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sábado, 22 de dezembro de 2018

Apesar das misérias humanas, a luz de Deus continua a brilhar no Natal


Esta é a grande asserção papal – a que junta a de que “a Igreja sairá das tempestades mais bela e purificada” – no seu discurso aos membros da Cúria Romana, por ocasião do Natal, em que destacou “as aflições e as alegrias na Igreja”.
Efetivamente, Francisco recebeu, na manhã do dia 21, os seus colaboradores da Cúria Romana, para as felicitações de Natal – uma das audiências mais tradicionais e aguardadas do ano. Como nos anos precedentes, o Pontífice fez um discurso franco, procedendo ao levantamento de algumas das mazelas e das alegrias que afligem o trabalho de quem se dedica à Igreja.
Considerando que, num mundo em turbulência que marcou este ano, “a barca da Igreja” viveu e vive momentos difíceis, “acometida por tempestades e furacões”, mas, entretanto, a Esposa de Cristo prossegue a sua peregrinação entre alegrias e aflições, sucessos e dificuldades, externas e internas, sendo que “as dificuldades internas continuam sempre a ser as mais dolorosas e destrutivas”. Muitos questionam o Mestre, que parece dormir, se não se importa com a nossa perda (cf Mc 4,38); outros, atordoados pelas notícias, perdem a confiança e abandonam; outros, por medo, interesse ou segundas intenções, tentam espancar o corpo eclesial aumentando-lhe as feridas; outros não escondem a satisfação em vê-la abalada; porém, muitos, continuam a apegar-se à certeza da vitória do Evangelho (“as portas do inferno não prevalecerão contra ela”, Mt 16,18).

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Para o Santo Padre, são muitas as aflições, entre as quais emergem a situações dos migrantes que encontram a morte ou os que, ao sobreviverem, acham as portas fechadas, mercê do medo e do preconceito (os demais seres humanos estão envolvidos em conquista política e poder), a que se juntam os cenários dramáticos das pessoas, mormente crianças, que morrem diariamente por falta de água, comida e remédios, dos frágeis, especialmente mulheres, que sofrem a exploração, a extorsão, a violência ou das pessoas que são sistematicamente torturadas em diversos cenários de guerras, declaradas e não declaradas, em delegacias de polícia, prisões e campos de refugiados em diferentes partes do mundo.
E Francisco não se esqueceu de que se vive hoje uma “nova era de mártires” e disse que “a cruel e atroz perseguição do Império Romano parece não conhecer fim”. E explicitou:
Novos Neros nascem continuamente para oprimir os crentes, somente por causa da sua fé em Cristo. Novos grupos extremistas estão a multiplicar-se visando igrejas, locais de culto, ministros e fiéis simples. Novos e antigos círculos e conventículos vivem a alimentar-se de ódio e hostilidade a Cristo, à Igreja, aos crentes. Quantos cristãos ainda vivem hoje sob o peso da perseguição, marginalização, discriminação e injustiça em muitas partes do mundo! No entanto, continuam corajosamente a abraçar a morte para não negar a Cristo. Quão difícil é hoje viver a fé livremente em muitas partes do mundo onde a liberdade religiosa e a liberdade de consciência estão em falta!”.
Outro motivo de aflição apontado pelo Papa é o contratestemunho e os escândalos de alguns filhos e ministros da Igreja através do flagelo dos abusos e da infidelidade.
“Desde há vários anos que a Igreja está seriamente empenhada em erradicar o mal dos abusos”, disse o Pontífice, que salientou o facto de haver “homens consagrados a cometer abomínios” e, ao mesmo tempo, continuar “a exercer o seu ministério como se nada tivesse acontecido, não temendo a Deus nem o seu juízo, mas apenas ser descobertos e desmascarados”.
Como o rei David – ungido do Senhor – apesar de ser eleitos, cometem um triplo pecado, isto é três graves abusos juntos: o abuso sexual, o abuso de poder e o abuso de consciência. A história começa quando o rei, apesar de ser especialista em guerra, fica em casa ocioso em vez de ir para o meio do povo de Deus em batalha. Aproveita, por sua conveniência e interesse, o facto de ser o rei (abuso de poder), para se abandonar ao conforto (começa o declínio moral e de consciência), contexto em que, do terraço do palácio, vê a esposa de Urias a tomar banho e sente atração por ela. Manda-a vir até junto de si e une-se com ela (abuso de poder e abuso sexual). E, para encobrir o seu pecado, manda que Urias regresse da batalha a casa e tenta em vão convencê-lo a passar a noite com a esposa. Como o seu intento não resultou, manda que o chefe do exército exponha Urias a morte certa na frente da batalha (abuso de poder, abuso de consciência). Assim, a cadeia do pecado se rapidamente espalha e se transforma em rede de corrupção. Mas ele ficou em casa para ocioso. Das faíscas de preguiça e luxúria e da redução da guarda, começa a cadeia diabólica de pecados graves: adultério, mentiras e assassinato. Assumindo-se, sendo rei, como capaz de fazer tudo e obter tudo, David tenta enganar o marido de Betsabé, o povo, a si mesmo e a Deus. Negligenciando o relacionamento com Deus, transgride os mandamentos divinos e fere a sua integridade moral – sempre sem se sentir culpado. E o ungido continua a exercer a sua missão como se nada tivesse acontecido. Só lhe importa salvaguardar a imagem e a aparência. E o Papa, vendo em David a imagem dos ungidos abusadores, comentou:
Aqueles que não percebem que estão a cometer sérios delitos contra a Lei de Deus podem incorrer numa espécie de atordoamento ou torpor. Como não encontram nada grave para se recriminarem, não sentem a indiferença que pouco a pouco está a apoderar-se de si, tomando posse da sua vida espiritual e acabam por se encouraçar e corromper (Exortação Apostólica Gaudete et exsultate, 164). De pecadores acabam por se tornar corruptos.
