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sábado, 9 de novembro de 2019

Frequência das aulas de EMRC e da Catequese Paroquial


O JN de 6 de novembro tem em 1.ª página a seguinte informação: “FELGUEIRAS Ameaça de sanções a quem faltar a Religião e Moral”, com remissão para a página 26, onde se lê em título: “Alunos em Felgueiras coagidos a assistir a aulas de religião”.
Lendo o texto noticioso, que não sei se merece crédito, está em causa uma circular enviada aos pais dos 48 alunos inscritos em EMRC (entre os 63 que frequentam a escola) pelo coordenador do Centro Escolar de Torrados, em Felgueiras, a advertir que os educandos tinham de frequentar as aulas de EMRC (Educação Moral Religiosa Católica). Com efeito, “no ato de matrícula foi feia a escolha para a frequência da disciplina” e a comunicação das faltas (à décima o aluno reprova) será feita “mensalmente para a base de dados da Igreja Católica Portuguesa”. Mais: a papeleta referia que os alunos corriam “o risco de lhes ser barrado o acesso aos vários serviços da Igreja, como por exemplo a frequência da catequese, batizados, primeira comunhão e outras celebrações, bem como não poder entrar em qualquer Igreja católica portuguesa” (sic).
A julgar pelo teor desta comunicação, mormente o trecho aspado e marcado a negrito, os alunos, mesmo menores, estariam totalmente “interditos”, para não dizer “excomungados” por não terem cumprido com uma obrigação que os pais lhes impuseram. Na verdade, segundo as leis eclesiásticas, as penas canónicas só podem recair sobre crentes batizados, maiores de idade e sabedores de que este ou aquele comportamento acarreta uma pena canónica, o que não é o caso. Por outro lado, quem opta pela frequência ou não da disciplina de EMRC são os alunos maiores ou os pais dos alunos menores e não as crianças e adolescentes.
Da parte da Igreja Católica, os únicos pedidos que se podem fazer às escolas é que respeitem a opção dos pais dos alunos menores e a dos alunos maiores e que tratem a disciplina com as mesmas condições com que tratam as outras, dando também aos seus professores as mesmas condições de trabalho e desempenho que aos demais. De resto, não há lugar a qualquer comunicação de faltas às instâncias eclesiásticas (muito menos a uma base de dados da Igreja), mas aos encarregados de educação, como no caso das outras disciplinas. E também, nos termos do Estatuto do Aluno e Ética Escolar em vigor não há uma reprovação automática por excesso de faltas a nenhuma disciplina, devendo promover-se a remediação logo que o aluno ultrapasse metade do limite de faltas. Além disso, a média de EMRC não conta para efeitos de retenção ou transição, reprovação ou aprovação.
Perante o sucedido, o diretor do gabinete de informação da diocese do Porto, a que pertence Felgueiras, diz que o predito comunicado é da responsabilidade de quem o assina, assegura que a diocese tomou conhecimento apenas pela comunicação social, nega que haja algum cruzamento de dados entre a escola e a Igreja sobre a frequência da disciplina e frisa que “nenhuma criança foi, é ou será impedida de frequentar a catequese ou entrar na igreja por não ir as estas aulas”.
Fontes do Ministério da Educação dizem que o Ministério desconhecia tal comunicado e que o mesmo “não tem qualquer cabimento”. Na verdade, embora as orientações programáticas da disciplina sejam da responsabilidade da Igreja Católica, “o ensino religioso tem de se orientar por processos científicos e pedagógicos partilhados por outras disciplinas e áreas curriculares, não se constituindo como uma situação de aprendizagem alternativa à catequese”. Por outro lado, a disciplina pretende ajudar alunos cristãos a “um aprofundamento da visão cristã da vida” e, aos não cristãos que a frequentem (a quem está aberta e que os há) proporcionar o contacto com o cristianismo como fenómeno cultural e ajuda-los a definirem-se “sem exercer qualquer ação condicionadora das suas escolhas”.
O presidente da ANDAEP (Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas) anota que a disciplina de EMRC é “opcional” e que deve ser respeitada “a liberdade religiosa” de cada um, afirmando que este caso de ameaças é caso “isolado e inédito” no país.  
Por seu turno, a direção do Agrupamento de Escolas Dr. Machados de Matos – Felgueiras confirmou a existência do comunicado e remeteu o esclarecimento do assunto para uma reunião a realizar ainda naquele dia.
***
Não me custa a crer que o pároco ou outras pessoas ligadas à pastoral da paróquia (às vezes, mais papistas que o Papa) tenham feito pressões públicas no sentido de os alunos frequentarem a disciplina de EMRC na escola, no âmbito do zelo por que haja coerência com as convicções de fé. Porém, custa-me a crer que tais pressões tenham sido formalizadas junto dos dirigentes escolares. E, se o foram, estes não deveriam dar a mão a tais pressões, no quadro da autonomia da escola e da autonomia da paróquia. Aliás, ainda que houvesse base de dados da Igreja, os dirigentes escolares não poderiam responder, pois só devem fornecer dados estatísticos às entidades estatais e a escola não responde a qualquer tipo de inquéritos solicitados por entidades exteriores, a não ser por ordem ou autorização superior, exceto (por parte de dirigentes, professores, pessoal não docente e alunos) no atinente a dados que suportem trabalhos académicos, que serão tratados confidencialmente e com manutenção do anonimato. Além disso, os cidadãos (neste caso, pais e alunos) não podem ser importunados pelas entidades estatais sobre opções religiosas, políticas, ideológicas e de orientação sexual.
Por fim, tenho de fustigar a incoerência de tantos pais e mães que se dizem cristãos e católicos, mas não inscrevem os filhos na EMRC, porque: assim têm mais tempo para estudar (É o estudas!); a aula é no 1.º tempo (e o/a filho/a pode dormir mais um bocadinho); é no último tempo (e o/a filho/a pode chegar mais cedo a casa. Mas o transporte escolar não vem mais cedo ou os pais não tê hipótese de ir buscar o/a filho/a mais cedo); é no tempo letivo antes do almoço (e o/a filho/a pode ir almoçar mais cedo); é no tempo letivo a seguir ao almoço (e o/a filho/a pode ficar a almoçar com mais calma); o/a filho/a não quer e ele/a é que sabe; a aula é uma seca; o professor não é competente… No entanto, mandam os/as filhos/as à catequese ou, pelo menos, às últimas lições porque não dispensam as festarolas, os vestidos ou os fatinhos, o almoço com convidados, o bolo e as prendas… sobretudo quando se trata de 1.ª comunhão ou de Profissão de Fé – Comunhão Solene. Cristianismo de conveniência, de folclore, de afirmação social.
Todavia, os pastores de proximidade e seus colaboradores deverão insistir oportuna e inoportunamente com os cristãos para que levem ou mandem os filhos às catequeses, à missa em domingo e dia santo e, por consequência, às festas que decorrem dos atos das catequeses: festa do Pai Nosso, festa do Credo; 1.ª Comunhão, Profissão de Fé – Comunhão Solene, Crisma ou Confirmação… E, porque os cristãos devem estar presentes na escola, há que aproveitar a oportunidade para ali dar o testemunho possível, sendo uma das formas de testemunho a frequência da EMRC, que se constitui, não como forma de aprendizagem alternativa à catequese, mas como uma forma específica de aprendizagem do mundo e da vida. No entanto, devem os pastores de proximidade abster-se de pressões ilegítimas que raiem o proselitismo em vez de afirmarem a via do diálogo e do respeito pela liberdade de cada um. E não devem confundir as coisas, dificultando o acesso aos benefícios e tarefas eclesiais por não terem cumprido tarefas escolares e beneficiado das oportunidades que a escola é obrigada a dar-lhes. Com efeito, como diz o Papa, os pastores e seus colaboradores devem ser facilitadores da fé e não seus controladores.
Porém, insisto: os cristãos devem ser coerentes e consequentes com as suas convicções, se é que as têm. Parece que a liberdade religiosa, para alguns consiste apenas em não professar uma religião, quando é mais a possibilidade de ter e professar a religião por que opta, sem que a sua formação seja impedida ou dificultada e a sua prática seja impedida ou condicionada por meios e razões desproporcionados. Por outro lado, muitos pensam que a liberdade religiosa é para usar só quando apetece, quando ela deve ter uma linha de coerência e de estabilidade. As Igrejas e a sociedade devem poder saber com quem podem contar.  
2019.11.09 – Louro de Carvalho

