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domingo, 1 de setembro de 2019

“Convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos e serás feliz”


É a recomendação de Jesus ao fariseu que o convidara para um banquete e em que compareceu. Aí, como se pode ler na passagem do Evangelho tomada para a proclamação e meditação na Liturgia da Palavra do 22.º domingo do Tempo Comum no Ano C (Lc 14,1.7-14), o Senhor dá a lição da humildade aos comensais: que não procurem os primeiros lugares nos banquetes, mas que tentem ocupar os últimos. É uma questão de bom senso. Se alguém ousa ocupar os lugares cimeiros, pode o anfitrião vir a rogar-lhe que desça, pois aquele lugar era para outrem; mas, se ocupa um dos últimos lugares, pode o anfitrião vir a convidá-lo a subir um pouco. E ficou a máxima de sabedoria: “Quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado”.
E ao anfitrião Jesus dá a lição da gratuitidade e da dádiva generosa e sem retorno:
Quando ofereceres um almoço ou um jantar, não convides os teus amigos nem os teus irmãos, nem os teus parentes nem os teus vizinhos ricos, não seja que eles, por sua vez, te convidem e assim serás retribuído. Mas, quando ofereceres um banquete, convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos; e serás feliz por eles não terem com que retribuir-te: ser-te-á retribuído na ressurreição dos justos.”.
A humildade, como bom senso, alia-se ao dom da verdade, da gratuitidade, da generosidade – virtudes que edificam o homem (homo, hominis, em latim), ou seja, o ser que vive no ambiente terreno, o húmus (em latim, húmus, húmus ou humi significa “terra fértil”). De humus derivou-se a palavra humanus, a, um (humano, que vive na terra, que dela foi tirado) e a palavra humilis,e (humilde; em grego, tapeinós, ligado à terra) e a palavra humilitas, humilitatis (humildade; em grego, tapeinótês).  
A humildade é dote de quem se julga terreno, embora com ânsia de céu: aceita a condição de viver na terra para entrar no céu: “Vós aproximastes-vos do monte Sião, da cidade do Deus vivo, a Jerusalém celeste” (Heb 12,22). É bom que seja cada um a reconhecer a sua condição, não o rebaixe alguém a nível inferior ao da terra. Quem o faz humilha, rebaixa, espezinha, ofende.
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Este banquete em dia de sábado, na casa de um dos chefes dos fariseus é mais uma etapa do caminho de Jerusalém. Era a refeição solene de sábado que se tomava por volta do meio-dia, ao voltar da sinagoga. Para ela se convidavam os hóspedes, continuando-se a discussão sobre as leituras escutadas no ofício sinagogal.
Lucas é o único evangelista que mostra os fariseus próximos de Jesus a ponto de o convidarem para casa e a sentar-se à mesa com eles (cf Lc 7,36; 11,37), ao passo que Marcos e Mateus apresentam os fariseus como os grandes adversários de Jesus. Os fariseus formavam um dos principais grupos religioso-políticos da sociedade palestina da época. Dominavam os ofícios sinagogais e estavam presentes em todos os passos religiosos. A sua preocupação fundamental era transmitir a todos o amor pela Torah, escrita e oral. Era um grupo sério, empenhado na santificação do Povo. Porém, ao absolutizarem a Lei, esqueciam as pessoas e passavam por cima do amor e da misericórdia. Ao considerarem-se como “puros” (por viverem de acordo com a Lei), desprezavam o “am aretz” (o “povo do país”) que, pela ignorância e dureza de vida, não cumpria integralmente os preceitos da Lei. Conscientes das suas capacidades, integridade e superioridade, não eram modelos de humildade, o que explica a procura dos lugares de honra.
O “banquete” é, no mundo semita, o espaço do encontro fraterno, onde os convivas partilham o mesmo alimento e estabelecem laços de comunhão, proximidade, familiaridade, irmandade. Jesus aparece, muitas vezes, envolvido em banquetes, não porque fosse “comilão e bêbedo” (cf Mt 11,19), mas porque, ao ser sinal de comunhão, de encontro, de familiaridade, o banquete anuncia a realidade do Reino de Deus.
O texto desenvolve-se em duas partes. A 1.ª (vv. 7-11) enaltece a humildade; a 2.ª (vv. 12-14), a gratuitidade e do amor desinteressado. Ambas estão unidas pelo tema do Reino.
As palavras que Jesus dirigiu aos convidados que disputavam os primeiros lugares não são novidade, pois já o AT aconselhava a não ocupar os primeiros lugares (cf Pr 25,6-7); mas o que era uma exortação moral converte-se numa apresentação do Reino e da lógica do Reino: o Reino é espaço de irmandade, fraternidade, comunhão, partilha e serviço, que exclui qualquer atitude de superioridade, de orgulho, de ambição, de domínio sobre os outros. Para entrar nele, é necessária a pequenez, a simplicidade, a humildade, com a renúncia à pretensão de ser o melhor, o mais justo, o mais importante. O próprio Jesus, na “ceia de despedida” com os discípulos na véspera da sua morte, lavou os pés aos discípulos e constituiu-os em comunidade de amor e de serviço, avisando que, na comunidade do Reino, os primeiros serão os servos de todos (cf Jo 13,1-17). É reconhecer a verdade da vida e do homem para chegar à verdade do Reino.
Por outro lado, Jesus põe em causa – em nome da lógica do Reino – a prática de convidar para os banquetes apenas os amigos, os irmãos, os parentes, os vizinhos ricos. Os fariseus escolhiam cuidadosamente os convidados para a mesa. Nas refeições, não convinha haver alguém de nível menos elevado, pois a “comunidade de mesa” vinculava os convivas e não convinha estabelecer laços com gente desclassificada e pecadora (por exemplo, nenhum fariseu se sentava à mesa com alguém pertencente ao “am aretz”, ao “povo da terra”, desclassificado e pecador). E os fariseus tinham a tendência (própria de todas as pessoas, de todas as épocas e culturas) de convidar os que podiam retribuir da mesma forma. Era o intercâmbio de favores e não a gratuitidade e dádiva desinteressada.
Jesus, denunciando esta prática em nome do Reino, vai mais além e apresenta uma proposta subversiva: é preciso convidar “os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos” – que eram considerados pecadores notórios, amaldiçoados por Deus, pelo que estavam proibidos de entrar no Templo (cf 2Sm 5,8) para não profanar o lugar sagrado (cf Lv 21,18-23). Ora, são esses que devem ser os convidados para o “banquete”.