Mas avisou:
 Fique claro que a Igreja, perante estes abomínios, não poupará esforços fazendo tudo o que for necessário para entregar à justiça toda a pessoa que tenha cometido tais delitos. (...) Esta é a opção e a decisão de toda a Igreja.”.
A propósito, citou o encontro agendado para fevereiro próximo, no Vaticano, com todos os presidentes das Conferências Episcopais, para reiterar a vontade da Igreja de prosseguir pelo “caminho da purificação”, tal como agradeceu o trabalho dos jornalistas “que foram honestos e objetivos e que procuraram desmascarar estes lobos e dar voz às vítimas”. E exortou:
Por favor, ajudemos a Santa Mãe Igreja na sua tarefa difícil, que é reconhecer os casos verdadeiros distinguindo-os dos falsos, as acusações das calúnias, os rancores das insinuações, os boatos das difamações”.
Aos abusadores, pediu conversão, autoentrega à justiça humana e preparação para a divina.
Outra aflição apontada por Francisco é a da infidelidade. É a das pessoas que “traem a sua vocação, o seu juramento, a sua missão, a sua consagração a Deus e à Igreja; dos que se escondem, por detrás de boas intenções” (de boas intenções está o inferno cheio, disse o Papa citando o provérbio popular) “para apunhalar os seus irmãos e semear joio, divisão e perplexidade; e das pessoas que sempre encontram justificações, até lógicas e espirituais, para continuar a percorrer, imperturbáveis, o caminho da perdição”.
Ora, para fazer resplandecer a luz de Cristo, o Papa recorda que todos temos o dever de combater a “corrupção espiritual”. E destaca o exemplo dos mártires e dos muitos bons samaritanos: muitos jovens, famílias, movimentos de caridade e voluntariado, fiéis e consagrados.

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Francisco deixou para o final do seu discurso os motivos de alegrias, em que destacou “o bom êxito do Sínodo dedicado aos jovens” e “os passos realizados até agora na reforma da Cúria”, alguns dos quais são os trabalhos de clarificação e transparência na economia”. Mas também são motivos de alegrias os novos Beatos e Santos, de modo especial os recentes 19 mártires da Argélia. Acrescenta-se o aumento do número de fiéis, as famílias e os pais que seriamente vivem a fé e a transmitem diariamente aos próprios filhos e o testemunho de muitos jovens que escolhem “corajosamente” a vida consagrada e o sacerdócio. E “um verdadeiro motivo de alegria é também o grande número de consagrados e consagradas, bispos e sacerdotes, que vivem diariamente a sua vocação com fidelidade, em silêncio, na santidade e abnegação” – pessoas que “iluminam a escuridão da humanidade, com o seu testemunho de fé, esperança e caridade”. E o Papa Bergoglio especifica:
São […] pessoas que, por amor de Cristo e do seu Evangelho, trabalham pacientemente a favor dos pobres, oprimidos e marginalizados, sem procurar aparecer nas primeiras páginas dos jornais nem ocupar os primeiros lugares. Pessoas que, deixando tudo e oferecendo a sua vida, levam a luz da fé aonde Cristo está abandonado, sequioso, faminto, preso e nu (cf Mt 25,31-46). E penso de modo particular nos numerosos párocos que dia a dia dão bom exemplo ao povo de Deus, sacerdotes próximos das famílias, que conhecem o nome de todos e vivem a sua vida com simplicidade, fé, zelo, santidade e caridade. Pessoas esquecidas pelos mass media, mas sem as quais reinaria a escuridão.”.
O Santo Padre recordou que a força de toda e qualquer instituição não reside em ser composta por homens perfeitos, mas na sua vontade de se purificar continuamente, pelo que declarou:
É necessário abrir o nosso coração à verdadeira luz: Jesus Cristo. Ele é a luz que pode iluminar a vida e transformar as nossas trevas em luz”.
E concluiu com uma mensagem de esperança, recordando que o Natal dá a certeza de que “a Igreja sairá destas tribulações ainda mais bela, purificada e esplêndida” e dizendo a propósito:
Cada ano, o Natal dá-nos a certeza de que a luz de Deus, não obstante a nossa miséria humana, continuará a brilhar; a certeza de que a Igreja sairá destas tribulações ainda mais bela, purificada e esplêndida. Com efeito, todos os pecados, as quedas e o mal cometido por alguns filhos da Igreja não poderão jamais obscurecer a beleza do seu rosto; antes, são a prova certa de que a sua força não se encontra em nós, mas está sobretudo em Cristo Jesus, Salvador do mundo e Luz do universo, que ama a Igreja e deu a sua vida por ela, sua esposa. O Natal prova que os graves males cometidos por alguns não poderão jamais ofuscar todo o bem que a Igreja faz gratuitamente no mundo. O Natal dá-nos a certeza de que a verdadeira força da Igreja e do nosso trabalho diário, tantas vezes escondido como o da Cúria – nela há santos –, está no Espírito Santo que a guia e protege através dos séculos, transformando até os pecados em ocasiões de perdão, as quedas em ocasiões de renovamento, o mal em ocasião de purificação e vitória.”.
