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domingo, 21 de julho de 2019

Uma liturgia marcada pelo valor da hospitalidade



O Evangelho do 16.º domingo do Tempo comum no Ano C (Lc 10,38-42) situa-nos na caminhada de Jesus com os discípulos para Jerusalém (9,51-19,27), onde vai viver os últimos acontecimentos da Sua passagem pela terra. Durante o percurso, alojou-se em casa de amigos e pessoas bem conhecidas. Desta feita, visita a casa das discípulas Marta e Maria, que viviam em Betânia com o irmão Lázaro (cf Jo 11).  
O episódio da perícopa em referência integra uma estrutura quiástica com a anterior (Lc 10, 25-37): Palavra de Deus sobre a caridade (amor a Deus e ao próximo); prática espelhada na parábola do samaritano; relato da preocupação de Marta para com o próximo; e Palavra de Cristo sobre a necessidade primária da fé para o cristão. Quer dizer que a prática cristã só tem sentido se estiver ensanduichada pela fé e pelo amor, que se quer não interesseiro, lúcido, afetivo e efetivo.
O nome “Marta”, sendo a forma feminina de “marêh” (senhor) significa “senhora”; e Maria aqui não é a de Magdala, mas a que se identifica no 4.º Evangelho (Jo 1,1ss; 12,1-11), pois a descrição destas irmãs assim o leva a inferir. A evocação da viagem, do caminho (en dè tô poreúesthai autoús) neste episódio é de caráter estilístico, pois, do ponto de vista lucano, Jesus ainda não está em Betânia, onde residem as duas irmãs. Marta andava muito atarefada, pois era provável que no encalço de Jesus chegassem mais hóspedes. “Só é necessária uma coisa” – reza o texto atual, o que não é concorde com a tradição manuscrita: Só umas poucas coisas são necessárias, mas certamente só uma, referem alguns manuscritos, enquanto outros rezam Só umas poucas coisas são necessárias (os mais antigos) e outros, Só uma coisa é necessária. Enquanto a segunda versão manuscrita parece indicar que são precisas apenas algumas coisas sobre a mesa para comer, pois estamos no contexto dum banquete, a terceira aponta para a necessidade de algo mais espiritual, sendo que a primeira congraça as duas hipóteses de insinuação.   
Marta, que recebe Jesus, preocupa-se em acolhê-lo e oferecer-lhe uma generosa hospitalidade, enquanto Maria, sentada aos pés do Senhor, na posição e atitude de discípula (8,35; At 22,3), o escutava. Marta, envolvida pelas ocupações quotidianas, reclama com o Mestre, mas é advertida afetuosamente: “Marta, Marta! Tu ocupas-te com muitas coisas, porém uma só é necessária. Maria, ao escutar a palavra, manifesta em Jesus, escolhe a melhor parte que não lhe será tirada. A escolha do único necessário que é Cristo, Amor e Verdade do Pai, assegura o bom êxito do serviço, da diakonia cristã. Aos pés do Senhor, Maria aprende a escuta e ação em consonância com o projeto de vida e salvação. E revela-se aqui o caminho do discipulado caraterizado pela fidelidade à palavra: Felizes os que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática (11,28). Alicerçadas na Palavra, contemplação e ação tornam-se dimensões complementares ao serviço do Reino. O encontro com a Palavra torna fecundo o serviço generoso e compassivo ao próximo. Sem a disposição para escutar o Mestre, corre-se o risco de escolher a parte menos boa, arriscando o desvio do caminho do Reino de Deus.
Marta aparece como dona de casa diligente, ativa, preocupada em bem receber os hóspedes. Sente que nem tudo será perfeito, que precisa de ajuda. Intervém junto de Jesus enquanto Ele fala, pedindo que mande Maria a ajudá-la. Mostra-se agastada por lhe parecer, talvez injusto, que todo o trabalho recaia sobre ela e que Maria seja dispensada dele.
A resposta de Jesus é bastante misteriosa: Marta, Marta andas inquieta e agitada. Uma só coisa é necessária … Maria escolheu a melhor parte que não lhe será tirada. Jesus censura a inquietação e a agitação de Marta, que faz muitas coisas ao mesmo tempo; a preocupação de bem receber o seu hóspede domina tudo o resto, quando o importante já não é receber bem o Senhor, mas fazer com que a receção seja um êxito. Marta, invadida pelas preocupações acaba por inverter o valor e a importância das coisas. O zelo tinha-a levado longe de mais: o que era acessório tomara o lugar do essencial.
Há, no texto, um pormenor relevante, o da “posição” de Maria: “sentada aos pés de Jesus”. É a posição típica do discípulo diante do mestre (cf Lc 8,35; At 22,3). É situação surpreendente num contexto sociológico em que as mulheres tinham um estatuto de subalternidade e viam limitados alguns direitos religiosos e sociais; por isso, nenhum “rabbi” da época se dignava aceitar uma mulher no grupo dos discípulos que se sentavam aos seus pés para escutar as suas lições. Lucas (que procura dizer que Jesus veio libertar e salvar os que eram oprimidos e escravizados, nomeadamente as mulheres) mostra, neste episódio, que Jesus não faz qualquer discriminação: o facto decisivo para ser seu discípulo é estar disposto a escutar a sua Palavra.
Não raro, o episódio foi lido em chave de oposição entre ação e contemplação; no entanto, não é isso que está em causa. Lucas não está, nesta catequese, a explicar que a vida contemplativa é superior à vida ativa; está é a dizer que a escuta da Palavra de Jesus é o mais importante para a vida do crente, pois é o ponto de partida da caminhada da fé. Isto não significa que “fazer coisas”, “servir os irmãos” não seja importante; mas significa que tudo deve partir da escuta da Palavra, pois é essa escuta que nos projeta para os outros e nos faz perceber o que Deus espera de nós. Assim, a experiência de Marta é preciosa, pois é um aviso salutar para nós, que não devemos confundir os fins com os meios nem pôr estes acima daqueles. Um único fim é importante: servir o Senhor e não servirmo-nos do dele para as nossas ambições ou desejos pessoais. O próprio serviço do Senhor pode contribuir para isso se não estivermos atentos.
Quantas vezes, até quando nos empenhamos nas obras de apostolado (catequese, liturgia, pastoral social, pastoral familiar, acolhimento, etc.) não nos procuramos mais a nós próprios, ao nosso êxito pessoal do que propriamente a servir os outros ou a Deus!
***
A 1.ª leitura (Gn 18,1-10a) apresenta o acolhimento de Abraão e Sara aos três visitantes, que manifestam a salvação de Deus. A hospitalidade, oferecida pelos pais da fé, é recompensada pela promessa de um filho, o maior desejo de Abraão.
Os capítulos 12-36 do Génesis são textos sem grande unidade e sem caráter de documento histórico ou de reportagem jornalística. Estamos ante uma mistura de “mitos de origem” (narravam a chegada dum “fundador” a um determinado local e a tomada de posse daquela terra), de “lendas cultuais” (relatavam como um deus qualquer apareceu em determinado local a um desses “fundadores” e como esse lugar se tornou um local de culto) e de relatos onde se expressa a realidade da vida nómada durante o 2.º milénio antes de Cristo. Na origem do texto em referência estará uma antiga “lenda cultual” que narrava como três figuras divinas terão aparecido a um cananeu anónimo junto do carvalho de Mambré (perto de Hebron), como o cananeu os acolhera na sua tenda e como fora recompensado com um filho pelos deuses (Mambré era um santuário cananeu, já no terceiro milénio a.C., antes de Abraão aí ter chegado). Mais tarde, quando Abraão ali se estabeleceu, a lenda cananeia foi-lhe aplicada e ele passou a ser o herói desse encontro com as figuras divinas.