Jesus já não fala simplesmente dessa refeição em casa dum fariseu, na companhia de gente distinta; mas fala do que esse “banquete” anuncia e prefigura: o banquete do Reino. Jesus traça os contornos do Reino: é apresentado como um “banquete”, onde os convidados estão unidos por laços de familiaridade, irmandade, comunhão: para ele são convidados todos sem exceção (incluindo os que a cultura social e religiosa exclui e marginaliza); as relações entre os que aderem ao banquete não são marcadas pelos jogos de interesses, mas pela gratuitidade e pelo amor desinteressado; e os participantes do “banquete” devem despir-se de qualquer atitude de superioridade, orgulho, ambição, para se colocarem numa atitude de humildade, de simplicidade, de serviço – uma atitude de autenticidade, mostrando a verdade da vida.
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Já o livro de Ben-Sirah nos dá a lição da humildade contra a soberba (Sir 3,19-21.30-31): “Filho, em todas as tuas obras procede com humildade e serás mais estimado do que o homem generoso”.
No início do séc. II a.C., quando os selêucidas dominavam a Palestina e o helenismo tinha começado a ação de minar a cultura e os valores tradicionais de Israel, muitos judeus (incluindo membros de famílias de origem sacerdotal), deixando-se seduzir pelo brilho da cultura helénica, abandonavam os valores dos pais e aderiam aos valores da cultura invasora. Então surge Jesus Ben-Sirah, um judeu tradicional, orgulhoso da sua fé e dos valores israelitas, e, consciente de que o helenismo ameaçava as raízes do Povo, escreve para defender o património religioso e cultural do judaísmo. Tenta convencer os compatriotas de que Israel possui, na Torah revelada por Deus, a verdadeira “sabedoria” e muito superior à “sabedoria” grega. Aos israelitas atraídos pela cultura grega lembra a herança comum, vincando a grandeza dos valores judaicos e demonstrando que a cultura judaica não fica a dever nada à cultura grega.
O texto tomado como 1.ª leitura pertence à primeira parte do livro (cf Sir 1,1-23,38), em que se apresenta a “sabedoria”, criada por Deus e oferecida a todos os homens. Aí predominam os “ditos” e “provérbios” que ensinam a arte de bem viver e de ser feliz.
O texto apresenta-se como uma “instrução” que um pai dá ao seu filho e cujo tema fundamental é a humildade. Para Ben-Sirah, a humildade é uma das qualidades fundamentais que o homem deve cultivar, porque lhe garantirá estima perante os homens e “graça diante do Senhor”. Não se trata de uma forma de estar e de se apresentar reservada aos mais pobres e menos preparados, mas de algo que deve ser cultivado por todos os homens, a começar pelos considerados mais importantes. De facto, enquanto “a desgraça do soberbo não tem cura, porque a árvore da maldade criou nele raízes”, “o coração do sábio compreende as máximas do sábio, e o ouvido atento alegra-se com a sabedoria”. O hagiógrafo, que não entra em grandes pormenores, limita-se a afirmar a importância da humildade e a propô-la. O “sábio” autor destas “máximas” não tem dúvida de que é na humildade e na simplicidade que reside o segredo do êxito e da felicidade. E o Salmo 68 diz-nos que o Pai dos órfãos e defensor das viúvas estabeleceu a sua grei numa terra que a sua bondade preparou ao oprimido.
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Não gostamos de ouvir falar de humildade, porque temos dentro de nós uma falsa imagem desta virtude. Para um vivente do século XXI, falar dela parece fora de moda, quando se louvam os interventivos, os ciosos dos seus direitos (não tanto dos deveres) os que gostam de se apresentar com dignidade. E imaginamos uma pessoa humilde como acanhada, triste, apoucada, à margem da vida, inconsciente dos seus direitos, que não defende nem reivindica, e sem iniciativa em favor dos outros. Para alguns, a pessoa humilde é quase um débil mental. Ora, a imagem da humildade que muitas pessoas têm não é a de que nos fala o Evangelho. A humildade é a verdade: acerca de Deus, dos irmãos e de nós mesmos e a aceitação desta verdade (somos limitados e os nossos dotes vêm de Deus e da comunidade). O demónio sabe que é criatura, mas não aceitou essa verdade e quis ocupar o lugar de Deus. É o pai da mentira, a soberba personificada.
Paulo considera-se “como um ser abortivo” diante de Deus, mas defende-se contra as mentiras com que o difamam e faz valer os seus direitos de cidadão romano. Maria proclama-se a humilde “serva do Senhor”, mas tem perfeita consciência de que o Senhor fez n’Ela grandes coisas (tem forte autoestima, mas sabe que o que tem lhe vem de Deus), pelo que é proclamada “ditosa”.
A humildade é uma virtude difícil, árdua, que nunca está conseguida enquanto não terminar a prova desta vida terrena. Em geral, temos uma imagem exagerada de nós mesmos. Alguém escreveu que o melhor negócio do mundo seria comprar as pessoas pelo que valem na realidade e vendê-las pelo que julgam valer. Obviamente não nos referimos ao valor que Deus nos atribui, pois valemos todo o Sangue de Cristo.
Quanto mais importante fores, mais deves humilhar-te e encontrarás graça diante do Senhor. Porque é grande o poder do Senhor e os humildes cantam a sua glória.”. Os textos sagrados desvalorizam a importância que nos pode dar aos olhos dos outros o cargo que ocupamos, a fortuna de que dispomos ou a inteligência e conhecimentos que nos foram dados. O importante é que realmente participamos da mesma vida divina que nos torna filhos de Deus e herdeiros do Céu; iluminados pela mesma luz da fé, vamos a caminho da mesma felicidade eterna no Paraíso; e o que podemos fazer é pedir perdão de administrarmos tão mal os talentos recebidos.
No desempenho da nossa missão neste mundo parecemo-nos com os que representam uma peça teatral. Uns aparecem vestidos de reis, outros de soldados, donas de casa, empregados ou com outras funções. Mas, quando acaba a representação teatral e se despem das vestes, aparecem todos vestidos de cidadão vulgar aos olhos das pessoas. No livro “O triunfo dos porcos”, estes, depois de terem “democratizado” a quinta, começam a afixar cartazes que pretendem instaurar a nova ordem. Num deles escreveram: “Todos os animais são iguais”. E um anónimo escreveu por baixo: “Mas alguns são mais iguais do que os outros”. É a tal incoerência da vida!
