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sexta-feira, 20 de setembro de 2019

As 4 formas de proximidade que o Papa quer nos bispos e sacerdotes



As homilias da Missa a que Francisco presidiu em Santa Marta, no Vaticano, a 19 e 20 de setembro dirigem-se em especial aos ministros ordenados, sobretudo sacerdotes e bispos.
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No dia 19, o Pontífice advertiu para o facto de o ministério ser “um dom” e não uma função ou um pacto de trabalho. O ministro de Deus e da Igreja não é um funcionário cujo perfil é cumprir ordens superiores sem rosto, nem um empresário que põe e dispõe de tudo à sua vontade. É um trabalhador qualificado das vinhas e dos campos do Senhor, mas sem contrato estabelecido nos moldes usuais entre os homens, porque é enviado em missão como profeta, apóstolo e missionário. E esse envio é alicerçado no dom de Deus, o dom do Espírito Santo. Por isso, o sacerdote – bispo e/ou presbítero – é o fiel depositário do dom da profecia, do dom do sacerdócio, do dom da sabedoria da condução do povo de Deus.  
Ora, na homilia do dia 19, proferida diante dos muitos bispos e sacerdotes que concelebraram com ele, o Papa Francisco falou do dom do ministério e observou que, se e quando nos apropriamos do dom e o centralizamos em nós mesmos, tornamo-lo “uma função” e perde-se o coração do ministério episcopal ou presbiteral. E da falta de contemplação do dom nascem “todos os desvios que nós conhecemos”.
Convidando à reflexão a partir da 1.ª Carta de Paulo a Timóteo, proposta pela liturgia do dia, destacando a palavra “dom” e seguindo o conselho do apóstolo ao jovem discípulo, “Não descuides o dom da graça que tu tens”, o Papa Bergoglio vincou:
Não é um pacto de trabalho: ‘Eu devo fazer’, o fazer está em segundo plano; eu devo receber o dom e protegê-lo como dom e dali brota tudo, na contemplação do dom. Quando nós nos esquecemos disto, nos apropriamos do dom e o transformamos em função, perde-se o coração do ministério, perde-se o olhar de Jesus que olhou para todos nós e disse: ‘Segue-me’. Perde-se a gratuitidade.”.
O Santo Padre alertou para o risco de centralizarmos o ministério em nós mesmos e discorreu:
Desta falta de contemplação do dom, do ministério como dom, brotam todos aqueles desvios que nós conhecemos, dos piores, que são terríveis, aos mais quotidianos, que nos fazem centralizar o nosso ministério em nós mesmos e não na gratuitidade do dom e no amor por Aquele que nos deu o dom, o dom do ministério.”.
Acentuando que é importante fazer, mas primeiramente contemplar e proteger, Francisco citou o apóstolo Paulo para recordar que o dom é “conferido mediante uma palavra profética com a imposição das mãos por parte dos presbíteros” e que vale para os bispos, mas também “para todos os sacerdotes”. E destacou “a importância da contemplação do ministério como dom e não como função”. Com efeito, como esclareceu, fazemos aquilo que podemos, com boa vontade, inteligência e “também com esperteza”, mas sempre para proteger este dom.
Porém, não se trata de o enterrar como fez o servo a quem o seu senhor confiou um talento, mas de valorizar o dom, preservá-lo, protegê-lo contra as arremetidas da dádiva, tais como o egoísmo, a autossuficiência, a devassidão, a mesquinhez. É preciso não esquecer que o dom do ministério é um carisma, ou seja, um dom de Deus, não para proveito próprio, mas para benefício da comunidade, pelo que se impõe a sua guarda, a fidelidade ao carisma e a disponibilidade para o serviço.
E o Pontífice reconheceu que esquecer a centralidade de um dom é algo humano e deu como exemplo o fariseu que, no Evangelho de Lucas, acolhe Jesus em sua casa, ignorando “as inúmeras regras de acolhimento”, ignorando os dons. Perante o olhar duvidoso e incrédulo do fariseu, Jesus faz-lhe notar isso, indicando a mulher que doa tudo aquilo que o anfitrião esqueceu: a água para os pés, o beijo do acolhimento e a unção da cabeça com o óleo.
Do fariseu disse Francisco:
Havia este homem que era bom, um bom fariseu, mas esqueceu o dom da cortesia, o dom do acolhimento, que também é um dom. Sempre se esquecem os dons quando há algum interesse por trás, quando eu quero fazer isto, fazer, fazer... Sim, devemos, os sacerdotes, todos nós devemos fazer coisas e a primeira tarefa é anunciar o Evangelho, mas protegê-lo, proteger o centro, a fonte, de onde brota esta missão, que é propriamente o dom que recebemos gratuitamente do Senhor.”.
Também os ministros são administradores do dom, mas não são empresários, pois não podem tomar decisões a bel-prazer ou segundo as regras do governo de empresa, muito menos segundo as leis de mercado. Por isso, a oração final de Francisco ao Senhor foi para que “nos ajude a proteger o dom, a ver o nosso ministério primeiramente como um dom, depois um serviço”, para não o arruinarmos e para “não nos tornarmos ministros empresários, ou simples executores” e tantas coisas que afastam da contemplação do dom e do Senhor, “que nos deu o dom do ministério”. Esta é uma graça que o Pontífice pediu para todos os presentes, mas especialmente para aqueles que festejam os 25 anos de ordenação.
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No dia 20, o Papa, frisando que o bispo deve estar próximo do povo de Deus para não cair em ideologias, pediu orações pelos sacerdotes e bispos, a quem exortou a quatro “formas” de proximidade. Os bispos devem estar próximos de Deus com a oração, próximos dos seus sacerdotes, próximos entre si e próximos do povo de Deus.
A reflexão papal foi inspirada nas leituras da Liturgia destes dois dias, concentrando-se nos conselhos que o apóstolo Paulo dá ao jovem bispo Timóteo: conselhos que prosseguem, depois, na segunda Carta.
No dia 19, no centro desses conselhos estava a exortação à vivência do ministério como um dom, ao passo que, no dia 20, o cerne da reflexão foi o dinheiro e a intriga, “os murmúrios, as discussões estúpidas” – coisas que enfraquecem a vida ministerial. E Francisco avisou que, se e quando um ministro – seja sacerdote, diácono ou bispo – começa a apegar-se ao dinheiro”, une-se à raiz de todos os males. E, evocando a passagem da 1.ª Carta a Timóteo (1Tm 6,2c-12), em que Paulo recorda que a avidez do dinheiro é a raiz de todos os males, o Santo Padre afirmou que “o diabo entra pelo bolso”, como diziam as velhinhas do seu tempo.
Depois, Francisco concentrou-se nos conselhos que o apóstolo dá a Timóteo e a todos os ministros nas duas cartas. São chamados a serem próximos não só os bispos, mas também os sacerdotes e os diáconos.
