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sábado, 12 de outubro de 2019

Canonização do Cardeal Newman, doutor da razão, da fé e da relação


No contexto do Sínodo dos Bispos para a região pan-amazónica, Francisco vai canonizar, a 13 de outubro, o Cardeal John Henry Cardeal Newman, as religiosas Giusepinna Vannini, Mariam Thresia Chiramel Mankidiyan, Dulce Lopes Pontes, e a leiga Marguerite Bays.
O percurso eclesial do Cardeal a canonizar suscita uma oportuna reflexão.
John Henry Cardeal Newman, (nascido em Londres, a 21 de fevereiro de 1801, e falecido em Edgbaston, a 11 de agosto de 1890), foi um sacerdote anglicano inglês convertido ao catolicismo, posteriormente feito cardeal pelo Papa Leão XIII em 1879: Cardeal-diácono de São Jorge em Velabro, passando a Cardeal-protodiácono em 8 de fevereiro de 1890. Proclamado venerável, em 1991, por São João Paulo II, depois de uma intensa investigação sobre a sua vida e as suas obras feita pela Congregação para as Causas dos Santos, foi beatificado pelo Papa Bento XVI no dia 19 de setembro de 2010, em Birmingham, no âmbito da visita de estado papal ao Reino Unido. Nessa ocasião, o escultor Tim Tolkien (bisneto de J.R.R. Tolkien) apresentou uma estátua de Newman que o Papa benzeu.
John Henry Newman, nascido de família anglicana (sua mãe tinha ascendência francesa huguenote) e falecido em 1890, tendo estudado no Trinity Cllege de Oxford (1816) e no Oriel College (1822), foi sacerdote oratoriano, teólogo e cardeal. Destacou-se como homem de incessante e apaixonada busca pela verdade, não deixando que renome, títulos ou a honra pessoal se interpusessem entre ele e o objetivo maior que almejava. Assim, é eloquente o seu epitáfio “Ex umbris et imaginibus in veritatem”. Por isso, teve longa e frutuosa vida caraterizada pelas conversões. Passou pela primeira conversão aos 15 anos, quando começou a destinar-se ao serviço eclesial. Depois, foi ordenado na Igreja Anglicana, em 1824, onde se desenvolveu como um dos seus mais brilhantes pensadores e teólogos, ensinando e pregando na prestigiosa Universidade de Oxford. Durante o período anglicano envolveu-se em diversas controvérsias contra o liberalismo teológico, tendo sido um dos protagonistas do Movimento de Oxford, sobretudo na oposição ao racionalismo e ao fideísmo, diatribe típica do século XIX. Na sua carreira académico-teológica, pontuada por uma riquíssima vivência espiritual, dedicou-se ao estudo da Igreja primitiva, o que lhe fez compreender que a plenitude da Revelação se encontra na Igreja Católica Romana, a verdadeira Igreja fundada por Cristo. Ao deparar-se com esta verdade, tomou a decisão de se converter ao catolicismo em 1845, o que lhe acarretou muitos dissabores, sobretudo pela sua posição de destaque na Igreja Nacional Inglesa. Dois anos depois, foi ordenado sacerdote católico em Roma e fundou, já na Inglaterra, a Congregação do Oratório de São Felipe Néri, santo italiano do período da Reforma com quem se identificou. E, já quase octogenário, foi criado cardeal pelo Papa Leão XIII, sendo que o lema que então adotou diz muito da sua postura religiosa e espiritual: Cor ad cor loquitur.
Em termos filosófico-teológicos, não foi um tomista tout court, foi mais um seguidor de Santo Agostinho, quer pela identificação psicológica típica do convertido, quer pela influência que a Patrística exerceu sobre ele desde o seu período anglicano. A proximidade com Agostinho fica patente na análise da interioridade que promove nos seus trabalhos, em especial na sua obra-prima, a Apologia Pro Vita Sua – o que não impediu que o Cardeal saudasse vivamente o Papa Leão XIII aquando da publicação da encíclica Aeterni Patris, sobre a restauração da Filosofia Cristã nas Escolas Católicas no Espírito do Doutor Angélico, São Tomás de Aquino:
Dirijo estas linhas a Vossa Santidade para expressar o agradecimento que todos sentimos pela oportuna encíclica que publicou (...).”.
É o teólogo cronologicamente mais próximo citado pelo Catecismo da Igreja Católica (1992), onde é aparece quatro vezes, e um dos pouquíssimos ali presentes que não constava do rol de Beatos e Santos (com Tertuliano, por exemplo) – observação que deixa de fazer sentido a partir do dia 13. Também é citado na Encíclica Veritatis splendor e em locuções de São João Paulo II (como um dos campeões mais universais e ilustres da espiritualidade inglesa) e do então Cardeal Ratzinger, quando prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé (“Newman pertence deveras aos grandes doutores da Igreja, porque ele toca ao mesmo tempo o nosso coração e ilumina o nosso pensamento”).
As suas obras distribuem-se por muitos tomos, entre obras de Apologia, Dogmática, Romances, Poesia, Sermões, Traduções etc. E ainda se conservam no Oratório de Birmingham milhares de cartas aos mais diversos destinatários (parentes, amigos, políticos, Papas etc.). Com efeito, considerava o apostolado epistolar de grande validade e eficácia. Também como fundador da Universidade de Dublin, torna-se um grande nome na Pedagogia e, em especial, no âmbito educação católica.
A Apologia Pro Vita Sua e a Carta ao Duque de Norfolk constituem a sua obra mais famosa, escrita para se defender dos ataques feitos por um anglicano contra a sua conversão e contra a Igreja Católica. Na Apologia, tece uma série de comentários sobre a sua vida espiritual, estudos teológicos e motivos para se ter convertido; e, na Carta, trata a questão da infalibilidade papal, defendendo-a contra as considerações erróneas do Primeiro-Ministro Gladstone e traça luminosamente os contornos da consciência individual, seus direitos e deveres.
A propósito de Newman, o Cardeal Dom José Tolentino Mendonça publica, na Revista do Expresso de hoje, na rubrica “Que coisa são as nuvens”, um texto sob o título “John Henry Cardeal Newman”, em que afirma que Newman é um dos precursores do Concílio Vaticano II. E destaca três vertentes: a valorização do laicado, transcrevendo-se praticamente o seu pensamento na Lumen Gentium, n.º 12, ao referir-se o papel dos fiéis leigos em matéria de fé; o primado da consciência (e Tolentino Mendonça menciona a Carta ao Duque de Norfolk), enquanto a capacidade que o homem tem de reconhecer a verdade e o dever de se encaminhar para ela –doutrina assumida na Gaudium et Spes, n.º 16 (“a consciência é o centro mais secreto e o santuário do homem, no qual ele se encontra a sós com Deus, cuja voz se faz ouvir na intimidade do seu ser”); e o ecumenismo. Para este item Tolentino de Mendonça menciona e transcreve alguns versos de um poema de Newman que se tomou um dos hinos espirituais mais repetidos nas igrejas cristãs:
Sê tu a conduzir-me, luz gentil/ Sê tu a guiar-me na escuridão que me cerca;/ A noite avança e a minha casa é distante/ Sê tu a conduzir-me, luz gentil”.
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A produção bibliográfica do Cardeal Newman, distribuída pelo período anglicano e pelo período católico, é vastíssima. Registam-se os títulos para se aquilatar da sua grande quantidade e de cuja qualidade falam os estudiosos, incluindo Sumos Pontífices.
Assim, do período anglicano: Arians of The Fourth Century (1833-1871); Tracts for the Times (1833-1841); British Critic (1836-1842); On the Prophetical Office of the Church (1837 | 1877) (Via Media, vol. 1) com prefácio à 3.ª edição; Lectures on Justification (1838 | 1874); Parochial and Plain Sermons, vol. 1 (1834 | 1869), vol. 2 (1835 | 1869), vol. 3 (1836 | 1869), vol. 4 (1839 | 1869), vol. 5 (1840 | 1869), vol. 6 (1842 | 1869), vol. (1842 | 1869) e vol. 8 (1843 | 1869); Select Treatises of St. Athanasius (1842, 1844); Lives of the English Saints (1843-4); Via Media, vol. 2 (várias | 1883); Essays on Miracles (1826, 1843 | 1870); Oxford University Sermons (1843 | 1871); Sermons on Subjects of the Day (1843 | 1869); Development of Christian Doctrine (1845 | 1878) e Retractation of Anti-Catholic Statements (1845 | 1883).
