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domingo, 19 de novembro de 2017

Uma leitura da parábola dos talentos no Dia Mundial dos Pobres

O I Dia Mundial dos Pobres ocorre no XXXIII domingo do Tempo Comum do Ano A, em que se proclama e medita nas igrejas a perícopa do Evangelho de Mateus que enuncia a parábola dos talentos ou do “homem que, ao partir de viagem, chamou os seus servos e confiou-lhes os seus bens… (Mt 25,14-30), de teor semelhante ao da parábola das minas de Lucas (vd Lc 19,12-27).
É também uma parábola do Reino dos Céus, pois o cap. 25 inicia-se com a expressão “o Reino dos Céus é semelhante a dez virgens que…”. E, terminada essa parábola, vem o segmento “Será também como um homem que, ao partir de viagem, chamou os seus servos e confiou-lhes os seus bens. E segue a narrativa conhecida de todos.
Esta parábola apresenta-nos dois exemplos opostos de como esperar e preparar a última vinda do Senhor. Louva o discípulo que se empenha em fazer frutificar os bens que Deus lhe confia – o servo que recebeu 5 talentos e trabalhou com eles, ganhando mais 5, recebe como prémio a entrada no gozo do seu Senhor; e como a ele, foi dado o prémio de entrar na comunidade feliz do Senhor ao que recebera dois talentos e ganhou com a sua dedicação outros dois –, mas condena o discípulo que se instala no medo e na apatia e não põe a render os bens que Deus lhe entrega (está a desperdiçar os dons de Deus e a privar os irmãos, a Igreja e o mundo dos frutos a que têm direito).
Enquanto os servos diligentes, com o seu trabalho lúcido e diligente, ganharam o dobro do que receberam e o puderam entregar ao Senhor aquando do seu regresso da longa viagem, o servo mau, porque preguiçoso, tinha escondido cuidadosamente o talento que lhe fora confiado, pois conhecia a exigência do “senhor” e dele tinha medo. Ora, se os dois primeiros servos foram louvados pelo Senhor, o terceiro foi severamente criticado e condenado (pranto e ranger de dentes).
A parábola, tal como saiu da boca de Jesus, é uma “parábola do Reino”. O amo ou senhor exigente seria Deus, que reclama para Si uma lealdade a toda a prova e que não aceita meias tintas e situações de acomodação e de preguiça. Os servos a quem Ele confia os valores do Reino devem acolher os seus dons e pô-los a render, a fim de que o Reino seja uma realidade. No Reino, ou se está completamente comprometido, ou não se está. Não há lugar à tibieza ou mornice. Entretanto, Mateus partindo da mesma parábola, sem a descaraterizar como parábola do Reino, situou-a num outro contexto: o da vinda do Senhor Jesus, no final dos tempos. A vinda do Senhor é uma certeza; e, quando Ele voltar, julgará os homens conforme a atitude fundamental e os comportamentos que tiverem assumido na sua ausência. Nesta versão da parábola, este “senhor” é Jesus que, antes de deixar este mundo, entregou bens consideráveis aos seus “servos” (os discípulos), que serão seus amigos se fizerem o que Ele manda (cf Jo 15,14). Estes “bens” ou talentos (talento era 6000 dracmas ou 3000 siclos = 36Kg de ouro) são os dons que Deus, por Jesus, ofereceu aos homens – a Palavra divina, os valores evangélicos, o amor tornado serviço aos irmãos, sobretudo aos mais pobres, e que se dá até à morte, a partilha e o serviço, a misericórdia e a fraternidade, os carismas e ministérios que ajudam a construir a comunidade do Reino dos Céus. Os discípulos de Jesus são os fiéis depositários (não só depositários) e generosos despenseiros destes “bens”. A questão gira, pois, em torno das seguintes perguntas:
Como devem ser utilizados estes “bens”? Devem dar frutos, que devem ser distribuídos por quem precisa, ou devem ser conservados cuidadosamente enterrados? Os discípulos de Jesus podem – por medo, por comodismo, por desinteresse – deixar que esses “bens” fiquem infrutíferos e inúteis?
