Mostrar mensagens com a etiqueta Conhecimento. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Conhecimento. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Segundo Marcelo, especulação política prejudica investigação a Tancos


É verdade que o caso de Tancos está a ser rudemente partidarizado (não apenas politizado), quer seja pela sua gravidade, quer seja pela falta de assunto pertinente da parte da oposição.
O tema reveste-se de gravidade, não por causa do presumível furto de material de guerra, já que não se trata de armas, mas de consumíveis (portanto, não material reutilizável), ainda que representem perigo para vidas humanas, mas por se tratar de falha na gestão de material das forças armadas e do eventual avolumar do mercado subterrâneo, que, em caso de matéria de guerra, pode ser alimentado por furto de material de paióis, em trânsito de fornecedores para a instituição castrense ou por saída do fornecedor pela porta do cavalo. Não é verdade que existem armas que utilizam munições de 9 mm nas mãos de particulares? E alimentam-se de quê? 
Por outro lado, o Exército revelou-se incapaz de dar conta do recado, não tendo sabido bater o pé pela falta de efetivos perante um poder político que supinamente falta com recursos financeiros às forças armadas. É lamentável que instalações militares possam estar sob guarda de empresas particulares de segurança ou vigiadas por via eletrónica ou, no limite, sem vigilância. Admitindo que as câmaras de vigilância ou sensores de entradas e saídas possam constituir um precioso meio auxiliar de vigilância, não dispensam, contudo, a ação humana atenta, pronta e eficaz. É de instalações militares, de estrutura complexa, mesmo que em estado e desativação (podendo constituir albergue de malfeitores ou de passagem de estupefacientes), e de material de guerra (com algum índice de periculosidade) que se trata.
No caso vertente, o antigo CEME tomou decisões erráticas a propósito do furto de material presumivelmente a partir de Tancos. Não terá ninguém colocado a hipótese de o material ter sido eventualmente furtado a partir de outros lugares, tendo em conta o habitual regime de requisição de material e de reposição do material não consumido e o facto de serem várias as unidades militares requisitantes daquele material?
Face à pressão política, do poder e da oposição, bem como da opinião pública, a tutela encenou ações propagandísticas (foram os políticos em andor a Tancos), produziu declarações erráticas (ora facto inédito e crime gravíssimo, ora, no limite, nem existência de furto) e as chefias militares ao tempo curvaram-se sob o peso das culpas perante a tutela política, mas sem terem apurado factos e responsabilidades em sede de procedimento disciplinar. E o poder executivo e o fiscalizador ficaram descansados, remetendo para as autoridades judiciárias a investigação, que tardava, a cargo do MP (Ministério Público) secundado pela PJ (Polícia Judiciária Militar).
Nisto, surgiu a notícia da recuperação do material furtado, emergindo o mérito da PJM e ficando alguns setores da comunicação social a resmungar a luta entre a PJ e a PJM.
Entretanto, o Comandante Supremo das Forças Armadas, condição demasiadas vezes invocada pelo Presidente da República, a meu ver, passado um ano sobre o desaparecimento dos materiais, veio alertar para a necessidade de a investigação ser acelerada e ir ao fim de tudo custe o que custar, doa a quem doer e a lamentar-se por não haver conclusões. Ora, se o Chefe de Estado diz agora – e bem – que a especulação política prejudica a investigação de Tancos, também devia ter atentado em que a pressão de um órgão de soberania sobre a investigação – seja o Presidente, seja o Governo, seja a Assembleia da República, sejam os tribunais (os tribunais julgam o que naturalmente lhes é apresentado, mas não interferem na investigação, mesmo o tribunal de instrução criminal, que se limita a autorizar ou não determinadas ações e valida ou não as conclusões dos investigadores) – também prejudica a investigação. E queiramos ou não, o Presidente da República, seja quem for – e este mais ainda – não pode eximir-se da acusação de pressão política quando fala.
***
Porém, desde que surgiu a informação alegadamente sustentada de que a operação de entrega de material, dado como encontrado na Chamusca em virtude duma chamada anónima para um elemento da PJM, recentemente transformada em encobrimento de um dos furtantes, ora restituinte, o facto do furto foi secundarizado. Hoje, o acento recai sobre a “maldade” da PJM, que pretendia ficar com os louros deixando para trás a PJ – tudo em nome do interesse público ou da segurança nacional. E, a par do encobrimento do arrependido, que não se perdoa à PJM (não sei se o perdoariam à PJ), discute-se quem sabia ou não do encobrimento.
O então Ministro da Defesa Nacional declarou a pés juntos que não sabia de nada; o seu ex-chefe de gabinete admitiu que recebeu o então diretor e o então porta-voz da PJM, mas que não lhe deram nota do encobrimento, vindo mais tarde a reconhecer que tinha recebido um memorando, que já entregou no DCIAP; o demitido Ministro da Defesa, confortado com o teor do memorando, declarou que não se tinha apercebido do encobrimento, mas agora está disponível para prestar declarações perante os investigadores e até disse que, no limite, nem terá havido encobrimento; e o demitido CEME (Chefe do Estado-Maior do Exército), resignou alegando perante o Comandante Supremo das Forças Armadas motivos de ordem pessoal, mas perante os seus militares revelou forte condicionamento político e a necessidade de não desgastar a instituição castrense. Isto já parece a guerra do Solnado!    
***
Foi dito e redito que o Ministro sabia do encobrimento, que o Primeiro-Ministro também sabia, que a Ministra da Justiça sabia e que o próprio Presidente também sabia, alegadamente pela via de contactos havidos com o então chefe da sua Casa Militar. E a então PGR (Procuradora-Geral da República), ao sentir o mal-estar no DCIAP, terá telefonado ao Ministro da Defesa a dar conta do caso, o que ele terá respondido que fizesse a participação por escrito. Será de estranhar que a PGR não tivesse reportado o caso à sua Ministra da Justiça. Portanto, facilmente, a ser tudo verdade, se concluiria que todos os interessados sabiam.    
Contudo, o Presidente da República, de visita à Madeira, garantiu que não sabia de qualquer encobrimento e classificou tal hipótese de “coisa do outro mundo”, declarando que, “se hoje soubesse quem furtou, não exigia o esclarecimento”. E alertou para o risco de a “especulação política” em torno do caso do furto de armas em Tancos levar a “uma nebulosa” que prejudique a investigação e o apuramento da verdade, advertindo que “o país corre o risco de estar a criar uma nebulosa que tem como efeito nunca apanhar os responsáveis”.
