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sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

“A tua dextra, Senhor, esplendorosa de poder” (Ex 15,6)

É o tema da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos (oitavário), que está a decorrer de 18 a 25 de janeiro no hemisfério Norte e que serve de guião espiritual e celebrativo para todo o ano 2018, em especial para a ocasião do Pentecostes, no hemisfério Sul (de acordo com o que foi sugerido pelo movimento Fé e Ordem em 1926).
O material foi preparado e publicado sob a responsabilidade conjunta do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos  e da Comissão “Fé e Constituição” do Conselho Mundial de Igrejas. Foram escolhidas as Igrejas do Caribe para montar o material para a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos de 2018, sob a liderança de Sua Graça Kenneth Richards, arcebispo católico de Kingston e bispo responsável pelo ecumenismo na Conferência Episcopal das Antilhas (AEC), junto com o Senhor Gerald Granado, Secretário-Geral da Conferência Caribenha de Igrejas (CCC). E foi convidada uma equipa ecuménica de mulheres e homens para organizar o material.
As citações bíblicas estão baseadas no texto da Tradução Ecuménica da Bíblia (TEB).
Na convicção da necessidade de flexibilidade e da urgência da oração pela unidade, propõe-se o uso deste material ao longo de todo o ano para expressar o grau de comunhão que as Igrejas já têm atingido e para orar juntos pela plena unidade, que é o desejo de Cristo.
O material é oferecido com a compreensão de que será adaptado para uso em situações específicas locais, devendo ter-se em conta a prática litúrgica e devocional, bem como o contexto social e cultural específico. O ideal é que a adaptação seja feita de forma ecuménica. Em alguns lugares existem estruturas ecuménicas para a adaptação deste material; noutros, é de esperar que a necessidade de adaptação seja estímulo para a criação de tais estruturas.
Para as Igrejas e comunidades cristãs que vivem juntas a Semana de Oração foi providenciado um texto para a celebração ecuménica.
As Igrejas e comunidades cristãs podem também incorporar material da Semana de Oração nas suas próprias celebrações. Orações do culto ecuménico, os “oito dias” e a seleção de materiais adicionais constituem recursos a usar como se julgar apropriado em cada situação.
As comunidades que têm celebrações da Semana de Oração em todos os dias durante a semana podem usar para isso o material proposto para cada um dos “oito dias”.
Quem deseje fazer estudo bíblico sobre o tema pode usar como base os textos e reflexões dados para os oito dias. A cada dia, a reflexão pode levar a um tempo final de oração de intercessão.
Quem deseje orar de modo privado pode encontrar material útil para orientar as intenções das suas preces, podendo assim ter consciência de estar em comunhão com outros que oram no mundo inteiro pela maior visibilidade da unidade da Igreja de Cristo.
O texto bíblico base para a reflexão/oração neste ano é Êxodo 15,1-21, um cântico de exaltação a Deus libertador, acompanhado de danças sob a liderança por Miriam, irmã de Moisés.
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Conservando o nome dum dos grupos dos seus povos indígenas, a região caribenha é uma realidade territorial complexa pela “vasta extensão geográfica” que inclui ilhas e territórios continentais “com uma rica e variada coleção de tradições étnicas, linguísticas e religiosas”. É uma realidade política complexa na variedade de organizações governamentais e institucionais, desde territórios coloniais (ingleses, holandeses, franceses e americanos) até nações republicanas.
O Caribe é marcado pelo projeto de exploração colonial. Na agressiva busca de ganhos de mercado, os colonizadores organizaram sistemas brutais de comércio de seres humanos e de trabalho forçado – práticas que escravizaram, agrediram e até exterminaram povos indígenas. Seguiu-se a escravização de africanos e a introdução de pessoas da Índia e da China.
A escravidão dos africanos não foi só o processo de transporte de trabalhadores dum lugar para outro. Numa afronta à dignidade humana, transformou-se em objeto de comércio uma pessoa humana, tornando-a propriedade de outrem. A partir daqui normalizaram-se “outras práticas que foram mais longe no tratamento desumano dos africanos”, entre as quais se incluía a negação do direito a práticas religiosas e culturais, casamento e vida familiar.