Nos termos da parábola, os bens que Jesus deixou aos discípulos têm de dar frutos, visto que ela apresenta como modelos os dois servos que mexeram com os bens, que demonstraram interesse, que se preocuparam em não deixar parados os dons do Senhor, que fizeram investimento, que não se acomodaram nem se deixaram paralisar pela preguiça, rotina ou medo. Por outro lado, a parábola condena veementemente o servo que entregou intacto o bem que recebeu. Teve medo, pelo que decidiu não correr riscos. Porém, não só não tirou fruto desses bens, como impediu que os bens do “Senhor” fossem criadores de vida nova e de oportunidades para outrem.
Através da parábola, Mateus exorta a comunidade a estar alerta e vigilante, sem se deixar vencer pela preguiça, medo, comodismo e rotina. Esquecer os compromissos assumidos com Jesus e com o Reino, demitir-se das suas responsabilidades, deixar na gaveta os dons de Deus, aceitar passivamente que o mundo se construa de acordo com valores que não são os do Evangelho de Jesus, instalar-se na passividade e no comodismo, é privar os irmãos, a Igreja e o mundo dos frutos a que têm direito.
O discípulo de Jesus não pode esperar o Senhor de mãos vazias, ainda que erguidas e de olhos postos no céu, alheado dos problemas do mundo e preocupado em não se contaminar com as questões do mundo. O discípulo de Jesus espera o Senhor profundamente envolvido e empenhado no mundo, ocupado em distribuir por todos os homens seus irmãos os bens de Deus e em construir o Reino, pondo os seus talentos ao serviço da comunidade, sobretudo dos mais pobres, olhando-os no rosto, chamando pelos seus nomes e urgindo a sua dignidade.
O que se diz de cada discípulo deve dizer-se da Igreja, que tantas vezes se refugia no medo da contaminação e se refugia no escondimento de dons e abafa os talentos da comunidade e de cada um dos seus membros. Quantas comunidades e cristãos que se sentem castrados pelo medo da contaminação e pelo peso da lei, com medo do mundo e de seus dirigentes! E quantas vezes, a contrario, a Igreja e os seus membros por medo se antecipam e, em vez do serviço e do rendimento dos talentos, se querem impor como poder inibidor, à semelhança dos poderes mundanos! Quantas vezes não se trava a pobreza ou se deixa avançar pelo não uso do génio criativo e operativo para a anular ou, ao menos a minorar, limitando-nos a praticar uns atos isolados de caridadezinha para termos a consciência tranquila!
***
O Papa, na homilia da Eucaristia a que presidiu com a participação de 4000 pessoas pobres e os respetivos voluntários, começou por assumir que somos mendigos do essencial e disse:
Temos a alegria de repartir o pão da Palavra e, em breve, de repartir e receber o Pão eucarístico, alimentos para o caminho da vida. Deles precisamos todos nós, sem ninguém ser excluído, porque todos  somos mendigos do essencial, do amor de Deus, que nos dá o sentido da vida e uma vida sem fim. Por isso, também hoje, estendemos a mão para Ele a fim de receber os seus dons.”.
Da parábola do Evangelho de Mateus, Francisco refere que, segundo ela, nós somos destinatários dos talentos de Deus, “cada qual conforme a sua capacidade” (Mt 25,15). Quer que, antes de mais, reconheçamos que “temos talentos”, que “somos ‘talentosos’ aos olhos de Deus”. Por conseguinte, “ninguém pode considerar-se inútil”, nem “dizer-se tão pobre que não possua algo para dar”. Como “eleitos e abençoados por Deus, que deseja cumular-nos dos seus dons, mais que um pai e uma mãe o desejam fazer aos seus filhos”. E é Deus, aos olhos de Quem nenhum filho é descartável, quem confia a cada um uma missão.
Na verdade, como Pai amoroso e exigente, “responsabiliza-nos”. E explica o Pontífice:
Vemos, na parábola, que a cada servo são dados talentos para os multiplicar. Mas, enquanto os dois primeiros realizam a missão, o terceiro servo não faz render os talentos; restitui apenas o que recebera: ‘Com medo – diz ele –, fui esconder o teu talento na terra. Aqui está o que te pertence’. Como resposta, este servo recebe palavras duras: mau e preguiçoso.”.
