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segunda-feira, 26 de agosto de 2019

A universalidade da salvação por vontade de Deus


O povo hebreu pensava que a salvação estava reservada única e exclusivamente para si, dado que Deus o escolhera como povo da conquista e da sua predileção. Esquecia-se de que Deus o escolhera para fazer a experiência visível de salvação, tendo-o como seu povo e o povo tendo-O como seu Deus, único, vivo e verdadeiro, pois os demais deuses eram falsos, mortos e plurais, ou seja, não eram deus nem deuses. Porém, tal experiência era exemplar para todas as nações
Contra esta mentalidade cerrada e exclusivista vem a Liturgia da Palavra deste 21.º domingo do Tempo Comum no Ano C. Deus, nosso Salvador, que não faz aceção de pessoas, quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade (cf At 10,34; Rm 2,11; 1Tm 2,4-5).
Começando pela célebre passagem do profeta Isaías (Is 66,18-21), é de acentuar que o hagiógrafo considera que todas as nações são chamadas a integrar o Povo de Deus. E, nessa ótica, intenta compor a visão escatológica que o texto patenteia: no mundo novo que vai chegar, são todos convocados por Deus para integrar o seu Povo. Na verdade, diz o Senhor: Eu virei reunir todas as nações e todas as línguas, para que venham contemplar a minha glória. Eu lhes darei um sinal e de entre eles enviarei sobreviventes às nações.”.
A predita visão escatológica compreende as seguintes etapas: primeiro, Deus virá para iniciar o processo de reunião das nações (v. 18); a seguir, dará um sinal e enviará missionários (escolhidos de entre os povos estrangeiros) para que anunciem a glória do Senhor, mesmo às nações mais distantes (v. 19); depois, as nações responderão ao sinal do Senhor e dirigir-se-ão ao monte santo de Jerusalém (Jerusalém é, na teologia judaica, o centro do mundo, o lugar onde Deus reside no meio do Povo e onde irromperá a salvação definitiva, o texto de Lucas prévio à Ascensão o assume), trazendo como oferenda ao Senhor os israelitas dispersos no meio das nações (v. 20); por fim, o Senhor escolherá de entre os que chegam (dos judeus regressados da Diáspora e dos pagãos que escutaram o convite do Senhor para integrar a comunidade da salvação) sacerdotes e levitas para O servirem (v. 21).
O contexto político que envolvia o povo não facilitava uma visão tolerante e acolhedora em relação às outras nações. Dizer que todos os povos são convocados por Deus, que a todos oferece a salvação era algo de escandaloso para os judeus; e era inaudito dizer que Jahwéh escolheria de entre eles missionários para os enviar ao encontro das nações e inconcebível dizer que Deus escolheria, de entre os pagãos, sacerdotes e levitas que entrassem no espaço sagrado e reservado do Templo (onde um pagão que entrasse era réu de morte) para o serviço do Senhor.
Assim, esta passagem bíblica proclama a universalidade da salvação, que reclama o espírito ecuménico, o afã missionário e a escolha de sacerdotes e levitas também de entre os missionados. É o paralelismo e a reciprocidade na missão universal. 
Depois, vem o texto da Carta aos Hebreus (Heb 12,5-7.11-13). Depois de apelar aos crentes a esforçarem-se, como atletas, para chegarem à vitória, a exemplo de Jesus Cristo (cf Heb 12,1-4), o emissor epistolar convida os cristãos, que são todos filhos de Deus, a aceitar as correções e repreensões de Deus, como atos pedagógicos do Pai preocupado com a felicidade dos filhos. A questão fundamental gravita em torno do sentido do sofrimento e das provas que os crentes têm de suportar (sobretudo incompreensões e perseguições). A mentalidade religiosa popular considerava o sofrimento como castigo de Deus para o pecado do homem (cf Jo 9,1-3); mas, segundo a Carta aos Hebreus, o sofrimento não é castigo, mas medicina, pedagogia, que Deus utiliza para nos amadurecer e ensinar. Deus serve-Se desses meios para nos mostrar o sem sentido de certos comportamentos; desse modo, demonstra a sua solicitude paternal. Os sofrimentos, como sinais do amor que Deus nos tem, são uma prova da nossa condição de “filhos de Deus”. De facto, além de nos mostrarem o amor de Deus, as provas aperfeiçoam-nos, transformam-nos, levam-nos a mudar a nossa vida. Por essa transformação, pouco a pouco nos tornamos interiormente capazes da santidade de Deus, aptos para recebê-la. Por isso, quando chegam, devem ser consideradas como parte do projeto salvador de Deus para todos nós, portadoras de paz e de salvação. E devem levar-nos ao agradecimento e à alegria.
A conclusão apresenta-se em forma de exortação. Citando Is 35,3, o autor da Carta aos Hebreus convida todos os crentes a confiar e a vencer o temor que desalenta e paralisa – o que se faz levantando as nossas mãos fatigadas e os nossos joelhos vacilantes e dirigindo os nossos passos por caminhos direitos.
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Por fim, o pequeno texto do Evangelho de Lucas (Lc 13,22-30) apresenta-nos Jesus a dirigir-Se para Jerusalém ensinando nas cidades e aldeias por onde passava. E, na perspetiva da catequese lucana, as palavras de Jesus, a partir da questão “Senhor, são poucos os que se salvam?”, posta na boca de alguém não identificado, constituem uma reflexão sobre a salvação (vd Am 5,3; Is 10,19-22). A pergunta pode ser um recurso estilístico de Lucas, que reconstruiu a seguinte secção sobretudo com base na fonte Q.
A salvação era, na realidade, uma questão muito debatida nos ambientes rabínicos. Para os fariseus da época de Jesus, a “salvação” era uma realidade reservada ao Povo eleito e só a ele; e, nos círculos apocalípticos, a visão era mais pessimista, sustentando que muito poucos estavam destinados à felicidade eterna. Porém, como Jesus falava de Deus como o Pai cheio de misericórdia, cuja bondade acolhia a todos, especialmente os pobres e os débeis, era legítimo tentar saber o que pensava Jesus sobre a matéria.
Jesus não responde diretamente à pergunta, pois, mais do que falar em números, como todos querem (e no nosso tempo são os números em absoluto ou em percentagens e em estatísticas que mandam), a propósito da “salvação”, é importante definir as condições de pertença ao “Reino” e estimular nos discípulos a decisão pelo “Reino”. Ora, na ótica de Jesus, entrar no “Reino” implica, em primeiro lugar, o esforço por “entrar pela porta estreita” (v. 24) – imagem sugestiva para significar a renúncia a uma série de fardos que “engordam” o homem e que o impedem de viver na lógica do “Reino”. Estão neste caso o egoísmo, o orgulho, a riqueza, a ambição, o desejo de poder e de domínio, enfim, tudo aquilo que impede o homem de embarcar numa lógica de serviço, de entrega, de amor, de partilha, de dom da vida, impede a adesão ao “Reino”.
Para significar aquele esforço, Lucas utiliza o verbo agônízomai, que implica luta, dispêndio de forças (cf Jo 18,36; 1Cor 9,25; 1Tm 4,10). Deus quer a salvação de todos e tomou a iniciativa de a conceder, mas não dispensa o que pode cada um fazer em prol dessa salvação, pois ninguém a tem por direito de nascimento ou por qualquer outro critério que não o da fé.
