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segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Invocar, caminhar e agradecer, três marcas do cristão em Igreja


Foi em torno destes três verbos que o Papa desenvolveu a sua homilia da Missa de canonização, a 13 de outubro, na Basílica de São Pedro, do Cardeal John Henry Newman, das religiosas Giuseppina Vannini, Maria Teresa Chiramel Mankidiyan, Dulce Lopes Pontes, e da leiga Margarida Bays.
Partindo do episódio dos 10 leprosos de que fala o texto do Evangelho de Lucas (Lc 17,11-19) assumido para o 28.º domingo do Tempo Comum no Ano C, Francisco salientou que a palavra do Senhor ao leproso que, tal como os outros, indo de caminho mostrar-se aos sacerdotes, se sentiu curado da lepra e deu meia volta para vir agradecer, “A tua fé te salvou” “é o ponto de chegada” do Evangelho que mostra o caminho da fé. Com efeito, por um lado, o caminho da fé espelha-se no percurso que Jesus fez com os discípulos para Jerusalém, onde ia ser sujeito à Paixão em que o Pai o glorificaria e Se glorificaria n’Ele, sendo a ressurreição dos mortos o certificado da glorificação de Cristo. Um caminho para o qual Jesus convida quem o quiser seguir e que implica renúncia e andar sem olhar para trás. Por outro lado, este percurso de fé mostra-nos três momentos significativos vincados pelos leprosos, sendo que apenas um – e estrangeiro – executou o 3.º momento: invocar, caminhar e agradecer.
Naqueles tempos, os leprosos sofriam a doença que os afligia (ainda hoje presente e a exigir combate) e sofriam o estigma da exclusão social em razão do perigo de contágio, pelo que deviam estar isolados do resto do mundo e gritar a quem pressentissem aproximar-se: Impuro, impuro! Também à passagem de Jesus, aqueles 10 leprosos gritaram, não o pregão estabelecido na Lei, mas o da confiança. Vão ter com Jesus, mas mantêm-se à distância e invocam-No. Vencem as exclusões ditadas pelos homens e invocam o Filho de Deus, que não exclui. Não se contentaram com o que ouviram dizer que Jesus fez a outrem; acreditavam que Jesus os podia curar. Isto faz dizer ao Santo Padre que “a salvação não é beber um copo de água para estar em forma, mas é ir à fonte, que é Jesus”. Na verdade, “só Ele livra do mal e cura o coração; só o encontro com Ele é que salva, torna plena e bela a vida”. Os leprosos foram à fonte.
Ora, nós não podemos dizer que isso não nos diz respeito, pois todos nós necessitamos de cura, Precisamos da cura sobre a pouca confiança em nós mesmos, na vida, no futuro; sobre os medos que nos paralisam; sobre os vícios que nos escravizam; sobre a nossa autossuficiência, eu nos isola dos demais; sobre os fechamentos, dependências e apegos ao jogo, ao dinheiro, à televisão, ao telemóvel, às opiniões alheias. O Senhor liberta e cura o coração, se O invocarmos. Ora, invocar remete para a oração que nos leva a chamar a Deus pelo seu nome, o que é sinal de confidência, de que o Senhor gosta e que faz crescer a fé. Com a invocação confiante da fé, levando a Jesus o que somos, sem esconder as nossas misérias, sabemos que Deus salva. Isto é rezar, é mostrar fé. A fé salva e a oração, que “é a porta da fé”, é “o remédio do coração”.