Em quinhentos anos de colonialismo e escravidão, a atividade missionária na região, com exceção duns poucos exemplos, estava ligada ao sistema. E, “enquanto aqueles que trouxeram a Bíblia para a região usavam as Escrituras para justificar a subjugação do povo, nas mãos dos escravizados, ela tornou-se “uma inspiração, uma garantia de que Deus estava ao lado deles e que Deus os conduziria à liberdade”. E hoje os cristãos caribenhos veem a mão de Deus a agir para acabar com a escravidão. “É uma experiência de união em torno da ação salvadora de Deus que leva à liberdade”. Por isso, foi tida por muito adequada a escolha do canto de Moisés e Miriam (Ex 15,1-21) como motivação para esta Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos. É um canto de triunfo sobre a opressão cujo tema foi assumido num hino, A mão direita de Deus, escrito numa reunião de trabalho da Conferência Caribenha de Igrejas, em agosto de 1981, e que se tornou marca do movimento ecuménico na região.
Como os israelitas, o Caribe tem a canção de vitória, liberdade e união. Porém, novos desafios ameaçam escravizar e ferir a dignidade do ser humano criado à imagem e semelhança de Deus. Embora a dignidade humana seja inalienável, fica obscurecida tanto por pecados pessoais como por estruturas sociais pecaminosas. As relações sociais, muitas vezes, não têm a justiça e a compaixão que honram a dignidade humana. E pobreza, violência, injustiça, o vício das drogas e da pornografia e a dor, o desgosto e a angústia gerados por tudo isso são experiências que distorcem a dignidade humana.
Muitos destes desafios são legado do passado colonial, com o comércio escravo e resultado do neocolonialismo. O ferido sentimento coletivo manifesta-se hoje em problemas sociais conexos com a baixa autoestima, violência doméstica e de grupos e relações familiares prejudicadas. Nestas circunstâncias parece quase impossível para muitas nações da região escapar à pobreza e endividamento. Além disso, em muitos lugares existe um sistema legislativo residual que continua a ser discriminatório.  
A mão direita de Deus, que tirou o povo da escravidão e deu contínua esperança e coragem aos israelitas, continua agora a trazer esperança aos cristãos do Caribe. Mas, porque eles não são vítimas de circunstâncias fora de controlo e testemunhando essa esperança comum, as Igrejas estão a trabalhar juntas para prestar serviço a todos os povos da região, mas particularmente aos mais vulneráveis e negligenciados. É o que se vê nas palavras do hino: “a mão direita de Deus está semeando em nossa terra, plantando sementes de liberdade, esperança e amor”.
A referenciada perícopa do Êxodo mostra como a via para a unidade precisa frequentemente de passar pela experiência comunitária de sofrimento. A libertação dos israelitas da escravidão é o evento fundamental da constituição do povo. E o processo tem o seu clímax na encarnação e no mistério pascal. E, embora na salvação Deus tenha a iniciativa, “Deus envolve forças humanas na realização do seu objetivo e nos planos para a redenção de seu povo”. Os cristãos, pelo batismo, participam do ministério divino de reconciliação, mas as nossas divisões restringem o nosso testemunho e a nossa missão num mundo necessitado da cura que vem de Deus.
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No âmbito da celebração ecuménica proposta, o grupo caribenho que escreveu o texto sugere que a Bíblia e três conjuntos de correntes, símbolos que são parte da celebração do culto, fiquem colocados em destaque no espaço da celebração. A Bíblia é muito importante na experiência das Igrejas caribenhas. Nas mãos destes oprimidos povos, a Bíblia tornou-se fonte primária de consolação e libertação. As correntes, por seu turno, são um símbolo poderoso de escravização, tratamento desumano e racismo. São igualmente um símbolo do poder do pecado, que nos separa de Deus e uns dos outros. O grupo recomenda o uso de correntes de ferro verdadeiras durante as preces de reconciliação nesta celebração, mas, se não estiverem disponíveis correntes de ferro, podem usar-se correntes alternativas com visual que transmita a ideia de força. Durante a celebração, as correntes de ferro da escravidão são substituídas por uma corrente humana que expressa os laços de comunhão e a ação conjunta contra a moderna escravização e todos os tipos de conduta desumanizadora individual ou institucionalizada. O convite dirigido à assembleia inteira para participar desse gesto é parte integrante da celebração.
Como canto após a proclamação da Palavra, o grupo sugere o hino The right hand of God (A mão direita de Deus)Inspirado no canto de Miriam e Moisés em louvor da ação libertadora de Deus no Êxodo, está associado ao movimento ecuménico do Caribe, em que as Igrejas trabalham juntas para superar os desafios sociais enfrentados pelo povo da região.
