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segunda-feira, 21 de outubro de 2019

Propostas dos Círculos Menores do Sínodo da Amazónia


Durante a 13.ª Congregação Geral foram apresentados, na Sala do Sínodo, os relatórios dos Círculos Menores. Estavam presentes junto com o Papa 177 Padres Sinodais. As contribuições, entregues à Secretaria-Geral, não constituem um documento oficial, nem mesmo um texto de magistério, mas a síntese de uma discussão franca e livre entre os participantes da assembleia.
O Sínodo é um dom precioso do Espírito para a Amazónia e para toda a Igreja no aspeto teológico pastoral e pela inevitável tarefa do cuidado da Casa Comum. É um kairós (tempo de graça, ocasião propícia para a Igreja se reconciliar com a Amazónia). Este é ponto comum dos 12 relatórios dos círculos menores (4 em português, 2 em italiano, 5 em espanhol, um em francês e em inglês).
Os textos lidos publicamente exprimem a esperança de que se desenvolva um novo caminho sinodal na Amazónia e que desta assembleia resulte fervorosa paixão missionária de uma verdadeira Igreja em saída. O desejo é de que o “viver bem” amazónico se encontre com a experiência das bem-aventuranças, pois, à luz da Palavra de Deus, alcança a sua plena realização. As propostas concretas são muitas e variadas e provêm de vários círculos que fazem questão de esclarecer:
Este não é um Sínodo regional, mas universal, o que acontece na Amazónia refere-se a todo o mundo”.
As propostas foram apresentadas sob dimensões específicasdimensão pastoral/missionária, social, espiritual e ecológica. E, entre outras questões, tratam a possibilidade de ordenações de diaconisas e padres casados, os viri probatihomens casados, de fé comprovada, que se podem tornar padres (algo muito praticado no primeiro milénio, mas que depois foi sendo deixado de lado). Outros dos temas abordados foram: 
1) Formação dos leigos e dos missionários, o que pressupõe a formação “inculturada” de leigos indígenas, para que ali a Igreja “deixe de importar modelos” e assuma o seu próprio rosto;
2) Violência contra os povos, pessoas e natureza,  que postula o combate ao narcotráfico, violência institucionalizada, feminicídio, abuso e exploração sexual e o respeito plenos direitos dos povos originários – encarando as “ameaças constantes sobre os que defendem a verdade e a justiça sobre os direitos à terra”, dentro daquilo que chamam de “realidade de sangue”;
3) Culturas amazónicas e evangelização, o que requerdiálogo inter-religioso e ecuménico, o diálogo interinstitucional entre Igreja e Poder Público, a Ecologia Integral, a opção preferencial pelos pobres, a justa memória dos mártires amazónicos, a criação de comunidades eclesiais de base e uma pastoral urbana para acolhimento de imigrantes e refugiados;
4) Piedade popular: prevê o desenvolvimento de um rito amazónico com património teológico, disciplinar e espiritual que expresse a universalidade e catolicidade da Igreja na Amazónia;
5) Vida Consagrada na Amazónia, ligada à urgente necessidade de ministérios ordenados, como uma oportunidade de a Igreja se reconciliar com a Amazónia, diante da dívida acumulada durante longos anos de colonização;
6) Juventude e Ministérios: na corresponsabilidade e participação do povo e uma educação inculturada com elementos dos povos, favorecendo o protagonismo da região pela criação de escolas e universidade indígenas com linguística própria até para traduzir a Bíblia e o catecismo.
Por fim, os relatórios pedem uma ampla divulgação das conclusões do Sínodo
Fomentem a espiritualidade do encontro entre todos os rostos da Amazónia. Divulguem o que acontece na Amazónia, principalmente o que diz respeito ao que no projeto destrói a biodiversidade. Anunciem os valores dos povos originários que contribuem com a civilização do amor. Abram espaços para os indígenas. Em tempos fakenews, dar a conhecer ao mundo a verdade da Amazónia.”.
E os documentos ainda deixam um recado direto ao Santo Padre, em “portunhol”:
Querido Papa Francisco, os Rios da Amazónia transbordam, “tienen sus desbordes” e levam vida à floresta e aos povos da floresta. Rezamos para que este Sínodo, este Rio Sinodal transborde, “tenga sus desbordes” em novos caminhos para a evangelização e por uma ecologia integral. Que o Espírito nos guie, nos ajude, nos dê coragem, parresia e paz. Muito obrigado[s].”.
Propostas por círculo
Para o círculo italiano A (relator Padre Darío Bossi e moderador Dom Flavio Giovenale), é possível ordenar homens casados ​​na Amazónia devendo a discussão universal do tema ficar para um evento eclesial futuro.
O círculo italiano B (relator Dom Filippo Santoro e moderador Cardeal Luis Ladaria Ferrer, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé) propõe a criação de um “Rito amazónico” que permita “desenvolver sob o aspeto espiritual, teológico, litúrgico e disciplinar a riqueza única da Igreja Católica na Amazónia”. Abre-se discretamente à ordenação homens casados ​​e de diaconisas, embora não o mencione diretamente.
O círculo português A (relator Dom Neri J. Tondello e moderador Dom Jesús Cizaurre Berdonces) propõe abertamente o sacerdócio de homens casados ​​e a ordenação de diaconisas, precisando:
Além dos ministérios do leitor, acólito, diácono permanente, ministério da palavra, ministério do Batismo, entre outros, pedimos ao Santo Padre que admita para a região Pan-amazónica homens no ministério presbiteral e mulheres no diaconado, de preferência indígenas, respeitados (as) e reconhecidos (as) por sua comunidade, que já possuem uma família estável e estabelecida, a fim de garantir os sacramentos que acompanham e sustentam a vida cristã da comunidade”.
O círculo português B (relator Dom Evaristo P. Spengler e moderador Dom Pedro Brito Guimarães) também propõe abertamente a ordenação de homens casados ​​e diaconisas. E indicou:
A ordenação dos viri probati foi considerada como necessária para Pan-Amazónia. Os homens casados ​​candidatos à ordenação, após um diaconado frutífero, devem responder aos seguintes critérios, entre outros: vida de oração e amor à Palavra de Deus e à Igreja, vida eucarística que se reflete em uma vida de doação e serviço, vivência comunitária, espírito missionário. (…) Na implementação da ordenação dos viri probati, apresentamos dois caminhos para a região Pan-amazónica: 1) Delegar a implementação deste ministério às conferências episcopais presentes na Pan-Amazónia. 2) Confiar aos bispos a realização dessa experiência.”.
E apresentou a seguinte justificação:
Dada a presença decisiva das mulheres na história da salvação, como Maria na missão da Igreja, das santas, doutoras e conselheiras dos Papas, dado que a presença das mulheres é decisiva na vida e na missão da Igreja na Amazónia e que o Concílio Vaticano II restaurou o diaconado permanente para os homens – porque é bom e útil para a Igreja –, julgamos que o mesmo argumento é válido para criar o diaconado para as mulheres na Igreja na Amazónia”.