Antes de mais, o bispo “é um homem de proximidade com Deus”. E o Pontífice recordou que, quando os apóstolos, para melhor serviço das viúvas e órfãos, “inventaram” os diáconos, para explicar bem tudo isso, Pedro ressalta que “a nós” cabe “a oração e o anúncio da Palavra”. Assim ficamos a saber que “a primeira tarefa dum bispo é rezar”: rezar “dá força” e desperta “a consciência deste dom, que não devemos ignorar, que é o ministério”. O mesmo se deve dizer do sacerdote e do diácono: ativo, sim, mas sempre próximo de Deus pela oração.
A segunda proximidade à qual o bispo é chamado é a dos seus sacerdotes e diáconos, os seus colaboradores, que são os vizinhos mais próximos. Vincando que “é preciso amar primeiro o seu próximo, que são os seus sacerdotes e os diáconos”, o Papa observou:
É triste quando um bispo esquece os seus sacerdotes. É triste ouvir as lamentações de sacerdotes que dizem: ‘Liguei para o bispo, preciso de um encontro para dizer algo, e a secretária disse-me que está tudo lotado nos próximos três meses e não podia...’. Um bispo que sente esta proximidade dos sacerdotes, se sabe que um sacerdote ligou hoje, no máximo amanhã deveria chamá-lo, porque ele tem o direito de conhecer, de saber que tem um pai. Proximidade dos sacerdotes.
A pari, os sacerdotes e os diáconos devem estar e sentir-se próximos do seu bispo, cultivando a comunhão com ele e, por ele, com toda a Igreja.
Depois, os bispos devem estar próximos uns dos outros, estando em comunhão e apoiando-se. E os sacerdotes e os diáconos devem viver esta proximidade entre si, não as divisões. “O diabo entra ali para dividir o presbitério, para dividir” – avisou o Pontífice.
Assim, advertiu o Papa, começam os grupinhos que “dividem por ideologias”, “por simpatias”. Por fim, Francisco proclamou que a quarta proximidade é ao povo de Deus, frisando:
Na segunda Carta, Paulo começa por dizer a Timóteo que não se esqueça da sua mãe e da sua avó, isto é, que não se esqueça de onde ele saiu, de onde o Senhor o tirou. Não se esqueça do seu povo, não se esqueça das suas raízes! E agora, como bispo e como sacerdote, é preciso estar sempre perto do povo de Deus. Quando um bispo se afasta do povo de Deus, acaba numa atmosfera de ideologias que nada têm a ver com o ministério: não é um ministro, não é um servo. Esqueceu-se do dom, gratuito, que lhe foi dado.”.
Isto mesmo pode ser dito do sacerdote e do diácono que, mais do que estar perto do seu povo, pode querer incutir nele as suas ideias ou as ideias do grupo ideológico com que mais pensa identificar-se.
Em conclusão, o Papa voltou a pedir que não se esqueçam estas quatro “proximidades”, incluindo a do colégio episcopal e presbiteral: “a proximidade com Deus, a oração; a proximidade do bispo aos sacerdotes e dos sacerdotes com o bispo e dos sacerdotes entre si e dos bispos entre si, ou seja, a proximidade filial com Deus e fraternal ou paternal no bispo e nos sacerdotes”. E a “proximidade ao povo de Deus”. E exorta, com determinação, a rezar para que os bispos e os sacerdotes tenham essa proximidade, “com os seus líderes”: “aqueles que os conduzem pelo caminho da salvação”. “Teria a curiosidade de perguntar-vos”, continua o Papa, “se vós rezais pelos bispos ou se apenas os criticais”. E foi concreto ao interpelar a todos:
Vós rezais pelos vossos sacerdotes, pelo pároco, pelo vice-pároco, ou apenas os criticais? Devemos rezar pelos sacerdotes e pelos bispos, porque todos nós – o Papa é um bispo – saibamos conservar o dom, não negligenciar este dom que nos foi dado,-com esta proximidade.”.
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Por analogia e em comunhão com Espírito, também os leigos devem considerar a vocação batismal como um dom a proteger e a disponibilizar ao serviço dos outros apostolicamente. E devem cultivar estas quatro proximidades: com Deus pela oração; com o sacerdote e o bispo em comunhão eclesial hierárquica, usufruindo do carisma ministerial colocado em proveito de todos; a proximidade dentro do grupo familiar, amical ou apostólico; e a proximidade com toda a Igreja e com todos os homens, a começar pelos mais próximos e pelos que mais precisam.
2019.09.20 – Louro de Carvalho 

sexta-feira, 28 de junho de 2019

O problemático registo do clero e das atividades religiosas na China


Apesar do Acordo Provisório, de 22 de setembro de 2018, entre a Santa Sé e a República Popular da China, sobre a nomeação dos bispos, a relação do Estado com a comunidade católica apresenta graves fricções. Ainda há dias, a comunicação social denunciava que as autoridades impediram a celebração pública dos funerais dum bispo que falecera e que estava detido por via de sempre se ter recusado a aderir à Igreja Patriótica, sendo que o seu sucessor também está com residência fixa por idêntico motivo. Acresce que, para lá do que o Estado determina, outras entidades tomam iniciativas “não oficiais” que dificultam o exercício da atividade católica.
Recentemente, o Estado publicou nova regulamentação das atividades religiosas que implica o registo civil do clero e das atividades religiosas, a que deve ser aposta uma declaração escrita em como o requerente do registo se dispõe a aceitar, entre outras coisas, o princípio da independência, autonomia e autogestão da Igreja na China.
Perante a perplexidade de muitos clérigos, extensiva aos fiéis crentes, os bispos solicitaram à Santa Sé uma palavra de orientação sobre a atitude a tomar, dado que podem estar em conflito as exigências da fé e da unidade da Igreja e as do Estado chinês. E o Vaticano responde focando quatro pontos basilares: a tutela constitucional da liberdade religiosa; a interpretação da independência da Igreja na China não em sentido absoluto, mas no atinente à esfera política, nos termos do Acordo Provisório; o diálogo consolidado que enforma atualmente as relações entre a Santa Sé e a China; e o facto de muitos bispos ordenados sem mandato apostólico terem pedido e obtido a reconciliação com o sucessor de Pedro.
Assim, hoje, dia 28 de junho, a Santa Sé publicou o solicitado documento cujo teor é o seguinte (em tradução livre):
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Há algum tempo, os Bispos da China Continental apresentaram à Santa Sé uma orientação concreta sobre a atitude a tomar face à obrigação de requerer o registo civil do clero e das atividades religiosas. Com efeito, muitos Pastores estão profundamente perplexos porque a modalidade de tal registo – obrigatória de acordo com os novos regulamentações das atividades religiosas sob pena de não se poder agir pastoralmente – quase sempre envolve a assinatura dum documento em que, não obstante o compromisso das autoridades chinesas em respeitarem a doutrina católica, se deve declarar a aceitação, entre outras coisas, do princípio da independência, autonomia e autogestão da Igreja na China.