No séc. X a.C. (reinado de Salomão), os autores jahwistas recuperaram essa velha lenda para apresentarem a sua catequese. No estado atual do texto, a personagem central é Abraão, a figura que os catequistas jahwistas apresentam aos israelitas da época de Salomão, como um modelo de vida e de fé.
Abraão está “sentado à entrada da tenda, na hora de maior calor do dia”. De súbito, aparecem três homens diante de Abraão, que os convida a entrar, não se limitando a trazer-lhes água para lavar os pés, mas improvisando um banquete com pão recém-cozido, um vitelo “tenro e bom” do rebanho, manteiga e leite. Depois, fica de pé junto deles, na atitude do servo vigilante para que nada falte aos convidados: é a lendária hospitalidade nómada no seu melhor. Abraão surge como o modelo do homem íntegro, humano, bondoso, misericordioso, atento a quem passa e disposto a repartir com ele, de forma gratuita, o que tem de melhor.
Terminada a refeição, é anunciada a Abraão a próxima realização dos seus mais profundos anseios: a chegada dum filho, o herdeiro da sua casa, o continuador da sua descendência. Aparentemente, o dom do filho é a resposta de Deus à ação de Abraão: o autor jahwista quer dizer-nos que Deus não deixa passar em claro, mas recompensa uma tal atitude de bondade, de gratuitidade, de amor.
Complementarmente, fica espelhada a atitude do verdadeiro crente face a Deus. Ao longo do relato – sem que fique expresso se Abraão tem ou não consciência de que está diante de Deus – transparece a serena submissão, o respeito, a confiança total (num desenvolvimento em que Sara ri diante da “promessa”, mas Abraão conserva um silêncio digno, sem manifestar qualquer dúvida): tais são as atitudes que o crente é convidado a assumir diante deste Deus que vem ao encontro do homem.
Atente-se, também, na sugestiva imagem de um Deus que irrompe repentinamente na vida do homem, que aceita entrar na sua tenda e sentar-Se à sua mesa, constituindo-Se em comunidade com ele. Por detrás desta imagem, está o significado do comer em conjunto: criar comunhão, estabelecer laços de família, partilhar vida. O jahwista apresenta, assim, um Deus dialogante, que estabelece laços familiares com o homem, com quem deseja estabelecer uma história de amor e de comunhão. O jahwista aproveitou a velha “lenda cultual” e a figura inspirativa de Abraão para apresentar aos homens do seu tempo o modelo do crente: ele é aquele a quem Deus vem visitar, que o acolhe na sua casa e na sua vida de forma exemplar, que põe tudo quanto possui nas mãos de Deus e que manifesta, com este comportamento, a sua bondade, humanidade, confiança e fé; ele é aquele que partilha o que tem com quem passa e cumpre em grau extremo o sagrado dever da hospitalidade. A realização dos anseios mais profundos do homem é a recompensa de Deus para quem age como Abraão.

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A atitude de hospitalidade perpassa por toda a celebração litúrgica. Deus acolhe-nos, nós acolhemos Deus. A iniciativa é sempre d´Ele que nos ama primeiro. A hospitalidade implica também estar à mesa: Ele está à nossa porta e bate é preciso ouvir a sua voz e abrir, assim cearemos juntos (antífona da comunhão; cf Ap 3,20). Não é comer por comer, mas a partilha da mesa implica em nossa vida partilhar do mesmo destino de Jesus Cristo e para isto é necessário que Ele nos ajude a despojarmos do velho homem e para uma vida nova (oração pós-comunhão).
Para fomentar um ambiente agradável entre as pessoas é indispensável o cultivo dos bons hábitos, chamados vulgarmente virtudes humanas. Entre muitas outras, encontra-se a virtude da hospitalidade, que nos aparece com grande relevo na Sagrada Escritura e é ainda em muitos lugares tida em grande conta. No entanto, podemos perguntar até que ponto ela é possível nos nossos ambientes. As pessoas debatem-se com magros rendimentos, territórios destruídos pelas catástrofes (naturais e humanas), falta de tempo, habitações reduzidas, condicionamentos dos horários de trabalho e séria ameaça à segurança que aconselha a não receber em casa pessoas estranhas. Ademais, parece que é menos necessária hoje a hospitalidade. As pessoas deslocam-se rapidamente dum lugar para o outro, não tendo necessidade de se hospedarem fora de casa.
Não obstante, a hospitalidade, como todas as virtudes, é de todos os tempos. O importante é configurá-la aos tempos em que vivemos, encontrar formas novas de a viver.
Abraão, que recebeu três misteriosas personagens no seu acampamento, quando estava à porta da tenda, por causa do calor sufocante que se fazia sentir, surge como modelo da hospitalidade.
Uma virtude humana indispensável. “Abraão estava sentado à entrada da sua tenda, no maior calor do dia. Ergueu os olhos e viu três homens de pé diante dele. Logo que os viu, deixou a entrada da tenda e correu ao seu encontro.”. Abraão levanta-se prontamente, logo que se dá conta da presença os três personagens. Esta prontidão deixa-nos entrever que estava já habituado a fazê-lo. A hospitalidade, virtude humana que consiste em acolher bem os outros, acolhê-los e partilhar a vida com eles, traz consigo um grande número de virtudes-satélites.
Entre estas, contam-se a cordialidade e a simpatia. Abraão não espera que lhe venham ao encontro e peçam algo de que necessitam. Aproxima-se pressuroso, manifestando a sua alegria em recebê-los. Com efeito, é preciso que as pessoas sintam a nossa alegria em recebê-las.
Outra virtude conexa com a hospitalidade é o espírito de sacrifício. Era a hora mais quente do dia. Numa situação destas, somos tentados a pensar só em nós procurando evitar a temperatura incómoda, desejando que ninguém nos incomode e nos deixem em paz. Ora, sem esta dimensão do sacrifício, as pessoas tornam-se ilhas fechadas e isoladas, tornando impraticável a convivência humana. E o Senhor bate-nos à porta em horas incómodas, misteriosamente presente nos nossos irmãos.
Depois é necessária a abertura do coração. Mais do que abrir a porta de casa ou a bolsa, a hospitalidade consiste em abrir as portas do coração, em encontrar tempo e paciência para escutar e aceitar a partilha de problemas, dores ou preocupações. Abraão nem sequer tem casa para receber, porque vive ainda em nomadismo. Mas nós, hoje temos muitas oportunidades de praticar esta virtude. O isolamento, sobretudo dos mais idosos e doentes que são forçados a permanecer em casa é realidade gritante; muitas pessoas sentem-se asfixiadas pelos problemas da vida e vão até ao desespero. Precisam de quem as oiça. Fomenta-se o voluntariado e as obras de apostolado que oferecem ajuda e são uma forma preciosa de viver em solidariedade, porque trabalham sem qualquer recompensa e apoiam-se num compromisso de continuidade.