O círculo português C (relator Dom Vilson Basso e moderador Dom José B. da Silva) também solicita a ordenação de homens casados, precisando: 
Na dimensão pastoral missionária, destacamos a necessidade de conversão pessoal e pastoral, de recuperar a centralidade da Palavra e da Eucaristia, de aprofundar no tema da ministerialidade e as várias possibilidades em relação ao diaconado, viri probati, mulheres, sacerdotes casados, do protagonismo dos leigos, destacando as mulheres”.
O círculo português D (relator Dom Wilmar Santin e moderador Dom Alberto Taveira Correa) reafirma o valor do celibato e considera que o tema dos viri probati e diaconisas deve ser aprofundado:
Reafirmamos o valor do celibato e a necessidade de um maior compromisso na pastoral vocacional. Consideramos essencial a valorização dos ministérios existentes e as instituições de novos ministérios conforme as necessidades. (…) A escuta realizada previamente no Sínodo expressou o desejo de conferir a ordenação presbiteral aos viri probati, assim como o ministério do diaconado para as mulheres. Esses dois pontos pedem um posterior amadurecimento e aprofundamento.”.
O círculo espanhol A (relator Dom José Luis Azuaje Ayala e moderador o Arcebispo Primaz do México, Cardeal Carlos Aguiar Retes) não se pronuncia sobre os viri probati ou diaconisas, mas vinca:
É necessário que na Igreja Sinodal a mulher assuma responsabilidades pastorais e de direção, deve haver um reconhecimento da mulher na Igreja através da ministerialidade; portanto, propõe-se a realização de um Sínodo dedicado à identidade e serviço da mulher na Igreja, onde as mulheres tenham voz e voto”.
Por sua vez, o círculo espanhol B (relator Dom Francisco J. Múnera Correa e moderador Dom Edmundo Valenzuela) exprimiu o seu apoio à ordenação dos viri probati, declarando: 
A proposta visa pedir ao Santo Padre a possibilidade de conferir o presbiterado a homens casados ​​para a Amazónia, de forma excecional, em circunstâncias específicas e para alguns povos determinados, estabelecendo claramente as razões que o justificam. Não se trataria, de nenhuma forma, de presbíteros de 2.ª categoria. É preciso levar em consideração que são muitas as vozes que insistem para que este tema seja decidido para a Amazónia na atual Assembleia Sinodal. Outras vozes, pelo contrário, pensam que deveria ser estudado e definido em uma Assembleia Sinodal específica.”.
E, sobre a possibilidade do diaconado para as mulheres na Igreja, indicou:
Acolhendo e em sintonia com várias opiniões expressas na Sala Sinodal, este círculo incentiva um estudo mais aprofundado sobre esse assunto, olhando mais para as possibilidades futuras do que para a história passada”.
O círculo espanhol C (relator o Padre Roberto Jaramillo e moderador Dom Jonny E. Reyes Sequera) também falou a favor da ordenação de viri probati e de diaconisas, referindo:
Dada a tradição da Igreja, é possível reconhecer o acesso das mulheres aos ministérios instituídos do leitorado e do acolitado, assim como ao diaconado permanente. (…) Verificamos também que muitas das comunidades eclesiais do território Amazónico têm enormes dificuldades de acesso à Eucaristia. No entanto, o Espírito Santo continua agindo nessas comunidades e distribuindo dons e carismas, de tal maneira que também haja homens casados ​​de boa reputação, responsáveis, exemplo de virtudes cidadãs e bons líderes comunitários, que sentem a chamada para servir o povo de Deus como instrumentos da santificação do povo de Deus. Será importante discernir, por meio de consultas com o povo de Deus e do discernimento do ordinário do lugar, a conveniência de essas pessoas se prepararem adequadamente e serem posteriormente escolhidas para o serviço presbiteral.”.
O círculo espanhol D (relator Padre Alfredo Ferro Medina e moderador Dom Omar de Jesús Mejía Giraldo) manifestou-se a favor da ordenação dos viri probati, assinalando:
E, nesse sentido, afirmando que o celibato é um dom para a Igreja, solicita-se que das comunidades se promova a ordenação presbiteral de pessoas virtuosas, apresentadas por suas próprias comunidades e respeitadas pela mesma”.
E o círculo espanhol E (relator Dom José J. Travieso Martín e moderador o Cardeal Óscar Andrés Rodríguez Maradiaga) não propõe a ordenação de homens casados ​​e manifesta-se contra a ordenação de diaconisas, mas é a favor de alguma alternativa ministerial para as mulheres.
***
Uma Igreja viva e missionária ao lado dos pobres e contra toda a forma de violência
É imperativo a Igreja escutar o grito dos povos e da terra, estar ao lado dos pobres e afirmar “chega de violência”. Na Amazónia a violência assume várias faces: violência em cárceres lotados, abuso e exploração sexual; violação dos direitos das populações indígenas; assassinato de defensores dos territórios; tráfico de droga e narco-business; extermínio da população jovem; tráfico de seres humanos, feminicídios e cultura machista; genocídio, biopirataria, etnocídio – males a combater porque matam a cultura e o espírito. É clara a condenação da violação extrativista e do desmatamento, bem como do abuso dos mais frágeis e do abuso da natureza. E, entre as emergências evidenciadas, foi dado muito espaço ao tema da crise climática. São os nativos quem paga o maior preço. Pagam com as suas vidas, porque não são apoiados nem protegidos nos seus territórios. Assim, vários círculos solicitaram a instituição de um Observatório Internacional dos Direitos Humanos, na certeza de que a defesa dos povos e da natureza é prerrogativa da ação pastoral e eclesial. Além disso, sugerem que as paróquias criem espaços seguros para as crianças, adolescentes e pessoas vulneráveis. Reiteram o direito à vida de todos desde a conceção até à morte natural.
A Igreja, segundo um dos relatórios, tem a tarefa de acompanhar a obra dos defensores dos direitos humanos muitas vezes criminalizados pelos poderes públicos. Porém, não pode agir como uma ONG. Este risco, acompanhado com o de se apresentar de forma exclusivamente ritualista, provoca muitas vezes o abandono de muitos fiéis que buscam respostas à sua sede de espiritualidade nas seitas religiosas ou noutras confissões. Portanto, os círculos pedem que se dê maior energia ao diálogo ecuménico e inter-religioso com a proposta de dois centros de confronto, um na Amazónia e outro em Roma, entre os teólogos do RELEP (Rede de estudos pentecostais latino-americanos) e os teólogos católicos.
Invocando um ministério de presença, que rejeite o clericalismo, encoraja-se um maior protagonismo dos leigos. De quase todos os círculos chega o pedido de aprofundar o significado de “Igreja ministerial”, uma Igreja onde possa coexistir corresponsabilidade e compromisso dos leigos. Um círculo pede um modo equilibrado de ministérios a homens e mulheres, mas afastando o risco de clericalizar os leigos. E, em geral propõe-se uma cuidadosa reflexão sobre os ministérios do leitorado e do acolitado também a mulheres, religiosas ou leigas.