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No quadro do roteiro do culto, destacam-se:
- O canto de reunião da assembleia, com a entrada dos que vão liderar a celebração, precedidos por um assistente que carrega a Bíblia e a colocará em lugar de destaque no centro do espaço de celebração, donde serão proclamadas, a partir dessa Bíblia, as leituras da Escritura.
- A saudação e palavras de acolhimento, com a explicação do conteúdo e contexto dos textos desta Semana de Oração.
- A invocação do Espírito Santo para que o seu fogo venha aos nossos corações ao orarmos pela unidade da Igreja. 
- A proclamação da Palavra de Deus: Êxodo 15,1-21 (cântico de vitória); Salmo 118,5-7.10-24 (Celebrai o Senhor, pois Ele é bom e sua fidelidade é para sempre); Romanos 8,12-27 (a vivência pelo espírito e a ajuda do Espírito Santo); uma aclamação adequada de Aleluia; Marcos 5,21-43 (valorização e aperfeiçoamento da Lei à luz das bem-aventuranças).
- A homilia: Reflexão sobre a Palavra de Deus proclamada e relação com o tema.
- O canto: The Right Hand of God (A mão direita de Deus) – ver mais adiante.
- Proclamação da Fé: Recitação do Símbolo dos Apóstolos.
- As orações pelo povo: Dando graças pela libertação da escravidão ao pecado, colocam-se as nossas necessidades diante do Senhor, pedindo-lhe que quebre as cadeias que nos escravizam e que, em vez disso, nos una com os laços do amor e da comunhão.
Cada intercessão é proclamada por leitor diferente. Ao terminar, cada um dos leitores une as suas mãos ou braços com membros da assembleia, formando assim uma corrente humana.
- A oração do Senhor: Unindo as mãos, seguros não por correntes mas pelo amor de Cristo que foi derramado em nossos corações, oramos ao Pai com as palavras que Jesus nos ensinou.
A oração do Pai Nosso pode ser cantada.
Depois da oração do Senhor, ainda de mãos dadas, a assembleia pode cantar uma canção que lhe seja familiar e que celebre a unidade. Depois do canto, as pessoas saúdam-se com um sinal de paz.
- Compromisso: Redimidos pela mão direita de Deus, e unidos no único Corpo de Cristo, vamos adiante amparados pelo poder do Espírito Santo.
Todos: O Espírito do Senhor está sobre nós, porque o Senhor nos ungiu para levar a boa nova aos pobres, para proclamar a libertação aos cativos e a recuperação da vista aos cegos, para libertar os oprimidos, para proclamar o ano da graça do Senhor. Amém! Aleluia!
 - Canto final: À escolha de quem lidera a assembleia em consonância com o grupo de canto.
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Temas de reflexão para cada um dos oito dias e celebração segundo o roteiro acima:
(As frases temáticas que figuram a seguir à indicação dos textos bíblicos sugeridos para cada dia referem-se, por esta ordem: à 1.ª leitura; ao salmo; à 2.ª leitura; e ao Evangelho)
Dia 1:Amareis também o estrangeiro, porque fostes estrangeiros no Egito” (Lv 19,33-34; Sl 146; Heb 13,1-3; Mt 25,31-46) – Amarás o migrante como a ti mesmo. O Senhor protege os migrantes. Alguns, sem saberem, acolheram anjos. Eu era estrangeiro e acolhestes-me.
Dia 2:Não mais como escravo, mas como irmão amado” (Gn 1,26-28; Sl 10.1-10; Film 1-23; Lc 10,25-37) – Deus criou o homem à sua imagem. Porque, Senhor, permaneces afastado? Não mais como escravo, mas como irmão bem amado. A parábola do bom samaritano.
Dia 3:O seu corpo é templo do Espírito Santo” (Ex 3,4-10; Sl 24,1-6; 1Cor 6,9-20; Mt 18,1-7) – Deus liberta os que estão em humana escravidão. Esta é a geração dos que procuram a tua face. Glorificai, portanto, a Deus por vosso corpo. Ai do homem por quem acontece a queda.
Dia 4: Esperança e cura (Is 9,2-7a; Sl 34,1-15; Ap 7,13-17; Jo 14,25-27) – Estender-se-á a soberania e haverá paz sem fim. Procura a paz e vai atrás dela! Deus enxugará toda lágrima de seus olhos. Eu vos deixo a paz.