Para o Chefe de Estado, aquele que não se perde na vertente do encobrimento, mas insiste na investigação ao furto, “um dos efeitos de querer disparar em várias direções”, na base do debate e da “especulação política”, pode ser desfocar a atenção do essencial e “prender os responsáveis” nunca mais ser feito. E afirmou:
Como a mim o que interessa é prender os responsáveis, até parece que é de propósito que, de cada vez que se deve deixar espaço para a investigação, para que ela se aprofunde, surgir uma nebulosa que tem como efeito objetivo juntar as mais diversas pistas que obviamente não facilitam a investigação”.
O Presidente reiterou que não sabia de nada sobre qualquer “encobrimento” no caso de Tancos, chegando a classificar de “coisa do outro mundo” pensar-se que poderia ter conhecimento e, ao mesmo tempo, insistir na necessidade de esclarecimento. E, ao ser confrontado pelos jornalistas na Madeira, no final dum debate com alunos do antigo ‘Liceu do Funchal’, com a possibilidade de a Casa Militar ter tido conhecimento dum alegado encobrimento relacionado com as armas furtadas em Tancos no ano passado, declarou: “Não há nenhum dado novo”. E recordou que o seu anterior chefe da Casa Militar, general João Cordeiro, já esclareceu duas coisas: em primeiro lugar, ter sabido “o que quer que fosse” sobre o memorando escrito pelo ex-porta-voz da PJM; em segundo, que “não houve da parte militar da Presidência da República nunca conhecimento daquilo que surgiu como sendo encobrimento e agora já não é encobrimento”.
Ora, se, no limite, não houve furto e, se, no limite, não houve encobrimento, é caso para perguntar, se, no limite, ainda existe a famosa localidade que tem dado pelo nome de Tancos.
O Presidente recordou que, aquando da sua deslocação a Tancos, em 4 de julho, cinco dias depois de o Exército tornar público o desaparecimento das armas, o que foi tornado público “em momento algum envolveu encobrimento”, explicando:
Encobrimento significa haver proteção dada a quem se desconfia que é criminoso em troca de alguma coisa, recuperação das armas ou pista para a recuperação das armas, com a garantia de uma não punição”.
E aduziu:
Naquela altura, estava-se em cima do acontecimento, procuravam-se, como se procuram, os responsáveis pelo furto. Portanto, jamais se poderia ter falado de encobrimento porque a preocupação era quem terá furtado.”.
O Chefe de Estado, cobrindo-se com a sua douta sabedoria jurídica, parece estar a confundir o encobrimento no caso da entrega do material com o encobrimento das condições do furto, acabando por baralhar as hostes – outra forma de fazer política! E, nestes termos, advertiu para o absurdo de eventualmente estar a insistir reiteradamente no esclarecimento se soubesse de algum encobrimento, pois, “se hoje soubesse quem furtou, não exigia o esclarecimento; se hoje soubesse o destino das armas, não exigia esclarecimento”, acrescentando que, se o Presidente insiste no tema, é “porque não sabe”. E, porfiando que ninguém o calará, vincou:
Podem insistir uma, duas, dez, 20 vezes: se há quem, dia após dia, contra tudo e todos, tem insistido para se apurasse a verdade, foi o Presidente da República”.
Por isso, Marcelo, que prometeu falar sobre tudo e sempre que o julgar necessário, sustenta:
Do ponto de vista do sentido de Estado e da falta de noção, são coisas do outro mundo achar-se que quem efetivamente andou a insistir permanentemente em relação ao apuramento da verdade, agora aparece como tendo sabido a verdade do momento do furto das armas. […]. É um mundo de pernas para o ar e por aí nunca se apurará nada.”.
***
Tão assertivo é o discurso de Marcelo que o Primeiro-Ministro, agora sob fogo cruzado da oposição da direita, que o acusa de saber do encobrimento, enquanto se disponibiliza para depor na Comissão Parlamentar de Inquérito (Rui Rio acha dispensável), veio reclamar o alinhamento com o Presidente na preocupação pelo cabal esclarecimento de Tancos. Será mais um que ninguém conseguirá calar?
O certo é que Marcelo já tem vozes mais que suficientes muito incomodadas a clamar pelo seu silêncio, nomeadamente à direita e na comunicação social. Paulo Baldaia até lhe aplica a pergunta do então Rei de Espanha a Hugo Chávez “¿Por qué no te callas?”. Uma direita descontente com o Presidente por alegadamente pactuar com a esquerda e um Governo, sem o confessar, desconfortável com o Presidente demasiado interventivo! Por mim, penso que o Presidente fala muito, não o pensando pelas mesmas razões, mas porque a sua palavra simbólica em grandes momentos e necessária em tempo de crise tem de ser credível, pelo que não pode ser banalizada em questões dúbias e nem todas as pressões lhe são legítimas. A bem da República!
2018.11.08 – Louro de Carvalho  


quarta-feira, 12 de setembro de 2018

No 1.º aniversário da morte de Dom António Francisco dos Santos


Depois da grande homenagem prestada, na sua terra natal, pela Igreja – mormente a das dioceses onde exerceu o seu apostolado e ação pastoral (a 29 de agosto, dia do 70.º aniversario do seu nascimento) – e pelas forças politicas, civis e desportivas, bem como da evocação que da sua vida fez o Presidente da Conferência Episcopal no âmbito do Simpósio do Clero de 2018, o dia 11 de setembro de 2018, o 1.º aniversário da morte de Dom António Francisco dos Santos, ficou marcado por algumas iniciativas de grande e múltiplo significado.
***
São de assinalar as celebrações eucarísticas em sufrágio por ele, merecendo destaque a que foi acolhida pela Sé Catedral do Porto em que, na homilia, Dom Manuel Linda, Bispo do Porto recordou o “exemplo de simplicidade” do seu predecessor, Dom António Francisco, vincando:
A vida dele era de simplicidade, se alguma coisa o caraterizava era a simplicidade, tão simples que as pessoas gostavam. Não gostam, de facto, das coisas complicadas, mas da simplicidade que lhe vinha, porventura da natureza dele, mas trabalhada pela dimensão religiosa.”.
Mais referiu o Bispo do Porto que a simplicidade de Dom António Francisco era “um dado trabalhado pela profunda espiritualidade”, frisando que, enquanto as crianças “encontram tudo no pouco”, os homens adultos encontram “pouco no tudo” e, por isso, desprezam Deus. E, perante as centenas de pessoas que participavam na missa desenvolveu:
A simplicidade é a primeira ordem das coisas, Deus é simples, nós é que complicamos, é que complexizamos a realidade e daqui geramos angústia”.