O tema da mulher está presente em vários relatórios com o pedido de reconhecer, em papéis de maior responsabilidade e liderança, o valor da presença feminina no serviço específico à Igreja na Amazónia. Pede-se a garantia do respeito dos direitos das mulheres e a superação de todos os estereótipos. Vários círculos pediram atenção à questão do diaconado para as mulheres na perspetiva do Vaticano II, considerando que muitas das suas funções já são desempenhadas pelas mulheres na região. E foi sugerido dedicar ao tema um aprofundamento noutra assembleia dos bispos, na qual talvez se possa reconhecer às mulheres o direito ao voto.
Foi sugerido um sínodo Universal específico sobre o tema dos viri probati. Sobre esta temática as perspetivas diversificam-se entre os grupos. Ao evidenciar-se que o valor do celibato, dom a ser oferecido às comunidades indígenas, não está em discussão, um círculo alerta para o risco de este valor ser enfraquecido ou de a introdução dos viri probati  vir a desestimular o impulso missionário da Igreja Universal ao serviço das comunidades mais distantes. A maior parte dos relatórios, almejando uma Igreja “de presença” mais do que “de visita”, exprime-se a favor da conferição do presbiterado a homens casados, de boa reputação, preferencialmente indígenas escolhidos pelas comunidades de proveniência, mas em condições específicas. Especifica que estes não podem ser considerados de 2.ª ou 3.ª categoria, mas verdadeiras vocações sacerdotais. Não deve esquecer-se o drama de muitas populações da Amazónia que recebem os sacramentos só uma ou duas vezes por ano e pede-se às comunidades locais que reforcem a consciência de que não só a Eucaristia, mas também a Palavra representa um alimento espiritual para os fiéis.
Considerando a dimensão do território pan-amazónico e a escassez de ministros foi cogitada a criação dum fundo regional para a sustentabilidade da evangelização. Além disso, um dos círculos exprime “perplexidade” em relação à “falta de reflexão sobre as causas que levaram à proposta de superar de algum modo o celibato sacerdotal como foi expresso pelo Concílio Vaticano II e pelo magistério sucessivo”. Também se espera uma formação permanente para o ministério com o objetivo de configurar o sacerdote a Cristo e se exorta o envio à Amazónia de missionários que exercem o ministério sacerdotal no norte do mundo. Ante da crise vocacional, os círculos relevam a diminuição substancial da presença de religiosos na Amazónia e esperam a renovação da vida religiosa que seja promovida com novo fervor, sob impulso da CLAR (Confederação latino-americana dos religiosos), de modo especial no atinente à vida contemplativa. E foi focalizada a formação dos leigos, que seja integral - e não só doutrinal, mas também querigmática - fundada na doutrina social da Igreja e que leve à experiência e ao encontro com o Ressuscitado. Propõe-se o fortalecimento da formação dos sacerdotes, que não deve ser só académica, mas também realizada nos territórios amazónicos com experiências concretas de Igreja em saída, ao lado dos que sofrem nos cárceres ou nos hospitais. Foi pedida a constituição de seminários indígenas onde se possa estudar e aprofundar a teologia local.
Os círculos pedem a consolidação duma teologia e duma pastoral de rosto indígena, pois diálogo intercultural e inculturação não são entendidos como opostos. A tarefa da Igreja não é decidir pelo povo amazónico ou assumir uma posição de conquista, mas acompanhar, caminhar junto numa perspetiva sinodal de diálogo e escuta. A este respeito, foi proposta a introdução de um “Rito amazónico” que ajude a desenvolver, sob o aspeto espiritual, teológico, litúrgico e disciplinar, a riqueza singular da Igreja católica na região. Um dos relatórios explica:
Devem ser valorizados os símbolos e gestos das culturas locais na liturgia da Igreja na Amazónia, conservando a unidade substancial do rito romano, visto que a Igreja não quer impor uma uniformidade rígida no que não afeta a fé”.
Foi instada a promoção do conhecimento da Bíblia, favorecendo a tradução nas línguas locais. Nessa ótica, foi proposta a criação do Conselho Eclesial da Igreja Pan-amazónica, estrutura eclesiástica ligada ao CELAM, REPAM e Conferências Episcopais dos países amazónicos. E um dos relatórios discorre:
A cosmovisão amazónica tem muito para ensinar ao mundo Ocidental dominado pela tecnologia, muitas vezes a serviço da ‘idolatria do dinheiro’. Os povos amazónicos consideram o seu território sagrado. Portanto, deve ser incentivada uma reflexão sobre o valor espiritual do bioma, da biodiversidade e do direito à terra. Por outro lado, o anúncio do Evangelho e a originalidade da vitória de Cristo sobre a morte, respeitando a cultura dos povos, devem ser considerados um elemento essencial para abraçar e entender a cosmovisão amazónica.”.
O missionário é chamado a despojar-se da mentalidade colonialista, superar os preconceitos étnicos e respeitar os costumes, ritos e crenças. Por isso, devem ser apreciadas, acompanhadas e promovidas as manifestações com que os povos expressam a fé. Foi sugerida a criação de um Observatório Sócio-pastoral Pan-amazónico em coordenação com o CELAM, as comissões de Justiça e Paz das dioceses, a CLAR e a REPAM. Devem ser reconhecidas luzes e sombras na história da Igreja na Amazónia. Deve-se distinguir entre Igreja “indigenista”, que considera os indígenas destinatários passivos da pastoral, e Igreja “indígena”, que os vê como protagonistas da própria experiência de fé, segundo o princípio “Salvar a Amazónia com a Amazónia”. Neste sentido, é importante valorizar o exemplo brilhante de muitos missionários e mártires que deram a vida na Amazónia por amor ao Evangelho. E um dos círculos propôs a incentivação dos processos de beatificação dos mártires da Amazónia.   
Nos textos lidos na sala sinodal não faltaram os povos isolados voluntariamente e foi pedido que sejam acompanhados pelo trabalho de equipas missionárias itinerantes. Foi dado espaço ao tema da migração, sobretudo juvenil. Hoje, 80% da população da Amazónia encontra-se nas cidades – fenómeno de consequências negativas como a perda da identidade cultural, a marginalização social, a desintegração ou instabilidade familiar. É cada vez mais urgente a evangelização dos centros urbanos e a adequação da pastoral às circunstâncias sem esquecer favelas, periferias e realidades rurais. É urgente a renovação da pastoral juvenil. No âmbito pedagógico, pede-se à Igreja a promoção da educação intercultural bilingue e o incentivo uma aliança de redes de universidades especializadas na ciência da Amazónia e na instrução superior intercultural para as populações indígenas.
