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quinta-feira, 6 de junho de 2019

A ampliação repentina da corte de admiradores de Agustina


Obviamente que me revejo na postura dos académicos que, por ocasião da morte, velório e exéquias de Agustina Bessa Luís, porque evidentemente sabem do que falam, estudaram a obra e captaram aspetos relevantes da personalidade da escritora. Também aceito a postura da atual Ministra da Cultura, que disse em nome do Governo, na sua atitude discreta, embora assertiva, o que a um governante de bom senso cabe salientar.
Assim, gostei de ouvir Isabel Pires de Lima, professora catedrática que se dedica ao estudo e divulgação da nossa Literatura, a considerar a romancista (integrou Conselho Diretivo da Comunitá Europea degli Scrittori – 1961-1962) como “uma contadora de histórias absolutamente compulsiva” e a assegurar que “a obra romanesca de Agustina Bessa-Luís é de uma singularidade e torrencialidade que configuram uma espécie de apetência quase descontrolada pela ficção”.
Em declarações à Lusa, o Professor Arnaldo Saraiva, investigador científico e literário, ensaísta, cronista, crítico e poeta, refere que Agustina ocupa “o espaço da maior escritora que Portugal já teve” na memória do país. E explicitou:
Tivemos algumas escritoras importantes no século XX, de Florbela Espanca a Sophia de Mello Breyner Andresen e Maria Velho da Costa, mas de longe a maior figura feminina da literatura portuguesa será sempre Agustina”.
O insigne professor universitário, que fundou o Centro de Estudos Pessoanos e é um especialista na obra de Eugénio de Andrade, lembra a “escritora muito produtiva, que só em romances deixou cerca de quatro dezenas de obras e também inúmeras crónicas”, mas cujo legado também se vê em “livros infantis, teatro, contos, com um selo de qualidade invulgar em todas essas obras” – trabalho de “uma escritora absolutamente excecional”.
Apesar de, internacionalmente, não ser a “mais conhecida”, de que é exemplo o “Brasil, que a conhece pouco e onde Saraiva tentou, “desde 1965”, ajudar a revelá-la, é uma “personalidade humana invulgar, uma mulher sábia, bem portuguesa e bem ligada às coisas portuguesas”.
Arnaldo Saraiva conheceu esta mulher “atenta às relações humanas e laços sociais”, a destacada “conhecedora de espaços rurais e urbanos, sobretudo no Norte”, que procurou “entender algumas figuras da cultura portuguesa, de Santo António a Florbela Espanca e Vieira da Silva”.
Salta à memória “a companheira fabulosa para viagens ou para conversas risonhas, sobre isto e aquilo”, além da “excelente cozinheira” que fazia “doces maravilhosos” ou a mulher “muito irreverente”, mas “extremamente séria e intensa”, que tem na sua carreira “páginas incríveis, de escrita exaltante, envolvente, profunda e densa”, como recorda o ensaísta e crítico.
Deixa uma obra que será “cada vez mais objeto de estudo, análise, referência e citações”, por ser “muito rica e complexa, que fala muito de nós mesmos, mesmo quando parece falar do homem universal” – diz o professor, que reforça que “faz bem ler Agustina, mesmo quando alguns dos seus livros parecem ter alguns obstáculos”, até porque nos leva “para mundos que são afinal os mundos do desconhecido, os mundos enigmáticos que queremos perceber e que nos ajudam a perceber”, pois “encontramos ali, talvez, o que possamos definir como a alma portuguesa, se é que isso existe” ou, por outras palavras, “um espaço muito nosso”.
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Porém, quem lhe presta melhor justiça é o Professor José Carlos Seabra Pereira, Diretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, que nela vê, com António José Saraiva, “o segundo milagre do século XX português e, a par do brasileiro Guimarães Rosa, a mais original das contribuições da prosa lusa para a literatura mundial” – com romance, novela e conto, teatro e guião fílmico, biografia romanceada e crónica, ensaio e especulação aforismática, literatura infanto-juvenil –, pois “o mundo sortílego que a sua imaginação, a sua penetração psicológica e a sua magia verbal erguem, não deixa de ser um universo existencial sintomaticamente revelado” logo com Mundo Fechado (1948). 
