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domingo, 21 de julho de 2019

Uma liturgia marcada pelo valor da hospitalidade



O Evangelho do 16.º domingo do Tempo comum no Ano C (Lc 10,38-42) situa-nos na caminhada de Jesus com os discípulos para Jerusalém (9,51-19,27), onde vai viver os últimos acontecimentos da Sua passagem pela terra. Durante o percurso, alojou-se em casa de amigos e pessoas bem conhecidas. Desta feita, visita a casa das discípulas Marta e Maria, que viviam em Betânia com o irmão Lázaro (cf Jo 11).  
O episódio da perícopa em referência integra uma estrutura quiástica com a anterior (Lc 10, 25-37): Palavra de Deus sobre a caridade (amor a Deus e ao próximo); prática espelhada na parábola do samaritano; relato da preocupação de Marta para com o próximo; e Palavra de Cristo sobre a necessidade primária da fé para o cristão. Quer dizer que a prática cristã só tem sentido se estiver ensanduichada pela fé e pelo amor, que se quer não interesseiro, lúcido, afetivo e efetivo.
O nome “Marta”, sendo a forma feminina de “marêh” (senhor) significa “senhora”; e Maria aqui não é a de Magdala, mas a que se identifica no 4.º Evangelho (Jo 1,1ss; 12,1-11), pois a descrição destas irmãs assim o leva a inferir. A evocação da viagem, do caminho (en dè tô poreúesthai autoús) neste episódio é de caráter estilístico, pois, do ponto de vista lucano, Jesus ainda não está em Betânia, onde residem as duas irmãs. Marta andava muito atarefada, pois era provável que no encalço de Jesus chegassem mais hóspedes. “Só é necessária uma coisa” – reza o texto atual, o que não é concorde com a tradição manuscrita: Só umas poucas coisas são necessárias, mas certamente só uma, referem alguns manuscritos, enquanto outros rezam Só umas poucas coisas são necessárias (os mais antigos) e outros, Só uma coisa é necessária. Enquanto a segunda versão manuscrita parece indicar que são precisas apenas algumas coisas sobre a mesa para comer, pois estamos no contexto dum banquete, a terceira aponta para a necessidade de algo mais espiritual, sendo que a primeira congraça as duas hipóteses de insinuação.   
Marta, que recebe Jesus, preocupa-se em acolhê-lo e oferecer-lhe uma generosa hospitalidade, enquanto Maria, sentada aos pés do Senhor, na posição e atitude de discípula (8,35; At 22,3), o escutava. Marta, envolvida pelas ocupações quotidianas, reclama com o Mestre, mas é advertida afetuosamente: “Marta, Marta! Tu ocupas-te com muitas coisas, porém uma só é necessária. Maria, ao escutar a palavra, manifesta em Jesus, escolhe a melhor parte que não lhe será tirada. A escolha do único necessário que é Cristo, Amor e Verdade do Pai, assegura o bom êxito do serviço, da diakonia cristã. Aos pés do Senhor, Maria aprende a escuta e ação em consonância com o projeto de vida e salvação. E revela-se aqui o caminho do discipulado caraterizado pela fidelidade à palavra: Felizes os que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática (11,28). Alicerçadas na Palavra, contemplação e ação tornam-se dimensões complementares ao serviço do Reino. O encontro com a Palavra torna fecundo o serviço generoso e compassivo ao próximo. Sem a disposição para escutar o Mestre, corre-se o risco de escolher a parte menos boa, arriscando o desvio do caminho do Reino de Deus.
Marta aparece como dona de casa diligente, ativa, preocupada em bem receber os hóspedes. Sente que nem tudo será perfeito, que precisa de ajuda. Intervém junto de Jesus enquanto Ele fala, pedindo que mande Maria a ajudá-la. Mostra-se agastada por lhe parecer, talvez injusto, que todo o trabalho recaia sobre ela e que Maria seja dispensada dele.
A resposta de Jesus é bastante misteriosa: Marta, Marta andas inquieta e agitada. Uma só coisa é necessária … Maria escolheu a melhor parte que não lhe será tirada. Jesus censura a inquietação e a agitação de Marta, que faz muitas coisas ao mesmo tempo; a preocupação de bem receber o seu hóspede domina tudo o resto, quando o importante já não é receber bem o Senhor, mas fazer com que a receção seja um êxito. Marta, invadida pelas preocupações acaba por inverter o valor e a importância das coisas. O zelo tinha-a levado longe de mais: o que era acessório tomara o lugar do essencial.
Há, no texto, um pormenor relevante, o da “posição” de Maria: “sentada aos pés de Jesus”. É a posição típica do discípulo diante do mestre (cf Lc 8,35; At 22,3). É situação surpreendente num contexto sociológico em que as mulheres tinham um estatuto de subalternidade e viam limitados alguns direitos religiosos e sociais; por isso, nenhum “rabbi” da época se dignava aceitar uma mulher no grupo dos discípulos que se sentavam aos seus pés para escutar as suas lições. Lucas (que procura dizer que Jesus veio libertar e salvar os que eram oprimidos e escravizados, nomeadamente as mulheres) mostra, neste episódio, que Jesus não faz qualquer discriminação: o facto decisivo para ser seu discípulo é estar disposto a escutar a sua Palavra.