***
Greg Burke, diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, comentou este discurso do Pontífice, apontando-o como uma espécie de preparação para a reunião de fevereiro sobre a proteção dos menores, pois, Francisco falou dos abusos e não usou meias palavras, frisando que os sacerdotes abusadores fazem parte de uma rede de corrupção, são lobos que devoram almas inocentes”, e fez menção explícita dessa reunião.
E poderia ter frisado que o Papa disse que o combate aos abusos era ação de toda a Igreja, que estará representada na reunião de fevereiro peso presidentes das conferências episcopais do mundo inteiro.
Depois, Greg Burke sublinhou o facto de o Santo Padre ter elogiado o trabalho dos jornalistas”, agradecendo aos que foram honestos e objetivos na descoberta dos casos de padres predadores e em dar voz às vítimas.
E registou, no seu comentário, as linhas-mestras do discurso: tempestades e furacões; aflições; e alegrias – não deixando de relevar o sentido espiritual e pastoral do Natal.
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Por fim, atentemos no drama problemático do primeiro Natal, como o retrata Francisco:
Jesus, na realidade, nasce em uma situação sociopolítica e religiosa cheia de tensão, agitação e obscuridade. O seu nascimento, de um lado aguardado e do outro rejeitado, resume a lógica divina que não se detém diante do mal, antes o transforma radical e gradualmente em bom, e a lógica maligna que transforma até o bem em mal, para fazer com que a humanidade permaneça em desespero e escuridão: “a luz brilha nas trevas, mas as trevas não a receberam.” (Jo 1,5).
E as certezas salvíficas que nos dá o Natal:
O Natal é a festa que nos enche de alegria, dando-nos a certeza de que jamais pecado algum será maior que a misericórdia de Deus e nunca poderá qualquer ato humano impedir à aurora da luz divina de despontar sempre de novo nos corações dos homens; é a festa que nos convida a renovar o compromisso evangélico de anunciar Cristo, Salvador do mundo e luz do universo. De facto, enquanto Cristo, ‘santo, inocente, imaculado (Heb 7,26), não conheceu o pecado (cf 2Cor 5,21), mas veio apenas expiar os pecados do povo (cf Heb 2,17), a Igreja, contendo pecadores no seu próprio seio, simultaneamente santa e sempre necessitada de purificação, exercita continuamente a penitência e a renovação. A Igreja ‘prossegue a sua peregrinação no meio das perseguições do mundo e das consolações de Deus’ [no meio das perseguições do espírito mundano e das consolações do Espírito de Deus], anunciando a cruz e a morte do Senhor até que Ele venha (cf 1Cor 11,26). Mas é robustecida pela força do Senhor ressuscitado, de modo a vencer, pela paciência e pela caridade, as suas aflições e dificuldades tanto internas como externas, e a revelar, velada mas fielmente, o seu mistério, até que, por fim, se manifeste em plena luz’ (Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. Lumen gentium , 8).”.
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É um discurso em que, ao invés dos anteriores, não se vislumbra um ponto de crítica endereçada ao interior da Cúria Romana. Talvez Francisco tenha assumido que ficara cumprido o dever de falar, que não valeria a pena insistir nas críticas ou que a reforma interna da Cúria vai no bom sentido, com pessoas escolhidas e mais aplicadas, e que pretende mobilizá-la em bloco e com a participação de cada um para reforma sempre in fieri da Igreja.    
2018.12.22 – Louro de Carvalho

quinta-feira, 12 de julho de 2018

Cardeal Tauran, o homem que anunciou Francisco Urbi et Orbi


Ocorreu, no Altar da Basílica de São Pedro, nesta quinta-feira, 12 de julho, às 10,45 horas, a celebração das exéquias por alma e em memória do Cardeal Jean-Louis Tauran, Titular da diaconia de Santo Apolinário nas Termas Neronianas-Alexandrinas. A Liturgia decorreu sob a presidência do cardeal Angelo Sodano, Decano do Colégio Cardinalício, junto com os cardeais, arcebispos e bispos. Além da presença do Papa, também foi notada a presença de Geneviève Dubert, irmã do cardeal, à qual o Pontífice enviou um telegrama de condolências há alguns dias.
No final da celebração eucarística, o Papa Francisco presidiu ao rito da Ultima Commendatio e da Valedictio.
O camerlengo da Santa Igreja Romana e presidente do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-Religiosoícone da promoção do diálogo, que tinha completado 75 anos em abril, faleceu em 5 de Julho em Hartford, nos Estados Unidos, após longa doença. Será sepultado na basílica de Santo Apolinário nas Termas neronianas-Alexandrinas, da qual era titular.
Ao recordar o “inesquecível” cardeal francês, Angelo Sodano disse “foi um irmão” que serviu “corajosamente a Santa Igreja de Cristo”, apesar do “peso da sua doença”.
“No Evangelho, Jesus – explicou Sodano, como refere o Vatican News – recordou-nos quais são as verdadeiras bem-aventuranças do cristão”. Na verdade, “é comovedor ouvir-lhe proclamar estas bem-aventuranças na nossa Igreja: Bem-aventurados os pobres de espírito. Bem-aventurados os mansos, bem-aventurados os puros de coração, bem-aventurados os que promovem a paz”.
E o presidente da Liturgia, frisando que foi “testemunha por muitos anos do grande espírito apostólico do cardeal Tauran”, enfatizou que “são bem-aventuranças que iluminaram toda a vida” do eminente purpurado “como estrelas luminosas no seu caminho”.