Acolher com generosidade. “Mandarei vir água, para que possais lavar os pés e descansar debaixo desta árvore. Vou buscar um bocado de pão, para restaurardes as forças antes de continuardes o vosso caminho, […].”. Abraão segue os costumes do seu tempo. Ofereceu aos misteriosos visitantes água para lavar os pés da poeira dos caminhos e o melhor que tinha nos seus rebanhos e na tenda para lhes preparar uma refeição.
No acolhimento é preciso situar-se bem entre dois extremos: esbanjamento, que tem como origem a tentação da vaidade, de aparentar um luxo que não existe, o que pode acontecer também com o tempo, ocupando espaço que pertence à oração, ao trabalho profissional, aos deveres de estado, etc.; e mesquinhez, que denuncia um coração tacanho, que leva a fazer o menos possível para receber alguém, não estando o problema tanto no que se dá, mas no modo como se dá. A falta de tempo, de disponibilidade, para acolher, pode ser uma máscara para encobrir o egoísmo. Para nos defendermos desta tentação, pensemos em que gastamos o tempo. Talvez houvesse outras coisas menos importantes que poderiam ter cedido o seu lugar a um acolhimento. É generosidade acolher com um rosto sereno quando temos muito que fazer e o tempo é reduzido e quando estamos em más condições de saúde ou cansados ou temos coisas urgentes à nossa espera.
Deus (e Jesus, a sua melhor imagem) recompensa a hospitalidade. “Depois eles disseram-lhe: ‘Onde está Sara, tua esposa?’. Abraão respondeu: ‘Está ali na tenda’. E um deles disse: “Passarei novamente pela tua casa daqui a um ano e então Sara tua esposa terá um filho’.”. Esta promessa aparece diretamente relacionada com o gesto de hospitalidade que Abraão tivera para com eles. Também a viúva de Sarepta ofereceu o último punhado de farinha e as últimas gotas de azeite para que se fabricasse o pão com que Elias matasse a fome, e nunca mais o alimento lhe faltou, até que acabou a seca naquela terra, pois Deus nunca se deixa vencer em generosidade e recompensa sempre a hospitalidade feita por amor d’Ele.
A primeira recompensa que Deus nos oferece pela hospitalidade é uma grande paz e alegria interiores. É o que deve ter sentido Abraão e Sara, depois deste acolhimento caloroso. É alegria de ver o outro feliz, e ter vencido o egoísmo, fazendo algo que talvez nos custasse. Depois, o coração de quem pratica esta virtude dilata-se, cresce na sua capacidade de amar e de vencer o egoísmo que nos fecha em nós mesmos.
A hospitalidade é uma das obras de misericórdia e merece recompensa eterna. No Evangelho do juízo final, Jesus faz consistir o julgamento apenas sobre a caridade que se exprime por estas obras. “Vinde, benditos de Meu Pai…!” (Mt 25,31-46).
E o Evangelho mostra à saciedade o valor da hospitalidade, que merece a recompensa eterna e já neste mundo a recompensa a cem por um. Jesus lava os pés aos discípulos e quer que eles façam o mesmo aos outros, aceita a unção duma pecadora, tal com aceitou o convite do fariseu para um banquete (Lc 7,37-50), como aceitou a unção de Maria de Betânia (Jo 12,1-11). 
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A hospitalidade pratica-se entre famílias com relações de amizade, que se encontram em almoços, jantares, passeios em comum e, mesmo, acolhendo-se na casa uns dos outros.
Quando as viagens eram longas e penosas, esta espécie de hospitalidade era mais necessária. A mãe de São João Bosco e os pais de São João Maria Vianney recebiam em sua casa viajantes, pobres e desertores dos exércitos, ofereciam-lhes comida e dormida. Hoje, porém, por causa dos exigentes horários de trabalho, habituações reduzidas ao mínimo indispensável, e até por causa da falta de segurança crescente, fica desmotivada esta espécie de hospitalidade. Ademais, parece que agora é menos necessária, por as viagens serem rápidas, e não se dispõe de tempo. Mas há formas de hospitalidade e de acolhimento muito necessárias no nosso tempo.
Hoje a hospitalidade concretiza-se em encontrar tempo e disposição para os outros: visitando idosos e doentes que passam o dia sós ou em lares perdidos no anonimato, embora identificados; disponibilizando-se para ouvir os que sofrem e iluminar o seu sofrimento e debilidades à luz da fé com a ternura do coração magnânimo; e acolhendo quem nos surge no caminho a abrir o seu coração e receber uma palavra amiga que lhe possa orientar a vida.
2019.07.21 – Louro de Carvalho

sexta-feira, 5 de abril de 2019

Programa especial assinalou centenário da morte de São Francisco Marto


O Santuário de Fátima assinalou, a 4 de abril, o centenário da morte de São Francisco Marto com um programa especial, um programa intenso marcado pela memória e pela oração.
As celebrações começaram no dia 3, com uma vigília de oração, iniciada às 21,30 horas, com a recitação do terço, na Capelinha das Aparições, seguida de procissão para a Basílica de Nossa Senhora do Rosário de Fátima, onde teve lugar a veneração do túmulo de São Francisco Marto.
No dia 4 de abril, rezou-se o terço, às 10 horas, na Capelinha das Aparições, seguindo-se a procissão, às 10 e 45, para a Basílica de Nossa Senhora do Rosário de Fátima, com o ícone do Santo, para a celebração da Missa Votiva dos Pastorinhos de Fátima. Às 14 horas, procedeu-se à leitura, na mesma Basílica, da Quarta Memória das Memórias da Ir. Lúcia. E, uma hora depois, houve adoração eucarística no mesmo local. Às 16,30 horas, foi lida a referida Quarta Memória no Recinto de Oração. E, uma hora depois, celebraram-se vésperas solenes na Capela do Santíssimo Sacramento.
Também a Fundação Francisco e Jacinta Marto assinalou a efeméride com a iniciativa intitulada “Entre-Luz – Encontros de espiritualidade e cultura na Casa das Candeias”, inspirada na experiência dos Pastorinhos na aparição de maio. O primeiro encontro cultural e de aprofundamento da espiritualidade de Fátima e dos Santos Francisco e Jacinta, com uma abordagem multidisciplinar, realizou-se às 21 horas do dia 4, com os oradores a Irmã Ângela de Fátima Coelho (médica e religiosa da Aliança de Santa Maria) e o Doutor Pedro Valinho Gomes (responsável pelo Departamento para Acolhimento de Peregrinos) e teve como mote “O que se ouve no silêncio?” e refletiu sobre a vida de Francisco Marto.
E a paróquia de Fátima assinala este centenário de forma especial com a promoção de um evento pela paz no mundo. No dia em que se recorda o centenário da morte do pastorinho, várias comunidades católicas de todo o mundo se unem para um momento de Adoração, oração do Santo Rosário e Consagração ao Imaculado Coração de Maria. A iniciativa faz parte do projeto ‘Mater Fátima’ e visa celebrar o centenário da morte de Francisco Marto, a 4 de abril de 2019, e de Jacinta Marto, a 20 de fevereiro de 2020, unindo o mundo em oração pela paz.