A dimensão ecológica é central nos relatórios dos círculos, que reiteram que a Criação é obra-prima de Deus, que toda a Criação está interligada. Pede-se que não se esqueça que “uma conversão ecológica verdadeira começa na família e passa por uma conversão pessoal, de encontro com Jesus”. A partir daí, importa abordar questões práticas como as  temperaturas elevadas ou combate às emissões de CO2 (dióxido de carbono). Incentiva-se o estilo de vida sóbrio e a proteção de bens preciosos incomparáveis, como a água – direito humano fundamental – que, privatizada ou contaminada, pode prejudicar a vida de comunidades inteiras. Deve ser relevado o valor das plantas medicinais e o desenvolvimento de projetos sustentáveis, através de cursos que levem ao conhecimento de segredos e da sacralidade da natureza e propõe-se o desenvolvimento de projetos de reflorestação nas escolas de formação em técnicas agrícolas.
Nessa ótica, insere-se a proposta de inserir o tema da ecologia integral nas diretrizes das Conferências Episcopais e incluir na Teologia Moral o respeito pela Casa Comum e os pecados ecológicos, bem como rever os manuais e rituais do Sacramento da Penitência. A humanidade está, de facto, a caminhar em direção ao reconhecimento da natureza como sujeito de direito. É de considerar obsoleta “a visão antropocêntrica utilitarista”, pois “o homem não pode mais submeter os recursos naturais a uma exploração ilimitada que coloca em perigo a humanidade”. É necessário contemplar o imenso conjunto de formas de vida no planeta em relação umas com as outras, promovendo um modelo de economia solidária e instituindo um ministério para o cuidado da Casa comum, como proposto por um dos círculos.
Por fim, alguns relatórios deram espaço ao tema dos meios de comunicação. E referiram que as redes católicas de comunicação devem ser incentivadas a colocar a Amazónia no centro da sua atenção com o escopo de difundir boas notícias, denunciar todas as agressões contra a terra-mãe e anunciar a verdade. Foi proposto o uso das redes sociais na Web Rádio, na Web TV e na comunicação rádio para difundir as conclusões do Sínodo. Deseja-se que o “rio” do Sínodo, com a força do “rio amazónico”, transborde dos muitos dons e sugestões oferecidos nas reflexões dos padres sinodais, na Sala do Sínodo, e que dessa experiência de caminhar juntos possam jorrar novos caminhos para a evangelização e a ecologia integral.
***
Concluindo
Do exposto, é de relevar, como essencial no Sínodo, o escopo da Evangelização da Amazónia de olhos e ouvidos quer nos textos bíblicos quer na realidade amazónica, de modo que a Igreja ali viva, aja e se expanda de forma incarnada e inculturalizada. Este escopo poderá muito bem ser secundado pelo proposto “Rito Amazónico” assumido de forma holística e sustentando em sólida formulação teológico-pastoral. Esta postura impõe que se abra decididamente o caminho para a ordenação presbiteral dos preditos viri pobati (o que a teologia não impede, impediu-o a tradição eclesiástica pela via da omissão confundindo sacerdócio e celibato) e a conferição do diaconado também a mulheres religiosas e leigas, mesmo que o debate da aplicação destas prerrogativas amazónicas a toda a restante malha da Igreja Latina fique para ulterior evento eclesial. Mas a Amazónia, dada a sua especificidade, não pode esperar mais. Chegou o tempo da ousadia!
2019.10.21 – Louro de Carvalho

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Tiago Brandão Rodrigues continua à frente da pasta da Educação


Após uma legislatura completa de contestações, greves, protestos e um duro e longo braço-de-ferro na contagem do tempo de serviço aos professores, reconduzir o ministro é, à partida, sinal de que nada mudará (José Sócrates não reconduziu Maria de Lurdes Rodrigues, ministra da X Legislatura), a não ser que pensemos que o governante ganhou, nestes 4 anos, a experiência política que não tinha e decidirá pôr-se doravante ao leme da pasta da Educação, cujos problemas e até reformas de fundo eram capitaneados pelos Secretários de Estado. Há quem diga que Alexandra Leitão só não é a Ministra da Educação por ter criado anticorpos no Ministério, designadamente com o tempo de serviço dos professores e com os contratos de associação com as escolas privadas.   
Assim, Tiago Brandão Rodrigues, que já ficava nos anais da governança por ter transferido a casa dos Ministros da Educação e dos respetivos Secretários de Estado da Avenida 5 de Outubro para a Avenida do Infante Santo, deixando a antiga devoluta para outros fins, depois da vitória do PS nas eleições legislativas de 6 de outubro, consegue mais uma proeza: ser o Ministro da Educação que aguentou com a pasta durante uma legislatura e ter sido convidado para o mesmo cargo para a legislatura seguinte. Isso conseguiram-no em Ministério afim Mariano Gago, por duas vezes (do XIII para o XIV Governo Constitucional, Ministro da Ciência e Tecnologia, e do XVII para o XVIII, Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior); e agora Manuel Heitor, Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior.
A recondução de Tiago Rodrigues está a ser digerida de diferentes formas. Há críticas, expectativas e dossiês em aberto. Mantém-se o Ministro, mas não fica tudo igual. Alexandra Leitão, até agora Secretária de Estado Adjunta e da Educação, sai do Ministério da Educação para ser Ministra da Modernização do Estado e da Administração Pública. E é ainda uma incógnita A continuidade de João Costa, Secretário de Estado da Educação.
***
A FENPROF não está satisfeita com a escolha. A este respeito, Mário Nogueira, secretário-geral desta organização sindical, declarou à Lusa:
Para os professores é sentido como uma afronta e uma provocação. Alguém que levou o confronto ao extremo em relação aos professores, levou à mesa que devia ser negocial a chantagem e que nos momentos em que era mais importante haver Ministro da Educação não existiu.”.
O Ministro não deu o peito às balas, foram os Secretários de Estado que estiveram na linha da frente em situações complexas, nas greves dos professores, nos cortes ao financiamento dos colégios privados, na discussão da identidade de género. E Mário Nogueira aponta:
É uma pessoa que já conhecemos, que demonstrou ser incapaz de dialogar, negociar e enfrentar o protesto, não tendo solução para os problemas. Quem segurou nas pontas do Ministério da Educação, nos últimos quatro anos, foram os Secretários de Estado.”.
As expectativas são “muito baixas” e o mérito é posto em causa. E o sindicalista prossegue:
Nem sabemos o que se pode reconhecer de mérito ao Ministro, a não ser os diferentes momentos de afronta contra os professores, para poder continuar. Penso que é o primeiro Ministro da Educação que continua após 4 anos de uma legislatura, mas de certeza que não é pelo excelente trabalho que desenvolveu na educação, muito pelo contrário.”.
E mais uma nota:
Recorda-se, ainda, que Tiago Brandão Rodrigues, em diversos momentos, pôs em causa princípios fundamentais do Estado de Direito Democrático, violando direitos constitucionais, como o direito de negociação coletiva ou o direito à greve, tentando obstaculizá-los pela via da ameaça e da chantagem”.