Mais o Decano do Sacro Colégio Cardinalício evidenciou que o cardeal Tauran era “uma grande figura” de sacerdote, bispo e cardeal, que “dedicou, como muitos, a sua vida ao serviço da Santa Sé, da Igreja e nos últimos anos particularmente ao diálogo com todos os homens de boa vontade”. Desta maneira, seguiu a linha traçada pelo Concílio Ecuménico Vaticano II no compromisso – segundo a Gaudium et spes – da fraternidade universal (com efeito, todos somos irmãos), a qual nos leva à consciência clara de que, “chamados pela mesma vocação humana e divina”, podemos e devemos cooperar pacificamente, “sem violência, nem engano” na edificação “do mundo na verdadeira paz”.
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Para recordar o cardeal Tauran, o Cardeal espanhol Santos Abril y Castelló, ligado por uma profunda amizade com o cardeal francês, aceitou ser entrevistado por Hélène Destombes, do que se registam as seguintes palavras:
A minha recordação do cardeal Tauran é verdadeiramente uma recordação de amizade e lamentação pelo facto de ele nos ter deixado. Ultimamente, eu via-o evidentemente enfraquecido. Mas mesmo neste período, ele colocava o seu dever em primeiro lugar: o de procurar aproximar as posições com o mundo das outras religiões, especialmente com o Islão. E ele fazia isso com um grande sentido de respeito para com todos, de grande competência e com uma grande capacidade de diálogo, de propor possíveis soluções. Ele fez tudo isso também com grande sacrifício, porque a sua saúde era muito fraca nos últimos tempos: ele percebia que não estava nas condições ideais para continuar o magnífico trabalho que estava fazendo para a Igreja.”.
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É abundante e polifacetada a folha de valorização e serviço que transparece da sua biografia como se pode ver pelo Observador on line, a 6 de julho, e pela  Wikipédia – enciclopédia livre.
O Cardeal Jean-Louis Pierre Tauran, que em 13 de março de 2013, foi encarregado, por ser o cardeal protonotário, de vir à varanda principal da Basílica de São Pedro proclamar o pregão “Annuntio vobis gaudium magnum, Habemus Papam” e dizer, a seguir, o nome do Cardeal Mario Georgio Bergoglio, que assumiu o nome papal de Francisco, nasceu em Bordéus, a 5 de abril de 1943, era o presidente do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso e camerlengo da Câmara Apostólica.
O seu nome de batismo é Louis-Pierre e o prenome é Jean. Recebeu o sacramento da confirmação em 5 de junho de 1955, das mãos de Paul-Marie-André Ricchau, Arcebispo de Paris e futuro cardeal.
Estudou na Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma, onde se licenciou em Filosofia e Teologia e se doutorou, em 1973, em Direito Canónico, e no Instituto Católico de Toulouse. Também estudou na Pontifícia Academia Eclesiástica, em Roma. Além do francês como língua materna, falava correntemente espanhol, inglês e italiano.
Ordenado presbítero, aos 26 anos, em 20 de setembro de 1969, em Bordéus, pelo Arcebispo de Bordéus Marius Maziers – não sem antes ter sido professor num colégio do Líbano, aos 21/22 anos, como forma de cumprir o serviço militar – tornou-se pároco na sua Arquidiocese, após o que ingressou no serviço diplomático da Santa Sé em 1975, passando trabalhar em definitivo para a Cúria Romana. Foi secretário da Nunciatura, na República Dominicana, entre 1975 e 1978 e secretário da Nunciatura no Líbano, entre 1979 e 1983.
Integrou o Conselho para os Assuntos Públicos da Igreja a partir de julho de 1983. Participou em missões especiais no Haiti, de 1984, e Beirute e Damasco, em 1986. Foi membro da delegação da Santa Sé para as reuniões da Conferência sobre Segurança e Cooperação Europeia, Conferência sobre o Desarmamento, em Estocolmo, na Suécia, e no Fórum Cultural em Budapeste, na Hungria, e sucessivas reuniões em Viena.
Eleito Arcebispo-titular de Telepte e nomeado subsecretário da Secretaria de Estado para as Relações com os Estados (tornando-se o titular da secção dois anos depois – uma espécie de ministro das Relações Exteriores do Papa), a 1 de dezembro de 1990, foi-lhe conferida a ordenação episcopal em 6 de janeiro de 1991, na Basílica de São Pedro, por João Paulo II, sendo coordenantes por Giovanni Battista Re, Arcebispo-titular de Vescovio, substituto da Secretaria de Estado, secção de Assuntos Gerais, e Justin Francis Rigali, Arcebispo-titular de Bolsena, secretário da Congregação para os Bispos. Adotou o lema episcopal Veritate et caritate” (Pela verdade e pela caridade).
É naquela função na Secretaria de Estado que Tauran acabou se torna perante do mundo a voz e o rosto da firme oposição do Papa à Guerra do Iraque no início dos anos 2000. Para Tauran, dar início ou não à guerra era fazer “uma escolha entre a força da lei e a lei da força”. E disse:


Nenhuma regra do direito internacional autoriza um ou mais Estados a recorrer unilateralmente ao uso da força para mudar o regime ou a forma do governo de outro Estado com base na alegação, por exemplo, de que possui armamento de destruição em massa”.
Enfrentou, pois, George W. Bush com ferrenha oposição, dialogou com líderes religiosos do mundo todo e foi o responsável por anunciar uma das notícias mais esperadas da última década.
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Criado cardeal-diácono no consistório de 21 de outubro de 2003, recebeu o barrete e a diaconia de Santo Apolinário nas Termas Neronianas-Alexandrinas. Dois dias depois, a 24 de novembro de 2003, foi nomeado Arquivista e Bibliotecário da Santa Igreja Romana, cargo que exerceu até 25 de junho de 2007 e para o qual acabou de ser designado o português Dom José Tolentino de Mendonça, Arcebispo-Titular eleito de Sauva.