A partir do dia 4 e até ao fim deste ano pastoral, passou a ser distribuída, exclusivamente na casa do Francisco e da Jacinta, em Aljustrel, a pagela comemorativa do centenário da morte do Francisco, disponível nos sete idiomas oficiais do Santuário de Fátima. Nesse dia, os peregrinos que passaram pelo quarto do vidente tiveram a oportunidade de escutar o trecho com a narração da morte do Francisco, retirado das Memórias da Irmã Lúcia. E, até ao final do ano pastoral, estará sinalizado de forma especial o túmulo do santo pastorinho.
E, no dia 7, a Basílica de Nossa Senhora do Rosário acolherá, em regime de entrada livre, pelas 15,30 horas, o Concerto Comemorativo Inspiração do Canto Gregoriano no Centenário da Morte de Francisco Marto, pelo Grupo Vocal ensemble LUSIOVOCE, com acompanhamento ao órgão de Sérgio Silva e com direção de Clara Alcobia Coelho.
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O cardeal Dom António Marto, Bispo de Leiria-Fátima, que presidiu à recitação do terço e à celebração da Eucaristia no dia 4, invocou a intercessão de São Francisco Marto para curar as feridas da humanidade, “dilacerada por tantas formas de violência” e reparar a Igreja “tão dolorosamente abalada pela corrupção e pelos escândalos”.
Socorrendo-se das palavras dirigidas pelo Senhor a São Francisco de Assis, afirmou:
Vai Francisco e repara a minha Igreja. Também nós invocamos São Francisco Marto para esta hora dolorosa da Igreja: Ajuda-nos a ser cristãos mais fiéis ao Evangelho e a Jesus; ajuda-nos a descobrir o encanto da beleza de Deus; a unir-nos cada vez mais a Jesus na Eucaristia e a sermos seus colaboradores para repararmos os pecados do mundo e da Igreja.”.
O prelado, cuja homilia se centrou na história de vida desta criança, uma das duas primeiras não mártires a serem canonizadas na história da Igreja Universal (juntamente com a irmã Jacinta), referiu-se ao vidente como “um exemplo de grande atualidade”, sobretudo para os adultos de hoje.
Evidenciando as dimensões contemplativa e reparadora de Francisco Marto, que soube cultivar uma relação de grande cumplicidade com Deus pela Eucaristia, Dom António Marto vincou:
Francisco lembra-nos a devoção eucarística como o lugar onde alimentamos a nossa fé e, depois, vem lembrar-nos a atualidade da missão reparadora para curar as feridas do mundo e da humanidade, dilacerada por tantas formas de violência e reparar também a própria Igreja do Senhor, hoje tão dolorosamente abalada pela corrupção de alguns escândalos de responsáveis que ferem a nossa alma e a qualidade da nossa fé e a imagem e confiança na Igreja”.
E, sublinhando a amizade e a intimidade que Francisco tinha com Deus como a chave de leitura da sua santidade, afirmou:
É necessário reparar os estragos para reconstruir; reparar os estragos provocados pelos escândalos e reerguer comunidades que sejam fiéis ao Evangelho, com a confiança de que nas horas mais obscuras da história, pelas quais a Igreja já passou, o Senhor nunca nos abandonou”.
Mais adiante frisou que Francisco “foi introduzido no mistério de Deus por Nossa Senhora que, cheia de luz, o levou a saborear e a gostar do próprio Deus como o mais belo da sua vida e da existência humana”. Com efeito, como bem observou o cardeal português, “a confissão íntima do afeto e da beleza de Deus, porque se sentia por ele  habitado e iluminado”, despertou nele um impulso missionário para “o irradiar e contagiar aos outros”.
Ora, como disse o eminentíssimo prelado do Lis, “este testemunho do encanto e do fascínio por Deus, do gosto gozoso e alegre de Deus presente nele é de uma atualidade premente” e talvez seja hoje “o mais importante e essencial para viver a fé” para que não se reduza “a um conjunto de verdades e preceitos”, mas redunde na “comunhão viva de afetos e de relação com Deus”.  
E o cardeal alertou, por contraste, para o crescente esquecimento ou subvalorização de Deus:
Vivemos a indiferença para com Deus. Deus é apenas uma palavra com quatro letras, vazia de conteúdo, que já não diz nada; para [uns] é um ser supremo longínquo e distante que pôs em marcha o universo, mas que não se interessa por nós nem nos desperta interesse. Outros, ainda, afirmam que acreditam em Deus mas esquecem-No muitas vezes.”.
Neste sentido, em jeito de interpelação aos peregrinos que encheram por completo a Basílica de Nossa Senhora do Rosário de Fátima, onde se concentravam todas as celebrações agendadas para aquele dia no Santuário em memória de São Francisco Marto, inferiu que, ao invés do pastorinho, nós não saboreamos Deus “nem sentimos o gosto da Sua presença, do Seu amor, do Seu perdão, da Sua misericórdia, do Seu espírito, da Sua força e da Sua luz”. E apontou:
Neste momento de indiferença, não há fé que se aguente se não se viver com a experiência e o gosto do sabor de Deus na nossa vida. Por isso, somos convidados a interrogarmo-nos a nós mesmos sobre o modo como vivemos a nossa relação com Deus; é a questão mais séria da missão evangelizadora da Igreja e dos cristãos: levar o coração de Deus aos outros e vivê-lo, com afetos e ações concretas” (ao jeito de Francisco).”.
Como afirmou o purpurado fatimita, Francisco “é muito atual para os adultos” no consolar a Deus, dar alegria a Deus e unir-se no afeto grande a Ele através de Jesus escondido na Eucaristia”. E Dom António Marto enalteceu o exemplo, para nos, desta criança que “penetra neste mistério admirável da nossa fé,  Jesus presente na Eucaristia, que é Deus connosco, para nós, por nós” – sublinhando:
Não se trata de celebrar uma data, um dia em que ele partiu para o Céu, mas de olhar para esta data da morte como a síntese de uma vida, que nos deixa um legado, pelo qual lhes estamos gratos. E eu, particularmente, que tanto me ajudou a descobrir a beleza e o amor de Deus e a unir-me com mais afeto e empenho à missão.”.
Eis um grande exemplo para hoje, bastante esquecido ou só lembrado pela infância em si!
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A música selecionada para o predito concerto, assenta em três pilares significativos: a destacada predominância de textos de devoção mariana; a simplicidade e ancestralidade do canto gregoriano como símbolo direto da infância e inocência do Francisco; e a inclusão de música deste século, como sentida homenagem dos fiéis do nosso tempo.
O Lusiovoce, que neste concerto se apresenta maioritariamente na sua formação de vozes femininas, tem direcionado a sua atividade para a interpretação de música moderna. Executa programas dedicados a temas específicos, no âmbito da composição portuguesa moderna e contemporânea, das diversas expressões da relação entre música e literatura e da contraposição entre novo e antigo. Colabora em alguns dos principais festivais de música nacionais, como o Festival Cistermúsica de Alcobaça, o Festival de Vila do Conde, o Festival de Órgão de Santarém, o Festival Estoril Lisboa, o Festival de Órgão da Madeira e na temporada de concertos da Basílica de Mafra – sendo ainda de destacar execuções de repertório sacro, como a Cantata St. Nicholas, de Benjamin Britten, e obras de Händel e Vivaldi no Teatro São Carlos.
