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sábado, 12 de janeiro de 2019

No centenário do nascimento de Sophia de Mello Breyner Andresen


Cai, a 6 de novembro, o centenário do nascimento de Sophia de Mello Breyner Andresen, um dos poetas maiores da nossa literatura, quer do lado da poesia integral – ora contemplativa e reflexiva, ora arrebatadora e subversiva –, quer do lado da literatura infanto-juvenil onde o tom poético está vivamente atuante no que tem de inventivo e criativo, na capacidade de ficcionar com total veracidade e no fluir da palavra e da ternura.
O site da revista “Visão” antecipou hoje, dia 12 de janeiro e dia do arranque das comemorações centenárias, o “Guia para bem celebrar Sophia em 2019”, que sigo, embora cotejado com o programa oficial.
Segundo esse instrumento previsional, começaram já este sábado, as celebrações com a subida ao palco do Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, às 16 horas e às 21, de “O Cavaleiro da Dinamarca, um projeto de dança clássica e contemporânea de homenagem aos clássicos infanto-juvenis, de Sophia, publicados entre 1958 e 1985. O libreto do espetáculo dedicado ao cavaleiro dinamarquês em peregrinação à Terra Santa, que “une literatura, dança, música e audiovisual”, é de Paulo Ferreira e Pedro Mateus; a composição musical, de Daniel Schvetz; a cenografia, de José Manuel Castanheira; e a interpretação, dos alunos da Escola Artística de Dança do Conservatório Nacional, com a colaboração da Escola Artística de Música do Conservatório Nacional.
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Como consta do mencionado guia, as celebrações são preenchidas por espetáculos, colóquios, exposições, leituras, concertos, prémios, filmes – que atravessam vida e obra da poeta contista e lançam pistas para o seu futuro. Segundo a “Visão”, trata-se de celebrar amplamente, “cem anos depois do nascimento desta “poeta” maior (nunca aceitou a designação de poetisa), a 6 de novembro de 1919”, a palavra que professou nos versos do seu poema Creta:Pertenço à raça dos que percorrem o labirinto/sem nunca perderem o fio de linho da palavra”. E isso será concretizado através duma vasta programação que tem início já neste dia 12, mas cujas iniciativas se estendem por todo o país e “contemplam outras artes presentes na ampla esfera de afetos e influências de Sophia, como a dança, a música, as artes plásticas, o cinema, o teatro”.
Ancorada no Centro Nacional de Cultura – em que “a poeta e o marido, o jornalista Francisco Sousa Tavares, assumiram funções de direção no fim da década de 1950, tendo-a transformado numa casa livre e eclética nos tempos difíceis de ditadura” – a Comissão das Comemorações do Centenário de Sophia de Mello Breyner Andresen sustenta, em manifesto, que comemorar Sophia é “lembrá-la em comum” – ideia espoletada pela filha Maria Andresen, poeta e académica que integra a comissão coordenadora com Federico Bertolazzi, Fernando Cabral Martins, Guilherme d’Oliveira Martins e José Manuel dos Santos, que defende a ambição e internacionalização da homenagem, tendo ainda “trunfos por revelar ao longo de 2019”.
A pari, as comemorações contam com um programa criado em torno da “Galeria da Biodiversidade – Centro de Ciência Viva”, no Porto (antiga casa da família Andresen), no Campo Alegre, cujo curador é o maestro Martim Sousa Tavares, o neto mais novo de Sophia, que “procurou criar uma programação geradora de conteúdos novos e inéditos”, com “encomendas criativas que estabelecem pontes entre passado, presente e futuro” e, pode dizer-se também, entre os diversos setores sociais, muito embora sempre do lado dos mais frágeis. E justifica-se o curador frisando que a avó “sempre foi uma pessoa muito generosa com outros criadores e com as gerações mais novas”, pelo que se encontra aqui “uma maneira de ela ser a figura central, ao lado de outros artistas e autores, inspirados a criar pela sua obra”.
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Assim, as comemorações de Sophia em 2019 passam pelas seguintes vertentes:
Música, dança e teatro
Além do espetáculo a que se fez referência para o dia de hoje, vai ser estreado em maio, no Teatro LU.CA, em Lisboa – e orientado para o público infanto-juvenil –, o conto musical A Menina do Mar, baseado numa das obras mais famosas de Sophia (sobre a amizade possível entre as coisas da terra e as coisas do mar). E está programada uma apresentação especial da peça, sem cenários, mas com uma projeção de ilustrações originais da autoria de Mariana, a Miserável, na antiga Casa Andresen, no dia de nascimento de Sophia. A encenação é de Ricardo Neves-Neves; a direção musical, de Martim Sousa Tavares; a música, de Edward Luiz Ayres d’Abreu; a interpretação, de Catarina Rôlo Salgueiro, Eduardo Breda, Nuno Nolasco, Rafael Gomes e Teresa Coutinho; e a produção, do MPMP (Movimento Patrimonial pela Música Portuguesa), que tem em agenda uma digressão posterior por várias cidades do país: Lisboa, Porto, Braga, Guimarães, Penafiel, Ovar, Coimbra, Aveiro, Lagos, Loulé e Bragança.