segunda-feira, 21 de outubro de 2019

“Cada um de nós tem, melhor, é uma missão nesta terra”


É a grande asserção que o Papa Francisco proferiu quase no final da homilia da Missa a que presidiu na Basílica de São Pedro, hoje, dia 20 de outubro, Dia Mundial das Missões, no contexto do Mês Missionário Extraordinário. 
A celebração caraterizada pela comunhão dos povos na Basílica de São Pedro foi especialmente animada pela genuína participação do coro e orquestra “Palmarito e Urubichà”, da Bolívia.
A emoldurar teologicamente o mandato da Igreja em saída, plasmado no enunciado que tem o imperativo do verbo “ir” à cabeça – “Ide e ensinai todas as nações” –, o Santo Padre quis tomar, da Liturgia da Palavra desta Missa pela Evangelização dos Povos (Is 2,1-5; 2Tm 2,1-8; Mt 29,19a-20b), três classes gramaticais de palavras: o nome “monte”, o verbo “subir” e o pronome quantificador “todos”. Fê-lo para encorajar o testemunho de milhares de missionários no mundo e convocar-nos a todos para a missão.
Do monte fala Isaías quando profetiza que todas as nações acorrerão ao monte do Templo do Senhor, que se erguerá sobre no cimo das montanhas e se elevará no alto das colinas. E o monte surge no Evangelho após a Ressurreição na Galileia dos gentios, habitada por muitas populações diferentes. E disse o Pontífice que “o monte parece ser o lugar onde Deus gosta de marcar encontro com toda a humanidade” e connosco em concreto. É o caso do Sinai, onde Deus comunica os mandamentos como suporte da Aliança; do Carmelo, onde Elias desafiou os sacerdotes de Baal e fez descer fogo do céu contra soldados inimigos a soldo do rei Acaz ou onde  a mulher sunamita que perdera o filho foi encontrar-se com o profeta Eliseu; do lugar onde Jesus proclamou as Bem-aventuranças; do Tabor, onde Se transfigurou; do Gólgota, onde deu a vida; do monte das Oliveiras onde rezou antes de padecer; e do monte onde abençoou os discípulos, lhes deu o mandato missionário e se despediu para subir ao Céu.
No dizer de Francisco, o monte diz-nos que “somos chamados a aproximar-nos de Deus e dos outros”, no silêncio e na oração, afastando-nos das “maledicências e boatos poluentes”. Ali, os irmãos, “vistos do monte, aparecem-nos noutra perspetiva, a de Deus que chama todos os povos”, ou seja, vistos de cima, “aparecem-nos no seu todo e descobre-se que a harmonia da beleza só é dada pelo conjunto”. E orador pontifício prosseguiu:
O monte lembra-nos que os irmãos e as irmãs não devem ser selecionados, mas abraçados com o olhar e sobretudo com a vida. O monte liga Deus e os irmãos num único abraço, o da oração. (…) A missão começa no monte: lá se descobre aquilo que conta.”.
A luz deste ensinamento, o Papa Francisco quer que se interrogue cada um de nós “no coração deste mês missionário”:
Para mim, o que é que conta na vida? Quais são as altitudes para onde tendo?”.
Depois, anota que à palavra “monte” vem associado o verbo “subir. Com efeito, Isaías exorta: “Vinde, subamos à montanha do Senhor” (2,3). Na verdade, nós “nascemos para chegar às alturas encontrando Deus e os irmãos”. Para tanto, é preciso subir, deixando uma vida horizontal, lutando contra a força de gravidade do egoísmo, realizando um êxodo do próprio ‘eu’ – o que “requer esforço, mas é a única maneira para ver tudo melhor”, pois o único modo possível para abarcar monte é seguir a vereda sempre em subida.
Ora, para subir, é preciso alijar o que não serve – porque não subimos carregados de coisas – e há na nossa vida tantas coisas que são ninharias e empecilho para a caminhada e, sobretudo, para a subida. E Bergoglio extrapola daqui o segredo da missão:
Para partir é preciso deixar, para anunciar é preciso renunciar. O anúncio credível é feito, não de bonitas palavras, mas de vida boa: uma vida de serviço, que sabe renunciar a tantas coisas materiais que empequenecem o coração, tornam as pessoas indiferentes e as fecham em si mesmas; uma vida que se separa das inutilidades que atafulham o coração e encontra tempo para Deus e para os outros.”.
Em consonância, sugere a autointerrogação:
Como procede a minha subida? Sei renunciar às bagagens pesadas e inúteis do mundanismo para subir ao monte do Senhor? Faço a minha estrada subindo à minha custa ou trepando sobre os outros?”.
E passa ao pronome “todos”, a terceira palavra selecionada, que em Dia Mundial das Missões ressoa como a mais forte e que prevalece nas Leituras assumidas para a liturgia desta efeméride: “todas as nações”, diz Isaías (2,2); “todos os povos”, repetimos no Salmo 98 (2b); Deus “quer que todos os homens sejam salvos”, escreve Paulo (1Tm 2,4); “ide, fazei discípulos de todos os povos”, pede Jesus (Mt 28,19). E comenta o Bispo de Roma:
O Senhor obstina-Se a repetir este ‘todos’. Sabe que somos teimosos a repetir ‘meu’ e ‘nosso’: as minhas coisas, a nossa nação, a nossa comunidade... e Ele não Se cansa de repetir ‘todos’. Todos, porque ninguém está excluído do seu coração, da sua salvação; todos, para que o nosso coração ultrapasse as alfândegas humanas, os particularismos baseados nos egoísmos que não agradam a Deus. Todos, porque cada qual é um tesouro precioso e o sentido da vida é dar aos outros este tesouro. Eis a missão: subir ao monte para rezar por todos, e descer do monte para se doar a todos.”.
Subir implica vir a descer e tornar a subir. Neste sentido, Francisco diz-nos que “o cristão está sempre em movimento, em saída”, o mandato evangélico é “ide”. E ir implica não esperar retorno nem compensação, como implica ir “ao encontro de todos, e não apenas dos seus, do seu grupinho”. “O cristão vai ter com os outros” – afirma o Pastor Supremo, que explicita:
A testemunha de Jesus nunca se sente em crédito do reconhecimento de outros, mas em dívida de amor com quem não conhece o Senhor. A testemunha de Jesus vai ao encontro. Jesus diz também a ti: ‘Vai; não percas a ocasião de testemunhar!’. Irmão, irmã, o Senhor espera de ti o testemunho que ninguém pode dar em tua vez. ‘Oxalá consigas identificar a palavra, a mensagem de Jesus que Deus quer dizer ao mundo com a tua vida (...), e assim a tua preciosa missão não fracassará’ (Gaudete et exsultate, 24).”.