Sérgio Silva – docente de órgão no Instituto Gregoriano de Lisboa e na Escola de Música Sacra de Lisboa – é organista titular da Basílica da Estrela e da Igreja de São Nicolau, em Lisboa, e mestre em música pela Universidade de Évora. Estudou órgão no Instituto Gregoriano de Lisboa, sob a orientação de João Vaz, na disciplina de órgão, e de António Esteireiro, em acompanhamento e improvisação. Como concertista, apresenta-se tanto a solo como integrado em diversos agrupamentos nacionais de prestígio, tendo atuado em Portugal, Espanha, Itália, Inglaterra, França, Alemanha e Macau. E, como investigador, tem feito transcrições modernas de música antiga portuguesa.
A maestrina Clara Alcobia Coelho, que dirige o Coro Tejo e o Ensemble  Lusiovoce desde 2010, fez os estudos superiores em Formação Musical (2000) e Direção Coral (2005) na ESML (Escola Superior de Música de Lisboa), onde é docente desde 2001, bem como na Academia Nacional Superior de Orquestra. Concluiu o mestrado em Direção Coral (2010) no Instituto Piaget. Foi responsável pela preparação musical de programas com o Coro Gulbenkian. No Festival “Les Musicalles de Grillon”, foi maestrina do Coro de 2006 a 2016.  Com agrupamentos da ESML, dirigiu a ópera Páride ed Elena, de Gluck, no Teatro São Luís, e muitos outros concertos e audições de música coral e vocal de câmara. Integra o Coro Gulbenkian desde 1997 e colaborou com outros agrupamentos. E destaca-se-lhe a direção da estreia de Hummus (em versão encenada), de Zad Moultaka, em Lisboa e Londres, com a companhia Opera Lab Europe, e a direção do concerto de Laureados e Gravação do Prémio MUSA – Concurso de Composição.
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Pedro Valinho Gomes (teólogo e antigo assessor da Postulação para a Causa da Canonização do Francisco e da Jacinta), responsável pelo Departamento para Acolhimento de Peregrinos, em declarações à Sala de Imprensa do Santuário de Fátima, considerou que, “100 anos depois da morte do Francisco, recordá-lo tendo em conta que foi canonizado em 2017 é recordar à Igreja uma caraterística fundamental da santidade cristã, que é a abertura ao absoluto”, pois, como disse, “o Francisco era um menino do absoluto, centrado naquilo que é o essencial da vida”.
O Francisco não ouvia o que dizia Nossa Senhora e o Anjo, no entanto, “aposta toda a sua breve vida na entrega total ao Criador”. E, depois das aparições, “compreende perfeitamente que a vida que tem lhe é dada para ser gasta numa relação que valha a pena” e encontra-a na “relação com Deus”, pelo que “procura o silêncio”: é um “menino contemplativo”, tem “uma relação especial com a criação, porque na criação ele encontra o Criador, no silêncio ele encontra aquilo que se lhe revelou em silêncio”. Neste sentido, Valinho Gomes sustenta:
Assinalar esta data é assinalar o seu segundo nascimento, o nascimento definitivo para o absoluto, e é recordar à Igreja isto mesmo, que podemos fazer muito, porque podemos e devemos apostar tudo o que somos na entrega aos outros, mas isto só faz sentido na medida em que na base tem de estar uma relação com Deus e é isto que o Francisco nos ensina”.
Assegurando que o Santuário tem a responsabilidade de “oferecer aos peregrinos o conteúdo catequético da mensagem aqui deixada aquelas três crianças”, e que essa mensagem não é só o resultado do que ouviram, “é também o seu exemplo de vida”, Valinho Gomes conclui:
Podemos aprender e viver esta mensagem através do programa celebrativo preparado especialmente para este dia, um programa para olhar o Francisco, mas olhar através do Francisco”.
São Francisco Marto, cuja iconografia o apresenta de carapuço na cabeça e jaleca curta, com o cajado e o saco do farnel ao pescoço, nasceu a 11 de junho de 1908 e foi batizado a 20 de junho na Igreja Paroquial de Fátima. Com apenas 8 anos de idade, começou, com a sua irmã Jacinta, a pastorear o rebanho dos pais pela zona da Cova da Iria, local onde, com a prima Lúcia, viriam a testemunhar as Aparições, durante as quais podia apenas ver, sem ouvir ou falar.
Levado pelo desejo íntimo de consolar o coração de Jesus, pois afirmava querer dar alegria a um Deus triste com os agravos ao Seu coração, viveu intensamente a oração contemplativa, passando horas seguidas em oração frente ao sacrário na Igreja Paroquial de Fátima, enquanto a prima e a irmã iam para a escola.
A 18 de outubro de 1918, Francisco adoeceu, vítima da epidemia da gripe pneumónica ou gripe espanhola, que assolou o país e que chegara a Portugal no meio desse ano e em pouco tempo causou a morte de dezenas de milhares de pessoas. A 2 de abril do ano seguinte, confessou-se e recebeu a comunhão pela última vez “com uma grande lucidez e piedade”, como escreve o pároco de Fátima no Livro de Óbitos, ao registar a sua morte, em 4 de abril, acrescentando: “E confirmou que tinha visto uma Senhora na Cova da Iria e Valinhos”.
Foi sepultado no cemitério de Fátima, de onde os seus restos mortais foram exumados a 17 de fevereiro de 1952 e trasladados para a Basílica de Nossa Senhora do Rosário de Fátima a 13 de março de 1952, repousando no braço direito do transepto.
Francisco e a irmã Jacinta foram canonizados no Santuário de Fátima, a 13 de maio de 2017, na Missa da primeira Peregrinação Internacional Aniversária do Centenário das Aparições, presidida pelo Papa Francisco, tornando-se assim num dos dois mais jovens santos não mártires da história da Igreja Católica. A canonização tinha sido aprovada a 23 de março, quando o Vaticano anunciou que o Papa reconhecera o milagre atribuído a Francisco e Jacinta, última etapa do processo, iniciado há 65 anos.
O reconhecimento dum milagre realizado por sua intercessão depois da beatificação é um processo da competência da Congregação para a Causa dos Santos, regulado pela Constituição Apostólica Divinus Perfectionis Magister, promulgada por João Paulo II em 1983.
No processo de Francisco e Jacinta Marto, foi aceite como milagre a cura milagrosa de Lucas, uma criança brasileira de cinco anos, que caiu duma janela, à altura de 6,5 metros no dia 3 de março de 2013, ficando em coma, com perda de tecido cerebral no lóbulo frontal direito. A oração da família e das irmãs do Carmelo de Campo Mourão, pedindo a intercessão dos dois Santos, resultou na cura total de Lucas, facto que os médicos não conseguem explicar. E ficou com uma nova vida, imagem da vida com que somos cumulados pela graça divina.
2019.04.05 – Louro de Carvalho

domingo, 8 de abril de 2018

A Comunidade de Homens Novos nasce da cruz e da ressurreição de Jesus


A liturgia do Dia da Divina Misericórdia, no II domingo de Páscoa apresenta-nos a comunidade de Homens Novos que nasce da cruz de Cristo e da Sua ressurreição: a Igreja, cuja missão consiste em revelar aos homens a vida nova que brota da ressurreição.
A 1.ª leitura (At 4,32-35) dá-nos o “retrato” da comunidade de Jerusalém, os traços da ideal comunidade cristã: uma comunidade fraterna, com a preocupação de conhecer Jesus e a Sua oferta de salvação, que se reúne para louvar o Senhor na oração e na Eucaristia, que vive na partilha, na doação e no serviço e que testemunha – com gestos concretos de desprendimento e de entrega – a salvação que Jesus propõe e oferece aos homens e ao mundo.