Ora, “com o mesmo Ministro e as mesmas políticas só poderá existir a mesma resposta: a luta dos professores pelo que é justo, adequado e necessário”. É um aviso está no site da FENPROF, que assume, face ao programa eleitoral do PS e ao novo elenco governativo, que
Poucas alterações são de esperar no que respeita às políticas que foram desenvolvidas na anterior legislatura, marcadas pela falta de soluções para dar resposta aos principais problemas que afetavam e continuam a afetar o mundo do trabalho e os serviços públicos”.
Para a FNE, a continuidade do Ministro não é uma surpresa. João Dias da Silva disse à Lusa que isso “era bastante expectável”. E esclarece: 
A nós não são as pessoas que nos satisfazem. O que é importante são as políticas que vierem a ser determinadas”.
O site da FNE aprofunda a tomada de posição:
Não estando em causa a escolha das pessoas que são chamadas ao desempenho de responsabilidades governamentais, o que importa, para a FNE, é que as políticas que são desenvolvidas respondam a práticas consistentes de diálogo social, de concertação e de busca partilhada de soluções para os problemas identificados”.
A FNE coloca pressão nos ombros do Ministro ao sublinhar:
Tem a vantagem de conhecer os dossiês que estão por resolver, os problemas que estão identificados e que precisam de ser solucionados, particularmente os que dizem respeito às carreiras dos profissionais da educação, docentes e não docentes”.
E Dias da Silva destaca a “necessidade de intervir no sentido de repor o prestígio da profissão docente, de a valorizar, de rejuvenescer a carreira docente” e resolver os “constrangimentos relativos aos concursos para docentes e não docentes, para que as escolas tenham os funcionários de que necessitam”.
A FNE diz continuar disponível para “um diálogo permanente” e espera uma legislatura que garanta que “o sistema educativo se organiza no sentido da mais elevada qualidade das ofertas educativas”. E tem na agenda vários assuntos, nomeadamente a formação inicial e contínua dos professores, o apoio a disponibilizar no início de carreira, as políticas que determinem o rejuvenescimento da profissão, entre outras matérias. E Dias da Silva reforça:
O que importa é que seja possível valorizar e prestigiar a escola e os seus profissionais, promover a autonomia da escola e dos seus profissionais”.
Filinto Lima, presidente da ANDAEP (Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas), entende que a continuidade do Ministro será positiva se, como refere à Lusa, “for sinónimo de estabilidade nas políticas educativas”. A seguir à tomada de posse do Governo, pedirá uma reunião à nova equipa na Educação com cinco pontos na agenda: estabilidade do corpo docente; rejuvenescimento dos professores; reforço da autonomia das escolas; reforço do papel dos diretores; e revisão do modelo de acesso ao Ensino Superior. É ambicioso e confiante. É pena não falar das condições de trabalho, indisciplina, falta de autoridade do Estado, da escola e dos professores. E para que é necessário mais poder aos diretores?
E Manuel Pereira, presidente da ANDE (Associação Nacional de Diretores Escolares), adiantou à Lusa:
Tínhamos uma belíssima relação com o Ministro Tiago Brandão Rodrigues, mas para as escolas a alma do Ministério da Educação eram os dois Secretários de Estado”.
Para este dirigente associativo, é importante saber quem serão os secretários de Estado da Educação, o que ainda não foi revelado. Manuel Pereira, em jeito adulatório, recorda que a equipa ministerial cessante foi a “mais próxima das escolas em 40 anos” e espera que essa proximidade se mantenha. E, frisando que os problemas que afetam os docentes e as escolas dependem de “opções que ultrapassam a Educação”, referiu à Lusa:
Claramente é preciso decidir se a Educação é uma prioridade nacional ou não. Se sim, é preciso investir mais na Educação e menos no ‘défice zero’.”.
***
Tiago Brandão Rodrigues, 42 anos, nasceu em Paredes de Coura, doutorou-se em Bioquímica pela Universidade de Coimbra e trabalhou em Madrid, Estados Unidos da América e Inglaterra, onde se destacou na área científica, com reconhecimento internacional pela descoberta duma técnica de ressonância magnética que permite a deteção precoce do cancro. De Cambridge regressou a Portugal para o mundo político. Nas últimas legislativas, voltou a ser cabeça de lista do PS por Viana do Castelo, o seu distrito. Se chegar ao fim dos 4 anos de mandato, será o Ministro, em democracia, com mais tempo à frente duma das áreas mais delicadas para o Governo. Estreou-se como Ministro há 4 anos. O jovem cientista “outsider”, sem experiência política, assumiu a pasta e manteve uma postura discreta em termos públicos. Era supostamente um dos elos mais fracos de Costa e chegou a ser apontado como remodelável nos bastidores, mas segurou o lugar apesar de tanta contestação da classe docente e das suas organizações sindicais. A recuperação do tempo de serviço dos professores esteve debaixo de fogo durante bastante tempo e promete voltar à agenda educativa.
Brandão Rodrigues fez algumas alterações ao sistema durante o mandato. Acabou com as provas do 4.º e 6.º anos; dizem que pôs um ponto final à prova de avaliação dos professores (na verdade, o TC declarou-a inconstitucional); estipulou as provas de aferição universais e obrigatórias, com valências de todas as disciplinas n.º 2.º, 5.º e 8.º anos; avançou com a revisão dos contratos de associação com os colégios privados; promoveu a elaboração do Perfil do Aluno à Saída da Escolaridade Obrigatória; criou o PNPSE (Programa Nacional de Promoção do Sucesso Escolar); mandou identificar as aprendizagens essenciais nas diversas disciplinas; pôs em marcha o modelo de flexibilidade curricular; e tornou gratuitos, pela via do empréstimo, os manuais escolares no ensino público até ao 12.º ano.
Manuel Heitor também volta a assumir as pastas da Ciência, Tecnologia e do Ensino Superior. O catedrático do IST (Instituto Superior Técnico), de 61 anos, já integrara a governação antes de iniciar o mandato de Ministro (Foi Secretário de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior nos XVII e XVIII Governos Constitucionais). Nestes 4 anos, enfrentou a contestação dos cientistas precários e dos cientistas seniores, as queixas dos reitores quanto ao subfinanciamento nas universidades, as reclamações de investigadores e bolseiros sobre atrasos nos concursos de contratação.
O presidente do CCISP (Conselho Coordenador dos Institutos Superiores Politécnicos) está satisfeito com a continuidade de Manuel Heitor. Pedro Dominguinhos, apesar de recordar o “desafio claro” do “aumento efetivo do financiamento do setor”, afirmou à Lusa:
É um ministro que criou uma excelente relação com os politécnicos, que conhece o setor por dentro”.
Em seu entender, é necessário um contrato de estabilidade que garanta a previsibilidade do financiamento, para dotar as instituições de maior capacidade, o alargamento da formação ao longo da vida, a concessão do grau de doutor e a designação dos ISP como universidades.
O presidente do CRUP (Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas) está igualmente agradado com a recondução de Manuel Heitor. António Fontaínhas Fernandes declarou à Lusa:

É um ministro de diálogo que conhece os problemas e as soluções”.