Face à complexidade da realidade chinesa e ao facto de não haver no país uma prática de aplicação única dos regulamentos para assuntos religiosos, torna-se particularmente difícil uma tomada de posição sobre o assunto. Por um lado, a Santa Sé não pretende forçar a consciência de ninguém; e, por outro, considera que a experiência da clandestinidade não faz parte da normalidade da vida da Igreja e que a história mostra que os pastores e os fiéis têm recorrido a ela apenas no desejo sofrido de manter intacta a fé (vd n. 8 da Carta de Bento XVI aos católicos chineses de 27 de maio de 2007). No entanto, a Santa Sé continua a exigir que o registo civil do clero ocorra com a garantia de respeito pela consciência e pelas profundas convicções católicas das pessoas envolvidas. Só assim, de facto, se promove a unidade da Igreja e o contributo dos católicos para o bem da sociedade chinesa.
No atinente à avaliação da eventual declaração que deve ser assinada no momento do registo, é de ter em conta que a Constituição da República Popular da China declara formalmente a proteção da liberdade religiosa (art.º 36.º) e que o Acordo Provisório, de 22 de setembro de 2018, reconhece o papel peculiar do Sucessor de Pedro – o que logicamente leva a Santa Sé a entender e a interpretar a “independência” da Igreja Católica na China não em sentido absoluto, isto é, como uma separação da Papa e da Igreja universal, mas na conexão com a esfera política, de acordo com o que sucede em todas as partes do mundo no quadro das relações entre o Papa e uma Igreja particular ou entre Igrejas particulares. Além disso, afirmar que na identidade católica não pode haver separação do Sucessor de Pedro não significa querer fazer duma Igreja particular um corpo estranho à sociedade e à cultura do país em que vive e atua. Depois, o contexto atual das relações entre a China e a Santa Sé, caraterizado por um diálogo consolidado entre as duas Partes, é diferente do que viu o nascimento de organizações patrióticas nos anos 50. Por fim, acresce o relevante facto de, ao longo dos anos, muitos bispos ordenados sem o mandato apostólico terem solicitado e obtido a reconciliação com o Sucessor de Pedro, para que todos os bispos chineses estejam em comunhão com a Sé Apostólica e desejem uma integração cada vez maior com os Bispos Católicos de todo o mundo.
Assim, é legítimo esperar uma nova atitude por parte de todos, mesmo quando se trata de questões práticas sobre a vida da Igreja. Por seu turno, a Santa Sé continua a dialogar com as autoridades chinesas sobre o registo civil de bispos e sacerdotes para encontrar uma fórmula que, no ato do registo, respeite não apenas as leis chinesas, mas também a doutrina católica.
Entretanto, à luz do acima exposto, se um Bispo ou um padre decidir registar-se civilmente e o texto da declaração para registo não parecer respeitoso para a fé católica, o declarante especificará por escrito, no momento da assinatura, que o faz sem prejuízo da fidelidade aos princípios da doutrina católica. Se não for possível fazer este esclarecimento por escrito, o requerente fá-lo-á verbalmente e, se possível, na presença de uma testemunha. Em qualquer caso, é aconselhável que o requerente certifique o seu Ordinário da intenção com que procedeu ao registo. Isto, na verdade, deve ser sempre entendido com o único propósito de favorecer o bem da comunidade diocesana e o seu crescimento no espírito de unidade, assim como uma evangelização adaptada às novas necessidades da sociedade chinesa e à gestão responsável dos bens da Igreja.
Ao mesmo tempo, a Santa Sé entende e respeita a escolha daqueles que, conscientemente, decidem não se registar nas condições atuais. Permanece perto deles e pede ao Senhor que os ajude a preservar a comunhão com os irmãos na fé, mesmo ante as provações que todos enfrentarão. Por sua vez, o Bispo, “nutra e manifeste publicamente a sua estima pelos presbíteros, demonstrando confiança e elogiando-os se o merecerem; respeite e faça respeitar os seus direitos e defenda-os contra críticas infundadas; dirima prontamente controvérsias para evitar que as inquietações prolongadas possam obscurecer a caridade fraterna e prejudicar o ministério pastoral” (Apostolorum Successores, Diretório para o ministério pastoral dos Bispos, 22 de fevereiro de 2004, n. 77).
É, pois, importante que os fiéis leigos não apenas compreendam a complexidade da situação acima descrita, mas também aceitem com grande entusiasmo a dolorosa decisão tomada pelos seus Pastores, seja ela qual for. Que a comunidade católica local os acompanhe com espírito de fé, com oração e com a afeição, abstendo-se de julgar as escolhas dos outros, guardando o vínculo da unidade e usando de misericórdia para com todos.
Em qualquer caso, à espera de um diálogo franco e construtivo entre as duas partes, conforme acordado, com vista a um modo de registo civil do clero mais respeitoso da doutrina católica e, por conseguinte, da consciência das pessoas envolvidas, a Santa Sé pede que as pressões intimidatórias “não oficiais” contra as comunidades católicas não sejam postas em prática, como infelizmente já tem acontecido.
Finalmente, a Santa Sé confia em que todos possam aceitar estas orientações pastorais como uma ferramenta para ajudar aqueles que se encontram a fazer escolhas difíceis, a realizá-las num espírito de fé e unidade. Todos – Santa Sé, bispos, sacerdotes, religiosos e fiéis leigos – são chamados a discernir a vontade de Deus com paciência e humildade nesta parte do caminho da Igreja na China, marcada por tantas esperanças, mas também por dificuldades duradouras.
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O documento responde às muitas perguntas que os bispos reiteradamente dirigiram ao Vaticano, que se reduzem ao seguinte:
Qual o comportamento adequado face ao pedido urgente de se inscrever no registo civil do clero segundo o estipulado por lei pelas autoridades políticas? O que fazer em relação ao dilema de consciência representado por alguns textos problemáticos para que é com frequência solicitada a assinatura?”.
Na sua resposta, a Santa Sé reafirma o princípio fundamental do respeito pela liberdade de consciência, pelo que ninguém pode ser obrigado a dar um passo que, indo contra a sua consciência, não tenha intenção de dar. Por outro lado, recorda o passo dado com o predito Acordo Provisório, de setembro de 2018, sobre a nomeação dos Bispos, que deu início a um novo caminho nas relações sino-vaticanas e levou ao importante resultado da plena comunhão de todos os bispos chineses com o Papa. Contudo, nem de longe foram ultrapassadas todas as dificuldades: o Acordo Provisório só representa o início dum percurso. E, entre as dificuldades subjacentes, conta-se a obrigação de os sacerdotes e bispos se registarem oficialmente junto das autoridades, como prescrito pela lei chinesa, apresentando o respetivo requerimento. Apesar do compromisso de querer encontrar uma solução aceitável e compartilhada, em várias regiões da República Popular da China, é exigido aos sacerdotes a subscrição de declaração cujos itens nem sempre são conformes com a doutrina católica, criando dificuldades de consciência, por exemplo, no atinente à aceitação do princípio de independência, autonomia, e autogestão da Igreja na China.