Não raro, o episódio foi lido em chave de oposição entre ação e contemplação; no entanto, não é isso que está em causa. Lucas não está, nesta catequese, a explicar que a vida contemplativa é superior à vida ativa; está é a dizer que a escuta da Palavra de Jesus é o mais importante para a vida do crente, pois é o ponto de partida da caminhada da fé. Isto não significa que “fazer coisas”, “servir os irmãos” não seja importante; mas significa que tudo deve partir da escuta da Palavra, pois é essa escuta que nos projeta para os outros e nos faz perceber o que Deus espera de nós. Assim, a experiência de Marta é preciosa, pois é um aviso salutar para nós, que não devemos confundir os fins com os meios nem pôr estes acima daqueles. Um único fim é importante: servir o Senhor e não servirmo-nos do dele para as nossas ambições ou desejos pessoais. O próprio serviço do Senhor pode contribuir para isso se não estivermos atentos.
Quantas vezes, até quando nos empenhamos nas obras de apostolado (catequese, liturgia, pastoral social, pastoral familiar, acolhimento, etc.) não nos procuramos mais a nós próprios, ao nosso êxito pessoal do que propriamente a servir os outros ou a Deus!
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A 1.ª leitura (Gn 18,1-10a) apresenta o acolhimento de Abraão e Sara aos três visitantes, que manifestam a salvação de Deus. A hospitalidade, oferecida pelos pais da fé, é recompensada pela promessa de um filho, o maior desejo de Abraão.
Os capítulos 12-36 do Génesis são textos sem grande unidade e sem caráter de documento histórico ou de reportagem jornalística. Estamos ante uma mistura de “mitos de origem” (narravam a chegada dum “fundador” a um determinado local e a tomada de posse daquela terra), de “lendas cultuais” (relatavam como um deus qualquer apareceu em determinado local a um desses “fundadores” e como esse lugar se tornou um local de culto) e de relatos onde se expressa a realidade da vida nómada durante o 2.º milénio antes de Cristo. Na origem do texto em referência estará uma antiga “lenda cultual” que narrava como três figuras divinas terão aparecido a um cananeu anónimo junto do carvalho de Mambré (perto de Hebron), como o cananeu os acolhera na sua tenda e como fora recompensado com um filho pelos deuses (Mambré era um santuário cananeu, já no terceiro milénio a.C., antes de Abraão aí ter chegado). Mais tarde, quando Abraão ali se estabeleceu, a lenda cananeia foi-lhe aplicada e ele passou a ser o herói desse encontro com as figuras divinas.
No séc. X a.C. (reinado de Salomão), os autores jahwistas recuperaram essa velha lenda para apresentarem a sua catequese. No estado atual do texto, a personagem central é Abraão, a figura que os catequistas jahwistas apresentam aos israelitas da época de Salomão, como um modelo de vida e de fé.
Abraão está “sentado à entrada da tenda, na hora de maior calor do dia”. De súbito, aparecem três homens diante de Abraão, que os convida a entrar, não se limitando a trazer-lhes água para lavar os pés, mas improvisando um banquete com pão recém-cozido, um vitelo “tenro e bom” do rebanho, manteiga e leite. Depois, fica de pé junto deles, na atitude do servo vigilante para que nada falte aos convidados: é a lendária hospitalidade nómada no seu melhor. Abraão surge como o modelo do homem íntegro, humano, bondoso, misericordioso, atento a quem passa e disposto a repartir com ele, de forma gratuita, o que tem de melhor.
Terminada a refeição, é anunciada a Abraão a próxima realização dos seus mais profundos anseios: a chegada dum filho, o herdeiro da sua casa, o continuador da sua descendência. Aparentemente, o dom do filho é a resposta de Deus à ação de Abraão: o autor jahwista quer dizer-nos que Deus não deixa passar em claro, mas recompensa uma tal atitude de bondade, de gratuitidade, de amor.
Complementarmente, fica espelhada a atitude do verdadeiro crente face a Deus. Ao longo do relato – sem que fique expresso se Abraão tem ou não consciência de que está diante de Deus – transparece a serena submissão, o respeito, a confiança total (num desenvolvimento em que Sara ri diante da “promessa”, mas Abraão conserva um silêncio digno, sem manifestar qualquer dúvida): tais são as atitudes que o crente é convidado a assumir diante deste Deus que vem ao encontro do homem.
Atente-se, também, na sugestiva imagem de um Deus que irrompe repentinamente na vida do homem, que aceita entrar na sua tenda e sentar-Se à sua mesa, constituindo-Se em comunidade com ele. Por detrás desta imagem, está o significado do comer em conjunto: criar comunhão, estabelecer laços de família, partilhar vida. O jahwista apresenta, assim, um Deus dialogante, que estabelece laços familiares com o homem, com quem deseja estabelecer uma história de amor e de comunhão. O jahwista aproveitou a velha “lenda cultual” e a figura inspirativa de Abraão para apresentar aos homens do seu tempo o modelo do crente: ele é aquele a quem Deus vem visitar, que o acolhe na sua casa e na sua vida de forma exemplar, que põe tudo quanto possui nas mãos de Deus e que manifesta, com este comportamento, a sua bondade, humanidade, confiança e fé; ele é aquele que partilha o que tem com quem passa e cumpre em grau extremo o sagrado dever da hospitalidade. A realização dos anseios mais profundos do homem é a recompensa de Deus para quem age como Abraão.

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A atitude de hospitalidade perpassa por toda a celebração litúrgica. Deus acolhe-nos, nós acolhemos Deus. A iniciativa é sempre d´Ele que nos ama primeiro. A hospitalidade implica também estar à mesa: Ele está à nossa porta e bate é preciso ouvir a sua voz e abrir, assim cearemos juntos (antífona da comunhão; cf Ap 3,20). Não é comer por comer, mas a partilha da mesa implica em nossa vida partilhar do mesmo destino de Jesus Cristo e para isto é necessário que Ele nos ajude a despojarmos do velho homem e para uma vida nova (oração pós-comunhão).