Depois, é preciso atentar no facto de os leprosos terem sido curados, não quando estavam diante de Jesus, mas enquanto caminhavam às ordens de Jesus para se mostrarem aos sacerdotes, como diz o Evangelho: “Enquanto iam a caminho, ficaram purificados” (17,14). Foram curados enquanto caminhavam para Jerusalém palmilhando uma estrada a subir. Também nós somos purificados no caminho da vida, um caminho frequentemente a subir, porque leva para o alto. A fé requer um caminho, uma saída e só acontece o milagre, diz o Papa, “se sairmos das nossas cómodas certezas, se deixarmos os nossos portos serenos, os nossos ninhos confortáveis”. E o Sumo Pontífice recordou que também o Profeta a Naaman, general sírio que pedia a cura da sua lepra, indica a tarefa de caminhar até ao rio Jordão para se banhar sete vezes. Naaman, que esperava o espetáculo da cura milagrosa pelas rezas e toques do homem de Deus, fica desapontado, pois tinha na sua terra rios melhores que o Jordão. E foi um servo que o aconselhou a fazer aquela coisa tão simples que o Profeta lhe recomendara. E ficou curado, o que leva o Sumo Pontífice a dizer:
A fé aumenta com o dom e cresce com o risco. A fé atua, quando avançamos equipados com a confiança em Deus. A fé abre caminho através de passos humildes e concretos, como humildes e concretos foram o caminho dos leprosos e o banho de Naaman no rio Jordão (cf 2 Re 5, 14-17). O mesmo se passa connosco: avançamos na fé com o amor humilde e concreto, com a paciência diária, invocando Jesus e prosseguindo para diante.”.
Em contexto sinodal, Francisco sublinha o facto de os leprosos ficarem curados quando se moviam juntos. O Evangelho refere, no plural, que “iam a caminho” e “ficaram purificados”, pelo que se deduz que “a fé é também caminhar juntos, jamais sozinhos”. E o Papa Bergoglio anota que, uma vez curados, nove continuam pela sua estrada e apenas um regressa para agradecer. E Jesus desabafa a sua mágoa perguntando pelos outros nove. Esqueceram que é tarefa dos homens agradecer. E isto faz-se de forma eminente na Eucaristia, que nos leva a “ocuparmo-nos de quem deixou de caminhar, de quem se extraviou”, pois “somos guardiões dos irmãos distantes, todos nós”, somos intercessores por eles, somos responsáveis por eles, isto é, chamados a responder por eles, a tê-los a peito”.
Agradecer é a última etapa do percurso. E só àquele que agradece é que Jesus diz: “A tua fé te salvou”. E é de notar que “não se encontra apenas curado; também está salvo”. Isto quer dizer que “o ponto de chegada não é a saúde, não é o estar bem, mas o encontro com Jesus”. Quando o homem encontra Jesus, brota dele espontaneamente o “obrigado”, porque descobre o mais importante da vida: “não o receber uma graça nem o resolver um problema, mas abraçar o Senhor da vida”. E o Papa desenvolve:
É encantador ver como aquele homem curado, que era um samaritano, manifesta a alegria com todo o seu ser: louva a Deus em voz alta, prostra-se, agradece (cf 17,15-16). O ponto culminante do caminho de fé é viver dando graças. Podemos perguntar-nos: Nós, que temos fé, vivemos os dias como um peso a suportar ou como um louvor a oferecer? Ficamos centrados em nós mesmos à espera de pedir a próxima graça, ou encontramos a nossa alegria em dar graças?”.
Depois, enuncia os efeitos do agradecimento a Deus:
Quando agradecemos, o Pai deixa-Se comover e derrama sobre nós o Espírito Santo. Agradecer não é questão de cortesia, de etiqueta, mas questão de fé. Um coração que agradece, permanece jovem. Dizer ‘obrigado, Senhor’, ao acordar, durante o dia, antes de deitar, é antídoto do envelhecimento do coração, porque o coração envelhece e se habitua mal.”.
***
Do episódio dos leprosos, o Pontífice passa ao episódio da canonização, a que procedeu, dos cinco beatos. Também eles invocaram o Senhor, para se purificarem das tentações de autossuficiência, dos medos paralisantes, dos vícios que os espreitavam. E nós agora invocamo-los como intercessores. Também eles caminharam na fé em conjunto com os irmãos e irmãs. E nós agora queremos associá-los à nossa caminhada conjunta assumindo-os como luzeiros da doutrina, da fé, da Eucaristia, da caridade e da misericórdia. Também eles souberam agradecer os benefícios de que Deus os cumulou, os dons que o Senhor lhes dispensou para benefício da Igreja e da humanidade. E o Papa sintetiza em breves palavras as suas vidas:  
Três deles são freiras e mostram-nos que a vida religiosa é um caminho de amor nas periferias existenciais do mundo. Ao passo que Santa Margarida Bays era uma costureira e revela-nos quão poderosa é a oração simples, a suportação com paciência, a doação silenciosa: através destas coisas, o Senhor fez reviver nela, na sua humildade, o esplendor da Páscoa. Da santidade do dia a dia, fala o Santo Cardeal Newman quando diz: ‘O cristão possui uma paz profunda, silenciosa, oculta, que o mundo não vê. (...) O cristão é alegre, calmo, bom, amável, educado, simples, modesto; não tem pretensões, (...) o seu comportamento está tão longe da ostentação e do requinte que facilmente se pode, à primeira vista, tomá-lo por uma pessoa comum’ (Parochial and Plain Sermons, V, 5).”.
