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domingo, 27 de janeiro de 2019

A Palavra de Deus, fulcro da comunidade, é geradora de alegria e festa


A liturgia do 3.º domingo do tempo comum, no Ano C, releva a Palavra de Deus como fulcro da comunidade, em torno do qual gravita a vida toda dos crentes, comprometidos que estão, pessoalmente e em comunidade, com o desígnio divino. É a Palavra de Deus o centro da nossa escuta, reflexão, ação e disponibilidade ao serviço de Deus e do próximo.
Não é uma doutrina abstrata, pasto e deleite da intelectualidade, mas o conteúdo da fé cujo núcleo essencial é o anúncio libertador de Deus a todos os homens que incarna em Jesus Cristo e nos cristãos ao estilo do seu Mestre e Senhor. Eles, constituídos pela Palavra como discípulos, rapidamente se dão conta da obrigação que lhes é outorgada de testemunhas, arautos, apóstolos e missionários, para o que necessitam de receber a força do Alto, sendo também Igreja orante.
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Os livros de Neemias e de Esdras (inicialmente, formavam uma unidade) são do período subsequente ao regresso do exílio da Babilónia. A transição do século IV aC para o V era ainda de miséria e desolação para Jerusalém, cidade agora sem muralhas e sem portas, sombra negra da cidade bela que fora. E Neemias, alto funcionário do rei Artaxerxes, sabendo das notícias de Jerusalém, obtém do rei autorização para ali se instalar. E inicia a sua atividade pela reconstrução da muralha (cf Ne 3-4) e pelo combate às injustiças dos ricos sobre os pobres (cf Ne 5), passando, depois, à restauração do culto (cf Ne 8-9).
É, pois, no contexto de preocupação cultual que se posiciona o trecho que serve de 1.ª leitura da Liturgia desta dominga (Ne 8,2-4a.5-6.8-10).
Quem tem a missão da Palavra tem de se preparar e de preparar tudo; proclamar ou fazer proclamar a Palavra clara e distintamente; refletir a Palavra e explicá-la de modo acessível, de forma que ela toque a assembleia que escuta (e a cada pessoa) e lhe questione a vida; e, depois, a Palavra deve acolhida com veneração e respeito e levar à mudança de vida.
Neemias convoca todo o Povo para uma assembleia “na praça sita diante da Porta das Águas”, para a escuta da leitura da Lei, pois é mister recordar ao Povo o compromisso fundante que assumiu com o seu Deus, a fim de se preparar o futuro novo que Neemias antevê para Jerusalém e para o Povo de Deus. O texto elege como questão essencial a relevância da Palavra de Deus na vida da comunidade, objetivo para que os diversos pormenores apontam:
- O hagiógrafo destaca a convocação mesmo de toda a comunidade para a escuta da Palavra: homens, mulheres e crianças em idade “de compreender”, já que a Palavra de Deus, dirigida a todos sem exceção, a todos questiona e põe em causa.
- O cenário físico releva o estrado de madeira feito de propósito que põe o leitor em plano superior; e o cenário dinâmico dá lugar de desataque à abertura do Livro da Lei de forma solene e ao posicionamento de todos, que se levantam em atitude de respeito e veneração pela Palavra – modelo da comunidade cujo fulcro é a Palavra de Deus e onde tudo e todos se dispõem em função do papel que a Palavra de Deus ocupa na vida da comunidade.
- Depois, vem o guião da “celebração da Palavra”: aclamação da Palavra pela assembleia; leitura clara e distinta da Lei pelos levitas; explicação da Lei ao povo pelos levitas, de modo acessível, de maneira que se possa compreender o que foi lido; e a resposta do Povo: confrontados com a Palavra, todos choram, o que revela, certamente, uma comunidade que se deixa pôr em causa pela Palavra, confrontando a vida com a Palavra proclamada e sentindo a urgência da conversão, porque a Palavra é eficaz e provoca a transformação da vida.
- E tudo termina em grande festa: o dia “consagrado ao Senhor” é um dia de alegria e de festa para a comunidade que se alimentou da Palavra e passa a alimentar-se fisicamente em família partilhando com quem não tem, pois um dos componentes da festa é a partilha.
Assim se exemplifica como a Palavra deve estar no centro da vida comunitária e, uma vez proclamada, é geradora de alegria e de festa.
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O Evangelho (Lc 1,1-4;4,14-21) apresenta-nos Cristo como a Palavra que Se faz pessoa no meio dos homens para levar a libertação e a esperança às vítimas da opressão, do sofrimento e da miséria. E, depois da Ascensão de Jesus, é a comunidade que tem a missão de anunciar ao mundo essa Palavra libertadora. É a comunidade que, atenta às moções do Espírito, gera modelos de oração, de testemunhas qualificadas, de apóstolos destemidos, de arautos eloquentes e de missionários ativos que percorrem todos os caminhos andados e não andados.   
Começamos, neste 3.º domingo do Tempo Comum, no Ano C, a leitura contínua do evangelho de Lucas, que nos acompanhará até ao final do ano litúrgico. Depois do ciclo do Natal e antes do ciclo da Páscoa onde se escutam, de forma descontínua, alguns episódios do evangelho de Lucas, o Tempo Comum oferece-nos, de forma ininterrupta, domingo após domingo, episódio após episódio, a vida e a mensagem de Jesus. Tal leitura contínua, além de nos proporcionar o ensejo de contemplar de perto os mistérios da vida do Senhor, constitui um convite à entrada na aventura fascinante do seguimento de Jesus à luz do evangelho lucano.
O Evangelho desta dominga é constituído por duas passagens evangélicas diferentes.
A primeira (1,1-4) é um prólogo literário à laia dos escritores helénicos da época em que o evangelista apresenta a obra: fruto de investigação cuidada (método) dos “factos que se realizaram entre nós” (assunto), a fim de que os crentes de língua grega (a quem o Evangelho de Lucas se dirige) (destinatários) verifiquem “a solidez da doutrina em que foram instruídos” (finalidade).
Talvez porque iniciamos a leitura ininterrupta do evangelho de Lucas, a liturgia da Igreja houve por bem oferecer-nos, na primeira parte do evangelho deste domingo e antes da narração do início do ministério de Jesus, o prólogo do evangelho lucano. Na verdade, os quatro primeiros versículos deste trecho são os versículos introdutórios da obra lucana, em que o evangelista oferece um prólogo com a apresentação da obra.
O evangelho não é fruto da imaginação mas, como se disse, o resultado de acurada investigação “dos factos que se realizaram entre nós”. Assim, o evangelho de Lucas não nos oferece mitos e lendas, mas um acontecimento histórico concreto: o acontecimento Jesus de Nazaré. E Lucas dedica a obra ao “ilustre Teófilo”. Porém, não se trata dum tratado de História como se entende nos tempos hodiernos, mas de um percurso catequético, fundado nos dados históricos, é certo, porém, centrado em vetores fundantes, como a ação do Espírito Santo, a premência da oração, a mística do Reino, o relevo da misericórdia, a universalidade da salvação, a tomada de partido pelos mais fracos, o papel da mulher, a certeza da entrada no Paraíso…  
E pode afirmar-se que, na figura de Teófilo, Lucas dedica a sua obra a todos os crentes, a todos os amigos de Deus para os ajudar no seu seguimento do Senhor. Lucas sente-se na necessidade de colocar por escrito o resultado da investigação para que tenhamos conhecimento seguro do que nos foi ensinado, ou seja, a grande finalidade do evangelho é fortificar a fé dos crentes.