Por outro lado, para ir ao encontro de todos, segundo as instruções do Senhor, uma só e muito simples e necessária: fazer discípulos, mas “discípulos d’Ele, não nossos”. Por isso, a homilia papal vinca:
A Igreja só anuncia bem, se viver como discípula. E o discípulo segue dia a dia o Mestre e partilha com os outros a alegria do discipulado. Não conquistando, obrigando, fazendo prosélitos, mas testemunhando, colocando-se ao mesmo nível – discípulo com os discípulos –, oferecendo amorosamente o amor que recebemos.”.
É preciso mostrar, antes de mais e acima de tudo, que “Deus ama a todos e não se cansa jamais de ninguém”. E este testemunho diz respeito a todos e cada um de nós, pois “cada um de nós tem, melhor, é uma missão nesta terra” (Evangelii gaudium, 273). E o Papa concluiu encorajando a cada um dos cristãos – bispos, sacerdotes, diáconos, religiosos, religiosas, leigos e leigas:
Estamos aqui para testemunhar, abençoar, consolar, erguer, transmitir a beleza de Jesus. Coragem! Ele espera muito de ti! O Senhor prova uma espécie de ânsia por aqueles que ainda não sabem que são filhos amados pelo Pai, irmãos pelos quais deu a vida e o Espírito Santo. Queres acalmar a ânsia de Jesus? Vai com amor ao encontro de todos, porque a tua vida é uma missão preciosa: não é um peso a suportar, mas um dom a oferecer. Coragem! Sem medo, vamos ao encontro de todos!”.
De facto, a não é um peso a suportar, mas um dom a oferecer.
***
Concluída a celebração da Santa Missa, às 12 horas, o Santo Padre dirigiu-se à janela do seu gabinete no Palácio Apostólico para recitar o Angelus com os fiéis e peregrinos reunidos na Praça de São Pedro.
Nesta altura, a sua alocução sobre o Dia Mundial das Missões partiu dos textos da Liturgia da Palavra deste 29.º domingo do Tempo Comum no Ano C e não dos da Missa celebrada na Basílica. Assim, referiu que a 2.ª Leitura (2Tm 3,14 – 4,2) nos propõe a exortação de Paulo ao seu fiel colaborador Timóteo:
Proclama a Palavra, insiste a propósito e fora de propósito, argumenta, ameaça e exorta com toda a magnanimidade e doutrina”. 
Vincando que este Dia Mundial das Missões é ocasião propícia para cada batizado tomar mais viva consciência da necessidade de cooperar na proclamação da Palavra, no anúncio do Reino de Deus com um renovado empenho, evocou a centenária Carta Apostólica Maximum illud, do Papa Bento XV, que deu novo impulso à responsabilidade missionária de toda a Igreja. Nela, o 258.º Papa da Igreja Católica “advertiu para a necessidade de requalificar evangelicamente a missão no mundo de modo que fosse purificada de qualquer incrustação colonial e livre dos condicionamentos das políticas expansionistas das nações europeias”.  
Tal advertência tem hoje, segundo Francisco, plena atualidade e “estimula a superar a tentação de todo o fechamento autorreferencial e toda a forma de pessimismo pastoral, para nos abrir à jubilosa novidade do Evangelho”.
Disse o Santo Padre que, num tempo de globalização – que devia ser solidária e respeitadora da particularidade dos povos, mas que, ao invés, quer impor a homogeneização e sofre dos velhos conflitos de poder que alimentam guerras e fragilizam o planeta – os crentes são chamados a levar doravante, com novo vigor, a boa notícia de que “em Jesus a misericórdia vence o pecado, a esperança vence o medo, a fraternidade vence a hostilidade”, pois “Cristo é a nossa paz e n’Ele é superada toda a divisão, só Ele é a salvação de todo o homem e de todo o povo”.
Mas o Pontífice não se esqueceu de alertar para o suporte da vida cristã e, consequentemente, a condição indispensável de toda a missão: a oração, que implica, no dizer do Padre José Gregório Valente, missionário passionista, a escuta de Deus, a escuta dos homens, a escuta do coração. E Francisco, ancorado na 1.ª Leitura (Ex 17, 8-13) e no Evangelho (Lc 18,1-8) propõe “uma oração fervorosa e incessante”, segundo o ensinamento de Jesus na parábola “sobre a necessidades rezar sempre, sem desfalecimento. E sustenta:
A oração é o primeiro sustentáculo do povo de Deus para os missionários, rica de afeto e de gratidão para a sua difícil tarefa de anunciar e dar a luz e a graça do Evangelho àqueles e àquelas ainda não o receberam. É ainda uma bela ocasião para nos interrogarmos: ‘Eu rezo pelos missionários? Rezo pelos que vão a longes terras para levar a Palavra de Deus com o seu testemunho?”.
Por fim, rogou a Maria, Mãe de todos os povos, que acompanhe e proteja sempre os missionários do Evangelho.
***
Após o Angelus, evocou a beatificação do mártir Alfredo Cremonesi, sacerdote missionário do Pontifício Instituto das Missões Estrangeiras, morto na Birmânia, em 1953. Foi um infatigável apóstolo de paz e zelosa testemunha do Evangelho, até ao derramamento de sangue. Que o seu exemplo nos torne agentes de fraternidade e missionários corajosos em todos os ambientes e a sua intercessão sustente quantos se afadigam hoje a semear o Evangelho no mundo.
Saudou os peregrinos provenientes da Itália e de vários outros países. E mencionou, em particular: a comunidade peruana de Roma, congregada em torno da imagem do Senhor dos Milagres; as Irmãs Enfermeiras da Addolorata (Nossa Senhora das Dores), que celebraram o seu Capítulo Geral; os que participam na marcha “Restiamo umani” (continuemos a ser humanos), tendo percorrido, nos últimos meses, cidades e territórios da Itália a promover um confronto construtivo sobre inclusão e acolhimento; e os jovens da Ação Católica italiana, por ocasião dos 50 anos da ACR. A estes pediu que sejam protagonistas alegres e generosos na evangelização, sobretudo entre os seus coetâneos e garantiu que a Igreja confia neles e nelas.
2019.10.20 – Louro de Carvalho