Como representante do Papa participou na inauguração do novo Museu do Holocausto  Yad Vashem, a 15 de março de 2005, em Jerusalém. E, nesse mesmo ano, foi o enviado especial do Papa às celebrações centrais do Extraordinário Ano Jubilar da Diocese de Le Puy-en-Velay, na França, ocorrido a 29 de maio, na Basílica Catedral de Notre Dame du Puy. Participou, por nomeação papal, na X Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, na Cidade do Vaticano, de 2 a 23 de outubro de 2005. Nomeado presidente do Conselho Pontifício para o Diálogo Inter-religioso a 25 de junho de 2007, assumiu o cargo em 1 de setembro de 2007.
Este cargo colocava-o na linha da frente do diálogo com o mundo islâmico. Falou várias vezes em defesa dos cristãos nos países muçulmanos e criticou o facto de, em alguns países árabes, os não-muçulmanos serem tratados como cidadãos de segunda.
Esteve recentemente na Arábia Saudita, donde voltou, como se diz adiante, com uma importante conquista para os muitos cristãos – sobretudo expatriados – que vivem naquele reino, nomeadamente o direito a praticarem a sua religião, o que até então lhes estava vedado.
Participou na XII Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, na Cidade do Vaticano, entre 5 a 26 de outubro de 2008, sobre “A Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja”.
Foi o enviado especial do Papa às cerimónias conclusivas do Ano Paulino em 29 de junho de 2009, na Turquia. Participou na II Assembleia Especial para a África do Sínodo dos Bispos, de 4 a 25 de outubro de 2009, na Cidade do Vaticano, sobre o tema “A Igreja na África, ao serviço da reconciliação, da justiça e da paz: Vós sois o sal da terra, você é a luz do mundo”. Foi o enviado especial do Papa para a celebração do milénio da Abadia de Saint-Pierre de Solesmes, na França, ocorrido em 12 de outubro de 2010. Participou na II Assembleia Especial para o Oriente Médio do Sínodo dos Bispos, de 10 a 24 de outubro de 2010, na Cidade do Vaticano, como membro eleito do Conselho Especial para o Oriente Médio da Secretaria Geral do Sínodo dos Bispos, 23 de outubro de 2010. Em 23 de novembro de 2010, ele recebeu o doutoramento honoris causa do Institut Catholique de Paris. Confirmado pelo Papa Bento XVI no ofício do cardeal protodiácono no consistório de 21 de fevereiro de 2011, há vários anos que sofria do que foi diagnosticado como o mal de Parkinson. Apesar disso, a 19 de junho de 2012, foi confirmado por 5 anos como presidente do Conselho Pontifício para o Diálogo Inter-religioso.
Como cardeal-protodiácono foi ele quem anunciou ao mundo a eleição do novo Papa e o seu nome papal, no termo do Conclave de 2013, como foi referido, e impôs o pálio sobre Francisco na inauguração do ministério petrino do pontífice em 19 de março de 2013.
Em 15 de abril de 2013, foi nomeado enviado especial do Papa às celebrações do quarto centenário da chegada do ícone da Virgem Maria em Budslau, na Bielorrússia, ocorrido em 5 e 6 de julho de 2013, no Santuário Nacional, que se encontra no território da Arquidiocese de Minsk-Mohilev. A 26 de junho de 2013, o Papa nomeou-o membro da Pontifícia Comissão Relativamente ao Instituto para as Obras de Religião (Banco do Vaticano). A 24 de agosto de 2013, foi nomeado enviado especial do Papa às celebrações do primeiro centenário da Arquidiocese de Lille, na França, que tiveram lugar em 26 e 27 de outubro de 2013. Foi confirmado como membro da Congregação para os Bispos em 16 de dezembro de 2013.
A 12 de junho de 2014, passou para a ordem de  cardeais-presbíteros, mantendo o seu título pro hac vice. E, a 20 de dezembro de 2014, Francisco nomeou-o Camerlengo da Santa Igreja Romana, sendo, nesta condição, o responsável pela administração das propriedades e receitas da Santa Sé e devendo assumir as responsabilidades de Chefe de Estado do Vaticano entre a morte ou resignação de um Papa e a eleição de outro.
A sua última viagem em nome da Santa Sé, em abril, foi uma visita de oito dias à capital saudita, Riad, onde se encontrou com o rei Salman bin Abdulaziz e com o secretário-geral da Liga Muçulmana Mundial, o sheik Mohammed Al-Issa. Foi a primeira visita dum cardeal ao país em que ficam os dois grandes santuários do Islão, Meca e Medina. Na pátria do wahabismo, uma das correntes mais fundamentalistas do islão, o Cardeal fez discursos corajosos, pedindo que os cristãos “não sejam considerados cidadãos de segunda classe” e apostando na educação como caminho para o diálogo e a tolerância.
Esta viagem a Riad, já bastante debilitado, constituiu um marco para as relações entre a Igreja e o mundo muçulmano. Nela sustentou que a ameaça não provém do “choque de civilizações”, mas do “choque de ignorâncias e radicalismos”. Assim, defendia que “a religião pode ser proposta, mas jamais imposta”. E, numa entrevista em dezembro do ano passado, explicou como ele e a Santa Sé viam com apreço o recurso ao diálogo:
Nós cremos que, no fundo, não obstante as posições que às vezes possam parecer distantes, é necessário promover espaços de diálogo sincero. Apesar de tudo, estamos convencidíssimos de que se pode viver juntos.”.