Não há super-homens na terra. O dinheiro e os cargos não aumentam o nosso valor diante de Deus: somos administradores e um dia prestaremos contas da nossa administração. No entanto, temos falsos complexos de superioridade. Somos tentados a julgarmo-nos superiores aos outros em algum aspeto – no dinheiro, no vestir, no saber, no carro, na casa –; e pensamos que poderíamos fazer melhor do que eles fazem. A contradizer esta igualdade fundamental, somos exigentes para os outros e condescendentes para connosco. Exigimos trato e atenções especiais e melindramo-nos com a maior facilidade. Aos nossos ouvidos soa a palavra da Escritura:
Que tens tu que não hajas recebido? E, se o recebeste, porque te glorias como se não o houveras recebido?” (1Cor 4,7).
Ora, devemos tratar-nos como iguais que somos, respeitando-nos e ajudando-nos mutuamente nesta aventura da terra ao Céu.
O mestre da humildade é Jesus. Quando entrou em casa de um dos principais dos fariseus, para tomar uma refeição para a qual tinha sido convidado, todos O observavam.
Encontramos aqui diversas espécies de olhares, como podem ser os nossos. O olhar de Jesus é cheio de bondade e de amor e exprime um desejo divino de ajudar todos os presentes. Assim era quando olhava os doentes e aflitos que Lhe apareciam nos caminhos da Terra Santa. Aproveita o momento para dar a todos uma lição prática de humildade muito apropriada ao momento que estão a viver. O olhar de alguns presentes era de orgulho e importância, com um falso complexo de superioridade, como se não houvesse no mundo honras e homenagens capazes de os deixar contentes. Alguns eram simples curiosos: tinham ouvido contar muitas maravilhas acerca de Jesus e estavam na esperança de poderem testemunhar alguma delas. E outros olhavam Jesus com uma atitude inquisitorial, à procura de O surpreenderem em alguma coisa que servisse de pretexto para o condenar. Mas Ele, que é de condição divina, esvaziou-se a si mesmo, tomando a condição de servo, tornando-se semelhante aos homens (cf Fl 2,6.7).
Jesus convida-nos a imitá-Lo, não na realização de milagres, mas na humildade:
Vinde a Mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e Eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o Meu jugo, e aprendei de Mim, que sou manso e humilde de coração, e achareis alívio para as vossas almas, pois o meu jugo é suave e o Meu fardo é leve.” (Mt 11, 29-30).
As pessoas humildes encontram sempre motivos para se edificarem com os outros e alimentam um desejo grande de as ajudar, têm um olhar cheio de complacência que as faz aprender sempre com o que veem, movidas pelo desejo sincero de ajudar os outros. Aceitam com simplicidade cargos e tarefas em prol do próximo sem se envaidecerem ou ensoberbecerem. Dão de graça o que recebem de graça. Sabem ser discretas como o sal e o açúcar que se diluem.
2019.09.01 – Louro de Carvalho

domingo, 21 de julho de 2019

Uma liturgia marcada pelo valor da hospitalidade



O Evangelho do 16.º domingo do Tempo comum no Ano C (Lc 10,38-42) situa-nos na caminhada de Jesus com os discípulos para Jerusalém (9,51-19,27), onde vai viver os últimos acontecimentos da Sua passagem pela terra. Durante o percurso, alojou-se em casa de amigos e pessoas bem conhecidas. Desta feita, visita a casa das discípulas Marta e Maria, que viviam em Betânia com o irmão Lázaro (cf Jo 11).  
O episódio da perícopa em referência integra uma estrutura quiástica com a anterior (Lc 10, 25-37): Palavra de Deus sobre a caridade (amor a Deus e ao próximo); prática espelhada na parábola do samaritano; relato da preocupação de Marta para com o próximo; e Palavra de Cristo sobre a necessidade primária da fé para o cristão. Quer dizer que a prática cristã só tem sentido se estiver ensanduichada pela fé e pelo amor, que se quer não interesseiro, lúcido, afetivo e efetivo.
O nome “Marta”, sendo a forma feminina de “marêh” (senhor) significa “senhora”; e Maria aqui não é a de Magdala, mas a que se identifica no 4.º Evangelho (Jo 1,1ss; 12,1-11), pois a descrição destas irmãs assim o leva a inferir. A evocação da viagem, do caminho (en dè tô poreúesthai autoús) neste episódio é de caráter estilístico, pois, do ponto de vista lucano, Jesus ainda não está em Betânia, onde residem as duas irmãs. Marta andava muito atarefada, pois era provável que no encalço de Jesus chegassem mais hóspedes. “Só é necessária uma coisa” – reza o texto atual, o que não é concorde com a tradição manuscrita: Só umas poucas coisas são necessárias, mas certamente só uma, referem alguns manuscritos, enquanto outros rezam Só umas poucas coisas são necessárias (os mais antigos) e outros, Só uma coisa é necessária. Enquanto a segunda versão manuscrita parece indicar que são precisas apenas algumas coisas sobre a mesa para comer, pois estamos no contexto dum banquete, a terceira aponta para a necessidade de algo mais espiritual, sendo que a primeira congraça as duas hipóteses de insinuação.   
Marta, que recebe Jesus, preocupa-se em acolhê-lo e oferecer-lhe uma generosa hospitalidade, enquanto Maria, sentada aos pés do Senhor, na posição e atitude de discípula (8,35; At 22,3), o escutava. Marta, envolvida pelas ocupações quotidianas, reclama com o Mestre, mas é advertida afetuosamente: “Marta, Marta! Tu ocupas-te com muitas coisas, porém uma só é necessária. Maria, ao escutar a palavra, manifesta em Jesus, escolhe a melhor parte que não lhe será tirada. A escolha do único necessário que é Cristo, Amor e Verdade do Pai, assegura o bom êxito do serviço, da diakonia cristã. Aos pés do Senhor, Maria aprende a escuta e ação em consonância com o projeto de vida e salvação. E revela-se aqui o caminho do discipulado caraterizado pela fidelidade à palavra: Felizes os que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática (11,28). Alicerçadas na Palavra, contemplação e ação tornam-se dimensões complementares ao serviço do Reino. O encontro com a Palavra torna fecundo o serviço generoso e compassivo ao próximo. Sem a disposição para escutar o Mestre, corre-se o risco de escolher a parte menos boa, arriscando o desvio do caminho do Reino de Deus.