Segundo Dom Manuel Linda, a figura de António Francisco congregou a diocese, como alguém que “não se afasta da multidão, nem a multidão dele”, porque dele saía uma força que “a todos sarava”, transmitia o “ânimo, contentamento”, que “só os grandes são capazes de transmitir”. Mas advertiu, ancorado na atitude de Jesus” que “manda ser prudentes como as serpentes, mas simples como as pombas” que “a simplicidade maior não é apenas a relação com as coisas, é no modo de ser e viver”. E observou que “a sinceridade é a forma da verdadeira grandeza”.
E ficou decidido que a data de 11 de setembro passará a ser o dia anual de sufrágio pelos bispos, sacerdotes e diáconos já falecidos, na Diocese do Porto – mudança em relação ao atual uso que dava a data de 29 de setembro, dia do aniversário da morte de Dom Armindo Lopes Coelho.
***
Tanto a Voz Portucalense como o Jornal de Notícias, a Rádio Renascença e o Vatican News, bem como outros órgãos de Comunicação Social deram relevo, por estes dias, à vida e ação do antigo Bispo do Porto e de iniciativas promovidas em torno da sua memória.  
Assim, no dia 11 de setembro de 2018, um ano após a morte de Dom António Francisco dos Santos, procedeu-se à primeira edição do Prémio que homenageia o Bispo que liderou a diocese do Porto entre 2014 e 2017, que foi atribuído à Companhia de Jesus em reconhecimento do seu trabalho no campo dos migrantes e dos refugiados, com relevância para a obra desenvolvida na cidade do Porto e como referência de amor ao próximo e de solidariedade.
Esta iniciativa solidária – da Irmandade do Clérigos, da Santa Casa da Misericórdia do Porto e da Associação Comercial do Porto (Palácio da Bolsa) – tem um valor de 75 mil euros e destina-se a apoiar organizações e cidadãos que se distingam na promoção e defesa da dignidade da pessoa humana, na defesa e promoção dos direitos humanos, no diálogo inter-religioso e ecuménico e na promoção da paz.
Neste ano, são galardoados, em particular os seguintes serviços da Companhia de Jesus de apoio a migrantes e refugiados: Centro Comunitário São Cirilo, uma comunidade de inserção criada pelos jesuítas no Porto para acolher e (re)capacitar pessoas e famílias estrangeiras e nacionais a passar por fase temporária de fragilidade social (pessoas despejadas das suas casas, sem-abrigo, que querem sair da rua e encontrar trabalho, estrangeiros que perdem o emprego e sem retaguarda familiar de suporte, entre outras), tendo, desde a abertura oficial (a 4 de janeiro de 2010), ajudado mais de 6000 pessoas de 113 nacionalidades e conseguido mais de 300 colocações em emprego; e Centro de Instalação Temporária para migrantes em situação irregular (detenção administrativa), Unidade Habitacional de Santo António (UHSA) da responsabilidade do SEF (Serviço de Estrangeiros e Fronteiras) no Porto – centro apoiado pelo Serviço Jesuíta de apoio a Refugiados (JRS) na sequência de Protocolo de Colaboração entre o Ministério da Administração Interna/SEF e a Organização Internacional para as Migrações (OIM) – com capacidade para alojar 30 adultos e 6 crianças, albergando pessoas que receberam ordem de afastamento do país por estarem em situação irregular e que aguardam a efetivação da medida.
Sobre o Centro São Cirilo, o Padre Luís Ferreira do Amaral, presidente da direção, revelou ao semanário Voz Portucalense a satisfação pelo reconhecimento conferido pelo Prémio, dizendo:
Foi com grande alegria que nós tomamos conhecimento deste Prémio e serve para confirmação do trabalho no Centro Comunitário São Cirilo. E também por esta causa que é tão atual no apoio a pessoas nacionais, internacionais, migrantes e refugiados. Pessoas que precisam de ajuda. Este Prémio confirma o nosso trabalho.”.
E o sacerdote, confessando também sentir uma “certa responsabilidade pelo trabalho futuro” que vierem a desenvolver no Centro, salientou que Dom António Francisco era “um bispo muito querido nesta diocese”, alguém “que demonstrava claramente uma preocupação social, com os mais fracos e com os mais pobres”..
Por sua vez, do trabalho dos jesuítas no âmbito da Unidade Habitacional Santo António, o Dr. André Costa Jorge, diretor do JRS em Portugal, falou ao mesmo semanário, declarando:
Enorme gratidão e reconhecimento pela atribuição do Prémio ao nosso trabalho no Porto no âmbito do acompanhamento que fazemos a migrantes que estão em espaço de detenção administrativa. Um trabalho muitas vezes difícil e silencioso sobre o qual tem sido feita uma reflexão profunda em todo o mundo. Concretamente, em Portugal, temos este trabalho de acompanhamento. É um motivo de grande orgulho.”.
E, acentuando a vulnerabilidade e fragilidade dos migrantes ou refugiados que vivem a situação de detenção administrativa, recordou a grande visão cristã e humana de Dom António Francisco e as suas constantes palavras “que nos desafiavam muito a sermos criativos, a sermos ousados na ação que fazemos”. De facto, o apoio psicossocial do JRS na UHSA centra-se sobretudo na redução da ansiedade e do stress vividos pelos detidos na adaptação às instalações da Unidade, na preparação para o regresso aos países de origem e na elaboração de projetos de vida.
O Padre Américo Aguiar, presidente da Irmandade dos Clérigos, disse aos jornalistas:
Queremos que no Porto se faça a diferença, a cidade que fez das tripas coração queremos que continue o apoio aos mais desprotegidos”.
O sacerdote, assegurando que “foi uma alegria descobrirmos o quanto de bem se faz na nossa cidade, explicou que foi uma realidade que descobriram e quiseram “divulgar e premiar” para que seja “o dia a dia cada vez mais próximo daqueles” que, como dizia um galardoado ao citar Dom António Francisco, “os pobres não podem esperar”.
E, referindo que o “prémio material pretende ser um investimento em boas ações, em bem-fazer”, o presidente da Irmandade dos Clérigos frisou que, nos últimos tempos, “sempre que há eleições na Europa, é uma aflição, um sofrimento”, pelo que entende que se tem de fazer “o trabalho de casa” e todos – sociedade, Igreja, políticos, partidos – não podem “só ficar aflitos quando o fogo está a chegar às calças”. Depois, observou:
Às vezes surgem alguns incidentes que colocam os portugueses como racistas, xenófobos, mas na nossa matriz existe o encontro de cada um com os outros e, como dizia Dom António, “todos cabemos no coração de Deus”.