E, do período católico: Faith and Prejudice and Other Sermons (várias); Discourses to Mixed Congregations (1849); Difficulties of Anglicans (1850); Present Position of Catholics in England (1851); Idea of a University (1852 and 1858 | 1873); Cathedra Sempiterna (1852); Callista (1855 | 1888); The Rambler (1859-1860) com On Consulting the Faithful (1859); Apologia (1865); Apologia (1864 and 1865); Letter to Dr. Pusey (1865) (Anglican Difficulties, vol. 2); The Dream of Gerontius (1865); Grammar of Assent (1870); Sermons Preached on Various Occasions (várias | 1874); Letter to the Duke of Norfolk (1875) (Anglican Difficulties, vol. 2); Five Letters (1875); Sermon Notes (1849-1878); Meditations and Devotions; Select Treatises of St. Athanasius (1881 | 1887) vol. 1 – Translations vol. 2 – Appendix of Illustrations; On the Inspiration of Scripture (1884) e Development of Religious Error (1885). Miscelâneas: Addresses to Cardinal Newman and His Replies with Biglietto Speech (1879); Discussions and Arguments (várias | 1872); Essays Critical and Historical (várias | 1871) vol. 1, vol. 2; Historical Sketches (várias | 1872) vol. 1, vol. 2 (with Church of the Fathers) vol. 3; Historical Tracts of St. Athanasius (1843); Prefaces Froude’s Remains (1838), Hymni Ecclesiae (1838), Library of Fathers (various), Catena Aurea (1841), Church and Empires (1873), Notes of Visit to the Russian Church (1882), Sayings of Cardinal NewmanTracts Theological and Ecclesiastical (várias | 1871) e Verses on Various Occasions (várias | 1867).
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A sabedoria e a ortodoxia doutrinária de Newman foram louvadas por Leão XIII, por São Pio X e pelo Servo de Deus Pio XII. No séc. XX, já depois da morte do cardeal inglês, Pio XII chegou mesmo a afirmar que Newman é a “Glória da Inglaterra e de toda a Igreja”.
Por ocasião da comemoração do centenário da sua morte, o então Cardeal Joseph Ratzinger (hoje, o Papa emérito Bento XVI), prefeito para a Congregação para a Doutrina da Fé, referiu-se a Newman, em 28 de abril de 1990, dizendo que dele aprendemos a compreender o primado do Papa e que a liberdade de consciência “não se identifica de modo algum com o direito de “dispensar-se da consciência, de ignorar o Legislador e o Juiz, e de ser independente de deveres invisíveis”. Assim, no seu significado autêntico, a consciência é o verdadeiro fundamento da autoridade do Papa. De facto, a sua força vem da Revelação, que completa a consciência natural iluminada de maneira apenas incompleta, e “a sua razão de ser é o facto de ser o campeão da lei moral e da consciência”.
No âmbito do desenvolvimento do dogma, Ratzinger considerava que a doutrina de Newman sobre a consciência fora o seu contributo decisivo para a renovação da teologia, pois, com isto, deu-nos a chave para inserir na teologia um pensamento histórico, ou seja, ensinou-nos a pensar historicamente a teologia e a reconhecer a identidade da fé em todas as mutações.
Depois, salienta que a conceção de Newman sobre a ideia do desenvolvimento marcou o seu caminho rumo ao catolicismo. Mas adverte:
Contudo não se trata apenas de um desenvolvimento coerente de ideias. No conceito de desenvolvimento está em jogo a própria vida pessoal de Newman. Parece-me que isto se torna evidente na sua conhecida afirmação, contida no famoso Ensaio sobre o Desenvolvimento da Doutrina Cristã: ‘aqui, na terra, viver é mudar, e a perfeição é o resultado de muitas transformações’. Newman foi ao longo de toda a sua vida uma pessoa que se converteu, que se transformou e, desta forma, permaneceu sempre ele mesmo, e tornou-se sempre mais ele mesmo.”.
Na verdade, continua Ratzinger, Newman expôs na ideia do desenvolvimento a própria experiência pessoal de uma conversão jamais concluída e, assim, ofereceu-nos a interpretação não só do caminho da doutrina cristã, mas também da vida cristã. E arrisca: O sinal caraterístico do grande doutor da Igreja parece-me que seja aquele que ele não ensina só com o seu pensamento e com os seus discursos, mas também com a sua vida, porque nele pensamento e vida compenetram-se e determinam-se reciprocamente. Se isto é verdade, então Newman pertence deveras aos grandes doutores da Igreja, porque ele toca ao mesmo tempo o nosso coração e ilumina o nosso pensamento.”.
E Tolentino Mendonça, na rubrica citada, diz-nos mais sobre a perspetiva cristã, académica, antropológica e de fé de Newman. Newman mostra que o contributo dos crentes se joga também na construção cultural e fá-lo, por exemplo, ajudando a pensar que o que é uma universidade: não como um lugar fragmentado de saberes e especialidades, mas como laboratório de consciência crítica que ensina a pensar com rigor e com humildade, tendo como finalidade prática formar pessoas capazes de elevarem o tom da sociedade. Mas é no campo da hermenêutica da experiência religiosa e na defesa da legitimidade racional do ato de fé que o mestre de Oxford mais se empenhou. E foi concluindo que “o ato ou processo de fé é certamente um exercício da razão”. Recusa a redução do homem a uma máquina de raciocínios, mas “complementa o raciocínio raciocinante com o exercício da relação continuamente operado pelo homem”, podendo deduzir-se do raciocínio e da obra de Newman que “um grande livro de teologia é sempre um texto de cultura capaz de ressoar para lá do seu tempo”.

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A partir do dia 13 de outubro, além de se estudar Newman, também se invocara como santo. Esperemos que, em consonância com o que sustentava Ratzinger, ele venha a ser declarado doutor da Igreja.
Confesso que fiquei intrigado quando, no ano letivo de 1969-70, o vice-reitor do Seminário de Lamego, o Cónego Simão Morais Botelho, me ofereceu o livro “Cardeal Newman – ecumenismo e fidelidade”, de Christopher Hollis para eu ler e estudar. Mas fi-lo e verifiquei o modo como o teólogo britânico articulava tão bem as duas vertentes do crente: a fidelidade e a capacidade de pensar. E, noutro campo, o rigor do pensamento e a capacidade de relação, a certeza da fé católica e a obrigação da abertura ao diálogo ecuménico. Isto em tempos da valorização excessiva dos ritos, da crença anatematizante, da obediência cega ou do hipercriticismo como forma de estar e agir.
Veio o Concílio Vaticano II com Paulo VI e tudo se tornou mais claro, veio o Papa Francisco e tudo se torna mais atraente e empático.
Cf Hollis, Christopher, Cardeal Newman – ecumenismo e fidelidade, Livraria Civilização Editora, Porto: 1969; Mendonça, José Tolentino, Que coisa são as nuvens, in Revista, Expresso, 12-10-2019; Pêcego, Daniel, Cardeal Newman, in AQUINATE, n.° 5, (2007), 380-383; e https://pt.wikipedia.org/wiki/John_Henry_Newman.
2019.10.12 – Louro de Carvalho

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Dom José Tolentino Mendonça ascende à dignidade cardinalícia


O Papa anunciou, a 1 de setembro, a criação como cardeal do Arcebispo português Dom José Tolentino Mendonça, de 53 anos, bibliotecário e arquivista da Santa Sé, que passa a ser o segundo membro mais jovem do Colégio Cardinalício, o que foi replicado de imediato na comunicação social. O consistório para a criação de 13 novos cardeais, sendo 10 eleitores, está marcado para 5 de outubro, no Vaticano.
O nome de Dom José Tolentino Mendonça foi o segundo a ser anunciado, numa lista que inclui colaboradores diretos do Papa e responsáveis de várias dioceses do mundo. O arcebispo madeirense torna-se o 6.º cardeal português do século XXI e o 3.º a ser designado por Francisco: junta-se a Dom Manuel Clemente e a Dom António Marto no Colégio Cardinalício. Dom José Saraiva Martins (87 anos) e Dom Manuel Monteiro de Castro (81) são os outros dois cardeais portugueses, ambos já sem direito a voto no conclave por terem mais de 80 anos.
Com esta nomeação, Portugal reforça o seu peso no Colégio Cardinalício, passando de 10.º para 9.º país mais representado, com 5 cardeais, 3 deles eleitores. Espanha também ganha dois cardeais, passando para 15 – sete deles eleitores –, os mesmos dos EUA. Uma lista liderada pela Itália, que agora ganhou dois cardeais: fica com 43, sendo 23 deles com direito de voto.
Portugal teve até hoje 45 cardeais, uma lista iniciada pelo Mestre Gil, escolhido por Urbano IV (1195-1264).
O Colégio Cardinalício tem 118 eleitores (57 dos quais criados por Francisco) e 197 cardeais com mais de 80 anos, sem direito a voto num conclave para eleição de um novo Papa. Dos cardeais eleitores, 50 são da Europa, 33 da América, 31 da África e Ásia e 4 da Oceânia.
O membro mais jovem do Colégio é Dom Dieudonné Nzapalainga, centro-africano (de 52 anos).