E este lustroso académico desfia, embora em linhas sintéticas, mas pertinentes, as caraterísticas mais marcantes dos livros da escritora pluriforme, cuja obra abraça o romance que assume as feições histórico-corográficas com o espelho do realismo ou a construção ficcionista, sempre com cor e unção e, por vezes, até com a vidência e a oracularidade. E diz o professor:    
O universo romanesco de Agustina é atravessado pela volúpia ante o sentido trágico da vida, mas também por um sentido de orgulho perante o insondável abismo da morte (decisivo, afinal, porque «Ah, sim, a verdadeira presença está na morte!»). No entanto, vislumbra-se porventura outro sentido em momentâneas fulgurações do fluxo congeminativo e sentencioso que distingue o discurso de Agustina.”.
Assenta em que as personagens de Agustina “parecem pulverizar-se ou enredar-se na disseminação que o mundo nelas provoca”, porém, ao assumirem a crise, “parecem dispor-se a partir”, vindo “a imaginação mediatriz do narrador (e da autora textual) a advertir contra a verosimilhança fácil do senso comum” e a libertar “para o salto, a cargo das personagens ou do leitor, do existir nas situações para o Ser da origem transcendente”.
Agustina, segundo Seabra Pereira, “sobressai pela singularidade genial, eticamente norteada e esteticamente criativa, que é a da seriedade brincada da escrita sob o princípio da incerteza – com seus estilemas de cognição inferencial e sentenciosa, que dotam o discurso de uma aura sapiencial e conferem à sua receção um índice abissal de profundidade ou um índice sideral de projeção (mas também certamente, de quando em vez, motivos de reticente questionação)”. E a arte do texto “deslumbra quase sempre pela feição fulgurante, desconcerta, às vezes, pelo salto epistemológico sem grandes preocupações de irrepreensível nexo ou insofismável motivação na cadeia textual, leva outras vezes a suspeitar, além do rasgo de autoparódia, de certa componente lúdica em que a enunciação se compraz e que deixa o leitor dividido entre julgar-se privilegiado pela partilha do rito iniciático e julgar em risco a sua confiada boa-fé”.
Depois, frisa que a obra agustiniana “não pretende insinuar-se como literatura edificante”, mas “levantar e trazer à perceção estética um mundo que supostamente tem uma força íntima como impulso pregnante e como tecido conjuntivo”. E, “pensando na particular forma (nela subentendidamente literária) do testemunho que o homem deve deixar na História, cada um iluminando ‘com paixão uma realidade’, Agustina estatui que ‘O escritor, desde os seus começos, tem que obedecer a uma ideia, que é a mesma pela vida fora’, como dizia em 1979”, tendo frisado noutra oportunidade a urgência de “primeiro escolher uma ética”, que “não exclui a estética” e onde “a nossa personalidade está centralizada”.
Chamando a atenção para “a coerência da obra de Agustina”, diz que “é tal que os vetores fundamentais que a distinguem até A Ronda da Noite (2006) podem vislumbrar-se já nas suas primícias”, sendo que, “em dois textos seminais, até há pouco conservados inéditos – o conto Colar de Flores Bravias, de 1947, e a novela Cividade, de 1951 – já germina a conexão matricial a uma opção ética que é congénita da criação estética ou que nem sequer existe fora da configuração estética”, conexão que “toma a forma de tensão, se não de antinomia, entre um princípio do desejo (de ser) e um princípio da conservação (da ordem social) e da consequente tensão entre a ética/estética da singularidade sibilina e a ética social”. Enfim, conclui o professor, “questão de ética do desejo estético e questão de estética da ética do desejo”.
Salientando que, na ficção agustiniana, as relações humanas dependem sobretudo “de pressupostos familiares, sentimentais, etnográficos, eróticos, temporais, e de afinidades ou repulsões filhas de uma eletividade nascida em profundezas inconscientes” (e pouco da “hierarquia económico-social”) – “porque o que se revelava essencial nessa ficção agustiniana era a sondagem aberta e a expressão plástica das possibilidades nos circuitos de analogias cognitivas e cósmicas” – acrescenta a tudo isso “as consequências do espaço, físico e humano, percetivo e imaginário, empírico e simbólico, em que se realizam cada personalidade e suas relações interpessoais – em especial, aquela peculiar correlação entre tempo ritual e espírito do lugar que distinguirá a ficção da autora de A Brusca e o interseccionismo visionário da sua escrita, tal como a valoração de “mundo fechado” e a relação com um “mundo fechado”.