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

O aproveitamento político, económico e cultural … da JMJ 2022


Obviamente que gostei de saber que a Jornada Mundial da Juventude de 2022 se realizará em Lisboa. Trata-se da capital do país e cabeça duma diocese com história, labor apostólico e enormes periferias existenciais, muito embora outras também tenham essas caraterísticas. Mas Lisboa é uma das arquidioceses (e é um patriarcado) metropolita com mais dioceses sufragâneas (Angra, Funchal, Guarda, Leiria-Fátima, Portalegre-Castelo Branco, Santarém, Setúbal).
Por outro lado, a Igreja em Portugal tem motivos para estar mais do que satisfeita pela escolha papal, mas deve aproveitar o ensejo para, na sua renovação, que urge, construir um cristianismo mais “cafeinado” pela força do Alto, mais abrangente em termos intergeracionais e mais comprometido social e politicamente, definindo-se, sem se autorreferenciar, em dois polos aparentemente distintos, mas coincidentes: Jesus Cristo e os deserdados da sorte.
Também me parece de acomodatícia legitimidade o argumento da proximidade histórica com a África lusófona, sem esquecer a comunidade de Macau, o povo de Timor-Leste e a comunidade indiana em que há resquício da presença portuguesa. Evidentemente que, se nos orgulhamos das relações históricas havidas com esses territórios – com notáveis sucessos e graves erros –, é mister que também hoje lhes saibamos dar as mãos despojadas de qualquer laivo de colonialismo, mas abertas à solidariedade e à cooperação humana e cristã.
***
Reparei que da comitiva portuguesa, em que praticamente ficou eclipsado o grupo de cerca de 300 jovens, ressaltou a presença de seis Bispos, à cabeça dos quais se encontrava o Cardeal Patriarca de Lisboa e Presidente da Conferência Episcopal, o Presidente da República, o Presidente da Câmara de Lisboa, o Pároco do Parque das Nações e a discreta figura dum Secretário de Estado a representar o Governo português. Confesso que, à exceção do pouco relevo dado aos jovens portugueses, que somente foram mencionados pelo responsável do departamento eclesial respetivo ou quando gritaram “Portugal! Portugal!”, me pareceram bem tais presenças. Foi o Governo dum Estado aconfessional, mas interessado na cooperação, o autarca de Lisboa e presidente da respetiva área metropolitana, que abrange o território que acolherá o evento, o pároco duma circunscrição territorial e eclesial do acolhimento e o Bispo da diocese. E não me parecia desajustada a presença do Presidente da República, desde que um pouco mais contida, embora sabendo que a contenção não é o seu forte, mas reconhecendo-lhe o direito de estar e até o dever, se a sua consciência política e cristã lho determina.
Porém, souberam-me a desajustados, excessivos e oportunistas dois aspetos: a euforia da vitória; e a hipotética, mas explícita, pré-declaração de recandidatura presidencial.
Num caso destes, não se pode avocar uma vitória de ninguém, muito menos do país qua tali. Não se trata duma vitória bélica, económica, futebolística. Não é um certame. E o Presidente não devia entrar nessas euforias de fã desportivo. Nem é uma vitória da Igreja em Portugal, embora se conheçam tanto as dores de Dom Manuel Clemente como a sua capacidade negocial. Sobre as primeiras, sabe-se como foi criticado por uma frase extraída do seu contexto; e sobre a segunda, é de recordar como conseguiu puxar, em 2010, a visita de Bento XVI para a cidade portucalense quando era o Bispo diocesano do Porto. Mas, além do proveito eclesial que a JMJ acarretará para a Igreja em Portugal, o acolhimento da JMJ tem de ser encarado como serviço desta Igreja particular à Igreja Universal. Em termos da correção e do espírito evangélico, não é um triunfo, uma vanglória. Encha o coração, sim, mas não encha a boca! 
Quanto à predita declaração de recandidatura presidencial, o aconfessionalismo do Estado fica mal servido por esta postura presidencial. Um ato político não se pratica a partir dum evento religioso; e os portugueses não têm que levar com os estados de alma do Chefe de Estado, que o é em Portugal e no estrangeiro.
Todavia, isto não é novo. Já em 1982, Francisco Balsemão, quando os jornalistas o questionaram sobre a visita de São João Paulo II, respondeu que estava satisfeito e que valia a pena ser Primeiro-Ministro ainda que só apenas para receber o Papa.
Agora, Marcelo disse que saía do Panamá com mais vontade de pensar na recandidatura (uma epifania), quanto ainda recentemente dissera que tomaria posição só em 2021. E, questionado se era ponto assente, disse uma coisa plausível, ter que pensar na saúde, e outra mais poderosa, verificar se haveria alguém mais capaz do que ele para assumir o cargo. É de mestre, pois subjetivamente nunca há ninguém mais capaz do que o próprio. Nos últimos temos, apenas Bento XVI se sentiu incapaz do exercício eficaz do cargo que desempenhava.
Apraz-me, a este propósito, concordar com Joaquim A. Moura, que escreve no “espaço do leitor” do JN de hoje sob o título “Vamos ter uma eleição abençoada”: 
Movido pelo anúncio papal (…), Marcelo Rebelo de Sousa (…) resolveu virar o dito e transmitir ao povo lusitano que se recandidataria a novo mandato presidencial. E até dá por adquirida a vitória, tal a sua fé. Ao que parece também, tal decisão fica a dever-se ao desejo e oportunidade de se sentar junto ao Papa, seja o atual ou o próximo, e não pela vontade de continuar a servir o povo de Deus necessitado.”.
Pode não ser bem assim, mas a crítica é merecida e oportuna.            