E terminou exortando e rezando:
Peçamos para ser, assim, ‘luzes gentis’ no meio das trevas do mundo. Jesus, ‘ficai connosco e começaremos a brilhar como brilhais Vós, a brilhar de tal modo que sejamos uma luz para os outros’ (Meditations on Christian Doctrine, VII, 3). Amen.
***
O Vatican News em português realça, de entre os cinco beatos canonizados, a Irmã Dulce Pontes, a primeira santa brasileira, a devotada aos pobres. Assim, enfatiza:
Irmã Dulce é santa. A celebração litúrgica com o rito da canonização reuniu cerca de 50 mil pessoas na Praça São Pedro. Com o “Anjo bom da Bahia”, foram canonizados também João Henrique Newman, Josefina Vannini, Maria Teresa Chiramel Mankidiyan, e Margarida Bays.”.
Depois, relata em três pontos:
A cerimónia teve início com o rito da canonização: o prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, Cardeal Angelo Becciu, acompanhado dos postuladores, foi junto do Santo Padre e pediu que se procedesse à canonização dos beatos.
O Cardeal apresentou brevemente a biografia de cada um deles, que foram então declarados santos. Seguiu-se a ladainha dos santos e o Pontífice leu a fórmula de canonização.
O prefeito da Congregação, sempre acompanhado dos postuladores, agradeceu ao Santo Padre e o coro entoou o canto do Glória.”.
E refere que, “na homilia, o Papa Francisco comentou o Evangelho deste 28.º Domingo do Tempo Comum, que narra a cura de 10 leprosos”, como já foi desenvolvido, em torno dos verbos invocar, caminhar e agradecer.
***
Antes de concluir a celebração eucarística da canonização, o Santo Padre rezou com os fiéis a oração mariana do Angelus e fez dois apelos: ao Médio Oriente e ao Equador.
Formulou uma saudação e um agradecimento a todos, nomeadamente aos cardeais, bispos, sacerdotes, monjas, religiosos e religiosas de todo o mundo, em especial aos que pertencem às famílias espirituais dos novos Santos, e aos fiéis leigos ali reunidos.
Saudou as delegações oficiais de vários países e, em particular o Presidente da República Italiana e o Príncipe de Gales, pois, com o seu testemunho evangélico, estes Santos fomentaram o crescimento espiritual e social nas respetivas nações. E dirigiu uma saudação especial aos delegados da Comunhão anglicana, com profunda gratidão pela sua presença.
Saudou todos os peregrinos, bem como todos os que seguiram aquela Missa através da rádio e da televisão. E dirigiu uma saudação especial aos fiéis da Polónia que celebravam o Dia do Papa: agradeceu as suas orações e o seu constante afeto.
Os seus pensamentos dirigiram-se uma vez mais para o Médio Oriente, em particular, para a amada e martirizada Síria, de donde voltam a chegar notícias dramáticas sobre o destino das populações do nordeste do país, obrigadas a abandonar os seus lugares por causa das ações militares: entre estas populações há também muitas famílias cristãs. E renovou o seu apelo a todos os atores envolvidos e à comunidade internacional no sentido de se comprometerem com sinceridade honestidade e transparência no caminho do diálogo para buscar soluções eficazes.
Referiu que, juntamente com todos os membros do Sínodo dos Bispos para a Região Pan-Amazónica, especialmente os equatorianos, seguia com preocupação o que tem vindo a suceder no Equador nas últimas semanas. Encomendou o país à oração comum e à intercessão dos novos Santos, unindo-se à dor pelos mortos, feridos e desaparecidos. Animou-o a buscar a paz social, com especial atenção às populações mais vulneráveis, aos pobres e aos direitos humanos.