Lucas sente que não pode reservar para si aquilo que as “testemunhas oculares e ministros da Palavra” lhe transmitiram. Por isso, escreve a Teófilo – que significa “amigo de Deus” e pode ser uma pessoa singular influente na comunidade ou a antonomásia da mesma comunidade – para que tenha conhecimento seguro do que lhe foi ensinado. Com Teófilo e sua comunidade cristã, somos convidados por Lucas e pelos outros evangelistas a crer na Palavra, esta Palavra que muitos assinaram com o seu sangue. Não basta conhecê-la; é preciso obedecer-lhe e pô-la em prática para desenvolvimento da fé pessoal, do incremento da vida comunitária e do testemunho e da ação missionária fora de portas. Lucas não pergunta que erros tenhamos cometido, mas interpela-nos como amigos de Deus que dizemos ser e sugere que tiremos consequências desta força da Salvação oferecida a todos gratuitamente.
Na década de 80, desaparecidas as “testemunhas oculares” de Cristo, o cristianismo começa a defrontar-se com heresias e desvios doutrinais, que põem em crise a identidade cristã. Era, por isso, mister recordar aos crentes as suas raízes e a solidez da doutrina recebida de Jesus pela via do testemunho legítimo, que é a tradição apostólica.  
A segunda passagem evangélica (4,14-21), que é programática, apresenta o início da pregação de Jesus, que Lucas coloca em Nazaré, tendo como cenário de fundo o do culto sinagogal, no sábado. A celebração na sinagoga consistia em orações e leituras da Lei e dos Profetas, com o respetivo comentário. Os leitores eram membros instruídos da comunidade ou, como no caso de Jesus, visitantes conhecidos pelo competente saber na explicação da Palavra.
O núcleo do relato em causa está na proclamação dum texto do Trito-Isaías (cf Is 61,1-2) que descreve como concretizará o Messias a sua missão. Neste texto, Lucas expõe o programa que Jesus Se propõe realizar no meio dos homens, como proposta de libertação dirigida a todos os oprimidos. O ponto de partida é a leitura do texto referenciado, que apresenta o profeta anónimo que, em Jerusalém, consola os exilados, como um “ungido de Deus”, possuído do Espírito do Senhor, com a missão de gritar a “boa notícia” de que a libertação chegou ao coração e à vida de todos os prisioneiros do medo, do desânimo, do sofrimento, da injustiça e da opressão. Por outro lado, Jesus faz a atualização da profecia, apresentando-Se como o “profeta” que Deus ungiu com o seu Espírito para realizar esta missão libertadora. “Cumpriu-se hoje esta profecia”!
O projeto de Deus em prol dos prisioneiros do egoísmo, da injustiça e do pecado começa, portanto, a cumprir-se na ação de Jesus. Na sequência, Lucas descreve a atividade de Jesus na Galileia como o anúncio (em palavras e em gestos) da “boa notícia” dirigida preferencialmente aos pobres e marginalizados (leprosos, doentes, publicanos, mulheres…), anunciando a chegada do fim de todas as escravidões e o tempo novo da vida e da liberdade para todos.
Lucas anuncia ainda, neste texto programático, o futuro caminho da Igreja e as condições da sua fidelidade a Cristo. A comunidade crente toma consciência, através deste texto, de que a sua missão é a mesma de Cristo e consiste em levar a “boa notícia” da libertação aos mais pobres, débeis e marginalizados do mundo. Ungida pelo Espírito e seguindo Jesus, a Igreja leva a cabo esta missão.
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São Jerónimo interpela-nos com o seguinte comentário:
Lemos as Sagradas Escrituras. Eu penso que o Evangelho é o Corpo de Cristo; penso que as santas Escrituras são o seu ensinamento. E quando Ele fala em ‘comer a minha carne e beber o meu sangue’, embora estas palavras se possam entender do Mistério [eucarístico], todavia também a palavra da Escritura, o ensinamento de Deus, é verdadeiramente o corpo de Cristo e o seu sangue. Quando vamos receber o Mistério [eucarístico], se cair uma migalha sentimo-nos perdidos. E, quando estamos a escutar a Palavra de Deus e nos é derramada nos ouvidos a Palavra de Deus que é carne de Cristo e seu sangue, se nos distrairmos com outra coisa, não incorremos em grande perigo?”.
Nestes termos, deveremos interrogar-nos:
Quantas vezes desperdiçamos, por negligência e distração, a Palavra que Deus dirige a cada um de nós na Liturgia da Palavra, esquecendo que, ‘quando na Igreja se lê a Sagrada Escritura é Ele [Cristo] quem fala (GS, 7)’?
Para nos orientarmos na proclamação e escuta da Palavra, a 1.ª leitura deste domingo, retirada do livro de Neemias, como já foi visto, indica-nos três verbos representativos de três momentos que marcam o itinerário correto da relação com a Palavra de Deus: ler, explicar e compreender
Antes de mais, é necessário ler. Mas esta leitura não é uma leitura qualquer. A leitura da Palavra de Deus não pode improvisar-se; tem, antes, de ser uma leitura cuidada, programada e didática. Esdras escolheu com cuidado o local da reunião e da proclamação da Palavra de Deus. O povo reuniu-se no lugar pré-determinado, longe do ruído da cidade e com uma boa acústica. Os que liam a Palavra de Deus não a liam de qualquer modo, mas de forma clara e distinta. Além disso, havia um estrado de madeira, feito de propósito para essa ocasião a fim de que o leitor pudesse ser visto e ouvido por todos.
A seguir, vem a explicação. Com efeito, como reza um provérbio antigo, “toda a palavra da Bíblia tem setenta rostos”. Por isso, requer-se um trabalho de exegese, que desenterre todos os tesouros que se encontram em cada página da Escritura. Assim, a homilia não é algo acessório, dispensável e quanto mais curta melhor. É, antes, um momento de extrema importância na liturgia da Palavra: “é parte da liturgia e muito recomendada: é um elemento necessário para alimentar a vida cristã” (IGMR, 65). É nela que se desenterram os tesouros escondidos nas leituras proclamadas. Por conseguinte, tem de haver grande cuidado quer do sacerdote na preparação e execução da homilia quer dos fiéis na sua escuta.
Por fim, vem a compreensão, não a compreensão meramente intelectual, mas a compreensão nutrida pela inteligência e pelo coração. A escuta da Palavra de Deus deve-nos conduzir, como conduziu o povo sob a direção de Neemias, ao exame de consciência, ao arrependimento e à conversão. As lágrimas que o povo derramou sinalizam a consciência do não seguimento da Palavra e exprimem sinceramente o arrependimento. Não é só às lágrimas de arrependimento que a leitura da Palavra de Deus nos conduz; a Palavra proclamada é geradora de festa, de alegria e de felicidade: “Hoje é um dia consagrado a nosso Senhor; portanto, não vos entristeçais, porque a alegria do Senhor é a vossa fortaleza”. E o facto de Deus hoje nos dirigir a sua palavra salvadora e Se interessar por nós é fonte de alegria e de festa. Além disso, a Palavra de Deus não é uma palavra de condenação, mas de salvação.