As Orientações Pastorais da Santa Sé para Bispos e sacerdotes face à exigência das autoridades governamentais para que se registem civilmente articulam a salvaguarda da doutrina católica e a liberdade de consciência com a resposta às necessidades da China e à de cooperar no bem comum daquela sociedade.
Assim, propõe-se o absoluto respeito pela liberdade de consciência de cada um, a proximidade e a compreensão da situação que atualmente as comunidades católicas vivem, algumas sugestões de escolhas de opções concretas que permitam ao clero chinês registar-se sem deixar de lado o que a Igreja Católica sempre acreditou sobre a comunhão com o Sucessor de Pedro.
Obviamente, o documento parte do olhar realista sobre a situação existente e as dificuldades ainda presentes, configura a intenção de ajudar os que se encontram na dúvida respeitando sempre a consciência de cada um na vivência dos sofrimentos, manifesta a vontade de contribuir para unidade dos católicos chineses e de favorecer o exercício público do ministério episcopal e sacerdotal para o bem dos fiéis. De facto, a clandestinidade, como escrevia Bento XVI na sua Carta (citada mais abaixo), “não pertence à normalidade da vida da Igreja” e esta Nota da Santa Sé deixa perceber a lei suprema da “salus animarum”, a salvação das almas, e a intenção de cooperar pela unidade das comunidades católicas chinesas, segundo um olhar evangélico que manifesta proximidade e compreensão pelo que viveram e estão a viver os católicos na China. Na verdade, a mensagem de Francisco,  de 26 de setembro de 2018, aos católicos chineses expressava, por parte do Papa, os “sentimentos de gratidão ao Senhor e de sincera admiração – que é a admiração de toda a Igreja Católica – pelo dom da vossa fidelidade, da constância na provação, da arraigada confiança na Providência de Deus, mesmo quando certos acontecimentos se revelaram particularmente adversos e difíceis”.
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É verdade que a situação atual é diferente da vivida nos anos Cinquenta, quando se originou a criação duma Igreja nacional chinesa separada de Roma. Hoje, pelo Acordo Provisório, as autoridades de Pequim reconhecem o papel peculiar do Bispo de Roma na escolha dos candidatos ao episcopado e tacitamente o seu múnus de Pastor da Igreja Universal; e a Santa Sé continua a trabalhar todas as declarações, solicitadas no âmbito do registo, a fim de serem consonantes não só com as leis chinesas, mas também com a doutrina católica e, portanto, aceitáveis para Bispos e sacerdotes. Assim, considerando a situação peculiar que vivem as comunidades cristãs no país e esperando superar definitivamente o problema, a Santa Sé sugere uma possível modalidade concreta para permitir à pessoa que se encontra em dúvida, com a intenção de se registar, que exprima as suas reservas. É uma sugestão que encaixa na rota inaugurada pela Carta aos Católicos da China publicada em maio de 2007 (já referida), em que Bento XVI reconhecia:
Em numerosos casos concretos, aliás quase sempre, no procedimento de reconhecimento intervêm organismos que obrigam as pessoas envolvidas a assumir posições, a realizar gestos e a assumir compromissos que são contrários aos ditames da sua consciência de católicos”.
E, considerando as dificuldades existenciais dos católicos, acrescentava:
Por isso, compreendo como nestas diversas condições e circunstâncias seja difícil determinar a escolha correta a ser feita. Por este motivo, a Santa Sé, depois de ter reafirmado os princípios, deixa a decisão a cada Bispo que, ouvido o seu presbitério, tem melhores condições para conhecer a situação local, para medir as concretas possibilidades de escolha e para avaliar eventuais consequências dentro da comunidade diocesana”.
Como se vê, já há 12 anos, o Papa mostrava compreensão e autorizava cada bispo a decidir pensando em primeiro lugar no bem das respetivas comunidades. E hoje a Santa Sé realiza uma ulterior etapa pastoral no caminho percorrido em contexto objetivamente diferente do passado.
Estas Orientações Pastorais sugerem a possibilidade de os Bispos e os sacerdotes pedirem, no momento da inscrição – o acréscimo, por escrito ou verbalmente, se possível com a presença de uma testemunha – da asserção de que independência, autonomia e autogestão da Igreja sejam entendidas sem deixar de lado a doutrina católica, ou seja, como independência política, autonomia administrativa e autogestão pastoral, como sucede com todas as Igrejas locais do mundo. E também instam a que o sacerdote informe imediatamente o respetivo Ordinário sobre a sua inscrição e as circunstâncias em que foi realizada. Por outro lado, quem não se queira registar nestas condições, não deve ser submetido a indevidas pressões.
Por fim, deve anotar-se que não há ingenuidade nestas Orientações pastorais. A Santa Sé está consciente dos limites e das “pressões intimidatórias” que sofrem muitos católicos chineses, mas quer mostrar que se pode olhar em frente e caminhar sem desvios dos princípios fundamentais da comunhão eclesial. É a solicitude papal que permite ancorar estas Orientações na esperança cristã seguindo o Espírito que leva a Igreja a escrever páginas novas aqui e agora.
Por outro lado, a China evidencia para a Igreja as consequências da incarnação do mistério eclesial na sociedade em que, a par dos sinais de Deus, emerge o mistério iniquidade a causar sofrimento ou a desviar os crentes da verdadeira rota. Foram também as tentações, a que Ele não cedeu, e os sofrimentos que a hostilidade, a negação, a traição ou incredulidade, de que foi vítima, os custos da incarnação do Filho de Deus para estar no mundo dos homens, próximo deles, vivendo a nossa vida.
Resta que se ore a Deus para que a Igreja na China saiba encontrar a forma de prevalecer incarnada e inculturada naquela sociedade, mas bem conectada com o desígnio e a força do Alto e muito firme no seu agir missionário.  
2019.06.28 – Louro de Carvalho

terça-feira, 7 de maio de 2019

A partir de Fátima os Bispos fizeram ouvir a sua voz unânime


A comunicação social pensava ter pasto de entretenimento para uns tempos a propósito duma suposta divisão dos prelados sobre a criação de comissão nas respetivas dioceses para debelar e encaminhar os casos de abuso sexual de menores por parte dos clérigos, quando o discutível era se devia ser criada comissão só para esta matéria e se o mecanismo a criar não deveria ser destinado prioritariamente à prevenção. Ora, a 196.ª Assembleia Plenária da CEP (Conferência Episcopal Portuguesa), realizada de 29 de abril a 2 de maio (em Fátima), tomou posição unânime sobre a matéria. A este respeito, o comunicado final apresentado em conferência de imprensa da conta da reflexão feita “sobre as orientações vindas do encontro sobre a proteção de menores na Igreja”, de fevereiro no Vaticano, com relevo para o discurso conclusivo do Papa. Assim, “a resposta eclesial” deve prover à “tutela das crianças”, revestir-se de impecável “seriedade”, levar a “uma verdadeira purificação”; promover “a formação”, verificar e reforçar “as diretrizes das Conferências Episcopais”; proceder ao “acompanhamento” das pessoas vítimas de abuso; e prestar a devida “atenção pastoral ao fenómeno crescente dos abusos no mundo digital e no turismo sexual”. Assim, “os Bispos comprometem-se a criar instâncias de prevenção e acompanhamento em ordem à proteção de menores nas suas Dioceses” e a atualizar as diretrizes aprovadas pela CEP em 2012, “tendo em conta as orientações da Santa Sé” (que urge reler).
