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domingo, 13 de outubro de 2019

Em Fátima, paz foi a intenção central da Peregrinação de outubro de 2019


Foi a intenção da paz que levou Dom Andrew Yeom Soo-jung, Cardeal sul-coreano e Arcebispo de Seul, a aceitar o convite para vir a Fátima presidir à Peregrinação Internacional Aniversária da 6.ª Aparição de Nossa Senhora na Cova da Iria, para a qual se inscreveram no Santuário 157 grupos de mais de três dezenas de países, entre eles muitos da Ásia. Disse o purpurado asiático na conferência de imprensa que antecedeu o início da peregrinação na tarde do dia 12, no final de uma intervenção que percorreu a história da evangelização da Coreia do Sul:
Na Coreia, a oração pela paz é diária. Vim a Fátima, sob o manto de Maria, trazer essa intenção pelos que sofrem e são torturados, na península coreana.”.
A paz é também uma das preocupações que traz a esta Peregrinação o prelado de Leiria-Fátima, que lembrou a ameaça da nova frente de guerra iniciada contra os curdos, na Síria (já morreram pelo menos 440 combatentes curdos das Forças Democráticas Sírias). 
Tanto Dom Andrew Yeom Soo-jung como Dom António Marto apontaram a paz como primeira intenção para as celebrações destes dois dias (12 e 13), na Cova da Iria. A respeito da paz e do Santuário, o prelado fatimita afirmou:
A presença do arcebispo de Seul quer ser um sinal da atenção que o Santuário de Fátima dedica à paz, bem como ao crescente número de peregrinos que aqui afluem vindos da Coreia do Sul e de toda a Ásia”.
Porém, o Cardeal Dom António Marto não esqueceu o que se passou a 6 de outubro e alertou para a importância de uma maior consciência democrática. Debruçando-se sobre a atualidade nacional, o purpurado congratulou-se com a “maneira cívica” como decorreram as eleições legislativas do passado fim-de-semana, mostrando-se, no entanto, preocupado com os “níveis tão elevados de abstenção” e a “crescente onda de populismos”, que, em sua opinião, exigem uma “elevação da qualidade da atividade política” e uma maior consciência democrática.
É preciso responder às questões de fundo da sociedade. A classe política deve mostrar que tem classe!” – afirmou deixando votos para que a nova legislatura traga “paz social; estabilidade; uma maior atenção à solidariedade social, para com os mais pobres, frágeis e vulneráveis e para com as instituições de solidariedade que a eles se dedicam”.
No âmbito da Igreja universal, Dom António Marto sublinhou a “especial importância para a Igreja” do Sínodo sobre a Amazónia, que está a decorrer no Vaticano, dizendo:
Podemos dizer que a Amazónia é um lugar concreto onde se centram e manifestam os grandes desafios globais do nosso tempo e onde se retomam as grandes linhas pastorais do Santo Padre”.
Ao nível da Igreja em Portugal, lembrou o encerramento do Ano Missionário, convocado pela Conferência Episcopal Portuguesa – dentro do mês missionário extraordinário, proclamado pelo Papa – que acontecerá a 20 de Novembro, no Santuário de Fátima, evocando o seu propósito:
A finalidade deste Ano Missionário era dar um abanão à Igreja, para reavivar o ardor e a paixão pela missão de Jesus e reacender o dinamismo missionário de uma Igreja em saída da sua zona de conforto e da sua autorreferencialidade”.
Na sua intervenção, o purpurado português referiu-se ainda à viagem apostólica que o Papa vai fazer ao Japão e à Tailândia, no próximo mês, e às canonizações que hoje, dia 13, tiveram lugar em Roma, nomeando, pela “particular atualidade”, os nomes da Irmã Dulce Lopes Pontes, que se distinguiu pelas suas obras sociais em favor dos mais pobres, e o Cardeal Dom John Henry Newman, percursor e inspirador do Concílio Vaticano II.
Por seu turno, o Reitor do Santuário destacou a ida da Imagem Peregrina ao Panamá como um dos momentos altos da dinâmica pastoral do Santuário em 2018-2019 e deixou um balanço prévio do presente ano pastoral, relevando a continuidade da estabilização do número de peregrinos em Fátima, ao apresentar dados que revelam a participação de cerca de 4,5 milhões de peregrinos nas celebrações do Santuário nos primeiros 9 meses de 2019. E, sobre a dinâmica pastoral na Cova da Iria em 2018-2019, o Padre Carlos Cabecinhas destacou como um dos momentos mais marcantes a ida da Imagem Peregrina de Nossa Senhora ao Panamá, à Jornada Mundial da Juventude, lembrando o programa paralelo que levou a Virgem Peregrina aos lugares mais periféricos daquele país, como foi o caso da visita a uma prisão, a um hospital oncológico e a um bairro degradado. A este propósito, revelou:
Um dos frutos desta visita vai ser anunciado amanhã (hoje, dia 13) pelo senhor Arcebispo do Panamá: a construção de um santuário dedicado a Nossa Senhora de Fátima, na cidade do Panamá”.
E vincou que um o núcleo desse santuário será uma réplica da Capelinha das Aparições.
Sobre o presente ano pastoral, o Padre Cabecinhas destacou ainda o incremento que o Santuário levou a cabo nas ações de formação, nomeando algumas das iniciativas que concretizam esta aposta: as diversas propostas formativas, de caráter espiritual e de aprofundamento da mensagem de Fátima, oferecidas pela Escola do Santuário; e a promoção de atividades de reflexão e estudo sobre Fátima, quer nos espaços do Santuário, quer fora dele, na participação de fóruns de reflexão mais alargados.