Marta aparece como dona de casa diligente, ativa, preocupada em bem receber os hóspedes. Sente que nem tudo será perfeito, que precisa de ajuda. Intervém junto de Jesus enquanto Ele fala, pedindo que mande Maria a ajudá-la. Mostra-se agastada por lhe parecer, talvez injusto, que todo o trabalho recaia sobre ela e que Maria seja dispensada dele.
A resposta de Jesus é bastante misteriosa: Marta, Marta andas inquieta e agitada. Uma só coisa é necessária … Maria escolheu a melhor parte que não lhe será tirada. Jesus censura a inquietação e a agitação de Marta, que faz muitas coisas ao mesmo tempo; a preocupação de bem receber o seu hóspede domina tudo o resto, quando o importante já não é receber bem o Senhor, mas fazer com que a receção seja um êxito. Marta, invadida pelas preocupações acaba por inverter o valor e a importância das coisas. O zelo tinha-a levado longe de mais: o que era acessório tomara o lugar do essencial.
Há, no texto, um pormenor relevante, o da “posição” de Maria: “sentada aos pés de Jesus”. É a posição típica do discípulo diante do mestre (cf Lc 8,35; At 22,3). É situação surpreendente num contexto sociológico em que as mulheres tinham um estatuto de subalternidade e viam limitados alguns direitos religiosos e sociais; por isso, nenhum “rabbi” da época se dignava aceitar uma mulher no grupo dos discípulos que se sentavam aos seus pés para escutar as suas lições. Lucas (que procura dizer que Jesus veio libertar e salvar os que eram oprimidos e escravizados, nomeadamente as mulheres) mostra, neste episódio, que Jesus não faz qualquer discriminação: o facto decisivo para ser seu discípulo é estar disposto a escutar a sua Palavra.
Não raro, o episódio foi lido em chave de oposição entre ação e contemplação; no entanto, não é isso que está em causa. Lucas não está, nesta catequese, a explicar que a vida contemplativa é superior à vida ativa; está é a dizer que a escuta da Palavra de Jesus é o mais importante para a vida do crente, pois é o ponto de partida da caminhada da fé. Isto não significa que “fazer coisas”, “servir os irmãos” não seja importante; mas significa que tudo deve partir da escuta da Palavra, pois é essa escuta que nos projeta para os outros e nos faz perceber o que Deus espera de nós. Assim, a experiência de Marta é preciosa, pois é um aviso salutar para nós, que não devemos confundir os fins com os meios nem pôr estes acima daqueles. Um único fim é importante: servir o Senhor e não servirmo-nos do dele para as nossas ambições ou desejos pessoais. O próprio serviço do Senhor pode contribuir para isso se não estivermos atentos.
Quantas vezes, até quando nos empenhamos nas obras de apostolado (catequese, liturgia, pastoral social, pastoral familiar, acolhimento, etc.) não nos procuramos mais a nós próprios, ao nosso êxito pessoal do que propriamente a servir os outros ou a Deus!
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A 1.ª leitura (Gn 18,1-10a) apresenta o acolhimento de Abraão e Sara aos três visitantes, que manifestam a salvação de Deus. A hospitalidade, oferecida pelos pais da fé, é recompensada pela promessa de um filho, o maior desejo de Abraão.
Os capítulos 12-36 do Génesis são textos sem grande unidade e sem caráter de documento histórico ou de reportagem jornalística. Estamos ante uma mistura de “mitos de origem” (narravam a chegada dum “fundador” a um determinado local e a tomada de posse daquela terra), de “lendas cultuais” (relatavam como um deus qualquer apareceu em determinado local a um desses “fundadores” e como esse lugar se tornou um local de culto) e de relatos onde se expressa a realidade da vida nómada durante o 2.º milénio antes de Cristo. Na origem do texto em referência estará uma antiga “lenda cultual” que narrava como três figuras divinas terão aparecido a um cananeu anónimo junto do carvalho de Mambré (perto de Hebron), como o cananeu os acolhera na sua tenda e como fora recompensado com um filho pelos deuses (Mambré era um santuário cananeu, já no terceiro milénio a.C., antes de Abraão aí ter chegado). Mais tarde, quando Abraão ali se estabeleceu, a lenda cananeia foi-lhe aplicada e ele passou a ser o herói desse encontro com as figuras divinas.
No séc. X a.C. (reinado de Salomão), os autores jahwistas recuperaram essa velha lenda para apresentarem a sua catequese. No estado atual do texto, a personagem central é Abraão, a figura que os catequistas jahwistas apresentam aos israelitas da época de Salomão, como um modelo de vida e de fé.
Abraão está “sentado à entrada da tenda, na hora de maior calor do dia”. De súbito, aparecem três homens diante de Abraão, que os convida a entrar, não se limitando a trazer-lhes água para lavar os pés, mas improvisando um banquete com pão recém-cozido, um vitelo “tenro e bom” do rebanho, manteiga e leite. Depois, fica de pé junto deles, na atitude do servo vigilante para que nada falte aos convidados: é a lendária hospitalidade nómada no seu melhor. Abraão surge como o modelo do homem íntegro, humano, bondoso, misericordioso, atento a quem passa e disposto a repartir com ele, de forma gratuita, o que tem de melhor.
Terminada a refeição, é anunciada a Abraão a próxima realização dos seus mais profundos anseios: a chegada dum filho, o herdeiro da sua casa, o continuador da sua descendência. Aparentemente, o dom do filho é a resposta de Deus à ação de Abraão: o autor jahwista quer dizer-nos que Deus não deixa passar em claro, mas recompensa uma tal atitude de bondade, de gratuitidade, de amor.
Complementarmente, fica espelhada a atitude do verdadeiro crente face a Deus. Ao longo do relato – sem que fique expresso se Abraão tem ou não consciência de que está diante de Deus – transparece a serena submissão, o respeito, a confiança total (num desenvolvimento em que Sara ri diante da “promessa”, mas Abraão conserva um silêncio digno, sem manifestar qualquer dúvida): tais são as atitudes que o crente é convidado a assumir diante deste Deus que vem ao encontro do homem.