Para fomentar um ambiente agradável entre as pessoas é indispensável o cultivo dos bons hábitos, chamados vulgarmente virtudes humanas. Entre muitas outras, encontra-se a virtude da hospitalidade, que nos aparece com grande relevo na Sagrada Escritura e é ainda em muitos lugares tida em grande conta. No entanto, podemos perguntar até que ponto ela é possível nos nossos ambientes. As pessoas debatem-se com magros rendimentos, territórios destruídos pelas catástrofes (naturais e humanas), falta de tempo, habitações reduzidas, condicionamentos dos horários de trabalho e séria ameaça à segurança que aconselha a não receber em casa pessoas estranhas. Ademais, parece que é menos necessária hoje a hospitalidade. As pessoas deslocam-se rapidamente dum lugar para o outro, não tendo necessidade de se hospedarem fora de casa.
Não obstante, a hospitalidade, como todas as virtudes, é de todos os tempos. O importante é configurá-la aos tempos em que vivemos, encontrar formas novas de a viver.
Abraão, que recebeu três misteriosas personagens no seu acampamento, quando estava à porta da tenda, por causa do calor sufocante que se fazia sentir, surge como modelo da hospitalidade.
Uma virtude humana indispensável. “Abraão estava sentado à entrada da sua tenda, no maior calor do dia. Ergueu os olhos e viu três homens de pé diante dele. Logo que os viu, deixou a entrada da tenda e correu ao seu encontro.”. Abraão levanta-se prontamente, logo que se dá conta da presença os três personagens. Esta prontidão deixa-nos entrever que estava já habituado a fazê-lo. A hospitalidade, virtude humana que consiste em acolher bem os outros, acolhê-los e partilhar a vida com eles, traz consigo um grande número de virtudes-satélites.
Entre estas, contam-se a cordialidade e a simpatia. Abraão não espera que lhe venham ao encontro e peçam algo de que necessitam. Aproxima-se pressuroso, manifestando a sua alegria em recebê-los. Com efeito, é preciso que as pessoas sintam a nossa alegria em recebê-las.
Outra virtude conexa com a hospitalidade é o espírito de sacrifício. Era a hora mais quente do dia. Numa situação destas, somos tentados a pensar só em nós procurando evitar a temperatura incómoda, desejando que ninguém nos incomode e nos deixem em paz. Ora, sem esta dimensão do sacrifício, as pessoas tornam-se ilhas fechadas e isoladas, tornando impraticável a convivência humana. E o Senhor bate-nos à porta em horas incómodas, misteriosamente presente nos nossos irmãos.
Depois é necessária a abertura do coração. Mais do que abrir a porta de casa ou a bolsa, a hospitalidade consiste em abrir as portas do coração, em encontrar tempo e paciência para escutar e aceitar a partilha de problemas, dores ou preocupações. Abraão nem sequer tem casa para receber, porque vive ainda em nomadismo. Mas nós, hoje temos muitas oportunidades de praticar esta virtude. O isolamento, sobretudo dos mais idosos e doentes que são forçados a permanecer em casa é realidade gritante; muitas pessoas sentem-se asfixiadas pelos problemas da vida e vão até ao desespero. Precisam de quem as oiça. Fomenta-se o voluntariado e as obras de apostolado que oferecem ajuda e são uma forma preciosa de viver em solidariedade, porque trabalham sem qualquer recompensa e apoiam-se num compromisso de continuidade.
Acolher com generosidade. “Mandarei vir água, para que possais lavar os pés e descansar debaixo desta árvore. Vou buscar um bocado de pão, para restaurardes as forças antes de continuardes o vosso caminho, […].”. Abraão segue os costumes do seu tempo. Ofereceu aos misteriosos visitantes água para lavar os pés da poeira dos caminhos e o melhor que tinha nos seus rebanhos e na tenda para lhes preparar uma refeição.
No acolhimento é preciso situar-se bem entre dois extremos: esbanjamento, que tem como origem a tentação da vaidade, de aparentar um luxo que não existe, o que pode acontecer também com o tempo, ocupando espaço que pertence à oração, ao trabalho profissional, aos deveres de estado, etc.; e mesquinhez, que denuncia um coração tacanho, que leva a fazer o menos possível para receber alguém, não estando o problema tanto no que se dá, mas no modo como se dá. A falta de tempo, de disponibilidade, para acolher, pode ser uma máscara para encobrir o egoísmo. Para nos defendermos desta tentação, pensemos em que gastamos o tempo. Talvez houvesse outras coisas menos importantes que poderiam ter cedido o seu lugar a um acolhimento. É generosidade acolher com um rosto sereno quando temos muito que fazer e o tempo é reduzido e quando estamos em más condições de saúde ou cansados ou temos coisas urgentes à nossa espera.
Deus (e Jesus, a sua melhor imagem) recompensa a hospitalidade. “Depois eles disseram-lhe: ‘Onde está Sara, tua esposa?’. Abraão respondeu: ‘Está ali na tenda’. E um deles disse: “Passarei novamente pela tua casa daqui a um ano e então Sara tua esposa terá um filho’.”. Esta promessa aparece diretamente relacionada com o gesto de hospitalidade que Abraão tivera para com eles. Também a viúva de Sarepta ofereceu o último punhado de farinha e as últimas gotas de azeite para que se fabricasse o pão com que Elias matasse a fome, e nunca mais o alimento lhe faltou, até que acabou a seca naquela terra, pois Deus nunca se deixa vencer em generosidade e recompensa sempre a hospitalidade feita por amor d’Ele.
A primeira recompensa que Deus nos oferece pela hospitalidade é uma grande paz e alegria interiores. É o que deve ter sentido Abraão e Sara, depois deste acolhimento caloroso. É alegria de ver o outro feliz, e ter vencido o egoísmo, fazendo algo que talvez nos custasse. Depois, o coração de quem pratica esta virtude dilata-se, cresce na sua capacidade de amar e de vencer o egoísmo que nos fecha em nós mesmos.