Para explicitar melhor o ensinamento acerca da entrada do “Reino”, Lucas põe na boca de Jesus uma parábola em que o “Reino” é descrito na linha da tradição judaica, como o banquete em que os eleitos estarão lado a lado com os patriarcas e os profetas (vv. 25-29). Quem se sentará à mesa do “Reino”? Todos aqueles que acolherem o convite de Jesus à salvação, aderirem ao seu projeto e aceitarem viver, no seguimento de Jesus, uma vida de doação, de amor e de serviço. Nenhum critério de raça, geografia, laços étnicos ou cultura barrará a alguém a entrada no banquete do “Reino”: a única coisa verdadeiramente decisiva é a adesão a Jesus. Os que não acolherem o convite ficarão, logicamente, fora do banquete do “Reino”, ainda que se considerem muito santos e tenham pertencido, institucionalmente, ao Povo eleito. Jesus está a falar para os judeus e a sugerir que não é pelo facto de pertencerem a Israel que têm a entrada no “Reino assegurada”. E a parábola aplica-se igualmente aos “discípulos” que, na vida real, não queiram despir-se do orgulho, do egoísmo, da ambição, para percorrerem, com Jesus, o caminho do amor e do dom da vida. Por isso, garante:
Hão de vir do Oriente e do Ocidente, do Norte e do Sul, e sentar-se-ão à mesa do reino de Deus. Há últimos que serão dos primeiros e primeiros que serão dos últimos.”.
No atinente à universalidade da salvação é pertinente citar o apóstolo Paulo:
Recomendo, pois, antes de tudo, que se façam preces, orações, súplicas e ações de graças por todos os homens, pelos reis e por todos os que estão constituídos em autoridade, a fim de que levemos uma vida serena e tranquila, com toda a piedade e dignidade. Isto é bom e agradável diante de Deus, nosso Salvador, que quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade. (1Tm 2,1-4). Deus não faz aceção de pessoas. (Rm 2,11).
E Pedro declara:
Reconheço, na verdade, que Deus não faz aceção de pessoas, mas que, em qualquer povo, quem o teme e põe em prática a justiça, lhe é agradável (At 10,34-35).
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Na manhã deste domingo, dia 25, antes da Oração Mariana do Angelus, o Papa comentou o Evangelho do dia e convidou os cristãos a terem uma vida coerente: aproximar-se de Jesus e dos Sacramentos, como também ir à igreja. Isto, porque para entrar no Paraíso é preciso passar por uma ‘porta estreita’, a da fé, aberta a todos, mas que exige uma dedicação pelo bem e pelo próximo, contra o mal e a injustiça.
Os milhares de peregrinos que acompanharam a oração com Francisco na Praça São Pedro ou ao redor do mundo viram a preocupação do Pontífice em relação aos incêndios na Amazónia, mas também meditaram sobre o Evangelho (cf Lc13,22-30). 
O trecho de Lucas, como foi dito acima, “apresenta Jesus que passa ensinando pelas cidades e povoados, até Jerusalém, onde sabe que vai morrer na cruz para a salvação de todos os homens”. Nesse contexto, alguém perguntou a Ele se era verdade que poucos se salvariam, uma questão muito debatida naquele período, devido às diversas maneiras de interpretação das Escrituras. E Jesus respondeu, convidando “a usar bem o tempo presente” e fazendo “todo o esforço possível para entrar pela porta estreita”. E o Papa Francisco inferiu:
Com essas palavras, Jesus mostra que não é questão de número, não existe o ‘número fechado’ no Paraíso! Mas trata-se de atravessar, desde já, a passagem certa, e essa passagem certa é para todos, mas é estreita.”.
E o Santo Padre alarga-se no comentário:
Esse é o problema. Jesus não quer nos iludir, dizendo: ‘Sim, ficai tranquilos, é fácil, existe uma bonita estrada e, lá no final, um grande portão...’. Não diz isso: fala-nos da porta estreita. Diz-nos as coisas como são: a passagem é estreita. Em que sentido? No sentido de que, para se salvar, é preciso amar a Deus e ao próximo, e isso não é confortável! É uma ‘porta estreita’ porque é exigente, o amor é exigente sempre, requer empenho, ou melhor, ‘esforço’, isto é, uma vontade decidida e perseverante de viver segundo o Evangelho. São Paulo chama isso de ‘o bom combate da fé’ (1Tm 6,12). É preciso o esforço de todos os dias, de cada dia para mar Deus e o próximo."
Jesus usa uma parábola para se explicar melhor e para insistir em fazer o bem nesta vida, independentemente do título e do cargo que se exerce:
O Senhor vai-nos reconhecer não pelos nossos títulos. ‘Mas olha, Senhor, que eu participava daquela associação, que eu era amigo de tal monsenhor, de tal cardeal, de tal padre...’. Não, os títulos não contam, não contam. O Senhor vai-nos reconhecer somente por uma vida humilde, uma vida boa, uma vida de fé que se traduz nas obras.”.
O Papa, então, continua motivando-nos e conduzindo-nos para esse percurso diário.
Para nós, cristãos, isso significa que somos chamados a instaurar uma verdadeira comunhão com Jesus, rezando, indo à igreja, aproximando-nos dos Sacramentos e nutrindo-nos com a sua Palavra. Isso mantém-nos na fé, nutre a nossa esperança, reaviva a caridade. E, assim, com a graça de Deus, podemos e devemos dedicar a nossa vida pelo bem dos irmãos, lutar contra qualquer forma de mal e de injustiça.”.
Maria, Porta do céu
E, a finalizar, uma referência a Maria, Porta do Céu. O Papa diz que a primeira pessoa a ajudar- nos nessa dedicação pelo bem é a Nossa Senhora:
Ela atravessou a porta estreita que é Jesus, acolheu-O com todo o coração e seguiu-O todo todos os dias da sua vida, inclusive quando não entendia, inclusive quando uma espada perfurava a sua alma. Por isso, invocamo-La como ‘Porta do céu’: Maria, Porta do céu; uma porta que reflete exatamente a forma de Jesus: a porta do coração de Deus, coração exigente, mas aberto a todos nós.”.
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Também o Cardeal Dom António Marto, Bispo da diocese de Leiria-Fátima, que presidiu à eucaristia dominical no Recinto de Oração do Santuário de Fátima, disse que Deus não quer cristãos de etiqueta ou de fachada, para quem a fé é apenas um adorno”.
O purpurado convidou os peregrinos presentes a fazerem uma reflexão sobre a liturgia deste domingo e começou por lembrar a situação retratada no Evangelho, em que alguém no meio do povo coloca a questão: “São muitos ou poucos os que se salvam?”. E explicou:
Jesus desloca a questão de outra forma para não nos deixar distrair do essencial; e o mais importante não é saber se são muitos ou se são poucos os que se salvam, o mais importante é saber o caminho que conduz à salvação e à verdadeira vida, e como nós hoje e aqui recebemos este fruto da salvação”.
Jesus usa uma imagem “simples” para responder à questão: “procurai por entrar pela porta estreita que leva à vida” e prelado leiriense-fatimita questionou “Que porta é esta? Onde se encontra?”. E continuou aduzindo que a imagem da porta “evoca imediatamente a porta da nossa casa, do nosso lar, da nossa família, porque quando atravessamos essa porta entramos num ambiente familiar onde sentimos o calor do amor, da ternura e do acolhimento”. E disse:
É em casa, em família que sentimos segurança e proteção, e Jesus é a porta que nos introduz na família de Deus, onde sentimos o calor do amor e misericórdia de Deus muito próximo de nós”.
O Bispo de Leiria-Fátima disse que essa porta de Jesus “está sempre aberta a todos sem distinção e sem exclusão, e o Senhor espera-nos sempre à Sua porta, como um pai ou uma mãe que abre a porta da casa aos seus filhos”.