Dia 5: Escuta! O grito do meu pobre povo vem de longe e espalha-se na terra! (Dt 1,19-35; Sl 145,9-20; Tg 1,9-11; Lc 18,35-43) – O Senhor marcha à tua frente e te carrega. O Senhor é o apoio dos caídos. O rico passa como a flor dos prados. Jesus, filho de David, tem compaixão de mim!
Dia 6: Cuidemos dos interesses dos outros” (Is 25,1-9; Sl 82; Fl 2,1-4; Lc 12,13-21) – Exultemos, jubilemos, pois ele nos salva. Fazei justiça ao infeliz e ao indigente. Cada um não olhe só por si mesmo, mas também pelos outros. Guardai-vos de toda ganância.
Dia 7: Sendo família no lar e na Igreja” (Ex 2,1-10; Sl 127; Heb 11,23-24; Mt 2,13-15) – Nascimento de Moisés. Se o Senhor não construir a casa, os construtores trabalham em vão. Moisés foi ocultado pelos pais, pois tinham visto a sua beleza. José levantou-se, tomou consigo o menino e a mãe, de noite, e retirou-se para o Egito.
Dia 8: Ele reunirá os dispersos... dos quatro cantos da terra” (Is 11,12-13; Sl 106,1-14.43-48; Ef 2,13-19; Jo 17,1-12) – Efraim não terá mais ciúme de Judá e Judá não será mais adversário de Efraim. Congrega-nos no meio das nações e celebraremos o teu santo nome. Em sua carne destruiu o muro de separação. Eu fui glorificado neles.
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Tudo se faça para refazer a unidade dos filhos de Deus desnecessariamente divididos e dispersos!
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The Right Hand of God
(A mão direita de Deus)
A mão direita de Deus
Está escrevendo em nossa terra,
Escrevendo com poder e amor;
Nossos conflitos e nossos medos,
Nossos triunfos e nossas lágrimas.
São gravados pela mão direita de Deus.

A mão direita de Deus
Está atingindo a nossa terra,
Pondo para fora inveja, ódio e ambição;
Nosso egoísmo e luxúria,
Nosso orgulho e atos injustos
São destruídos pela mão direita de Deus.
A mão direita de Deus
Está elevando nossa terra,
Erguendo os caídos um por um;
Cada um tem seu nome conhecido,
E é resgatado agora da vergonha
Pela elevação da mão direita de Deus.

A mão direita de Deus
Está curando nossa terra,
Curando dilacerados corpos, mentes e almas;
Tão maravilhoso é seu toque,
Com amor que tanto significa,
Quando somos curados
Pela mão direita de Deus.

(Selecionado, compilado e adaptado a partir do site do Vaticano)

2018.01.19 – Louro de carvalho

sábado, 20 de agosto de 2016

A hipocrisia e o despudor já saturam

Entre uma e o outro que venha o diabo e escolha, se é que lhe apetece.
Vem o tema a propósito de dois casos: a geringonça das votações no seio do Conselho de Segurança a ONU com a melhor votação para António Guterres pelas duas vezes consecutivas em que se procedeu a tal votação; e a escolha, pela primeira vez, de um português para o comando do JALLC (sigla inglesa de: Joint Analysis and Lessons Learned Centre), ou seja, o centro de investigação analítica da NATO localizado em Lisboa (Monsanto).  
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A 21 de julho, o Expresso on line noticiava que António Guterres fora o candidato mais votado na 1.ª votação para secretário-geral da ONU e que imediatamente atrás do candidato português ficara o ex-Presidente esloveno Danilo Turk. Além disso, explicava:
“Na corrida ao cargo de secretário-geral estão, neste momento, 12 candidatos, metade dos quais mulheres, entre elas a Ministra dos Negócios Estrangeiros da Argentina, Susana Malcorra, a antiga chefe do governo neozelandês e dirigente do Programa da ONU para o Desenvolvimento, Helen Clark, e a ex-ministra dos Negócios Estrangeiros búlgara e diretora da UNESCO, Irina Bokova”.
Por outro lado, anotava que a indicação dum candidato pelo Conselho de Segurança à Assembleia Geral requeria, pelo menos, 9 votos a favor, incluindo os dos 5 membros permanentes do Conselho de Segurança (China, França, Estados Unidos, Reino Unido e Rússia).