Por fim, destaca-se a alusão “à irónica duplicidade de primazia atribuída à linguagem como meio supremo de proximidade humana e de primazia da opção pertinente pelo silenciar da fala”, que surge “na abstenção do agir e do avançar” (no sentido hoje polarizador da narrativa de Gonçalo M. Tavares). Mas o lustroso professor anota que, “mesmo aí, é indelével o tom nietzschiano da liberdade na Necessidade e, oriundo do Romantismo originário, o grande sopro de saga do Espírito humano, na peculiar fenomenologia da imaginação arquetípica (forma do conteúdo) e na forte intromissão da consciência narradora e sua voz imperiosa, torrencial, a um tempo ácida e lírica, cruel e misericordiosa (forma da expressão) – correlatos da tematização axial de ‘o anterior tempo anónimo, o tempo do sangue, dos presságios, do ancestral cuidado’ (Eduardo Lourenço) e da ‘refração do inconsciente coletivo’ (António Quadros).
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Em comunicado, a Ministra da Cultura lamentou a morte de Agustina Bessa-Luís, “autora de uma obra tantas vezes virada para o passado, mas sempre contemporânea, sempre presente, [que] marcou a escrita em português a partir dos anos 50, inaugurando um novo espaço ficcional, à imagem de outras grandes mulheres e que, em conjunto com ela, revolucionaram radicalmente a prosa em português, como Maria Velho da Costa ou Maria Gabriel Llansol”. E Graça Fonseca descreveu a longa carreira da escritora como “o legado de Agustina” que é “vasto, composto por personagens, visões da história, lugares e, acima de tudo, um percurso pessoal e autoral, únicos e exemplares”.
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Entretanto, vieram figuras gradas da sociedade a elogiar a escritora, o que nunca tinham feito, mas que fizeram agora em nome do social e politicamente correto. Não esqueço que chegou a ser uma das três estrelas (Agustina, Fernando Pessoa e Bernardo Santareno) do programa de Literatura Portuguesa do 4.º Curso de Literatura Portuguesa do 12.º ano, quando este foi criado. A reforma de Roberto Carneiro deixou-a no acervo de obras que a escola podia adotar, mas a simplificação dos programas de Português de Manuela Ferreira Leite, com vista aos exames nacionais que passaram a realizar-se a partir de 1996, deixou A Sibila fora das prateleiras do supermercado. Por isso, sabe a pouco e a hipocrisia o hodierno elogio rasgado vindo de alguns.
A revista Sábado, saída hoje, dia 6 de junho, realça que a escritora, que escrevera à mão todos os seus livros, “esteve mais de uma década doente e retirada da vida pública, ao ponto de ser ostensivamente ignorada pelo meio cultural e pela generalidade dos media”, tanto assim que, “durante a participação na feira do livro de Guadalajara (México, 2018) – com uma comitiva de 40 escritores e mais de um milhão de euros gastos – não houve qualquer menção à maior escritora portuguesa, ainda viva”. Aliás, a Guimarães Editores pôs fim a uma relação com a autora que datava de 1954 (Parece que já não lhe reconheci interesse editorial!).
Era, segundo a Sábado, aquela que, vendo um papel em branco, lhe apetecia a escrever, “muitas vezes até na folha de rosto dos livros” em que lhe pediam “para fazer um autógrafo” e que, apesar de nunca ter frequentado a Universidade, as movidas estudantis, as tertúlias de literatos”, se tornou “mais culta, mais preparada, mais inteligente”, porque, na mulher que considerava a escrita como “uma confissão espontânea que coloco no papel, “não havia espaço para informações’, mas sim para conhecimento com todo o cortejo de glória e tragédias que ele traz”.