Por outro lado, em resultado da parceria entre MPMP e Museu de História Natural e da Ciência da Universidade do Porto, surge o “Prémio Musa”, celebração musical do centenário da poeta – que toma o título de um dos livros de Sophia, Musa – para “distinguir a excelência musical da composição contemporânea de tradição erudita ocidental”. As partituras a concurso (a enviar até 31 de janeiro) deverão partir da poesia da autora de Navegações e ser escritas para coro a capella. O autor premiado pelo júri (composto pelo compositor João Pedro Oliveira e pelos maestros Pedro Teixeira e Martim Sousa Tavares) será contemplado com um prémio pecuniário de €3 mil (que será entregue a 31 de março), com a estreia num concerto coral dedicado a Sophia a realizar-se na Casa Andresen e com a gravação das suas partituras pelo Ensemble MPMP.
A este respeito, declarou Martim Sousa Tavares à “Visão”:
Este prémio toma o título de um dos livros de Sophia, Musa, que está dividido em andamentos como se fosse música. A ideia foi acrescentar corpo de obra ao repertório, francamente bom, de música clássica baseado na poesia da minha avó, em que os compositores têm liberdade para abordar um ou mais poemas seus. É um apelo à criatividade, em que damos espaço a compositores para que possam brilhar a partir desta grande obra.”.
Entre abril e julho, amplia-se a oferta do espetáculo teatral. Martim Sousa Tavares encomendou três peças para crianças a Tatiana Salem Levy e Flávia Lins, inspiradas em três momentos do jardim da antiga casa dos Andresen: o amanhecer, o entardecer e o anoitecer – uma coprodução com o Teatro do Bolhão, com encenação de Anabela Sousa, que oferece uma experiência imersiva nos cenários da família. Além disso, o maestro-curador convidou o compositor Eurico Carrapatoso a criar uma música original para A Noite de Natal, de que resultou uma peça que inclui sons de harpa para aquele conto de 1959.
Para 6 de novembro, a precisa data em que se cumprem cem anos do nascimento de Sophia, destaca-se o Concerto Comemorativo pela Orquestra Sinfónica Portuguesa no Teatro Nacional de São Carlos, em Lisboa, com um programa igualmente inspirado na obra da poeta e que apresentará novos talentos do canto lírico nacional e ao qual se seguirá uma sessão solene. E, como refere Maria Andresen, estão previstas outras iniciativas, como a realização de três dias dedicados a Sophia, uma celebração com espetáculos, palavra e música, incluindo um concerto de Filipe Raposo, no Palácio de Belém; e a reedição em CD de A Menina do Mar, que recupera o disco editado em 1959 com música do maestro Fernando Lopes-Graça e voz de Eunice Munõz, estando ainda em estudo outros projetos de grande fôlego: “um monumento dedicado a Sophia, expandido em azulejo a partir dum cartão feito pela artista plástica Menez com poemas de Sophia, e um grande prémio dedicado às artes”.
Em data a anunciar, realizar-se-á um concerto concebido a partir de obras musicais preferidas de Sophia, pela Orquestra Sinfónica Juvenil bem como o “Lisbon Orchestra – O mundo de Sophia”, em que músicos, atores e diseurs celebram e interpretam a poesia numa viagem à descoberta e reinvenção da palavra dita
Artes plásticas
Neste âmbito, a 25 de janeiro, é inaugurada na Galeria da Biodiversidade Pour ma Sofie, exposição fotográfica e documental inédita de Oxana Ianin, realizada a partir da biblioteca pessoal de Sophia, em que se revela “uma visão sobre 331 livros com dedicatórias de autores tão diversos como Agustina, Eugénio de Andrade, Herberto, Saramago, Torga, Teixeira de Pascoaes, Vinicius de Moraes, Carlos Drummond de Andrade – um espólio inventariado e comissariado por Martim Sousa Tavares e que será objeto de itinerância em Portugal, Brasil e, provavelmente, Grécia.
Outra exposição documental, comissariada por Marina Bairrão Ruivo e Sandra Santos, abre a 15 de maio no Museu Arpad Szenes-Vieira da Silva, em Lisboa: centrada na relação de amizade de Sophia com o casal de pintores, apresenta obras de Vieira e Arpad, quadros hoje presentes nas casas dos filhos da poeta, bem como cartas trocadas entre as amigas Sophia e Vieira.
E, ainda com data a anunciar, perspetiva-se a mostra itinerante Lugares de Sophia, que se propõe apresentar fotografias de António Jorge Silva, Duarte Belo e Pedro Tropa, convidados a produzir uma “interpretação visual da relação poética de Sophia de Mello Breyner Andresen com os lugares, com especial referência à paisagem marítima”.
Colóquios e leituras
São vários colóquios e conferências que terão lugar ao longo do ano. A Fundação Calouste Gulbenkian recebe, a 16 e 17 de maio, para um Colóquio em Lisboa diversos especialistas nacionais e internacionais que discutirão a obra de Sophia, distribuídos por 4 mesas redondas e cerca de 20 comunicações. A 3 de outubro, também o Centro Cultural de Lagos acolherá o colóquio “O Mediterrâneo e o Atlântico em Sophia, dedicado a “O mar, o diálogo com os poetas do Sul, a importância dos contos para crianças e a presença do sagrado na poesia na obra de Sophia. Nos meses de novembro e de dezembro, ocorrerá, na Fundação de Serralves e na Biblioteca Almeida Garrett, no Porto, um ciclo de conferências sobre Sophia e as Artes. Assim, Sophia e a Música, conversa de Pedro Eiras e Álvaro Teixeira Lopes, moderada por Ana Luísa Amaral; Sophia e a Dança, com Carlos Mendes de Sousa e Joana Providência, sob a moderação de Ana Paula Coutinho; Sophia e as Artes Plásticas, debate entre Maria Filomena Molder e Nuno Faria, moderado por Isabel Pires de Lima; Sophia e a Forma, conversa de Maria Irene Ramalho e Teresa Andresen, sob a moderação de Rosa Maria Martelo.