Na liturgia, a porta apresentada é estreita, porque requer que “deixemos de fora aquilo que nos impede de entrar por ela, os nossos egoísmos, comodismos, orgulhos, atitudes soberbas, ressentimentos, ódios, rancores que se acumularam no nosso coração, a nossa indiferença para com os outros, as injustiças, as omissões de atenção, amor e solidariedade”. “É uma porta de misericórdia, uma porta da conversão, mesmo daquelas falsas seguranças onde por vezes apoiamos a nossa vida, que pensamos que asseguram a nossa salvação” – reiterou.
Dom António Marto alertou os 10 grupos de peregrinos, que se anunciaram no Santuário, para o facto de que “Deus não quer cristãos de etiqueta ou de fachada, para quem a fé é apenas um adorno, como quem traz algo na lapela”; Deus apela à “vida, à relação fraterna, em casa, nas obras de misericórdia, na promoção da justiça e bem comum”.
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Enfim, tal como o profeta, os apóstolos, os evangelistas, também o Papa e o Bispo de Leiria-Fátima falam da universalidade da Salvação e do caminho de autenticidade que pela vontade de Deus e pelo esforço dos crentes leva à vida plena de cada homem e mulher e de todos, pois todos somos filhos do mesmo Deus, que nos quer fazer imergir na sua comunidade de amor.
2019.08.25 – Louro de Carvalho

domingo, 10 de março de 2019

Um dos mais dramáticos testes de stresse de Jesus: no deserto

No início da Quaresma, a Palavra de Deus incentiva a repensar as nossas opções pessoais de vida e a tomar consciência das “provações” que tentam impedir-nos de renascer para a vida de Deus, que se alimenta com o jejum e a abstinência da sobriedade, para nos desprendermos dos bens materiais, que nos ofuscam o espírito, com a oração, que nos faz entrar dentro de nós, superar a autossuficiência e dirigir o olhar para as estrelas, e com a esmoleridade, que nos treina para a partilha – de modo que se desenvolva a pessoa e se edifique a comunidade solidária.
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Um trecho evangélico de antologia
O trecho evangélico do I domingo (Lc 4,1-13) é vulgarmente conhecido como “as tentações de Jesus”, o que, de si, é ambíguo, pois ser tentado significa ser atraído para algo proibido ou ser induzido a pecar. Porém, na Bíblia e nesta perícopa, o verbo “peirázein” e o nome “peirásmos” não têm o sentido de tentar, mas de pôr à prova, fazer teste para verificar a fidelidade e o valor de alguém. Assim, Jesus é posto à prova, não para ser levado a cometer pecado, mas para manifestar o que de mais profundo existe em Si, o que não significa que não tivesse de fazer escolhas fundamentais exigentes. O diabo queria desviá-Lo do caminho e levá-Lo por atalhos.
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Augusto Cury, no livro “O homem mais inteligente da História”, põe na boca de Marco Polo, um cientista da psiquiatria que decidiu analisar o perfil de Jesus exclusivamente do ângulo das ciências humanas, garantindo que o Mestre dos Mestres foi um educador das mentes para as levar a pensar autonomamente e a gerir a emoção pessoal num dinamismo de fazer um “gasto de energia emocional útil” (GEEU) e que, “antes de abrir a boca para o mundo, passou pelo mais dramático teste de stresse”. Diz que os testes a que Jesus se sujeitou são incomuns, insuperáveis e até insuportáveis para o homem comum que não se autodomine no campo da emoção.  
Uma das componentes do teste do trecho em causa é a passagem no deserto por 40 dias (e 40 noites) sem comer – o desafio à capacidade de sobrevivência que a ciência não explica sobretudo no quadro da penúria de água. É óbvio que depois sentiu fome e Satanás incitou-o ao abuso do poder do milagre espetacular para satisfazer as necessidades corporais: podia transformar pedras em pão. No entanto, o provando responde ao tentador que nem só de pão vive o homem, mas da Palavra que sai da boca de Deus, um pensamento lógico. Na resposta, releva a força da Palavra, mostra “um pensamento lúcido quando todo o seu corpo morria” e evidencia um alto “poder mental” e revela “uma consciência crítica comparativa: pão físico versus pão metafísico. Depois, entra num campo vedado à ciência, a sobrevivência humana simbolizada no pão de trigo, mas propiciada pelo suprimento produzido pelo Autor da Vida. Ou seja, Jesus apontava o maior sonho dos mortais: a eternidade. Por outras palavras, irrigava a vida com a esperança, pois, sem esperança, morreremos. O corpo de Jesus foi levado ao limite como iria suceder mais tarde e, em vez de sucumbir aos instintos, preservou a sua consciência crítica.
A seguir, veio o apelo neurótico ao poder, sendo o autocontrolo do Mestre testado ao máximo. Diz Cury que “Jesus, depois do teste físico, foi testado no que toca a ambicionar o poder e usá-lo de forma desmedida durante toda a sua jornada”. Enquanto muitos vendem a alma ao diabo pelo poder, se corrompem, destroem princípios, esmagam a ética, “matam, controlam os seus pares e fomentam guerras”, Jesus, que tinha a capacidade de seduzir e dominar povos e reinos, não usou do poder. Antes, reagia sempre “como um nobre, não como um encarcerado”, a ponto de Pilatos vir a parecer “uma criança diante d’Ele” e Herodes “um rapazinho”.
Por fim, o desafio do espetáculo religioso – atirar-se do pináculo do Templo – garantir-Lhe-ia o domínio e a gestão de todas as religiões. Mas Ele recusou, pois desejava “apenas ser humano”. E, porque “propunha uma revolução na essência da humanidade”, pode dizer-se que “nunca alguém tão grande desejou fazer-se tão pequeno para fazer os pequenos grandes”.
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Estamos no começo da atividade pública de Jesus, que acabara de ser batizado por João Baptista e recebera o Espírito para a missão (cf Lc 3,21-22). Agora, é impelido ao deserto pelo Espírito Santo, para preparar proximamente o ministério em sobriedade e oração, e confronta-Se com uma proposta de atuação messiânica que subverte a proposta do Pai: prescindir de Deus e seguir um caminho mundano de êxitos, aplausos, poder e riqueza. No entanto, soube dizer não a todas as propostas que O afastavam do plano do Pai. “E o diabo retirou-se de junto dele” (Lc 4,13).
Mais do que um relato de episódios da vida de Jesus no início do seu ministério público, o texto evangélico é uma catequese sobre o modo como Jesus foi posto à prova (vd Lc 4,13). Servindo-se de imagens bíblicas e citações do AT (Antigo Testamento), o autor sintetiza imageticamente a luta contra o mal que Jesus manteve, não só durante algum tempo, mas durante toda a sua vida.
O médico Lucas sugere que Jesus recusou radicalmente o caminho de materialismo, poder, êxito fácil, pois o plano de Deus não passa pelo egoísmo, mas pela partilha; não passa pelo autoritarismo, mas pelo serviço; não passa por manifestações espetaculares impressionantes para as massas, mas pela proposta de vida plena, feita de simplicidade e amor. E esse caminho foi sugerido aos seguidores de Jesus, embora eles fossem amiúde tentado a trilhar outras vias.