A escritora Hélia Correia recordava num colóquio na UTAD (Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro), em dezembro pp, quão assombroso era o conhecimento de Agustina, “que parecia saber tudo e sobre tudo tinha uma opinião, uma piada, uma tirada irreverente, uma conclusão na ponta da língua, como as suas personagens”. E, num encontro de escritores no Brasil, o poeta Hélder Macedo perguntou-lhe o que ela fazia que não tinha inimigos, ao que Agustina respondeu, gargalhando, que não os tinha, mas que os fazia. Ora, durante as seis décadas em que escrevia romances, peças de teatro, biografias, memórias, literatura infanto-juvenil, ensaios, guiões para filmes, crónicas, artigos de opinião, “foi sempre difícil de engolir pelo meio literário que tende a desdenhar dos que insistem em não idolatrar os deuses que ele insiste em proclamar”. Mesmo entre aqueles de quem o desdém não era de esperar, ele aflorava. Assim, a Sábado relata:
Quando, em 1948, publica o seu primeiro romance, ‘Mundo Fechado’, tinha apenas 26 anos, mas não se recolheu ao anonimato à espera de elogios. Mandou o livro para os maiores escritores vivos da altura: Miguel Torga, Aquilino Ribeiro, Teixeira de Pascoais. Torga foi o único que não lhe respondeu. Ofendida, Agustina mandou-lhe nova missiva onde o informava de que, quando passava junto à casa dele, tinha vontade de lhe atirar pedras aos vidros das janelas”.
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Enfim, morreu a escritora portuguesa de maior fôlego romanesco (tanto no romance histórico como no da pura ficção), das mais genuínas em literatura infanto-juvenil e a mais intensa e plurifacetada; a mulher completa que alternava a escrita com a costura, sendo ela própria quem arranjava os seus vestidos e chegou a fazer peças de lingerie; a romancista de A Sibila ou de A Ronda da Noite; aquela que foi mandatária nacional da candidatura presidencial de Freitas do Amaral, diretora de O Primeiro de Janeiro, membro da Academia de Ciências de Lisboa, na Classe das Letras, da Academie Européenne des Sciences, des Arts et des Lettres, de Paris, e da Academia Brasileira de Letras; aquela que recebeu inúmeros prémios, algumas condecorações e o doutoramento honoris causa pela Universidade do Porto e pela UTAD – mas que dizia que “nenhum prémio, nem sequer o Nobel, a fazia tão feliz como comprar um vestido novo”.
Dom Manuel Linda, Bispo do Porto, que presidiu à missa exequial na Catedral do Porto, evocou, na homilia, a religiosidade da escritora natural de Vila Meã, Amarante, destacando “a condição humana” como uma das “marcas” da sua “vastíssima obra literária”, afirmando saber que “se prostrava muitas vezes sobre um oratório que tinha em casa”. E o prelado rezou:
Obrigado, meu Deus, que nos deste uma pessoa com tão alta categoria intelectual, religiosa e cristã, e obrigado, Agustina, por esta extraordinária lição de teologia que a tua vida acabou por nos dar”.
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Resta aguardar pela publicação dos inéditos que a única filha de Agustina, Mónica Baldaque, anunciou que seriam em breve publicados, ela que, em 2013, referiu que estava a ser organizado o arquivo de Agustina, onde há “centenas de papelinhos escritos por si”, notas que registava em faturas ou agendas e “aforismos, pensamentos que iria utilizar na obra”.
2019.06.06 – Louro de Carvalho

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

A partir duma inscrição na igreja do Alandroal

O Diário de Notícias de hoje publica uma referência de Manuel Carlos Freire sob o título Lápide em igreja desvenda mistério sobre o cronista Fernão Lopes”.
Atribui ao acaso o facto de o investigador João Torcato ter reparado, há dois anos, na inscrição tumular existente à entrada da igreja matriz do Alandroal, vindo agora a publicar, com o historiador José d’Encarnação, os fundamentos da tese que lhes parece resolver um enigma histórico. Com efeito, ninguém tem sabido dizer ao certo onde nasceu e onde está sepultado o cronista. E querem dizer-nos que este “mistério com mais de 500 anos na História de Portugal, sobre quem foi o cronista Fernão Lopes, pode ter chegado ao fim com a descoberta desse nome numa lápide à entrada da Igreja Matriz do Alandroal, vila do distrito de Évora”.
João Torcato, investigador que trocou a vida na capital pelo regresso ao Alandroal, disse ao DN:
Acho que é uma contribuição definitiva para estudar um homem sobre cuja vida não se sabe nada, terra pequena e perdida no meio da planície alentejana onde esta descoberta é uma mais-valia em termos culturais e turísticos”.
A descoberta será, pelos vistos, publicada amanhã na edição online da revista especializada Al-Madan, em artigo coassinado por Torcato e por José d’Encarnação, contactado pelo primeiro enquanto especialista em epigrafia para analisar as inscrições naquela pedra mármore.