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Com o mesmo Ministro da Educação e as mesmas políticas só poderá existir a mesma resposta: a luta dos professores pelo que é justo, adequado e necessário – diz a FENPROF, que, face à composição parcial do governo (ainda não se conhece quais serão os Secretários de Estado), considera que, havendo, apenas, ligeiras mudanças em relação ao elenco anterior e tendo em conta o programa do PS, poucas alterações são de esperar no atinente às políticas desenvolvidas na anterior legislatura, marcadas pela falta de soluções para dar resposta aos principais problemas que afetavam e continuam a afetar o mundo do trabalho e os serviços públicos. 
Relativamente à Educação, confirma-se a intenção de prosseguir tais políticas pela recondução dum ministro que não existiu nos momentos mais críticos e que assumiu posições, algumas ilegais, de afronta e desrespeito pelos professores, sua vida profissional, suas condições de trabalho e suas organizações sindicais representativas. Por outro lado, não se mostrou capaz de resolver os problemas das escolas, agravando alguns e criando outros, e que estão na origem do encerramento de vários estabelecimentos ou da limitação do funcionamento de algumas das suas valências, da existência de milhares de alunos que continuam sem ter todas as aulas, como de outros que, pelas suas próprias limitações, ainda não tiveram condições para ir à escola.
Recorde-se que Brandão Rodrigues chegou a pôr em causa princípios fundamentais do Estado de Direito Democrático, violando direitos constitucionais, como o direito de negociação coletiva ou o direito à greve, tentando obstaculizá-los, por via da ameaça e da chantagem.
Relativamente ao Ministério da Modernização do Estado e da Administração Pública, destinado a revisitar as carreiras da Administração Pública, a FENPROF esclarece que, a ter lugar algum processo de revisão de carreiras, tanto da Educação Pré-Escolar e Ensinos Básico e Secundário, como do Ensino Superior, não abdicará de uma negociação autónoma, preferencialmente realizada no âmbito das tutelas diretas (ME e MCTES).
Na área da Educação, aguarda a marcação da primeira reunião com o Ministro, a quem entregará o Caderno Reivindicativo aprovado pelos seus órgãos estatutários e que reflete as exigências dos docentes e das escolas, bem como o abaixo-assinado, que está em circulação, mas que já contém milhares de assinaturas de educadores e professores que manifestam as suas prioridades reivindicativas de natureza socioprofissional:
Recuperação do tempo de serviço cumprido e que ainda não foi contabilizado para carreira: 6 anos, 6 meses e 23 dias;
Recomposição da carreira docente, designadamente através de medidas que eliminem as ultrapassagens e desbloqueiem a progressão de quem se encontra retido no 4.º ou no 6.º escalões;
Aprovação dum regime específico de aposentação, admitindo, no imediato, a despenalização da aposentação antecipada e a aplicação do regime de pré-aposentação;
Fim dos abusos e ilegalidades nos horários de trabalho, garantindo-se, assim, que estes, como previsto na lei, sejam, efetivamente, de 35 horas (prosseguindo a greve ao sobretrabalho até que este problema esteja resolvido);
Combate determinado à precariedade, com a vinculação dos docentes com 3 ou mais anos de serviço;
Aprovação de um regime de concursos justo, que respeite o princípio da graduação profissional como fator de ordenação dos candidatos, mantendo o seu caráter nacional.”.
Entretanto, logo após a entrada em funções da Assembleia da República, a FENPROF solicitará reunião aos grupos parlamentares, apresentando, em forma de petição, o abaixo-assinado que será entregue no Ministério da Educação. Recorda que, no Parlamento, transitou da anterior legislatura uma petição de mais de 10 000 docentes, em prol dum regime de gestão democrática para as escolas. E diz que os professores levarão por diante diversos atos de protesto face ao processo de municipalização de escolas em curso e a que já aderiram 105 municípios. 
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Como foi apontado, a FNE entende que não está em causa a escolha das pessoas chamadas para governar, mas que as políticas desenvolvidas respondam a práticas consistentes de diálogo social, de concertação e de busca partilhada de soluções para os problemas identificados. Entende que o Ministro parte para a nova Legislatura com um forte conhecimento dos pontos de constrangimento, das dificuldades e dos problemas que importa solucionar. E, nesta ocasião, afirma que manterá a disponibilidade para um diálogo permanente, no sentido de que, pela legislação que vier a ser estabelecida na nova Legislatura, se garanta que o sistema educativo se organiza no sentido da mais elevada qualidade das ofertas educativas. Ora, a qualidade das ofertas educativas está indissociavelmente ligada ao investimento que se fizer na valorização dos docentes e dos não docentes.
Em relação aos não docentes, a FNE tem sido constante na determinação da importância da definição das respetivas carreiras especiais, com reconhecimento dos conteúdos funcionais específicos associados às suas responsabilidades nas escolas, sem esquecer a necessidade de rever a Portaria dos rácios, que define o número de não docentes que são afetos a cada escola.
E, particularmente em relação aos docentes, regista-se que a FNE se tem empenhado também nas várias dimensões em que se tem de afirmar a sua valorização. Mas, no início de Legislatura, afirma o seu especial envolvimento na determinação de políticas de rejuvenescimento da profissão. É um esforço que tem de ter tradução em outras políticas congruentes com esta, desde o investimento na formação inicial, o envolvimento de docentes com mais experiência no enquadramento profissional dos mais jovens, a entrada nos quadros destes docentes mais jovens, o crescimento da remuneração de entrada na carreira, o apoio à fixação nas periferias, a adoção de políticas fiscais atenuantes dos custos das deslocações para e do local de trabalho, os custos dos equipamentos e materiais indispensáveis à atividade profissional e a atratividade da profissão. Com efeito, não haverá jovens a frequentar os cursos de formação de professores se não forem atraídos para essa opção.
Para a FNE, importa valorizar e prestigiar a escola e os seus profissionais, promover a autonomia da escola e dos seus profissionais. Para estes desafios, o Ministro da Educação e o Governo podem contar com as propostas da FNE, para o que é fundamental que se comece por privilegiar a via do diálogo e da concertação. 
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As medidas inovadoras do Ministério da Educação na Legislatura prestes a terminar não devem ser revertidas como queriam alguns, mas aperfeiçoadas. Por exemplo, não deveriam existir provas de aferição no 2.º ano de escolaridade (é muito cedo em relação à socialização escolar), mas talvez no 3.º. Por outro lado, parece que a escola gravita demasiado em torno do aluno. Sabe-se demasiado da vida do aluno e da família, tenta-se ir excessivamente ao encontro dos interesses dos alunos, negoceia- se tudo com eles, põem-se os alunos ditar as regras de atuação (a definição de regras deve ser externa, pois, se os alunos as erigem, também as podem anular ou derrogar), respeita-se excessivamente a sua hiperatividade. Isto é um romantismo pedagógico, resultante dum certo psicologismo escolar, que dá pouco resultado e leva à mascaração do sucesso. Deve pôr-se em evidência o triângulo aluno-currículo-professor e urgir a disciplina na aula e nas outras atividades. Não há nada tão maléfico como a indisciplina e a obstrução ao ato de ensinar.