E fora de Portugal, estão previstas outras iniciativas de cariz literário e académico: a 12 de junho, tem lugar um Colóquio internacional em Roma (Biblioteca Nazionale Centrale di Roma – Sala Macchia), com várias gerações de estudiosos da obra de Sophia. Entre 2 e 5 de setembro (quatro dias), o Rio de Janeiro (Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro – Real Gabinete Português de Leitura) receberá o colóquio internacional “Sena & Sophia – Centenários”, dedicado às obras de Jorge de Sena e de Sophia de Mello Breyner Andresen – amigos que mantiveram longa relação epistolar em que “literatura, política e afetos se cosiam entre linhas”. Organizado por Gilda Santos, Eucanãa Ferraz, Luci Ruas e Teresa Cerdeira, o encontro será acompanhado por recitais de poemas, exibição de filmes, concurso de ensaios e lançamento de livros.
Cinema e edições
Integram a programação do centenário a palavra dita e os filmes. Estão previstos ciclos de cinema relacionados com a vida e obra de Sophia, nomeadamente na Cinemateca Portuguesa, sob a escolha de Maria Andresen, Margarida Gil, Rita Azevedo Gomes, José Manuel Costa e Manuel Mozos: uma seleção de filmes sobre a poeta, a que se juntam obras que refletem os seus gostos pessoais. À espera de aprovação estão os projetos cinematográficos dedicados a Sophia dos realizadores Margarida Gil, que planeia a adaptação cinematográfica de A Viagem, por si definido como “um conto que condensa toda a poesia de Sophia em prosa”, e Manuel Mozos, que prepara o documentário Sophia.
Quanto à palavra dita, os Poetas do Povo realizam 4 sessões: O Mar de Sophia (21 de janeiro), Sophia: Liberdade (25 de março), Sophia: A Poesia das Ilhas (24 de junho) e Sophia e os Clássicos (23 de setembro), no Povo-Lisboa, ao Cais do Sodré, em Lisboa. As celebrações continuam a 21 de março, Dia Mundial da Poesia: várias figuras declamarão poemas de Sophia no “Menina e Moça Livraria Bar”, com acompanhamento musical, exibição de imagens e uma instalação criada com versos da autora. E, no espírito da efeméride, o CCB homenageará a autora de Livro Sexto com um programa coordenado por José Manuel dos Santos: feira do livro, leituras, conferências e programação para os mais novos, a partir das 14 horas.
Por fim, em datas ainda a anunciar, o coletivo Lisbon Poetry Orchestra apresentará o espetáculo multimédia O Mundo de Sophia, contando com as vozes dos atores André Gago e Miguel Borges e dos declamadores Nuno Miguel Guedes e Paula Cortes, e ainda com o quarteto de cordas Naked Lunch. E está prevista a edição de um livro/CD.
E, para completar a celebração do Centenário de Sophia 2019, surgirá a publicação de vários livros dedicados à obra da autora: o volume sobre a Antiguidade Clássica, coordenado e organizado por Maria Andresen, e prefaciado por José Pedro Serra, que reúne essa obra de Sophia há muito esgotada, O Nu na Antiguidade Clássica, a uma antologia de poemas seus sobre Grécia e Roma (edição Assírio & Alvim); e um livro com a “prosa ficcional” de Sophia, coordenado por Carlos Mendes de Sousa, uma seleção de prosas dispersas (englobando intervenções em jornais, entrevistas, críticas e ensaios) organizada por Federico Bertolazzi; e uma antologia de poemas bilingue com tradução de Richard Zenith.
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Um programa ambicioso, diversificado e rico avivará certamente a memória coletiva em torno da poeta e lutadora e contribuirá para a assunção dos valores da liberdade, da criatividade, da fruição e da solidariedade numa perspetiva genuinamente humanista aliando o melhor do classicismo com o melhor da pós-modernidade.
2019.01.12 – Louro de Carvalho

sábado, 15 de dezembro de 2018

No centenário da morte de Sidónio Pais, o pragmático Presidente-Rei


A autoridade do Presidente da República não estava, de momento, a ser contestada. Porém, a 14 de dezembro de 1918, Sidónio Pais resolveu ir ao Porto para esclarecer a situação com o comando militar local. Já tinha sido alvo dum atentado a 5 de dezembro, nas festas do primeiro aniversário da revolução sidonista. Quando saía de Belém, um aluno de pilotagem, cujo pai era maçon (como o Presidente) tentou alvejá-lo, mas a pistola encravou-se. Por isso, a 8, um bando sidonista saqueou o Grémio Lusitano, sede do Grande Oriente. E pouco mais se fez para impedir novo atentado. Assim, na noite de 14 de dezembro, José Júlio Costa (deixara em casa um dossiê intitulado “A morte do Dr. Sidónio), um militante esquerdista convencido de que o Presidente ia restaurar a monarquia, esperou-o na estação do Rossio, em Lisboa. Havia polícia no local, mas Sidónio apareceu à frente, destacado da comitiva, pelo que o assassino não teve dificuldade em alvejá-lo a tiro de revólver, atingindo-o no peito (cf Rui Ramos, in Observador, de 8-12-2018).
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Por ocasião do centenário do assassinato do Presidente Sidónio Pais, o Panteão Nacional, em Lisboa, tem, até março, patente uma exposição, inaugurada a 13 de novembro, que inclui objetos apresentados pela primeira vez ao grande público, evocativa do Presidente assassinado, bem como a época em que viveu.