Encarnação, por seu turno, declarou ao DN que “nunca se tinha pensado nem se sabia onde Fernão Lopes estava sepultado”. Agora, embora com as reservas naturais dos investigadores, justifica a conclusão de os restos mortais do 4.º Guarda-Mor da Torre do Tombo estarem na Igreja de Nossa Senhora da Graça com o conjunto de factos que até aqui não tinham explicação.
Apontam os dois especialistas para a hipótese de ser o cronista por terem “uma explicação para o privilégio, para a importância dada a essa zona” por Fernão Lopes nos textos que escreveu, sendo que Torcato evoca os 9 capítulos da Crónica de Dom João, “o da Boa Memória” que o autor dedica ao Alandroal numa época – a crise de 1383-1385 – em que ali “praticamente não houve nada de relevante” e quando “o país estava num estado de guerra absoluto”. E aduz como exemplos as batalhas dos Atoleiros, Trancoso, Aljubarrota e Valverde.
Para Fernão Lopes, considerado o fundador da historiografia portuguesa, apontava-se até agora para Lisboa como local de nascimento (entre 1380 e 1390) e morte (cerca de 1460), já depois de se confessar “velho e flaco”. Além de responsável pelos arquivos da Torre do Tombo, foi o autor das crónicas sobre os reis Dom João I, Dom Pedro e Dom Fernando, bem como de outros monarcas cujos textos terão desaparecido. A sua escrita, que era marcada por uma objetividade excecionalmente fundamentada para a época, revestida dum realismo descritivo invejável e, por vezes, marcada pela alternância entre a descrição estática e o movimento, com uma indizível veia narrativa, rompia com as tradições da época onde, como lembra João Torcato, os membros do povo – sobretudo na sua componente de arraia-miúda – passaram a ser protagonistas muitas vezes. Era o escritor “cuidadoso e meticuloso”, que procurava escrever pautado só pela “certidão da verdade”, pelo que parece “estranho” falar tanto do Alandroal naquele período crítico da independência face a Castela, insiste o artista plástico.
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Diz o aludido articulista que João Torcato, presidente da cooperativa sociocultural Mouro M’Fez, reparou, por acaso na inscrição ainda legível naquela pedra tumular “quando ia a sair da igreja, que estava fechada para limpezas. Tendo já estudado várias coisas sobre Fernão Lopes, percebera que havia um vazio tão grande sobre a vida dele, o que era estranho, pelo que terá começado “a estudar a questão com mais profundidade”.
Refere que o caso “tem sido um processo de reflexão” com algum secretismo, começando a fazer sentido o que ia lendo à luz daquela hipótese. E explica o “facto de ainda ninguém ter identificado a tumba” com a inscrição “Fernão Lopez” por a porta tapar o nome quando se “abre para a direita” – o que “também terá garantido a legibilidade daquela primeira linha de texto na pedra tumular, quando a generalidade das outras inscrições quase desapareceu devido ao repisar dos crentes desde os meados do século XV”.
José d’Encarnação perfilha essa hipótese sobre o “porque é que nunca se tinha visto a inscrição” que, segundo os investigadores, “corresponde ao formulário habitual do século XV” e em que o apelido “Lopes” se grafava “com Z, como era normal na época”. E até agora, “não havia nada escrito sobre a existência da lápide” com o nome do cronista naquela igreja matriz.
Segundo Encarnação, é legítimo questionar se aquele nome pode corresponder a outra personagem que não o famoso cronista. Todavia os elementos informativos existentes levam a concluir que só pode ser o autor da Crónica de Dom João I.
Com efeito, além de o cronista referir exaustivamente a vila do Alandroal, a única vila do Alentejo cujo brasão de armas é semelhante ao da Casa de Avis (dominante naquela zona fronteiriça), existia um convento que funcionava como escola – o que explicará a sua erudição e terá permitido a alguém de origem humilde chegar a Guarda-Mor da Torre do Tombo – e o tornou conhecido pelos responsáveis da Ordem de Avis.
Para João Torcato acresce o pormenor de as pessoas nessa época “serem sepultadas na terra natal” para reforçar a tese de que Fernão Lopes era natural da vila do Alandroal. Porém, o investigador diz estar “fora de questão” requerer o levantamento da urna para investigar se ainda ali estão algumas ossadas e a quem pertencem, embora admita essa possibilidade se a iniciativa “partir do mundo académico”, pois, segundo Torcato, “o facto de a igreja matriz do Alandroal ter sofrido várias obras de remodelação ao longo destes séculos e de a própria pedra tumular estar partida não dá garantias de que ainda haja algo por baixo”.