Por fim, destacou a “especial atenção que o Santuário deu ao acolhimento dos peregrinos mais frágeis” neste ano, nomeadamente através dos retiros de doentes, das férias para pais de filhos com deficiência, da peregrinação dos idosos e da aposta no acolhimento inclusivo através de propostas para a comunidade surda portuguesa. E concluiu:
Procuramos que o Santuário seja, cada vez mais, lugar de acolhimento da fragilidade, na linha daquilo que tem defendido o Papa Francisco”.
***
No momento da saudação à Virgem, na tarde do dia 12, o Cardeal Dom António Marto renovou o pedido de Nossa Senhora aos pastorinhos, desafiando os peregrinos a rezarem o terço todos os dias pela paz nas famílias, nos países e no mundo, em especial na Coreia e na Síria, vincando:
Neste mês de outubro comemoramos Nossa Senhora como a Senhora do Rosário. Foi assim que Ela se apresentou aos Pastorinhos pedindo-lhes que rezassem o terço todos os dias. Também nós, hoje, queremos apelar à oração pela paz nas famílias, nos países e no mundo, mas em especial na Coreia e na Síria.”.
Em sintonia com o Santo Padre, disse que, “nesta peregrinação de outubro, mês missionário extraordinário, queremos ter em intenção esta vontade do Papa para que o sopro do espírito frutifique no coração dos homens” e sublinhou “o afeto e comunhão” com os cristãos católicos da Coreia e de toda Ásia que “aqui vêm em número tão expressivo”. Disse que a presença do cardeal sul-coreano nos alegra muito e permite exprimir o afeto e comunhão com os cristãos católicos da Coreia e de toda a Ásia” e assegurou que o caminho que faz cada se peregrino torna “uma expressão viva da peregrinação interior”, que, por mais dolorosa que seja, se faz “sempre com esperança porque sabemos que, no termo do caminho, alguém nos espera e espera por nós”.  
E rematou com a afirmação de que “a peregrinação é uma viagem com fé”.
Por sua vez, o prelado asiático garantiu:
Eu sou peregrino como vós, também venho em peregrinação ao encontro da Mãe. Vamos rezar e pedir a Nossa Senhora de Fátima pela paz no mundo e pela nossa conversão.”.
Um manto de luz voltou a cobrir o Santuário de Fátima este sábado à noite, durante a recitação do terço (em que a oração de alguns dos mistérios foi assegurada pelo menos por três línguas asiáticas: indonésio, coreano e tagalog) e na Procissão das Velas.
E, na homilia da Missa da vigília – concelebrada por 178 sacerdotes, 6 bispos e dois cardeais e em que a oração dos fiéis teve uma prece em coreano, centrada na questão da Paz – o Cardeal Arcebispo de Seul recordou a história do país, marcada pela “provação” ao longo do século XX, para assinalar que, apesar de todas as perseguições e “tragédias”, a fé do povo coreano não esmoreceu, como nunca é destruída a fé de um povo, se ela for entendida como uma missão. Pediu a paz e a reconciliação para a Península Coreana e rezou “pelo fim dos conflitos e das divisões”, apelando:
Peço as vossas orações pela paz e pela reconciliação na Península Coreana, pelos vossos irmãos e irmãs na fé, geograficamente distantes, mas unidos pela presença de Deus. Orai connosco pelo fim dos conflitos e das divisões na península.”.
E, em dado momento, observou:
A fé, a missão como povo de Deus, continua, não obstante a tragédia da destruição do templo e do exílio da comunidade. O templo foi, durante muitos séculos, central para o culto de Israel, mas não é essencial. Deus permanece connosco.”.
Sublinhando a importância do Santuário como “o verdadeiro centro da comunidade”, disse:
 Cada geração tem celebrado a presença de Deus refletindo a sua própria história de salvação”.
Sobre as sombras da história do seu povo, vincou: 
Foi um período de provação para a nossa nação e a nossa comunidade de fé. A combinação do colonialismo japonês e dos comunismos vizinhos da Rússia e da China marcou a entrada da Coreia numa era turbulenta de dominação estrangeira. Logo após a libertação colonial em 1945, a nação viu-se dividida: Norte versus Sul, comunista versus capitalista. (…) Cinco anos depois, a guerra devastou a península por três longos anos, causando morte, destruição e a divisão de muitas famílias. Infelizmente, a guerra trouxe uma divisão ainda mais profunda e hostilidade mútua entre o Norte e o Sul. Passadas sete décadas, desde 1950, a nação continua dividida e a reconciliação permanece inalcançável.”.
Lembrando que é também administrador apostólico de Pyong-yang, capital da Coreia do Norte, país que nunca foi autorizado a visitar, confidenciou:
Acredito que Nossa Senhora de Fátima, que apareceu há 100 anos, nos instaria hoje a trabalharmos e a orarmos pela paz neste nosso século. (…) Ela representa para nós a grande medianeira, apoiando a nossa jornada de fé até ao Senhor. Além disso, a nossa Santa Mãe não está apenas a orar por nós, mas está também a ensinar-nos: ‘Fazei tudo o que ele vos disser’ (Jo 2,5). As palavras de Santa Maria chegam-nos como um convite para sermos ‘abertos na presença de Deus’, tal como os israelitas que celebraram a reconstrução do templo.”.
***
Hoje, dia 13, na homilia da Missa Internacional Aniversária, concelebrada por 2 cardeais, 11 bispos e 232 presbíteros, Dom Andrew Yeom Soo-jung salientou a importância do louvor a Deus e apresentou a oração, a Eucaristia e a evangelização como expressões de agradecimento a Deus pela “dádiva da salvação”. Disse ele:
No Evangelho, ouvimos a narrativa de São Lucas acerca da cura dos dez leprosos. Estes leprosos gritaram a oração que deveria ecoar no nosso coração: ‘Jesus, Mestre, tem compaixão de nós’. Como reagimos a esta dádiva de uma nova vida? Nós fomos perdoados. A nossa lepra foi purificada. Precisamos de seguir o exemplo de Naamã e do leproso samaritano. Precisamos de dar meia-volta e dar graças a Deus.”.