E, por fim, exortou a que todos se dirigissem à Virgem Maria, modelo de perfeição evangélica, para que nos ajude a seguir o exemplo dos novos Santos, que são nossos intercessores e luzeiros nesta nossa caminhada de fé, de oração, de testemunho evangélico e de caridade na justiça.
2019.10.14 – Louro de Carvalho

sábado, 6 de janeiro de 2018

Procura, indiferença e medo ou olhar ao Alto, caminhar e oferecer!

Hoje, 6 de janeiro, o Papa Francisco, abordou o mistério da Solenidade da Epifania do Senhor na homilia da Missa e por ocasião da recitação do Angelus e apresentou o outro lado misterioso do Natal e as atitudes que os crentes devem apresentar, cultivar e desenvolver ante o mistério do Deus encarnado e exposto aos homens.
Entretanto, é de lembrar o sentido literal e originário da solenidade. A Epifania do Senhor (do grego: Ἐπιφάνεια: aparição; fenómeno miraculoso) ou Teofania (do grego: Θεοφάνια: manifestação de Deus) é a festividade cristã que assinala a manifestação de Jesus Cristo como o Deus Emanuel (Deus-connosco), ou seja, Cristo como Deus encarnado, feito homem ou tornado visível.
No cristianismo ocidental, a festividade recorda primariamente a visita dos magos (como vem narrado em  Mt 2,1-12), enquanto no Oriente evoca o Batismo de Jesus. A data tradicional da Epifania é a de 6 de janeiro, mas, quanto à Igreja Latina, desde a reforma do Calendário Romano em 1969, é possível que a solenidade seja transferida para um domingo, o que acontece no caso português, que se celebra no domingo que ocorra entre 2 e 8 de janeiro (este ano, a 7 de janeiro); e, quanto à Igreja Ortodoxa e à Igreja Católica Oriental, o uso do calendário juliano antigo por algumas jurisdições faz com que a solenidade seja transferida para o dia 19 de janeiro, sendo amanhã, dia 7, ali festejado o Natal.
A Epifania é relacionada com o momento da manifestação de Jesus Cristo como o enviado de Deus, quando o mesmo se autoconclama filho do Criador. Na narração bíblica, Jesus deu-se a conhecer a diferentes pessoas e em diferentes momentos. Porém, o mundo cristão ocidental celebra como epifania três eventos: a Epifania propriamente dita perante os magos do Oriente e que é celebrada no dia 6 de janeiro ou, como foi referido, no domingo entre 2 e 8 de janeiro; a Epifania a João Batista no Jordão durante o Batismo de Jesus; e a Epifania aos seus discípulos e início da sua vida pública com o milagre de Caná, quando começa o seu ministério.
Assim, a solenidade da Epifania do Senhor, celebra a tríplice manifestação do nosso grande Deus e Senhor, Jesus Cristo: em Belém, o Menino Jesus foi adorado pelos magos (cf Mt 2,11); no Jordão, Jesus, já adulto, foi batizado por João Baptista, ungido pelo Espírito Santo e chamado Filho de Deus Pai (cf Mt 3,13-17; Mc 1,9-11; Lc 3,21-22; Jo 1,29-34); em Caná da Galileia, numa festa de núpcias, transformando a água em vinho, Jesus manifestou a sua glória (cf Jo 2,1-11).
***
Antes da recitação do Angelus perante a multidão reunida na Praça de São Pedro, o Papa soube anotar três atitudes com que foi acolhida a vinda de Jesus e a sua manifestação ao mundo.
O Natal aconteceu em lugar inóspito, porque não havia lugar para o Senhor e seus pais na cidade, mas os anjos vêm cantar a glória de Deus e a paz para os homens e anunciam a alegria do mistério aos pastores que se apressam a correr a Belém, ficando contentes por tudo ter acontecido como lhes fora dito pelo anjo. Abandono, alegria, procura, contemplação. Porém, na Epifania sentida pelos magos, as coisas sucedem um pouco na inversa: a procura e procura pressurosa; a indiferença; e o medo.
Quando veem a estrela do Rei dos Judeus, os magos não hesitam em pôr-se a caminho na procura do Messias. Este é o primeiro apontamento de Francisco. Chegados a Jerusalém, após “uma longa viagem”, dirigem-se a Herodes a perguntar onde nasceu o Rei dos Judeus, porque viram despontar a sua estrela e vieram adorá-lo.