Sidónio Pais: retrato do país no tempo da Grande Guerra” é o título da mostra que reúne “objetos extraordinários, não só relativamente ao Presidente, como à época – e estamos a falar de uma época conturbada, com o final da I Grande Guerra e as aparições em Fátima –”, disse à agência Lusa Isabel de Melo, diretora do Panteão Nacional, que recordou ter Sidónio sido o primeiro presidente “a preocupar-se com a sua imagem pública, o ‘marketing’, a forma como se deixava fotografar – só de uma certa maneira – e a sua promoção política”.
Segundo Isabel de Melo, deve-se a Sidónio “a criação do Serviço de Audiovisuais do Exército e, na exposição, temos filmes da participação portuguesa na Grande Guerra e das várias visitas presidenciais que fez, assim como do seu funeral”.
A exposição reúne vários objetos pessoais, “nomeadamente uma magnífica espada, que ele usava sempre, uns binóculos, assim como objetos ligados à arte de montar, pois fazia gosto em cavalgar e apresentar-se montado num cavalo branco”, como contou a diretora do Panteão Nacional, referindo “o apoio fundamental da família” na concretização da mostra. Conta-se, ainda, entre os objetos pessoais, um cofre com a imagem de Sidónio, um colar de pérolas que foi oferecido, aquando do casamento duma das filhas, “pelas mulheres portuguesas, acompanhado por uma lista com os nomes e os respetivos donativos para a aquisição desse presente”.
A mostra inclui ainda vários objetos relativos à atividade universitária de Sidónio Pais (foi lente de Matemática na Universidade de Coimbra), nomeadamente publicações suas.
Paralelamente, “no sentido de contextualizar a época”, a mostra inclui vários objetos de arte, nomeadamente esculturas de Teixeira Lopes, Francisco dos Santos e Simões de Almeida, entre outros, e pinturas de Amadeo de Souza-Cardoso, Abel Salazar e Eduardo Viana, uma custódia magnífica em prata lavrada do Santuário de Fátima, oferta da Quinta da Regaleira [em Sintra], de autoria do italiano Luiggi Manini, além de várias fotografias. Assim, inclui também a descrição “de um ambiente quase misterioso e fantástico”, pelo jornalista Augusto de Castro, dum encontro com o Presidente Sidónio Pais, que, no fim do curto mandato, se isolou no Palácio da Pena.
Augusto de Castro narra a forma como, subindo a rampa da Pena, iluminada por archotes empunhados por soldados, estes transmitiam sinais autorizando a sua passagem pelas sucessivas barreiras de segurança, até encontrar o Presidente no meio dos seus papéis oficiais, isolado e afirmando-se muito só. Sidónio liderou uma insurreição contra o Governo liderado por Afonso Costa e, a 11 de dezembro de 1917, tomou posse como Presidente do Ministério (equivalente ao atual cargo de primeiro-ministro), acumulando as pastas ministeriais da Guerra e dos Negócios Estrangeiros. A 27 de dezembro, assumiu as funções de Presidente da República até nova eleição, em aberta rutura com a Constituição da República, que ajudara a redigir. Em março de 1918, assumindo um poder presidencial absoluto, estabeleceu o sufrágio direto e universal para a eleição do Presidente da República e, em abril desse ano, submeteu-se ao escrutínio popular, tendo sido eleito. E exerceu as funções de Chefe de Estado de maio desse ano até ao seu assassinato, aos 46 anos, em dezembro de 1918.
Encontra-se sepultado no Panteão Nacional desde a abertura do monumento, em 1966. E, segundo Isabel de Melo, curiosamente, desde então, é dos poucos túmulos onde nunca faltam flores frescas, além dos de Amália Rodrigues [trasladada em 2001] e de Eusébio [trasladado em 2015]”.
Em 1966, além de Sidónio Pais, foram também trasladados para o Panteão Nacional os presidentes Teófilo Braga e Óscar Carmona, e os escritores João de Deus, Almeida Garrett e Guerra Junqueiro, que se encontravam no Mosteiro dos Jerónimos. E, mais tarde, Manuel de Arriaga, Almeida Garrett, Humberto Delgado; Aquilino Ribeiro e Sophia de Mello Breyner.
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Militar, professor universitário e político, Sidónio Pais e o regime político que protagonizou foram pioneiros na Europa, sendo redutor reduzir-lhe o significado e a importância aos traços autoritários com que exerceu o cargo de Presidente da República. Este é o balanço feito ao DN – a propósito do centenário da morte da figura que Fernando Pessoa imortalizou num poema evocativo como Presidente-Rei – por três historiadores: Ana Paula Pires, António José Telo e João Medina.
Sidónio Bernardino da Silva Pais nasceu a 1 de maio de 1872 em Caminha, Viana do Castelo, e foi assassinado a 14 de dezembro de 1918, na Estação do Rossio, em Lisboa, pelo republicano radical José Júlio da Costa – que via no Presidente, antes ministro plenipotenciário em Berlim – “um alemão e cúmplice” dos germânicos no desastre de La Lys, ocorrido durante o seu mandato.
Sidónio liderou o golpe de Estado que, a 5 de dezembro de 1917, derrubou o governo de Afonso Costa, assumindo, três dias depois, o cargo de Presidente da Junta Revolucionária. No dia 11, tornou-se Ministro da Guerra e dos Negócios Estrangeiros e, a 27, Presidente da República até nova eleição – sendo (formalmente) empossado a 9 de maio de 1918 após eleito por sufrágio direto.