Bem podia ser este o legado da peregrinação:Dar meia-volta e dar graças a Deus”. Com efeito, é preciso confiar na Misericórdia de Deus, pedir perdão e agradecer o perdão.
Ao evocar o Milagre do Sol, ocorrido na Aparição de 13 de outubro de 1917, como sinal da intervenção de Deus “nas leis da natureza” e “na luta contra o Mal”, o prelado apresentou os ensinamentos da Bíblia e o acontecimento de Fátima como garantia da presença inequívoca de Deus na vida de cada homem, garantindo:
As aparições de Nossa Senhora em Fátima dizem-nos que, apesar das dificuldades, nunca estamos sós. Aprendemos que, se as dificuldades existem, Nosso Senhor e Nossa Senhora estarão presentes para nos ajudarem nas nossas necessidades. Não nos esqueçamos de que na nossa Santa Mãe encontramos a ajuda e o apoio necessários para enfrentarmos os muitos desafios que inevitavelmente enfrentamos enquanto seres humanos.”.
Tomando como exemplo o fiat de Maria: “Eis a escrava do Senhor. Faça-se em mim segunda a vossa palavra” – que foi tema da última Jornada Mundial da Juventude, no Panamá –, o cardeal sul-coreano exortou os peregrinos a responder com “humildade, confiança e coragem” às graças, bênçãos e misericórdia com que Deus reconforta a humanidade. E, perspetivando a Jornada Mundial da Juventude de 2022, em Lisboa, como uma ocasião para “proporcionar aos jovens uma visão de um mundo melhor e encorajá-los a encarnar Cristo no nosso tempo”, o Cardeal Arcebispo de Seul incentivou a assembleia a participar naquele encontro, pedindo, no final da homilia, a oração pela paz e reconciliação das Coreias.
***
Na palavra dirigida aos doentes, durante o momento de Adoração ao Santíssimo Sacramento, o Padre José Nuno Silva apresentou o acontecimento de Fátima como a resposta compassiva de Deus ao sofrimento humano. Começou por interrogar:
Quem não conhece a sensação íntima de sofrimento que faz o coração lançar-se para Deus: ‘tem compaixão de nós, tem compaixão de mim?’.”.
Depois, apresentando Deus como lugar certo para recorrer no sofrimento e estabelecendo um paralelo com o episódio da cura dos leprosos, narrado no Evangelho, garantiu:
Quando Deus aconteceu maternalmente em Fátima, nas aparições da Sua e nossa Mãe, veio responder a esta prece: ‘tem compaixão de nós’. A todos, a cada um, ele quer oferecer a experiência de se sentir salvo no seu sofrimento.”.
E prosseguiu, identificando Fátima como lugar que “ensina a voltarmo-nos para Deus”:
Ainda que não vejamos a cura, somos salvos, como atesta a resposta que Jesus deu ao único leproso que se voltou para ele não apenas para suplicar, mas para agradecer. Voltar-se para Deus no sofrimento – eis o que salva e nos permite sentir a salvação: voltar-se para Deus no sofrimento.”.
Evocou o sofrimento voluntário dos pastorinhos e o seu contributo para a causa de Deus e disse:
Voltar-se para Deus no sofrimento salva, diz Fátima. E não salva apenas o que sofre. Aprendemo-lo com São Francisco e Santa Jacinta Marto. Ofereceram-se a Deus e transformaram cada sofrimento num ato missionário. (…) Sem saírem de Fátima, como Santa Teresinha sem sair do Carmelo e, no entanto, proclamada padroeira das missões, foram missionários universais no sofrimento e pelo sofrimento.”.
Ao lembrar o mês de outubro dedicado às missões, o sacerdote desafiou os doentes a participar na missão da Igreja, apesar da doença:
A doença coloca-vos na fonte e no coração da missão da igreja: no sofrimento, podeis escolher ser páscoa, podeis decidir viver em Páscoa e podeis voluntariamente anunciar a Páscoa, com a autoridade das testemunhas, que só o sofrimento oferecido dá”.
E exortou os doentes que recebiam a bênção do Santíssimo Sacramento a “transformarem o sofrimento em ato de amor missionário para a salvação da humanidade”.
***
Por fim, o Cardeal Dom António Marto, Bispo de Leiria-Fátima, deixou a última palavra enaltecendo a coragem e a fé dos peregrinos de várias nacionalidades que, apesar do frio e da chuva, encheram o Recinto de Oração. Agradeceu a presença do Cardeal Dom Andrew Yeom Soo-jung e elogiou o testemunho “belo” de fé que o povo coreano tem dado ao longo da sua caminhada em Igreja, destacando o papel que Nossa Senhora de Fátima tem assumido como fonte de conforto neste percurso de fé. E assegurou que Fátima é conforto para o povo Coreano, dizendo:
No meio das provações, o povo cristão da Coreia encontrou apoio, ajuda e conforto na Santa Mãe Celeste e na Mensagem de Fátima”.
E concluiu dirigindo uma saudação final aos peregrinos, em especial aos doentes ali presentes, a quem se uniu espiritualmente em oração.
***
É Fátima no seu melhor, no dinamismo evangelizador que inspira o ser e a missão do Santuário!