O texto lucano mostra a preparação de Jesus para a atividade que está para inaugurar, manifestando uma superioridade serena sobre os adversários que encontrará no ministério. Jesus permanece permanentemente fiel à vontade de Deus, sem ambição pessoal, sede de poder ou egocentrismo. Nada o desviará da sua missão messiânica; vive a sua realidade de Filho de Deus como homem autêntico, sem procurar fugir da condição humana comum a todos, pois faz questão de Se afirmar como Filho do Homem, assumindo por inteiro a marca da Humanidade, para que o homem seja cada vez mais homem.
Lucas (como já o havia feito Mateus) apresenta a catequese sobre as opções de Jesus, em três “miniparábolas”. O relato constrói-se em torno dum diálogo em que tanto o diabo como Jesus citam a Escritura em apoio da sua postura. A 1.ª “miniparábola” sugere que Jesus podia optar pela via da facilidade e riqueza, utilizando a sua divindade para resolver qualquer necessidade material. Mas Ele sabe que “nem só de pão vive o homem” e que o caminho do Pai não passa pela acumulação egoísta de bens. A resposta de Jesus cita Dt 8,3, sugerindo que o seu alimento, a sua prioridade, é a Palavra do Pai. A 2.ª “miniparábola” sugere que Jesus podia ter escolhido um caminho de poder, domínio, prepotência, ao jeito dos grandes da terra. Porém, Ele sabe que esses esquemas diabólicos não entram nos planos do Pai; por isso, citando Dt 6,13, diz que só o Pai é o “Absoluto” e que não se deve adorar mais nada nem mais ninguém: adorar o poder que corrompe e escraviza é contrário ao projeto de Deus. E a 3.ª “miniparábola” sugere que Jesus poderia ter construído um caminho de êxito fácil, mostrando o seu poder através de gestos espetaculares e sendo aclamado pelas multidões (sempre dispostas a deixarem-se fascinar pelo “show” mediático). Jesus responde citando Dt 6,16, que manda “não tentar” o Senhor Deus. Aqui, “tentar” significa “não utilizar os dons de Deus ou a bondade de Deus com um fim egoísta e interesseiro”.
Apresentam-se, portanto, diante de Jesus, dois caminhos: dum lado, a proposta do diabo, de que Jesus realize o seu papel na história da salvação como um Messias triunfante, ao jeito dos homens; do outro, a escolha de Jesus, o caminho de obediência ao Pai e de serviço aos homens, que elimina qualquer conceção do messianismo como poder.
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Os elementos comuns – tentação, deserto, 40 dias – sugerem o paralelo entre este texto e a prova de Israel no deserto, durante o Êxodo. As respostas de Jesus são citações que provêm do Deuteronómio (Dt 8,3; 6,16.13), considerando a experiência de Israel no deserto como prova a superar e referindo-se a três acontecimentos peculiares: murmuração do povo antes do maná; murmuração antes do milagre da água em Massa; e chamada de atenção de Moisés ao povo contra o perigo da idolatria.
Nas primeiras tradições cristãs a expressão “filho de Deus” tinha um acento messiânico: Jesus, vitorioso sobre Satanás, neste novo êxodo revela-Se como o messias esperado. Mas Lucas não se fixando na história passada, mostra-se menos sensível que Mateus em relação à experiência de Israel no deserto. Para ele, o novo êxodo é, antes de mais, o drama pascal que se desenrolará em Jerusalém, ponto central de toda a sua obra (Evangelho e Atos dos Apóstolos). Por isso, inverte a ordem das tentações, finalizando com Jesus no Templo e não sobre o alto dum monte, como faz Mateus. A insistência Lucana sobre o “diabo” visa a apresentação, desde já, da personagem que reentrará em cena no momento da Paixão – o tempo oportuno – para entrar em Judas (vd Lc 22,3-5) e inspirar os responsáveis do drama. E o pão já não é o maná do deserto, como em Mateus, que grafa pães no plural.
Mais que a imagem dos dons de Deus e do dom por excelência que alimenta o povo – a Lei – o pão é agora o símbolo da vida, a vida que somos sempre tentados a compreender não como dom, mas como algo de que queremos ser senhores. Também Jesus, ao longo da sua vida, foi tentado a servir-se do poder divino, de Filho de Deus, para resolver as suas dificuldades e problemas comuns a todos os homens. Agindo deste modo, afastar-se-ia da condição humana, deixando de ser solidário com os outros. Neste sentido, compreende-se a tentação do malfeitor impenitente sobre a cruz: “Não és tu o Cristo? Salva-te a ti mesmo e a nós!” (vd Lc 23,29).
Neste Evangelho (vd Lc 4,6), como nos Atos, fala-se claramente do poder de Satanás (At 26,18). A grande tentação está entre o domínio e o serviço. Jesus é tentado a dominar os que o rodeiam, servindo-se do estatuto de Mestre e Filho de Deus. Mas a sua opção foi a do serviço: “Eu estou no meio de vós como aquele que serve” (Lc 22,27). No Calvário os soldados desafiarão Jesus: “Se tu és o rei dos judeus, salva-te a ti mesmo!” (Lc 23,37). Jesus recusa esta conceção de poder. Já no momento da sua prisão ele tinha dito: “Esta é a vossa hora e o poder das trevas!” (Lc 22,53).
A provação do Templo não é propriamente a de se apropriar dos dons de Deus, de colocar o poder de Deus ao serviço dos seus projetos particulares, mas a de fugir ao seu destino, evitando a prova. É a tentação do angelismo narcisista a quem procura viver a relação íntima com Deus, exigindo de Deus uma prova do seu amor e uma proteção especial. “Salvou outros! Salve-se a si mesmo, se ele é o Cristo de Deus, o Eleito!” (Lc 23,35) – ironizarão os chefes do povo, propondo ao Crucificado que assuma um destino incomum. Ora, Jesus quer viver a confiança filial no Pai na obediência quotidiana como homem que não espera privilégios nem intervenções extraordinárias, mas que aceita pacientemente o seu destino até ao fim e nele reconhece a proximidade divina: não em resignação, mas no pleno uso da liberdade pessoal.
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Fazer de Deus a nossa referência fundamental
A passagem do livro do Deuteronómio (Dt 26,4-10), tomada para 1.ª Leitura desta dominga, convida a eliminar os ídolos (falsos deuses: heróis, dinheiro, prazer, poder, prestígio), em que, às vezes, apostamos tudo, e a fazer de Deus a nossa referência fundamental. Alerta-nos, na mesma lógica, contra a tentação do orgulho e da autossuficiência, que nos levam a caminhos de egoísmo, egotismo e egocentrismo, de desumanidade, de desgraça e de morte.
O Deuteronómio é o “livro da Lei” ou “livro da Aliança” descoberto no Templo de Jerusalém no 18.º ano do reinado de Josias (622 a. C.). Nele os teólogos deuteronomistas (originários do norte mas refugiados no sul, em Jerusalém, após as derrotas dos reis do norte frente aos assírios) expõem os dados fundamentais da sua teologia: há um só Deus, que deve ser adorado por todo o Povo num único local de culto (Jerusalém) e que amou e elegeu Israel, com quem fez uma aliança eterna; e o Povo de Deus deve ser um povo único, unido, a propriedade pessoal de Jahwéh, pelo que não têm qualquer sentido as divisões históricas que levaram o Povo de Deus à divisão política e religiosa, após a morte do rei Salomão.
Literariamente, o livro compendia discursos de Moisés pronunciados nas planícies de Moab. Com efeito, antes de entrar na Terra Prometida, Moisés lembrou ao Povo os compromissos para com Deus e convidou os israelitas à renovação da aliança com Jahwéh.