A esta procura pressurosa responde a indiferença. Herodes convocou os sacerdotes e escribas para se informar sobre o lugar onde deveria nascer o Messias. Estes zelosos guardas da Lei e do culto – diz o Papa – estavam mui comodamente instalados, conheciam as Escrituras e estavam em condições de fornecer a resposta adequada (“Em Belém da Judeia, porque assim está escrito pela mão do profeta”). Sabem-no, mas não se desinstalam para irem à procura do Messias, quando Belém fica a poucos estádios de Jerusalém. Mais negativa, porém, é a postura de Herodes: o medo. É o medo de que o recém-nascido o desaloje do poder. E o medo gera nele a hipocrisia, o disfarce:
Ide e informai-vos cuidadosamente acerca do menino; e, depois de o encontrardes, vinde comunicar-mo para eu ir também prestar-lhe homenagem” (Mt 2,8).
Na verdade, Herodes queria saber onde se encontrava o menino, não para o adorar, mas para o eliminar. O assassinato pode ser um terrível fruto do medo, do medo de perder posição, poder, riqueza. O menino constituía para Herodes um rival. E o Papa adverte:
O medo comporta sempre hipocrisia. Os hipócritas são assim, porque têm medo no coração.”.
Perante as posturas encontradas no Evangelho – procura pressurosa, indiferença e medo – colocam-se a cada crente questões existenciais que mexem com a pessoa. Pode um crente procurar pressurosamente Jesus. Mas, como não O sente e não vislumbra resposta dele, pode cair na tranquilidade da indiferença ou na indiferença da tranquilidade. Pode ter medo de Jesus no coração e tentar expulsá-lo da vida… Com efeito, como refere o Pontífice, o egoísmo pode induzir a consideração da entrada de Jesus na nossa vida como uma ameaça. Quando se erigem “as ambições humanas”, “as perspetivas mais cómodas”, “as inclinações para o mal, Jesus é tido como “um obstáculo” e tenta-se suprimi-lo ou fazer calar a sua mensagem.
Por outro lado, é de ter em conta que nos persegue sempre a tentação da indiferença, pois, como refere o Papa Francisco, sabendo-se que Jesus é o Salvador de todos nós, prefere-se viver como se não o fosse e, em vez de nos comportarmos em coerência com a fé cristã, seguimos os critérios do mundo que levam à prepotência, à sede de poder e às riquezas. Porém, adverte:
Somos chamados a seguir o exemplo dos magos: ser pressurosos na procura, prontos para o esforço por encontrar Jesus na nossa vida. Procurá-Lo, para O adorar, para reconhecer que Ele é nosso Senhor, ele que indica a verdadeira vida a seguir. Se temos esta postura, Jesus realmente nos salva e podemos viver uma vida bela, podemos crescer na fé, na esperança, na caridade para com Deus e para com os nossos irmãos.”.
No término da sua alocução mariana, o Santo Padre invocou a Mãe de Jesus e nossa Mãe, “estrela da humanidade peregrina” para que, com a sua intercessão, possamos encontrar Cristo, “Luz da Verdade”, a fim de progredirmos no caminho da justiça e da paz.
***
Na homilia da Santa Missa, Francisco entendeu que “o nosso percurso ao encontro do Senhor, que hoje Se manifesta como luz e salvação para todos os povos, é elucidado por três gestos dos magos”, os quais “veem a estrelapõem-se a caminho oferecem presentes”.
Segundo o Pontífice, “ver a estrela” constitui “o ponto de partida”. E só os magos a viram, porque, talvez como poucos, “levantaram o olhar para o céu”. Muitas vezes, na vida, “contentamo-nos com olhar para a terra”. Basta-nos “a saúde, algum dinheiro e um pouco de divertimento”. E o Papa interroga-se e interpela-nos:
Sabemos nós ainda levantar os olhos para o céu? Sabemos sonhar, anelar por Deus, esperar a sua novidade, ou deixamo-nos levar pela vida como um ramo seco pelo vento?”.