2019.10.13 – Louro de Carvalho

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

O porquê de chefes de Estado não serem bem-vindos a Portugal


Veio a Portugal o Presidente de Angola e, apesar do “irritante” que ensombrava as relações diplomáticas, foi bem recebido, fizeram-lhe festa e foram assinados vários protocolos de cooperação. Depressa se esqueceu o passado em que Angola não respeitava os direitos humanos, contexto em que José Eduardo dos Santos também esteve em Portugal. E, mesmo o “irritante” desapareceu porque a Justiça portuguesa acabou por fazer a vontade a Angola no caso Manuel Vicente.
Esteve em Portugal o Presidente chinês e tudo correu às mil maravilhas. Praticamente todos esqueceram que o regime político chinês é de partido único, controla as empresas e os cidadãos cujo bom comportamento regularmente monitorizado consiste na coadunação com os ditames do partido. Direitos humanos nem vê-los.
É óbvio que estão, no caso de Angola e China as relações diplomáticas que são regra de ouro no concerto das nações. Porém, não esqueço que Mário Soares, quando Presidente da nossa República, clamava que os direitos humanos eram para ser respeitados em todos os países. Disse-o, por exemplo, em relação a situações desagradáveis e dramáticas ocorridas ao tempo na Guiné-Bissau.
No caso de Angola, além dos angolanos, estão em causa cidadãos e empresas portuguesas, como no caso da China estão em causa cidadãos e empresas de Macau sobre os quais Portugal teve e tem responsabilidades históricas, o encontro de culturas e a internacionalização das nossas empresas. China e Índia são portas abertas para o diálogo entre o Ocidente e o Oriente.
Nas relações com Angola e com a China estão em causa interesses estrangeiros em Portugal que os respetivos poderes políticos querem proteger.     
***O Presidente Marcelo, aquando da toma de posse de Jair Bolsonaro (a 1 de janeiro de 2019), manifestou a cortesia diplomática de o convidar para uma visita a Portugal em tempo oportuno. A ideia ficou em banho-maria, até que o Ministro das Relações Exteriores do Brasil, Ernesto Araújo, revelou, em entrevista à Lusa, na cidade cabo-verdiana do Mindelo, a 19 de julho pp, que o Presidente brasileiro deverá visitar Portugal no início de 2020.
Disse, a este respeito, o governante brasileiro:
Hoje tive uma reunião bilateral com o Ministro [dos Negócios Estrangeiros] Augusto Silva, de Portugal, e estamos a programar [a visita do Presidente brasileiro], se tudo der certo, para o ano que vem. Espero que mais para o começo do ano que vem. Ainda não temos data, preciso de falar com o próprio Presidente, ver na agenda do Presidente, mas ele quer muito ir a Portugal.”.
O chefe da diplomacia do Brasil falava no Mindelo (ilha cabo-verdiana de São Vicente), onde participou na XXIV reunião ordinária do conselho de ministros da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa). E justificou-se:
Este ano já temos uma agenda muito pesada, inclusive porque o Brasil está envolvido na presidência do BRICS [grupo de países de economias emergentes formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul], temos a presidência do Mercosul neste semestre, mas esperamos que no começo do ano que vem seja possível concretizar isso [visita de Jair Bolsonaro a Portugal].”.
E Ernesto Araújo concluiu:
É um país irmão, não podia ser mais próximo, de uma amizade muito produtiva e que nos alegra muito”.
Por seu turno, Bolsonaro disse que Portugal é “um país irmão”, priorizando o Governo os países de língua portuguesa através da presença do chefe da diplomacia na reunião da CPLP, organismo que Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste integram. Com efeito, naquele mesmo dia, em Brasília, Bolsonaro declarou, num pequeno-almoço com a imprensa estrangeira, respondendo a uma questão da Lusa:
O Brasil é um país irmão. Estamos à disposição da embaixada, como é normal e natural, para buscarmos o aprofundamento das nossas relações.”.  
***
Em Junho passado, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, desafiou os EUA a concorrerem a uma presença no Porto de Sines, defendendo que seria estrategicamente importante como porta de entrada para a Europa. Disse-o numa intervenção em inglês, na FLAD (Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento), em Lisboa, assegurando:Os que estão ausentes estão sempre errados. E adiantou: “Vai haver uma decisão sobre Sines. É óbvio, há décadas, que é um ponto vital para entrar na Europa”, acrescentando: Vocês têm de estar lá quando chegar o momento”.
Marcelo salientou que “os chineses têm sempre um ministro a visitar Sines, quase todos os meses, e não é o único caso, outros países asiáticos também”.  Segundo o Chefe de Estado português, o embaixador norte-americano em Lisboa “está a trabalhar nisso” e “sabe que o tempo está a esgotar-se”. Ora, o embaixador norte-americano em Portugal é George E. Glassum ex-banqueiro de investimento que passou também pelo ramo imobiliário e que é, há vários anos, financiador de campanhas dos republicanos.
Nesse sentido, constou que Trump iria estar a caminho de Portugal para travar o apetite chinês, sendo que a embaixada norte-americana em Lisboa estaria desde junho preparada para a decisão final de Trump. A visita não tinha data definitiva, mas Sines deveria fazer parte do menu.
Aliás, as palavras de Marcelo Rebelo de Sousa vêm na sequência do convite que fez a Donald Trump em Washington, em Junho de 2018.
Assim, acreditava-se que o Presidente norte-americano visitaria Portugal em breve, aceitando o repto lançado pelo Presidente português. Um dos pontos da agenda seriam os investimentos norte-americanos, nomeadamente o eventual interesse no concurso internacional para a ampliação do terminal de contentores de Sines.