A hospitalidade é uma das obras de misericórdia e merece recompensa eterna. No Evangelho do juízo final, Jesus faz consistir o julgamento apenas sobre a caridade que se exprime por estas obras. “Vinde, benditos de Meu Pai…!” (Mt 25,31-46).
E o Evangelho mostra à saciedade o valor da hospitalidade, que merece a recompensa eterna e já neste mundo a recompensa a cem por um. Jesus lava os pés aos discípulos e quer que eles façam o mesmo aos outros, aceita a unção duma pecadora, tal com aceitou o convite do fariseu para um banquete (Lc 7,37-50), como aceitou a unção de Maria de Betânia (Jo 12,1-11). 
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A hospitalidade pratica-se entre famílias com relações de amizade, que se encontram em almoços, jantares, passeios em comum e, mesmo, acolhendo-se na casa uns dos outros.
Quando as viagens eram longas e penosas, esta espécie de hospitalidade era mais necessária. A mãe de São João Bosco e os pais de São João Maria Vianney recebiam em sua casa viajantes, pobres e desertores dos exércitos, ofereciam-lhes comida e dormida. Hoje, porém, por causa dos exigentes horários de trabalho, habituações reduzidas ao mínimo indispensável, e até por causa da falta de segurança crescente, fica desmotivada esta espécie de hospitalidade. Ademais, parece que agora é menos necessária, por as viagens serem rápidas, e não se dispõe de tempo. Mas há formas de hospitalidade e de acolhimento muito necessárias no nosso tempo.
Hoje a hospitalidade concretiza-se em encontrar tempo e disposição para os outros: visitando idosos e doentes que passam o dia sós ou em lares perdidos no anonimato, embora identificados; disponibilizando-se para ouvir os que sofrem e iluminar o seu sofrimento e debilidades à luz da fé com a ternura do coração magnânimo; e acolhendo quem nos surge no caminho a abrir o seu coração e receber uma palavra amiga que lhe possa orientar a vida.
2019.07.21 – Louro de Carvalho

domingo, 12 de agosto de 2018

A primeira das Damas Pobres da Ordem dos Menores


Celebra a Igreja Católica, a 11 de agosto, a memória litúrgica de Santa Clara, virgem, a primeira das Damas Pobres da Ordem dos Menores, que, no seguimento da via espiritual de Francisco, abraçou em Assis uma vida austera, mas rica em obras de caridade e piedade. Amou de tal modo a pobreza, voluntariamente assumida, que nunca mais quis dela separar-se, nem sequer na extrema indigência e na enfermidade.
Imitando o exemplo do concidadão Francisco de Assis – filho de um rico comerciante, a cuja riqueza renunciou livremente para despojadamente abraçar a pobreza –, quis institucionalizar o ramo feminino daquele carisma fundando a Ordem monástica das Clarissas.  
Clara, cujo nome significa “aquela que resplandece”, nasceu em Assis com o nome de Chiara d’Offreducci, no ano 1193, a 16 de julho, no seio duma família da nobreza italiana, muito rica, que lhe deu uma educação à altura da sua elevada condição social e onde possuía de tudo. Porém, o que a donzela, que desde cedo se sentiu vocacionada para a vida de oração e para as obras de caridade, mais queria era seguir os ensinamentos de Francisco, com quem entabulou conhecimento na Quaresma de 1212. Aliás, foi a primeira mulher da Igreja a entusiasmar-se com o ideal franciscano, contrariando a família.
Depois de ver e ouvir Francisco, escolheu-o para seu orientador espiritual. E, cada vez que conversava com Francisco, voltava para casa determinada a romper com as coisas do mundo e a entregar-se totalmente a Deus. O grande empecilho, contudo, era a família. Bela, nobre e prendada, os pais queriam a todo custo vê-la casada com alguém da sua condição social. Mas Clara era mulher firme, que sabia o que queria.
E, a 18 de março de 1212, domingo de Ramos, com 18 anos de idade, fugiu de casa e, humilde, apresentou-se na Porciúncula, na igreja de Santa Maria dos Anjos, onde era aguardada por Francisco e seus confrades. Ele cortou-lhe o cabelo, pediu que vestisse um modesto hábito de lã e emitisse os votos perpétuos de pobreza, castidade e obediência.
Os parentes, inconformados, foram buscá-la, mas ela refugiou-se na igreja e, quando a iam arrastar, ela agarrou-se ao altar, retirou o véu, mostrou a cabeça rapada e declarou publicamente ser Jesus seu único esposo. A partir desse momento, deixaram-na em paz.
Depois, a conselho de Francisco, ingressou no Mosteiro beneditino de São Paulo das Abadessas para ir se familiarizando com a vida em comum. Pouco depois, foi para a Ermida de Santo Ângelo de Panço, onde Inês, sua irmã de sangue, se lhe juntou. Passado algum tempo, Francisco levou-as para o humilde e paupérrimo Convento de São Damião, destinado à Ordem Segunda Franciscana, das monjas. Em agosto, quando ingressou Pacífica de Guelfúcio, Francisco deu-lhes a sua primeira forma de vida religiosa. Primeiramente, foram chamadas de “Damianitas”, mas, depois, Clara escolheu a designação de “Damas Pobres”. Finalmente, como sempre, foram chamadas de “Clarissas”.
Em 1216, sempre orientada por Francisco, que não deu às religiosas uma regra escrita, mas lhes incutiu no coração um verdadeiro espírito de pobreza e confiança na solicitude divina, Clara aceitou para a Ordem as regras beneditinas e o título de abadessa, mas conseguiu do Papa Inocêncio III o “privilégio da pobreza”, mantendo, assim, o carisma franciscano. O testemunho de fé de Clara foi tão grande que a sua mãe, Ortolana, e mais uma das suas irmãs, Beatriz, abandonaram os seus ricos palácios e foram viver ao seu lado, ingressando na nova Ordem.