Perante a situação de servos e de uma situação servilista, Francisco levanta uma questão, a que responde com mestria:
Nele, o que desagradou ao Senhor? Diria, numa palavra (talvez caída um pouco em desuso mas muito atual), a omissão. O seu mal foi o de não fazer o bem. Muitas vezes também nos parece não ter feito nada de mal e com isso nos contentamos, presumindo que somos bons e justos. Assim, porém, corremos o risco de nos comportar como o servo mau: também ele não fez nada de mal, não estragou o talento, antes o guardou bem na terra. Mas, não fazer nada de mal, não basta. Porque Deus não é um controlador à procura de bilhetes não timbrados; é um Pai à procura de filhos, a quem confiar os seus bens e os seus projetos (cf Mt 25,14). E é triste, quando o Pai do amor não recebe uma generosa resposta de amor dos filhos, que se limitam a respeitar as regras, a cumprir os mandamentos, como jornaleiros na casa do Pai (cf Lc 15,17).”.
Ao servo mau associa o Papa a atitude de muitos também na Igreja e da própria Igreja, às vezes, quando se confunde fidelidade com mera conservação. Diz Bergoglio:
O servo mau, tendo recebido o talento do Senhor que gosta de partilhar e multiplicar os dons, guardou-o zelosamente, contentou-se com salvaguardá-lo; ora não é fiel a Deus quem se preocupa apenas em conservar, manter os tesouros do passado, mas, como diz a parábola, aquele que junta novos talentos é que é verdadeiramente ‘fiel’ (Mt 25, 21.23), porque tem a mesma mentalidade de Deus e não fica imóvel: arrisca por amor, joga a vida pelos outros, não aceita deixar tudo como está. Descuida só uma coisa: o próprio interesse. Esta é a única omissão justa.”.
Depois, fala da indiferença como novo rosto da omissão, sobretudo quando atinge a pobreza:
E a omissão é também o grande pecado contra os pobres. Aqui assume um nome preciso: indiferença. Esta é dizer: ‘Não me diz respeito, não é problema meu, é culpa da sociedade’. É passar ao largo quando o irmão está em necessidade, é mudar de canal, logo que um problema sério nos indispõe, é também indignar-se com o mal, mas sem fazer nada. Deus, porém, não nos perguntará se sentimos justa indignação, mas se fizemos o bem.”.
Interrogando-se como podemos então, concretamente, agradar a Deus, o Papa dos pobres diz:
Quando se quer agradar a uma pessoa querida, por exemplo dando-lhe uma prenda, é preciso primeiro conhecer os seus gostos, para evitar que a prenda seja mais do agrado de quem a dá do que da pessoa que a recebe. Quando queremos oferecer algo ao Senhor, os seus gostos encontramo-los no Evangelho. Logo a seguir ao texto que ouvimos hoje, Ele diz: ‘Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a Mim mesmo o fizestes’ (Mt 25,40).
Ora, os irmãos mais pequeninos, prediletos do Senhor, “são o faminto e o doente, o forasteiro e o recluso, o pobre e o abandonado, o doente sem ajuda e o necessitado descartado”. Segundo o Pontífice, a Eucaristia tem íntima relação com os pobres. Com efeito:
Nos seus rostos, podemos imaginar impresso o rosto d’Ele; nos seus lábios, mesmo se fechados pela dor, as palavras d’Ele: ‘Isto é o meu corpo’ (Mt 26,26). No pobre, Jesus bate à porta do nosso coração e, sedento, pede-nos amor. Quando vencemos a indiferença e, em nome de Jesus, nos gastamos pelos seus irmãos mais pequeninos, somos seus amigos bons e fiéis, com quem Ele gosta de Se demorar.”.