A TVI admitia “ser muito provável” que o Presidente dos Estados Unidos visitasse Portugal no final de agosto, uma visita de um dia antes de partir para Espanha. O Ministério dos Negócios Estrangeiros comentou à TVI “não ter nada a dizer a propósito de uma eventual visita” de Trump. E o Público confirmava que houve esforços diplomáticos para que esta visita ocorresse primeiro em junho e depois em julho. O mês passaria afinal a ser agosto, sendo que a Casa Branca não anuncia deslocações do Presidente com muita antecedência.
Atualmente, o terminal de contentores de Sines, por onde entra um terço do gás liquefeito exportado pelos EUA para a Europa, é gerido por Singapura. O concurso para a construção do novo Terminal de Sines, denominado de Vasco da Gama, será lançado em breve pelo Governo, tendo a Ministra do Mar, Ana Paula Vitorino, anunciado que será feita concessão por 50 anos.
Todavia, os EUA, para entrarem no predito concurso, não precisam de cá mandar o Presidente. Assim, a visita de Trump a Portugal parece estar gorada para já, vindo a embaixada dos Estados Unidos a confirmar que “não está a planear uma visita do Presidente Trump a Portugal neste momento”. A informação foi avançada em tempo pelo jornal “Expresso”, referindo que o Presidente dos Estados Unidos da América já não aproveitará a viagem à cimeira do G7, que acontece em Biarritz, França, para visitar Portugal.
O jornal citava fonte da Embaixada dos Estados Unidos, que diz que “não está a planear uma visita do Presidente Trump a Portugal neste momento”. Segundo o mesmo jornal, uma visita de Estado do Presidente dos Estados Unidos da América só deverá acontecer depois das eleições americanas, em 2020.
***
As vozes fizeram-se levantar contra a propalada visita do líder da América, dado o perfil de Trump, as declarações erráticas e insolentes que faz, as medidas desgarradas e iníquas que toma, as alianças que privilegia, as simpatias que manifesta. Exemplo de tais vozes protestativas é um conhecido colunista do “Expresso” que diz não se sentir representado nesse convite de Marcelo, que nós elegemos, a Trump e afirma sentir-se incomodado com o caso. É pena, do meu ponto de vista, que esqueça que, mal ou bem, o Presidente norte-americano foi escolhido pelo povo em eleições normais, independentemente de ter havido ou não manipulação do eleitorado, o que acontece noutros países. E lamento que o predito colunista não tenha levantado a sua voz ou afiado o seu lápis azul contra outras visitas de Chefes de Estado cuja eleição resultou de duvidosa normalidade democrática.    
Sobre a iminente visita de Bolsonaro, diz o Bloco de Esquerda que “Bolsonaro não é bem-vindo a Portugal” e pede ao MNE que cancele a visita, pois o Presidente brasileiro levantou dúvidas sobre as circunstâncias da morte de um ativista estudantil em 1974 que o seu próprio Governo atestara há dias que morrera por violência causada pelo Estado durante a ditadura militar.
Diz o BE que Bolsonaro “parece ignorar os fundamentos do Estado Democrático de Direito”. E, depois de mais declarações polémicas do Presidente do Brasil, desta feita sobre a morte de um ativista em 1974, e sabendo-se que visitará Portugal no início do próximo ano, o Bloco quer que o Ministério dos Negócios Estrangeiros cancele a visita quanto antes.
Sustenta o partido, num comunicado divulgado ao início da manhã de hoje, dia 1 de agosto, que “Jair Bolsonaro não é bem-vindo a Portugal”, considerando “inaceitável” a realização da visita programada para daqui a alguns meses. A concretizar-se, ela sinalizaria ao povo irmão do Brasil que o nosso Governo é conivente com o contínuo desrespeito pela democracia demonstrado pelo executivo brasileiro liderado por Bolsonaro.
Recorda o BE que Bolsonaro interpelou, há dias, o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil a levantar dúvidas sobre as circunstâncias da morte do seu pai, em 1974, quando este era um ativista estudantil contra a ditadura militar. E disse que Fernando Santa Cruz, então com 26 anos e estudante de Direito, não foi morto pelos militares, mas pela própria organização que integrava, a Ação Popular – asserção que que contradiz a CNV (Comissão Nacional da Verdade), organismo estatal que investigou, entre 2011 e 2014, as violações de direitos humanos cometidas pelo Estado durante o regime que vigente entre 1964 e 1985, e que representou a única iniciativa governamental de reparar a vítimas da ditadura, quase 30 anos depois.
Refere o BE que as afirmações de Bolsonaro “causaram uma onda de indignação generalizada, até partilhada por muitos que o têm defendido e apoiado em outras ocasiões”. E exemplificou com os casos do governador e do prefeito de São Paulo, João Doria e Bruno Covas, respetivamente, que consideraram as afirmações do Presidente inaceitáveis.
Além disso, os comentários foram feitos poucos dias depois de a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, ligada ao Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos do Governo de Bolsonaro, ter emitido o atestado de óbito do ativistas em que afirma que este “faleceu provavelmente no dia 23 de fevereiro de 1974, no Rio de Janeiro, em razão de morte não natural, violenta, causada pelo Estado brasileiro, no contexto da perseguição sistemática e generalizada à população identificada como opositora política ao regime ditatorial de 1964 a 1985”. Assim, o Bloco sustenta:
Os portugueses e o Governo não podem ficar indiferentes face a um presidente que (...) parece ignorar os fundamentos do Estado democrático de direito, entre eles a dignidade da pessoa humana, na qual se inclui o direito ao respeito da memória dos mortos”.
Também não podemos esquecer que, tal como Trump, Bolsonaro foi eleito pelo seu povo.