Para António Telo, professor catedrático de História na Academia Militar, as mudanças por ele implementadas “estão na base da transformação do Estado na Europa a seguir” à Grande Guerra, havendo casos em que evoluiu para uma democracia de massas” e outros “de ditadura”.
“Ao princípio tinha uma ampla base de apoio, que ia da esquerda radical e anarquista até à extrema-direita e ao integralismo, que deixava de fora só os radicais republicanos”. Mas, com o tempo, foi perdendo aderentes, a começar pelos republicanos moderados, passando pelo movimento sindicalista – diz o professor da Academia Militar, para quem a “crispação do regime sidonista” daí resultante se traduziu em “medidas repressivas” e na institucionalização “do que já era a polícia política de Afonso Costa” e que em Sidónio se vai tornando “menos democrático”.
Por sua vez, Ana Paula Pires entende que o sidonismo reunirá um conjunto de caraterísticas que estarão presentes “em diferentes regimes autoritários na Europa do Sul durante o pós-guerra”. Mas, segundo a investigadora, “reduzir o significado histórico” do regime “a esta asserção é algo redutor”, pois a obra de Sidónio “deve sempre ser analisada não só pelo que conseguiu realizar como, também, pelas reformas e mudanças que pretendia levar a cabo até ser assassinado”. Com efeito, se “enviou para o exílio toda a elite política da primeira fase do regime, como Afonso Costa, Bernardino Machado, derrubou o governo, destituiu o Presidente da República e substituiu as vereações municipais por comissões”, a verdade é que “acabou por manter a República” e “conseguiu de forma extraordinária ser aclamado como um ‘salvador’, um ‘messias’, o ‘Presidente-Rei’, como lhe chamou Fernando Pessoa”.
António Telo, sobre esta “procura dos banhos de multidão” do Presidente, recorda que o capitão de artilharia (depois, major) se apoiará na ligação direta com a população, onde procurará “a legitimidade do regime”. Na verdade, “sempre que aparece, há uma explosão de apoio popular” – diz o professor, alertando para uma consequência negativa dessa opção por parte dum adepto da ordem – que “põe claramente em causa a segurança” do Presidente e facilita os vários atentados de que foi alvo, o que “aumenta o seu prestígio, a aura de coragem e de não ter medo”.
João Medina, professor catedrático de História na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, que publicou, em 2007, “o estudo de uma personagem cativante, efémera e contraditória” intitulado “O ‘Presidente-Rei’ Sidónio Pais”, evoca-o como militar e professor universitário que foi “uma figura excecional e sedutora” nos primeiros anos da República marcados por “total balbúrdia” política. A forma como foi morto “sagrou-o como príncipe de eterna memória” no imaginário português e que “tem um lugar especial” na história portuguesa como alguém de quem gostaram republicanos e monárquicos – destaca João Medina, assegurando que, apesar das suas tendências autoritárias, “é um grande equívoco” pensar-se que Sidónio fora “um precursor do regime salazarista” – já que a “única coisa em comum” entre o militar e o economista “é terem sido professores universitários”. Assim, segundo o professor, o regime de Salazar nada deve ao sidonismo, a não ser a ideia de ditadura. Mas é uma ditadura diferente: Salazar é um homem solitário, nada carismático, “é um homem frio que lê os seus discursos”, ao passo que “Sidónio Pais improvisava, era eloquente” nas suas intervenções públicas.
Sobre este ponto, Ana Paula Pires tem uma posição semelhante:
O que podemos dizer é que na base social do golpe sidonista vai estar reunida a mesma frente social que irá fazer o 28 de Maio de 1926 e derrubar o liberalismo republicano”.
Segundo a académica, “a revolta militar liderada por Sidónio Pais, a 5 de dezembro de 1917, agregou em seu redor o consenso de todos os descontentes com a política do Partido Democrático” de Afonso Costa – “unionistas, evolucionistas, socialistas, monárquicos, católicos, o Exército e até a União Operária Nacional” – o que, embora o afastamento a que o movimento operário foi sujeito pelos radicais, tenha ajudado a explicar que “um oficial do Exército praticamente desconhecido tenha conseguido derrubar em escassos dias o Governo”.
Segundo António José Telo (que também foi diretor do Instituto de Defesa Nacional), Sidónio “não é um teórico, não é um ideólogo sobre o que deve ser a sociedade futura”, mas o oposto, “um prático, um indivíduo que, sem ter uma visão de longo prazo quando começa a sua ação, vai-se adaptando à situação” – pelo que, olhando para ele e seu passado, ninguém diria que estava fadado para este destino: “Era maçon, republicano, um democrata dentro dos parâmetros do século XIX, relativamente apagado”. Mas curiosamente, a posteriori, surge como figura cheia de contradições. Era maçon, mas é apresentado na propaganda dos opositores como perseguidor da maçonaria; sendo republicano, favorece os monárquicos; sendo democrata, aparece como ditador; inclusive aparece como germanófilo, quando os ingleses o consideravam um amigo.
Ana Paula Pires sublinha:
As investigações mais recentes têm contribuído para desmontar a alegada germanofilia de Sidónio Pais, mostrando que o antigo ministro plenipotenciário de Portugal em Berlim sempre se preocupou com o cumprimento das obrigações da República para com os seus aliados”.
Essas investigações puseram a descoberto, de forma mais sistemática, a construção da economia de guerra durante o sidonismo e que foi com este regime “que a elite económica nacional deixou de temer o Estado intervencionista, apreciando as suas vantagens”, se controladas e enquadradas.