Mas o Papa não deixa de associar ao fazer render dos talentos e à preocupação pelos pobres, o exemplo da mulher virtuosa do Livro do Provérbios (Pr 31,10-13.19-20.30-31), que Deus tem em grande apreço. De facto, a “mulher forte” estende os braços ao infeliz e abre a mão ao indigente (cf Pr 31,10.20). Esta é a verdadeira fortaleza, a dos valores do trabalho, do compromisso, da generosidade, do “temor de Deus” – de que deve revestir-se o discípulo que quer viver na fidelidade aos projetos de Deus e corresponder à missão que Deus lhe confiou; e não a dos punhos cerrados e braços cruzados. Queremos a fortaleza “das mãos operosas e estendidas aos pobres, à carne ferida do Senhor”. Como diz o Papa:
Nos pobres, manifesta-se a presença de Jesus, que, sendo rico, Se fez pobre (cf 2Cor 8,9). Por isso neles, na sua fragilidade, há uma ‘força salvífica’. E, se aos olhos do mundo têm pouco valor, são eles que nos abrem o caminho para o Céu, são o nosso ‘passaporte para o Paraíso’. Para nós, é um dever evangélico cuidar deles, que são a nossa verdadeira riqueza; e fazê-lo não só dando pão, mas também repartindo com eles o pão da Palavra, do qual são os destinatários mais naturais. Amar o pobre significa lutar contra todas as pobrezas, espirituais e materiais.”.
Mesmo em termos de realização (mais do que satisfação) pessoal, cuidar dos pobres faz-nos bem:
Abeirarmo-nos de quem é mais pobre do que nós, tocará a nossa vida. Lembrar-nos-á aquilo que conta verdadeiramente: amar a Deus e ao próximo. Só isto dura para sempre, tudo o resto passa. Por isso, o que investimos em amor permanece; o resto desaparece.”.
Assim, cada um pode interrogar-se:
Para mim, o que conta na vida? Onde invisto? Na riqueza que passa, da qual o mundo nunca se sacia, ou na riqueza de Deus, que dá a vida eterna?”.
E Francisco ensina respondendo:
Diante de nós, está esta escolha: viver para ter na terra ou dar para ganhar o Céu. Com efeito, para o Céu, não vale o que se tem, mas o que se , e ‘quem amontoa para si não é rico em relação a Deus’ (cf Lc 12,21).”.
E exorta fundamentadamente:
Então não busquemos o supérfluo para nós, mas o bem para os outros; e nada de precioso nos faltará. O Senhor, que tem compaixão das nossas pobrezas e nos reveste dos seus talentos, nos conceda a sabedoria de procurar o que conta e a coragem de amar, não com palavras, mas com obras.”.
***
Também o reitor do Santuário de Fátima, que presidiu à Eucaristia dominical na Basílica da Santíssima Trindade perante os peregrinos (fizeram-se anunciar no Serviço de Peregrinos do Santuário 13 grupos) disse que São Francisco Marto e Santa Jacinta Marto se tornaram “transparência de Jesus Cristo”. Recorde-se que se tratou de celebração rica a muitos títulos: foi missa de peregrinação; o Grupo de Acólitos do Santuário de Fátima renovou os seus votos; sintonizou com o final da Semana Nacional dos Seminários, fazendo reverter o produto do ofertório a favor do Seminário Diocesano de Leiria-Fátima; e esteve em união com o Santo Padre na sua preocupação pela eficácia do I Dia Mundial dos Pobres e na assunção do conceito profundo e existencial da pobreza e do pobre, como recurso da Sociedade e tesouro da Igreja.
O Padre Carlos Cabecinhas, comentando a parábola, alertou para a “vinda do Senhor”, uma chegada em que devemos estar “vigilantes e sem medo”. E, seguindo a liturgia, questionou os peregrinos acerca do fim que dá cada um aos “talentos que Deus nos dá”. Perguntou o sacerdote, deixando entrever nas questões formuladas as respostas consequentes:
Como preparamos a vinda do Senhor? Com confiança ou medo? Com compromisso ou apatia? Jesus antes da ascensão ao Céu entregou-nos os Seus talentos, a sua palavra, o Evangelho, o seu amor, os valores evangélicos: O que estamos a fazer a estes bens? Fazemos frutificar na nossa vida a Sua palavra e os Seus ensinamentos? Deixamos que a indiferença e o medo tomem conta de nós?”.