***
O Brasil é um país irmão e estão em causa milhões de descendentes de portugueses e milhares de portugueses que ali trabalham, como temos aqui milhares de brasileiros. Também na América há milhares de emigrantes portugueses e há interesses mútuos entre os dois países. Não interessa que se fechem portas de Portugal, da América ou do Brasil no âmbito das bilateralidades. As críticas não podem deixar de ser feitas, mas o interesse dos cidadãos e das empresas tem de ser zelado. E as visitas de Estado são um trunfo para isso nas democracias modernas, no pressuposto da boa cooperação e da não ingerência interna de países estrangeiros, mesmo que irmãos ou aliados.
Ademais, além de ter sido um erro Portugal ter procedido a determinadas privatizações – EDP e REN – e ter deixado que a China tivesse abocanhado tantas empresas portuguesas, será erro continuar a deixar aos chineses de forma desequilibrada ou quase exclusiva mais interesses estratégicos nossos. Sabemos como funcionam americanos e brasileiros, mas não sabemos como funciona a China em matéria negocial.
Por fim, devemos ter um só peso e uma medida para com os Estados soberanos. Porque se aceitou a Guiné Equatorial na CPLP, apesar da pena de morte e do regime de partido único? Só a política da língua?  
2019.08.01 – Louro de Carvalho   

quinta-feira, 6 de junho de 2019

PAN é a terceira força junto dos mais jovens


No site do Público, a 4 de junho pp, Maria João Lopes – com base nos dados da sondagem do Centro de Estudos e Sondagens de Opinião/Universidade Católica Portuguesa para a RTP no dia 26 de maio de 2019, a partir da qual foi selecionada uma subamostra, em que os eleitores responderam em quem votaram nas eleições para o Parlamento Europeu (PE), indicando fatores específicos como idade, sexo e grau de instrução – explicita a conclusão de que o PAN (Pessoas-Animais-Natureza) é a 3.ª força junto dos mais jovens, que a CDU é a última, que “no grupo com 65 ou mais anos, metade das pessoas votou PS” e que “o PS surge como 1.ª força em todos os escalões etários”. Os dados da sondagem para esta análise resultam de 3931 inquéritos válidos e foram, depois, ponderados tendo em conta os resultados oficiais das eleições.
Porém, João António, responsável técnico pelas sondagens políticas do susodito centro, adverte:  
Não são resultados oficiais, são dados baseados numa análise que fizemos a uma subamostra”.
Em termos globais, o PAN foi agora a 6.ª força política, o que não me parece que tenha sido uma surpresa eleitoral esta posição e mesmo a eleição dum eurodeputado deste partido, a não ser que se entenda esta como uma surpresa anunciada, pois nas legislativas de 2015 o PAN foi a 6.ª força política e tem um deputado no Parlamento. É certo que agora era necessário preencher só 21 lugares, quando em 2015 estavam em causa 230 lugares, mas também eram 22 círculos eleitorais, o que fazia perder muitos votos dispersos, quando agora o círculo eleitoral era único.   
Seja como for e atendo-nos à análise setorial espelhada no aludido escrito do Público, o PAN surge como a 3.ª força política entre os votantes com menos de 25 anos (13,9%) e a CDU é a última entre o eleitorado mais jovem (4,6%). Ainda no atinente a faixas etárias, sobressai o facto de um em cada 4 votantes com menos de 35 anos ter escolhido forças políticas que não elegeram qualquer eurodeputado ou votaram branco ou nulo. Além disso, o 1.º partido em todas as faixas etárias é o PS, ocupando o 2.º lugar o PSD.
A leitura dos dados da susodita sondagem permite dizer que o PAN já é a 3.ª força política entre os votantes com menos de 25 anos (13,9%) e a 4.ª no grupo dos 25 aos 34 (11,2%) e dos 35 aos 44 (7,3%); o BE é a 3.ª força política em várias faixas etárias, que abrangem as pessoas entre os 25 e os 64 anos. Já a CDU surge em último entre o eleitorado mais jovem: regista 4,6% dos 18 aos 24 anos e 5,5% na faixa dos 25 aos 34. E um em cada 4 votantes com menos de 35 anos escolheu forças políticas que não elegeram qualquer eurodeputado ou votaram branco ou nulo – 25,5% no grupo dos 18 aos 24 e 25,9% dos 25 aos 34 anos.
Além disso, permitem-se mais leituras: a diferença em pontos percentuais entre PS e PSD cresce “significativamente” nos últimos dois escalões etários. Assim, dos 55 aos 64 anos, o PS regista 38% dos votos e dos 65 ou mais anos alcança os 50,2%; o PSD, na faixa etária que vai dos 55 aos 64 anos assinala uma percentagem de 22,1%, enquanto a de 65 ou mais regista 23,4%; a faixa etária em que a CDU recolhe maior percentagem de votos é a dos 65 ou mais anos (8%); a faixa etária com mais peso para os sociais-democratas é a que vai dos 45 aos 54 (24,6%); e é nesta mesma faixa etária que o CDS obtém o seu melhor resultado: 8,5%.
Um outro vetor de análise é grau de instrução dos inquiridos, sendo que PS, com 24,9%, e PSD, com 24,2%, recolheram quase a mesma percentagem de votos entre as pessoas mais instruídas.
Ainda, no âmbito dos dados sobre o nível de estudos, destaca-se que, no grupo dos eleitores que não completaram o secundário, 54,8% votaram PS; que o grupo mais representativo que votou no PSD é o que completou o ensino superior (24,2%) – tal como como no BE (11,6%), no CDS (8,3%) e no PAN (6%). Já na CDU a percentagem mais elevada (8,2) situa-se no grupo de quem terminou o ensino secundário. A maior percentagem, porém, de quem votou branco ou nulo também se situa entre quem estudou na faculdade: 19,1%.