Essa ação de Sidónio, complementa António Telo, visou “disciplinar a economia nas condições da guerra”, em que tabelas de preços fazem racionamento e intervêm junto das empresas, dizendo o que podem ou não produzir. E, como Sidónio reviu o contrato social vigente, “é um pioneiro, acha que o Estado tem de intervir na sociedade de forma mais ativa” num tempo “marcado por um conjunto de eventos traumáticos como a fome e a pandemia” (superior à da peste negra), com dezenas de milhares de mortos só em Lisboa e correspondendo a “cinco vezes mais” que os nossos mortos na Grande Guerra. Se isso “obriga a reorganizar o Estado em termos de saúde”, a estrutura política sidonista é um dos pontos em que a evolução “é mais clara”: segue o exemplo americano, cortando com o parlamentarismo, e adota o sistema presidencialista, com base na Constituição Americana. E cria um regime em que o presidente é eleito por voto direto, “não condicionado por razões de dinheiro ou saber ler e escrever”; só exclui o voto feminino.
Na revisão do contrato político, sobressai “a mudança da relação com a Igreja” e com o mundo rural, depois dos anos de “guerra aberta com o regime republicano”. O Presidente vira-se para a parte esquecida da sociedade portuguesa pelos republicanos. E “muito do mito de Sidónio, do caráter quase místico com que é encarado, vem do mundo rural, da mudança de relação com a Igreja”, tendo em pano de fundo “uma mensagem de renascimento patriótico alicerçada nas Forças Armadas e, em particular, no Exército”, conclui António José Telo.
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Por sua vez, Rui Ramos, num seu ensaio no Observador a 8 de dezembro, analisa em pormenor a ascensão, a queda abrupta do regime sidonista e a ideia que ficou no imaginário popular, em parte trabalhada por Fernando Pessoa, que iniciou um ensaio sobre o Presidente-Rei, mas não o concluiu. E, entre outros, destaca três pontos, que assinalo em complemento com o exposto acima: o desconhecimento público da personagem ao tempo, a corrida ao poder sem um plano a prazo e a mudança pela criação duma elite própria e pela aura popular que obteve.   
Filho de gente pobre, conseguiu um lugar docente na universidade e o posto de major de artilharia (sem enquadrar tropas), depois ter articulado os estudos na Universidade (Coimbra) com os da Escola do Exército (Lisboa), e chegou a ministro plenipotenciário em Berlim, sendo, de resto, comedido, metido no jogo e dado a aventuras extraconjugais. Ascende ao poder sem um plano a prazo, mas o seu pragmatismo e espírito reativo leva-o a encontrar soluções e a inovar. E, por populismo, atenção aos esquecidos pelo poder e certa arte de fazer pontes, de restaurador da ordem e segurança públicas constituiu-se em pai-salvador, embora sem herança ideológica.
Assim, se, na ótica de Lamarck, a função faz o órgão, o cargo fez o político.
2018.12.15 – Louro de Carvalho    

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Centenário antunesiano Repensar Portugal, a Europa e a Globalização


Entre as várias iniciativas desencadeadas para assinalar o centenário do nascimento do Padre Manuel Antunes, destaca-se o Congresso InternacionalRepensar Portugal, a Europa e a Globalização: 100 anos do Padre Manuel Antunes SJ”, a decorrer desde o dia 2 de novembro – e que se encerrará a 6 de novembro – na Assembleia da República, na Fundação Calouste Gulbenkian e no Município da Sertã. É uma iniciativa da CMS (Câmara Municipal da Sertã), da Cátedra Infante Dom Henrique para os Estudos Insulares Atlânticos e a Globalização, sediada na UA (Universidade Aberta), do Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias da FLUL (Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa), da FCG (Fundação Calouste Gulbenkian) e do IECCPMA (Instituto Europeu de Ciências da Cultura Padre Manuel Antunes), em cooperação com outras instituições científicas e culturais nacionais e internacionais, como o IEAC-GO (Instituto de Estudos Avançados em Catolicismo e Globalização).  
Segundo a Organização (como se lê no site da FLUL), os seus objetivos são os seguintes:
- Aprofundar o conhecimento da vida e do magistério pedagógico, intelectual e espiritual do Padre Manuel Antunes;
- Revisitar, conhecer e compreender os grandes temas e problemas da obra do Padre Manuel Antunes;
- Situar a obra e o pensamento de Manuel Antunes na Companhia de Jesus e no quadro da sua herança espiritual, cultural e científica, no qual a Revista Brotéria se tornou uma referência em Portugal;
- Analisar os discursos em torno da identidade portuguesa, tendo por referência os textos antunesianos escritos sobre Portugal, a sua história, as derivas presentes e os desafios futuros;

- Analisar temas e problemas da cultura política em Portugal na perspetiva dos diagnósticos e caminhos apontados pelo Padre Manuel Antunes;
- Pensar a educação em Portugal e os desafios que a integração europeia e a globalização colocam, no quadro do esforço de adequação de conteúdos e de métodos, aos desafios da mentalidade e das sociedades tecnológicas hodiernas;
- Refletir sobre os grandes temas e problemas que se colocam em pleno século XXI a Portugal e à Europa, no contexto de uma globalização acelerada;
- Contribuir para pensar o mundo, a vida e os anseios psicológicos, mentais e espirituais da humanidade nos nossos dias, desafiada pelo cuidado da natureza, pela necessidade de lidar com os progressos tecno-científicos e pela emergência das sociedades digitais, nas quais a hiperinformação se tornou um capital decisivo;
- Pensar o processo de robotização do mundo e da emergência da dita era do pós-humano;
- Contribuir com reflexão crítica, no quadro dos Estudos Globais, para compreender o mundo globalizado em que vivemos e intervir com perguntas e respostas inovadoras.