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Dom José Tolentino Calaça de Mendonça nasceu em Machico (Arquipélago da Madeira) a 15 de dezembro de 1965; foi ordenado presbítero em 1990 e bispo em 2018. Biblista, investigador, poeta e ensaísta, foi condecorado com o grau de Comendador da Ordem do Infante Dom Henrique, por Jorge Sampaio, em 2001, e de Comendador da Ordem de Sant'lago da Espada por Aníbal Cavaco Silva, em 2015. Em 2020, será o novo cardeal português a fazer o discurso do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, depois de Marcelo Rebelo de Sousa o ter convidado para presidir à comissão organizadora das comemorações do 10 de junho.
O Presidente da República já manifestou “o mais profundo júbilo pela elevação do Senhor Dom José Tolentino de Mendonça ao Cardinalato, traduzindo o reconhecimento de uma personalidade ímpar, assim como da presença da Igreja Católica na nossa sociedade, o que muito prestigia Portugal”. O Chefe de Estado sublinha “a excecional relevância do novo cardeal como filósofo, pensador, escritor, professor e humanista” e revelou que tenciona estar presente na cerimónia de imposição do barrete cardinalício.
Outras reações surgiram quase de imediato.
A CEP (Conferência Episcopal Portuguesa) aplaude elevação de Tolentino Mendonça a cardeal. Em nota enviada às redações pode ler-se:
 A Conferência Episcopal manifesta o seu grande regozijo pela criação de Dom José Tolentino para este relevante serviço à Igreja Universal colaborando junto do Santo Padre como Cardeal, serviço que certamente exercerá com a humildade, a sabedoria, a competência e a dedicação que lhe são reconhecidas”.
É uma alegria para a Igreja em Portugal contar neste momento com cinco Cardeais no Colégio Cardinalício: Dom José Saraiva Martins, Dom Manuel Monteiro de Castro, Dom Manuel Clemente, Dom António Marto e Dom José Tolentino Mendonça” – observa a nota da CEP, perante uma situação inédita, deixando votos de que “o Senhor derrame as suas bênçãos sobre o cardeal José Tolentino nesta importante missão que lhe é confiada pelo Santo Padre”.
Que o Senhor derrame as suas bênçãos sobre o Cardeal José Tolentino nesta importante missão que lhe é confiada pelo Santo Padre – reza a nota.
Também o Cardeal-Patriarca, o Bispo de Leiria-Fátima, o Bispo do Funchal e o Governo Regional da Madeira manifestaram alegria pelo facto, salientando o seu perfil e percurso e esperançosos de que o novo purpurado, com singular bagagem cultural, será uma mais-valia no contributo à reforma da Igreja desejada por Francisco e que o Pontífice está a liderar.
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A agência Ecclesia fez uma resenha histórica dos 45 cardeais portugueses, de que se faz síntese.
1. Mestre Gil (também aparece com o nome de Egídio). Filho do chanceler Julião, do tempo de Dom Afonso Henriques, foi tesoureiro da Sé de Coimbra e Cónego de Viseu e foi o primeiro Cardeal português, criado por Urbano IV (1195-1264).
 2. Paio Galvão. Nascido em Guimarães, fez-se Mestre de Teologia em Paris e Dom Sancho I mandou-o a Roma como embaixador de obediência. Inocêncio III fê-lo Cardeal, em 1206, com o título de Santa Maria in Septisolio.
3. Pedro Julião ou Pedro Hispano. Natural de Lisboa, era filósofo, teólogo, cientista e médico, e autor de obras científicas. Estando em Roma, depois de participar no concílio ecuménico de Lião, tratou o Papa Gregório X duma doença dos olhos. Elevado a Cardeal em 1274, foi Papa (o único Papa português) com o nome de João XXI, desde setembro de 1276 a maio de 1277.
4. Ordonho Alvarez. Abade fonselense, nascido em Portugal. Foi Bispo de Salamanca (1272), passando, depois, para o arcebispado de Braga por vontade de Gregório X. Em 1278, Nicolau III elevou-o a Cardeal-Bispo.
5. Pedro da Fonseca. Nasceu em Olivença. Foi criado Cardeal pelo anti-Papa Bento XIII (Pedro de Luna), com o título de Santo Angelo na Pescaria, em 1409. Quando os Concílios de Pisa e Constança proferiram sentenças contra o anti-Papa, passou a obedecer ao Papa de Roma, Martinho V, que o fez Cardeal do mesmo título em 1419.
6. João Afonso de Azambuja. Bispo de Silves, Porto e Coimbra. Foi Arcebispo de Lisboa, em 1402, e elevado ao Cardinalato por Gregório XII, em junho de 1411.
7. Antão [António] Martins de Chaves. Natural de Chaves, segundo uns, ou do Porto, segundo outros, foi bispo nesta última cidade (1424). Foi criado Cardeal Presbítero do título de São Crisógono por Eugénio IV, em 1439.
8. Jaime de Portugal. Filho do Infante Dom Pedro, foi Arcebispo de Lisboa. Depois da batalha de Alfarrobeira, (1449), retirou-se para Flandres com os seus irmãos João e Beatriz. Daí é enviado a Roma depois de ter sido eleito arcebispo de Arras. Foi criado Cardeal-Diácono por Calisto III, em 20 de fevereiro de 1456, com o título de Santo Eustáquio.
9. Jorge da Costa (Cardeal de Alpedrinha). Nasceu em 1406, em Alpedrinha. Estudou em Paris. Foi Bispo de Évora em 1463, Arcebispo de Lisboa, em 1464, e de Braga, em 1501. Foi feito Cardeal pelo Papa Xisto IV, em 1476, com o título dos Santos Pedro e Marcelino. 
10. Henrique. Filho de Dom Manuel I, nasceu em Lisboa em 1512. Aos 22 anos, era eleito Arcebispo de Braga por Clemente VII. Foi feito Cardeal em 16 de dezembro de 1545, com o título dos Santos Quatro Coroados. Tornou-se o 17.º rei de Portugal em 1578 (2 anos da sua morte).
11. Afonso. Era filho de Dom Manuel I, que o queria cardeal aos 3 anos de idade, mas o pedido foi indeferido. O concílio de Latrão estipulara que não podia ser “dada catedral a menores de 30 anos”. Dom Manuel conseguiu, no entanto, que fosse investido no arcebispado de Braga aos 15 anos e, aos 18, voltou a propô-lo para Cardeal e Leão X elevou ao Cardinalato em 1517.
12. Miguel da Silva. Nasceu em Évora em 1486. Foi Bispo de Viseu em 1526. Amigo pessoal de Leão X e de Rafael, foi promovido a Cardeal in pectore em 1539, por Paulo III, que o confirmou em 1541, com o título dos Doze Apóstolos.
13. Veríssimo de Lencastre. Nasceu em 1615. Filho de Dom Francisco Luís de Lencastre, comendador-mor de Avis, e de Dona Filipa Vilhena, a que armou cavaleiros 2 dos seus filhos na madrugada de 1 de dezembro de 1640. Foi Arcebispo de Braga em 1670, mas, em 1677, renunciou ao cargo. Foi elevado ao Cardinalato por Inocêncio XI, em 1686.
14. Luís de Sousa. Nasceu no Porto, em 1630. Foi Bispo em Bona (1671) e Arcebispo de Lisboa (1675). Inocêncio XII elevou-o ao Cardinalato em 1697. Alcançou para todas as igrejas de Lisboa o jubileu do Lausperene e foi Provedor da Misericórdia de Lisboa de 1674 a 1683.
15. Tomás de Almeida – 1.º Cardeal-Patriarca de Lisboa. Nasceu em 1670, em Lisboa. Foi Bispo de Lamego (1706), Bispo do Porto (1709) e o 1.º Patriarca de Lisboa (1716). Clemente XII fê-lo Cardeal a 20 dezembro de 1737.
16. Nuno da Cunha e Ataíde. Nasceu em Lisboa, em 1664. Foi Mestre de Artes em Coimbra e graduado em Direito Canónico. Cónego da Sé de Coimbra, Conselheiro de Estado, Inquisidor-mor, e capelão de Dom Pedro II. Recusou a mitra de Elvas, sendo-lhe concedido o título de Bispo de Targa. Clemente XI elevou-o ao Cardinalato a 18 de maio de 1712.
17. José Pereira de Lacerda. Nasceu em Moura, em 1661. Bispo do Algarve (1716), foi elevado a Cardeal-Presbítero, por Clemente XI, em 1719, mas só recebeu o chapéu cardinalício das mãos de Inocêncio XIII, em cujo Conclave tinha participado.
18. João da Mota e Silva. Nasceu em Castelo Branco em 1685. Cónego magistral da Colegiada de São Tomé, foi criado Cardeal por Bento XIII a 2 de novembro de 1727.