Mas o Padre Cabecinhas explicitou a resposta a estas interpelações, lembrando  que “o apelo à conversão na mensagem de Fátima tem sentido de vigilância, desafio a vencer o comodismo e a rotina”, pois “a mensagem de Fátima exorta-nos a não nos acomodarmos na vivência da nossa fé, a não cruzarmos os braços e a sermos criativos”. Frisando que os videntes não se acomodaram (não enterraram o talento), foram criativos na busca do bem e vontade de Deus, apelou:
Tomemos o exemplo de Francisco e Jacinta, que receberam exortações e pedidos e acolheram esse dom e os fizeram frutificar”.
Os dois santos meninos tiveram “vontade de fazer render o talento de Deus”, e foram “criativos para encontrar momentos de oração, ajudar os outros”, mesmo os mais pobres, os que eles conheciam. Por isso, segundo as palavras do reitor, “tornaram-se transparência de Jesus Cristo”, e constituem “importantes exemplos por mostrarem como fazer render esses talentos”. Com efeito, porque todos “somos testemunhas de Jesus Cristo, é com a nossa voz que Jesus Cristo faz chegar a Sua voz e solidariedade”. E concluiu o padre Carlos Cabecinhas:
Temos de ter a dignidade de fazer render este tesouro e tomar consciência desta enorme responsabilidade”.
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Prosit!

2017.11.19 – Louro de Carvalho

domingo, 4 de junho de 2017

A fé cristã ou se alimenta e comunica ou estiola

A frase plasmada em epígrafe decorre, do meu ponto de vista, da afirmação papal, “Este dia convida-nos a refletir novamente sobre a missão no coração da fé cristã”, inserida na mensagem para o Dia Mundial das Missões de 2017 que Sua Santidade subscreveu hoje, Solenidade de Pentecostes.
Na verdade, Francisco elegeu como tema deste Dia Mundial das Missões “A missão no coração da fé cristã”, firmado no princípio axiomático de que “a Igreja é, por sua natureza, missionária” e que, se assim não fosse, deixaria de ser “a Igreja de Cristo” que, “não passando duma associação entre muitas outras”, veria rapidamente “exaurir-se a sua finalidade e desapareceria”.
É Jesus, que este Papa, na esteira do Beato Paulo VI, designa como “o primeiro e maior evangelizador” (Evangelii nuntiandi, 7), que “nos envia a anunciar o Evangelho do amor de Deus Pai, com a força do Espírito Santo”. Com base neste mandato, devemos sentir-nos convidados à autointerrogação sobre algumas das questões que tocam a própria identidade cristã e as responsabilidades de crentes “num mundo baralhado com tantas quimeras, ferido por grandes frustrações e dilacerado por numerosas guerras fratricidas”, a abater-se injustamente sobretudo sobre “os inocentes”. E Francisco pretende dar resposta a três questões:
Qual é o fundamento da missão?
Qual é o coração da missão?
Quais são as atitudes vitais da missão?
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Num primeiro momento, apresenta-se o poder transformador do Evangelho como fundamento da missão, pelo que a missão da Igreja, por força deste poder revolucionário, se destina a todos os homens que estejam abertos ao transcendente e despidos da síndrome da autossuficiência, ou seja as pessoas “de boa vontade”, expressão utilizada pelo Papa São João XXIII.
O Cristo Redentor, enquanto “Caminho, Verdade e Vida” (cf Jo 14,6), tornou-se “uma Boa Nova portadora duma alegria contagiante, porque contém e oferece uma vida nova”. É “a vida de Cristo ressuscitado”. É Caminho que havemos de seguir “com confiança e coragem” para fazermos a “experiência da sua Verdade e recebermos “a sua Vida”. E esta vida é a “plena comunhão com Deus Pai na força do Espírito Santo”, que nos livra de todo o egoísmo se se torna “fonte de criatividade no amor”. É o Pai quem deseja esta transformação existencial dos filhos e filhas, “transformação que se expressa como culto em espírito e verdade” (cf Jo 4,23-24), isto é, vida animada pelo Espírito à imitação do Filho para glória do Pai, uma vez que “a glória de Deus é o homem vivo”. Assim, o Evangelho transformador “torna-se palavra viva e eficaz” a realizar o que proclama, ou seja, Cristo, que “Se faz carne em cada situação humana” (cf Jo 1,14).