Atente-se, também, na sugestiva imagem de um Deus que irrompe repentinamente na vida do homem, que aceita entrar na sua tenda e sentar-Se à sua mesa, constituindo-Se em comunidade com ele. Por detrás desta imagem, está o significado do comer em conjunto: criar comunhão, estabelecer laços de família, partilhar vida. O jahwista apresenta, assim, um Deus dialogante, que estabelece laços familiares com o homem, com quem deseja estabelecer uma história de amor e de comunhão. O jahwista aproveitou a velha “lenda cultual” e a figura inspirativa de Abraão para apresentar aos homens do seu tempo o modelo do crente: ele é aquele a quem Deus vem visitar, que o acolhe na sua casa e na sua vida de forma exemplar, que põe tudo quanto possui nas mãos de Deus e que manifesta, com este comportamento, a sua bondade, humanidade, confiança e fé; ele é aquele que partilha o que tem com quem passa e cumpre em grau extremo o sagrado dever da hospitalidade. A realização dos anseios mais profundos do homem é a recompensa de Deus para quem age como Abraão.

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A atitude de hospitalidade perpassa por toda a celebração litúrgica. Deus acolhe-nos, nós acolhemos Deus. A iniciativa é sempre d´Ele que nos ama primeiro. A hospitalidade implica também estar à mesa: Ele está à nossa porta e bate é preciso ouvir a sua voz e abrir, assim cearemos juntos (antífona da comunhão; cf Ap 3,20). Não é comer por comer, mas a partilha da mesa implica em nossa vida partilhar do mesmo destino de Jesus Cristo e para isto é necessário que Ele nos ajude a despojarmos do velho homem e para uma vida nova (oração pós-comunhão).
Para fomentar um ambiente agradável entre as pessoas é indispensável o cultivo dos bons hábitos, chamados vulgarmente virtudes humanas. Entre muitas outras, encontra-se a virtude da hospitalidade, que nos aparece com grande relevo na Sagrada Escritura e é ainda em muitos lugares tida em grande conta. No entanto, podemos perguntar até que ponto ela é possível nos nossos ambientes. As pessoas debatem-se com magros rendimentos, territórios destruídos pelas catástrofes (naturais e humanas), falta de tempo, habitações reduzidas, condicionamentos dos horários de trabalho e séria ameaça à segurança que aconselha a não receber em casa pessoas estranhas. Ademais, parece que é menos necessária hoje a hospitalidade. As pessoas deslocam-se rapidamente dum lugar para o outro, não tendo necessidade de se hospedarem fora de casa.
Não obstante, a hospitalidade, como todas as virtudes, é de todos os tempos. O importante é configurá-la aos tempos em que vivemos, encontrar formas novas de a viver.
Abraão, que recebeu três misteriosas personagens no seu acampamento, quando estava à porta da tenda, por causa do calor sufocante que se fazia sentir, surge como modelo da hospitalidade.
Uma virtude humana indispensável. “Abraão estava sentado à entrada da sua tenda, no maior calor do dia. Ergueu os olhos e viu três homens de pé diante dele. Logo que os viu, deixou a entrada da tenda e correu ao seu encontro.”. Abraão levanta-se prontamente, logo que se dá conta da presença os três personagens. Esta prontidão deixa-nos entrever que estava já habituado a fazê-lo. A hospitalidade, virtude humana que consiste em acolher bem os outros, acolhê-los e partilhar a vida com eles, traz consigo um grande número de virtudes-satélites.
Entre estas, contam-se a cordialidade e a simpatia. Abraão não espera que lhe venham ao encontro e peçam algo de que necessitam. Aproxima-se pressuroso, manifestando a sua alegria em recebê-los. Com efeito, é preciso que as pessoas sintam a nossa alegria em recebê-las.
Outra virtude conexa com a hospitalidade é o espírito de sacrifício. Era a hora mais quente do dia. Numa situação destas, somos tentados a pensar só em nós procurando evitar a temperatura incómoda, desejando que ninguém nos incomode e nos deixem em paz. Ora, sem esta dimensão do sacrifício, as pessoas tornam-se ilhas fechadas e isoladas, tornando impraticável a convivência humana. E o Senhor bate-nos à porta em horas incómodas, misteriosamente presente nos nossos irmãos.
Depois é necessária a abertura do coração. Mais do que abrir a porta de casa ou a bolsa, a hospitalidade consiste em abrir as portas do coração, em encontrar tempo e paciência para escutar e aceitar a partilha de problemas, dores ou preocupações. Abraão nem sequer tem casa para receber, porque vive ainda em nomadismo. Mas nós, hoje temos muitas oportunidades de praticar esta virtude. O isolamento, sobretudo dos mais idosos e doentes que são forçados a permanecer em casa é realidade gritante; muitas pessoas sentem-se asfixiadas pelos problemas da vida e vão até ao desespero. Precisam de quem as oiça. Fomenta-se o voluntariado e as obras de apostolado que oferecem ajuda e são uma forma preciosa de viver em solidariedade, porque trabalham sem qualquer recompensa e apoiam-se num compromisso de continuidade.
Acolher com generosidade. “Mandarei vir água, para que possais lavar os pés e descansar debaixo desta árvore. Vou buscar um bocado de pão, para restaurardes as forças antes de continuardes o vosso caminho, […].”. Abraão segue os costumes do seu tempo. Ofereceu aos misteriosos visitantes água para lavar os pés da poeira dos caminhos e o melhor que tinha nos seus rebanhos e na tenda para lhes preparar uma refeição.
No acolhimento é preciso situar-se bem entre dois extremos: esbanjamento, que tem como origem a tentação da vaidade, de aparentar um luxo que não existe, o que pode acontecer também com o tempo, ocupando espaço que pertence à oração, ao trabalho profissional, aos deveres de estado, etc.; e mesquinhez, que denuncia um coração tacanho, que leva a fazer o menos possível para receber alguém, não estando o problema tanto no que se dá, mas no modo como se dá. A falta de tempo, de disponibilidade, para acolher, pode ser uma máscara para encobrir o egoísmo. Para nos defendermos desta tentação, pensemos em que gastamos o tempo. Talvez houvesse outras coisas menos importantes que poderiam ter cedido o seu lugar a um acolhimento. É generosidade acolher com um rosto sereno quando temos muito que fazer e o tempo é reduzido e quando estamos em más condições de saúde ou cansados ou temos coisas urgentes à nossa espera.