Em concreto, o texto em referência integra um bloco (cf Dt 12-26) que apresenta “as leis e os costumes” que o Povo da aliança devia pôr em prática na terra de que iria tomar posse. Uma dessas leis estipulava que fossem oferecidos ao Senhor os primeiros frutos da terra e que o israelita formulasse a sua “confissão de fé”. Provavelmente, este costume israelita radica no costume cananeu: cada ano, por ocasião da recolha dos produtos da terra, o cananeu celebrava festa em honra de Baal, a divindade da fecundidade e da vegetação, agradecendo-lhe os dons da terra. Israel, porém, sabendo que não era a Baal, mas a Jahwéh, que devia agradecer tudo, centrava a confissão de fé na ação de Deus em favor do seu Povo, sublinhando sobretudo a libertação do Egito, os acontecimentos do deserto, a eleição e o dom da Terra.
Todo este “credo”, que acompanha a oferta das primícias da terra e recapitula as antigas intervenções do Senhor em prol do seu Povo (eleição dos patriarcas, êxodo, dom da Terra), tem como objectivo último afirmar e reconhecer que essa Terra Boa – e tudo o que cresce sobre ela – onde Israel construiu a sua existência é dom de Deus e produto do Seu amor em favor do Povo. É isso que significavam e simbolizavam as primícias que o israelita depositava sobre o altar, por meio do sacerdote. E as ofertas que fazemos ao Senhor significam para nós hoje que tudo o que temos e produzimos, mesmo que à custa do nosso trabalho, é dom de Deus, não como objeto de estimação pessoal, mas para provermos ao nosso desenvolvimento pessoal segundo o coração de Deus e providenciarmos ao dinamismo da partilha, fazendo cimentar e crescer a comunidade. 
As profissões de fé que os israelitas eram instados a pronunciar periodicamente na liturgia faziam parte da pedagogia de Deus, com vista a prevenir o Povo contra a tentação da idolatria. Por um lado, Israel era estimulado a reconhecer o seu Senhor e que tudo era um dom do Seu amor, não de outros deuses; e, por outro, Israel sentia-se incitado a libertar-se do orgulho, do egoísmo, da autossuficiência e a reconhecer que tudo o que era e que tinha não era fruto de conquista humana, mas de Jahwéh. Israel era, assim, convidado a reconhecer que só no amor e na ação de Deus encontrava a vida e a felicidade.
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Sobre a “carta da reconciliação”
A Carta aos Romanos é tida por alguns como a “carta da reconciliação”. Na verdade, nos anos 57/58, a convivência entre judeo-cristãos e pagano-cristãos apresenta problemas, dadas as diferenças sociais, culturais e religiosas subjacentes aos dois grupos. A comunidade cristã corria o risco de radicalizar as incompatibilidades e de se dividir. Nesta situação, Paulo escreve a vincar o que a todos une. O núcleo da carta seria, nesta perspetiva (Rm 15,7): “Acolhei-vos, pois, uns aos outros, como Cristo vos acolheu, para glória de Deus”.
O texto assumido para 2.ª leitura do I domingo da Quaresma no Ano C (Rm 10,8-13) pertence à primeira parte da carta (Rm 1-11), cuja síntese pode ser: o Evangelho de Jesus é a força que congrega e que salva todo o crente (judeus e pagãos).
Depois de demonstrar que todos os homens vivem mergulhados em ambiente de pecado (Rm 1,18-3,20), mas que a “justiça de Deus” dá a vida a todos sem distinção (Rm 3,21-5,11) e que é em Jesus que essa vida se comunica (Rm 5,12-8,39), o apóstolo reflete sobre o desígnio de Deus a respeito de Israel (Rm 9,1-11,36) e põe em relevo o que une judeus e gregos: a mesma fé em Jesus Cristo e na proposta de salvação que Ele traz.
Nos versículos anteriores (cf Rm 9,30-10,4), Paulo criticara o orgulho e a autossuficiência dos judeus, que pensavam chegar à salvação pelas obras que praticavam, ou seja, se cumprissem as obras da Lei, Deus teria de os salvar. Ora, ótica paulina, a salvação não é conquista humana, mas dom gratuito de Deus que, na sua bondade, “justifica” o homem. E foi essa autossuficiência que levou os judeus a desprezar a salvação de Deus, oferecida gratuitamente em Jesus Cristo. Ao invés, os pagãos, com simplicidade e humildade, acolheram a salvação que Jesus trouxe.
Porém, nada está perdido para os judeus. Basta-lhes, como a todos, acolher Jesus como “o Senhor” e aceitar a sua condição de ressuscitado e dela dar testemunho, o que significa aceitar que Ele veio de Deus e que a salvação que proclama tem a chancela de Deus. Assim, nascerá um povo único, sem distinção de raça, cor ou estatuto social. O que é decisivo é acolher a proposta de salvação que Deus faz através de Jesus e aderir a essa comunidade de irmãos, “justificados” pela bondade e pelo amor de Deus.
Nestes termos, o texto paulino convida-nos a prescindir duma tentadora atitude arrogante e autossuficiente em relação à salvação que Deus nos oferece, pois a salvação não é conquista nossa, mas dom gratuito de Deus. É preciso, pois, “converter-se” a Jesus, isto é, reconhecê-Lo como o “Senhor” e acolher no coração a salvação que, n’Ele, Deus nos propõe.
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Estamos a sair do cais de embarque para navegarmos no mar da Quaresma com Cristo ao leme a rumar para o porto seguro da Páscoa da Ressurreição, em cujo cais o Pai nos faz irmãos em Cristo e, como Ele, nos torna seres verdadeiramente pensantes e sencientes para viver a Vida.
No silêncio reflexivo e orante, na escuta da Palavra, na celebração da fé, na aceitação da reconciliação e no exercício da partilha, superaremos como Cristo (e com a sua ajuda) os testes dramáticos que se nos deparem, teremos um gasto de energia emocional útil, alcançaremos maior compreensão do mistério de Cristo, participaremos na consolidação da comunidade e o nosso estilo de vida será um digno testemunho para que os outros creiam. E cada um medite:
Aquele que habita sob a proteção do Altíssimo e mora à sombra do Omnipotente pode exclamar: ‘SENHOR, Tu és o meu refúgio, a minha cidadela, o meu Deus, em quem confio!’.” (Sl 91,1-2).
2019.03.10 – Louro de Carvalho

domingo, 3 de fevereiro de 2019

Nenhum profeta é bem recebido na sua terra



É uma verificação feita por Jesus na sinagoga de Nazaré, segundo o texto de Lucas (Lc 4,21-30) proclamado na Liturgia do 4.º domingo do Tempo Comum no Ano C.
Depois da leitura feita no domingo anterior em que Jesus Se assumiu como o concretizador da profecia de Isaías sobre a missão do profeta, com a frase sentenciosa “Cumpriu-se hoje esta passagem da Escritura, que acabais de ouvir”, ficamos surpreendidos pelo caminho do profeta.
Com efeito, as reações díspares dos ouvintes da profecia atualizada por Jesus (Is 61,1-2) revelam que o trilho profético do Messias, o profeta por excelência, é feito de solidão, risco e sofrimento, mas também de esperança, paz e segurança, pois a sua palavra será sempre Palavra de Deus.
O trecho evangélico desta dominga expõe a reação dos habitantes de Nazaré à ação e às palavras de Jesus: primeiro de júbilo e aclamação, admirados com as “palavras repletas de graça que saíam da sua boca”; depois, de revolta causada pela desilusão, porque, em vez do milagre, do espetáculo, o Messias, que não reconheceram, tocou-lhes na ferida do preconceito.