Com efeito, a Palavra de Deus encarnada e definitiva é Jesus de Nazaré que a segunda parte do evangelho, já comentada, nos apresenta ao iniciar do seu ministério público. Jesus inicia-se publicamente participando no culto da sinagoga. Aí proclama o texto de Isaías sobre o ungido do Senhor e onde se indica a missão do Messias: anunciar a boa-nova, proclamar a redenção, dar a vista, restituir a liberdade e proclamar o ano da graça. Faltou “o dia da vingança do nosso Deus”, o que irritou os ouvintes viam aqui a truncação do texto profético, que Jesus omitiu deliberadamente, pois não veio para condenar, mas para recuperar o que estava perdido.
Depois da leitura, Jesus, como verdadeiro mestre, senta-se e faz a sua homilia sobre a Palavra que acabara de proclamar. Porém, não comenta o texto do profeta; reinterpreta-o e proclama o seu cumprimento. Na verdade, em Jesus de Nazaré cumprem-se as promessas da salvação, com Ele começa o eterno ‘hoje’ da salvação, continuado pela oração e ação da Igreja.
Por isso, façamos festa e alegremo-nos, partilhando a alegria e os haveres! 
2019.01.27 – Louro de Carvalho

domingo, 4 de março de 2018

Da Aliança baseada na lei sinaítica para o íntimo do Santuário, Cristo


No 3.º domingo da Quaresma (Ano B), a Liturgia destaca a constante preocupação de Deus em levar os homens ao encontro da vida nova. Nesta ótica, da Palavra de Deus que nos é proposta surgem diversas sugestões de conversão e de renovação.
Na 1.ª leitura (Ex 20,1-17), Deus oferece-nos um quadro de 10 indicações (“decálogo”) para balizar a nossa caminhada. São indicações configuradoras do compromisso do povo para com Deus e que recebem como contrapartida a garantia de que Deus protege o povo eleito. É a aliança firmada no Sinai sobre o sangue do cordeiro ou do cabrito e cujos ditames dizem respeito às duas vertentes fundamentais da existência: a relação com Deus e a relação com os irmãos.
Na 2.ª leitura (1Cor 1,22-25), Paulo sugere-nos a adesão à lógica de Deus. Com efeito, a salvação, a vida plena, a felicidade sem fim não reside na lógica de espetáculo, poder, autoridade, riqueza, importância, prestígio, fama, mas na lógica da cruz, ou seja, no amor total, no dom da vida até às últimas consequências, no serviço simples e humilde aos irmãos.
No Evangelho (Jo 2,3-25), Jesus apresenta-Se como o Novo Templo, o santuário (em grego, naós) onde Deus Se revela aos homens e lhes oferece o seu amor e convida-nos a olhar para Si e a descobrir no seu “Evangelho” a proposta de vida nova que Deus nos quer apresentar.
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A Aliança Sinaítica: a Lei – compromisso do povo e proteção de Deus
O texto não dá suficientes dados para identificar o monte da Aliança. “Sinai” designa uma península triangulariforme, com cerca de 420 km de extensão na direção norte/sul, entre o Mediterrâneo e o Mar Vermelho. A norte, o Sinai tem uma faixa arenosa de 25 km de largura; mas à medida que se desce, o território fica mais acidentado, com montanhas que chegam a atingir 2400m de altura. A península é um deserto árido, com pequenos oásis. As comunicações são difíceis. Nesta enorme extensão, é difícil situar o “monte da Aliança”. Porém, uma tradição cristã tardia (séc. IV d. C.) identifica o “monte” com o Gebel Musah ou Horeb (o “Monte de Moisés”), com 2244m de altitude, situado a sul. Embora esta identificação do “monte da Aliança” levante problemas, o Gebel Musah é lugar de peregrinação para judeus e cristãos.
A Aliança é apresentada pelos catequistas de Israel numa estrutura literária muito semelhante aos formulários jurídicos conhecidos no mundo antigo para apresentar os acordos políticos entre partes, nomeadamente um “senhor” e o “vassalo”. Depois de recordar ao “vassalo” a sua ação, a sua generosidade, os seus benefícios, o senhor apresentava as cláusulas da aliança ou pacto, isto é, a lista das obrigações que o “vassalo” assumia para com o seu “senhor”.
Das “cláusulas da Aliança” do Sinai, sobressai um bloco especial com as dez obrigações fundamentais que Israel assume ante do seu Deus: os “dez mandamentos” ou as “dez palavras” (decálogo). Aí está, verdadeiramente, o “coração” da Aliança e se define o caminho que Israel deve percorrer para ser o Povo de Deus.
É uma lista irregular, com mandamentos enunciados com brevidade e secura, sem qualquer justificação (“não matarás”; não roubarás”) e outros mais desenvolvidos com uma explicação (cf Ex 20,4.17), uma motivação (cf Ex 20,7) ou uma promessa (cf Ex 20,12). Ora Deus fala em 1.ª pessoa (cf Ex 20,2.5-6), ora se fala de Deus em 3.ª pessoa (cf Ex 20,7.11.12). Dois preceitos são formulados positivamente (cf Ex 20,8: “lembra-te”; 20,12: “honra”); os outros são formulados negativamente (“não matarás”; “não roubarás”). Estas irregularidades mostram que o decálogo foi sofrendo, por motivos pastorais e catequéticos, retoques, acrescentos, comentários, modificações (Assim é que em Dt 5,1-33 a formulação é diferente). É provável que Moisés tenha certa relação com estas leis que estão no centro da Aliança, mas o texto, na forma atual, não vem de Moisés. E, embora esta lista lembre listas de proibições encontradas na Babilónia e no Egito, ocupa um lugar à parte no conjunto dos formulários legais dos povos do Crescente Fértil pela sobriedade e equilíbrio.
Os primeiros preceitos têm a ver com a relação que Israel estabelece com Deus (vv. 3-11). Dois são de inquestionável originalidade – o que obriga Israel a não ter outro Deus, outro Senhor, outra referência; e o que proíbe construir imagens de Deus –, pois não têm paralelo nas religiões antigas conhecidas. A questão essencial é: Jahwéh é a referência fundamental da vida do Povo, o centro em torno do qual se constrói e mantém a existência de Israel. Nada nem ninguém deve ocupar, no coração do Povo, o lugar que pertence só a Deus. É preciso reconhecer que só Nele está a vida e a salvação; é preciso reconhecer a absoluta transcendência de Jahwéh – que não pode ser reproduzida em qualquer criatura feita pelo homem – e não se prostrar ante obras criadas pela mão do homem; é preciso reconhecer que não se deve manipular Deus e usá-lo em apoio de projetos e interesses meramente humanos; é preciso reconhecer que só o Senhor é o dono do tempo e é preciso reservar tempo e espaço para o encontro e o louvor do Senhor.
Os outros preceitos, dizendo respeito às relações comunitárias, procuram incutir o respeito absoluto pelo próximo – a sua vida, os seus direitos na comunidade, os seus bens. São “a magna carta da liberdade, da justiça, do respeito pela pessoa e pela sua dignidade”. Cada membro da comunidade deve reconhecer a sua dependência dos outros e aceitar a sua pertença a uma família e a uma cultura; deve ser defendida a família e respeitadas as relações familiares; deve-se respeito absoluto quer aos bens, quer à própria liberdade dos outros membros da comunidade; deve-se respeitar o bom nome e a fama do irmão; exige-se o respeito pelos “bens básicos” que asseguram ao irmão a subsistência; e exige-se evitar que o coração dos membros da comunidade do Povo de Deus seja dominado pela cobiça e pelos instintos egoístas.