Deus (e Jesus, a sua melhor imagem) recompensa a hospitalidade. “Depois eles disseram-lhe: ‘Onde está Sara, tua esposa?’. Abraão respondeu: ‘Está ali na tenda’. E um deles disse: “Passarei novamente pela tua casa daqui a um ano e então Sara tua esposa terá um filho’.”. Esta promessa aparece diretamente relacionada com o gesto de hospitalidade que Abraão tivera para com eles. Também a viúva de Sarepta ofereceu o último punhado de farinha e as últimas gotas de azeite para que se fabricasse o pão com que Elias matasse a fome, e nunca mais o alimento lhe faltou, até que acabou a seca naquela terra, pois Deus nunca se deixa vencer em generosidade e recompensa sempre a hospitalidade feita por amor d’Ele.
A primeira recompensa que Deus nos oferece pela hospitalidade é uma grande paz e alegria interiores. É o que deve ter sentido Abraão e Sara, depois deste acolhimento caloroso. É alegria de ver o outro feliz, e ter vencido o egoísmo, fazendo algo que talvez nos custasse. Depois, o coração de quem pratica esta virtude dilata-se, cresce na sua capacidade de amar e de vencer o egoísmo que nos fecha em nós mesmos.
A hospitalidade é uma das obras de misericórdia e merece recompensa eterna. No Evangelho do juízo final, Jesus faz consistir o julgamento apenas sobre a caridade que se exprime por estas obras. “Vinde, benditos de Meu Pai…!” (Mt 25,31-46).
E o Evangelho mostra à saciedade o valor da hospitalidade, que merece a recompensa eterna e já neste mundo a recompensa a cem por um. Jesus lava os pés aos discípulos e quer que eles façam o mesmo aos outros, aceita a unção duma pecadora, tal com aceitou o convite do fariseu para um banquete (Lc 7,37-50), como aceitou a unção de Maria de Betânia (Jo 12,1-11). 
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A hospitalidade pratica-se entre famílias com relações de amizade, que se encontram em almoços, jantares, passeios em comum e, mesmo, acolhendo-se na casa uns dos outros.
Quando as viagens eram longas e penosas, esta espécie de hospitalidade era mais necessária. A mãe de São João Bosco e os pais de São João Maria Vianney recebiam em sua casa viajantes, pobres e desertores dos exércitos, ofereciam-lhes comida e dormida. Hoje, porém, por causa dos exigentes horários de trabalho, habituações reduzidas ao mínimo indispensável, e até por causa da falta de segurança crescente, fica desmotivada esta espécie de hospitalidade. Ademais, parece que agora é menos necessária, por as viagens serem rápidas, e não se dispõe de tempo. Mas há formas de hospitalidade e de acolhimento muito necessárias no nosso tempo.
Hoje a hospitalidade concretiza-se em encontrar tempo e disposição para os outros: visitando idosos e doentes que passam o dia sós ou em lares perdidos no anonimato, embora identificados; disponibilizando-se para ouvir os que sofrem e iluminar o seu sofrimento e debilidades à luz da fé com a ternura do coração magnânimo; e acolhendo quem nos surge no caminho a abrir o seu coração e receber uma palavra amiga que lhe possa orientar a vida.
2019.07.21 – Louro de Carvalho

quinta-feira, 20 de junho de 2019

“Comeram e ficaram saciados”


Era a frase lapidar que se lia na Igreja Seminário Santa Cruz, dos Passionistas, em Santa Maria da Feira, como tema deste Dia da Eucaristia na Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo, no Ano C, citando da perícopa do Evangelho de Lucas (Lc 9,11b-17), proclamada na Liturgia, o seu versículo 17. 
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Segundo a reflexão de Dom António Couto, Bispo de Lamego, publicada a 19 no “Jornal da Madeira”, a Liturgia da Palavra abre com um trecho do Génesis (Gn14,18-20), que delineia a rota que passa pelo Salmo 110, em que Deus consagra o Messias Senhor como “sacerdote para sempre segundo a ordem de Melquisedec” (malkî-tsedeq) – rei e sacerdote de Shalem, a futura Jerusalém, yerûshalaim (cidade da paz – shalôm –, embora o seu nome signifique ‘Shalem a edificou’) – consagração que ressoa na Carta aos Hebreus, que exalça Jesus como “sacerdote para sempre segundo a ordem de Melquisedec” (5,6.10; 6,20; 7,11.15.17), que “trouxe a Abraão, pão e vinho, paz e bênção”, e cujo sacerdócio não tem fim, pelo que pode salvar para sempre quem se aproxima de Deus, porque Se ofereceu (anaphérô) a Si próprio de uma vez por todas (ephápax) (Heb 7,24-25.27). Melquisedec aparece em Gn 14, no Salmo 110 (com a adição do segmento para sempre) e na Carta aos Hebreus, lá onde o sacerdócio de Jesus é para sempre, segundo a ordem de Melquisedec, e não segundo a de Aarão e Levi, em que os sacerdotes se sucediam e se fiavam nos sacrifícios dos animais.
E, tendo em conta a “lex orandi lex credendi”, é de notar que no Cânone Romano, a Igreja reza:
Olhai com benevolência e agrado para esta oferenda, e dignai-vos aceitá-la, como aceitastes os dons do justo Abel, vosso servo, o sacrifício de Abraão, nosso pai na fé, e a oblação pura e santa do sumo-sacerdote Melquisedec”.
Mas, como diz António Couto, “esta avenida bela e florida passa também pelo Cenáculo, e transparece no belo hino intitulado Lauda Sion Salvatorem [= «Louva, Sião, o Salvador»], em que cantamos assim: “Eis aqui o pão dos anjos,/ feito pão dos peregrinos,/ que não deve profanar-se.// Em figuras proclamado,/ como Isaac hoje imolado,/ é Cordeiro e maná puro.”.
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O Bispo do Porto, sublinhando a importância da celebração desta Solenidade, aliou-lhe, na sua homilia, na Igreja da Trindade, os deveres do cristão de adorar o Sacramento, de comungar o Corpo e o Sangue de Cristo, fazendo da celebração da Eucaristia o centro da vida, mas também a rampa de lançamento para a atenção solidária para com aqueles que mais precisam – à semelhança de Jesus e dos discípulos.