Como nós tantas vezes, também os conterrâneos de Jesus ficaram ofuscados pelo preconceito: É o filho de José. Vamos ver se é capaz de fazer na sua terra o que dizem ter feito em Cafarnaum. Estavam à espera do Deus-espetáculo e milagreiro, já que o leitor da profecia (Jesus) omitira o Deus da vingança. Ora, Jesus denuncia os propósitos e expectativas dos conterrâneos, exatamente iguais aos de alguns dos seus antepassados, ao dizer-lhes que nenhum profeta é aceite na sua terra, precisamente pelo preconceito, pelo apego a ideias feitas sobre a condição social, económica e cultural do protagonista. Julgavam pelas aparências e desafiavam à prática do milagre espetacular para que pudessem acreditar. Queriam ver para crer.    
O episódio sinagogal constitui uma rota programática, pois a Lucas não interessa descrever de forma coerente e lógica o sucedido em Nazaré aquando desta visita de Jesus, mas traçar os itens do programa messiânico, que é o texto de Is 61,1-2 devidamente atualizado por Jesus: a oferta de libertação aos pobres, marginalizados e oprimidos. Porém, essa oferta não é entendida e aceite pelo povo judeu (os “da sua terra”, os Seus), que espera o Messias milagreiro e espetacular. Os “seus”, que se mostram furiosos pela denúncia que Ele lhes fez das expectativas desviantes, rejeitam a proposta de Jesus e o Seu mistério e mister e tentam eliminá-Lo (prenúncio da morte na cruz). Porém, Jesus contrapõe-lhes a liberdade e vence os inimigos (indício da ressurreição) e o evangelizador segue o seu rumo evangelizante (“passando pelo meio deles, seguiu o seu caminho”), até chegar aos disponíveis para o acolhimento do mistério, da profecia, da salvação/libertação. Por isso, Jesus entende que a atitude dos ouvintes de Nazaré é desafiante como se Lhe dissessem “Medico, cura-te a ti mesmo” ou, como diríamos nós, “Mete-te na tua vida, já que não nos trazes novidade alguma”; e percebendo os seus intentos, alude a Elias e Eliseu, que pregaram aos pagãos porque Israel não estava disponível para escutar a Palavra de Deus, a profecia genuína, antes queriam que os profetas fizessem e dissessem o que eles queriam ver e ouvir.
Esta é a rota da Igreja: a comunidade crente toma consciência de que, no seguimento do caminho de Jesus, a sua missão é levar a Boa Nova aos pobres e marginalizados – como Elias fez com uma viúva de Sarepta ou como Eliseu fez com um leproso sírio. Se percorrer essa rota, a Igreja viverá na fidelidade a Cristo e pregará a todos, sejam pagãos, sejam judeus.
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Esta passagem evangélica remete-nos para Jeremias (“o homem que choraminga”) escolhido, consagrado e constituído profeta por Jahwéh, e que arrostará com todo o tipo de dificuldades, mas não desistirá de concretizar a sua missão e de tornar a Palavra de Deus uma realidade viva no meio dos homens, como se pode no texto assumido para a 1.ª leitura (Jr 1,4-5.17-19).
Jeremias inicia a sua atividade profética, com pouco mais de 20 anos (por volta de 627/626 aC), no reino de Judá, indo até depois da queda de Jerusalém nas mãos dos Babilónios (586 aC).
Naquela época muito conturbada, a nível político e religioso, em que Judá acabara de sair dos reinados de Manassés (698-643 aC) e de Amon (643-640 aC), reis ímpios que multiplicaram no país os altares a deuses estrangeiros e levaram o Povo a afastar-se de Jahwéh, surge Josias como rei de Judá (640-609 aC), um rei bom, que procurava eliminar o culto aos deuses estrangeiros e concentrar a vida litúrgica de Judá no Templo de Jerusalém. Mas, na sua reforma, Josias enfrentava resistências, pois quis, através de decreto e de repente, corrigir o coração do Povo e eliminar hábitos religiosos cultivados ao longo de algumas dezenas de anos. É, pois, neste ambiente que Deus chama Jeremias e o envia em missão.
Na primeira parte do trecho referenciado acima, Jeremias faz o relato do seu chamamento por Deus, que serve de sustentáculo à reflexão catequética sobre o mistério da “vocação”.
A vocação, na ótica de Jeremias, é um encontro com Deus e com a sua Palavra, Palavra que marca decisivamente a vida do profeta, passando a ser, para ele, a única valia. Por outro lado, a vocação é um desígnio divino, dado que foi Deus quem escolheu, consagrou e constituiu Jeremias como profeta. Três verbos essenciais para caraterizar a vocação: escolher, ou seja, tomar a iniciativa de estabelecer desde então com o profeta uma relação estreita e íntima, de forma que este, vivendo na órbita de Deus, aprenda a discernir os planos de Deus para os homens e para o mundo; consagrar, ou seja, pôr de parte o profeta o serviço divino; e “constituir”, ou seja, confiar ao profeta uma missão universal. Entretanto, atente-se em que tudo resulta da ação e da escolha de Deus: é iniciativa de Deus e não escolha do homem.
Na segunda parte, temos o envio do profeta, ou seja, ir a “dizer o que o Senhor ordenar”, sem medo nem servilismo, mas com a força do Alto para enfrentar os grandes e com a doçura de Deus para compreender o sofrimento dos oprimidos. Cá está: é o “caminho profético”, de risco, de sofrimento, de solidão, de conflito com os opositores à oferta de Deus – mas no repto divino à confiança: “não poderão vencer-te, porque Eu estou contigo para te salvar” (v 19).
Ora, Jeremias realizou o projeto de Deus: oportuna e importunamente, denunciou, criticou, demoliu e destruiu, edificou e plantou, sempre sob o signo da esperança e o juízo benévolo de Deus. A nível humano, o êxito foi reduzido, pois viraram-lhe as costas, marginalizaram-no, perseguiram-no e maltrataram-no a família, os amigos, o povo de Jerusalém, as autoridades, os sacerdotes. Todavia, o profeta não desistiu: Deus apoderou-Se-lhe de tal forma da vida e a paixão da Palavra agarrou-o de tal sorte que viveu até ao fim a missão com toda a intensidade.
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Atentando na dinâmica da vocação profética, vê-se que Deus quer estabelecer com o homem ume relação de intimidade, fidelidade e amor, uma relação modelar da relação que as pessoas devem ter entre si na comunidade, uma relação cooperante e comungante, desinteressada e gratuita – nunca uma relação interesseira, egoísta ou hegemónica.
A este propósito, vale a pena considerar o texto paulino da 1.ª Carta aos coríntios (1Cor 12,31-13,13), como um aviso ao “profeta”, que tem a força de virar a apóstolo e missionário, no sentido de se deixar guiar pelo amor e nunca pelo próprio interesse, pois só assim a missão fará sentido. É, como refere o último versículo do capítulo 12, “um caminho que ultrapassa todos os outros”.
Chamam a este texto o “hino ao amor” e até “o Cântico dos Cânticos da nova aliança”.
Conexo com os capítulos precedentes e com os capítulos seguintes, com os quais tem afinidades claras a nível literário e a nível temático, mesmo com o anterior texto referente à unidade e aos diversos carismas, pode este hino retirar-se do seu contexto sem que perca o sentido profundo. Com efeito, Paulo quer dizer, clara e apoditicamente, que só há um carisma absoluto: o amor.