19. Paulo de Carvalho e Mendonça. Nasceu em 1702. Irmão do Marquês de Pombal, foi monsenhor da Patriarcal de Lisboa. Clemente XIV criou-o Cardeal a 29 de janeiro de 1770, mas faleceu antes de a notícia ter chegado a Lisboa.
20. João Cosme da Cunha (Cardeal da Cunha). Nasceu em Lisboa, em 1715. Formou-se em leis, e, em 1738, tomou o hábito de Santa Cruz. Enquanto Cónego da Ordem, como o nome de Frei João de Nossa Senhora das Portas, durante o terramoto de 1755 percorreu as ruas descalço, de corda ao pescoço e com um crucifixo alçado, passando pelos escombros anunciando penitência a vivos e sufrágio por mortos. Inspetor da reedificação de Lisboa. Assumiu o arcebispado de Évora em 1760. A instâncias do Marquês de Pombal, Clemente XIV criou-o Cardeal em 1770.
21. José Manuel da Câmara. Nasceu em Lisboa a 25 de dezembro de 1686. Bento XIV criou-o Cardeal em 10 de abril de 1747. A 10 de março de 1754 foi eleito Patriarca de Lisboa. Foi o Cardeal Patriarca que viveu o terramoto de 1755. Retirou-se agastado com a perseguição que o Marquês de Pombal movera contra os Jesuítas.
22. Francisco Saldanha. Nasceu em Lisboa, em 1723. Estudou na Universidade de Coimbra. Bento XIV criou-o Cardeal em 1756; e, a 25 de julho de 1758, foi eleito Patriarca de Lisboa.
23. Fernando de Sousa e Silva. Nasceu em 1712. Em dezembro de 1776, foi eleito Patriarca de Lisboa e foi sagrado em 30 de maio de 1779, sendo, em seguida, criado Cardeal por Pio VI.
24. Miguel de Noronha e Silva Abranches. Foi principal diácono da Igreja Patriarcal. Foi criado Cardeal em 16 de maio de 1803.
25. Pedro de Figueiredo da Cunha e Melo. Nasceu em Tavira em 1770. Foi Arcebispo de Braga (1840) e elevado a Cardeal Presbítero em 1850.
26. José Francisco Miguel António de Mendonça. Nasceu em Lisboa a 2 de outubro de 1725. Licenciou-se em cânones, foi nomeado cónego, monsenhor e principal primário da igreja patriarcal. Sucedeu a Dom Francisco de Lemos como reformador reitor da Universidade de Coimbra. Patriarca de Lisboa em 1786, foi criado Cardeal por Pio VI, em 1788.
27. Carlos da Cunha e Menezes. Nasceu a 9 de abril de 1759. Foi principal presbítero da Patriarcal e foi eleito Patriarca a 4 de julho de 1818 e elevado ao cardinalato em 1819. Foi conselheiro de Estado e membro da regência do reino durante a ausência de João VI, até 15 de setembro de 1820.
28. Frei Patrício da Silva. Nasceu em 1756. Foi Bispo de Castelo Branco (1818) e Arcebispo de Évora (1819). Leão XII fê-lo Cardeal em 1824. Tomou posse como Patriarca de Lisboa em 1826.
29. Frei Francisco de São Luís. Nasceu em 1766. Foi Bispo de Coimbra, em 1822, e Patriarca de Lisboa, em 1840. Conduziu todo o processo de reatamento das relações diplomáticas entre Portugal e a Santa Sé. Aceitou ser Patriarca de Lisboa por insistência de Dona Maria II. Foi Criado Cardeal-Presbítero por Gregório XVI, em 1843.
30. Guilherme Henriques de Carvalho. Nasceu em 1793. Foi Bispo de Leiria, em 1843, e Patriarca de Lisboa, em 1845. Foi vice-presidente da Câmara dos Pares e participou em Roma na definição dogmática da Imaculada Conceição, sendo-lhe conferidas várias distinções, entre outras, a de o Papa Pio IX lhe impor o chapéu cardinalício depois de feito Cardeal por Gregório XVI, em 1846. Obteve para os Cónegos de Lisboa vários privilégios, entre outros, o de usarem batinas e murças de cor purpúrea e, para os dignitários do Cabido, o de poderem usar mitra.
31. Manuel Bento Rodrigues. Nasceu em 1800. Nomeado Arcebispo de Mitilene (1845), foi Bispo de Coimbra (1851) e Patriarca de Lisboa (1858). Foi feito Cardeal-Presbítero em 1858.
32. Inácio do Nascimento Morais Cardoso. Nasceu em 1811. Nomeado Bispo do Algarve em 1863 e, depois, Patriarca de Lisboa, em 1871, recebeu a dignidade de Cardeal-Presbítero em 1873. O barrete cardinalício ser-lhe-ia imposto em Lisboa pelo Rei Dom Luís I.
33. Américo Ferreira dos Santos Silva. Nasceu em Massarelos. Foi Cónego da Sé Patriarcal em 1858, desembargador e juiz da relação patriarcal. Em 1867, foi vogal da comissão encarregada de propor a nova circunscrição paroquial do continente e ilhas. Nomeado Bispo do Porto, em 1871, foi elevado ao Cardinalato por Leão XIII, a 12 de maio de 1879.
34. José Sebastião Neto. Nasceu em 1841. Foi Bispo de Angola e Congo (1879) e foi escolhido para Patriarca de Lisboa a 6 de abril de 1883. Elevado ao cardinalato em 1884, presidiu ao casamento do Rei Dom Carlos e Dona Amélia, na Igreja de São Domingos (22 de maio de 1886).
35. António Mendes Belo. Nasceu em S. Pedro de Gouveia, em 1842. Governador do bispado de Pinhel (1874) e do de Aveiro (1881), foi nomeado Arcebispo de Mitilene, em 1883. Assumiu a diocese do Algarve, em 1884, e o patriarcado de Lisboa, em 1907. Foi indicado para Cardeal in pectore no Consistório de 27 de novembro de 1911, por Pio X. Expulso de Lisboa devido às convulsões políticas, ficou exilado em Gouveia durante dois anos. Participou no Conclave em que foi eleito Bento XV, em 1914, tendo recebido das mãos deste o barrete cardinalício.
36. Manuel Gonçalves Cerejeira. Nasceu em Lousado em 1888. Nomeado Arcebispo de Mitilene em 1928, foi eleito Patriarca de Lisboa a 18 de novembro de 1929. No dia 16 do mês seguinte foi elevado a Cardeal da Ordem dos Presbíteros, com o título dos Santos Marcelino e Pedro. Era o mais novo dos purpurados, tendo recebido o barrete das mãos de Pio XI, com o Cardeal Pacelli, mais tarde Papa Pio XII. Querendo apaziguar as relações com o Estado, devido às convulsões surgidas com a revolução republicana de 1910, tudo fez para que, em 1940, o Governo assinasse a Concordata com a Santa Sé. Outro marco fundamental na ação deste Patriarca foi a criação da Universidade Católica Portuguesa.
37. Teodósio Clemente de Gouveia. Nasceu na Madeira em 1889. Foi Bispo titular de Leuce e Prelado de Moçambique (1936), e em 1941, Arcebispo de Lourenço Marques. Foi elevado a Cardeal-Presbítero por Pio XII, a 18 de fevereiro de 1946.
38. José da Costa Nunes. Nasceu na Ilha do Pico (Açores) a 15 de março de 1880. Foi Bispo de Macau (1920) e nomeado Arcebispo de Goa e Damão, com o título de Patriarca das Índias Orientais, a 11 de março de 1940. Em 16 de dezembro de 1953, renunciou ao governo da diocese, mantendo o título de Patriarca e ficando como Arcebispo titular de Odesso, E passou a integrar a Cúria Romana como vice-camerlengo da Santa Sé. A 16 de março de 1962, foi elevado à dignidade cardinalícia por João XXIII.
39. António Ribeiro. Nasceu em São Clemente (Celorico de Basto) a 21 de maio de 1928. Foi nomeado Bispo titular de Tigilava e Auxiliar do Arcebispo de Braga a 8 de julho de 1967. A 13 de maio de 1971 foi nomeado 15.º Patriarca de Lisboa. Paulo VI elevou-o à dignidade cardinalícia com o título de Santo António in Urbe, a 5 de março de 1973. Foi o Patriarca da transição entre a ditadura e a democracia em Portugal. A sua coragem pastoral e a lucidez política foram importantes para definir o espaço da Igreja no novo contexto social.
40. Humberto de Medeiros. Nasceu nos Arrifes, ilha de São Miguel (Açores), a 6 de outubro de 1915. Foi Bispo de Browsville, no Texas (1966), Arcebispo de Boston (1970) e criado Cardeal por Paulo VI a 5 de março de 1973. 