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Fernão Lopes, embora não abandone o conceito providencialista da História (v.g: diz que as tribulações de Lisboa cercada não foram piores e mais duradouras porque aprouve a Deus apressar os acontecimentos), na atividade historiográfica redimensiona o género cronístico limitando as narrativas tradicionais panegíricas. Graças à crise dos valores, emergente na revolução de Avis, Lopes desvia-se das formas tradicionais da crónica, por as achar insuficientes “para explicitar uma nova ordem distinta da senhorial vigente”, e abre espaço de autonomia à narrativa histórica com uma metodologia em que seja viável chegar à “verdade nua”. Assume a posição de autoridade, de distanciamento e isenção, atributos capazes de detetar e controlar as subjetividades do discurso (mundanall afeiçom) e chegar à “certidão da verdade”. E estabelece uma hierarquia de relevância nos factos, discernindo o que é de narrar e privilegiando a descrição do que torna a história mais ordenada e inteligível, sem distrativas minúcias e detalhes. Contudo, mais do que a busca da verdade – relevando o testemunho documental – põe-se na posição de intérprete dos acontecimentos, tentando desfazer as contradições entre as fontes e esclarecer para a posteridade o sentido e propósito do encadeamento dos factos históricos, descartando como mentirosas, parciais ou fantasiosas as versões divergentes da sua.
Apesar de designado oficialmente para compor uma história portuguesa, a sua historiografia não é meramente regiocêntrica. Mesmo que ponha o rei no centro da história, a sua narrativa evidencia genuíno interesse pelo povo, colocando-o como importante protagonista nas transformações sociais, para lá de burilar de forma inédita aspetos psicológicos, económicos e humanistas que influem nos agentes e rumos da História. O grande espaço que deu ao povo nas crónicas, muitas vezes identificando-se com ele e considerando-o a expressão do mais lídimo espírito português, reflete-se no estilo, enraizando a sua escrita na expressão oral em jeito coloquial e no universo do agir popular. Privilegiou e prestigiou o vernáculo quando a maioria dos eruditos produzia textos em latim e foi um representante do saber popular. No entanto, o cronista foi um dos primeiros cultores em Portugal dum novo tipo de saber de cunho humanista, universalista, classicizante, que estava então a surgir.
Tão grande é a preocupação pela imparcialidade que assegura expressamente não se topar nas suas páginas a formosura das palavras, mas a nudez da verdade. Mesmo assim, a prosa direta, desembaraçada e cheia de charme, o magistral domínio das técnicas narrativas, os originais modos de estabelecer significados por via indireta, a capacidade de evocar cenas complexas, movimentadas e eivadas de dramatismo, prendendo a atenção do leitor, a compreensão do drama humano, entre outros predicados, tornam as suas crónicas as maiores obras-primas da nossa literatura medieval, que, apesar da distância dos séculos, continuam a exercer fascínio sobre leigos e especialistas. Segundo António José Saraiva, a prosa fernandina “conserva o tom ‘falado’ dos romances de cavalaria”, mas enditado por vocabulário e imagens reveladores de grande sentido do concreto, e “com os recursos da oratória clerical, tocada oportunamente por um arrepio de solenidade bíblica, como quando fala da boa e mansa oliveira portuguesa”. O tom é repassado de emoção, que não exclui a ironia, como se verifica na descrição do cerco de Lisboa. O dito popular, a anedota e a majestade de tom adequado aos grandes momentos sucedem-se naturalmente, sem eclipsar o tecnicismo retórico epocal, que magistralmente dominava. E parece desprender-se das suas palavras uma poderosa voz, que ora troa de indignação, ora se espraia com solenidade, ora graceja – mas sempre anímica e de longo fôlego.  