Convém, entretanto, dizer que o amor de que Paulo fala neste hino é o amor (em grego, “ágape”) como é entendido pelo cristianismo: não o amor egoísta, que procura o próprio bem, não o amor-paixão, não só o amor-amizade, mas o amor paciente, fraterno, sincero, desinteressado, gratuito, sincero, fraterno, oblativo, que se preocupa e sofre com o outro, que procura o bem do outro sem esperar nada em troca, o amor-ágape – como decorre da análise do hino. E é neste relacionamento, inspirado pela fé e nutrido na esperança, que se edifica a Igreja – a comunidade dos que vivem o “ágape” – nascida do “ágape” de Deus em Cristo entregue por nós.
Num primeiro momento (13,1-3), Paulo sustenta que, sem amor, até as melhores coisas (fé, ciência, profecia, distribuição de esmolas pelos pobres, transporte de montanhas, entrega do corpo às chamas…) não têm sentido, porque só o amor dá sentido a toda a vida e experiência cristãs.
O segundo momento (13,4-7) apresenta literariamente o amor personalizado – uma pessoa, sugerindo que ele é a fonte e a origem de todos os bens e qualidades. A propósito, Paulo enumera 15 qualidades do verdadeiro amor – 7 formuladas positivamente e 8 oito de forma negativa – mas todas referidas a coisas simples e quotidianas, de modo que não se pense que este “amor” é algo que só diz respeito a sábios, a especialistas.
E, no terceiro momento, temos uma comparação entre o amor e o resto dos carismas. Os outros carismas são temporais e podem caducar, desde que não sejam necessários. Ao invés, o amor-ágape” nunca desaparecerá, não mudará. Porque é perfeito e sublime, permanecerá sempre. É neste oceano que navegamos como filhos de Deus no dinamismo terno da fraternidade universal. Fica, assim, confirmada a superioridade do amor frente a qualquer outro carisma, por mais apreciado que seja pelos coríntios ou por qualquer comunidade cristã.
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É, ainda, de considerar que os “profetas” são uma realidade com que Deus continua a contar para intervir no mundo e recriar a história. Os profetas de hoje somos nós, pois, fomos, no Batismo, ungidos como profetas, à imagem de Cristo, de quem somos caixa-de-ressonância e altifalantes. Por isso, temos de viver de olhos postos em Deus e de olhos postos no mundo.
Com efeito, vivendo em comunhão com Deus, intuindo o desígnio que Ele tem para o mundo e confrontando com esse desígnio a realidade humana, bem perceberemos a distância que vai da realidade ao sonho de Deus. E aí interviremos, em nome de Deus, para denunciar, avisar e corrigir. Mas a denúncia profética acarreta, muitas vezes, a perseguição, o sofrimento, a marginalização e, em tantos casos, a própria morte. E Cristo é o mártir, por excelência, da profecia.
Na proposta deste caminho de despojamento profético, Jesus não deixa ninguém indiferente. Os compatriotas admiram-se e espantam-se com o seu ensino, ficam furiosos e tentam expulsá-Lo da cidade. Mas é entre eles que Jesus inicia a sua pregação. Sabem quem Ele é, conhecem-Lhe a profissão, a família, mas ignoram o mistério. Não imaginam que Ele vem de Deus, é o Filho de Deus, mas também não estão dispostos a fazer a caminhada da descoberta com o conterrâneo. Querem um ser especial e não um homem da condição deles. Esperam o espetáculo de Deus e não a sua relação de intimidade encarnada! Esperam um Deus justiceiro e não um Deus que é amor e misericórdia, fidelidade e paz!
Como os profetas Elias e Eliseu, Jesus manifesta que Deus ama todos os homens, pelo que a salvação que veio trazer é oferecida a toda a humanidade, não só a Israel como este pensava.
O amor cristão, desinteressado que induz, por gratuitidade, a procura do bem do outro é a essência da experiência cristã. Desse amor partilhado nasce a comunidade de irmãos, a Igreja, o que vem a constituir forte censura à comunidade cristã que seja palco de lutas de interesses, de ciúmes, de rivalidades egoístas, de protagonismos e aproveitamentos porquê assim não está a dar testemunho evangélico.
O célebre hino de Paulo ao amor sugere a essencialidade da caridade e da justiça solidárias entre os irmãos, sendo a assembleia o lugar da aprendizagem e da primeira prática da atenção ao outro, do acolhimento do outro, do respeito pelo outro. Na Celebração Eucarística, Cristo manifesta a sua presença na Palavra, sob as espécies do pão e do vinho, na pessoa do sacerdote e na assembleia reunida em seu nome – o que postula que a assembleia não pode comportar-se como se os seus membros fossem “desconhecidos”, pois assim não manifesta genuinamente a presença do Senhor da Vida.
Tudo ficará mais apurado e afinado se tivermos a consciência clara de que fomos fadados para genuinamente cantar como o profeta “A minha boca proclamará a vossa salvação” (cf Sl 71,15ab) e se cada um de nós tiver o sentido da missão profética universal ou católico-apostólica para viver da realidade de que “O Senhor enviou-me a anunciar a boa nova aos pobres, a proclamar aos cativos a redenção” (Lc 4,18).
2019.02.03 – Louro de Carvalho

quinta-feira, 26 de julho de 2018

Dom Nuno Almeida foi em peregrinação pedestre a Santiago


Celebrou-se, a 25 de julho, a festa do apóstolo São Tiago, o primeiro dos apóstolos a dar a vida pelo Evangelho e um dos três (os outros dois eram Simão Pedro e João) cuja presença solicitou em alguns dos seus momentos mais significativos, nomeadamente a transfiguração no Tabor (vd Mt 17,1-9; Mc 9,2-9; Lc 9,28-36) e a agonia no Horto das Oliveiras (vd Mt 26,36-46; Mc 14,32-42).
Era este, com João, um dos filhos de Zebedeu, cuja mãe pediu a Jesus que fizesse com que os seus filhos se sentassem um à direita e outro a esquerda no Reino (vd Mt 20,21-28; Mc 10,35-45; Lc 22,24-27). E, o Mestre, voltando-Se para eles, retorquiu: “Não sabeis o que pedis. Podeis beber do cálice que eu estou para beber”. Ao que os dois responderam: “Podemos”.
Obviamente ficaram contentes e, apesar de não compreenderem, não perguntaram Jesus a que tipo de cálice se referia.
E, perante os outros discípulos que tinham percebido o diálogo da forma mais conveniente para à sua ambição, Jesus assegurou:
Na verdade, bebereis o meu cálice; mas sentar-se à minha direita ou à minha esquerda não me pertence a mim concedê-lo: é para quem meu Pai o tem reservado”.
E aproveitou para dar a lição de humildade a todos, clarificando a natureza da sua missão messiânica, de que os discípulos hão de participar:
Sabeis que os chefes das nações as governam como seus senhores, e que os grandes exercem sobre elas o seu poder. Não seja assim entre vós. Pelo contrário, quem entre vós quiser fazer-se grande, seja o vosso servo; e quem no meio de vós quiser ser o primeiro, seja vosso servo. Também o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida para resgatar a multidão.”.
Nas últimas palavras deste segmento discurso do Mestre, entrevê-se que Jesus há de morrer para resgatar a multidão e os apóstolos, nomeadamente João e Tiago, hão de ter sorte semelhante, muito embora venha a verificar-se que um dos apóstolos traiu o Mestre, outro O negou e todos fugiram quando O sentiram apanhado pelo tribunal judaico e pelo tribunal romano.
Mas o Pentecostes com a irrupção da força do Espírito Santo fez com que outro galo cantasse, o do entendimento e o da fortaleza. E a Igreja avançava como comunidade modelo, mas a incomodar os chefes religiosos e políticos do judaísmo.