Jesus acolheu as multidões que O seguiram e pôs-se a falar-lhes do Reino de Deus, curando os que necessitavam. Porém, como dia chegava ao fim, os discípulos antevendo a necessidade de comer da multidão, ficaram preocupados e sugeriram ao Mestre que despedisse a multidão para que pudessem as pessoas arranjar pão nas redondezas.
Ao invés, Jesus, assinalando a responsabilidade do cuidado dos corpos famintos inerente à pregação, prescreveu que lhe dessem de comer os discípulos. E estes, como só tinham consigo 5 pães e 2 peixes, dispunham-se a ir comprar comida para este povo. Mas Jesus tinha a solução, porque os discípulos estavam dispostos a resolver o problema e a partilhar o que tinham e o que poderiam vir a ter, e decidiu:
Disse aos discípulos: ‘Mandai-os sentar por grupos de cinquenta’. Assim procederam e mandaram-nos sentar a todos. Tomando, então, os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos ao céu, abençoou-os, partiu-os e deu-os aos discípulos, para que os distribuíssem à multidão. Todos comeram e ficaram saciados; e, do que lhes tinha sobrado, ainda recolheram doze cestos cheios.”.
Dom Manuel Linda chamou a atenção para a importância da partilha e para a ação de Deus que vem em auxílio do pouco valor que possa ter a ação dos homens, desde que se mobilize totalmente, de acordo com as suas possibilidades. E referiu que se alimentaram e se saciaram cinco mil homens e acrescentou – o que Lucas não diz expressamente, mas que Mateus o faz – sem contar as mulheres e as crianças. E tem razão, pois Lucas fala em “hôsei ándres pentakiskhílioi” (em grego) ou “fere viri quinque milia” (em latim), ou seja, quase cinco mil varões (não se diz ánthropoi ou homines).
Por consequência, lançando o olhar para o mundo atual e a degradação do devir civilizacional, denunciou dois casos graves. O primeiro é o do matemático português, que arrisca 20 anos de prisão por ser apanhado a salvar vidas de refugiados no Mediterrâneo, em virtude da nova lei italiana, que proíbe o apoio aos refugiados. E lamenta-se o prelado portuense, dizendo que é como se, ao invés do que é razoável, fôssemos premiados por deixar morrer as pessoas, quando já se tinha avançado no reconhecimento do dever de socorrer quem está em perigo e que se tornou plausível. Por outro lado, expôs, baseado em dados do INE, as centenas de milhares de desempregados que habitam o território português, de que duas centenas de milhares estão em risco de cair na pobreza, e referiu os casos de pessoas que vivem magramente dum trabalho que as deixa muito aquém da satisfação das necessidades pessoais e familiares e das suas capacidades de trabalho, por exemplo, em limpezas e alguns consertos.
E, por tudo isto, alertou os cristãos para a obrigação de, alinhados com o Evangelho e a Eucaristia, proverem a estas situações sociais num mundo em que impera o deus bem-estar.
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Por seu turno, o Bispo de Lamego, comentando este passo evangélico, rejeita a tese da multiplicação dos pães e aponta a divisão e partilha dos pães, dizendo que só Jesus sabe de uma divisão fazer uma multiplicação, não se tratando de aumentar a quantidade do pão e do peixe (“que permanece a mesma”), mas de abrir os olhos aos discípulos e a nós que “só conhecemos e pensamos na lógica do vender e do comprar, e não chegamos a saborear a lógica da gratuitidade” do Pai. Ora, esta lógica leva a crer no dom, a estar em saída e a ir por este mundo a partir o pão e a partilhá-lo, com a certeza de que “onde isto acontecer, não só se instaura o necessário para todos (“todos comeram e foram saciados”), como se instaura também o ‘excesso’, a superabundância da graça, caraterística fundamental do Reino de Deus (os discípulos encheram doze cestos).
O prelado lamecense frisa que aquele dia da vida de Jesus “se situa imediatamente a seguir ao regresso dos Doze da sua primeira missão e aponta, por tópicos, as notas fundamentais do seu diário do dia: “Jesus acolhia toda a gente (1), explicava a todos o Reino de Deus (2), curava os necessitados (3).”. Isto era “todo o afazer de Jesus”, a envolver “as pessoas todas no manto da ternura de Deus”, a ponto de “nem Jesus nem as pessoas” se aperceberem de que “o tempo passa e começa a cair a noite”. Todavia, os Doze, apercebendo-se, “intervêm e ditam a Jesus indicações, senão mesmo ordens, precisas”. A réplica de Jesus estonteia-os (Dai-lhes vós de comer!”) e “respondem às apalpadelas” (mais duro e talvez mais realista que o Bispo do Porto):
Primeiro esboço: ‘Só temos cinco pães e dois peixes’, que é como quem diz, mal chegam para nós… Segundo esboço: ‘A menos que vamos nós mesmos comprar comida para eles’…” (Lc 9,14).
Porque as considera desajustadas, o Mestre não equaciona “as indicações dos Doze”, mas “dá e faz ordens novas e surpreendentes, como faz sempre Deus”. E os apóstolos devem ter pensado: mandá-los reclinar à mesa (kataklínô), neste lugar ermo, “para comer o quê?!”.
Tal como Dom António Augusto Azevedo, Bispo eleito de Vila Real, na Igreja dos Passionistas, em Santa Maria da Feira, Dom António Couto, aponta a “Ação Eucarística de Jesus”:
Tendo recebido os cinco pães e os dois peixes, levantou os olhos para o céu (gesto de oração), pronunciou a bênção, partiu-os e dava aos discípulos para servirem à multidão”.
E diz o Bispo de Lamego:
Salta à vista que os gestos que Jesus faz naquele entardecer são um claro decalque daqueles que fará um ou dois anos mais tarde no interior da sala do Cenáculo na última tarde da sua vida terrena. Basta apenas acostar aqui o relato Eucarístico do Cenáculo: ‘Jesus recebeu o pão, deu graças, partiu-o e deu-o a eles’ (Lc 22,19a). O novo nesta Ceia do Cenáculo é o dizer de Jesus sobre o pão partido e a eles dado: ‘Isto é o meu corpo dado por vós. Fazei isto em memória de mim’ (Lc 22,19b). E sobre o vinho: ‘Este é o cálice da nova aliança no meu sangue, por vós derramado’ (Lc 22,20).”.