41. José Saraiva Martins. Nasceu em Gagos de Jarmelo, Guarda, a 6 de janeiro de 1932. Cursou teologia em Roma, tendo-se licenciado na Universidade Gregoriana. Depois de vários anos de docência nos seminários maiores da Província Claretiana, doutorou-se em Roma na Universidade de São Tomás de Aquino. Em 1970, foi nomeado professor de teologia na Pontifícia Universidade Urbaniana. Nomeado Reitor da mesma, desempenhou este cargo de 1977 a 1983, e desde 1986 até ser nomeado Arcebispo e secretário da Congregação da Educação Cristã, a 26 de maio de 1988. Em 1998, passou a Prefeito da Congregação para a Causa dos Santos. Foi criado Cardeal a 21 de fevereiro de 2001.
42. José da Cruz Policarpo. Nasceu em Alvorninha, concelho das Caldas da Rainha, no dia 26 de fevereiro de 1936. O 16.º patriarca de Lisboa assumiu esta missão a 24 de março de 1998, após a morte de Dom António Ribeiro, de quem era Bispo coadjutor desde março de 1997. Padre desde 15 de agosto de 1961, foi ordenado Bispo auxiliar de Lisboa em 1978. Criado cardeal por João Paulo II em 2001, participou em dois Conclaves: abril de 2005, que elegeu Bento XVI; e março de 2013, que escolheu o Papa Francisco.  Faleceu a 12 de março de 2014.
43. Manuel Monteiro de Castro. Nasceu em Santa Eufémia de Prazins, Guimarães, a 29 de março de 1938. Ordenado presbítero em 1961, partiu para Roma, onde ficou até 1967. Cursou Direito Canónico, formou-se na Academia Diplomática e, em 1967, foi nomeado para a Nunciatura Apostólica do Panamá, onde exerce funções até 1969, seguindo-se outras missões diplomáticas. Em 1985, foi ordenado bispo e enviado como Núncio e Delegado Apostólico para as Caraíbas. No início dos anos 90 foi enviado para a África do Sul onde iniciou relações diplomáticas. Mudou-se para Madrid onde se estabeleceu até 2009, ano em que Bento XVI o nomeou para a Congregação dos Bispos. Foi feito Cardeal em 2012 e nomeado como secretário do Colégio Cardinalício com o lugar de Penitenciário-Mor da Penitenciaria Apostólica. 
44. Manuel José Macário do Nascimento Clemente, Patriarca de Lisboa. Nascido a 16 de julho de 1948, foi criado cardeal por Francisco a 14 de fevereiro de 2015. A biografia divulgada pelo Vaticano sublinhava a “presença ativa” do cardeal-patriarca na ação da Igreja Católica nas duas maiores cidades portuguesas, assinalando o seu trabalho na História Religiosa e a colaboração com vários meios de comunicação social, e que, “pelo seu compromisso cívico em defesa do diálogo e da tolerância e contra a exclusão social, recebeu distinções e reconhecimentos”, entre os quais o Prémio Pessoa de 2009 e a grã-cruz da Ordem de Cristo (2010).
45. António Augusto dos Santos Marto. Foi criado cardeal por Francisco a 28 de junho de 2018 (uma carícia de Nossa Senhora – disse o Papa). Nasceu a 5 de maio de 1947, em Tronco, Concelho de Chaves, Diocese de Vila Real. A 10 de novembro de 2000 João Paulo II nomeou-o bispo auxiliar de Braga; passou pela Diocese de Viseu; e foi escolhido por Bento XVI, em 2006, para Bispo de Leiria-Fátima.
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Cerejeira (nos seus últimos tempos), António Ribeiro, Cruz Policarpo, Manuel Clemente, António Marto e Tolentino Mendonça, são o rosto cimeiro português duma Igreja em renovação por força do Concílio Vaticano II, das sucessivas assembleias sinodais, do adicionamento ao estudo da Teologia. Sendo de ressaltar os trabalhos de teses académicas de Policarpo – “Teologia das religiões não cristãs (licenciatura) e “Sinais dos Tempos. Génese histórica e interpretação teológica” (doutoramento) –, é de vincar que Tolentino mostra como a poesia e a cultura podem emprestar à obra da evangelização um novo fôlego humanista, um pouco da esteira de Francisco de Assis e na de Gianfranco Ravasi.
2019.09.02 – Louro de Carvalho

quinta-feira, 12 de julho de 2018

Cardeal Tauran, o homem que anunciou Francisco Urbi et Orbi


Ocorreu, no Altar da Basílica de São Pedro, nesta quinta-feira, 12 de julho, às 10,45 horas, a celebração das exéquias por alma e em memória do Cardeal Jean-Louis Tauran, Titular da diaconia de Santo Apolinário nas Termas Neronianas-Alexandrinas. A Liturgia decorreu sob a presidência do cardeal Angelo Sodano, Decano do Colégio Cardinalício, junto com os cardeais, arcebispos e bispos. Além da presença do Papa, também foi notada a presença de Geneviève Dubert, irmã do cardeal, à qual o Pontífice enviou um telegrama de condolências há alguns dias.
No final da celebração eucarística, o Papa Francisco presidiu ao rito da Ultima Commendatio e da Valedictio.
O camerlengo da Santa Igreja Romana e presidente do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-Religiosoícone da promoção do diálogo, que tinha completado 75 anos em abril, faleceu em 5 de Julho em Hartford, nos Estados Unidos, após longa doença. Será sepultado na basílica de Santo Apolinário nas Termas neronianas-Alexandrinas, da qual era titular.
Ao recordar o “inesquecível” cardeal francês, Angelo Sodano disse “foi um irmão” que serviu “corajosamente a Santa Igreja de Cristo”, apesar do “peso da sua doença”.
“No Evangelho, Jesus – explicou Sodano, como refere o Vatican News – recordou-nos quais são as verdadeiras bem-aventuranças do cristão”. Na verdade, “é comovedor ouvir-lhe proclamar estas bem-aventuranças na nossa Igreja: Bem-aventurados os pobres de espírito. Bem-aventurados os mansos, bem-aventurados os puros de coração, bem-aventurados os que promovem a paz”.
E o presidente da Liturgia, frisando que foi “testemunha por muitos anos do grande espírito apostólico do cardeal Tauran”, enfatizou que “são bem-aventuranças que iluminaram toda a vida” do eminente purpurado “como estrelas luminosas no seu caminho”.
Mais o Decano do Sacro Colégio Cardinalício evidenciou que o cardeal Tauran era “uma grande figura” de sacerdote, bispo e cardeal, que “dedicou, como muitos, a sua vida ao serviço da Santa Sé, da Igreja e nos últimos anos particularmente ao diálogo com todos os homens de boa vontade”. Desta maneira, seguiu a linha traçada pelo Concílio Ecuménico Vaticano II no compromisso – segundo a Gaudium et spes – da fraternidade universal (com efeito, todos somos irmãos), a qual nos leva à consciência clara de que, “chamados pela mesma vocação humana e divina”, podemos e devemos cooperar pacificamente, “sem violência, nem engano” na edificação “do mundo na verdadeira paz”.
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Para recordar o cardeal Tauran, o Cardeal espanhol Santos Abril y Castelló, ligado por uma profunda amizade com o cardeal francês, aceitou ser entrevistado por Hélène Destombes, do que se registam as seguintes palavras:
A minha recordação do cardeal Tauran é verdadeiramente uma recordação de amizade e lamentação pelo facto de ele nos ter deixado. Ultimamente, eu via-o evidentemente enfraquecido. Mas mesmo neste período, ele colocava o seu dever em primeiro lugar: o de procurar aproximar as posições com o mundo das outras religiões, especialmente com o Islão. E ele fazia isso com um grande sentido de respeito para com todos, de grande competência e com uma grande capacidade de diálogo, de propor possíveis soluções. Ele fez tudo isso também com grande sacrifício, porque a sua saúde era muito fraca nos últimos tempos: ele percebia que não estava nas condições ideais para continuar o magnífico trabalho que estava fazendo para a Igreja.”.
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É abundante e polifacetada a folha de valorização e serviço que transparece da sua biografia como se pode ver pelo Observador on line, a 6 de julho, e pela  Wikipédia – enciclopédia livre.
O Cardeal Jean-Louis Pierre Tauran, que em 13 de março de 2013, foi encarregado, por ser o cardeal protonotário, de vir à varanda principal da Basílica de São Pedro proclamar o pregão “Annuntio vobis gaudium magnum, Habemus Papam” e dizer, a seguir, o nome do Cardeal Mario Georgio Bergoglio, que assumiu o nome papal de Francisco, nasceu em Bordéus, a 5 de abril de 1943, era o presidente do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso e camerlengo da Câmara Apostólica.