Porém, em 1224, Clara adoeceu e, aos poucos, foi definhando. E, em 1226, Francisco de Assis morreu e Clara teve visões projetadas na parede da sua pequena cela. Nelas, via Francisco e os ritos das solenidades do seu funeral que decorriam na igreja. Anteriormente, tivera esse mesmo tipo de visão numa noite de Natal, quando viu projetado o presépio podendo, assim, assistir ao santo ofício que se desenvolvia na igreja de Santa Maria dos Anjos. Por essas visões, que pareciam filmes projetados numa tela, Santa Clara é considerada Padroeira da Televisão e de todos os seus profissionais – e obviamente dos telespectadores que a queiram assumir.
Após a morte de Francisco, Clara viveu mais 27 anos, dando continuidade à obra que aprendera e iniciara com ele. Outro feito seu ocorreu em 1240, quando, trazendo nas mãos o Santíssimo Sacramento, defendeu a Cidade do ataque do exército dos turcos muçulmanos.
No dia 11 de agosto de 1253, algumas horas antes de morrer, recebeu das mãos dum enviado do Papa Inocêncio IV a aguardada bula de aprovação canónica, deixando, assim, asseguradas as suas “irmãs clarissas”. Dois anos depois da sua morte, o Papa Alexandre IV proclamou-a como Santa Clara de Assis. (vd site Paulinas e https://pt.wikipedia.org/wiki/Clara_de_Assis).
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Clara deu novo sopro de vida, não apenas às religiosas do seu tempo, mas à Igreja. A sua resposta ao ideal franciscano foi total.
Ao falarmos da santa do dia 11 de agosto, relembramos a história de Santa Clara. O seu nome foi-lhe dado devido a uma inspiração dada a sua fervorosa mãe, que acabou por lhe revelar que a filha haveria de iluminar todo o mundo por meio de sua santidade: “Clara de nome, mais clara de vida e claríssima de virtudes!”.
A santa italiana pertencia, como se disse, a uma nobre família, destacando-se desde nova pela caridade e pelo respeito para com os pequenos. Por isso, quando Clara se deparou com a pobreza evangélica vivida por Francisco, apaixonou-se pelo estilo de vida franciscano. E, aos 18 anos de idade, quase a fazer os 19, decidiu seguir Jesus mais radicalmente. Por esta razão, Santa Clara foi ao encontro de Francisco de Assis na Porciúncula. Lá renunciou aos seus lindos cabelos, que então lhe foram cortados, o que representava a sua entrega total ao Cristo pobre, obediente e casto.
A partir do momento em que se dirigiu para a igreja de São Damião, começou a Ordem contemplativa e feminina, das Clarissas, da Família Franciscana. Clara tornou-se mãe e modelo da Ordem, principalmente no longo tempo de enfermidade, quando permaneceu em paz e se manteve totalmente resignada à vontade divina.
Nada podia contra a fé de Clara na Eucaristia. Com o Santíssimo Sacramento no ostensório, Clara pôde, como se disse, ainda se levantar para expulsar os turcos muçulmanos, então conhecidos como homens violentos, que desejam invadir o Convento em Assis.
A sua escolha para padroeira da televisão acentua que a missão da Igreja é evangelizar. Mas como fazer a Palavra chegar mais rápido ao povo? E é Santa Clara de Assis, a padroeira da televisão, que inspira a resposta: através dos meios de comunicação. Usar, portanto, os meios de comunicação para revelar ao mundo a face misericordiosa do Pai, converter os meios de comunicação em meios geradores de verdade, justiça e paz, é tarefa para todos, nomeadamente para os missionários deste terceiro milénio, como tem sido sublinhado pelos Sumos Pontífices das últimas décadas. É um tempo de grandes desafios, em que a premência dos sinais dos tempos cuja leitura é urgente contrasta com um mundo de divisões, exploração, opressão, repressão, império do capitalismo sem rosto – empresarial ou de Estado –, deslocação forçada das terras de origem, deixando para trás bens e haveres pessoais e familiares, guerra mundial aos pedaços e assim por diante. Cada vez mais a Igreja se assume como Igreja em saída qual hospital de campanha num mundo que ameaça desfazer-se. Porém, Deus terá a última palavra!
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Não será despicienda a reflexão com base num excerto da Carta de Santa Clara, virgem, à Beata Inês de Praga – (Escritos de S. Clara, ed. 1 Omaecheverría, Madrid 1970, pp. 339-341) (Sec. XIII), que recomenda a imitação da pobreza, da humildade e da caridade de Cristo, e surge como proposta de 2.ª leitura para o ofício de leitura do próprio de Santa Clara de Assis (11 de agosto):
Feliz de quem pode gozar as delícias do sagrado banquete e unir se intimamente ao coração de Cristo, cuja beleza os Anjos admiram sem cessar, cujo afeto atrai os corações, cuja contemplação nos reconforta, cuja benignidade nos sacia, cuja suavidade enche a alma, cuja lembrança nos inunda de luz suave, cuja fragrância ressuscita os mortos, cuja visão gloriosa constitui a felicidade de todos os habitantes da Jerusalém celeste. Ele é o esplendor da luz eterna, o espelho puríssimo da ação divina. Olha continuamente para este espelho, rainha e esposa de Cristo; contempla nele o teu rosto e procura adornar-te interior e exteriormente com as mais variadas flores das virtudes e com as vestes formosas que convêm à filha e à esposa castíssima do Rei dos reis. Neste espelho se reflete esplendidamente a ditosa pobreza, a santa humildade e a inefável caridade, como podes observar, com a graça de Deus, em todas as suas partes. Ao começo do espelho, repara na pobreza d’Aquele que foi colocado no presépio e envolvido em panos. Oh admirável humildade, oh espantosa pobreza! O Rei dos Anjos, o Senhor do céu e da terra deitado num presépio! No centro do espelho, observa como a humildade ou a santa pobreza, suporta tantos trabalhos e tormentos para remir o género humano. E, no fim do espelho, contempla a caridade inefável que O levou à cruz e à morte mais infamante. 