A 2.ª leitura (1Jo 5,1-6) recorda aos membros da comunidade que ser cristão não consiste apenas em aceitar a mensagem de Cristo como a mais bela de todas, mas é, antes e acima de tudo, a adesão pessoal a Jesus Cristo. É crer que Ele é Homem em carne e osso, ligado à nossa história, e o Messias, Aquele em quem se cumprem as promessas de Deus à Humanidade, em suma o Filho de Deus. Pela fé, alicerçada em Jesus Cristo, Messias e Filho de Deus que nos introduziu, pela Sua Morte e Ressurreição, numa inefável relação com Deus e nos pôs em comunhão com os homens filhos de Deus, nós participamos da Sua vitória sobre o mal. Assim, a identificação do crente com Cristo – com a sua entrega por amor ao Pai e aos homens – levará à ressurreição. Por isso, somos instados a percorrer a vida com esperança (apesar das dificuldades, sofrimentos e hostilidades do “mundo”), de olhos postos nesse horizonte onde se desenha a salvação definitiva. Amando Deus e o Seu Cristo, amamos os irmãos, o que se mostra cumprindo os mandamentos. E esse amor, em consequência da fé, conduz-nos à vitória sobre o mundo, vitória que consiste em participar na vitória de Cristo sobre o mundo, de Cristo que nos ganhou pela água e pelo sangue, derramados na cruz, e de quem o Espírito dá testemunho, porque o Espírito é a verdade. 
E o Evangelho (Jo 20,19-31) coloca Jesus vivo e ressuscitado como centro e gerador da comunidade cristã; é à Sua volta que a comunidade se estrutura e é d’Ele que ela recebe a vida que a anima e a missão que é chamada a desempenhar e que a leva a enfrentar as dificuldades e as perseguições. Porém, é na vida da comunidade (na sua catequese, liturgia, amor, testemunho) que os homens veem a prova de que Jesus está vivo.
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O Dia da Divina Misericórdia
Neste domingo, dedicado à Divina Misericórdia por decisão de São João Paulo II no ano jubilar do milénio, o Senhor mostra-nos, através do Evangelho, as suas chagas, “aquelas chagas pelas quais fomos curados” (Is 53,5) e convida-nos, como a Tomé, a aproximarmo-nos, a entrar no mistério destas chagas, o grande mistério do Seu amor misericordioso por nós. Através destas chagas, “como que através duma brecha luminosa, podemos ver e entrever todo o mistério de Cristo”: não só os sinais da Paixão gloriosa, mas toda a Sua vida, “desde a Encarnação à Ressurreição, sinalizada pelo cuidado dos mais pequenos, pela atenção privilegiada aos mais pobres, pela proximidade com os doentes, pela oferta do perdão e da misericórdia aos pecadores”. Na verdade, em Cristo “nada há que seja desprovido de compaixão” (MV 8). Ressuscitado, manifesta-Se aos discípulos, não para um ajuste de contas, mas para os convidar a tocar as Suas feridas, a assumir a realidade do pecado que fere o Seu coração. É aí que os discípulos experimentam a abundância da misericórdia, que brota do lado aberto de Cristo e que, ao mesmo tempo, Jesus derrama sobre eles o dom do Espírito Santo que os capacita para receber e oferecer o perdão em nome do Ressuscitado.
Este desafio a aproximar-se, para ver e tocar as chagas de Jesus e assim entrar e penetrar no mistério da misericórdia divina tem sido recorrentemente lançado por Francisco, quando nos convida “a tocar a carne sofredora de Cristo” (EG 24; 270). E, na Bula Misericordiae Vultus (para o Jubileu da Misericórdia) o Papa vigorosamente reitera e concretiza este apelo quando nos diz:
Quantas feridas gravadas na carne de muitos que já não têm voz, porque o seu grito foi esmorecendo e se apagou por causa da indiferença dos povos ricos. Neste Jubileu, a Igreja sentir-se-á chamada ainda mais a cuidar destas feridas, a aliviá-las com o óleo da consolação, a enfaixá-las com a misericórdia e a tratá-las com a solidariedade e a atenção devidas” (MV 15).
(Dom António Francisco dos Santos, in Homilia, 2016, Paços Ferreira)
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A comunidade cristã de Jerusalém (At 4,32-35)
Descrita a irrupção do Espírito Santo sobre os discípulos reunidos no cenáculo (cf At 2,1-13) e após a apresentação (através dum discurso de Pedro) dum resumo do testemunho dos primeiros discípulos sobre Jesus (cf At 2,14-36), Lucas vinca o resultado da pregação dos apóstolos: as pessoas aderem massivamente (fala de três mil pessoas que, nesse dia, se juntaram aos discípulos) e nasce a comunidade cristã de Jerusalém (cf At 2,37-41). São os primeiros passos dum caminho que a Igreja de Jesus vai percorrer de Jerusalém a Roma (o cento do mundo coevo).
O trecho de hoje integra um conjunto de três sumários com que Lucas descreve aspetos fundamentais da vida da comunidade. Este é o segundo sumário, que vem a seguir à oração da Igreja a pedir a libertação de Pedro e é dedicado à unidade e ao impacto que o estilo de vida cristã provocou no povo da cidade, incluindo a partilha dos bens (os outros dois sumários tratam da vida em comum como consequência de terem abraçado a fé – cf At 2,42-47 – e do testemunho da Igreja através da atividade miraculosa dos apóstolos – At 5,12-16). Todavia, estes sumários não são retrato histórico rigoroso da comunidade no início da década de 30 (embora com algumas bases históricas). Quando Lucas escreveu o relato (década de 80), tinha já arrefecido o entusiasmo inicial dos cristãos: Jesus não voltara para instaurar o “Reino de Deus” e o horizonte das primeiras grandes perseguições é visto com clareza. Nota-se algum desleixo, monotonia falta de entusiasmo, divisão e confusão (começam a aparecer falsos mestres, com doutrinas estranhas e pouco cristãs). Neste contexto, Lucas recorda o essencial da experiência cristã e traça o quadro do que a comunidade deve ser.
Temos aqui a ação social da comunidade em prol dos mais necessitados, decorrente de serem um só coração e uma só alma. O espírito de caridade fraterna opera de modo que os mais abastados não considerem como seu o que possuem, mas vendam e coloquem o produto à disposição dos apóstolos para distribuição (é empregue o verbo diadídômi, como em At 2,45) por cada um conforme as necessidades.
Esta comunidade ideal, que nasce do Espírito e do testemunho dos apóstolos, é uma comunidade de irmãos, que vive num só coração e numa só alma, ou seja, na unidade de pensamento e afeto. O coração significa, para um semita, a inteligência, enquanto a alma se refere à vida afetiva. E esta unidade de sentimento concretiza-se no desprendimento dos bens materiais. É a pobreza de espírito em consequência e em favor de uma só fé e um amor comum.
O testemunho dos apóstolos tem como objeto o facto da ressurreição de Cristo e como carisma, os milagres e a liberdade e valentia com que se aplicam à pregação. Como é óbvio para eles, não podem calar-se e compete-lhes obedecer a Deus e não aos homens.