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Mas nem só de abusos tratou a CEP. Com efeito, declarou solidarizar-se com a dor de muitas pessoas e comunidades que recentemente sofreram a perda de vidas e haveres, realçando a tragédia na Madeira, com a morte de 29 pessoas e vários feridos, e em Moçambique (nomeadamente Beira e Pemba), com um muito elevado número de vítimas, bem como a morte de centenas de pessoas no Sri Lanka, vítimas de atentados terroristas por ocasião das celebrações pascais. Por todos rezam os Bispos e apelam “à esperança e à partilha fraterna”.
Aprovou duas cartas pastorais:Um olhar sobre Portugal e a Europa à luz da doutrina social da Igreja”; e “A alegria do amor no matrimónio cristão”. A primeira, já divulgada no respetivo site, procura ser um contributo para ajudar os católicos do país e tantos outros portugueses a “discernir os grandes desafios que hoje se deparam na realidade portuguesa e europeia, à luz dos princípios da dignidade humana, do bem comum, da solidariedade e da subsidiariedade”; a segunda, a divulgar oportunamente, vem  na sequência da exortação apostólica Amoris Laetitia, e apresenta “a graça e a beleza do matrimónio cristão, a necessidade da sua preparação e o acompanhamento nos primeiros anos de vida conjugal”.
Os Bispos aprovaram ainda o documento “Contributos por serviços pastorais e atos administrativos nas Dioceses de Portugal”, que entrará em vigor após a devida aprovação pela Santa Sé; as “Linhas de formação integral presbiteral” do Pontifício Colégio Português, que entrarão em vigor depois de homologadas pela Congregação para o Clero; o programa das próximas Jornadas Pastorais do Episcopado (17-19 de junho); o Relatório de Contas de 2018 do Secretariado Geral da CEP e o Calendário de Atividades da CEP para 2019-2020.
A CEP aprovou a integração de Dom Américo Manuel Alves Aguiar, Bispo auxiliar de Lisboa, como novo Vogal na Comissão Episcopal da Cultura, Bens Culturais e Comunicações Sociais; nomeou o Padre Fábio de Freitas Guimarães, oficial da Congregação para o Clero, como segundo Diretor Espiritual do Pontifício Colégio Português; e procedeu às seguintes nomeações para o próximo triénio: Dr.ª Isabel Figueiredo (a primeira mulher a dirigir um organismo superior da CEP), Diretora de Conteúdos Religiosos da Rádio Renascença, como Diretora do Secretariado Nacional das Comunicações Sociais, Dr. Fernando Augusto Teixeira Moita, como Secretário da Comissão Episcopal da Educação Cristã e Doutrina da Fé, Irmão Manuel Gonçalves da Silva, da Congregação dos Irmãos Maristas, como Assistente Religioso da COPAAEC (Confederação Portuguesa de Antigos/as Alunos/as do Ensino Católico), e Padre Miguel Alexandre Batista Coelho, como Assistente da Direção Executiva Nacional do Movimento Casais de Santa Maria.
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Informada sobre a preparação da Jornada Mundial da Juventude de 2022 (JMJ), na sua componente pastoral e organizativa para todas as Dioceses, advertiu que o protagonismo na realização da JMJ deve ser dado aos jovens.
No âmbito do acolhimento das informações, comunicações e programações dos organismos da CEP, de que destacam-se alguns dados.
- A Comissão Episcopal da Missão e Nova Evangelização apresentou as principais atividades no âmbito das Missões, da Nova Evangelização, do Ecumenismo e do Diálogo Inter-Religioso, destacando o Guião missionário 2018/2019 e o segundo Guião da Infância Missionária com o tema “Interceder pelas Famílias”, bem como o próximo encontro nacional para a Nova Evangelização sobre as “Prioridades da Igreja em Portugal: uma visão dos pastoralistas”; e fez algumas propostas para a celebração do encerramento do Ano Missionário, em particular na Peregrinação Missionária nacional a Fátima, a 20 de outubro.
- A Comissão Episcopal da Liturgia e Espiritualidade com o seu Secretariado Nacional de Liturgia, das várias ações em curso, destaca: a revisão da tradução portuguesa da terceira edição do Missal Romano; a publicação próxima do Cantoral Nacional para a Liturgia; a temática do 45.º Encontro Nacional de Pastoral Litúrgica Liturgia e Missão, a realizar em Fátima nos dias 22-26 de julho. Além disso, esta Comissão cuida particularmente os livros litúrgicos oficiais, mas propõe-se desenvolver uma atividade editorial de formação litúrgica, pastoral e espiritual, tão necessária para a renovação da Liturgia. O catálogo dos livros encontra-se disponível no siteliturgia.pt.
- A Comissão Episcopal da Pastoral Social e Mobilidade Humana apresentou relatórios dos seus organismos e destacou: o Manifesto sobre os Pactos Globais das Nações Unidas sobre os Refugiados e para as Migrações Seguras, Ordenadas e Regulares, publicado pelo FORCIM (Fórum de Organizações Católicas para a Imigração), que visa chamar a atenção dos governos para a solidariedade mais concreta para com os migrantes e refugiados; o Projeto MIND – Migrações, Interligação e Desenvolvimento, que procura promover o diálogo e o encontro entre as pessoas, sensibilizando para as complexas ligações das migrações, bem como o desenvolvimento sustentável e a resposta a dar a estas emergências com base na humanidade, dignidade e respeito; a campanha “Cáritas ajuda Moçambique” para angariar fundos para a fase de emergência rápida; e a publicação de notas por parte da Comissão Nacional Justiça e Paz e da Pastoral da Saúde. Realçou ainda o estudo realizado pelo Serviço Pastoral a Pessoas com Deficiência para conhecer a situação das pessoas com deficiência nas paróquias.
- A Comissão Episcopal do Laicado e Família sublinhou: as Formações Regionais realizadas pelo Departamento Nacional da Pastoral Familiar e a reunião com os Assistentes Diocesanos da Pastoral Familiar e dos Movimentos da Família; a XXXIV Jornada Mundial da Juventude no Panamá; a Assembleia de Animadores e Jovens para a “receção do Documento Final do Sínodo dos Bispos de 2018”, organizado pelo Departamento Nacional da Pastoral Juvenil; o IV Encontro Nacional de Docentes e Investigadores do Ensino Superior; a reunião com a Equipa de Serviço Nacional, Assistentes Diocesanos e Assistentes das Comunidades Carismáticas; a eleição dos novos Órgãos Sociais da Conferência Nacional do Apostolado dos Leigos; e o acompanhamento das atividades dos diversos organismos.