Por isso, o próprio espelho, suspenso na cruz, exortava os transeuntes a considerar estas coisas, dizendo: Ó vós todos que passais pelo caminho, olhai e vede se há dor semelhante à minha dor. 
Respondamos nós aos seus clamores e gemidos, com uma só alma e um só coração: A minha alma sempre o recorda e desfalece de tristeza dentro de mim. Abrasa-te cada vez mais neste amor, ó rainha do Rei celeste. Contempla ao mesmo tempo as delícias inefáveis do Rei dos Céus e as suas riquezas e honras perpétuas e, suspirando de amor ardente, proclama no íntimo do teu coração: Leva-me contigo; correrei seguindo o aroma dos teus perfumes, ó Esposo celeste. Correrei sem desfalecer, até que me introduzas na sala do festim, até que na tua mão esquerda descanse a minha cabeça e a tua direita me abrace com terno amor
No meio destas piedosas contemplações, lembra te desta pobrezinha, tua mãe, sabendo que te levo inseparavelmente gravada no meu coração como filha predileta.”. (vd Liturgia das Horas – 11 de agosto).
Uma carta que se centra no mistério da Eucaristia como banquete para alimento das almas e da comunidade – Cristo exposto à adoração como na manjedoura de Belém – e antecipação da gloria celeste, mas a lançar do alto da Cruz o apelo a uma resposta de adesão pessoal em contexto comunitário.  
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Porém, como os demais dias, o 11 de agosto não se esgota na memória de Santa Clara. Outros santos e beatos são apresentados para comemoração em conformidade com as comunidades com eles mais relacionadas, como consta do Martirológio.
Assim, em Comana, no Ponto, hoje Gumenek (Turquia), Santo Alexandre (falecido no século III), bispo chamado o Carvoeiro, que, passando da eminente erudição na filosofia à ciência da humildade cristã, foi elevado por São Gregório, o Taumaturgo, à sé episcopal desta Igreja, que ilustrou com a pregação e com o martírio consumado nas chamas da fogueira.
Em Roma, no cemitério “Ad Duas Lauros”, junto à Via Labicana, São Tibúrcio, mártir (falecido no séculos III-IV), cujos louvores foram celebrados pelo Papa São Dâmaso; e também em Roma, a comemoração de Santa Susana (falecida em data desconhecida), a cujo nome, celebrado entre os mártires nos antigos memoriais, foi dedicada a Deus no século VI uma basílica no título de Gaio junto das Termas de Diocleciano. Em Assis, na Úmbria, hoje Toscana (região da Itália), São Rufino (falecido cerca do século IV), considerado o primeiro bispo desta cidade e mártir. E, em Benevento, na Campânia (região da Itália), São Cassiano (falecido no século IV), bispo.
Em Évreux, na Gália (hoje França), São Taurino (falecido cerca do século IV), venerado como o primeiro bispo desta cidade.
Na Irlanda, Santa Atracta (falecida no século V), abadessa, que, segundo a tradição, recebeu das mãos de São Patrício o véu das virgens.
Na província de Valéria, hoje Úmbria (região da Itália), Santo Equício (falecido no ano 571), abade, que, segundo o Papa São Gregório Magno, pela sua santidade, foi pai de muitos mosteiros e abria a fonte da Sagrada Escritura onde quer que chegasse.  
Em Cambrai (Austrásia), atualmente na França, São Gaugerico (falecido cerca do ano 625), bispo, insigne pela piedade e caridade para com os pobres, ordenado diácono por Magnerico de Tréveris e eleito depois para a sé episcopal de Cambrai, exercendo o ministério 39 anos.
Em Arles, na Provença (atual França), Santa Rustícola (falecida no ano 632), abadessa, que dirigiu santamente as monjas durante quase 60 anos.
Em Gloucester (Inglaterra), beatos mártires João Sandys e Estêvão Rowsham, presbíteros, e Guilherme Lampley, alfaiate (falecidos nos anos 1586, 1587, 1588 – respetivamente), que, no reinado de Isabel I, em dias diversos e não conhecidos, sofreram o mesmo suplício por Cristo.
Num barco-prisão ancorado ao largo de Rochefort (França), Beato João (Tiago Jorge Rhem), presbítero da Ordem dos Pregadores e mártir (falecido em 1794), que, encarcerado durante a perseguição contra a fé, exortava à esperança os companheiros de cativeiro duramente atribulados, até que ele próprio, atingido por doença incurável, morreu por Cristo.
Em Milão (Itália), Beato Luís Birághi (falecido em 1789), presbítero da diocese de Milão, fundador da Congregação das Irmãs de Santa Marcelina.
Em Agullent, povoação do território de Valência (Espanha), Beato Rafael Afonso Gutiérrez (falecido em 1936), mártir, pai de família, que, na violenta perseguição contra a fé, derramou o seu sangue por Cristo; com ele comemora-se o beato mártir Carlos Díaz Gandia (Espanha), que, na mesma localidade e dia, venceu o combate da fé e alcançou a vida eterna. Em Prat de Compte, perto de Tarragona (Espanha), Beato Miguel Domingos Cendra (falecido em 1936), religioso salesiano e mártir, que, na mesma perseguição, mereceu receber a sublime palma do martírio.