A 5 de agosto, o Jornal de Negócios referia que o ex-primeiro-ministro português consolidara a sua posição entre as preferências do Conselho de Segurança para poder tornar-se o 9.º secretário-geral da ONU, ao destacar-se de novo na votação dos 15 países membros do Conselho de Segurança. Com efeito, o candidato recebeu 11 votos de encorajamento, 2 de desencorajamento e 2 sem opinião, continuando à frente de Danilo Turk – o esloveno estava em 2.º lugar na 1.ª ronda de votações e agora passou para 4.º. Logo a seguir a Guterres, nesta votação, ficou Vuk Jeremic, ex-ministro sérvio dos Negócios Estrangeiros, com 8 votos de encorajamento (mas com 4 de desencorajamento e 3 sem opinião). Também com 8 votos de encorajamento ficou a ministra argentina dos Negócios Estrangeiros, Susana Malcorra (mas 6 de desencorajamento e 1 sem opinião). 
Estão, pois, na corrida ao posto cimeiro da ONU 11 candidatos – 6 homens e 5 mulheres – depois de Vesna Pusic, ex-ministra croata dos Negócios Estrangeiros, ter desistido. Porém, apesar de Guterres ter vencido estas duas votações, há senãos. Nesta votação indicativa feita pelos 15 Estados que atualmente compõem o Conselho de Segurança da ONU (5 permanentes e 10 não-permanentes), o candidato recebeu 2 votos de desencorajamento. Se estes 2 votos foram provenientes dum dos membros permanentes, por exemplo da Rússia ou da China, de nada lhe servirá a liderança atual. O português tem contra si o princípio da rotatividade, segundo o qual, desta vez, deveria ser alguém proveniente da Europa de Leste a ocupar a liderança da ONU. Por outro lado, acreditava-se que, desta vez, seria indicada para o cargo uma mulher.
Acresce um outro fator potencialmente desfavorável a Guterres. Moscovo tem-se oposto a candidatos provenientes de países-membros da NATO. E Portugal é um dos fundadores desta organização atlântica. Por sua vez, Ban Ki-moon – que, em recente visita a Portugal a convite do Presidente da República, elogiou António Guterres, que considera “um grande líder, com uma forte visão” e por quem tem uma grande admiração (que “deu um grande contributo à Humanidade como Alto Comissário para os Refugiados“, tendo deixado “um grande legado”) – referiu há, poucos dias, que estava na hora de a ONU ser liderada por uma mulher.
Por mim, pergunto-me por que motivo vem a realizar-se esta palhaçada das votações. Se querem um candidato de Leste ou uma mulher, digam-no claramente. E, sobretudo, acabem de vez com o direito de veto de alguns membros do Conselho de Segurança.
Também se torna irritante o facto de a candidata da Argentina, depois de Angola ter declarado o seu apoio a Guterres, ir a Angola pescar em águas turvas a coberto do hipotético facto de Guterres representar para os angolanos o passado de colonialismo (vd Expesso de hoje, 20 de agosto).
Será que a Argentina ainda vive o trauma do colonialismo espanhol ou britânico? Ainda não cresceu? Ou será que Angola já não teve tempo de em 40 anos se desfazer desse trauma? Para negócios, os angolanos não têm traumas. Mas alguns esqueceram que foi com a formação académica em Portugal que os seus antepassados revolucionários reconheceram o colonialismo.
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Também, há dias, foi notícia que pela primeira vez, o JALLC (sigla inglês para designar “Joint Analysis and Lessons Learned Centre”), ou seja, o Centro Conjunto de Análises e Lições Aprendidas da NATO, vai ser comandado por um português.
O Centro Conjunto de Análises e Lições Aprendidas da NATO, em Monsanto, que depende do Comando Aliado da Transformação (Norfolk, EUA), foi inaugurado no final de 2002 pelo então Ministro da Defesa Paulo Portas. Instalado, pois, na capital há 14 anos, o JALLC é o agente da NATO (sigla, em inglês, da Organização do Tratado do Atlântico Norte) perito em análise conjunta, que tem 66 pessoas ao seu serviço, entre militares e civis, oriundos de 16 países. E, a partir de 19 de agosto, é comandado por Mário da Salvação Barreto, brigadeiro-general da Força Aérea, que sucede ao brigadeiro-general Mircea Mîndrescu, da Roménia.
A cerimónia de tomada de posse, que decorreu nas instalações do JALLC a 19 de agosto, contou com a presença do Ministro da Defesa Nacional, Azeredo Lopes, e com Manfred Nielson, da NATO. Jorge Saramago, 2.º comandante, explicou à agência Lusa que “este centro se situa ao mais alto nível da estrutura da Aliança Atlântica”, apesar de ser “pouco conhecido em Portugal e na própria NATO porque se dedica a procurar soluções, a apresentar propostas para problemas ao mais alto nível”, problemas que não especificou.