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Do vasto programa – em que predominam os aspetos temáticos, mas em que estão presentes vários elementos culturais, de memória e conviviais – destacam-se, a seguir, os títulos da conferências, das comunicações a todo o auditório, das sessões plenárias e das sessões temáticas, dispensando-se as referências aos subtemas de cada sessão temática ou plenária, bem como aos presidentes de mesa e aos respetivos intervenientes. Assim:
No 1.º dia, realizou-se a Sessão de Abertura na Assembleia da República com Presidente da Assembleia da República, Reitor da Universidade Aberta (UAb), Reitor da Universidade de Lisboa (UL), Presidente da Câmara Municipal da Sertã, Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Provincial da Companhia de Jesus, Presidente da Comissão Científica e Presidente da Comissão Organizadora. Seguiu-se a Conferência de Abertura sob os títulos “Pensamento global”, por Edgar Morin (Université Sorbonne Nouvelle – Paris 3), e “Ética, política & direito democrático. Tópicos para a atual crise”, por Paulo Ferreira da Cunha (UP – Universidade do Porto). Depois, realizaram-se duas Sessões Plenárias, com os debates subsequentes: uma, sob a presidência de Viriato Soromenho-Marques (UL), em torno do tema “Política, Fé e Sociedade”; e outra, sob a presidência de João Relvão Caetano (UAb), em torno do tema “Padre Manuel Antunes: Memória e Testemunho”.
E o 1.º dia terminou com uma comunicação sob o título “Qu’est-ce qu’être un écrivain jésuite au XXe siècle? L’exemple de Manuel Antunes”, por Pierre Antoine Fabre (École des Hautes Études en Sciences Sociales – Paris), seguida de Receção e Porto de Hora nos Paços do Concelho de Lisboa.
O 2.º dia abriu, na Sertã, com uma comunicação sob o título “A Filosofia como Espaço do Espírito”, por Miguel Real (UL), a que se seguiram duas Sessões Temáticas, com debates subsequentes: uma, com o tema “Padre Manuel Antunes: Trajetos, Vivências e Causas” nos dois Painéis Temáticos; e outra, com o tema “Política, Moral e Revolução: Temas e Problemas”, no Painel Temático 1, e “Temas e Problemas da Cultura Portuguesa”, no Painel Temático 2.
A tarde começou com uma comunicação sob o título “Repensar Portugal: A importância dos partidos na iniciação política à democracia segundo o Padre Manuel Antunes Antunes”, por José Rosa (UBI – Universidade da Beira Interior). Seguiram-se duas Sessões Temáticas, com debates subsequentes: uma, com o tema “Questões Atuais, Questões Globais”, no Painel Temático 1, e “Educação e Renovação Pedagógica em Chave Global”, no Painel Temático 2; e outra, com o tema “Empreendedorismo, Educação e Globalização”, num Painel Único.
E o 2.º dia encerrou com uma comunicação sob o título “A (tão) serena (quão firme) demanda da justiça social em Manuel Antunes”, por  Januário da Costa Gomes (UL).
O 3.º dia foi preenchido, na Sertã, por: Eucaristia em memória do Padre Manuel Antunes, Almoço-convívio e Percurso Literário Padre Manuel Antunes.
O 4.º dia decorre em Lisboa na Fundação Calouste Gulbenkian e abriu com a comunicação sob o título “Da matriz clássica ao devir moderno: Teoria, hermenêutica e crítica da arte literária em Manuel Antunes”, por José Carlos Seabra Pereira (UC – Universidade de Coimbra). Seguiram-se duas Sessões Temáticas, com debates subsequentes: uma, com os temas Os Desafios e as Oportunidades da Inteligência Artificial”, no Painel Temático 1, Globalização, Transdisciplinaridade e Educação Integral, no Painel Temático 2, e Europa, Democracia e Desafios Globais, no Painel Temático 3; e outra, com os temas Europa, Identidades e Pós-Identidades”, no Painel Temático 1, Antigos e Modernos: Visões Contrastantes, no Painel Temático 2, e Crítica Literária e Escritores Portugueses, no Painel Temático 3.
A tarde foi preenchida com duas Sessões Temáticas, com debates subsequentes: uma, com os temas Educação e Futuros Possíveis”, no Painel Temático 1, “Comunicação, Democracia e Globalização”, no Painel Temático 2, e “Desafios Éticos dos Novos Contextos do Humano”, no Painel Temático 3; e outra, com os temas “Fátima Global”, no Painel Temático 1, “Educação e Globalização”, no Painel Temático 2, e Temas Antunesianos”, no Painel Temático 3.
E o 4.º dia encerrará com “Jantar em homenagem ao Padre Manel Antunes no restaurante Chaminés do Palácio da Independência de Portugal”
O 5.º dia (e último) decorrerá também em Lisboa, na Fundação Calouste Gulbenkian e abrirá com uma comunicação sob o título Ville manifeste: Le porte voix de la globalisation”, por Valérie Devillard (Université de Paris II).