A razão por que Deus apresentou estas propostas a Israel e lhe recomendou esta via encontra-se na primeira afirmação do Decálogo: “Eu sou o Senhor, teu Deus, que te fiz sair da terra do Egito, da casa da servidão” (v. 2). De facto, o Deus libertador está interessado em que Israel se liberte definitivamente da escravidão e se torne um Povo livre e feliz. E os preceitos são um contributo de Deus para isso. Os mandamentos, que nascem do amor de Jahwéh a Israel, pretendem ajudar Israel a deixar a escravidão do egoísmo, da autossuficiência, da injustiça, do comodismo, das paixões, da cobiça, de exploração. Procuram indicar ao Povo o caminho para ser feliz, que desembocará no encontro final dirigido pelo Messias.
Por tudo isto, o salmista canta:
A lei do SENHOR é perfeita, reconforta a alma; as ordens do SENHOR são firmes, dão sabedoria aos simples. Os preceitos do SENHOR são retos, alegram o coração; os seus preceitos são claros, iluminam os olhos.” (Sl 19,8-9).
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A lógica de Deus versus lógica humana
Na sua segunda viagem missionária, Paulo chegou a Corinto, depois de atravessar boa parte da Grécia, e ficou por lá cerca 18 meses (anos 50-52). Em resultado da pregação apostólica, nasceu aquela comunidade cristã, que, de forma geral, era viva e fervorosa, mas que estava exposta aos perigos dum ambiente corrupto. Era uma comunidade forte e vigorosa, mas mergulhava as suas raízes em terreno adverso. Em Corinto, veem-se as dificuldades da fé cristã em inserir-se num ambiente hostil, marcado por uma cultura pagã, dita esclarecida, e por um conjunto de valores que estão em contradição com a mensagem evangélica. Um dos problemas da comunidade de Corinto era a identificação da experiência cristã com uma escola de sabedoria: os cristãos de Corinto – na linha do que sucedia nas várias escolas de filosofia que infestavam a cidade – viam várias figuras proeminentes do cristianismo como mestres duma doutrina e aderiam a essas figuras, esperando achar uma proposta filosófica credível, que os levasse ao pleno da sabedoria e da realização humana. Ao saber disto, Paulo ficou preocupado: esta linha de ação punha em causa o essencial da fé. Por isso, o Apóstolo esforça-se por demonstrar aos coríntios que entre os cristãos não há senão um mestre, Jesus Cristo e que a experiência cristã não é a busca de uma filosofia coerente, brilhante, elegante, que conduza à sabedoria, entendida à maneira grega. Quem procura na mensagem cristã um sistema lógico, coerente, imbatível à luz da lógica humana, não percebeu o essencial da mensagem cristã, da “loucura da cruz”.
Judeus e gregos buscam seguranças. Os judeus querem milagres que garantam a veracidade da mensagem; os gregos procuram as palavras certas, a coerência do discurso, a lógica dos argumentos. Porém, Jesus não Se apresentou como um Deus espetacular, a exibir o poder e as qualidades divinas através de gestos pomposos, estrondosos e milagrosos, nem Se apresentou como o “mestre” iluminado de uma filosofia capaz de se impor pelo brilho das suas premissas e pela sua lógica inatacável. A essência da mensagem cristã está na “loucura da cruz”, na lógica ilógica de Deus que veio ao encontro da humanidade, que fez da sua vida um dom de amor e que aceitou uma morte maldita para ensinar aos homens que a verdadeira vida é a que se coloca integralmente ao serviço dos irmãos, até à morte. Assim, a via cristã não é a busca de sabedoria humana, mas a adesão a Cristo crucificado – o do amor e do dom da vida. Nele manifesta-se de forma humanamente desconcertante, mas plena e definitiva, a força salvadora de Deus.
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Cristo, o Novo Templo
O episódio evangélico desta dominga aparece na “secção introdutória” do Evangelho de João (cf Jo 1,19-3,36), onde se mostra quem é Jesus e as grandes linhas programáticas do seu ministério.
A cena ocorre no majestoso Templo de Jerusalém, edificado por Herodes para mostrar a sua boa disposição para com o culto a Jahwéh e obter a benevolência dos judeus. A sua construção iniciou-se em 19 a.C. e ficou praticamente pronta no ano 9 d.C. (embora os trabalhos só tivessem sido dados por concluídos em 63 d.C.). Na verdade, em 27 d.C., o Templo estava a ser construído há 46 anos e ainda não estava terminado, como o observaram os dirigentes judeus a Jesus (cf Jo 2,20).
João situa a cena nos dias que antecedem a Páscoa, época em que as multidões se concentravam em Jerusalém para a celebração da festa principal. Jerusalém, que normalmente teria à volta de 55.000 habitantes, chegava a albergar cerca de 150.000 peregrinos nesta altura. Chegava gente de toda a região da Palestina, mas também de todos os pontos do Império Romano, alguns deles provavelmente para fazerem a sua única peregrinação à Cidade Santa. Todos precisavam de adquirir um cordeiro para a ceia pascal, todos compravam ovelhas, bois ou pombas para oferecerem em holocausto no altar do Senhor.
No Templo sacrificavam-se cerca de 18.000 cordeiros, destinados à celebração pascal. Por isso, o comércio conexo com o Templo ganhava enorme incremento. Três semanas antes da Páscoa, começava a emissão de licenças para a instalação dos postos comerciais à volta do Templo. O dinheiro assim arrecadado revertia para o sumo-sacerdote (naquele tempo Anás e depois Caifás). E havia tendas de venda que eram pertença direta da família do sumo-sacerdote. Vendiam-se os animais para os sacrifícios e vários outros produtos destinados à liturgia do Templo. Havia também as tendas dos cambistas que trocavam as moedas romanas correntes por moedas judaicas (os tributos dos fiéis para o Templo eram pagos em moeda judaica, por não ser permitido que moedas com a efígie de imperadores pagãos conspurcassem o tesouro do Templo). Este comércio constituía uma mais-valia para a cidade e sustentava a nobreza sacerdotal, o clero e os empregados do Templo.
Não se trata, como se poderia pensar, de uma feira como as que se encontram ainda hoje nas imediações das igrejas e santuários, mas do comércio que garantia as vítimas para o sacrifício: bois, para ricos; ovelhas, para remediados; e pombas ou rolas, para pobres. E é óbvio que os animais não eram vendidos no coração do Templo. Mesmo assim, com aquela bagunça toda, muitas pessoas não conseguiam entrar no Templo para orar.
Os profetas criticaram, por diversas vezes, o culto sacrificial que Israel oferecia a Deus, considerando-o um conjunto de ritos estéreis, vazios e sem significado, porque não eram expressão verdadeira de amor a Jahwéh; denunciaram mesmo a relação do culto com a injustiça e a exploração dos pobres. As reflexões proféticas tinham consolidado a ideia de que a chegada dos tempos messiânicos implicava a purificação e a moralização do culto. Zacarias liga o “dia do Senhor” (o dia em que Deus intervirá na história e construirá um mundo novo, através do Messias) com a purificação do culto e a eliminação dos comerciantes que estão “no Templo do Senhor do universo” (Zc 14,21).