O seu nome de batismo é Louis-Pierre e o prenome é Jean. Recebeu o sacramento da confirmação em 5 de junho de 1955, das mãos de Paul-Marie-André Ricchau, Arcebispo de Paris e futuro cardeal.
Estudou na Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma, onde se licenciou em Filosofia e Teologia e se doutorou, em 1973, em Direito Canónico, e no Instituto Católico de Toulouse. Também estudou na Pontifícia Academia Eclesiástica, em Roma. Além do francês como língua materna, falava correntemente espanhol, inglês e italiano.
Ordenado presbítero, aos 26 anos, em 20 de setembro de 1969, em Bordéus, pelo Arcebispo de Bordéus Marius Maziers – não sem antes ter sido professor num colégio do Líbano, aos 21/22 anos, como forma de cumprir o serviço militar – tornou-se pároco na sua Arquidiocese, após o que ingressou no serviço diplomático da Santa Sé em 1975, passando trabalhar em definitivo para a Cúria Romana. Foi secretário da Nunciatura, na República Dominicana, entre 1975 e 1978 e secretário da Nunciatura no Líbano, entre 1979 e 1983.
Integrou o Conselho para os Assuntos Públicos da Igreja a partir de julho de 1983. Participou em missões especiais no Haiti, de 1984, e Beirute e Damasco, em 1986. Foi membro da delegação da Santa Sé para as reuniões da Conferência sobre Segurança e Cooperação Europeia, Conferência sobre o Desarmamento, em Estocolmo, na Suécia, e no Fórum Cultural em Budapeste, na Hungria, e sucessivas reuniões em Viena.
Eleito Arcebispo-titular de Telepte e nomeado subsecretário da Secretaria de Estado para as Relações com os Estados (tornando-se o titular da secção dois anos depois – uma espécie de ministro das Relações Exteriores do Papa), a 1 de dezembro de 1990, foi-lhe conferida a ordenação episcopal em 6 de janeiro de 1991, na Basílica de São Pedro, por João Paulo II, sendo coordenantes por Giovanni Battista Re, Arcebispo-titular de Vescovio, substituto da Secretaria de Estado, secção de Assuntos Gerais, e Justin Francis Rigali, Arcebispo-titular de Bolsena, secretário da Congregação para os Bispos. Adotou o lema episcopal Veritate et caritate” (Pela verdade e pela caridade).
É naquela função na Secretaria de Estado que Tauran acabou se torna perante do mundo a voz e o rosto da firme oposição do Papa à Guerra do Iraque no início dos anos 2000. Para Tauran, dar início ou não à guerra era fazer “uma escolha entre a força da lei e a lei da força”. E disse:


Nenhuma regra do direito internacional autoriza um ou mais Estados a recorrer unilateralmente ao uso da força para mudar o regime ou a forma do governo de outro Estado com base na alegação, por exemplo, de que possui armamento de destruição em massa”.
Enfrentou, pois, George W. Bush com ferrenha oposição, dialogou com líderes religiosos do mundo todo e foi o responsável por anunciar uma das notícias mais esperadas da última década.
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Criado cardeal-diácono no consistório de 21 de outubro de 2003, recebeu o barrete e a diaconia de Santo Apolinário nas Termas Neronianas-Alexandrinas. Dois dias depois, a 24 de novembro de 2003, foi nomeado Arquivista e Bibliotecário da Santa Igreja Romana, cargo que exerceu até 25 de junho de 2007 e para o qual acabou de ser designado o português Dom José Tolentino de Mendonça, Arcebispo-Titular eleito de Sauva.
Como representante do Papa participou na inauguração do novo Museu do Holocausto  Yad Vashem, a 15 de março de 2005, em Jerusalém. E, nesse mesmo ano, foi o enviado especial do Papa às celebrações centrais do Extraordinário Ano Jubilar da Diocese de Le Puy-en-Velay, na França, ocorrido a 29 de maio, na Basílica Catedral de Notre Dame du Puy. Participou, por nomeação papal, na X Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, na Cidade do Vaticano, de 2 a 23 de outubro de 2005. Nomeado presidente do Conselho Pontifício para o Diálogo Inter-religioso a 25 de junho de 2007, assumiu o cargo em 1 de setembro de 2007.
Este cargo colocava-o na linha da frente do diálogo com o mundo islâmico. Falou várias vezes em defesa dos cristãos nos países muçulmanos e criticou o facto de, em alguns países árabes, os não-muçulmanos serem tratados como cidadãos de segunda.
Esteve recentemente na Arábia Saudita, donde voltou, como se diz adiante, com uma importante conquista para os muitos cristãos – sobretudo expatriados – que vivem naquele reino, nomeadamente o direito a praticarem a sua religião, o que até então lhes estava vedado.
Participou na XII Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, na Cidade do Vaticano, entre 5 a 26 de outubro de 2008, sobre “A Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja”.
Foi o enviado especial do Papa às cerimónias conclusivas do Ano Paulino em 29 de junho de 2009, na Turquia. Participou na II Assembleia Especial para a África do Sínodo dos Bispos, de 4 a 25 de outubro de 2009, na Cidade do Vaticano, sobre o tema “A Igreja na África, ao serviço da reconciliação, da justiça e da paz: Vós sois o sal da terra, você é a luz do mundo”. Foi o enviado especial do Papa para a celebração do milénio da Abadia de Saint-Pierre de Solesmes, na França, ocorrido em 12 de outubro de 2010. Participou na II Assembleia Especial para o Oriente Médio do Sínodo dos Bispos, de 10 a 24 de outubro de 2010, na Cidade do Vaticano, como membro eleito do Conselho Especial para o Oriente Médio da Secretaria Geral do Sínodo dos Bispos, 23 de outubro de 2010. Em 23 de novembro de 2010, ele recebeu o doutoramento honoris causa do Institut Catholique de Paris. Confirmado pelo Papa Bento XVI no ofício do cardeal protodiácono no consistório de 21 de fevereiro de 2011, há vários anos que sofria do que foi diagnosticado como o mal de Parkinson. Apesar disso, a 19 de junho de 2012, foi confirmado por 5 anos como presidente do Conselho Pontifício para o Diálogo Inter-religioso.
Como cardeal-protodiácono foi ele quem anunciou ao mundo a eleição do novo Papa e o seu nome papal, no termo do Conclave de 2013, como foi referido, e impôs o pálio sobre Francisco na inauguração do ministério petrino do pontífice em 19 de março de 2013.
Em 15 de abril de 2013, foi nomeado enviado especial do Papa às celebrações do quarto centenário da chegada do ícone da Virgem Maria em Budslau, na Bielorrússia, ocorrido em 5 e 6 de julho de 2013, no Santuário Nacional, que se encontra no território da Arquidiocese de Minsk-Mohilev. A 26 de junho de 2013, o Papa nomeou-o membro da Pontifícia Comissão Relativamente ao Instituto para as Obras de Religião (Banco do Vaticano). A 24 de agosto de 2013, foi nomeado enviado especial do Papa às celebrações do primeiro centenário da Arquidiocese de Lille, na França, que tiveram lugar em 26 e 27 de outubro de 2013. Foi confirmado como membro da Congregação para os Bispos em 16 de dezembro de 2013.
A 12 de junho de 2014, passou para a ordem de  cardeais-presbíteros, mantendo o seu título pro hac vice. E, a 20 de dezembro de 2014, Francisco nomeou-o Camerlengo da Santa Igreja Romana, sendo, nesta condição, o responsável pela administração das propriedades e receitas da Santa Sé e devendo assumir as responsabilidades de Chefe de Estado do Vaticano entre a morte ou resignação de um Papa e a eleição de outro.
A sua última viagem em nome da Santa Sé, em abril, foi uma visita de oito dias à capital saudita, Riad, onde se encontrou com o rei Salman bin Abdulaziz e com o secretário-geral da Liga Muçulmana Mundial, o sheik Mohammed Al-Issa. Foi a primeira visita dum cardeal ao país em que ficam os dois grandes santuários do Islão, Meca e Medina. Na pátria do wahabismo, uma das correntes mais fundamentalistas do islão, o Cardeal fez discursos corajosos, pedindo que os cristãos “não sejam considerados cidadãos de segunda classe” e apostando na educação como caminho para o diálogo e a tolerância.
Esta viagem a Riad, já bastante debilitado, constituiu um marco para as relações entre a Igreja e o mundo muçulmano. Nela sustentou que a ameaça não provém do “choque de civilizações”, mas do “choque de ignorâncias e radicalismos”. Assim, defendia que “a religião pode ser proposta, mas jamais imposta”. E, numa entrevista em dezembro do ano passado, explicou como ele e a Santa Sé viam com apreço o recurso ao diálogo:
Nós cremos que, no fundo, não obstante as posições que às vezes possam parecer distantes, é necessário promover espaços de diálogo sincero. Apesar de tudo, estamos convencidíssimos de que se pode viver juntos.”.