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Também no mesmo número do JN, na “praça da liberdade”, Cristina Azevedo escreveu um artigo de opinião em torno do título “Vendilhões do templo”.
Escusava de se penitenciar por alegadamente ser uma expressão forte a que serve de título. Ela não serve apenas de tradução a uma “reação pessoal” de “católica, apostólica, romana, à forma como as Jornadas Mundiais da Juventude (JMJ) têm sido tratadas desde que Portugal foi indicado como o seu próximo anfitrião”; a expressão configura a crítica e a postura de Jesus no episódio que vem relatado perto do final dos evangelhos sinóticos (Mc 11,15-19; Mt 21,12-17; e Lc 19,45-48) e perto do início do Evangelho de João (Jo 2,13-22), que censura o desvirtuamento do Templo como Casa de Oração. Ora aqui está em causa o desvirtuamento político, económico e cultural dum evento que se pressupõe e se crê marcado pela fé.
Neste sentido, a colunista tem razão total em escalpelizar a JMJ como “um encontro do programa Erasmus” para “pôr em contacto diferentes culturas”; comouma Expo 2022” (ou “uma fase dois da Expo 98”), vindo a “requalificar, remodelar, modernizar, o que quer que seja”; como “uma Web Summit a captar jovens talentosos dos quatro cantos do Mundo”; como algo parecido com “o Mundial de Futebol”; e como um evento importante por atrair “a Portugal mais de um milhão de jovens”. Mas já se fazem cálculos a números que insinuam que a JMJ será um evento que ultrapassará o melhor tempo de turismo alguma vez ocorrido em Portugal e fazem-se contas aos milhões a arrecadar, tendo em conta o que se passou em Madrid com JMJ de 2011.
A este respeito, Cristina Azevedo diz – e bem – que “sobrepor” ao desafio espiritual, pastoral, de fé e de celebração das jornadas “a linguagem tecnocrata e fria das receitas, das dormidas, das obras e dos projetos é sinal da pobreza e do endurecimento do nosso coração”. E, suspeitando de que “ainda ninguém percebeu nada”, questiona desde quando uma iniciativa católica “é apresentada, gabada e celebrada por um Estado” dito “republicano e laico”.
Só talvez não me pareça oportuna a crítica ao facto de a escolha do local para a JMJ ter recaído sobe Lisboa e arredores. Digo-o pela razões acima apontadas, embora não apodíticas. Porém, concordo com a crítica política à contradição dos governantes em falarem da descentralização, mas continuarem a engrossar a hegemonia lisboeta, ou com a crítica aos “que mandam e não resistem ao anúncio mediático do ‘evento’, da ‘oportunidade, do ‘Portugal na moda’, do ‘conseguimos’ no mesmo tom em que se celebrou o Euro 2004, a Web Summit ou o Festival da Canção”. E também entendo que, sendo necessário preparar o terreno, dotar o país de estruturas de acolhimento e convívio dos jovens, seu alojamento, alimentação e aspetos culturais – dados logísticos e instrumentais, que envolvem despesas e receitas –, “talvez a hierarquia católica portuguesa se devesse ter explicado melhor durante todo o processo e talvez seja altura de tentar repor a centralidade deste encontro com Jesus Cristo com uma comunicação firme, clara, corajosa e motivadora”.
Na verdade, Cristina Azevedo põe as coisas no seu devido sítio quando escreve:
As Jornadas Mundiais da Juventude existem para falar de Jesus Cristo aos e com os jovens; existem, para os convidar a sentir com a Igreja, fortalecendo os vínculos entre si e com o seu pastor, como não se cansou de repetir Francisco no Panamá. Existem para lhes falar ‘do mistério da encarnação, do abaixamento, da descida de Deus que se faz pequeno, humilde, que se torna homem e vive a condição humana até ao fundo’. A eles, especialmente aos jovens porque, como citou Francisco de um filósofo grego ‘Os jovens são como um moscardo no dorso de um nobre cavalo, para que não se adormente’.”.
Adicionalmente, só devo dizer que o Presidente da Câmara de Lisboa, falando do evento e referindo-se aos aspetos logísticos, esteve bem, com exceção da previsão de que as JMJ iriam ser as melhores JMJ de sempre. Será presunção demasiada, não?! Mas é um presidente de autarquia e não um “eclesiarca”.
Já no passado dia 28, Inês Cardoso, subdiretora do JN, referia que um evento com esta dimensão “justifica o empenho dos diversos responsáveis políticos que se deslocaram ao Panamá”, compreendendo-se o entusiasmo. Porém, não aceita a tentação para lhe associar “leituras políticas”, dizendo que, apesar do “contexto” e do “calor do momento”, o Presidente “deveria ter evitado considerações sobre a recandidatura em solo panamiano”. Por outro lado, apontando as “frequentes intromissões” da Igreja “em seara alheia” ou as “tentativas de influenciar a opinião dos crentes a partir do altar” diz que, “em ano de eleições, vale a pena refletir sobre as fronteiras entre religião e política”.
Nesse sentido, pensa que as duas realidades se tocam, “porque a ação da Igreja tem uma dimensão social” e porque o cidadão é influenciado pelos seus princípios éticos, religiosos e culturais”. Não obstante, chama a atenção para a índole laica do Estado e para a legitimidade e necessidade do pluralismo dos católicos no âmbito social e político”. Sustentando que o envolvimento político é “obrigação de qualquer cristão, que, enquanto cidadão deve ser comprometido com o mundo que o rodeia”, adverte que o altar age numa esfera “bem diversa da política”. Por isso, é errado usar um para tentar interferir na outra e vice-versa. E cita a frase evangélica “Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (Mt, 22,21; Mc 12,17; e Lc 20,25), como critério a reter para as próximas campanhas eleitorais.
Totalmente de acordo!
2019.01.31 – Louro de Carvalho