Por seu turno, o provedor da Santa Casa da Misericórdia do Porto recordou que a instituição a que preside tinha de ser uma das promotoras do prémio, afinal, “sempre se identificou muito” na maneira de “estar e ser” do falecido bispo do Porto e declarou:
Era uma pessoa muito dedicada ao próximo com o próximo; o facto de termos elegido os refugiados é uma mensagem que quisemos passar de paz, de cooperação”.
Para António Tavares, a Santa Casa da Misericórdia do Porto tem “plena consciência” de que existe “quem não tem acesso a níveis de qualidade de vida, de proteção social” e é nisso que têm “estado muito atentos” e a ser um “apoio a favor da dignidade da pessoa humana”.
Também o presidente da Associação Comercial do Porto, outra das entidades promotoras do prémio, realça que existem para “promover a ilustração e prosperidade da região”, sendo que a “coesão social é fator preponderante de desenvolvimento económico”. E, em relação ao Bispo, Nuno Botelho recorda que “emocionava a cada momento” as pessoas que estavam com o Bispo do Porto entre 2014 e 2017, e a sua forma de se relacionar com as pessoas e como “abordava os temas, os problemas, abria ainda mais os horizontes para essas necessidades”. E acrescentou:
É quase uma obrigação da cidade, enquanto Diocese do Porto, estar atenta ao legado que deixou de atenção aos próximos, de olhar a quem precisa e nunca esquecer que um dia podemos ser nós”.
***
O jornalista Rui Saraiva escreveu na Voz Portucalense e disse ao Vatican News que a figura de Dom António Francisco no último ano já foi motivo da atribuição do nome de uma futura ponte sobre o rio Douro a ligar os territórios dos municípios de Porto e Vila Nova de Gaia e de uma sentida homenagem na sua terra natal com a inauguração dum belo e eloquente monumento em sua memória. E isto porque a sua ação pastoral na diocese do Porto “foi intensa, próxima e profundamente evangélica”. E elegeu quatro momentos marcantes do seu incansável trabalho na diocese: o plano diocesano de pastoral, a visita aos doentes, a visita da Imagem Peregrina de Nossa Senhora de Fátima, a Peregrinação Diocesana a Fátima.
Segundo o jornalista, Dom António Francisco “marcou a sua ação no Porto com uma enorme capacidade de visão estratégica e planeamento” a que “dava uma dimensão pastoral traduzida em caminho a percorrer no tempo”. O Plano Pastoral quinquenal apresentado em 2015 iniciou esse caminho com o lema “A alegria do Evangelho é a nossa missão”, que ele queria percorrer rumo ao Sínodo Diocesano, colhendo inspiração na Exortação Apostólica do Papa Francisco “Evangelii Gaudium”. Assim, o prelado preconizou que a Diocese caminhasse com um grande objetivo: “A Igreja Diocesana, marcada pela alegria do Evangelho, que nasce do encontro com Cristo, renova-se em missão, para irradiar a esperança e servir na caridade”.
Iniciando este percurso, embalado pelo Ano Santo da Misericórdia proposto pelo Papa Francisco, o Prelado deu um lema forte e significativo ao caminho de 2015/16 “Felizes os misericordiosos!”. O ano 2016/17 avançou com o lema “Com Maria, renovai-vos nas fontes da alegria!”. E 2017/18, o último ano percorrido sem Dom António, seguiu com o grande lema “Movidos pelo amor de Deus!”. Estas etapas anuais, com suas atividades, encontros e momentos, levaram a Igreja do Porto a percorrer caminho em conjunto, um caminho “sinodal” que na sua última fase fosse o que Bispo assinalara: “Um caminho sinodal aberto a todos!”.
Uma constante na vida pastoral de Dom António Francisco na diocese foi a Visita aos doentes, preocupação diária a que se entregava “envolvido pelo acolhimento aos mais necessitados”. Quando visitava alguém num hospital da cidade ou da diocese, visitava também os restantes doentes da enfermaria, deixando todos deixava uma palavra, um carinho, um sorriso.
De memória prodigiosa, as visitas a hospitais e outras instituições de saúde e de acolhimento de idosos “permitiram municiá-lo dos pormenores necessários para aumentar o seu âmbito de contacto e de comunicação”. E vinca o jornalista:
Tinha uma postura personalizada. Cada pessoa era um alvo da sua atenção, do seu olhar e da sua ternura. Não esquecia os nomes e os detalhes dos encontros e isso permitia-lhe conhecer as pessoas, as suas histórias, as suas preocupações e necessidades. Em particular, nos hospitais Dom António Francisco já era uma visita normal. Os funcionários conheciam-no e saudavam-no logo que o viam cientes de que trazia calor humano para os doentes.”.
Em 2016, a Visita da Imagem Peregrina de Nossa Senhora de Fátima a todas as dioceses do país foi particularmente sentida na diocese portucalense de 10 de abril a 1 de maio. Nestes momentos de alegria e encontro, de oração e celebração, eivados pela profunda fé do povo, Dom António redobrou-se no contacto, no acolhimento e nas atividades desses dias. Dizia em 10 de abril na receção da imagem peregrina em Ovar:
Podemos dizer que a correspondência à presença da Virgem Maria na Igreja e nas nossas vidas, por vontade de Deus, é mais que mera devoção. Criatura de Deus, a primeira e a mais fiel dos discípulos, sinaliza caminhos de busca e de encontro com Jesus Cristo. Não é meta, nem é caminho: é companhia e vereda para o Caminho.
Mas o último momento de Dom António Francisco na Diocese foi a Peregrinação Diocesana a Fátima a 9 de setembro de 2017, uma etapa percorrida com os diocesanos antes de o seu coração o trair interrompendo o percurso iniciado em 2014. Com o seu falecimento a 11 de setembro, dois dias depois da peregrinação a Fátima, “transformaram-se em objeto de estudo os momentos, as palavras, as reflexões e as emoções ali vividas”. O Bispo colocava nesta iniciativa especial atenção e expectativa e, não esperando tanta gente e tanta esperança no coração dos seus diocesanos, “o seu olhar transbordava de fé e de alegria”, sabendo que “aquele momento era princípio de algo de novo para a diocese”. E as suas últimas palavras no Santuário de Fátima – imbuídas de natural gratidão – foram de agradecimento e missão:
Obrigado a todos os que mais uma vez, e desta forma tão bela, nos dizem pela presença, pela alegria, pela oração, pela generosidade e pelo trabalho e também pela ajuda económica que deram para esta realização, que por aqui passe o sonho de Deus e o caminho da Igreja do Porto. Sentimo-nos movidos pelo amor de Deus, queremos ser esperança e fermento de um mundo melhor e queremo-nos abençoados pela mãe de Deus. […] Convoco-vos a partir daqui e desta admirável peregrinação e abençoada jornada para a missão, mas é Jesus, o Enviado do Pai, que vos envia.”.