Dizia ele que frequentemente “é a ignorância que fundamenta o medo”. E assinalava a verificação de que “a maior parte dos europeus nunca teve um encontro com um muçulmano nem nunca abriu o Corão” e que “o contrário também é verdade: muitos muçulmanos jamais abriram a Bíblia”. E com este espírito de diálogo movia-se na Cúria Romana, sem intriguismos, pois nem tinha tempo para isso. E assegura o vaticanista Andrea Tornielli que “deu o exemplo de como se serve ao papa na Cúria Romana, sem protagonismos, fazendo sempre presentes as próprias objeções e sugestões, sem nunca as vazar em blogs ou entrevistas”.
(cf https://www.semprefamilia.com.br/acreditamosnoamor/quem-foi-o-cardeal-jean-louis-tauran-icone-da-promocao-do-dialogo/)
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No telegrama de condolências enviado à irmã do cardeal, o Papa disse que Tauran “marcou profundamente a vida da Igreja universal”. Era, pois, “um conselheiro ouvido e apreciado, nomeadamente graças às relações de confiança e estima que construiu com o mundo muçulmano”. E Francisco elogiou-lhe o sentido de serviço e “amor pela Igreja”, confessando-se “emocionado” pelo modo como soube “servir corajosamente a Igreja de Cristo até ao fim, apesar do peso da doença” (agência Ecclesia).
Como dizia o Papa em Fátima, o doente não é só objeto do cuidado da parte dos demais, mas é também à sua medida um cuidador, um evangelizador.
É motivo de ação de graças a vida deste servidor da Igreja e do mundo. Laus Deo!
2018.07 – Louro de Carvalho


quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Falar da Cúria Romana ad extra

No encontro com os membros da Cúria Romana para a apresentação dos votos natalícios na Sala Clementina, a 21 de dezembro de 2017, o Papa quis falar da atividade da Cúria Romana. 
Porém, reconhecendo ser muito ampla essa atividade, desta vez, optou por falar, ainda que genericamente da Cúria ad extra, selecionando alguns aspetos fundamentais, “a partir dos quais não será difícil, no futuro próximo, elencar e aprofundar os outros campos” da sua ação.
***
No quadro da Cúria e a relação com as Nações, salientou o “papel fundamental” que “a Diplomacia Vaticana” exerce na “busca sincera e constante de tornar a Santa Sé construtora de pontes, de paz e de diálogo entre as nações”. É “uma Diplomacia ao serviço da humanidade e do homem, da mão estendida e da porta aberta”, que se esforça por “escutar, entender, ajudar, assinalar e intervir pronta e respeitosamente em qualquer situação para colmar distâncias e tecer confiança”, sendo o seu único interesse “permanecer livre de qualquer interesse mundano ou material”.
“Presente no cenário mundial”, a Santa Sé colabora “com todas as pessoas e as nações de boa vontade” e reitera “incessantemente a importância de preservar a nossa casa comum de todo o egoísmo destrutivo”; afirma a índole de morte e destruição das guerras; extrai, do passado, as lições necessárias que nos levam “a viver melhor o presente, a construir solidamente o futuro e a salvaguardá-lo para as novas gerações”. Como instrumento para a consecução destes objetivos, evidenciam-se “os encontros com os Chefes das nações e com as várias Delegações” e “as Viagens Apostólicas”. E foi por este motivo que se constituiu “a Terceira Secção da Secretaria de Estado”. Ou seja, esta Secção foi constituída “com a finalidade de demonstrar a solicitude e a proximidade do Papa e dos Superiores da Secretaria de Estado ao pessoal de quadro diplomático e também aos religiosos e religiosas, aos leigos e leigas que trabalham nas Representações Pontifícias”. É “uma Secção que se ocupa das questões atinentes às pessoas que trabalham no serviço diplomático da Santa Sé ou que para isso se preparam, em estreita colaboração com a Secção para os Assuntos Gerais e com a Secção para as Relações com os Estados.
Com efeito, o perfil da Secretaria de Estado inserido no site da Santa Sé dispõe o seguinte:
“O Papa Francisco constituiu a terceira Secção da Secretaria de Estado com a denominação de Secção para o pessoal com função diplomática da Santa Sé, reforçando o atual departamento do delegado para as Representações pontifícias […].
“A Secção, que dependerá do secretário de Estado, será presidida pelo delegado para as Representações pontifícias. […]. Terá a finalidade de demonstrar a atenção e a proximidade do Pontífice e dos superiores da Secretaria de Estado aos funcionários diplomáticos. Para tal finalidade o delegado para as Representações pontifícias poderá prever visitas às sedes das representações pontifícias com regularidade.
“A terceira Secção ocupar-se-á exclusivamente das questões atinentes às pessoas que trabalham no serviço diplomático da Santa Sé ou que se preparam para isto, como por exemplo a seleção, a formação inicial e permanente, as condições de vida e de serviço, as promoções, as autorizações.
“No exercício destas funções gozará da justa autonomia e, ao mesmo tempo, procurará estabelecer uma estreita colaboração com a Secção para os Assuntos gerais, que continuará a ocupar-se das questões gerais das representações pontifícias, e com a Secção para as Relações com os Estados, que se ocupará dos aspetos políticos do trabalho das representações pontifícias. Neste sentido, o delegado para as Representações pontifícias participará, juntamente com o substituto para os Assuntos gerais e o secretário para as Relações com os Estados, nas reuniões semanais de coordenação presididas pelo Secretário de Estado. Além disso, ele convocará e presidirá às reuniões ad hoc para a preparação das nomeações dos representantes pontifícios. Por fim, será responsável, juntamente com o presidente da Pontifícia Academia Eclesiástica, no que diz respeito à seleção e à formação dos candidatos.”.