Com os magos, que “não se contentaram com deixar correr, flutuando”, mas “intuíram que, para viver de verdade”, aprendemos que é necessária “uma meta alta” e que “é preciso manter alto o olhar”. Mas poderíamos e deveríamos interrogar-nos:
Porque é que muitos outros, dentre aqueles que levantavam o olhar para o céu, não seguiram aquela estrela, ‘a sua estrela’ (Mt 2,2)?”.
E Francisco tem a resposta:
Talvez porque não era uma estrela deslumbrante, que brilhasse mais do que as outras. Era uma estrela que os magos viram – diz o Evangelho – ‘despontar’ (cf Mt 2,2.9). A estrela de Jesus não encandeia, não atordoa, mas gentilmente convida. Podemos perguntar-nos pela estrela que escolhemos na vida. Há estrelas deslumbrantes, que suscitam fortes emoções, mas não indicam o caminho. Tal é o sucesso, o dinheiro, a carreira, as honras, os prazeres procurados como objetivo da existência. Não passam de meteoritos: brilham por um pouco, mas depressa caem e o seu esplendor desaparece.”.
Não é assim a estrela do Senhor. Se nem sempre é fulgurante, contudo não é uma estrela cadente, perecível; está sempre presente e, na sua meiguice, guia e acompanha. Não prometendo recompensas materiais, garante a paz, dá enorme alegria (cf Mt 2,10) e incita a caminhar.
E caminhar “é essencial para encontrar Jesus”. Mas implica “a decisão de se pôr a caminho”, o que origina a fadiga de todos os dias, em que a pessoa tem de “se libertar de pesos inúteis e sumptuosidades embaraçantes, que estorvam, e aceitar os imprevistos que não aparecem assinalados no mapa da vida tranquila”. No entanto, o Papa sublinha a maravilha esforçada:
Jesus deixa-Se encontrar por quem O busca, mas, para O buscar, é preciso mover-se, sair. Não ficar à espera; arriscar. Não ficar parados; avançar. Jesus é exigente: a quem O busca, propõe-lhe deixar as poltronas das comodidades mundanas e os torpores sonolentos das suas lareiras. Seguir a Jesus não é um polido protocolo a respeitar, mas um êxodo a viver. Deus, que libertou o seu povo mediante o trajeto do êxodo e chamou novos povos para seguir a sua estrela, dá a liberdade e distribui a alegria, sempre e só, em caminho.”.
Na verdade, “para encontrar Jesus”, tem de se “perder o medo de entrar em jogo”, desvalorizar “a satisfação do caminho andado”, vencer “a preguiça de não pedir mais nada à vida”. Enfim, “encontrar aquele Menino” e “descobrir a sua ternura e o seu amor” é encontrarmo-nos a nós mesmos. Mas a decisão de se pôr a caminho não se torna fácil: exige lucidez, coragem, isenção, falta de medo e de hipocrisia; implica reta intenção.
O Papa mostra-nos esta dificuldade através das várias personagens do Evangelho da Epifania.
Herodes, perturbado pelo medo dum rei que venha ameaçar o seu poder, “organiza reuniões e envia outros a recolher informações”, mas ele próprio fica imóvel, fechado no seu palácio. E “toda a Jerusalém” (Mt 2,3), com ele e como ele, “tem medo”, mesmo “das coisas novas de Deus”. Preferem que tudo fique como antes (“fez-se sempre assim”); não se decidem pôr a caminho.
Por sua vez, em posição mais subtil, estão os sacerdotes e escribas: “conhecem o lugar exato e indicam-no a Herodes, citando inclusive a profecia antiga”, mas não dão o passo para Belém.
O Pontífice vê aqui a tentação de quem é crente há muito tempo:
Discorre-se da fé, como de algo que já é conhecido, mas que não se compromete pessoalmente com o Senhor. Fala-se, mas não se reza; lastima-se, mas não se faz o bem.”.
Já os magos, que falam pouco, caminham muito. E, embora desconhecessem “as verdades da fé”, a sua ânsia levou-os a pôr-se a caminho. Os verbos utilizados nesta perícopa evangélica são verbos de postura positiva, de atividade e de movimento: “viemos adorá-lo”, “puseram-se a caminho”, “entraram na casa”, “prostraram-se”, “regressaram”.