Dom António Azevedo dizia que a celebração da Eucaristia – adorante e comungante – postula a redescoberta da centralidade da Eucaristia (para ela nos dirigimos da vida de cada dia e dela partimos para a vida) na vida da Igreja e na de cada cristão e apontava a força anímica do levantar os olhos ao céu e do abençoar, tal como a do partir o pão e partilhá-lo. Por outro lado, em Ano Missionário, sublinha que importa perceber as duas dimensões da Eucaristia: a espiritual, que nos leva a orar, saborear e adorar; e a missionária, testemunhando que Jesus, que morreu e ressuscitou, está vivo e vive entre nós; que, por Si e através de nós, continua a pregar o Reino de Deus, a compadecer-se e a colmatar as necessidades do mundo dos homens.     
Dom António Couto vê, na perícopa em referência, “o lado subversivo do Evangelho”:
Jesus não se contenta, nem quando nós nos propomos comprar pão para alimentar os outros. Para Jesus não é compreensível que uns tenham mais, outros menos e outros nada, e que esta situação se possa amenizar pontualmente. Dar tudo é a medida de Deus e a lógica do Evangelho. Por isso, Jesus diz: ‘Isto é o meu corpo dado por vós. Fazei isto em memória de mim’ (Lc 22,19b); ‘Este é o cálice da nova aliança no meu sangue, por vós derramado’ (Lc 22,20). Vida partida, repartida e dada por amor. Eis o inteiro programa de Jesus. Eis tudo o que devemos fazer, imitando-o.”.
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O Bispo de Lamego considera a graça de hoje podermos “escutar um dos mais antigos e intensos relatos da Ceia do Senhor”, que foi assumido como 2.ª leitura. E traduziu:
O Senhor Jesus, na noite em que ia ser entregue (paredídeto), recebeu (élaben) o pão (árton), e dando graças (eucharistêsas), partiu-o (éklasen) e disse: ‘Isto é o meu corpo, que é para vós; isto fazei para memória de mim’. Do mesmo modo fez com o cálice, depois da ceia, dizendo: ‘Este cálice é a nova Aliança no meu sangue; isto fazei, sempre que o beberdes, para memória de mim’. Portanto, sempre que comerdes este pão e beberdes este cálice, estais a anunciar (kataggéllete) a morte do Senhor até que Ele venha (áchris hoû élthê)”. (1Cor 11,23-26).”.
E, sublinhando que “a vivência da Eucaristia transforma a nossa vida desde dentro”, fixa os verbos que perpassam o relato: receber, dar graças e partirpartilhar o pão. De receber diz que “é a base da nossa vida, vocação e missão sempre de Deus recebidas”. Pensa dar graças como fundamental porque só reconhecendo “que a Graça tomou conta de nós”, é que “podemos e sabemos dar graças” e o percebemos e assumimos como “atitude que transforma a nossa vida”. E ensina que partirpartilhar o pão implica saber que nada é nosso nem a vida, pelo que “tudo é para partilhar com alegria com tantos irmãos”.
Depois, assenta em que é preciso agir eucaristicamente em memória de Jesus ou ao jeito de Jesus porque Ele está “no centro da nossa da nossa vida e das nossas atitudes”; e que anunciar a morte do Senhor não é “chorar ou de vestir de luto”, mas “saber ver bem a Cruz de Jesus e o caminho da Cruz de Jesus”. Na verdade, trata-se de anunciar que “Jesus viveu e morreu para a dar a vida por amor, para sempre e para todos”.
Jesus sintetizou em Si o sacrifício de Melquisedeque, no pão e no vinho, e o de Aarão, no sacrifício de animais. Qual imaculado cordeiro pascal, entregou-Se no patíbulo da cruz, mas depois de Se entregar na Ceia sob as espécies de pão e de vinho. Na cruz, fez-se ponto de atração redentora; na Ceia, fez-se banquete tornando-se o “Pão repartido para a vida do mundo”.  
A Eucaristia cumpre em pleno a figura veterotestamentária do banquete de carnes gordas e vinhos finos preparado sobre o monte pelo Senhor dos Exércitos (cf Is 25,6), para o qual a Sabedoria manda anunciar nos pontos altos da cidade: “Vinde, comei do meu pão, bebei do vinho que preparei” (Pr 9,5) – “banquete que se entrevê na carne preparada em abundância e nos 60 quilos de farinha que, lado a lado, Sara e a mãe de família do Evangelho, metem ao forno (Gn 18,6-7; Mt 13,33; Lc 13,21)”.
E Dom António Couto, tal como Dom António Azevedo, salientou o significado da procissão pelas ruas da Cidade como presidência e bênção facultadas pela presença do Senhor da nossa vida, que decide caminhar connosco. Mas faz um aporte interessante sobre o pálio (pallium), referindo que “o pálio de Deus é o manto (pallium) de Deus, os braços carinhosos com que nos abraça e nos envolve, e nos pede para fazermos outro tanto, enchendo de graça e de esperança todos os nossos irmãos, sobretudo os mais sofridos e marginalizados” – aspeto em que as mensagens dos Bispos do Porto e de Lamego se tocam.
E, citando um autor italiano, desenvolve:
Jesus Cristo é Deus presente no nosso mundo e no nosso meio todos os dias. E o pálio é o manto, o abraço, com que nos acarinha e envolve. De pálio (pallium) vêm os cuidados paliativos, que não são apenas os cuidados médicos que são prestados aos nossos doentes terminais; são sobretudo a expressão de um amor maior, de um manto maior, que nos envolve e nos salva em todas as situações” (Gianluigi Peruggia, L’abbraccio del mantello, Saronno, Monti, 2004).
Enfim, temos, pois, que aprender as lições que nos traz a Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo. Com efeito, vivendo unidos e reunidos, em Igreja, à volta do Senhor, “que por nós parte e reparte a sua vida”, capacitar-nos-emos para a partilha solidária com todos e semearemos a esperança num mundo egoísta negativamente competitivo, em que “os pobres não podem esperar” (Dom António Francisco dos Santos) e são espezinhados por aqueles que os exploram e cinicamente os acusam de serem eles os culpados da sua própria pobreza.
Que Deus perdoe os males que fazemos e nos dê a sabedoria para apreciarmos o mistério e nos empenharmos na missão.  
2019.06.20 – Louro de Carvalho