***
O Padre Américo Aguiar, numa entrevista ao programa Ecclesia da RTP 2, transmitido a 11 de setembro, por entre momentos de tranquilidade e de emoção (longo tempo se lhe embargou a voz, ficando sem palavras), acentuou em Dom António a faceta da bondade e doçura vivenciadas no contacto com as pessoas sem olhar para o relógio e na relação com os agentes de bastidores para a administração e a ação pastoral; a paciência contra a eventual impaciência dos colaboradores; o profundo conhecimento das pessoas; a imagem de proximidade que deixou nos sítios mais improváveis; o seu empenho na educação da fé e nas vocações e o seu interesse pelos problemas da mobilidade humana. Disse que Dom António, em qualquer situação problemática ou num desafio que propunha, via sempre algo de positivo, por mais pequenino que fosse. E era assim que tentava contornar situações (e foram muitas) que lhe provocavam sofrimento. Mas a bondade mata – inferiu – e o coração não aguenta! E deu nota da edição dum livro em memória deste “Bispo inesquecível”, embora não insubstituível, um abecedário temático sobre o seu pensamento no Porto (realce para a bondade), da responsabilidade da instituição que preside.  
2018.09.12 – Louro de Carvalho

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Ministério da Educação embarca na ditadura do relativismo de situação

Não se trata dum departamento qualquer do Estado, mas do serviço público de educação que se deve pautar pelo figurino de educação que promove em duas vertentes: a do conhecimento e desenvolvimento de capacidades; e a dos valores, espelhados em atitudes e comportamentos norteados pela ética, por mínima que seja.
***
Começando pela segunda vertente, é certo e sabido, pelas redes sociais e pela comunicação social convencional, que houve uma fuga de informação sobre o conteúdo da prova do exame de Português (639), na 1.ª fase, a que se sujeitou a maior parte dos alunos, sendo poucos os que se submeteram à prova 239 (alunos com deficiência auditiva de grau severo ou profundo) e à prova 94/839 (Prova Final/Prova de Exame Final Nacional de Português Língua Não Materna).
Do meu ponto de vista, porque o universo de alunos que podem ter beneficiado do conhecimento prévio dos conteúdos veiculados será muito difícil de calcular, a prova 639 deveria ser anulada quanto antes, para evitar incómodos maiores. É injusto, sem dúvida, mas situações excecionais merecem postura excecional. Por motivos excecionais, tivemos excecionalmente as fronteiras encerradas; no verão de 2016, a A1 esteve cortada ao trânsito nos dois sentidos horas e horas e as pessoas (jovens e donzelas, velhos e crianças) tiveram de aguentar a espera e o calor. Foi incómodo e injusto, mas teve de ser. Porém, com agrado da CONFAP e de largos setores de opinião, no dia 28, o Ministro da Educação garantiu que o exame de Português do 12.º ano, cuja eventual fuga de informação em investigação, não vai ser anulado. Segundo Tiago Brandão Rodrigues, caso se venha a confirmar que houve fuga de informação, “o Ministério agirá civil, disciplinar e criminalmente contra o seu autor ou autores”. 
O que espanta é que o Ministro fale em eventual fuga de informação, quando os factos não se discutem. A fuga existiu e foi denunciada ao ME (Ministério da Educação). O que tem de ser investigado é a autoria do facto e a extensão dos possíveis beneficiários. Mas o governante declarou aos jornalistas, à margem da sessão de entrega de prémios do concurso “Conta-nos uma história!”, que decorreu na Maia, distrito do Porto, no dia 28:
Se alguém saiu beneficiado por essa fuga de informação, de forma comprovada, obviamente que sofrerá as consequências que estão inscritas nos regulamentos”.
E disse mais:
Não está em cima da mesa, nem esteve e nem foi equacionada, a possível anulação da prova”.
Ora, perante uma fraude todas as hipóteses devem ser equacionadas, bem como num processo de investigação. Todavia, para Brandão Rodrigues, “face a uma denúncia que existiu, fez-se o que devia ser feito, o que tinha que ser feito” e o ME não intervirá na investigação que decorre relativamente a uma alegada fuga de informação sobre os conteúdos da prova, porque “esta é uma questão que não pode nem deve merecer posições facilitistas ou posições precipitadas”. E acrescentou que, neste momento, é importante “transmitir aos alunos que têm de, com serenidade e tranquilidade, continuar a sua época de exames”. E a Procuradoria-Geral da República (PGR) informou, no dia 23, que a eventual fuga de informação do exame nacional de Português “deu origem a um inquérito” e “o mesmo encontra-se em investigação no DIAP (Departamento de Investigação e Ação Penal) de Lisboa”. Com efeito, em resposta à Lusa, a PGR disse que se confirmava “a receção da participação do IAVE [Instituto de Avaliação Educativa], a qual deu origem a um inquérito” e que o mesmo se encontrava em “investigação no DIAP de Lisboa”. 
Entretanto, jornal Expresso teve acesso ao áudio que circulou nas redes sociais alguns dias antes do exame nacional e que revelava o que ia sair na prova. Segundo o dito áudio, a fuga partiu da “presidente de um sindicato de professores”. Na gravação, feita por uma aluna que não se identifica, pode ouvir-se a estudante a dizer:
“Ó malta, falei com uma amiga minha cuja explicadora é presidente do sindicato de professores, uma comuna, e diz que ela precisa mesmo, mesmo, mesmo só de estudar Alberto Caeiro e contos e poesia do século XX. Ela sabe todos os anos o que sai e este ano inclusive”. 
E ainda:
“Pediu para ela treinar também uma composição sobre a importância da memória e outra sobre a importância dos vizinhos no combate à solidão”.
Segundo o Expresso, a situação foi denunciada ao ME por Miguel Bagorro, professor na Escola Secundária Luísa de Gusmão, em Lisboa, que soube da gravação através dum aluno a quem dava explicações de Português. E a divulgação daquele áudio levou o IAVE a anunciar que iria remeter para a IGEC (Inspeção-Geral de Educação) e para o Ministério Público informações sobre as alegadas fugas de informação, que teriam acontecido antes da realização do exame nacional do 12.º ano, que decorreu no dia 19.