O gesto relatado pelo Evangelho deve entender-se neste enquadramento. Quando Jesus pega no chicote de cordas, expulsa do Templo os vendedores de ovelhas e de bois, manda retirar dali as pombas (não as destruiu por serem o símbolo dos pobres), deita por terra os trocos dos banqueiros e derruba as mesas dos cambistas (vv. 14-16), revela-Se como “o messias” e anuncia que chegaram os novos tempos, os tempos messiânicos. Todavia, Jesus vai bem mais longe que os profetas veterotestamentários. Ao expulsar do Templo também as ovelhas e os bois que serviam para os ritos sacrificiais que Israel oferecia a Jahwéh (João é o único dos evangelistas a referir este pormenor), Jesus não propõe apenas uma reforma, mas a abolição do próprio culto. O culto prestado a Deus no Templo de Jerusalém era algo sem sentido: ao transformar a casa de Deus num mercado, os líderes tinham suprimido a presença de Deus. E, além disso, o culto celebrado no Templo era nefasto: em nome de Deus, o culto criava exploração, miséria, injustiça e, por isso, em vez de potenciar a relação do homem com Deus, afastava o homem de Deus. Jesus, com a autoridade que Lhe vem do Pai, diz “basta” à mentira com a qual Deus pactua: “não façais da casa de meu Pai casa de comércio” (v. 16).
Os líderes perguntaram indignados pelas credenciais de Jesus e pela sua legitimidade de querer abolir o culto oficial prestado a Jahwéh. A resposta de Jesus é, à primeira vista, estranha “destruí este Templo e Eu o reconstruirei em três dias” (v. 19). E, considerada absurda, será usada mais tarde no Sinédrio como acusação contra ele. Ora, servindo-se da figura literária do “mal-entendido” (faz-se uma afirmação; os interlocutores entendem-na de forma errada; e aparece a explicação final, que dá o significado exato da afirmação), João, atento ao gesto de Jesus, esclarece que Jesus não Se referia ao Templo de pedra em que Israel celebrava os ritos litúrgicos (v. 20), mas a um outro “Templo” que é o próprio Jesus (“Jesus, porém, falava do Templo do seu corpo” – v. 21). Este desafio lançado por Jesus como sinal da sua ação constitui uma ofensa para os defensores da continuidade. Porém, os discípulos compreenderam este sinal, que não é um sinal de poder, mas um sinal profético. O evangelista joga com a ambiguidade do verbo grego eghéiro, que significa tanto “levantar”, “erguer”, como “ressuscitar”. Ao indicar a sua ressurreição, Jesus afirma que iria transformar o velho templo de pedras num novo que revelaria a sua divindade. O templo identifica-se com o seu corpo; é o sinal de Jonas de que Jesus fala, segundo os evangelistas.
São de registar palavras diferentes para Jesus, que entra no Templo de pedras (em grego, “hierós”), espaço sagrado (Foi este que demorou 46 anos a construir); para Casa do Pai (em grego, “oíkos toû patrós mou”), o espaço onde estão os filhos, as pessoas livres em diálogo, sintonia, em família (Deveria ser para levar as pessoas a entrar nesta), estando eles a fazer desta casa lugar de comércio e exploração; e para o Templo que desafiou a destruir e que iria reconstruir em três dias: o “Naós” (em grego), o santuário, o lugar mais íntimo do templo onde se colocava o deus (pagão) ou a Arca da Aliança, entre os israelitas. Assim se percebe como Jesus desafia os líderes que O questionaram a suprimir o Templo que é Ele próprio, mas deixa claro que, três dias depois, o Templo estará outra vez erigido no meio dos homens. Jesus alude à sua ressurreição. A prova de que Jesus tem autoridade para “proceder deste modo” é que os líderes não hão de conseguir suprimi-lo. A ressurreição garante que Jesus vem de Deus e que a sua atuação tem o selo de garantia de Deus. No entanto, o mais importante é que Jesus Se apresenta como o “novo Templo”, no qual, pelo qual e com o qual se adorará o Pai em espírito e verdade (Jo 23.24). O Templo representava, no universo religioso judaico, a morada de Deus, o lugar onde Deus Se revelava e onde Se tornava presente no meio do seu Povo. Jesus é, agora, o lugar onde Deus habita, onde Se encontra com os homens e onde Se manifesta ao mundo. É através de Jesus que o Pai oferece aos homens o seu amor e a sua vida. O que a Lei não lograva fazer – estabelecer relação entre Deus e os homens – é Jesus que, a partir de agora, o faz. A Lei serviu de pedagogo para Jesus. Por isso, cessa ante Ele nos aspetos em que lhe seja contrária (Gl 3,19-29), mas mantém-se e reforça-se em todos os aspetos em que propõe o amor a Deus com toda a alma e forças, acima de tudo, e ao próximo como a nós mesmos (Mc 12,28-34).
Todo o verdadeiro culto deixará, assim, de estar ligado ao templo de Jerusalém para se deslocar para a pessoa de Jesus, verdadeiro Templo em que se realiza realmente o encontro de Deus e o homem. Por outro lado, ficamos a saber que Deus prefere mil vezes habitar no coração humano, templo do Espírito Santo por direito, a ficar enclausurado num templo de pedra,
A parte final da perícopa – que serve de introdução ao diálogo com Nicodemos (cf Jo 3,1-36) – manifesta a liberdade de Jesus e o seu conhecimento profundo do coração humano. Não O prendem entusiasmos momentâneos de quem, movido pelas suas ações grandiosas, adere a Ele, mas está longe de captar a sua mensagem.
Para crer em Jesus, não basta aceitá-lo como se fosse um Messias nos moldes tradicionais, isto é, um chefe que exerce função nacionalista através do poder e domínio. Crer em Jesus é, antes, aceitá-Lo como o Messias que realiza o projeto de Deus e que dá a própria vida, rompendo as muralhas de separação entre os homens e rejeitando qualquer adesão que instrumentalize a sua ação em favor de interesses de grupo.
2018.03.04 – Louro de Carvalho

sábado, 3 de março de 2018

Instituição da memória litúrgica de Maria “Mãe da Igreja”


Pelo Decreto “Ecclesia Mater”, publicado hoje, 3 de março, pela Congregação do Culto Divino e da Disciplina dos Sacramentos, e datado de 11 de fevereiro de 2018, memória da bem-aventurada Virgem Maria de Lurdes, o Papa Francisco determinou a inscrição da Memória da “Bem-aventurada Virgem, Mãe da Igreja” no Calendário Romano Geral e escolheu para a sua celebração anual a segunda-feira depois do Pentecostes.
O motivo da celebração vem descrito de forma sucinta no Decreto: favorecer o crescimento do sentido materno da Igreja nos Pastores, nos religiosos e nos fiéis, como, também, da genuína piedade mariana. No texto assinado pelo Prefeito do Dicastério, o Cardeal Robert Sarah, e subscrito pelo secretário, o Arcebispo Artur Roche, pode ler-se:
Esta celebração ajudará a lembrar que a vida cristã, para crescer, deve ser ancorada no mistério da Cruz, na oblação de Cristo no convite eucarístico e na Virgem oferente, Mãe do Redentor e dos redimidos”.
Anexos ao decreto, vêm os respetivos textos litúrgicos em latim, para a Missa, para o Ofício Divino e para o Martirológio Romano. As Conferências Episcopais providenciarão a tradução e aprovação dos textos, que, depois de confirmados, serão publicados nos livros litúrgicos da sua jurisdição.
Também, de acordo com o Decreto, fica autorizada a celebração da bem-aventurada Virgem Maria onde, por norma do direito particular aprovado, já se celebra num dia diferente com grau litúrgico mais elevado.
