mas este mandato, além do ensino e do Batismo, implica a compreensão profunda das Escrituras, o revestimento da força do Alto (para ir em saída), a pregação e a aceitação do perdão e o testemunho no Espírito Santo. Com efeito, em Lucas (26,45-49), pode ler-se:
Abriu-lhes então o entendimento para compreenderem as Escrituras e disse-lhes: Assim está escrito que o Messias havia de sofrer e ressuscitar dentre os mortos ao terceiro dia; que havia de ser anunciada, em seu nome, a conversão para o perdão dos pecados a todos os povos, começando por Jerusalém. Vós sois as testemunhas destas coisas. E Eu vou mandar sobre vós o que meu Pai prometeu. Entretanto, permanecei na cidade até serdes revestidos com a força do Alto.
E, no Evangelho de João, estabelece-se a conexão entre a paz, a alegria, o afastamento do medo, o envio, o dom do Espírito Santo e o perdão dos pecados – tudo dádivas pascais. Com efeito, na aparição aos Onze na tarde da Ressurreição, Ele mostrou-se O que fora morto e agora redivive:
Veio Jesus, pôs-se no meio deles e disse-lhes: ‘A paz esteja convosco!’ Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o peito. Os discípulos encheram-se de alegria por verem o Senhor. E Ele voltou a dizer-lhes: ‘A paz convosco! Assim como o Pai me enviou, também Eu vos envio a vós.’. Em seguida, soprou sobre eles e disse-lhes: ‘Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ficarão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ficarão retidos’.” (Jo 20,19-23).
Por conseguinte, se ensinam e santificam e encaminham, fica confirmada, na missão, a dupla qualidade dos discípulos de Luz do Mundo e Sal da Terra (cf Mt 5,13-16), mantendo e renovando constantemente o vigor transformador do sal, para que não sejam considerados servos inúteis, e fazendo brilhar a luz discipular diante dos homens, de modo que, vendo as boas obras, glorifiquem o Pai, que está no Céu. 
E, de facto, Pedro sintetizou bem no discurso do Pentecostes a súmula do anúncio – “Deus estabeleceu como Senhor e Messias a esse Jesus por vós crucificado” (At 2,36) – e o resultado da aceitação da pregação – “Convertei-vos e peça cada um o baptismo em nome de Jesus Cristo, para a remissão dos seus pecados; recebereis, então, o dom do Espírito Santo” (At 2,38)
Em suma, o essencial do apostolado está na seguinte verificação: Com grande poder, os Apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus, e uma grande graça operava em todos eles” (At 4,33). Se isto acontecer, os que abraçam a fé terão “um só coração e uma só alma” e não haverá “ninguém necessitado” (cf At 4,32.34), porque a doutrina e o dinamismo das bem-aventuranças se evidenciarão. Importa que os apóstolos escutem o Espírito e também aceitem, a jusante, a humildade e a determinação que o precursor teve a montante – que o Mestre cresça. Na verdade, o apóstolo tem de ser, perante muitos, um verdadeiro precursor em relação a Jesus, ou seja, um verdadeiro propedeuta, um pedagogo – não uma autorreferência – e, em sentido recíproco, um veículo da graça e do favor misericordioso para cada um dos redimidos. Graças sejam, entretanto dadas a Deus pela plêiade de precursores/apóstolos que têm feito ao longo da História discípulos de Cristo e obreiros e educadores da paz!
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Poderá ser neste espírito que os crentes tenham, desta feita, celebrado João Batista, o único santo, com a Virgem Maria, de quem a Liturgia celebra o nascimento para a terra – o que se deve à missão única, que, na História da Salvação, foi confiada a este homem, santificado, no seio de sua mãe, pela presença do Salvador (que ia no ventre de Maria aquando da sua visita a Isabel), que mais tarde, dele fará um belo elogio (Lc 7,28), como foi referido. 
Elo de ligação entre a Antiga e a Nova Aliança, João foi acima de tudo, o enviado de Deus, uma testemunha fiel da Luz, aquele que anunciou Cristo e o apresentou ao mundo. Profeta por excelência, a ponto de não ser senão uma “Voz” de Deus, é o Precursor imediato de Cristo: vai à Sua frente a apontar, com a palavra e com o exemplo da vida, as condições necessárias para se alcançar a Salvação. 
A Solenidade do Precursor é, pois, um convite a que reconheçamos Cristo, Sol que nos vem visitar na Eucaristia, a que dêmos testemunho d’Ele, com o ardor, o desprendimento e a generosidade do Batista e a que interiorizemos a tarefa de discípulos e a missão de apóstolos.
2018.06.25 – Louro de Carvalho