Nos termos do regulamento dos exames nacionais, publicado em “Diário da República”, “a suspeita de fraude que venha a verificar-se posteriormente à realização de qualquer prova implica a suspensão da eventual eficácia dos documentos entretanto emitidos”, nomeadamente das classificações que vierem a ser atribuídas. Mais refere o documento que deve ser elaborado “um relatório fundamentado em ordem à possível anulação da prova”.
Porém, o ME não conseguirá furtar-se à polémica. Como é que se vai apurar que o aluno A ou B soube do conteúdo da fuga de informação? E como se prova que beneficiou do conhecimento prévio daqueles conteúdos? Se o ME insiste em embarcar na judicialização de escola e exame, terá imensas dificuldades em singrar por aí. O advogado Vasco Marques Correia explicou ao Expresso que o ME se arrisca a enfrentar milhares de queixas em tribunal por parte de alunos que venham a sentir-se lesados. Por esse lado, o aluno pode alegar que não conheceu que se tratava do poema XXXVI (de O Guardador de Rebanhos) e que a composição sobre a memória não era a única hipótese aventada. Mas, em 3 dias, não era possível ler todos os poemas de Alberto Caeiro e fazer uma composição sobre memória ou sobre solidão? Eram 110 pontos (11 valores).
Ora, que houve atropelo à ética houve e cabe à escola promover atitudes éticas e corrigir pedagogicamente as suas contrafações e desvios, o que não se faz por via judicial, que leva tempo e exige provas iniludíveis, sujeitas a todos os esquemas inerentes às batalhas jurídicas.
Assim, segundo Marques Correia ao Expresso Diário, o ME, ao decidir pela não anulação do exame e pela garantia de que “só os alunos que comprovadamente tenham beneficiado com a alegada fuga de informação” serão penalizados, enfrentará a chamada “prova diabólica” (‘diabolica probatio’), de que se fala em Direito. Com efeito, identificar todos esses estudantes e demonstrar que tiraram vantagem daquela informação é praticamente impossível.
É, de facto, muito difícil sustentar juridicamente a anulação da prova a alguns alunos. Seria preciso provar que o aluno acedeu a uma informação confidencial a que não tinha direito de aceder e que objetivamente beneficiou com isso, colocando-se numa situação de vantagem em relação aos colegas. Ou seja, não bastava mostrar que teve acesso à informação. Era preciso que tivesse agido em conformidade, orientando o estudo para aquelas matérias.
Além disso, como é que pensa o ME chegar aos autores através da pesquisa em redes sociais, a não ser que, colocando todas as hipóteses, se passem a pente fino serviços do IAVE, da editorial do ME e das próprias forças de segurança. Será possível e viável? Tenho dúvidas.
No dia 29, deu-se conta de furto de granadas (Quantas?) e munições de 9mm (Quantas?). Mas o Ministro da Defesa Nacional não veio falar em eventual furto, mas em caso grave e crime muito profissional. Há ministros e ministros… mas era material de guerra e não exames de Português. Como é que eu não percebi logo!
***
Abordando agora a primeira das vertentes acima referenciadas, está em causa já não só a ética dos valores, mas também a do conhecimento. E o IAVE tem sido useiro e vezeiro nisso, como se pôde ver pelos exemplos que já apresentei alhures. E, tratando-se duma entidade tornada independente – pensava eu que da hierarquia do ME, mas pelos vistos também independente da ciência –, Sua Excelência o Ministro não teria que responder pelo IAVE. Porém, veio considerar que houve “uma diferença de opinião” entre o IAVE e a SPM (Sociedade Portuguesa de Matemática) quanto a critérios de classificação do exame de Matemática do 9.º ano, já ultrapassada. Disse Sua Excelência aos jornalistas:
“O Instituto de Avaliação Educativa, que organiza todo o processo de exames e provas a nível nacional, já prestou um esclarecimento sobre o assunto. É mesmo isso, uma diferença de opinião, mas isso está sanado e os esclarecimentos já foram prestados”.
Está em causa o item 14 (no 2.º caderno) da referida prova: Fatoriza o polinómio x2 - 4. Qualquer antigo aluno de Matemática deste nível sabe que se trata da diferença de quadrados cuja fatorização se exprime num monómio constituído pela multiplicação da diferença dos dois elementos (x e 4) pela soma dos mesmos: (x2) (x + 2); ou, atendendo à propriedade comutativa: (x + 2) (x2). Nunca será aceitável uma valorização de peso (75% – 3 pontos em 4) para uma solução falsa, como o é: x2 x x + 2. Quando muito, do meu ponto de vista, mereceria um ponto por o aluno ter identificado o caso notável da diferença de quadrados.
A SPM denunciou a existência dum erro na proposta de correção do exame do 9.º ano à disciplina, realizado por quase 90 mil alunos finalistas do ensino básico, lamentando “verificar que, nos critérios de correção publicados pelo IAVE [Instituto de Avaliação Educativa], no item 14 sejam atribuídos 75% da cotação a uma resposta integralmente errada”. E o IAVE esclareceu que “nada existe de errado” nos critérios de classificação do exame de Matemática, estando em conformidade com o previsto, ao contrário do que afirma a SPM. 
Em seu comunicado, o IAVE esclarece que “o objetivo do item 14 era verificar se os alunos identificavam um dos casos notáveis da multiplicação de polinómios” e justificando ainda:
“A resposta referida pela SPM como ‘integralmente errada’ evidencia essa identificação, embora esteja escrita de modo formalmente incorreto, por omissão dos parêntesis. Como tal, e de acordo com os critérios gerais relativos a respostas restritas, onde se indica que a apresentação de expressões incorretas do ponto de vista formal está sujeita à desvalorização de um ponto, foi este o procedimento seguido.”.
Primeiro, não se trata só do objetivo de encontrar um caso notável. Se o fosse, a questão deveria ser formulada de outro modo. Mas a frase imperativa é “fatoriza”. Na resposta valorizada a 75% não há fatorização, mas fica evidente a existência de polinómio com três membros. Segundo, não se trata de expressão incorreta só do ponto de vista formal, mas sobretudo de uma resposta falsa em termos de conteúdo.
Também a Prova Final de Português (91) do 9.º ano oferece uma joia curiosa.
O GRUPO V tem o seguinte enunciado:
Seleciona uma figura pública feminina, portuguesa ou estrangeira, que, do teu ponto de vista, tenha um papel marcante no desporto, na música, na ciência ou na literatura.