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A propósito da importância do mistério a que se reporta o Decreto, o Prefeito da Congregação fez publicar um comentário seu em que tece relevantes considerações sobre esta decisão pontifícia, de que destacam alguns aspetos.
Diz o Cardeal que a maturação da veneração litúrgica de Maria vem na sequência da melhor compreensão da sua inserção “no mistério de Cristo e da Igreja”, como se lê no capítulo VIII da Lumen gentium (Constituição Dogmática sobre a Igreja) do Vaticano II e como ficou reforçado com o reconhecimento que Paulo VI fez do facto ao proclamar Maria como “Mãe da Igreja”, aquando da promulgação daquela Constituição conciliar, a 21 de novembro de 1964, no encerramento da 3.ª Sessão do Concílio.
Por outro lado, o sentir do povo cristão, ao longo de dois mil anos, acolheu o elo filial que une os discípulos de Cristo à sua Mãe, entendendo cabalmente o testemunho explícito o Evangelista ao mencionar o testamento de Jesus prestes a morrer na cruz (cf Jo 19,26-27). Após entregar a Mãe aos discípulos e estes à Mãe, Jesus “entregou o espírito” tendo como fim a vida da Igreja, seu corpo místico: assim, “do lado de Cristo adormecido na cruz nasceu o sacramento admirável de toda a Igreja”. E continuam a vivificar a Igreja, pelo Batismo e pela Eucaristia, a água e o sangue que jorraram do coração de Jesus na cruz, sinal da totalidade da oferta redentora. Nesta comunhão alimentícia entre o Redentor e os redimidos, Maria realiza a sua missão materna.
E o Decreto salienta – coisa que o Cardeal Prefeito não fez expressamente no seu comentário – a posição dos Padres da Igreja, relevando a afirmações premonitórias de Santo Agostinho e de São Leão Magno. O primeiro de Maria que “é a mãe dos membros de Cristo” por haver cooperado, pela sua caridade, para “o renascimento dos fiéis na Igreja”, ao passo que o segundo, aduzindo que “o nascimento da Cabeça é também o nascimento do Corpo”, diz que Maria “é, ao mesmo tempo, mãe de Cristo, Filho de Deus, e mãe dos membros do seu corpo místico, isto é, da Igreja”. São considerações que “derivam da maternidade divina de Maria e da sua íntima união com a obra do Redentor, que culminou na hora da cruz”.
Assim o lembra a passagem do Evangelho de João (vd Jo 19,25-34), tomada para a missa da nova Memória em conjunto com a leitura do livro do Génesis, capítulo terceiro (vd Gn 3,9-15.20) e dos Atos dos Apóstolos capítulo primeiro (vd At 1,12-14) – como para a missa votiva de “Santa Maria, Mãe da Igreja” aprovada pela Congregação do Culto Divino, em 1973, com vista ao Ano Santo da Reconciliação de 1975.
Depois, o Cardeal Prefeito enquadra esta decisão pontifícia no historial subsequente à reforma litúrgica decretada pelo Concílio, evidenciando a via evolutiva do culto mariano nesta ótica.  Com efeito, a comemoração litúrgica da maternidade eclesial de Maria obteve lugar entre as missas votivas, na editio altera do Missale Romanum (1975). No pontificado de João Paulo II, deu-se a possibilidade às Conferências Episcopais de acrescentar o título de “Mãe da Igreja” na Litania Lauretana; e, aquando do ano mariano, a Congregação do Culto Divino publicou outros formulários de missas votivas sob o título de Maria Mãe e imagem da Igreja na Coletânea de Missas da Virgem Santa Maria, com relevo para um Prefácio específico. Foi também aprovada, ao longo dos anos, a inserção da celebração da “Mãe da Igreja” no Calendário de alguns países, na segunda-feira depois do Pentecostes, como noutras datas, foi inscrita em lugares peculiares como na Basílica de São Pedro, que vêm da proclamação do título por Paulo VI, como, ainda, no “Próprio” de Ordens e Congregações religiosas.
Atenta a importância do mistério da maternidade espiritual de Maria, que na espera do Espírito no Pentecostes (cf At 1,14), não parou de ocupar-se e de curar maternalmente da Igreja peregrina no tempo, Francisco estabeleceu que, na segunda-feira depois do Pentecostes, a Memória de Maria Mãe da Igreja seja obrigatória para toda a Igreja de Rito Romano, tornando-se evidente a conexão entre a vitalidade da Igreja do Pentecostes e a solicitude materna de Maria com a mesma. Nos textos da Missa e do Ofício, o texto dos Atos dos Apóstolos 1,12-24 ilumina a celebração litúrgica, como, também, o do Génesis 3, 9-15.20, lido à luz da tipologia da nova Eva, constituída “Mater omnium viventium” sob a cruz do Filho Redentor do mundo.
Deseja-se esta celebração recorde a todos os discípulos de Cristo que, se queremos crescer e enchermo-nos do amor de Deus, precisamos de enraizar a nossa vida sobre três realidades: a Cruz, a Hóstia e a Virgem (Crux, Hostia et Virgo) – realidades misteriosas que Deus deu ao mundo para estruturar, fecundar, santificar a nossa vida interior e nos conduzir a Jesus Cristo.
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Decreto sobre a celebração da bem-aventurada
Virgem Maria, Mãe da Igreja no Calendário Romano Geral
A feliz veneração em honra à Mãe de Deus da Igreja contemporânea, à luz das reflexões sobre o mistério de Cristo e sobre a sua própria natureza, não poderia esquecer aquela figura de Mulher (cf Gl. 4,4), a Virgem Maria, que é Mãe de Cristo e com Ele Mãe da Igreja.
De certa forma, este facto, já estava presente no modo próprio do sentir eclesial a partir das palavras premonitórias de Santo Agostinho e de São Leão Magno. De facto, o primeiro diz que Maria é a mãe dos membros de Cristo porque cooperou, com a sua caridade, ao renascimento dos fiéis na Igreja. O segundo diz que o nascimento da Cabeça é, também, o nascimento do Corpo, o que indica que Maria é, ao mesmo tempo, mãe de Cristo, Filho de Deus, e mãe dos membros do seu corpo místico, isto é, da Igreja. Estas considerações derivam da maternidade divina de Maria e da sua íntima união à obra do Redentor, que culminou na hora da cruz.
A Mãe, que estava junto à cruz (cf Jo 19,25), aceitou o testamento do amor do seu Filho e acolheu todos os homens, personificado no discípulo amado, como filhos a regenerar à vida divina, tornando-se a amorosa Mãe da Igreja, que Cristo gerou na cruz, dando o Espírito. Por sua vez, no discípulo amado, Cristo elegeu todos os discípulos como herdeiros do seu amor para com a Mãe, confiando-a a eles para que estes a acolhessem com amor filial.
Dedicada guia da Igreja nascente, Maria iniciou, portanto, a própria missão materna já no cenáculo, rezando com os Apóstolos na expectativa da vinda do Espírito Santo (cf At 1,14). Ao longo dos séculos, por este modo de sentir, a piedade cristã honrou Maria com os títulos, de certo modo equivalentes, de Mãe dos discípulos, dos fiéis, dos crentes, de todos aqueles que renascem em Cristo e, também, “Mãe da Igreja”, como aparece nos textos dos autores espirituais assim como nos do magistério de Bento XIV e Leão XIII.