sábado, 29 de dezembro de 2018

A quadra natalícia também sob o signo do martírio


Nem seria muito de admirar se não fosse muito doloroso, mas o Natal também obriga a contemplar a vertente do martírio. Desde logo, o Menino nascido na gruta belemita vinha destinado ao martírio redentor do Gólgota. Tanto assim é que a cruz é o caminho de Cristo como há de ser o caminho dos seus discípulos e seguidores:
Se alguém quiser vir comigo, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; mas, quem perder a sua vida por minha causa, há de encontrá-la.” (Mt 16,24-25).
E uma estrofe do cântico de Natal “Cristãos, alegria que nasceu Jesus” contém esta mística:
Lá nos altos Céus, / Honra e glória a Deus / Que nos deu Jesus! 
 Paz na terra à alma / Que serena e calma / Vive unida à cruz!”.
Depois, a 26 de dezembro, celebrou-se a festa de Santo Estêvão, o protomártir, que foi detido pelas autoridades judaicas e levado diante do Sinédrio (a suprema assembleia de Jerusalém), que o condenou por blasfémia, sendo sentenciado a apedrejamento. Entre os presentes na execução, estaria Saulo, o futuro São Paulo, durante os seus dias de perseguidor dos cristãos.
Muitos Padres da Igreja, como Santo Agostinho, atribuem a conversão de Saulo às orações de Estêvão. Agostinho diz: Si Stephanus non orasset, ecclesia Paulum non haberet.
A 27, celebrámos a festa de São João, Apóstolo e Evangelista. Conforme tradição unânime, viveu em Éfeso em companhia de Nossa Senhora e foi colocado, sob o imperador Domiciano, dentro duma caldeira de óleo a ferver, daí saindo ileso e, todavia, com a glória de ter dado testemunho. Depois do exílio de Patmos, tornou definitivamente a Éfeso, onde exortava continuamente os fiéis ao amor fraterno, como resulta das suas três cartas, acolhidas entre os textos sagrados, como também o Apocalipse e o Evangelho. Morreu carregado de anos em Éfeso durante o império de Trajano (98-117) e aí foi sepultado.
A 28, celebrou-se o martírio dos Santos Inocentes, evocando o evento bíblico conhecido como o Massacre dos Inocentes, em que Herodes, rei da Judeia, terá condenado à morte todos meninos da cidade de Belém e arredores, com medo de perder o seu trono para o recém-nascido “Rei dos Judeus”, anunciado pelos magos. Os meninos assassinados ficaram conhecidos na Igreja como os “Santos Inocentes” e como os primeiros mártires cristãos.
A primeira comemoração do Dia dos Santos Inocentes na igreja ocidental remonta ao ano de 485, no “Sacramentário Leonino”. A data da celebração varia entre o dia 27 e o dia 29, consoante o tipo de Igreja. Para a Igreja Católica, a Igreja da Inglaterra e a Igreja Luterana, a data da celebração é o dia 28 de dezembro.
Francisco, depois de, no dia 26, ter estabelecido a similitude entre Estêvão e Cristo, no dia dos Santos Inocentes veio exortar a acolher em Jesus o amor de Deus. O twitter do Papa inspira-se na sua Mensagem de Natal de 2017, em que recordou todos os cantos do mundo onde as crianças sofrem. Diz agora o Papa:
Acolhamos no Menino Jesus o amor de Deus e vamos empenhar-nos em tornar o nosso mundo mais digno e humano para as crianças de hoje e de amanhã”.
Na Mensagem do Natal de 2017, o Santo Padre recordava todos os lugares do mundo onde as crianças sofrem, visualizando Jesus nos rostos das crianças no Oriente Médio, onde “continuam a sofrer com o aumento das tensões entre israelenses e palestinos”, nos rostos das crianças da Síria, “ainda marcados pela guerra que ensanguenta esse país há anos”, ou ainda os rostos das crianças do Iraque, do Iémen, da África; nos rostos de todas as crianças que vivem em “áreas do mundo onde a paz e a segurança estão ameaçadas pelo perigo de tensões e novos conflitos”, ou naqueles rostos de “tantas crianças forçadas a deixar os seus países, a viajarem sozinhas em condições desumanas, sendo presas fáceis para os traficantes de seres humanos”. E afirmava:
Enquanto o mundo está a ser atingido por ventos de guerra e um modelo de desenvolvimento já obsoleto continua a causar degradação humana, social e ambiental, o Natal convida-nos a recordar o sinal do Menino e que o reconheçamos nos rostos das crianças, especialmente daquelas para quem, como Jesus, não há lugar na estalagem”.