Escreve um texto de opinião bem estruturado em que: apresentes a figura selecionada; fundamentes a tua escolha em, pelo menos, três razões; dês um exemplo de uma iniciativa que pudesse ser criada para homenagear essa figura pública.
Deves escrever entre 160 e 240 palavras.
Não se conhece posição pública do IAVE que desdiga dos critérios de correção e classificação estabelecidos. Porém, como é sabido, a escolha de alguns recaiu em Cristiano Ronaldo, que não corresponde aos termos basilares do estado da questão “uma figura pública feminina”. É fácil a perceção do escopo de quem organizou a prova: situá-la no debate da igualdade de género.
Ora, tanto quanto se sabe, em resposta a dúvidas dos professores classificadores, o IAVE recomenda ou aceita que haja contemporização porque há outros aspetos a considerar, os alunos podem ter apreendido o essencial, etc. etc.
***
Posto isto, interrogo-me: para quê tanto rigor na organização e prestação das provas? Que valores é que o IAVE defende? Que importância dá ao conhecimento? A sua missão mais importante será homologar ou ratificar as imprecisões, as distrações ou as confusões? Não constituirá um mau exemplo a seguir por alunos e professores?
Não me apraz ver o ME ou algum departamento ligado à educação e ensino numa fase pós-científica, sobretudo se ela corporizar o nacional-porreirismo ou o “laissez fiare, laissez passer”. Preferia o culto da democracia do conhecimento e dos valores em vez da sujeição à ditadura de situação a redundar no relativismo científico e ético. Deus lhes perdoe, que é quem tudo pode.

2017.06.29 – Louro de Carvalho

quinta-feira, 25 de maio de 2017

O que significa ser conterrâneo

Fez ontem, dia 24 de maio, 28 anos que ouvi o Professor Doutor Evaristo Fernandes, da Universidade de Aveiro – creio que é de momento um professor jubilado – a falar numa sessão formativa a professores e alunos da então Escola Secundária de Moimenta da Beira (hoje Escola Secundária Dr. Joaquim Dias Rebelo, sede do Agrupamento de Escolas de Moimenta da Beira).
No âmbito da sua intervenção, o orador contou um episódio que, penso eu, pretendia rebater a autossuficiência e a prosápia de muitos, incluindo pessoas que têm a obrigação de abertura ao desconhecido e à ajuda interativa. Ninguém pode tudo, ninguém sabe tudo!
Um professor avisara os alunos de que não deviam utilizar na próxima prova escrita (teste, como se diz hoje) qualquer dicionário e, se algum dos alunos tivesse uma dúvida, que lha expusesse, porque “eu respondo, que eu sei tudo”.
No momento da prova, um aluno pediu a palavra e perguntou: “Ó Professor, o que significa a palavra ‘conterrâneo’?”.
Ao que o professor, meio embasbacado, replicou: “Bem, conterrâneo significa, bom conterrâneo quer dizer… (e ganhou segurança) conterrâneo é aquele que sabe tanto como eu”.
E, coloco-me agora, não apenas na condição de quem lê as notícias de um determinado dia no dia seguinte, que é quando recebe o jornal matutino do dia (Que raio! Todos trazem só as notícias da véspera…), mas também na pele do pregador – que tratava os seus ouvintes por conterrâneos, porque efetivamente o eram – e, não contente com essa condição comum da conterraneidade, contou-lhes aquela historieta. E explicava:
De facto, vós sabeis tanto como eu, porque temos uns e outros a sabedoria haurida na mesma terra que nos fez brotar das mesmas raízes; crescemos a par dos mesmos troncos de árvore ou dos mesmos caules de ervas, arbustos e subarbustos; lidamos com o mesmo tipo de animais, grandes ou minúsculos; bebemos das mesmas águas ou do mesmo vinho; calcorreamos os mesmos caminhos; atravessamos pelas mesmas pontes, os mesmos ribeiros e rios; pastoreamos igualmente os rebanhos e elementos de manada; escondemo-nos nos mesmos vales e atrás dos mesmos montes; fazemos trabalhos semelhantes; e temos a mesma tradição de fé, educação, festejos e usos.
***
 Nada em demasia. Mas é de questionar se a mesma aprendizagem, a aquisição dos mesmos conhecimentos e de capacidades similares nos tornam apenas condiscípulos (estudaram juntos, mas facilmente perderam o contacto), não fazendo de nós propriamente conterrâneos. Tudo depende do que entendamos por “saber”, “conhecer”, “terra” e “ser da mesma terra”. 
Muitas vezes confundem-se os termos “saber” e “conhecer”. No entanto, o significado profundo de cada um distingue-se bem. A doutrina cristã estabelece a diferença, nos dons do Espírito Santo, entre ciência como conhecimento e sapiência ou sabedoria. “Ciência” vem do latim “scientia”, do verbo “scire”, que significa; ciência, conhecimento, arte, habilidade, erudição, instrução e, por extensão, saber, sabedoria. Por seu turno, “scire” significa: conhecer, ter conhecimento, ser informado, ver, reconhecer, compreender, perceber, versar uma arte ou uma ciência, decidir, decretar, etc. Porém, “sabedoria” vem do verbo latino “sapere” a cuja família lexical pertence a palavra “sapientia”. E “sapere” significa: ter gosto, ter sabor, ter bom paladar, (fig.: ter senso, ter discernimento) e, por extensão, saber, conhecer, compreender. Da sua família lexical é “sapor”, que significa: gosto, sabor, paladar (fig.: sensatez, razão, gracejo delicado, dito gracioso), o que tem sabor, o que sabe bem, tempero, perfume, aroma. Então, “sapiência” ou “sabedoria” será a capacidade, a aptidão e/ou a atitude de apreciar o que se conhece, a degustação das boas coisas, a fruição, a aptidão pessoal, o bom gosto, o bom paladar, o gosto do conhecimento, a prudência, a moderação, a indulgência, a vontade de entrar gostosamente nos escaninhos duma arte ou duma profissão. O sábio é um abismo de credibilidade, que tem o dom da atração interior. A ciência está para a sabedoria com a cultura para a erudição. O cientista é um especialista ou o detentor de um saber enciclopédico, ao passo que o sábio tem um saber “enciclopedêutico”, interior, ruminado, reflexivo…
“Conhecimento” dizia-se em latim “cognitio”, que significava: o ato de conhecer, a ideia, a conceção, a instrução, a inquirição, o processo, a devassa judiciária, o reconhecimento, a penetração no âmago da realidade e, no sentido bíblico veterotestamentário, a relação conjugal. O nome “cognitio” tem uma relação lexical com o verbo “cognoscere”, que significa: conhecer pelos sentidos ou por experiência, ver, ser informado, saber, reconhecer, aceitar, aceitar alguém como filho, julgar, investigar, passar revista (às tropas), ter relações íntimas, copular.  