Assim, resulta claramente, sobre qual fundamento o beato papa Paulo VI, a 21 de novembro de 1964, por ocasião do encerramento da terceira sessão do Concílio Vaticano II, declarou a bem-aventurada Virgem Maria “Mãe da Igreja, isto é, de todo o Povo de Deus, tanto dos fiéis como dos pastores, que lhe chamam Mãe amorosíssima” e estabeleceu que “com este título suavíssimo seja a Mãe de Deus doravante honrada e invocada por todo o povo cristão”.
A Sé Apostólica, por ocasião do Ano Santo da Reconciliação (1975), propôs uma missa votiva em honra de Santa Maria, Mãe da Igreja, que foi inserida no Missal Romano. A mesma deu a possibilidade de acrescentar a invocação deste título na Ladainha Lauretana (1980), e publicou outros formulários na Coletânea de Missas da Virgem Santa Maria (1986). Para algumas nações e famílias religiosas que pediram, concedeu a possibilidade de acrescentar esta celebração no seu Calendário particular.
O Sumo Pontífice Francisco, considerando atentamente quanto a promoção desta devoção possa favorecer o crescimento do sentido materno da Igreja nos Pastores, nos religiosos e nos fiéis, como, também, da genuína piedade mariana, estabeleceu que esta memória da bem-aventurada Virgem Maria, Mãe da Igreja, seja inscrita no Calendário Romano na segunda-feira depois do Pentecostes, e que seja celebrada todos os anos.
Esta celebração ajudará a lembrar que a vida cristã, para crescer, deve ser ancorada no mistério da Cruz, na oblação de Cristo no convite eucarístico e na Virgem oferente, Mãe do Redentor e dos redimidos.
Esta memória deverá, pois aparecer, em todos os Calendário e Livros Litúrgicos para a celebração da Missa e da Liturgia das Horas. Os respetivos textos litúrgicos são apresentados em anexo a este decreto, e a sua tradução, aprovada pelas Conferências Episcopais, serão publicados depois da confirmação por parte deste Dicastério.
Onde a celebração da bem-aventurada Virgem Maria, Mãe da Igreja, por norma do direito particular aprovado, já se celebra num dia diferente com grau litúrgico mais elevado, pode continuar a ser celebrada desse modo.
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O vínculo de Maria com a liturgia, evidente desde a antiguidade, encontrou, há uns tempos e, em especial, hoje, no Rito Romano mais explícita manifestação ampliando a luz mariana” do Missal e do Ofício para tornar visível a maturação da piedade litúrgica para com a Mãe do Senhor e da Igreja, na continuação do Vaticano II. O n.º 103 da Sacrosanctum Concilium (SC – Constituição sobre a Sagrada Liturgia) responde ao porquê e ao como da inserção do culto mariano na celebração dos mistérios de Cristo:
No ciclo anual da celebração dos mistérios de Cristo, a Santa Igreja venera com amor especial a Bem-aventurada Virgem Maria, Mãe de Deus, indissoluvelmente unida à obra de salvação do seu Filho; em Maria admira e exalta o fruto mais excelso da Redenção e contempla com alegria, como numa imagem puríssima, o que ela mesma, toda ela, deseja e espera ser”.
Segundo os Padres Conciliares, “o indissolúvel vínculo de Maria com a obra salvífica de Cristo, perenemente atualizada na ação litúrgica” (cf SC 5-7; 103) é o critério fundamental para a Igreja exprimir a sua veneração litúrgico-mariana. Nas orações litúrgicas: a Igreja dirige-se sempre e só a Deus “recordando” o que Ele fez em Maria por nós, na linha do Magnificat (Lc 1,46,55), por a ter escolhido desde toda a eternidade em razão de Cristo, por no-la ter dado como Mãe. Já nos hinos, antífonas, responsórios, a Igreja dirige-se também diretamente a Maria louvando-a e suplicando-lhe.
Mas um outro critério a liturgia mariana: o horizonte eclesiológico. Na verdade, sendo Mãe e membro da Igreja, sua figura e modelo, Maria é a primícia e a imagem perfeita da comunidade dos redimidos. Por isso, Santo Ambrósio exortava: “Esteja em cada um a alma de Maria para glorificar o Senhor; esteja em cada um o espírito de Maria para exultar em Deus”.
E a Igreja, reconhecendo-se em Maria como num espelho, aprende a viver o mistério de Cristo, a caminho da plena participação na Jerusalém do céu.
Celebrar Maria corresponde a celebrar os mistérios do Senhor. Não se trata de duas orientações cultuais, uma para Deus e outra para Maria, mas da mesma e única: “A Igreja celebra em primeiro lugar a obra de Deus no mistério pascal de Cristo, e nele encontra a Mãe intimamente ligada ao Filho”.
A presença de Maria na celebração move-se entre memória, mediação materna, exemplaridade, comunhão. Distingue-se da presença de Cristo pelo facto de não ser autónoma, mas relativa e dependente da real presença do mistério pascal de Cristo operante no memorial. E, em relação aos Santos, distingue-se pelo lugar verdadeiramente “único” de Maria na história da salvação.
Que o Decreto “Ecclesia Mater”, através da Liturgia, produza frutos na Igreja e em cada um dos sues membros, para que Jesus Cristo nos conduza a todos ao Pai.
2018.03.03 – Louro de Carvalho  

sábado, 9 de dezembro de 2017

Instituto da Padroeira de Portugal para os Estudos da Mariologia – IPPEM

Segundo a agência Ecclesia, um conjunto de investigadores decidiu criar o Instituto da Padroeira de Portugal para o Estudo da Mariologia (IPPEM), a fim de aprofundar os estudos sistemáticos sobre a Imaculada Conceição e a “cultura religiosa mariana”.
Tal associação sem fins lucrativos – é esta a figura jurídica assumida pelo IPPEM – foi criada por escritura no passado dia 1 de dezembro, subscrita por 19 membros fundadores, estando previsto o ato solene de fundação para o início de 2018.
Entre os subscritores do protocolo da fundação estão os reitores dos Santuários de Fátima e de Vila Viçosa, respetivamente os padres Carlos Cabecinhas e Francisco Couto, o historiador José Eduardo Franco, sacerdotes da arquidiocese de Évora, membros da Régia Confraria e investigadores de universidades portuguesas, entre outros.
Segundo uma nota de imprensa enviada ao Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura (SNPC), o organismo terá sede em Vila Viçosa e visa aprofundar os estudos sistemáticos sobre a Padroeira e a “cultura religiosa mariana” em Portugal.
José Eduardo Franco, um dos 19 membros fundadores, em texto publicado no dia 8 de dezembro, no Semanário Ecclesia, assinala:
Não é excessivo considerar que aspetos importantes da herança cultural estão eivados de marianismo entendido como o influxo de elementos típicos da devoção àquela que é considerada a Mãe de Deus no quadro da tradição cristã de confissão católica”.
No dia em que a Igreja Católica celebrava a solenidade da Imaculada Conceição, o investigador frisava que a cultura e a identidade portuguesas têm sido, “desde a sua génese, modeladas pela espiritualidade e pelas marcas pluriformes da devoção a Nossa Senhora”. E sublinhava:
A assunção plena desta espiritualidade mariana na relação com derivas decisivas da história de Portugal observa-se no período da Restauração Portuguesa em que o então Rei de Portugal, Dom João IV, o primeiro da nova dinastia de Bragança, coroa Nossa Senhora da Conceição como Rainha de Portugal, contribuindo para posicionar o nosso país entre as monarquias europeias que mais valorizaram o papel teológico e histórico da Mãe de Jesus”.