Dizia ele que frequentemente “é a ignorância que fundamenta o medo”. E assinalava a verificação de que “a maior parte dos europeus nunca teve um encontro com um muçulmano nem nunca abriu o Corão” e que “o contrário também é verdade: muitos muçulmanos jamais abriram a Bíblia”. E com este espírito de diálogo movia-se na Cúria Romana, sem intriguismos, pois nem tinha tempo para isso. E assegura o vaticanista Andrea Tornielli que “deu o exemplo de como se serve ao papa na Cúria Romana, sem protagonismos, fazendo sempre presentes as próprias objeções e sugestões, sem nunca as vazar em blogs ou entrevistas”.
(cf https://www.semprefamilia.com.br/acreditamosnoamor/quem-foi-o-cardeal-jean-louis-tauran-icone-da-promocao-do-dialogo/)
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No telegrama de condolências enviado à irmã do cardeal, o Papa disse que Tauran “marcou profundamente a vida da Igreja universal”. Era, pois, “um conselheiro ouvido e apreciado, nomeadamente graças às relações de confiança e estima que construiu com o mundo muçulmano”. E Francisco elogiou-lhe o sentido de serviço e “amor pela Igreja”, confessando-se “emocionado” pelo modo como soube “servir corajosamente a Igreja de Cristo até ao fim, apesar do peso da doença” (agência Ecclesia).
Como dizia o Papa em Fátima, o doente não é só objeto do cuidado da parte dos demais, mas é também à sua medida um cuidador, um evangelizador.
É motivo de ação de graças a vida deste servidor da Igreja e do mundo. Laus Deo!
2018.07 – Louro de Carvalho


sexta-feira, 29 de junho de 2018

“Una carezza della Madonna”


Como previsto, Dom António Augusto dos Santos Marto, Bispo de Leiria-Fátima, foi ontem, dia 28 de junho, criado cardeal da Santa Igreja Romana com o título de Santa Maria sobre Minerva, basílica menor e uma das principais igrejas dominicanas de Roma.
O nome desta basílica é uma referência à primeira igreja construída no local, diretamente sobre (em latim: supra) as ruínas ou fundações dum templo dedicado à deusa egípcia Ísis, incorretamente identificada com a deusa greco-romana Atena/Minerva. A basílica está localizada na PIazza della Minerva , um quarteirão atrás do Panteão, no bairro Pigna (Rione IX), no antigo distrito conhecido como Campus Martius. Já é visível o edifício atual e a disposição das estruturas vizinhas em detalhes no Mapa de Nolli de 1748.
Na cerimónia, integrada numa celebração da Palavra, preparada para o efeito, os novos cardeais emitiram o compromisso de fidelidade a Cristo e ao Evangelho, de obediência à Igreja na pessoa do Sucessor de Pedro, de comunhão com a Igreja Católica por palavras e atitudes, de sigilo sobre o que lhes vier a ser confiado dada a sua nova condição, da determinação de nunca prejudicar a Igreja ou ferir a sua honorabilidade e do exercício proficiente das obrigações de que forem incumbidos. Depois, foram-lhes entregues o anel e o barrete próprios do cardinalato, bem como o título ou a diaconia a que fica adscrito cada um.
Sobre o decurso das cerimónias e do modo como as viveu falou o novo cardeal português. De facto, nas primeiras declarações após a sua elevação ao cardinalato, confessou ter sentido “um peso que não tinha sentido antes” quando se aproximou do Papa para receber as insígnias cardinalícias. E explicou aos jornalistas portugueses no Vaticano:
À medida que a gente se aproxima para ser investido, a gente sente um peso. Parece que não sentiu antes, mas sente assim como que um peso cá dentro a dizer assim: ‘Vais assumir uma nova missão’. Mas depois chega-se lá, àquela comemoração, na entrega das insígnias, a gente saúda o Papa e fica satisfeito.”.
E acrescentou quase em tom repetitivo:
Naquele momento anterior, enquanto sobe as escadas, se está ali à espera um bocadinho e sobe as escadas até lá chegar… Eu falo por mim, os outros não sei o que sentiram. Parece que senti um peso que não tinha sentido antes. Quando desci, aí já estava sereno e aliviado”.
Dom António Marto revelou ainda a conversa que teve com o Papa no minibus que transportou os novos cardeais para a Aula Paulo VI – depois duma breve visita ao Papa emérito Bento XVI, que encontrou com poucas forças, mas bem de saúde:
Agora no minibus em que vínhamos, eu entrei e ele disse assim: ‘O teu cardinalato foi uma carícia della Madonna’. E eu disse assim: ‘Acredito, porque eu ainda não compreendi porque é que foi!’.”.
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Ora, este último segmento que reporta um minidiálogo entre Francisco e António vem ao encontro dos que entendem que Fátima e o seu centenário terão pesado na decisão do Papa com vista à distinção do Bispo de Leiria-Fátima, como o próprio admitiu, bem como os responsáveis pela dinâmica do Santuário. Foi efetivamente uma carícia da Mãe ao seu mais proeminente servidor na Cova da Iria, embora sejam de ter em conta as aptidões de Marto na cooperação para a reforma da Igreja na linha do Papa Francisco, em todos os aspetos, mas em especial, como ele disse, na doutrina, na família, no desenvolvimento humano integral e na cultura. 
A este respeito, Dom Carlos Azevedo, delegado do Conselho Pontifício para a Cultura, sustenta que a ascensão do Bispo de Leiria-Fátima a cardeal não está conexa com Fátima, mas com o contacto direto que o Papa teve com o prelado e com as suas posições relativas à reforma da Igreja. Não terá toda a razão, mas tem o mérito de salientar o fundamental no pensamento e na ação de Francisco, quando refere que “o Papa escolhe pessoas dentro da perspetiva de Igreja que ele tem, sendo, portanto, muitas pessoas escolhidas pessoalmente por ele”. E diz que “não tem a razão de ser de Portugal e não tem a razão de ser de Fátima, até me atrevo a dizer”.
É óbvio que ser de Portugal ou de Fátima não é determinante, mas pode, neste caso, ter sido um adjuvante. Quem leu a carta que Francisco dirigiu a António Marto a agradecer a receção em Fátima, pôde pensar de forma humorística como eu pensei, que o fez cardeal já que, neste momento, não o podia canonizar. No entanto – e mais uma vez o Bispo português que trabalha na Cúria Romana como delegado para os bens culturais da Igreja e como membro da Comissão de Arqueologia tem um mérito, o de chamar a atenção para algo relevante, agora na figura do Bispo de Leiria-Fátima, quando dele diz:
A escolha do Papa recaiu sobre Dom António porque o bispo de Leiria-Fátima ‘é um homem que se identifica com a reforma da Igreja que é preciso fazer e, portanto, é alguém que pode ser membro ativo dessa mudança e dessa reforma da Igreja’.”.
Mais sublinhou que “é uma decisão pessoal”. E Dom Carlos Azevedo sabe do que fala, neste aspeto, pois foi colega de António Marto na equipa de formadores do seminário do Porto. Ora, questionado sobre a possibilidade de se ler a nomeação como forma de destacar a importância de Fátima, considerou que “o Papa não é muito sensível a essa perspetiva” e que essa é uma forma “bairrista” de analisar a escolha de Francisco.
Quanto ao bairrismo, era de concordar se a atenção a Fátima fosse determinante para a escolha. Porém, como apontei, tudo leva a crer que, mesmo sem bairrismo, o fenómeno Fátima esteve presente. Não obstante, Carlos Azevedo é categórico e tem razão ao insistir que “o Papa é Papa da Igreja universal” e ao fazer reparo em que “ nós às vezes temos uma visão muito nacionalista da Igreja”. Ora, como muito bem observa, “é preciso ter uma visão universal da Igreja”; e o Papa Francisco, como Pastor de toda a Igreja “não quer valorizar este aspeto ou aquele, privilegiar” um ou outro local de culto. Todavia, como lembrou, quando o Papa vai a um Santuário mariano, “ele próprio manifesta a sua devoção e a sua relação pessoal com Maria”. E o Papa Francisco “é muito sensível do ponto de vista da religiosidade popular”.
Seja como for, Carlos Azevedo reconhece que “o Santuário de Fátima tem tido uma projeção internacional acima de qualquer outro e há que perceber – e as pessoas que rodeiam o Papa ajudam-no a perceber – a importância que tem não só para Portugal mas para todo o mundo”.