“Terra” é um dos quatro elementos primordiais por oposição a “mare” (mar, água), “aer” (ar) e “ignis” (fogo), a terra firme, continente, o globo terrestre, a região, o país, a parte habitável do globo, a terra divinizada como mãe comum. O nome “terra” no latim está relacionado com o verbo “torrere”, que significa secar, enxugar, secar ao sol ou ao lume, assar, tostar. Que seria da terra sem a luz e o calor do sol ou sem a humidade que lhe transmite o mar, o rio ou a nuvem?
Então “ser da mesma terra” significará ser o conteúdo do mesmo habitat, penetrar no mesmo mundo, apoiar-se nas mesmas raízes, abrigar-se às mesmas sombras, cheirar as mesmas fores, saborear os mesmos frutos, lidar com os mesmos animais, apreciar o mesmo conhecimento, partilhar usos, costumes, angústias, alegrias e festas – enfim relacionar-se, sentir as mesmas cumplicidades, ter a mesma sabedoria da vida, sentir-se formado do mesmo pó através da ação amorosa de progenitores semelhantes ou sentir-se acolhido por um mundo de semelhanças e participante nesse numa relação de cumplicidade para lá e acima da relação biológica. O conterrâneo é compatriota e luta pelos mesmos interesses e direitos que os seus vizinhos, próximos ou semelhantes. Nunca se sente desenraizado ou deslocado.
***
Chegou a pensar-se que o conterrâneo é aquele que nasceu na mesma terra e ali viveu durante algum tempo. E é verdade. Mas a conterraneidade, sobretudo mos temos que correm, ultrapassa as fronteiras da terra onde nascemos (até porque hoje muitos nascem numa maternidade que pouco lhes ficará a dizer no futuro) e/ou onde vivemos com os pais ou com quem faz para nós as suas vezes. No entanto, cada vez mais a conterraneidade se realiza no lugar onde moramos ou mesmo onde trabalhamos – o que nos dá várias fontes e formas de conterraneidade.
Assim, no meu caso concreto, não posso deixar de me afeiçoar à terra onde nasci e onde viveram os meus pais e outros familiares. E, mesmo que já haja muitas pessoas que já não conheço, ainda se lá reconhecem as velhas raízes e algumas vergônteas vitais. Porém, não posso deixar de acolher a conterraneidade das terras onde estudei (Resende e Lamego), onde trabalhei (Lamego, Vila Nova de Foz Coa, Vila Nova de Paiva, Viseu, Moimenta da Beira e Sernancelhe), onde servi ativamente a Igreja Católica (Sarzeda, Freixinho, Vila da Ponte, Granjal, Regimento de Infantaria n.º 14, Ponte do Abade e Cunha). De tudo isto faço memória nas alegrias e nalguns problemas e recordo as pessoas. Obviamente, agora vivo a síndrome da conterraneidade na dupla Santa Maria da Feira – São João de Ver, por razões profissionais e familiares, nesta diocese do Porto onde o conterrâneo-mor é o Bispo do Porto, que, há três anos, se fixou a frente da Igreja do Porto por disposição eclesial.
***
Evidentemente que as recordações mais gratas vêm de Vila da Ponte onde vivi cerca de 21 anos e de que, juntamente com Sernancelhe, Granjal, Ponte do Abade, Freixinho e Cunha, retenho muitas cumplicidades.
E, por isso, volto à historieta que o jubilado Professor da Universidade de Aveiro contou a 24 de maio de 1989. É que nesse dia a conterraneidade em Vila da Ponte foi altamente vergastada com o falecimento da Maria dos Remédios Soares. Talvez tenha sido ela a pessoa, além da relação de consanguinidade por quem chorei mais. Naquela terra, só se lhe igualou para mim a saudade pelo Cónego José Cardoso e pelo Cónego Mário Augusto, pela Leonor, pelo Herménio e pelo Octávio Catarino.
Provavelmente as celebrações a que presidia com maior dificuldade eram as exéquias. Todavia, procurava manter a serenidade, promover o canto litúrgico do Oficio Divino e deixar uma palavra homilética de fé, gratidão, esperança e solidariedade.
A primeira vez que falei com a Maria dos Remédios foi uma tarde de domingo em que ainda não pensava que havia de residir naquela freguesia. Tinha ido ao salão da Casa do Povo a uma reunião de jovens (fora com os do Carregal). Como havia de tomar o autocarro, vi uma senhora que varria a testada do seu café e perguntei-lhe onde parava o autocarro para Lamego, tendo-me ela dito que era em frente da Capela que estava à vista. Entretanto, inseguro, passados uns minutos, voltei para trás e perguntei se o autocarro parava ali mesmo ao domingo. Ela reiterou a informação pela positiva. No entanto, a alguém que passava atirou: “O homem é esquisito, não confia nas pessoas!”. Fiquei contente com a crítica.
A Maria dos Remédios e restante família sempre me acolheram como membro da família. Sofreu muito e faleceu com 46 anos de idade, a 24 de maio de 1989, deixando três filhas, um filho e o marido (que se debate com a enfermidade e cujas melhoras desejo). Todos nos tratamos por iguais, com fraternidade, sentido de família e desejo de bem.
O funeral foi na manhã do dia 26. A Maria confidenciava uma certa confusão quando pensava que seria enterrada. Disso ninguém a livrou. Todavia, a perspetiva de ter um funeral com o povo a rezar e a cantar por si foi concretizada apesar da consternação. O dia entre o óbito e o funeral foi o da solenidade do Corpus Christi. Nesse dia, após a missa, fez-se a procissão do Santíssimo Sacramento pelas ruas da freguesia; e a bênção foi lançada no lugar do Pelourinho, em frente da Capela de São Sebastião, em frente da Capela de Nosso Senhor dos Passos (aquela onde parou o autocarro, mas que deixou de parar) e obviamente na igreja paroquial.
É de justiça fazer-lhe esta memória no 28.º aniversário da sua passagem para o Céu. E é uma forma de celebrar a conterraneidade ou a sabedoria comum e também a minha gratidão pessoal.

2017.05.25 – Louro de Carvalho