Assim, o IPPEM assume, entre os seus objetivos, “promover, fomentar e organizar iniciativas científicas e culturais para o aprofundamento dos estudos sistemáticos” sobre a Padroeira de Portugal e promover a investigação científica, tanto na Teologia como numa vertente interdisciplinar, particularmente na área das Ciências Sociais e Humanas – com vista à perceção científica e crítica do fenómeno que perpassa a História de um povo.
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Na verdade, a cultura e a identidade portuguesas têm sido, desde a sua génese, modeladas pela espiritualidade e pelas marcas pluriformes da devoção a “Nossa Senhora”, o cognome mais referenciado para designar com veneração a Mãe de Jesus de Nazaré. Podemos observar o influxo dos elementos típicos da devoção a Maria não apenas na vivência religiosa do cristianismo, mas também nas tradições populares mais diversas, até ao seu reflexo na cultura erudita, na literatura, na música, na arquitetura, na iconografia e nas mais diversas expressões da Arte.  O facto de Portugal ter como um dos seus mais antigos cognomes o de “Terra de Santa Maria” é, segundo Franco, “uma das expressões mais eloquentes da influência da espiritualidade mariana que tem embebido transversalmente todas os setores sociais ao longo dos tempos”, tanto no campo das elites como no do povo simples que “aclama e venera a Mãe de Cristo como sua mãe também e universal Protetora e cujo culto remonta aos inícios da nacionalidade”, mas atravessando e modelando toda a História.
A assunção desta espiritualidade mariana, além dos factos históricos, que a relevam expressa e reiteradamente, espelha-se no calendário litúrgico de Portugal em que a Imaculada Conceição é tomada como a padroeira principal. Trata-se duma valorização que acaba por realçar e fazer vingar uma das correntes teológicas em polémica desde a Idade Média, a corrente imaculista, “que defendia o reconhecimento pela Igreja de um estatuto antropoteológico especial para a Mãe de Cristo”, que será consagrado no século XIX pela proclamação do dogma da Imaculada Conceição pelo Papa Pio IX, defendido sustentavelmente pela universidade de Coimbra desde as suas origens, e, no século XX, pela proclamação do dogma da Assunção de Nossa Senhora pelo Papa Pio XII.
E não é irrelevante o papel desta cultura mariana em Portugal para se entender a centralidade da afirmação internacional no século XX da espiritualidade mariana decorrente da experiência das Aparições da Cova da Iria em 1917. A edificação do Santuário de Fátima que, cem anos depois, ganhou uma projeção global como um dos santuários marianos mais importantes do mundo não se pode desligar da cultura e da mentalidade e mesmo da espiritualidade coletiva tonificada pelo culto a Nossa Senhora.
Por isso, “não deixa de constituir uma lacuna significativa que um país como Portugal”, com “uma tão interessante e estruturadora cultura mariana”, não esteja dotado dum “centro de estudos especializado no conhecimento científico desta herança espiritual e cultural, tendo por referência a sua padroeira e as tradições, devoções e criações artísticas e patrimoniais geradas em torno desta relação estreita entre Nossa Senhora e a modelação da identidade portuguesa”.
É para colmatar esta lacuna que se cria o IPPEM “para promover, fomentar e organizar iniciativas científicas e culturais para o aprofundamento dos estudos sistemáticos sobre a Padroeira de Portugal e a cultura religiosa mariana no nosso país, na sua relação com a suas expressões e correntes internacionais”.
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Nos termos da comunicação de José Eduardo Franco no predito semanário, os seus fins são:
- Prosseguir ações de caráter científico, cultural, social, valorização patrimonial e de intervenção cívica em torno da Padroeira de Portugal e da espiritualidade religiosa, cultura e património ligado à devoção a Nossa Senhora.
- Promover a investigação científica, de teologia, a temas ligados à Padroeira e à mariologia no seu conjunto.
- Apoiar e desenvolver a investigação de vertente interdisciplinar, particularmente na área das Ciências Sociais e Humanas e cooperação com outras áreas do saber.
- Refletir criticamente sobre a identidade cultural de Portugal na relação com a cultura mariana e com o processo devocional específico à Padroeira de Portugal.
- Valorizar o património material e imaterial mariano e promovê-lo nas redes globais.
- Fomentar a pedagogia do espírito intercultural democrático através da cultura do diálogo, da tolerância e do respeito entre indivíduos e entre povos tendo por referência Maria como Mãe Universal, estimulando a cultura de cidadania e de participação.
E o IPPEM prossegue os seguintes fins específicos:
- Cooperar com instituições do Ensino Superior para criar programas de graduação, no âmbito da formação superior, nomeadamente nos ciclos de estudos de mestrado e doutoramento, que promovam o aprofundamento dos estudos da Padroeira e da Mariologia e a sua relação com a história global.
- Fomentar a divulgação de obras e autores marianos através de edições, reedições e traduções.
- Preparar projetos de investigação para estudar as várias vertentes da cultura mariana da Padroeira de Portugal, em articulação, com as disciplinas da Arte, a Literatura, o Património e a Espiritualidade.
- Conceder bolsas de estudo em todas as áreas científicas, em parceria com outras instituições universitárias, nos termos da legislação aplicável.
- Desenvolver ações culturais, tais como conferências, colóquios, congressos, encontros, exposições, roteiros turísticos em estreita ligação com outras entidades públicas e privadas.
Enfim, o IPPEM propõe-se “desenvolver ações culturais, tais como conferências, colóquios, congressos, encontros, exposições, roteiros turísticos em estreita ligação com outras entidades públicas e privadas”; e, por ouro lado, “fomentar a divulgação de obras e autores marianos”, “conceder bolsas de estudo em todas as áreas científicas, em parceria com outras instituições universitárias” e “criar programas de graduação” que “promovam o aprofundamento dos estudos da Padroeira e da Mariologia” estão entre os objetivos da instituição.
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A Igreja católica considera que a solenidade da Imaculada Conceição, “festa do começo absoluto”, decorre da iniciativa de Deus, que, para preparar a chegada de Jesus à humanidade, “preservou a Virgem Maria de toda a mancha de pecado original”. Assim, o papa Pio IX, em 1854, definiu como dogma de fé a Conceição Imaculada da Virgem, verdade na qual Maria se nos apresenta como a primeira redimida pela Páscoa (passagem da morte à ressurreição) de Cristo.
Em Portugal, a fé nesta virtuosidade de Maria é vivida pelo menos desde o século XII, a partir do qual se conhecem diversas igrejas, capelas e altares dedicados à Imaculada Conceição, que tem a sua solenidade litúrgica a 8 de dezembro. E o apogeu desta devoção ocorreu quando Dom João IV, em 1646, reunidos os três Estados do Reino, consagrou o país e coroou a Imaculada Conceição como Rainha de Portugal e prescindiu do uso da coroa régia, o que persistiu para a posteridade.
O Santuário de Nossa Senhora da Conceição, em Vila Viçosa, arquidiocese de Évora, é um dos locais mais significativos da devoção portuguesa a Maria e à Imaculada Conceição, a que se juntou, em réplica, no século XIX, o Santuário de Nossa Senhora da Conceição do Sameiro, em Braga, contra a onda galopante do racionalismo e do positivismo e em consonância com as aparições em Lourdes, em que a Senhora se identificou como “A Imaculada Conceição” perante Bernardette Soubirous na margem do Gave.

2017.12.09 – Louro de Carvalho