Historia Antiga (1937) – Miguel Torga

Era uma vez, lá na Judeia, um rei.
Feio bicho, de resto:
Uma cara de burro sem cabresto
E duas grandes tranças.
A gente olhava, reparava e via
Que naquela figura não havia
Olhos de quem gosta de crianças.
E, na verdade, assim acontecia.
Porque um dia,
O malvado,
Só por ter o poder de quem é rei
Por não ter coração,
Sem mais nem menos,
Mandou matar quantos eram pequenos
Nas cidades e aldeias da Nação.

Mas, por acaso ou milagre aconteceu
Que, num burrinho pela areia fora, fugiu
Daquelas mãos de sangue um pequenito
Que o vivo sol da vida acarinhou;
E bastou esse palmo de sonho
Para encher o mundo de alegria;
Para crescer, ser Deus;
E meter no inferno o tal das tranças,
Só porque ele não gostava de crianças.

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Obviamente, não podemos ficar a olhar só para os martírios do passado. Hoje eles praticam-se e são bem bárbaros, nada ficando a dever aos demais martírios que a História regista.
Assim, no ano que está prestes a terminar, a agência Fides apresenta o relatório com números e circunstâncias em que missionários – “batizados comprometidos na vida da Igreja” – foram mortos em diversas partes do mundo de forma violenta, embora não necessariamente por ódio à fé. No total são 40, quase o dobro de 2017, os missionários assassinados no ano que está prestes a acabar. A maior parte deles, sacerdotes, em número de 35.
Segundo dados recolhidos pela Fides, após 8 anos consecutivos em que o número mais elevado de missionários assassinados foi registado na América, desta feita, em 2018 é a África a ocupar o primeiro lugar neste ranking trágico. Também, neste ano  muitos perderam as suas vidas durante tentativas de roubo ou furto em contextos sociais de pobreza, degradação e onde a violência é a regra da vida, a autoridade do Estado ausente ou enfraquecida pela corrupção ou onde a religião é instrumentalizada para outros fins.
São 19 sacerdotes, um seminarista e uma leiga as vítimas em África. Comove a morte de Thérese Deshade Kapangala, da República Democrática do Congo, que tinha apenas 24 anos de idade e estava a preparar-se para começar o postulantado entre as Irmãs da Sagrada Família. Foi assassinada em janeiro 2018 na violenta repressão dos militares que tentavam sufocar os protestos contra as decisões do Presidente Kabila, promovidos por leigos católicos em todo o país. Cantava no coro da paróquia e era muito ativa na Legião de Maria. Tendo naquele dia participado na Missa na cidade de Kintambo, ao norte de Kinshasa, tentou organizar uma marcha de protesto. Os militares do exército, postados do lado de fora da igreja, abriram fogo contra os manifestantes que buscavam abrigo no templo. Thérese foi atingida ao tentar proteger uma criança com o seu corpo.
Um massacre brutal em que foram mortos na Nigéria o Padre Joseph Gor e o Padre Felix Tyolaha por pastores jihadistas nos povoados de Mbalom, no Estado de Benue, na parte central do país que divide o norte de predominância muçulmana, do sul em grande parte habitado por cristãos. O massacre ocorreu na madrugada de 24 de abril de 2018, durante a Missa matinal, muito frequentada. Tinha acabado de se iniciar a celebração e os fiéis ainda estavam a entrar para a igreja, quando foram disparados vários tiros por um grupo armado. Foram mortas a sangue frio 19 pessoas, incluindo os dois padres. A seguir, os bandidos, entrando no povoado, saquearam e destruíram mais de 60 casas.
Também o idoso e muito amado padre Albert Toungoumale-Baba, centro-africano (de 71 anos), foi morto na Paróquia de Nossa Senhora de Fátima, não muito distante do bairro PK5 Bangui, capital da República Centro-Africana, onde houve um massacre provocou a morte de, pelo menos, 16 pessoas e causou uma centena de feridos. Um grupo armado atacou a paróquia, enquanto o Padre Albert e alguns fiéis estavam a celebrar a Missa da festa de São José no 1.º de maio de 2018. O sacerdote, um dos mais idosos da diocese de Bangui, muito estimado pelos fiéis, encontrava-se na igreja para a celebração como capelão do movimento “Fraternité Saint Joseph” e foi assassinado de súbito.
Também a América pagou alto tributo de vidas em 2018. Foram assassinados 12 padres – 7 somente no México – e 3 leigos. Entre as vítimas, chama atenção a história do Padre Juan Miguel Contreras García, ordenado sacerdote pouco antes de morrer. Tinha apenas 33 anos, quando foi morto na noite de 20 de abril de 2018,no final da Missa que celebrava na Paróquia São Pio de Pietrelcina, em Tlajomulco, Estado de Jalisco (México), onde estava em substituição de outro sacerdote ameaçado de morte. Um comando invadiu a igreja e dirigiu-se à sacristia, onde abriu fogo contra o sacerdote.
O Padre Riudavets Carlos Montes, um jesuíta espanhol de 73 anos, foi encontrado amarrado e com sinais de violência na comunidade indígena peruana de Yamakentsa. O Padre Riudavets tinha formado centenas de líderes indígenas e era totalmente consagrado à sua missão, sempre disponível. Amava a comunidade e por ela era amado.
Das diferentes histórias que a Fides relata neste final de 2018, surge um único denominador comum: a partilha que, em cada latitude, padres, religiosos e leigos são capazes de estabelecer com as pessoas, levando um testemunho evangélico de amor e de serviço para todos, e a coragem pela qual, mesmo diante de situações de perigo, os missionários permanecem no seu lugar para serem fiéis aos seus compromissos.