Esta particular solicitude da Cúria e da terceira Secção baseia-se, segundo o Pontífice, “na dúplice dimensão do serviço do pessoal diplomático de quadro: pastores e diplomatas, ao serviço das Igrejas particulares e das nações onde trabalham”.
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Quanto à relação da Cúria com as Igrejas particulares – as dioceses e as eparquias – o Papa entende ser esta uma relação “de primordial importância”, pois, trata-se de uma relação baseada “na colaboração, na confiança e nunca na superioridade ou na contrariedade”. Na verdade, as Igreja particulares encontram na Cúria “o apoio e suporte necessários de que possam precisar”. A fonte desta relação está patente “no Decreto conciliar sobre o ministério pastoral dos Bispos” (o Christus Dominus), “onde se explica mais amplamente que o trabalho da Cúria é um trabalho realizado para bem das Igrejas e em serviço dos sagrados pastores”.
Assim, a Cúria tem como ponto de referência, além do Bispo de Roma, “de quem recebe a autoridade, “as Igrejas particulares e os seus pastores em todo o mundo, para cujo bem trabalha e atua”. Por isso, é recorrente a referência de Francisco, nos encontros anuais com a Cúria, a esta sua “caraterística de serviço ao Papa e aos Bispos, à Igreja universal, às Igrejas particulares e ao mundo inteiro”. Logo no primeiro desses encontros, assinalou que, “na Cúria romana, de um modo especial aprende-se, ‘respira-se’ esta dupla dimensão da Igreja, esta interpenetração entre universal e particular”, tendo acrescentado pensar que esta “seria uma das mais belas experiências de quem vive e trabalha em Roma”.
Neste âmbito, destacou “as visitas ad limina Apostolorum” como “uma grande oportunidade de encontro, diálogo e enriquecimento mútuo”. É por isso que prefere, no encontro com os Bispos, “um diálogo de escuta mútua, diálogo livre, reservado, sincero, que ultrapassa os esquemas protocolares e a troca habitual de discursos e recomendações”. E pensa ser importante “o diálogo entre os Bispos e os vários Dicastérios”. A este respeito, revelou que, ao “retomar as visitas ad limina depois do Ano do Jubileu”, os Bispos lhe confidenciaram terem sido “bem acolhidos e atendidos por todos os Dicastérios”, o que o deixa feliz e grato aos Chefes de Dicastério”.
Foi ainda no quadro das relações da Cúria com as Igrejas locais que chamou a atenção de todos “para a próxima XV Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, convocada sobre o tema Os jovens, a fé e o discernimento vocacional”.  A este respeito, esclareceu que “chamar a Cúria, os Bispos e toda a Igreja a prestar atenção especial à pessoa dos jovens não significa apenas pôr neles os olhos, mas também concentrar-se num tema nodal para um complexo de relações e urgências: as relações intergeracionais, a família, os campos da pastoral, a vida social...”. E, a propósito, citou o Documento preparatório, que diz na sua introdução:
A Igreja decidiu interrogar-se sobre o modo de acompanhar os jovens a reconhecer e a acolher a chamada ao amor e à vida em plenitude, e também pedir aos próprios jovens que a ajudem a identificar as modalidades hoje mais eficazes para anunciar a Boa Notícia. Através dos jovens, a Igreja poderá ouvir a voz do Senhor que ressoa inclusive nos dias de hoje. Assim como outrora Samuel (cf 1Sm 3,1-21) e Jeremias (cf Jr 1,4-10), existem jovens que sabem vislumbrar aqueles sinais do nosso tempo, apontados pelo Espírito. Ouvindo as suas aspirações, podemos entrever o mundo de amanhã que vem ao nosso encontro e os caminhos que a Igreja é chamada a percorrer.”.
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Sobe a relação da Cúria com as Igrejas Orientais, o Papa salienta como “exemplo concreto de riqueza na diversidade para toda a Igreja” a notável unidade e comunhão, “que caraterizam a relação entre a Igreja de Roma e as Igrejas Orientais. Na verdade, elas “experimentam e realizam a Oração Sacerdotal de Cristo” (cf Jo 17) “na fidelidade às suas próprias Tradições bimilenárias e na ecclesiastica communio”.
E o Bispo de Roma referiu que foi neste sentido que, “no último encontro com os Patriarcas e Arcebispos-Mores das Igrejas Orientais, ao falar do primado diaconal”, vincou a “importância de aprofundar e rever a delicada questão da eleição dos novos Bispos e Eparcas, que deve corresponder à autonomia das Igrejas Orientais e, ao mesmo tempo, ao espírito de responsabilidade evangélica e ao desejo de fortalecer cada vez mais a unidade com a Igreja Católica”. Assim, realizada “na mais convicta aplicação daquela autêntica prática sinodal, que é distintiva das Igrejas do Oriente”, Francisco lembrou que “a eleição de cada Bispo deve refletir e fortalecer a unidade e a comunhão entre o Sucessor de Pedro e todo o Colégio Episcopal”.
Mais salientou que “a relação entre Roma e o Oriente é de mútuo enriquecimento espiritual e litúrgico”. De facto, segundo o Papa, “a Igreja de Roma não seria verdadeiramente católica sem as riquezas inestimáveis das Igrejas Orientais e sem o testemunho heroico de muitos dos nossos irmãos e irmãs orientais que purificam a Igreja, aceitando o martírio e dando a sua vida para não renegar a Cristo”.