***
Num segundo momento, o Pontífice glosa o tema “a missão e o kairós de Cristo”. Na verdade, a missão da Igreja não se confina à “propagação duma ideologia religiosa” ou à “proposta duma ética sublime”. Para isso, não faltam neste mundo “movimentos capazes de apresentar ideais elevados ou expressões éticas notáveis”. Porém, pela missão da Igreja “é Jesus Cristo que continua a evangelizar e agir”. É por isso, que a missão “representa o kairós, o tempo propício da salvação na história”. Pela proclamação do Evangelho, Cristo fica “nosso contemporâneo, consentindo à pessoa que O acolhe com fé e amor experimentar a força transformadora do seu Espírito de Ressuscitado, que fecunda o ser humano e a criação”, como a chuva faz à terra, ou como refere a Evangelii gaudium (EG), no seu n.º 276:
“A sua ressurreição não é algo do passado; contém uma força de vida que penetrou o mundo. Onde parecia que tudo morreu, voltam a aparecer por todo o lado os rebentos da ressurreição. É uma força sem igual.”.
Já Bento XVI referia na encíclica Deus caritas est, n.º1:
“Ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo”.
Na verdade, insiste o Papa Francisco, “o Evangelho é uma Pessoa, que continuamente Se oferece e, a quem A acolhe com fé humilde e operosa, continuamente convida a partilhar a sua vida através duma participação efetiva no seu mistério pascal de morte e ressurreição”. E é pelo Batismo que o Evangelho se torna “fonte de vida nova, liberta do domínio do pecado, iluminada e transformada pelo Espírito Santo”; é pela Confirmação que se torna “unção fortalecedora” que, graças ao Espírito, “indica caminhos e estratégias novas de testemunho e proximidade”; e é pela Eucaristia que se torna “alimento do homem novo” ou, no dizer de Inácio de Antioquia, “remédio de imortalidade”.
Num mundo que “tem uma necessidade essencial do Evangelho”, Jesus continua, através da Igreja, “a sua missão de Bom Samaritano, curando as feridas sanguinolentas da humanidade, e a sua missão de Bom Pastor, buscando sem descanso quem se extraviou por veredas enviesadas e sem saída”. E, entre as muitas e significativas experiências que testemunham visivelmente “a força transformadora do Evangelho”, Francisco refere o gesto dum estudante “dinka” que, “à custa da própria vida”, protegeu “um estudante da tribo ‘nuer’ que ia ser assassinado”. E recorda uma “Celebração Eucarística em Kitgum, no norte do Uganda – então ensanguentado pelas atrocidades dum grupo de rebeldes –, quando um missionário levou as pessoas a repetirem as palavras de Jesus na cruz: ‘Meu Deus, meu Deus, porque Me abandonaste?’ (Mc 15,34)”. E diz o Papa que podemos pensar em tantos testemunhos “de como o Evangelho ajuda a superar os fechamentos, os conflitos, o racismo, o tribalismo, promovendo por todo o lado a reconciliação, a fraternidade e a partilha entre todos”.
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Num terceiro momento, cataloga as atividades fundamentais da missão numa espiritualidade de êxodo, peregrinação e exílio contínuos. É a igreja em saída de que fala recorrentemente o Papa. Tem ela de sair da sua comodidade com a coragem de atingir as periferias necessitadas da luz do Evangelho (cf EG, 20). Esperam-na os “desertos da vida”, as “experiências de fome e sede de verdade e justiça” (É a Igreja das Bem-aventuranças!) – sítios por onde a Igreja através dos seus membros tem de viver numa postura de peregrinação contínua, sentindo-se numa situação de exílio contínuo de modo que “o homem sedento de infinito” sinta “a sua condição de exilado a caminho da pátria definitiva, pendente entre o ‘já’ e o ‘ainda não’ do Reino dos Céus”. É o sentido de missão que diz à Igreja que ela “não é fim em si mesma, mas instrumento e mediação do Reino”. Por isso, se se armar em “Igreja autorreferencial”, comprazendo-se nos “sucessos terrenos”, deixa a sua condição de “Igreja de Cristo, seu corpo crucificado e glorioso”.