Nos confins do Tibete, Beato Maurício Tornay (falecido em 1949), presbítero e mártir, cónego regular da Congregação dos Santos Nicolau e Bernardo de Mont-Joux, que anunciou ardorosamente o Evangelho na China e no Tibete e foi assassinado pelos inimigos em ódio ao nome de Cristo.
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Enfim, dá para louvar a Deus em seus anjos e santos e rogar: “Todos os santos e santas de Deus, intercedei por nós”.
2018.08.11 – Louro de Carvalho

domingo, 29 de abril de 2018

A união pela caridade dos enxertados em Cristo e a paz no mundo


Pode dizer-se que são as ideias fundamentais que o Papa Francisco desenvolveu perante os fiéis e peregrinos de todas as partes do mundo que ocupavam a praça de São Pedro, no Vaticano, hoje, dia 29 de abril, por ocasião da reza do Regina Coeli.
Comentando o Evangelho deste V domingo do Tempo Pascal (Jo 15,1-8), Francisco propôs o momento em que Jesus Se apresenta como a verdadeira videira e observou: “Trata-se de permanecer com o Senhor para encontrar a coragem de sair de nós mesmos”.
E, realçando a força desta permanência unitiva dos irmãos que formam um só corpo com Cristo-Cabeça, discorreu:
Toda a atividade, pequena ou grande que seja – o trabalho e o descanso, a vida familiar e social, o exercício de responsabilidades políticas, culturais e económicas – toda a atividade, se vivida em união com Jesus e com uma atitude de amor e de serviço, é uma oportunidade para viver em plenitude o Batismo e a santidade evangélica”.
Referindo que o segredo do ser cristão e do êxito da sua atividade não está no mérito e na estratégia dos homens, mas na força e na solidez da união com Cristo, o Pontífice sublinhou:
O dinamismo da caridade do crente não é resultado de estratégias, não nasce de solicitações externas, de instâncias sociais ou ideológicas, mas do encontro com Jesus e do permanecer em Jesus. Ele para nós é a videira da qual absorvemos a linfa, isto é, a ‘vida’ para levar para a sociedade uma maneira diferente de viver e de se doar, o que coloca os últimos em primeiro lugar.”.
Estarmos unidos a Cristo significa sermos como Ele, termos a mesma vida, sermos carne da sua carne, circular em nós o mesmo sangue. Sendo Ele a videira e nós os ramos, ó óbvio que temos essa comunhão de vida, ação e fruto que Cristo tem e dá. Com efeito, os ramos não têm um tecimento diferente do resto da vide, nem a vide é completamente vide sem os seus ramos.
Depois, sabendo que o Pai é o agricultor e vinhateiro e trabalha permanentemente, estamos seguros de que somos bem guardados, tratados e cuidados pelo Pai e com a mesma solicitude, o mesmo amor com que Ele trata o seu Cristo. Só a nossa liberdade nos fará desprender de Cristo, murchar e perder a força da frutificação. Porém, no quadro da missão reconciliadora de Cristo, temos sempre a possibilidade de reintegração na comunhão no Corpo e Sangue de Cristo. Basta que aceitemos o mistério da Salvação, reconheçamos o pecado, queiramos a reconciliação com Deus em Cristo e com os irmãos e o mundo criado e desenvolvamos os procedimentos da cura.   
Assim, o Papa tem toda a razão quando, ao anotar que Jesus se apresenta como a verdadeira videira e nos convida a permanecer unidos a Ele para dar muito fruto, observa:
Trata-se de permanecer com o Senhor para encontrar a coragem de sairmos de nós mesmos, de nossas comodidades, de nossos espaços restritos e protegidos, para entrarmos no mar aberto das necessidades dos outros e dar amplo respiro ao nosso testemunho cristão no mundo. Essa coragem de entrar nas necessidades dos outros nasce da fé no Senhor ressuscitado e da certeza de que o seu Espírito acompanha a nossa história.”.
Com efeito, quem se sente imerso no Corpo de Cristo e totalmente nele integrado, já não é apenas aquela testemunha ocular e auditiva idónea para o depoimento em tribunal, mas é, além disso e sobretudo, o corajoso apóstolo e missionário do mistério em que está imerso que só se satisfaz no transbordamento redundante. Não é apenas ver ou ouvir o que vem de fora, mas exteriorizar o que se vive por dentro. Por isso, Francisco assegura que “um dos frutos mais maduros que brota da comunhão com Cristo é, de facto, o compromisso de caridade para com o próximo, amando os irmãos com abnegação de si mesmo, até as últimas consequências, como Jesus nos amou”. Quem vive o mistério tem de o viver com os outros e só descansa quando se estabelece essa sintonia, essa empatia. Ora, o mundo está farto de cristãos descansados!
Não foi sem razão que o Santo Padre publicou recentemente uma Exortação Apostólica proclamar a pérola da santidade acessível e apelativa a todos. E, desta vez, garante-nos:
Quando alguém é íntimo com o Senhor, como são íntimos e unidos entre si a videira e os ramos, é capaz de produzir frutos de vida nova, de misericórdia, de justiça e de paz, derivados da ressurreição do Senhor”.
Recordando o dom e o mérito dos santos, disse: 
Isto é o que os santos fizeram, aqueles que viveram em plenitude a vida cristã e o testemunho da caridade, porque foram verdadeiros ramos da videira do Senhor. Mas, para ser santo, não é necessário ser bispo, sacerdote, religioso ou religiosa. Todos nós somos chamados a ser santos vivendo com amor e oferecendo a cada um o seu testemunho nas ocupações de todos os dias, ali onde se encontra.”.