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No atinente à Cúria na relação com o diálogo ecuménico, Francisco frisa que “há espaços onde está particularmente empenhada a Igreja Católica, especialmente depois do Vaticano II”, entre os quais se inclui “a unidade dos cristãos que é uma exigência essencial da nossa fé, uma exigência que brota do íntimo do nosso ser crentes em Jesus Cristo”. E, embora se trate de um caminho, “é um caminho irreversível e não em inversão de marcha”. A este respeito, assegurou:
Gosto de repetir que a unidade se faz caminhando, para recordar que, quando caminhamos juntos, ou seja, quando nos encontramos como irmãos, rezamos juntos, colaboramos juntos no anúncio do Evangelho e no serviço aos últimos, já estamos unidos. Todas as divergências teológicas e eclesiológicas que ainda dividem os cristãos serão superadas unicamente por este caminho, sem que nós saibamos como nem quando, mas isto acontecerá segundo aquilo que o Espírito Santo quiser sugerir para o bem da Igreja..
Nesta linha de caminhada, a Cúria trabalha “para favorecer o encontro com o irmão, desatar os nós das incompreensões e hostilidades e contrastar os preconceitos e o receio do outro que impediram de ver a riqueza da diversidade e na diversidade e a profundidade do Mistério de Cristo e da Igreja, que permanece sempre maior do que qualquer expressão humana”. E, neste contexto ecuménico, o Papa testemunha a sua alegria e gratidão pelos “encontros verificados com os Papas, os Patriarcas e os Chefes das várias Igrejas e Comunidades”.
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Em termos da relação da Cúria com o Judaísmo, o Islamismo, as outras religiões, diz o Papa Bergoglio que essa relação se baseia “na doutrina do Concílio Vaticano II e na necessidade do diálogo”. Com efeito, “a única alternativa à civilização do encontro é a incivilidade do conflito”. Porém, segundo o Pontífice, “o diálogo é construído sobre três diretrizes fundamentais: o dever da identidade, a coragem da alteridade e a sinceridade das intenções”. Pelo dever da identidade, sabemos que “não se pode construir um verdadeiro diálogo sobre a ambiguidade nem sobre o sacrifício do bem para agradar ao outro”; no âmbito da coragem da alteridade, sabemos que “quem é cultural ou religiosamente diferente, não pode nem deve “ser visto e tratado como um inimigo, mas recebido como um companheiro de viagem, na genuína convicção de que o bem de cada um reside no bem de todos”; e, pela sinceridade das intenções, sabemos que “o diálogo, enquanto expressão autêntica do humano, não é uma estratégia para se conseguir segundos fins, mas um caminho de verdade, que merece ser pacientemente empreendido para transformar a competição em colaboração”.
A ilustrar a saúde d linha do diálogo inter-religioso, temos a evidência dos “encontros realizados com as autoridades religiosas nas diferentes viagens apostólicas e nos encontros no Vaticano”.
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Por fim, Francisco advertiu que “estes são apenas alguns aspetos, importantes mas não exaustivos, da atividade da Cúria ad extra”, que foram selecionados pela sua conexão com os temas “do primado diaconal, dos sentidos institucionais e das antenas emissoras e recetoras fiéis” aderentes aos organismos da Santa Sé.
E concluiu falando do Natal “como a festa da fé”. E, neste âmbito, frisou “que o Natal nos lembra que uma fé que não nos põe em crise é uma fé em crise”; que “uma fé que não nos faz crescer é uma fé que deve crescer”; que “uma fé que não nos questiona é uma fé sobre a qual nos devemos questionar”; que “uma fé que não nos anima é uma fé que deve ser animada”; e que “uma fé que não nos sacode é uma fé que deve ser sacudida”.
Nestes termos, a fé deve pôr-nos em crise, deve crescer, deve questionar-nos, deve animar-nos e mexer connosco. Deve passar da fé intelectual à fé que envolve “o coração, a alma, o espírito e todo o nosso ser. Deve permitir que Deus nasça “sempre de novo na manjedoura do coração” e deve permitir que a estrela de Belém nos guie precisamente “para o lugar onde jaz o Filho de Deus, não entre os reis e o luxo, mas entre os pobres e os humildes”. E, citando o livro “Il Pellegrino cherubico”, de Angelo Silesio, disse:
Depende apenas de ti: Ah, se o teu coração pudesse tornar-se uma manjedoura! Deus voltaria a nascer Menino na terra.”.
E, depois de renovar os votos natalícios mais calorosos a todos, deixou, como prenda de Natal, a versão italiana da obra “Je veux voir Dieu” (Quero ver Deus), do Beato Padre Maria Eugénio do Menino Jesus – “uma obra de teologia espiritual que nos fará bem a todos”, talvez não a lendo toda, mas procurando no índice aquilo que mais interessa ou de que mais se precisa. E anunciou que o Cardeal Piacenza fora tão generoso que, com o trabalho da Penitenciaria (nomeadamente de Mons. Nykiel), fez o livro “La festa del perdono” (A Festa do Perdão), em “resultado do Jubileu da Misericórdia” e o quis “oferecer de prenda”.
E, como já é recorrente neste Papa, pronunciou a bênção e pediu que rezassem por ele.
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Só gostaria que as nossas cúrias e os nossos serviços públicos escutassem discursos como estes que Francisco profere junto da Cúria Romana. Há tanto que mudar nas relações com os diferentes destinatários e com a diferenciação das situações, sem deixar de respeitar a dignidade de todos e de cada um.
Tanto a mudar, contra o carreirismo e pelo profissionalismo e modo de bem servir!

2017.12.28 – Louro de Carvalho