Efetivamente, a noite das eleições europeias portuguesa confirmou a vitória do PS, com 33,39% dos votos; a derrota da direita nas urnas, a eleição de mais um eurodeputado para o Bloco de Esquerda, a perda de um mandato da CDU e a eleição de um eurodeputado do PAN. O líder do PS considerou o resultado como um “voto de confiança no PS” e o BE não repetiu à saciedade que se confirma como a terceira força mais votada do país. Uns festejaram, outros assumiram os fracassos. O PAN festejou, pois, como disse André Silva, “as forças políticas percebem que o PAN já conta”. Porém, PSD, CDU e CDS assumiram terem ficado aquém das metas.
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Segundo o deputado do PSD Paulo Rios de Oliveira (escreveu há dias, no JN), o resultado eleitoral do PAN nas eleições para o PE “é uma surpresa anunciada, que obriga a reflexão e explicação”. Do partido de que muitos portugueses pouco mais saberão que “defende os animais” diz o deputado que está em franco crescimento por mérito próprio e por demérito alheio. Começou por ser um dos fortes depositários dos “votos de protesto” de eleitores descontentes (o deputado do PSD acha que de todos) e passou o ser o destino dos votos “antipartidos” ou “antissistema”, quando ironicamente é um partido integrado no sistema. Os eleitores, mais que o encontro de propostas, valores ou iniciativas (que as tem e, a meu ver, algumas muito válidas e interessantes), além da defesa incontida, e às vezes abstrusa, dos animais, encontram ali uma válvula de escape do desconforto de não verem satisfeitas nos outros partidos as suas fundadas expectativas e legítimos anseios. E o PAN aproveita a maré apresentando propostas que vão ao encontro do que agrada aos cidadãos, numa abordagem serena e convincente para o cidadão comum que pense no imediato.
Depois, começa a levar a sério, mais que os outros partidos, o debate sobre o ambiente e as alterações climáticas, em que pontificam o aquecimento global e a poluição atmosférica – temas que se esperava que o “Partido Ecologista os Verdes” (PEV) tratasse com afinco e desenvoltura.
Ora, centrar a intervenção política na nova “agenda verde” concita a atração de muitos, em particular os mais jovens. Refira-se a relevância concedida às manifestações e greves de jovens um pouco por todo o mundo em prol do planeta ameaçado pelas alterações climáticas e pela febre lucrativa que leva ao esgotamento dos recursos naturais e ao lançamento de toxinas para a atmosfera, na linha das preocupações do Papa Francisco. Depois, como diz o referido deputado socialdemocrata, o mais grave “é que os jovens eleitores não estão interessados por política e por políticos, por serviço público ou pela Europa, por querelas ideológicas ou programáticas”, pelo que o discurso do PAN, “simples, básico e modernaço”, por ir ao encontro de temas debatidos nas escolas (a nível de projetos multidisciplinares e interdisciplinares), se torna “mais apelativo para a ‘geração Z’ e para os nativos digitais”.
Porém, o parlamentar socialdemocrata vaticina que o PAN virá a perder a “genuinidade” tendencialmente “monotemática” e, com sucedeu com outros partidos, que supostamente emergiam a partir das bases, deixar-se-á seduzir pelas dinâmicas e “modus faciendi” dos demais partidos. E, em vez de apenas “partido de causas”, quererá ser também “partido de poder”. E um partido de poder minimiza as microcausas, por mais importantes que sejam, e aplica-se a todas as áreas de governo. Aliás, ao clamar que não é partido de esquerda nem partido de direita – também não se diz de centro – pois não se revê nesses posicionamentos, o PAN cria na opinião pública a ideia da hipótese de se aliar a partido que dele precise para viabilizar a governança. 
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Por seu turno, Emídio Gomes, professor catedrático e vice-reitor da UTAD, também em artigo de opinião no JN, faz a distinção entre a estima que se deve ter pelos animais, nomeadamente os animais domésticos, nomeadamente, serviço, companhia, guarda ou estimação e a obsessão pela preservação, supremacia e ostentação dos mesmos a todo o custo e doa a quem doer.
Refere que a avó contava que o pequeno rafeiro encostava o ouvido ao corpo da criança, que era o articulista, enquanto ela dormia para lhe sentir o respirar. Por tudo, sentiu grande desgosto, “quando um dia não resistiu a um atropelamento por um carro”. E diz do sucedido mais tarde:
“Ainda hoje tenho muitas saudades do meu galgo, que criei e treinei desde muito pequeno e que esperava ansioso pelo meu regresso a casa em cada fim de semana, no tempo de universidade fora do Porto. Não era o ruído, mas o ‘cheiro do dono’ que lhe motivava uma prévia alegria descontrolada. De facto, a capacidade de olfato dos cães é muito superior à dos humanos, devido ao facto de terem 30 a 50 vezes mais glândulas odoríferas!”
Continua a ter um cão, que diz tratar “o melhor” que sabe e pode, “mas com as regras próprias e adequadas a um animal doméstico”, bem “diferentes das de um ser humano”. Sabendo qual é o “seu espaço próprio”, não passa da entrada da cozinha, não ocupando “a área de domínio dos seus donos”. Aponta o articulista que o seu animal de estimação “não vai a restaurantes, muito menos a ‘soirées’ políticas com direto televisivo para português ver”. Adianta que o animal “não sofre com isso”. E abjura do comportamento “em função de modas”, sobretudo se “interferem com valores, princípios e decisões” do quotidiano dos cidadãos e critica em concreto a exibição encenada “de animais na sede do PAN na noite das europeias”.
E eu recuso qualquer enunciado que tente converter-me aos propalados direitos dos animais, pois, só quem pode ser sujeito de deveres pode ser sujeito de direitos – as pessoas –, direitos que não são negáveis quando ainda ou já não podem ser instados ao cumprimento dos ditos deveres, pois não perdem a essência de pessoas, sujeito de direitos e deveres (diciologia + deontologia).    