Por isso, Francisco adverte-nos da preferência por “uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças” (EG, 49). É a Igreja movida pela fé e não pela sede da riqueza, do poder ou do prestígio; e que não se deslumbra consigo mesma, mas apenas com o rosto do seu Senhor.
Sendo os jovens “a esperança da missão” e continuando a “pessoa de Jesus e a Boa Nova proclamada por Ele” a fascinar “muitos jovens”, o Pastor argentino aproveita o ensejo para apontar o próximo Sínodo dos Bispos em torno do tema “Os jovens, a fé e o discernimento vocacional” como “uma ocasião providencial para envolver os jovens na responsabilidade missionária comum, que precisa da sua rica imaginação e criatividade”.
Será com jovens que “buscam percursos onde possam concretizar a coragem e os ímpetos do coração ao serviço da humanidade” que  Jesus Cristo irá “a cada esquina, a cada praça, a cada canto da terra”. E são já “muitos os jovens” – felizes “caminheiros da fé” – a solidarizarem-se “contra os males do mundo, aderindo a várias formas de militância e voluntariado”. 
E o Papa releva o papel das OPM (Obras Missionárias Pontifícias) como “instrumento precioso para suscitar em cada comunidade cristã o desejo de sair das próprias fronteiras e seguranças, fazendo-se ao largo a fim de anunciar o Evangelho a todos”. Cabe-lhes promover, “através duma espiritualidade missionária profunda vivida dia a dia e dum esforço constante de formação e animação missionária”, envolver “adolescentes, jovens, adultos, famílias, sacerdotes, religiosos e religiosas, bispos para que, em cada um, cresça um coração missionário”. O Dia Mundial das Missões, iniciativa da Obra da Propagação da Fé, será “a ocasião propícia para o coração missionário das comunidades cristãs participar, com a oração, com o testemunho da vida e com a comunhão dos bens, na resposta às graves e vastas necessidades da evangelização”.
Por fim, vem o apelo a que “façamos missão inspirando-nos em Maria, Mãe da evangelização”, pois Ela, pelo sim inefável da sua disponibilidade, acolheu, “movida pelo Espírito”, a força do “Verbo da vida na profundidade da sua fé humilde”. Por isso, há de ajudar-nos a dizer “sim” à “urgência de fazer ressoar a Boa Nova de Jesus no nosso tempo”, obtendo-nos “um novo ardor de ressuscitados para levar, a todos, o Evangelho da vida que vence a morte” e há de interceder para que tenhamos a “santa ousadia” da busca de novas vias de chegada do dom da salvação a todos.
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Sirva esta breve, mas estupenda mensagem pontifícia para estimular o esforço de ultrapassagem da falha de reflexão da Igreja portuguesa em torno da problemática da juventude em vésperas do Sínodo dos Bispos e consequente mobilização da juventude que o Presidente da Comissão Episcopal Cultura, Bens Culturais e Comunicações Sociais muito oportunamente denunciou na 13.ª edição da Jornada Nacional da Pastoral da Cultura a 3 de junho pp. E que seja mais um meio de apreciação positiva da preocupação do Papa Francisco para com toda a Igreja na sua atitude de Igreja em saída, na pluralidade de vocações missionárias ante a multiplicidade das situações de miséria, exploração, descarte e coisificação das pessoas e contra as estruturas sociais e económicas de pecado, destruição e morte.
Renuncie-se de vez à fé que se encasule e não tenha efeitos na sociedade dos homens e das mulheres; diga-se não ao angelismo despregado do mundo; ultrapasse-se a preguiça e o comodismo tanto como o trabalho denodado sem espírito e o ativismo sem fé e sem caridade.
Se a missão é o coração da Igreja, a fé sem comunicação e sem obras estiola e morre.

2017.06.04 – Louro de Carvalho