Sendo um centro de estudo, o JALLC é “talvez uma das estruturas mais multinacionais de toda a NATO”, na qual são analisados problemas complexos e apresentadas soluções aos dois grandes comandos estratégicos da Aliança Atlântica para “melhorar o emprego operacional das forças ou até a própria estrutura” da organização. De acordo com o seu 2.º comandante, o centro tem ainda a responsabilidade de interagir “com a nação hospedeira, neste caso Portugal, para apoiar toda a comunidade da Aliança Atlântica que reside por motivos de serviço no país”.
O JALLC é o centro responsável pela análise conjunta das atuais missões operacionais da NATO, assim como dos treinos e exercícios, fazendo depois recomendações sobre o desenvolvimento ou melhoria dos conceitos, doutrina e capacidades militares da Aliança. Um exemplo do trabalho do JALLC é o relatório sobre a proteção de vítimas civis no Afeganistão, publicado há um ano e elaborado a partir da missão da NATO nesse país entre 2001 e 2014.
Outra particularidade é o facto de Portugal voltar a ocupar, ao fim duma década, o principal cargo num órgão da estrutura de comandos da NATO – agora com um oficial general da Força Aérea. Tal havia acontecido (entre 1982 e 2004) com militares da Marinha, à frente do comando operacional da Aliança em Oeiras.
Com a posse de Mário Barreto, piloto-aviador dos caças F-16 e ex-comandante da Base Aérea de Beja, cria-se também uma situação rara, senão única, num órgão multinacional da estrutura de comandos da NATO, os dois cargos principais serem ocupados por oficiais da mesma nacionalidade. Esta coincidência passará a ocorrer de três em três anos e decorre da última distribuição de cargos pelos países da NATO, em que ficou assente que o comando do Centro passaria a ser ocupado de forma rotativa entre Portugal e a Roménia. Isto resulta também de o cargo de chefe do Estado-Maior do JALLC, que assegura a ligação da agência ao país hospedeiro, se manter ocupado por um oficial superior português, o coronel Jorge Saramago (Exército).
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A NATO é uma aliança militar composta por 28 países, com sede em Bruxelas (Bélgica), e Portugal foi um dos membros fundadores, em 1949. Por isso, é normal que o comando das suas unidades seja ou não exercido por oficiais portugueses. Porém, a reflexão atinente a esta matéria prende-se com um comentário despudorado de alguém que, em rede social, sustenta que a participação de Portugal na Nato é ilegal, porque então o regime português era fascista.
Sem responder com as palavras do falecido almirante José Batista Pinheiro de Azevedo, apetece-me dizer que o comentador deve ser ilegal, pois terá nascido de pais nascidos (ou será neto de avós nascidos e criados) num país de regime fascista e é herdeiro de localidade, educação, saúde, função pública, forças armadas, casa, agricultura, floresta, minas, comércio, banca, amigos, cafés e tabernas, hotéis e bares, fisco, polícia, segurança social, justiça, desporto, ruas, animais, árvores, jardins, matas, ouro, ferro, aço, igrejas… – tudo com marcas de fascismo. À luz da candeia deste iluminado, eu sou ilegal porque nasci durante o regime anterior. Apesar de tudo, ilegal e fascista como, pelos vistos sou, pago impostos, dei aulas em escolas democráticas como aquelas em que o comentador terá aprendido (pouco, pelos vistos) e, mesmo sem querer, contribuo para a sua liberdade sem limites, saúde ou doença, trabalho ou preguiça e, infelizmente, para a sua atitude de despudor e petulância. Que o leve o diabo!
Finalmente, recordo que o povo democrata aceitou a revolução que garantiu o respeito pelos acordos internacionais e tem votado em partidos que se relacionam com a NATO, a ONU, A UE, o EURO, a Santa Sé, a CPLP.
Será que o douto comentador, a 25 de abril de 1974, pegou em armas ou em cravos, gritou? Ou estaria ainda no hiperurânio? Será que a ONU, com toda a sua hipocrisia e diversão, será menos colonialista e mais democrática que a NATO, que o antigo Pacto de Varsóvia, a OUA, a CPLP ou a OMC?
2016.08.20 – Louro de Carvalho

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