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Também José Pedro Videira, Presidente da FAP (Federação Académica do Porto), no mesmo diário, reitera que cerca de 70% dos portugueses optaram por não ir às urnas nestas eleições e que a dimensão do fenómeno não permite o erro de “culpar exclusivamente quem se abstém”. Tendo sido “a maior taxa de abstenção alguma vez registada”, diz que se impõe “interpretar os motivos”. Deverão, segundo opina, os partidos “refletir sobre os modelos de fazer campanha e o conteúdo da mensagem política”, não se podendo lembrar do debate “apenas quando o despertador das eleições está prestes a tocar”, pois, como sugere, “a política devia ser um relógio de pulso que todos usamos diariamente e não um sino de igreja que só toca nos arraiais de verão” ou quando alguém morre (digo eu). E diz o jovem estudante:
O combate à abstenção não se faz com apelos ao voto uns dias antes das eleições. São necessárias medidas de fundo. Desde logo, nas escolas e também nas instituições de Ensino Superior, que cada vez mais formatam trabalhadores em vez de formatar pessoas prontas para, antes de trabalhar, pensar (porque, verdade seja dita, para trabalhar sem pensar há muita máquina à procura de emprego). Só assim será possível promover o debate, não entre os candidatos, mas sobre as propostas por eles apresentadas”.
Diz que “os partidos tinham ideias sobre a Europa”, mas, em vez de as tirarem dos manifestos eleitorais e as debaterem, “enveredaram por uma ‘nacionalização’ da campanha”, que fez das europeias “uma espécie de megassondagem para as legislativas”. Assim, muito embora o Primeiro-Ministro tenha falado “na importância de convergirmos para a Europa”, foi ele quem iniciou a nacionalização da campanha. E a abstenção, que teve “a maior vitória de sempre numas eleições”, demonstrou exatamente “uma enorme divergência para com a Europa, com Portugal a assumir o 6.º lugar na lista de países da UE com maior taxa de abstenção” – precisamente o inverso do que se deseja. Por isso, os grandes partidos, quais “alicerces do nosso sistema político”, têm de saber “interpretar a abstenção”, sob pena de acabarem por “ficar a falar sozinhos”. Nestas eleições, não se subtraindo “a abstenção ao resultado”, verifica-se, como diz, que “apenas 13,5% dos eleitores votaram PS ou PSD” e, se se contabilizarem “os votos brancos ou nulos, 75,6% dos eleitores não optaram por partido algum”. Nestes termos, alerta o dirigente associativo, “é hora de tomar medidas”. Os partidos devem “diversificar as formas e meios para comunicar”; e, por outro lado e acima de tudo, “é urgente uma verdadeira formação para a cidadania em contexto escolar, assim como é urgente que a política volte a ser bem-vinda nas instituições de Ensino Superior”. Estas não podem cingir-se à linha neoliberal (penso).
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No atinente a sugestões, o acima referenciado e citado deputado socialdemocrata diz restar aos partidos tradicionais “juntar personalidades e projetos (que existem), numa agenda de propostas claras e de futuro, como seja a agricultura urbana, o aproveitamento do nosso mar ou a mobilidade mais ecológica”. E, para o mencionado e citado vice-reitor da UTAD, “o importante é continuar a acreditar na democracia enquanto tal, como a forma mais justa de garantir uma sociedade equilibrada, em que a áreas como a saúde, a educação e a justiça sejam prioridades no investimento público”. E pensa que os líderes não podem focar-se “no mediatismo e na espuma dos dias”, pois “o imediato pode ser ‘fashion’ e tentador, mas estará sempre longe de ser uma base sólida e com futuro”.
Também o Ministro da Educação defendeu – na Conferência Internacional “Educação, Cidadania, Mundo. Que escola para que sociedade?”,  que decorreu no Pavilhão do Conhecimento, em Lisboa (28-29 de maio) – que é preciso “agir urgentemente” junto dos jovens tendo em conta a abstenção nas eleições europeias que, em Portugal, rondou os 70%. É certo que muitos milhares de cidadãos foram votar, mas muitos outros milhares – mais ainda – abdicaram de o fazer”, sublinhou.
Em Portugal, só 31% dos eleitores participaram nas eleições europeias, sendo a 6.ª pior taxa da União Europeia, cuja média foi de 50,82%. E o governante lamentou que a maioria dos jovens portugueses faça parte do grupo que, no domingo, não exerceu o seu direito de voto: “Há um número muito alto de abstenção entre os jovens”.
Tiago Brandão Rodrigues, em declarações aos jornalistas, referiu que a taxa de abstenção próxima dos 70% “vem dizer que temos de agir urgentemente” e frisou que, “a cada passo que não exercem a sua cidadania, há alguém que a exerce por eles”, reconhecendo que “a escola tem um papel fundamental” no processo de “criar sociedades livres, democráticas e sustentáveis”. Com efeito, as escolas, como contou, “têm vários projetos pensados para sensibilizar os jovens para a importância de participar nos atos de cidadania e valorizar os processos democráticos”. Além das aulas de cidadania, existem iniciativas como “A Voz dos Alunos”, em que são chamados a dar a sua opinião sobre como melhorar a escola, ou o “Orçamento Participativo das Escolas”, em que os alunos apresentam projetos para melhorar a escola, votando livremente. Mas lembrou que é preciso ter “uma prática diária para que a cidadania se cumpra”, como é preciso a prática instalar-se em todos os cidadãos e instituições.
Como diria Fernando Pessoa, “É a Hora!”
2019.06.05 – Louro de Carvalho