Os programas de promoção do sucesso escolar e os da flexibilidade curricular podem resultar em pouco se apenas servirem para sobrecarregar os professores e não promoverem o envolvimento dos alunos e dos encarregados de educação e o enriquecimento curricular. O Ministério da Educação apregoa a autonomia das escolas, mas, na sua omnisciência e omnipotência, arroga-se o direito de autorizar, aprovar os projetos e exigir a periódica e impertinente prestação de contas, quando a autonomia de escola devia funcionar por decisão dos respetivos órgãos e em rede, prestar contas à comunidade e não anular a autonomia profissional, pedagógica e científica de cada professor, bem como a sua liberdade de ensinar. A fiscalização deveria vir depois e aleatoriamente.
Há, pois, um longo caminho a percorrer.
2019.10.17 – Louro de Carvalho

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Invocar, caminhar e agradecer, três marcas do cristão em Igreja


Foi em torno destes três verbos que o Papa desenvolveu a sua homilia da Missa de canonização, a 13 de outubro, na Basílica de São Pedro, do Cardeal John Henry Newman, das religiosas Giuseppina Vannini, Maria Teresa Chiramel Mankidiyan, Dulce Lopes Pontes, e da leiga Margarida Bays.
Partindo do episódio dos 10 leprosos de que fala o texto do Evangelho de Lucas (Lc 17,11-19) assumido para o 28.º domingo do Tempo Comum no Ano C, Francisco salientou que a palavra do Senhor ao leproso que, tal como os outros, indo de caminho mostrar-se aos sacerdotes, se sentiu curado da lepra e deu meia volta para vir agradecer, “A tua fé te salvou” “é o ponto de chegada” do Evangelho que mostra o caminho da fé. Com efeito, por um lado, o caminho da fé espelha-se no percurso que Jesus fez com os discípulos para Jerusalém, onde ia ser sujeito à Paixão em que o Pai o glorificaria e Se glorificaria n’Ele, sendo a ressurreição dos mortos o certificado da glorificação de Cristo. Um caminho para o qual Jesus convida quem o quiser seguir e que implica renúncia e andar sem olhar para trás. Por outro lado, este percurso de fé mostra-nos três momentos significativos vincados pelos leprosos, sendo que apenas um – e estrangeiro – executou o 3.º momento: invocar, caminhar e agradecer.
Naqueles tempos, os leprosos sofriam a doença que os afligia (ainda hoje presente e a exigir combate) e sofriam o estigma da exclusão social em razão do perigo de contágio, pelo que deviam estar isolados do resto do mundo e gritar a quem pressentissem aproximar-se: Impuro, impuro! Também à passagem de Jesus, aqueles 10 leprosos gritaram, não o pregão estabelecido na Lei, mas o da confiança. Vão ter com Jesus, mas mantêm-se à distância e invocam-No. Vencem as exclusões ditadas pelos homens e invocam o Filho de Deus, que não exclui. Não se contentaram com o que ouviram dizer que Jesus fez a outrem; acreditavam que Jesus os podia curar. Isto faz dizer ao Santo Padre que “a salvação não é beber um copo de água para estar em forma, mas é ir à fonte, que é Jesus”. Na verdade, “só Ele livra do mal e cura o coração; só o encontro com Ele é que salva, torna plena e bela a vida”. Os leprosos foram à fonte.
Ora, nós não podemos dizer que isso não nos diz respeito, pois todos nós necessitamos de cura, Precisamos da cura sobre a pouca confiança em nós mesmos, na vida, no futuro; sobre os medos que nos paralisam; sobre os vícios que nos escravizam; sobre a nossa autossuficiência, eu nos isola dos demais; sobre os fechamentos, dependências e apegos ao jogo, ao dinheiro, à televisão, ao telemóvel, às opiniões alheias. O Senhor liberta e cura o coração, se O invocarmos. Ora, invocar remete para a oração que nos leva a chamar a Deus pelo seu nome, o que é sinal de confidência, de que o Senhor gosta e que faz crescer a fé. Com a invocação confiante da fé, levando a Jesus o que somos, sem esconder as nossas misérias, sabemos que Deus salva. Isto é rezar, é mostrar fé. A fé salva e a oração, que “é a porta da fé”, é “o remédio do coração”.
Depois, é preciso atentar no facto de os leprosos terem sido curados, não quando estavam diante de Jesus, mas enquanto caminhavam às ordens de Jesus para se mostrarem aos sacerdotes, como diz o Evangelho: “Enquanto iam a caminho, ficaram purificados” (17,14). Foram curados enquanto caminhavam para Jerusalém palmilhando uma estrada a subir. Também nós somos purificados no caminho da vida, um caminho frequentemente a subir, porque leva para o alto. A fé requer um caminho, uma saída e só acontece o milagre, diz o Papa, “se sairmos das nossas cómodas certezas, se deixarmos os nossos portos serenos, os nossos ninhos confortáveis”. E o Sumo Pontífice recordou que também o Profeta a Naaman, general sírio que pedia a cura da sua lepra, indica a tarefa de caminhar até ao rio Jordão para se banhar sete vezes. Naaman, que esperava o espetáculo da cura milagrosa pelas rezas e toques do homem de Deus, fica desapontado, pois tinha na sua terra rios melhores que o Jordão. E foi um servo que o aconselhou a fazer aquela coisa tão simples que o Profeta lhe recomendara. E ficou curado, o que leva o Sumo Pontífice a dizer:
A fé aumenta com o dom e cresce com o risco. A fé atua, quando avançamos equipados com a confiança em Deus. A fé abre caminho através de passos humildes e concretos, como humildes e concretos foram o caminho dos leprosos e o banho de Naaman no rio Jordão (cf 2 Re 5, 14-17). O mesmo se passa connosco: avançamos na fé com o amor humilde e concreto, com a paciência diária, invocando Jesus e prosseguindo para diante.”.
Em contexto sinodal, Francisco sublinha o facto de os leprosos ficarem curados quando se moviam juntos. O Evangelho refere, no plural, que “iam a caminho” e “ficaram purificados”, pelo que se deduz que “a fé é também caminhar juntos, jamais sozinhos”. E o Papa Bergoglio anota que, uma vez curados, nove continuam pela sua estrada e apenas um regressa para agradecer. E Jesus desabafa a sua mágoa perguntando pelos outros nove. Esqueceram que é tarefa dos homens agradecer. E isto faz-se de forma eminente na Eucaristia, que nos leva a “ocuparmo-nos de quem deixou de caminhar, de quem se extraviou”, pois “somos guardiões dos irmãos distantes, todos nós”, somos intercessores por eles, somos responsáveis por eles, isto é, chamados a responder por eles, a tê-los a peito”.