A venda de bens e a dádiva do produto não eram obrigações impostas, mas fruto da livre adesão. O verbo empregue a significar “dar” (dídômi) é o mesmo de Lc 12,33 e Lc 18,22. Aludirá ao conselho – e não imposição sistémica – de vender e dar aos pobres, que é recorrente em Lucas (a partir de Lc 9,20-26).
Enquanto em At 2,46, se diz que “tinham a simpatia do povo”, aqui a frase é “uma grande graça operava em todos eles” – podendo talvez significar a simpatia da parte do povo, mas de certeza a simpatia e o beneplácito de Deus.
O cenário desta comunidade desprendida pode ser hiperbólico, funcionando como apelo aos cristãos enfraquecidos do fervor inicial, mas pode também significar a primitiva permeabilidade do exemplo essénico, o qual, além da profissão celibatária, se regia pela disciplina da ascese e do desprendimento dos bens pessoais em favor da vida em comum. 
Em todo o caso, ressalta que a comunidade era assídua ao ensino dos apóstolos, o que revela o empenho pessoal e comum em conhecer e acolher a proposta de salvação que vem de Jesus, através do testemunho dos apóstolos (e não através dessas doutrinas estranhas trazidas pelos falsos mestres e que ameaçavam invadir a comunidade); era assídua à oração, cimento da relação com Deus e com os irmãos; era assídua à fração do pão, porque a Eucaristia é o centro da vida cristã, funcionando como ponto de convergência e ponto de irradiação; era assídua e benévola na partilha de bens e na atenção aos necessitados, a ponto de se poder dizer que ali não havia necessitados. E, se a necessidade invadia o coletivo, todos eram necessitados, pois viviam em comum. Tanto assim era que Paulo organizou coletas em favor da Igreja de Jerusalém.  
Esta é uma comunidade que dava testemunho. Os gestos realizados pelos apóstolos enchiam toda a gente de temor (At 2,43) – quer dizer, infundiam em quem os testemunhava a inegável certeza da presença de Deus e seus dinamismos de salvação. Além disso, a piedade, o amor fraterno, a alegria e a simplicidade dos crentes provocavam a admiração e a simpatia do povo e a benevolência do Alto; esse modo de viver interpelava os habitantes de Jerusalém e fazia com que aumentasse todos os dias o número dos que aderiam à proposta de Jesus e à comunidade da salvação. A primitiva comunidade, nascida do dom de Jesus e do Espírito é verdadeiramente uma comunidade de homens e mulheres novos, que dá testemunho da salvação e anuncia a vida plena e definitiva. Não sendo realmente uma comunidade ideal, dado que havia tensões e problemas (como acontece com qualquer comunidade humana), a descrição de Lucas, baseada em momentos de brilho, aponta a meta a que toda a comunidade deve aspirar, confiante na força do Espírito. Trata-se, portanto, dum retrato da comunidade ideal, que pretende servir de modelo à Igreja e às igrejas de todas as épocas e lugares.
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Todo o que nasceu de Deus vence o mundo (1Jo 5,1-6)
João, neste pequeno trecho da sua 1.ª carta, dá-nos, em jeito de contraponto, uma breve, mas inestimável resenha – uma rica pérola – dos temas por que sente especial predileção: a fé; o amor de Deus; a filiação divina dos crentes; a observância obediente dos mandamentos; a vitória de Cristo e dos crentes sobre a mundanidade; e o dom e o testemunho do Espírito. É preciso assimilar cada uma das suas afirmações e entendê-las como interconexas e interativas, evitando esquematizá-las ou separá-las, o que seria redutor e perigoso. Não obstante, o texto pode repartir-se em dois pontos: exigências e poder da fé; e a força de crer no testemunho de Deus.   
Quanto ao primeiro ponto, fica evidente que “aquele que crê que Jesus é o Cristo nasceu de Deus e todo aquele que ama quem o gerou ama também quem por Ele foi gerado”. Daqui resulta uma consequência vital: “reconhecemos que amamos os filhos de Deus, se amamos a Deus e cumprimos os seus mandamentos”. Com efeito, “o amor de Deus consiste precisamente em guardarmos os seus mandamentos; e os seus mandamentos não são uma carga”, mas um alívio da alma, “porque todo aquele que nasceu de Deus vence o mundo”. Ora, “este é o poder vitorioso que venceu o mundo: a nossa fé”. Pelo que vem a propósito a pergunta: “E quem é que vence o mundo senão aquele que crê que Jesus é Filho de Deus?”.
E o segundo ponto surge como reforço da questão levantada. “Este, Jesus Cristo, é Aquele que veio com água e com sangue; e não só com a água, mas com a água e com o sangue”. E sabemos isto pelo testemunho do Espírito. Com efeito, “é o Espírito quem dá testemunho, porque o Espírito é a verdade”. E, na sequência, viriam dois versículos concludentes:
São três os que dão testemunho: o Espírito, a água e o sangue; e os três coincidem no mesmo testemunho” (1Jo 5,7-8).
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A comunidade da Nova Aliança (Jo 19,19-31)
O cap. 19 do Evangelho de João integra a segunda parte do Quarto Evangelho, onde nos é apresentada a comunidade da Nova Aliança. A indicação de que estamos no “primeiro dia da semana” remete para o tempo novo, o tempo subsequente à morte/ressurreição de Jesus, ao tempo da nova criação. A comunidade criada a partir da ação de Jesus está reunida no cenáculo, em Jerusalém, desamparada e insegura, cercada por um ambiente hostil. O medo vem do facto de não terem ainda feito a experiência de Cristo ressuscitado.
O texto proclamado no II domingo de Páscoa, Dia da Divina Misericórdia, divide-se em duas partes. A primeira (vv 19-23) relata uma “aparição” de Jesus aos discípulos. Depois de sugerir a insegurança e fragilidade da comunidade apostólica (o “anoitecer”, as “portas fechadas”, o “medo”), o autor apresenta Jesus “no centro” da comunidade (v 19b). Ao aparecer “no meio deles”, Jesus assume-se como ponto de referência, fator de unidade, videira em que se enxertam os ramos. A comunidade, que estava reunida no desalento, passa a estar reunida à volta d’Ele, pois Ele é o centro aonde todos vão beber a vida que faz vencer o “medo” e a hostilidade do mundo.
A esta comunidade fechada, com medo, mergulhada nas trevas da hostilidade, Jesus transmite duplamente a paz (vv 19 e 21: é o “shalom” hebraico, no sentido de harmonia, serenidade, tranquilidade, confiança, vida). Assegura, assim, aos discípulos que venceu o que os assustava (a morte, a opressão, a hostilidade do mundo) e que, doravante, não têm qualquer razão para ter medo.
Depois (v 20a), Jesus revela a sua “identidade”: nas mãos e no lado trespassado estão os sinais do amor e da entrega. É nesses sinais de amor e doação que a comunidade reconhece Jesus vivo e presente no seu meio. A permanência desses “sinais” indica a permanência do amor de Jesus: Ele é o Messias que ama e de quem brotarão a água e o sangue que constituem e alimentam a comunidade. Os sinais mostram a continuidade do Ressuscitado em relação ao Crucificado.