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Por sua vez, Pietro Parolin, Cardeal Secretário de Estado da Santa Sé, que celebrou o Natal com as comunidades cristãs do Iraque, em entrevista ao Vatican News, confessa: No Iraque toquei a fé de uma igreja mártiruma Igreja que, entre sofrimentos e tribulações, testemunha a alegria e a beleza do Evangelho”. Compartilha a esperança dos fiéis iraquianos duma visita do Papa e ressalta a importância da colaboração entre cristãos e muçulmanos para um futuro pacífico. E diz que a palavra “emoção” é a correta para descrever o que viveu no Iraque: “uma grande emoção” e alegria sua e das comunidades. Sentiu-se “muito feliz” por lhes poder levar “a proximidade do Papa, o seu afeto, a sua bênção, a atenção com que ele sempre seguiu os seus acontecimentos”. Naturalmente, a visita “foi uma ocasião para compartilhar os sofrimentos dos anos recentes e também um pouco das incertezas do presente, mas ao mesmo tempo, também as esperanças pelo futuro”.
Sobre a vivência da fé com alegria no meio de tantas tribulações, refere:
Nos pronunciamentos que fiz, sobretudo nas homilias, insisti muito neste ponto: ‘Vós sois um testemunho para a Igreja universal’. A Igreja universal é-vos grata pelo que vivestes, como vós vivestes isso,  e deve pegar no  vosso exemplo, desta capacidade de suportar sofrimentos, aflições, pelo nome de Jesus’. Eu diria que esta é uma exemplaridade que eles propõem a toda a Igreja que – tal como diz o Concílio – ‘vive entre as perseguições do mundo e as consolações de Deus’. No entanto, o que mais me impressionou foi o orgulho – no bom sentido da palavra – com que esses irmãos e irmãs vivem a sua fé: sentem-se orgulhosos por serem cristãos e por continuarem a sê-lo no meio de tantas dificuldades, tantas provações e sofrimentos!”.
Em relação às imagens fortes e tocantes da visita ao Iraque, confessa que foram muitas, pois tem cada encontro gravado na sua memória. Porém, destaca a destruição da cidade de Mosul. Na verdade, foi confrangedor “ver as igrejas, mas também as casas, os prédios, a parte inteira da cidade que mais sofreu pelos acontecimentos bélicos”.
Outra coisa que o chocou foram essas igrejas (tanto as caldeias como as sírio-católicas) “cheias de gente, cheias de homens, de mulheres, de crianças e de jovens”, em que “todos cantavam e rezavam”, impressionando “pela sua maneira de rezar”. Por outro lado, em Mosul, “era difícil andar pela rua porque havia entulho no meio”. O governador de Mosul quis cumprimentar o Cardeal, que sentiu o momento em que o governador lhe pegou pela mão “como um momento muito bonito, que deveria ser simbólico daquela que é a colaboração entre cristãos e muçulmanos: tomar-se pelas mãos e ajudar-se mutuamente”. E, naquele instante, estando a chover muito, apareceu um lindo arco-íris no céu, no que vê o símbolo “da paz, da aliança”.
A visita do Cardeal Secretário de Estado acendeu as esperanças duma visita de Francisco ao Iraque. A este respeito, o purpurado disse:
As pessoas ficaram muito contentes por essa presença. Sentiram também na presença do Secretário de Estado a presença do Papa […] Mas todos, a uma só voz, esperam que ele possa visitar o Iraque em breve e confortá-los pessoalmente. E a essa esperança dos cristãos iraquianos também eu me uno: que sejam criadas as condições,  naturalmente, para que o Santo Padre possa ir ao Iraque e possa compartilhar momentos de oração e de encontro com nossos irmãos.”.
Sendo-lhe recordado o discurso de saudação de Natal à Cúria, em que o Pontífice falou de duas grandes aflições, o martírio e os abusos sexuais por parte de membros do clero, Parolin, frisou:
As minhas esperanças são que este encontro, convocado pelo Papa, de todos os presidentes das Conferências Episcopais, possa fortalecer ou continuar, melhor dizendo […] a atenção em favor das vítimas, e sobretudo a criação de condições de segurança para menores e pessoas vulneráveis. Parece-me que é sobretudo neste ponto que a atenção dos participantes estará concentrada: isto é, como criar um ambiente seguro para os menores e as pessoas vulneráveis.”.
Ainda sobre o encontro de fevereiro, diz esperar que, a partir de então, se caminhe nesta estrada e que exista uma abordagem cada vez mais comum, “de toda a Igreja diante desse fenómeno”, mas que, “naturalmente, depois cada um” possa aplicar, “também de acordo com a situação local em que se vive, mas que seja clara a ‘política’ para todas as Igrejas” e “que seja também uma abordagem que tenha presente todos os aspetos do fenómeno, que são múltiplos e interconectados entre si”, procedendo-se, depois, com uma abordagem “inspirada pelos critérios do Evangelho em relação a todas as pessoas”.
E, a concluir, o Cardeal Parolin faz votos, para 2019, por que, diante de tantos desafios atuais,o Senhor sustente o Santo Padre na sua entrega contínua em favor da Igreja e das comunidades cristãs que se encontram em situações de dificuldade e marginalidade” e que “possa continuar a acender essa esperança e esse amor nos corações dos homens, motivo pelo qual tantos lhe querem tão bem e tantos o sentem particularmente próximo”, vendo muitos nele “a esperança de um mundo mais solidário, de um mundo mais pacífico, de um mundo feito à medida do homem e da fraternidade”.
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Enfim, martírio de morte para uns, martírio de tribulação para outros e proximidade de quantos sofrem ou se alegram – eis a onda diversificada e intensa que marca a Igreja peregrina, que vive a beleza exigente do mistério do Natal do Senhor, alimentando-se do banquete da Última Ceia e anunciando a Sua Morte e proclamando a sua Ressurreição até que Ele Venha.
2018.12. 29 – Louro de Carvalho