Depois das atitudes da perspicácia de ver a estrela e da coragem de se porem a caminho, vem o Oferecer. Efetivamente, como diz o Evangelho, os magos, ao chegarem junto de Jesus, fazem como Ele: “dão”. Jesus oferece a vida: dá-Se. Os magos, vindos do oriente em longa viagem, “oferecem as suas preciosidades: ouro, incenso e mirra”. E diz Francisco, a este propósito:
O Evangelho está cumprido, quando o caminho da vida chega à doação. Dar gratuitamente, por amor do Senhor, sem esperar nada em troca: isto é sinal certo de ter encontrado Jesus, que diz ‘recebestes de graça, dai de graça’ (Mt 10,8). Praticar o bem sem cálculos, mesmo se ninguém no-lo pede, mesmo se não nos faz ganhar nada, mesmo se não nos apetece. Isto é o que Deus deseja. Ele, que Se fez pequenino por nós, pede-nos para oferecermos algo pelos seus irmãos mais pequeninos. E quem são? São precisamente aqueles que não têm com que retribuir, como o necessitado, o faminto, o forasteiro, o preso, o pobre (cf Mt 25,31-46).”.
Como se vê, o Papa Bergoglio não deixa de pôr o acento epifânico nas consequências que a busca, a caminhada e a contemplação do mistério têm na sociedade e nas suas franjas mais deserdadas, nas relações interpessoais, nas estruturas sociais e políticas de pecado:
Oferecer um presente agradável a Jesus é cuidar dum doente, dedicar tempo a uma pessoa difícil, ajudar alguém que não nos inspira, oferecer o perdão a quem nos ofendeu. São presentes gratuitos, não podem faltar na vida cristã; caso contrário, como nos recorda Jesus, amando apenas aqueles que nos amam, fazemos como os pagãos (Mt 5,46-47).”.
E o Papa Francisco não descura o discurso exortativo no sentido de que “olhemos as nossas mãos muitas vezes vazias de amor” e, como compensação e reforço, procuremos “pensar num presente gratuito, sem retribuição, que possamos oferecer”, que seja “agradável ao Senhor”. Depois, é salutar pedir: “Senhor, fazei-me redescobrir a alegria de dar”.
Por fim, vem o apelo a que “façamos como os magos: olhar para o Alto, caminhar e oferecer presentes gratuitamente”.
***
Após a oração do Angelus, Francisco passou a saudar os diversos grupos de fiéis presentes na Praça São Pedro. Antes de tudo, recordou que algumas Igrejas orientais, católicas e ortodoxas, celebram, este domingo, o Natal do Senhor:
A estas Igrejas dirijo as minhas felicitações mais cordiais. Que esta celebração seja fonte de novo vigor espiritual e de comunhão entre todos os cristãos, que reconhecem Jesus como Senhor e Salvador.”.
E exprimiu, em especial, a sua proximidade aos cristãos ortodoxos coptas, saudando o irmão, o Papa de Alexandria Tawadros II, na jubilosa ocasião da consagração da nova Catedral do Cairo.
A seguir, recordou o Dia da Infância Missionária, que se celebra neste sábado (6 de janeiro). E a todas as crianças e adolescentes missionários convidou a dirigir os seus olhares ao Menino Jesus, para que Ele seja a guia preciosa no seu compromisso de oração, fraternidade e partilha entre seus coetâneos mais necessitados.
Por fim, dirigiu aos participantes na manifestação folclórica da XXIII edição de “Viva a Epifania”, promovida pela Associação Famílias Europeias, cujo objetivo é reafirmar e transmitir o verdadeiro significado espiritual e os valores da Epifania do Senhor, bem como o Cortejo dos Magos que se realiza em muitas das cidades da Polónia com larga participação de famílias e associações.
***
Enfim, para encontrar Jesus é preciso entrar em ação. Com efeito,
Deus, que libertou seu povo, por meio do êxodo, e chamou novos povos para seguir a sua estrela, concede a liberdade e a alegria somente a quem está a caminho. Para encontrar Jesus, é preciso entrar em ação, pôr-se a caminho, sempre e sem cessar. Para encontrar o Menino, é preciso arriscar: descobrindo a sua ternura e o seu amor nós nos encontramos”.

2018.01.06 – Louro de Carvalho