Ora, neste contexto, surge o episódio em que Tiago acaba por ser o primeiro dos apóstolos a dar a vida em martírio por Cristo, como nos refere o Livro dos Atos dos Apóstolos (At 12,1-3):
Por esse tempo, o rei Herodes maltratou alguns membros da Igreja. Mandou matar à espada Tiago, irmão de João e, vendo que tal procedimento agradara aos judeus, mandou também prender Pedro. Decorriam os dias dos Ázimos.”.
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A participação na ação messiânica de Jesus é um imperativo de todos os que se fizeram discípulos a partir do momento em que, recebido o Batismo, se encontram permanentemente matriculados na escola de Cristo e a frequentam. Pelo Batismo – e com reforço especial na Confirmação – participam, por graça de Cristo (por isso, por direito) e não por favor dos homens – do tríplice múnus do Senhor: profético, sacerdotal e pastoral.
No entanto, há uns tantos teologicamente constituídos sucessores dos apóstolos que participam de forma eminente nesse tríplice múnus. São os Bispos, que se encarregam de zelar por uma porção particular da Igreja Universal e, ao mesmo templo, unidos em colégio ao Bispo de Roma, alimentam e concretizam a solicitude por todas as Igrejas. E a sua missão de liderança e proximidade realiza-se até à exaustão, se necessário for, no acompanhamento do povo de Deus peregrino, percorrendo os caminhos dos demais membros do Povo e animando-os na realização das suas necessidades, na realização de seus anseios e aspirações, no cumprimento dos seus deveres e na reivindicação e exercício dos seus direitos. Caminham com o Povo: à frente, para indicar o caminho e puxar pelas sinergias; a meio, para amparar os mais fracos; e na retaguarda, para que ninguém fique para trás. E sempre vigiando para o inimigo não surja na forma de pecado, sedução, devaneio ou frivolidade.
Ao longo da História da Igreja, os cristãos habituaram-se à peregrinação a santuários habitualmente não muito distantes – distância que hoje pode ser muito mais alargada graças aos modernos meios de comunicação. Mas, entre eles, muitos ousaram peregrinar aos lugares onde presumivelmente se encontra o túmulo de Cristo e túmulos de apóstolos, nomeadamente, Jerusalém, Roma e Santiago de Compostela – isto para lá de santuários dedicados a mistérios de Cristo ou episódios conexos com a Virgem Maria e alguns santos, nomeadamente mártires e outros confessores da fé.
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Ora, neste sentido, o dia 25 de julho de 2018 fica marcado pela informação de que Dom Nuno Almeida, Bispo Auxiliar de Braga, que, nos passados dias 9 e 10 de junho, presidira à peregrinação anual das crianças a Fátima, donde formulou orientações para todos, rumou em peregrinação a pé a Santiago de Compostela.
Com efeito, como se pode ler no ACIDIGITAL (https://www.acidigital.com/noticias/bispo-percorre-pela-primeira-vez-caminho-de-santiago-e-revela-como-foi-a-experiencia-14081), “o Bispo auxiliar de Braga (Portugal), Dom Nuno Almeida, percorreu pela primeira vez, a pé, o Caminho de Santiago de Compostela e assinalou que está foi uma experiência que considera ‘um treino para a vida’.”.
Tendo partido de Pontevedra, no noroeste da Espanha, a cerca de 70 km de Compostela, seguiu por uma das rotas que levam até o túmulo do Apóstolo.
Em declarações à agência Ecclesia, Dom Nuno contou que fez o trajeto acompanhado por um sacerdote, um diácono e uma leiga; e juntos seguiram esta peregrinação de “contemplação” e despojamento.
Segundo o Prelado, ele já “tinha o desejo no coração há muitos anos” e, neste ano, pensou que deveria realizá-lo agora. Na verdade, como refere, “precisava de treino intenso da fraternidade mística de que o Papa nos fala”.
O Bispo Auxiliar de Braga declarou que “foi peregrinar em atitude de oração” e “fazer desta experiência, por um lado a contemplação, mas, depois, o amor concreto no esforço e atenção aos outros, no esquecimento de nós próprios para ajudar outros a caminhar”. Buscando uma preparação espiritualmente mais intensa do que fisicamente, tentou “encontrar a roupa e o calçado adequado” e foi “fazendo o caminho com esta grande vontade a partir de dentro”. E, confessando que só sentiu “o cansaço e o calor”, admitiu, no entanto, que “houve momentos em que parecia que o albergue não chegava”.
Foi na última etapa da peregrinação, já podendo avistar a Catedral de Santiago, que o Bispo peregrino disse ter sentido uma grande experiência de fraternidade, quando teve contacto com outros grupos, inclusive um de seminaristas de Braga “que ainda não conhecia”. Recordou que, “nesses quilómetros o grupo aumentou, nessa última etapa, Deus nos dá irmãos e irmãs”, e que sentiu “que era esse o objetivo; Deus coloca pessoas, também na nossa vida, e estamos disponíveis”. E espera voltar ao caminho, “nas férias e talvez com uma mochila mais leve”, uma lição que aprendeu, até por outros destinos de peregrinação mas sempre com este propósito.
Para o Prelado peregrino a pé como tantos outros, esta peregrinação ensinou-o a configurar a mochila da vida de modo a “não programar demasiado” e, mesmo em seu ministério episcopal, “estar aberto às surpresas de Deus”. E disse:
A nossa vida, o nosso magistério é ligado a um território, a uma diocese, a uma cultura e tradições como no Minho, e que é muito belo, mas a dimensão de peregrinação anima e este aspeto às vezes está esquecido”.
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O Caminho de Santiago remonta ao século IX e designa as diferentes rotas usadas pelos peregrinos para chegarem à catedral de Santiago de Compostela, na Espanha, e atravessa a Europa “desde os confins da Rússia e da Escandinávia até à bacia do Mediterrâneo e às costas das Ilhas Britânicas”.
Quase esquecido durante alguns séculos, é objeto de notável ressurgimento a partir das duas últimas décadas do século XX. Com efeito, a partir da década de 1980, o Caminho ganhou cada vez mais popularidade, para o que contribuiu o esforço de sinalização dos trilhos e percursos urbanos, principalmente no norte de Espanha (o Caminho Francês, o mais concorrido), mas também pelo resto de Espanha, em França e Portugal (principalmente no Norte), a par da recuperação e da abertura de novos albergues de peregrinos ao longo do caminho. Apesar de muitas das pessoas (segundo algumas fontes, a maioria), fazerem o percurso, não por motivos religiosos, mas por lazer, o número de peregrinos registados não tem parado de crescer, principalmente nos Anos Jubilares, quando o dia do apóstolo, 25 de julho coincide com um domingo (1993, 1999, 2004 e 2010; o próximo é em 2021).
Também nas últimas décadas, a interpretação do santuário católico sofreu uma evolução doutrinal, com a palavra “túmulo” a desaparecer dos discursos dos últimos papas. João Paulo II falou do “memorial de Santiago”, sem usar a palavra “relíquias”, e Bento XVI disse simplesmente que a catedral de Compostela “está ligada à memória de Santiago”.
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Em suma, Dom Nuno Almeida está em perfeita sintonia com a Tradição, com a doutrina, com o pulsar do povo cristão, que peregrina para o santuário e para o Além feliz, e com o essencial da sucessão apostólica. Esperamos que seja um grande Pastor em qualquer lugar que seja requisitada a sua ação e o recebam como eficaz orientador de consciências e de rumos!
2018.07.25 – Louro de Carvalho