Em seguida (v 22), Jesus soprou sobre os discípulos reunidos. O verbo aqui utilizado é o mesmo do texto grego de Gn 2,7 (Deus soprou sobre o homem de barro, infundindo-lhe a vida de Deus). Com o sopro de Gn 2,7, o homem tornou-se um ser vivente; e com este “sopro” pascal, Jesus transmite aos discípulos a vida nova que faz deles homens novos. Agora, os discípulos possuem o Espírito, a vida de Deus, para poderem – como Jesus – dar-se generosamente aos outros. É este Espírito que constitui, pelo Batismo, e anima, pela Eucaristia (e pelas suas moções) a comunidade.
A segunda parte (vv 24-29) faz-nos uma catequese sobre a fé. João ensina que podemos fazer a experiência da fé em Cristo vivo e ressuscitado na comunidade dos crentes, que é o lugar natural onde se manifesta o amor e donde ele irradia. Tomé representa os que vivem fechados em si próprios (está fora) e não fazem caso do testemunho da comunidade, nem percebem os sinais de vida nova que nela se manifestam. Em vez de se integrarem e participarem da experiência, pretendem obter uma demonstração particular de Deus. No entanto, Tomé fará a experiência de Cristo vivo no interior da comunidade, porque no “dia do Senhor” estará na e com a comunidade. Temos aqui uma clara alusão ao domingo, dia em que a comunidade é convocada para celebrar a Eucaristia. Com efeito, é no encontro com o amor fraterno, com o perdão dos irmãos, com a Palavra proclamada, com o pão de Jesus partilhado, que se descobre o Ressuscitado. A experiência de Tomé não é exclusiva das primeiras testemunhas; todos os cristãos de todos os tempos e lugares podem fazer esta mesma experiência.
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O melhor ato de fé: “Meu Senhor e meu Deus!
Ao cair da tarde. Em Jerusalém, onde há dias ocorrera a morte do Nazareno por crucifixão. A noite está a chegar. Rareiam os clarões de luz. A hora do tempo marca o ritmo do coração e indicia o estado de ânimo: esperança muito em baixo. Refugiados em casa, cheios de medo e portas trancadas, sobretudo as do espírito encerrado ao futuro, estão os discípulos. O desfecho do sonho de três anos deixou-os em estado de choque. O Rabi, em quem haviam depositado toda a confiança, teve morte trágica, vítima de processo iníquo em que se empenharam as forças religiosas e políticas. A hora era de trevas e os semáforos da esperança não funcionavam. Restava a saudade engordada pela revisitação das suas atitudes na Ceia, no Horto e na agonia, na prisão e nos passos rumo ao Calvário. Retinham na memória a emblemática liberdade de Jesus, a dignidade da sua postura e comportamentos, a determinação e firmeza dos gestos. Viviam a vibração das emoções sentidas e o sentido amargo da deslealdade e debandada. Abatidos, procuraram segurança numa casa onde se protegiam reciprocamente e se interpelavam mutuamente com perguntas angustiadas. Como nós, eram especialistas no sofrimento, mas céticos à experiência da Ressurreição. De facto já tinham sido avisados (Jo 20,18).
Jesus apresenta-se no meio deles de modo simples. É sempre Ele que toma a iniciativa e surpreende. E saúda-os amigavelmente: “A paz esteja convosco”. O narrador do episódio não alude a qualquer censura pelo passado recente. Apenas refere que lhes mostra as mãos e o lado, com as cicatrizes da paixão, sinais da identidade de crucificado. É Ele, o mesmo, o Senhor.
Nova aurora começa a despontar: desanuvia-se o espírito, renasce a esperança e enche-se de alegria o coração. É a primeira vez que ver o Senhor enche de alegria – sustentou Dom Francisco Senra Coelho na homilia de hoje na Senhora da Graça. No Antigo Testamento, a aproximação de Deus causava medo e a sua visão causaria a morte. Por isso, o vidente cobria o rosto!
Aquele movimento interior do Cenáculo é estimulado por Jesus ressuscitado que prossegue:
A paz esteja convosco. Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós.”.
E para os guiar na missão apostólica e garantir a fidelidade da mensagem, acrescenta:
Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados; e àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos.”.
É a confiança acrescida e credenciada, o tesouro do perdão deixado em pobres “mãos de barro. E a missão começa pelos de casa. Tomé, o ausente, recebe a boa notícia: “Vimos o Senhor!”. E reage com desfaçatez prudente. O anúncio vinha de quem se tinha “portado mal”, negando-O e fugindo. A Nova ultrapassa a imaginação, o que a razão humana pode atingir. É arriscado aceitar, sem prova, o testemunho dado. A cautela é a conselheira. Por isso, o discípulo prudente pretende ver a claro o sinal dos cravos, meter a mão no peito aberto pela lança, experienciar os sentidos, tocando as cicatrizes das chagas. E este desejo será satisfeito.
Passados oito dias, Jesus mostra-se novamente. Tomé está na comunidade reunida. Jesus faz a saudação da paz e dirige-se a ele: “Põe aqui o teu dedo e vê as minhas mãos; aproxima a tua mão e mete-a no meu lado e não sejas incrédulo, mas crente”. A oferta ultrapassa a exigência, o amor aproxima e a misericórdia faz-se compaixão. E Tomé nem precisa de tanto. A exclamação sai-lhe espontânea e convicta: “Meu Senhor e meu Deus!”. É a fé incondicional, superadas as legítimas dúvidas, a resposta humana razoável tocada pela luz divina, o encontro pessoal de quem faz experiência marcante geradora de novos dinamismos de relação filial e de adoração.
O Evangelho de João é escrito para os cristãos que, não tendo visto Jesus, são chamados ao discipulado, a viver a alegria da fé. “Felizes os que acreditam sem terem visto”, replica Jesus abrindo horizontes de bem-aventurança a todas as gerações de fiéis seguidores, a nós, portanto. Vale a pena refletir nesta verdade interpelante e consoladora.
João conclui a narração garantindo que Jesus fez muitas mais coisas que não estão escritas no livro, mas que estas ficam como registo de factos ao serviço da fé em Jesus, o Filho de Deus, o Messias que dá a vida a quem acredita em seu nome. E desde então, a história mostra tantas maravilhas que o Senhor Jesus realiza por meio de quem O segue com fidelidade criativa. E há muitas omissões e desvios que – no dizer do Papa no final da Via Sacra, no Coliseu em Roma, a 30 de março de 2018 – nos devem causar vergonha e esperança.
A nova presença de Jesus acontece, segundo João, nos sinais que narra e em muitos outros. No texto em referência, enfatiza-se a passagem do medo à paz do espírito, a comunidade reunida e aberta à novidade do perdão, a escuta da Palavra testemunhada, a reconciliação fraterna, fruto da penitência sacramental dos pecados, a celebração da eucaristia e o amor ao domingo, dia escolhido por Ele para se manifestar aos Seus amigos e para o envio do Espírito, garante da missão confiada à sua Igreja.
O Senhor está ao alcance do nosso olhar, a um clique do nosso dedo, pelo se torna imperativo procurar vê-Lo nos sinais que nos deixa e corresponder-Lhe na oração e serviço. Está no meio de nós sempre que nos reunimos em Seu nome; está e convive connosco nos esforços de cada um/a por uma vida digna de todos/as, na alegria de quem irradia o amor com que o Pai nos ama.
(cf Georgino Rocha, Jesus, o Senhor, convive connosco, http://www.diocese-aveiro.pt/v2/?p=16386)
2018.04.08 – Louro de Carvalho