Seguir-se-ão quatro Sessões Temáticas, com debates subsequentes: a primeira, com os temas “Liberdade de Ensinar e Aprender: Condição de Igualdade, Garantia de Diversidade”, no Painel Temático 1, “Globalização: Propaganda e Conflitos”, no Painel Temático 2, e “Democratização e Globalização do Conhecimento: O Caso Paradigmático da Wikipédia”, no Painel Temático 3; a segunda, com os temas “Portugal e Cultura-Mundo”, no Painel Temático 1, “Conciliar Mundos: Entre Clássicos e Modernos”, no Painel Temático 2, e “Empreendedorismo, Inovação e Inclusão”, no Painel Temático 3; a terceira, com os temas “Magistério Pedagógico e Intelectual do Padre Manuel Antunes”, no Painel Temático 1, “Intercâmbios Globais, Ecologia e Revolução das Mundividências”, no Painel Temático 2, e “Intercâmbios Globais, Ecologia e Revolução das Mundividências”, no Painel Temático 3; e a quarta, com os temas Portugal Político: Diagnósticos, Desafios e Soluções”, no Painel Temático 1, Portugal: História, Língua e Identidades, no Painel Temático 2, e Escritas, Autores e Leituras”, no Painel Temático 3.
A Conferência de Encerramento sob o título “Manuel Antunes, SJ – História e Cultura” será proferida por Luís Filipe Barreto (UL). E a Sessão de Encerramento conta com a presença do Presidente da República, do Presidente da Fundação Calouste Gulbenkian, do Ministro da Educação, do Presidente da Câmara Municipal da Sertã, do Diretor do CLEPUL, do Presidente da Comissão Científica e do Presidente da Comissão Organizadora – seguindo-se a Atuação de Rão Kyao.
O congresso regista contributos de académicos, escritores, sacerdotes, jornalistas, e de personalidades de várias instituições, designadamente: a Assembleia da República; várias universidades públicas portuguesas (Lisboa, Nova, Aberta, Porto, Coimbra, Minho, Trás-os-Montes e Alto Douro, Aveiro, Beira Interior, Madeira, ISCE – Instituto Universitário de Lisboa…); o Instituto Superior de Engenharia de Lisboa; a Universidade Lusófona, a Universidade Católica Portuguesa e a Universidade Europeia; o Instituto Europeu de Ciências da Cultura Padre Manuel Antunes; as revistas “Brotéria” e “Sábado”; o “Jornal de Letras”; a agência Ecclesia; o Santuário de Fátima; o Ministério da Educação e o da Cultura; a Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas; a Fundação Calouste Gulbenkian; os municípios de Sertã e de Lisboa; a Mobilidade PT; a Academia das Ciências de Lisboa; a Federação Nacional das Associações de Pais de Alunos do Ensino Católico; a Associação Portuguesa de Escolas Católicas; o Externato Frei Luís de Sousa; a Rede Cuidar da Casa Comum; a Fundação Gonçalo da Silveira; e a Fundação Vox Populi.
E são de destacar personalidades das seguintes instituições estrangeiras: Universidade Federal do Rio de Janeiro; Universidade do Estado de Santa Catarina; Universidade Presbiteriana Mackenzie; Universidad de Alcalá de Henares; Sorbonne Université; Universidade de Paris II; Université Sorbonne Nouvelle – Paris 3; École des Hautes Études en Sciences Sociales – Paris; European Council of National Associations of Independent Schools; e Wikimedia Espanha.
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O Padre Manuel Antunes, SJ (1918-1985), é um dos pensadores e pedagogos mais notáveis do  século XX português. Pelas disciplinas que lecionou na FLUL, ensinou várias gerações de estudantes (cerca de 15 mil), desde 1957 até à sua morte, em 1985. De acordo com os testemunhos disponíveis, é uma referência de pedagogo e de hermeneuta “arguto e prospetivo da cultura e das sociedades clássicas e contemporâneas”, sendo ainda hoje lembrado com saudade e como um modelo de pensamento e de sabedoria pelos que foram seus alunos e pelos que tiveram o privilégio de com ele privar. Também se destacou como diretor da Revista Brotéria (da Companhia de Jesus, onde escreveu centenas de artigos, sob 126 pseudónimos, “sobre os mais diversos temas de cultura histórica, religiosa e filosófica, assim como de atualidade política, social e literária”.
Legou-nos “um pensamento muito sagaz e avançado sobre Portugal e a Europa, na relação com o mundo em processo de globalização”. E os seus textos, ainda hoje muito lidos e citados, deram origem a diversos livros, tornados numa espécie de chave de leitura de aspetos relevantes do mundo contemporâneo, de que relevam “Indicadores de Civilização e Repensar Portugal.
A reflexão antunesiana está patente num número significativo de textos, alguns dos quais de caráter prospetivo, que podem ser lidos com grande proveito, pois mantêm uma significativa atualidade, visto que soube antecipar, nas décadas de 60 e 70 do século XX, com uma argúcia e lucidez extraordinárias, derivas, problemas e desfechos da vida portuguesa e internacional. Surpreendem-nos questões, reflexões e propostas que podem ajudar na urgência de repensar Portugal, a Europa e o nosso mundo atual, marcado por uma tremenda incerteza.
Realizado um primeiro Congresso, em 2005, sobre a sua vida e obra, na Fundação Calouste Gulbenkian e no Centro Cultural da Sertã, e concluída a preparação da sua Obra Completa, publicada pela Fundação Calouste Gulbenkian, em 2012, é pertinente assinalar os 100 anos do nascimento desta figura maior do pensamento avançado em Portugal com um evento científico internacional, para, sob os grandes tópicos da reflexão antunesiana, se pensarem os grandes temas e problemas do país em articulação com as grandes questões da Europa e do mundo globalizado em que vivemos (cf site da FLUL).
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Sirva o evento para fazer memória do sacerdote académico de larga visão e para reforçar o prestígio das nossas instituições, que dele bem necessitam em tempo de emergência da mediocridade!
2018.11.05 – Louro de Carvalho