E o Papa concluiu a sua alocução pedindo a ajuda de Maria, Rainha de Todos os Santos e modelo de perfeita comunhão com o Filho divino: 
Que Ela nos ensine a permanecer em Jesus, como ramos à videira, e a jamais nos separarmos de seu amor. De facto, nada podemos fazer sem Ele, porque a nossa vida é Cristo vivo, presente na Igreja e no mundo.”.
Como concluiu, é de registar que, sem Jesus, nada podemos fazer, mas também poderemos dizer que, nesta sede de união connosco, Cristo nada quereria fazer sem nós. E é esta união com Cristo que redunda em dedicação aos outros até às últimas consequências que se chama a caridade, que pressupõe a justiça e a alimenta com a seiva da verdadeira vide, Jesus Cristo.
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Porém, outra preocupação de Francisco, mas decorrente do Evangelho e do Evangelho de hoje, é a paz entre os povos.
Por isso, quis rezar, num misto de gratidão e prece, pela paz entre as duas Coreias, secundando e reforçando a esperança nascida da cimeira entre os líderes da Coreia do Sul e da Coreia do Norte no passado dia 17, com vista a um diálogo sincero sem armas nucleares. A este respeito, disse aos fiéis e peregrinos hoje presentes na Praça de São Pedro:
Acompanho com a oração o resultado positivo da Cimeira Intercoreana da última sexta-feira e o corajoso compromisso assumido pelos Líderes das duas Partes para realizar um caminho de diálogo sincero em prol de uma Península Coreana livre de armas nucleares. Rezo ao Senhor para que as esperanças de um futuro de paz e mais fraterna amizade não sejam desiludidas e para que a colaboração possa prosseguir produzindo frutos para o amado povo coreano e para o mundo inteiro.”.
Com a proclamação deste desejo e propósito de oração, o Papa Francisco arrancou fortes aplausos dos fiéis, na conclusão do Regina Coeli de hoje. Com efeito, depois do histórico encontro entre os presidentes das duas Coreias, no vilarejo de fronteira de Panmunjom, sente-se o otimismo sobre o futuro de paz entre os dois países, ainda formalmente em guerra desde 1950.
Como revelou à imprensa o porta-voz do presidente sul-coreano, o líder da Coreia do Norte Kim Jong-on prometeu fechar o local de testes nucleares de Punggye-ri até ao mês de maio, onde nos últimos 10 anos foram realizadas as 6 experimentações atómicas norte-coreanas. O fechamento do local será de forma pública, na presença de especialistas em segurança estadunidenses e sul-coreanos e de jornalistas.
Precisamente sobre os Estados Unidos, que nestes dias trabalham para fixar uma data e um lugar para a cimeira com a Coreia do Norte, Kim Jong-Un reiterou ser ele “por natureza contrário aos EUA”, mas de não ser “o tipo de pessoa que lança ogivas nucleares contra a Coreia do Sul, Pacífico ou os Estados Unidos”. A intenção é de não replicar “a dolorosa história da Guerra da Coreia” e renunciar ao nuclear. Declarou, a este respeito, Kim Jong-Un:
Porque deveria eu manter armas nucleares e viver em condições difíceis ao contrário de nos reunirmos com os estadunidenses para construir a confiança mútua, se eles prometerem acabar com a guerra e de não nos invadirem?”.
Entre outras medidas a tomar, consta a uniformidade do fuso horário entre as duas Coreias. A partir de agosto de 2015, o Norte tinha passado das nove horas do meridiano de Greenwich adotadas pela Coreia do Sul e Japão às oito horas e meia, como era na península coreana antes da invasão japonesa de 1910.
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Entretanto, continua dramaticamente preocupante a situação na Síria, bem como noutros lugares. Por isso, o Papa Francisco rezara o Terço. E lança um repto aos fiéis, convidando-os a recitarem com ele o Terço pela paz na Síria e no mundo no dia primeiro de maio, dia em que será peregrino no Santuário do Divino Amor, em Roma.
Como foi anunciado no Vaticano pelo próprio Pontífice, na próxima terça-feira, 1.º de maio e início do Mês Mariano, Francisco irá em peregrinação ao Santuário de Nossa Senhora do Divino Amor, em Roma. Disse ele convidando os fiéis “a unirem-se espiritualmente e a prolongar por todo o mês de maio a oração do Terço pela paz”:
Recitaremos o Terço, rezando especialmente pela paz na Síria e no mundo inteiro”,
Registe-se que o Papa recomenda recorrentemente a recitação do Terço e já confessou por várias vezes:
O Terço é a oração que acompanha sempre a minha vida; é também a oração dos simples e dos santos ... é a oração do meu coração”.
E agora explicou que o Terço “é uma síntese da Divina Misericórdia”, pois:
Nos mistérios do Terço, com Maria, contemplamos a vida de Jesus que irradia a misericórdia do próprio Pai. Alegremo-nos pelo Seu amor e perdão, vamos acolhê-lo nos estrangeiros e nos mais necessitados, vivamos todos os dias do Seu Evangelho.”.
O Papa Francisco presenteia todas as pessoas que ele encontra com um Terço, pois, como disse uma vez, Nossa Senhora está sempre perto de seus filhos, “está sempre pronta para nos ajudar quando rezamos, quando pedimos sua proteção... recordemos que Ela não se faz esperar: é Nossa Senhora da prontidão, vai imediatamente a servir”.
Segundo a tradição, essa oração simples e profunda nasceu no século XIII, num ambiente dominicano e sempre foi encorajada pelos Papas, o que ajuda a compreender o que diz o Papa, que “a caridade dos cristãos não nasce de ideologias, mas de Jesus”.
2018.04.29 – Louro de Carvalho