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Dom António Marto, na manhã da sua elevação ao cardinalato, em conferência de imprensa no Vaticano, sustentou que Fátima não institui uma tradição como existente em Lisboa, pelo que não será de esperar que os próximos bispos da diocese de Leiria-Fátima sejam todos nomeados cardeais. E tornou a sublinhar, ante a imprensa portuguesa e internacional, que a sua elevação a cardeal é uma oportunidade de continuar a ser “um colaborador próximo” na “reforma da Igreja que o Papa Francisco quer levar para a frente”. Contudo, a horas da celebração que o iria formalmente elevar a cardeal, não sabia ainda qual a missão concreta que lhe vai ser atribuída e diz não querer antecipar-se à escolha do líder da Igreja Católica, mostrando-se “em total disponibilidade de serviço para o que o Papa quiser”.
Hoje, dia 29, o da Solenidade dos Apóstolos Pedro e Paulo, Marto concelebrou com o Papa e os demais cardeais e foi homenageado na embaixada de Portugal junto da Santa Sé.
Em todas as cerimónias cardinalícias, o Governo esteve representado pela Ministra da Justiça.
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Em entrevista à agência Ecclesia, António Marto disse da surpresa da nomeação, mas frisou que não se pode dizer “não” ao Papa. E, chamado a ser colaborador mais próximo do Papa no que Ele lhe confiar, está com tranquilidade e paz de espírito na aceitação deste encargo e missão
Quanto ao significado de ser cardeal no pontificado de Francisco, que pede bispos com cheiro a ovelhas, frisou que este Papa “trouxe um estilo novo de ser pastor, de ser bispo” e mesmo de ser cardeal – “um estilo de pastor que leva o seu tempo a ser interiorizado por todos” ou “um estilo de pastor próximo, cheio de simplicidade”, no modo de apresentação, na forma de falar às pessoas e na forma como se torna próximo. “É sinal duma imagem de Igreja evangélica, ao estilo de Jesus”, que se aproxima das pessoas, que sai pelas ruas. A Igreja em saída é “a que vai ao encontro de todos sem exceção, sem descriminações, que não aborda as pessoas logo com condenações, mas que se põe à escuta e procura entrar no coração das pessoas e aí abrir caminhos novos de vida com misericórdia, paciência e compreensão”. E enfatiza:
É uma imagem de Igreja próxima, misericordiosa, em saída no sentido missionário. A palavra missionário pode, às vezes, dar o sentido de proselitismo, mas nãoÉ a Igreja em saída que se quer fazer próxima e, por isso, encontrar caminhos novos para ir o encontro das pessoas, nas várias periferias que são sobretudo as periferias humanas existenciais, daqueles que sofrem, dos mais pobres, dos descartados, destes problemas agora mais urgentes a cair no nosso mundo como são os migrantes, os prófugos – e o seu acolhimento. Construir pontes de encontro porque vivemos um momento de muita competição e competitividade, de crispação a nível mundial, entre relações e entre os povos. O Papa tem sido um construtor de pontes, de encontro e entendimento entre os povos. Penso que é uma imagem de Igreja muito bela, muito mais próxima do Evangelho, muito evangélica.”. “
Da reforma da Igreja acionada e incrementada por Francisco diz que o povo católico se deixa contagiar por este modo de ser e por esta imagem de Igreja que o Papa veicula. São hoje naturais as resistências, como sempre o foram, só que agora ganham mais notoriedade. E nós devemos relevar a “quase totalidade ou grande maioria do povo de Deus que acolhe com alegria e entusiasmo esta reforma”.
Garante que os bispos portugueses, no atinente à Amoris Laetitia, estão em sintonia com o Papa, embora as linguagens sejam um pouco diferentes. É, de facto, importante o esforço em ordem a maior integração dos fiéis divorciados em nova união. Na verdade, o Papa “fala da alegria do amor que transparece no matrimónio entre homem e mulher e na própria família, que daí deriva, mas não pode fechar os olhos e esconder as fragilidades a que muitos fiéis estão sujeitos, muitos com grande sofrimento porque desejam continuar a viver a sua fé, uma fé convicta, numa boa relação com Deus e com a Igreja”. E Francisco, com efeito, aprofundou o que vinha de outros Papas e descobriu, na grande tradição da Igreja, quer no Evangelho, quer em Tomás de Aquino e na tradição do discernimento inaciano, “um caminho para discernir com seriedade”, ou seja, um itinerário (pessoal e pastoral, responsável e etápico) para, em consciência, as pessoas se porem diante de Deus e decidirem por uma maior integração dentro da comunidade cristã, que pode chegar ou não ao acesso aos sacramentos. É o primado da consciência pessoal, que deve ser constantemente iluminada e formada, no que pode ajudar o aconselhamento, na esteira da abertura do Concílio Vaticano II, que está ainda muito por cumprir.
Em relação à juventude de hoje o novo cardeal discorre:  
A juventude, hoje, é uma galáxia. Não se pode definir todo o mundo juvenil com uma configuração concreta. É um mundo novo que está a nascer, sobretudo marcado pela era digital, e, quando falamos de digital, não falamos em meras técnicas, mas numa nova cultura – uma nova cultura de comunicação, de relação, de trabalho até, empresarial, da visão do mundo. Isso levanta questões, até na vivência da fé.”.
Considerando ser este o panorama do mundo ocidental, frisa o que se passa na África e na Ásia:
Eu vejo nos peregrinos que vêm desses pontos geográficos e que aqui chegam com uma interioridade da fé que nos deixa maravilhados porque no Ocidente vivemos no imediato. Eles vêm e manifestam a interioridade da fé na atitude e no rosto, uma interioridade que lhes dá gozo, serenidade, alegria e paz.”.
Desejando que este intercâmbio esteja presente no próximo Sínodo, reconhece que não conhece bem o mundo juvenil, embora gostasse de o conhecer, mas diz que a idade parece já não lho permitir. Procura estar conectado com as novas técnicas da comunicação, mas pensa que tem de vir gente nova que estabeleça melhor esta conexão com o mundo juvenil numa linguagem nova.
No entanto, frisou que o ambiente geral – e não só o do mundo jovem – é o da fragmentação da cultura: é preciso voltar, mas vai levar tempo, “aos valores fundamentais partilhados, a consensos sociais partilhados para não vivermos numa sociedade fragmentada e dividida, sobretudo numa sociedade que cai na cultura da indiferença, de quem passa à frente e não olha para o irmão ao lado, à cultura do descarte”. E o Papa está a propor a cultura do encontro”.
Do muito que diz a propósito de Fátima na entrevista, é de reter, a meu ver, o seguinte:
O Papa percebe muito bem “o sentido, o significado e o alcance de Fátima, da sua mensagem”.
António Marto é um convertido a Fátima. Não gostava da expressão “altar do mundo”. Porém, ao ver peregrinos de todo o mundo, de todos os continentes cada um com a expressão da sua fé, reconhece Fátima como o espelho dos vários modos de viver a fé entre o nosso povo. A experiência da universalidade de Fátima fá-lo aceitar Fátima como santuário mundial. Tanto assim é que não exclui ninguém, nem o pomposo cardeal Burke nem os lefebvrianos. Só se lhes pediu que não criticassem o Vaticano II nem o Papa.  
Independentemente de ter ou não um cardeal, Fátima já se impôs por si mesma – já o dizia o Cardeal Cerejeira.
Em termos das preocupações mundiais, António Marto está com as reformas lideradas pelo Papa Francisco, quer dentro da Igreja e da Cúria Romana, quer na relação com o mundo eivado dum capitalismo feroz e necessitado de líderes e da dimensão da solidariedade, diálogo e partilha. Frisa a dimensão social do Evangelho e a dimensão da paz na ótica de Paulo VI, que disse: “O novo nome da paz é o desenvolvimento. E refere que um dos inspiradores do Papa Francisco é o Papa Paulo VI.
Para António Marto, João XXIII deu início a toda a abertura à Igreja, salientando terem sido os anciãos a fazer as grandes reformas, baseados na experiência de vida acumulada, no testemunho de fé e de amor à Igreja e no discernimento. E não esquece a frase joanina que Francisco retomou: “A Igreja prefere usar a medicina da misericórdia às armas da condenação.
Finalmente, o novo cardeal salienta o cariz mariano de Francisco, pelo que admite, em resposta a Paulo Rocha, que o Papa goste de pôr uma nota da mensagem fatimita no colégio cardinalício, já que o Papa diz que o colégio cardinalício procura exprimir a universalidade da Igreja e das caraterísticas de cada Igreja particular. Diz a este respeito:
Todos sabemos que o Papa tem um grande cariz mariano. Possivelmente quer também que esse cariz mariano esteja presente com esta mensagem de Fátima, que é sempre atual porque acompanha a história de cada século e de cada década, iluminando-a. Quando o Papa regressou ao Vaticano, após a visita a Fátima, na primeira intervenção no Angelus disse: ‘procuremos viver na luz que vem de Fátima.”.
E, assim, Evangelho, Igreja, Fátima, Papa e novo Cardeal vão de vento em popa, mas não em bico se pés! A carícia da Mãe é inestimável.
2018.06.29 – Louro de Carvalho