Porém, embora o seu tributo primeiro seja à verdade, não pôde furtar-se, em certo modo, a cair no erro que apontou a outros. Se, como dizia, os afetos (mundanall afeiçom, ampla categoria onde incluía as predisposições e condicionamentos psicológicos, sociais e políticos do homem) levavam os historiadores a legar visões parciais e erróneas da História, ele quis assumir o ónus de remediar aquela tendência e a não rara confusão existente entre as fontes, pretendendo deixar a versão verdadeira, isenta e definitiva dos factos, o que tornou canónica a sua obra. Todavia, o compromisso com a verdade nua foi relativizado em vários momentos. Fernão Lopes criou um discurso hegemónico e comprometido com o sistema, de que surge como influente legitimador e quase como juiz. Sendo um alto oficial do Reino, esperava-se que tecesse a narrativa histórica com exaltações dos feitos da realeza, como era costume. Porém, tais loas, longas e prolixas nas crónicas anteriores, são muito económicas na sua obra, considerando-as retóricas e alheias à tarefa do bom historiador, que deve focar-se no essencial.
Ademais, reconhecia que tais loas eram exageradas não apenas na linguagem, mas também no conteúdo. Por isso, se escusou a apontar, por exemplo, as insuficiências do Mestre de Avis, a quem se confiou, um pouco por acaso, o governo do Reino, embora em muitas passagens a sua apreciação do rei fosse simpática e compassiva, considerando-o como mais uma peça, presa e limitada em vários sentidos, na grande engrenagem do Destino, como todos os outros homens. 
As numerosas situações em que o rei revela pusilanimidade, calculismo, falta de eficácia na guerra e de capacidade de decisão durante a crise, displicência mal disfarçada ante os pequenos, não se incluem no cômputo dos grandes feitos ou das grandes virtudes. São traços da construção da personagem que o cronista vai construindo através da sua escrita inquieta, incluindo vários outros traços a completar-lhe a verosimilhança realista, “como a inteireza da amizade, a camaradagem afetuosa, a pertinácia perante os desaires, a prodigalidade na distribuição das mercês”, como refere Teresa Amado. E a narrativa passa da admiração ao enternecimento e deste à ironia ou à censura.
Não obstante, Dom João terá sido um bom rei, mas o herói da guerra foi o Condestável, como o herói do levantamento popular foi o povo de Lisboa. O Mestre de Avis transita neste período turbulento cumprindo as funções que lhe foram confiadas, com uma certa dignidade, com cuidado em não arriscar demasiado e, sobretudo, com o mérito de saber escolher os seus colaboradores diretos, nomeadamente João das Regras e Nun’Álvares. No entanto, a crónica, dá ao rei uma relação privilegiada com o autor, que tanto absorve o sentimento popular pelo rei que era ‘tão amado do povo’, como o analisa com o seu sólido bom senso e a sua lucidez plebeia.
E há passagens em que o cronista aborda valores do código de ética ideal dos cavaleiros e cortesãos, aproveitando para criticar vícios da aristocracia, como a vanglória, a inveja, a avareza e a gula. A sua descrição histórica era tingida também dum claro posicionamento político e social e dum propósito moralizante. Segundo Teresa Amado, o seu “fracasso” essencial em construir uma narrativa inteiramente “verdadeira” e a contradição entre a teoria e a prática provam-se no confronto entre o que os documentos efetivamente atestam e a narrativa que ele deixou. Assim, se fôramos a selecionar os factos certificáveis, não obteríamos a crónica, mas uma pouco extensa lista de nomes, datas, parentescos e acontecimentos públicos. Ora, porque ele foi um homem ente os homens, sucumbe aos desvios inevitáveis provocados pela mundanall afeiçom, mesmo que tenha porfiado repetidas vezes a sua própria isenção.
Apesar da parcialidade inevitável em todo o historiador, da qual se quis livrar, conseguiu, na sua obra, um controlo muito maior sobre as variáveis que os seus antecessores, revelando uma façanha historiográfica e um enorme pioneirismo em termos de metodologia e de credibilidade. 
Testemunha dum período de transição política e de afirmação da nacionalidade, soube trazê-lo até aos nossos dias e, em hipotipose, pôr-nos diante dos olhos os factos que desencadearam inúmeras transformações em Portugal e no mundo. Não importando se a sua palavra é histórica ou literária, importa saber que permanece. E foi a partir dela que vimos evidenciar-se a ideia da nacionalidade, da identidade coletiva verdadeiramente portuguesa. Teresa Amado diz que as suas crónicas “são atípicas” pela novidade face à evolução e pelo talento, inteligência e subtileza da compreensão “que não se reproduziram nos cronistas que se lhe seguiram”.
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Por tudo isto, é justo que o enigma de Alandroal se desvende e o cronista seja mais estudado e apreciado!

2018.01.26 – Louro de Carvalho