Agradecer é a última etapa do percurso. E só àquele que agradece é que Jesus diz: “A tua fé te salvou”. E é de notar que “não se encontra apenas curado; também está salvo”. Isto quer dizer que “o ponto de chegada não é a saúde, não é o estar bem, mas o encontro com Jesus”. Quando o homem encontra Jesus, brota dele espontaneamente o “obrigado”, porque descobre o mais importante da vida: “não o receber uma graça nem o resolver um problema, mas abraçar o Senhor da vida”. E o Papa desenvolve:
É encantador ver como aquele homem curado, que era um samaritano, manifesta a alegria com todo o seu ser: louva a Deus em voz alta, prostra-se, agradece (cf 17,15-16). O ponto culminante do caminho de fé é viver dando graças. Podemos perguntar-nos: Nós, que temos fé, vivemos os dias como um peso a suportar ou como um louvor a oferecer? Ficamos centrados em nós mesmos à espera de pedir a próxima graça, ou encontramos a nossa alegria em dar graças?”.
Depois, enuncia os efeitos do agradecimento a Deus:
Quando agradecemos, o Pai deixa-Se comover e derrama sobre nós o Espírito Santo. Agradecer não é questão de cortesia, de etiqueta, mas questão de fé. Um coração que agradece, permanece jovem. Dizer ‘obrigado, Senhor’, ao acordar, durante o dia, antes de deitar, é antídoto do envelhecimento do coração, porque o coração envelhece e se habitua mal.”.
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Do episódio dos leprosos, o Pontífice passa ao episódio da canonização, a que procedeu, dos cinco beatos. Também eles invocaram o Senhor, para se purificarem das tentações de autossuficiência, dos medos paralisantes, dos vícios que os espreitavam. E nós agora invocamo-los como intercessores. Também eles caminharam na fé em conjunto com os irmãos e irmãs. E nós agora queremos associá-los à nossa caminhada conjunta assumindo-os como luzeiros da doutrina, da fé, da Eucaristia, da caridade e da misericórdia. Também eles souberam agradecer os benefícios de que Deus os cumulou, os dons que o Senhor lhes dispensou para benefício da Igreja e da humanidade. E o Papa sintetiza em breves palavras as suas vidas:  
Três deles são freiras e mostram-nos que a vida religiosa é um caminho de amor nas periferias existenciais do mundo. Ao passo que Santa Margarida Bays era uma costureira e revela-nos quão poderosa é a oração simples, a suportação com paciência, a doação silenciosa: através destas coisas, o Senhor fez reviver nela, na sua humildade, o esplendor da Páscoa. Da santidade do dia a dia, fala o Santo Cardeal Newman quando diz: ‘O cristão possui uma paz profunda, silenciosa, oculta, que o mundo não vê. (...) O cristão é alegre, calmo, bom, amável, educado, simples, modesto; não tem pretensões, (...) o seu comportamento está tão longe da ostentação e do requinte que facilmente se pode, à primeira vista, tomá-lo por uma pessoa comum’ (Parochial and Plain Sermons, V, 5).”.
E terminou exortando e rezando:
Peçamos para ser, assim, ‘luzes gentis’ no meio das trevas do mundo. Jesus, ‘ficai connosco e começaremos a brilhar como brilhais Vós, a brilhar de tal modo que sejamos uma luz para os outros’ (Meditations on Christian Doctrine, VII, 3). Amen.
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O Vatican News em português realça, de entre os cinco beatos canonizados, a Irmã Dulce Pontes, a primeira santa brasileira, a devotada aos pobres. Assim, enfatiza:
Irmã Dulce é santa. A celebração litúrgica com o rito da canonização reuniu cerca de 50 mil pessoas na Praça São Pedro. Com o “Anjo bom da Bahia”, foram canonizados também João Henrique Newman, Josefina Vannini, Maria Teresa Chiramel Mankidiyan, e Margarida Bays.”.
Depois, relata em três pontos:
A cerimónia teve início com o rito da canonização: o prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, Cardeal Angelo Becciu, acompanhado dos postuladores, foi junto do Santo Padre e pediu que se procedesse à canonização dos beatos.
O Cardeal apresentou brevemente a biografia de cada um deles, que foram então declarados santos. Seguiu-se a ladainha dos santos e o Pontífice leu a fórmula de canonização.
O prefeito da Congregação, sempre acompanhado dos postuladores, agradeceu ao Santo Padre e o coro entoou o canto do Glória.”.
E refere que, “na homilia, o Papa Francisco comentou o Evangelho deste 28.º Domingo do Tempo Comum, que narra a cura de 10 leprosos”, como já foi desenvolvido, em torno dos verbos invocar, caminhar e agradecer.
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Antes de concluir a celebração eucarística da canonização, o Santo Padre rezou com os fiéis a oração mariana do Angelus e fez dois apelos: ao Médio Oriente e ao Equador.
Formulou uma saudação e um agradecimento a todos, nomeadamente aos cardeais, bispos, sacerdotes, monjas, religiosos e religiosas de todo o mundo, em especial aos que pertencem às famílias espirituais dos novos Santos, e aos fiéis leigos ali reunidos.
Saudou as delegações oficiais de vários países e, em particular o Presidente da República Italiana e o Príncipe de Gales, pois, com o seu testemunho evangélico, estes Santos fomentaram o crescimento espiritual e social nas respetivas nações. E dirigiu uma saudação especial aos delegados da Comunhão anglicana, com profunda gratidão pela sua presença.
Saudou todos os peregrinos, bem como todos os que seguiram aquela Missa através da rádio e da televisão. E dirigiu uma saudação especial aos fiéis da Polónia que celebravam o Dia do Papa: agradeceu as suas orações e o seu constante afeto.
Os seus pensamentos dirigiram-se uma vez mais para o Médio Oriente, em particular, para a amada e martirizada Síria, de donde voltam a chegar notícias dramáticas sobre o destino das populações do nordeste do país, obrigadas a abandonar os seus lugares por causa das ações militares: entre estas populações há também muitas famílias cristãs. E renovou o seu apelo a todos os atores envolvidos e à comunidade internacional no sentido de se comprometerem com sinceridade honestidade e transparência no caminho do diálogo para buscar soluções eficazes.
Referiu que, juntamente com todos os membros do Sínodo dos Bispos para a Região Pan-Amazónica, especialmente os equatorianos, seguia com preocupação o que tem vindo a suceder no Equador nas últimas semanas. Encomendou o país à oração comum e à intercessão dos novos Santos, unindo-se à dor pelos mortos, feridos e desaparecidos. Animou-o a buscar a paz social, com especial atenção às populações mais vulneráveis, aos pobres e aos direitos humanos.
E, por fim, exortou a que todos se dirigissem à Virgem Maria, modelo de perfeição evangélica, para que nos ajude a seguir o exemplo dos novos Santos, que são nossos intercessores e luzeiros nesta nossa caminhada de fé, de oração, de testemunho evangélico e de caridade na justiça.
2019.10.14 – Louro de Carvalho