- A Comissão Episcopal das Vocações e Ministérios aludiu ao Encontro dos reitores dos seminários e à Assembleia dos delegados para o diaconado permanente, bem como à publicação das atas do 9.º Simpósio do Clero sobre o tema “Padre, ministro e testemunha da alegria do Evangelho”; e referiu que o lema da Semana de oração pelas vocações consagradas, que está a decorrer de 5 a 12 de maio, é “A coragem de arriscar pela promessa de Deus”.
- A Comissão Episcopal da Educação Cristã e Doutrina da Fé finalizouno departamento da Catequese, o Curso de Formação “Ser Catequista” integrado no plano nacional de formação, informou sobre o Encontro Europeu dos Diretores Nacionais da Catequese, em Roma, em torno do tema “O Catequista, Testemunha do Mistério”, e as próximas Jornadas Nacionais de Catequistas, dedicadas à memória de Mons. Amílcar Amaral, autor dos catecismos nacionais “A Doutrina Cristã”; e, no âmbito da Educação Moral e Religiosa Católica e na Escola Católica, referiu “a formação de professores nas dioceses e a prossecução da parceria com a Faculdade de Teologia no âmbito da formação de futuros docentes de Educação Moral e Religiosa Católica”.
- A Comissão Episcopal da Cultura, Bens Culturais e Comunicações Sociais informou sobre as atividades dos seus três Secretariados: SNPC (Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura); SNBC (Secretariado Nacional dos Bens Culturais); e SNCS (Secretariado Nacional das Comunicações Sociais). Assim, o SNPC reuniu referentes da Pastoral da Cultura das várias dioceses para estudar formas de cooperação em prol dum trabalho específico no domínio desta pastoral, tendo em conta as principais tendências e movimentos culturais contemporâneos; referiu que a próxima Jornada da Pastoral da Cultura será sobre a condição da mulher na sociedade e na Igreja, sendo entregue, nesta Jornada, ao historiador José Mattoso o “Prémio de Cultura Árvore da Vida / Padre Manuel Antunes”; e informou que o Secretariado participará no IndieLisboa – Festival Internacional de Cinema Independente, cuja 16.ª edição decorre entre 2 e 12 de maio, com a atribuição do Prémio Árvore da Vida. Por seu turno, o SNBC continuará as ações de formação no âmbito do projeto Thesaurus sobre o inventário de bens culturais da Igreja, encontrando-se em desenvolvimento uma plataforma online que permita a pesquisa conjunta dos registos; está a concluir a elaboração do “Guia de Boas Práticas de Conservação Preventiva”; e mantém a participação como entidade interlocutora e consultora no Conselho Nacional de Cultura, no Grupo Técnico Coordenador do Projeto Rota das Catedrais e na Comissão Bilateral para a Regulamentação do art.º 23.º da Concordata. E o SNCS prossegue a qualificação e ampliação da produção de conteúdos informativos na Agência Ecclesia e nos programas de televisão e de rádio, sendo de destacar o programa 70×7, que celebra, este ano, 40 anos de emissões na RTP; referiu que a concretização destes projetos está a acontecer cada vez mais em parceria com diferentes estruturas eclesiais e outros media; e informou que vai decorrer um encontro para assinalar o Dia Mundial das Comunicações Sociais, onde vai ser entregue o “Prémio de Jornalismo Dom Manuel Falcão” ao trabalho jornalístico premiado deste ano, bem como, a título honorífico, ao jornal Diário do Minho, por ocasião do seu 100.º aniversário.
- A CIRP (Conferência dos Institutos Religiosos de Portugal) destacou a organização da Semana do Consagrado sobre o tema “Comunidades santas e missionárias” e a Semana de Estudos sobre a Vida Consagrada que tratou o tema “O desafio da santidade no mundo atual”; sublinhou a solidariedade de muitos Institutos com as vítimas do ciclone Idai, em resposta ao apelo da congénere de Moçambique e da Cáritas; e informou que a CAVITP (Comissão de Apoio às Vítimas do Tráfico de Pessoas) fará uma reflexão sobre o tema “Entender as causas do tráfico de pessoas: mercantilização e exploração à luz das Orientações pastorais sobre o tráfico de pessoas”.
- A CNISP (Conferência Nacional dos Institutos Seculares de Portugal) referiu os resultados do inquérito sobre os dados estatísticos dos 8 Institutos Seculares presentes em 17 dioceses, com o objetivo dum melhor conhecimento sobre a presença carismática desta vocação de especial consagração.
- A COMECE (Comissão dos Episcopados da Comunidade Europeia) sublinhou “o caráter personalista da União Europeia enquanto projeto inclusivo na luta pela dignidade da pessoa, a importância vital de se reconhecer o princípio da subsidiariedade, respeitando a identidade nacional de cada país a par com o trabalho conjunto pelo bem comum, a prioridade que se deve dar à Europa Social, ainda muito subdesenvolvida”, sendo de relevar “o trabalho da Igreja em prol dos refugiados e da irradicação da pobreza, bem como a importância decisiva da doutrina social da Igreja”; e salientou “a quebra de confiança em relação à segurança e defesa, sobretudo por causa dos ataques terroristas, as novas tecnologias como a robótica, a grande incerteza sobre o futuro do trabalho, a sustentabilidade ambiental e ecológica, bem como a necessidade de cuidar da natureza com compromissos concretos foram outros dos assuntos abordados”.
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No discurso de abertura, o Presidente da CEP fez larga referência à exortação apostólica Christus Vivit, dirigida “aos jovens e a todo o Povo de Deus”, na sequência do Sínodo sobre a realidade juvenil na Igreja e no mundo – e da Igreja para o mundo, com a projeção missionária cara a Francisco. E, considerando a relevância que tem para nós no horizonte da próxima JMJ, Dom Manuel Clemente chamou a atenção para o capítulo VII – A pastoral dos jovens, lembrando que a pastoral juvenil pressupõe duas grandes linhas de ação: a busca, a convocação, a chamada que atraia novos jovens para a experiência do Senhor; e o crescimento, o desenvolvimento dum percurso de maturação para quantos já fizeram essa experiência (CV, 209).
E, considerando que, em qualquer delas, o Papa destaca o protagonismo dos jovens, cita:
Relativamente à primeira, a busca, confio na capacidade dos próprios jovens, que sabem encontrar os caminhos atraentes para convidar. (…) Devemos apenas estimular os jovens e dar-lhes liberdade de ação, para que se entusiasmem com a missão nos ambientes juvenis. O primeiro anúncio [de Cristo vivo] pode despertar uma profunda experiência de fé no meio dum retiro de conversão, numa conversa no bar, num recreio da Faculdade, ou qualquer outro dos insondáveis caminhos de Deus. O mais importante, porém, é que cada jovem ouse semear o primeiro anúncio na terra fértil que é o coração doutro jovem» (CV, 210).”.
Porém, quanto ao crescimento, o Papa faz uma advertência importante:
Em alguns lugares que, depois de ter provocado nos jovens uma experiência intensa de Deus, um encontro com Jesus que tocou o seu coração, propõe-se-lhes encontros de “formação” onde se abordam apenas questões doutrinais e morais. […] Resultado: muitos jovens aborrecem-se, perdem o fogo do encontro com Cristo e a alegria de O seguir, muitos abandonam o caminho e outros ficam tristes e negativos (CV, 212).”.
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É, de facto, a próxima JMJ a grande tarefa da Igreja portuguesa em prol da juventude mundial, a que a CEP está atenta e para a qual dinamiza em crescendo as diversas dioceses. Mas também é de sublinhar o enorme trabalho da CEP e dos seus organismos, que passa ao lado dos comentadores e observadores, mas de frutos que só Deus sabe avaliar. É a semente do Reino!
2019.05.07 – Louro de Carvalho

sábado, 6 de abril de 2019

Porque o Pai espera por nós, vem aí a grande festa


No passado dia 7 de abril, 4.º domingo da Quaresma, o Cardeal Patriarca de Lisboa presidiu, na igreja da Trindade, no Porto, à celebração eucarística da ordenação episcopal de Dom Américo Aguiar, que o Papa Francisco, no passado dia 1 de março, nomeara Bispo Titular de Dagno e Auxiliar do Patriarcado de Lisboa.  
A homilia de Dom Manuel Clemente, apesar de marcada pela simplicidade discursiva, constitui uma verdadeira pérola de espiritualidade e uma bela diretiva de ação pastoral, inspirada na frase a completar “Porque o Pai nos espera e a festa é possível…”, que serviu de mote.
Começou pela parábola do Pai misericordioso e dos dois filhos vincando a necessidade de nos fixarmos um pouco no filho mais novo, dada a naturalidade com que nos identificamos tantas vezes no repetido afastamento da casa paterna, ou seja, de Deus e da verdadeira comunhão com Ele – que consiste em “dar-Lhe graças e nunca desperdiçar os seus dons” – persistindo na nossa orgulhosa autossuficiência e fazendo finca-pé na nossa pretensa autonomia.
Depois, considerando a Quaresma como tempo favorável para cairmos em nós próprios, porfiou em sugerir o acolhimento da lição daquele filho mais novo na “decisão de regressar” e na “confiança na inabalável disposição do Pai em recebê-lo”. Na verdade, urge o tempo “da decisão em levantarmo-nos e voltarmos a Deus que sempre nos espera”, incluindo o momento daquela “ocasião celebrativa”. E a primeira exortação patriarcal não se fez esperar:
Temos Deus à nossa espera, fruamos sempre com Ele os dons que nos oferece, partilhando-os também”.
Porém, o discurso homilético do celebrante orador sublinhou os inefáveis sentimentos paternos evidenciados na parábola, tendo em linha de conta a da nossa contraditória condição humana: 
Por longe que ainda estejamos, já nos avista e distingue; quando voltamos finalmente, contritos e esperançosos, restitui-nos a dignidade atingida e transborda em afeto – aquele afeto e alegria que preenchem o Céu por cada pecador que se converte (cf Lc 15,7). Por cada um de nós, quando realmente regressamos e nos reavemos como filhos de Deus. Sem Deus nos perdemos, com Deus nos recuperamos, seja qual for a distância interior que nos afastasse.”. 
E, considerando que nós, ao pressentirmos o sentimento que transborda do coração do nosso Deus a criar e aviventar “o anseio de que a dignidade e o bem dos seus filhos sejam respeitados, garantidos e recuperados”, nos apercebemos de que “o máximo regozijo que terá é que tal seja assim e só assim, fosse o que fosse e aconteça o que acontecer” e de que a casa do Pai, sempre disponível para nós, é “o único lugar de Deus”, irrompe com a segunda exortação patriarcal:
Apercebidos disso, compartilharemos também a misericórdia que O define, para que ninguém se perca e não percamos ninguém. Isto se diga de nós, e muito especialmente dum bispo, do lado do Pai e à espera de todos.”.
E o discurso homilético passa de analítico e compreensivo a perentório ao assegurar com toda a clareza: “O que nunca poderemos fazer é imitar a outra personagem da parábola: O irmão mais velho, que se julgava impecável por não se ter afastado do espaço físico daquela casa – ainda que jamais tivesse entrado no infinito espaço do coração paterno”.
Talvez esta postura se aplique a tantos de nós, se tivermos a ousadia de nos desnudarmos diante de Deus. Como aquele irmão mais velho, longe de nos alegrarmos com o regresso dos irmãos que designamos por pródigos – marginais, anormais, troca-tintas, dissolutos, fraudulentos, ladrões, assassinos, vigaristas, corruptos, energúmenos, sem Deus, beatos, papa-hóstias, etc. – criticamos o seu regresso, protestamos, acusamo-los superlativamente e não queremos participar no acolhimento e na festa que o Pai organiza. E acusamos também o Pai acolhedor por ser perdulário no perdão a quem tudo lhe espatifou e insensível ao nosso comportamento submisso e às nossas necessidades e caprichos.
Mas o Pai vem em saída para instar com ele com as palavras evangélicas essenciais e profundas:
Tínhamos de fazer uma festa e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi reencontrado” (Lc 15,32).
De facto, a festa tem de ser feita, não porque pecámos, mas porque tivemos a humildade e a coragem de regressar; e é possível, porque o Pai é imensamente generoso, espera por nós, sabe alegrar-se e comunicar alegria. Fruindo do sabor da generosidade e da alegria, consegue aliar à justiça a misericórdia, fazendo que esta prevaleça em prol do amor que tudo vence.  
O Cardeal Patriarca, chamando a nossa atenção para o facto de a parábola acabar em festa, mas “sem nos dizer o que aconteceu depois e se o irmão mais velho sempre entrou na festa, ou teimou em ficar de fora…”, frisa que a “palavra de salvação” se torna “para cada um de nós ‘palavra de interrogação’, à espera que lhe demos resposta positiva”. E o teor positivo da nossa resposta é no sentido de, se estivermos longe, nos dispormos a regressar; se estivermos perto, nos dispormos a maior aproximação; se estamos na casa paterna, nos dispormos a cooperar no acolhimento dos que regressam e a participar na festa de acolhimento, de perdão e de reintegração total; em qualquer momento e lugar nos dispormos a fazer tudo junto de “quem esteja mais perto ou mais longe da casa do Pai”, “para que regresse ao lugar onde a festa acontece”; e, “em termos aí a nossa alegria, sem alheamento nem despeito pela chegada de alguém, mesmo que já não contássemos”, porque, “na casa do Pai, os últimos são sempre os primeiros” (cf Mt 20,16) e porque “Haverá mais alegria no Céu por um só pecador que se converte, do que por noventa e nove justos que não necessitam de conversão” (Lc 15,7) ou “Assim há alegria entre os anjos de Deus por um só pecador que se converte” (Lc 15,10).
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E o celebrante orador tentou fazer a ponte entre o discurso da parábola e a celebração da ordenação episcopal. Com efeito, os seguidores de Jesus Cristo – e de forma eminente os bispos, como testemunhas e arautos privilegiados do Ressuscitado, que Se entregara por nós na Ceia e no Calvário – são insistentemente instados a regressar ao Pai sempre que se afastem da casa paterna, seja muito ou seja pouco significativo tal afastamento, a partilhar a alegria do Pai celeste e dos seus anjos pelo regresso dos pródigos, a banir da face da Terra a atitude invejosa, acusatória e exclusivista dos irmãos mais velhos e, sobretudo, a tomar a atitude do Pai misericordioso: chamar, esperar, correr ao encontro, acolher, promover a festa pelo regresso dos pródigos, bem como instar pacientemente com os que se escandalizam com o perdão aos pródigos e, fazendo birra, não querem participar na festa integradora.     
Aludindo ao episódio parabólico do pastor que deixa as noventa e nove ovelhas no deserto para ir à procura da que se perdeu, até a encontrar – e ao encontrá-la, põe-na alegremente aos ombros e, ao chegar a casa, convoca os amigos e vizinhos e diz-lhes: ‘Alegrai-vos comigo, porque encontrei a minha ovelha perdida’ – Dom Manuel Clemente atesta que “o ministério ordenado é na Igreja, e da Igreja para o mundo, a revelação concreta do coração divino, como sacramento de Cristo Pastor”. E Cristo Pastor – diz o Patriarca e Presidente da Conferência Episcopal – “ao contrário do irmão mais velho da parábola, é o nosso irmão absoluto, partilhando inteiramente dos sentimentos do Pai e vindo Ele próprio buscar-nos onde estivermos e mesmo onde nos perdêssemos”.
Assim, “participar do sentimento de Deus, na procura incansável de cada um e no acolhimento feliz de quem regressa”, constitui a graça e o encargo do sacramento da ordenação episcopal, tanto para o ordinando como para os outros bispos e, por extensão, para todos os discípulos de Cristo, os cristãos, cada um na sua condição e segundo as suas possibilidades, mas sempre em obediência aos ditames do Mestre dos mestres.
Depois, o homiliante refere que foi neste dinamismo de vocação e acolhimento que “Jesus escolheu os Doze, para serem ‘pescadores de homens’, recolhendo-os em redes de convivência verdadeira e feliz, como cada comunidade ‘cristã’ há de ser e necessariamente será”.
Então de porta-vozes da chamada divina, os bispos passam a verdadeiros pescadores de homens e pastores das ovelhas que o rebanho congrega sob o cuidado de Cristo, o grande Pastor.
Mas há um ouro múnus apostólico enunciado por São Paulo: os apóstolos e os seus sucessores são verdadeiros “embaixadores de Cristo”, que propõem, não o abandono ou a exclusão dos irmãos pecadores, mas a reconciliação com Deus. E esta reconciliação exige a conformidade com Cristo, exemplo perfeito de comunhão divina, e que “os ministros de Cristo, em tempos de hoje e em tempos de sempre”, vivam e se apresentem “como quem foi recuperado por Cristo para viver com Deus e de Deus para os outros”, pelo que “nada menos do que isto importa e urge, de nós para todos e para cada um que encontremos aqui, ou busquemos mais longe”.
E o Cardeal reconhece que “há tanto que encontrar e buscar nos nossos dias, para que a festa de Deus aconteça”. Porém, identifica um problema: “quando dispomos de tantas possibilidades de comunicação e reencontro, o convite demora e a escuta é difícil”, pois “a acumulação do que se emite atropela as mensagens, dispersa a atenção, dilui as perguntas e adia as respostas”. Ora, face aos desencontros que há hoje (físicos e morais), como sempre houve nos “pródigos” que somos, encontra-se a solução na “definição pessoal e clara de quem pergunta”, pois só com ela se poderá “interpelar quem responda”. Por isso, “o que mais importa a todos nós, discípulos e ministros de Cristo – sentenciou o homiliante – “é sermos verdadeiramente tais, contritos e convictos, coerentes e límpidos no anúncio e na vida”; é embarcar nesta rota de “purificação” a que é chamada a Igreja, como destaca o Papa Francisco e o mundo aguarda, este itinerário quaresmal de escuta, reflexão, sobriedade, oração e partilha, que nos conduz ao tempo da festa pascal, que se avizinha galopantemente.
Porque o Pai nos espera a nós que nos desviamos da rota e a retomamos, por que Ele é generoso e mostra o seu poder misericordiando, perdoando e rejubilando com o reencontro dos filhos, a festa é possível, acontece e vem aí. E vem para todos. Que ninguém a rejeite, porque não se pode deitar fora aquilo que Deus nos dá!
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É expectável que Dom Américo Aguiar, um homem da comunicação e do desígnio de fazer pontes e abater os muros, assuma cada uma das palavras do Cardeal Patriarca. Recorde-se que viveu nas 24 horas que antecederam a sua ordenação episcopal momentos de dor devido ao falecimento de sua mãe, facto a que se referiu de modo implícito na sua alocução no final da celebração ao recordar o seu lema episcopal “In Manus Tuas”, dizendo que não esperava que o lema tivesse consequências tão imediatas, mas que sim, seja feita a vontade de Deus.
É de ter em conta que a escolha do lema episcopal de Dom Américo é uma referência específica ao exemplo e testemunho de Dom António Francisco dos Santos, Bispo do Porto entre 2014 e 2017. Em entrevista à Voz Portucalense, a propósito da sua nomeação para Bispo Auxiliar de Lisboa, declarou querer homenagear a bondade de Dom António Francisco e disse:
Eu tive a graça de viver com ele no Porto, intensamente, a correr de Lisboa para o Porto e do Porto para Lisboa, e sei muito bem o quanto ele se deu e deu até ao fim. Sem ‘ses’ e sem ‘mas’, e sem nos escutar naquilo que eram os nossos pedidos e provocações para que ele se poupasse. Mas depois aprendi e aprendemos todos que o Bom Pastor não tem ‘ses’ nem ‘mas’. E é isso que eu quero e desejo fazer e peço ao Senhor que me permita ser. “In manus tuas”, Pai, nas tuas mãos, entrego o meu espírito, quer significar este fim e início. Foram as últimas palavras de Jesus na cruz e foi o início de uma história bonita da qual todos nós usufruímos. A homenagem ao senhor Dom António Francisco quer ser também essa bondade que tanto marcou o seu pontificado. E aquela frase que me marca profundamente quando ele dizia na homilia da entrada: ‘Só pela Bondade aprenderemos a fazer do poder um Serviço, da Autoridade uma Proximidade e do Ministério a Paixão da missão de anunciar a alegria do Evangelho’. O Evangelho é tudo o que temos e somos. In manus tuas. Assim será.”.
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E é desta massa que surgem os grandes homens e que Deus faz os santos e os apóstolos!
2019.04.06 – Louro de Carvalho