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domingo, 19 de agosto de 2018

Deixar a insensatez para viver alimentando-se do Pão da Vida


Esta indicação de vida vem inserta na perícopa do Livro dos Provérbios tomada como 1.ª leitura (Pr 9,1-6) da Missa do XX domingo do Tempo Comum no Ano B e perdura nas demais.
Em termos gerais, o Livro dirige-se às gerações jovens necessitadas das lições da sabedoria experiencial e da sabedoria teológica, pelo que lhes coloca à frente um conjunto de ditos que a experiência sapiencial soube formular e de outros que a reflexão dos mestres em contacto com a revelação por parte da Sabedoria incriada – Deus – pôs em evidência.
Em especial, esta perícopa sapiencial expõe a Sabedoria como arquiteta perfeita (edificou a casa e levantou sete colunas), estratega (abateu os animais, preparou o vinho e pôs a mesa; enviou as servas a proclamar nos pontos mais altos da cidade: ‘Quem é inexperiente venha por aqui) e como conselheira leal junto dos insensatos: “Vinde comer do meu pão e beber do vinho que vos preparei. Deixai a insensatez e vivereis; segui o caminho da prudência. Através da parábola, o “sábio” apresenta a “senhora sabedoria” e o convite que ela dirige a todos os que a querem descobrir.
A casa que ela edifica tem obviamente sete colunas (o número sete é, no universo cultural judaico, o número da plenitude, da perfeição), pois é a “casa” onde se encontra a plenitude. Tratar-se-á escola regida pelos “sábios” de Israel e onde se ensinava a “sabedoria”?
Na sua “casa”, a “senhora sabedoria” organiza o “banquete”, preparando comida e vinho em abundância e põe a mesa, após o que envia as servas para que levem a toda a cidade o pregão-convite à participação na festa. A “comida” e o “vinho” referem-se ao “alimento sapiencial”, ou seja, às normas ensinadas pelos “sábios” nas escolas sapienciais destinadas a “armar” os discípulos para enfrentarem com êxito os problemas do quotidiano e alcançarem a felicidade. Porém, visto que muitos dos segmentos veterotestamentários são antecipação figurativa do Novo Testamento, não estaremos face à antecipação do banquete nupcial para o qual o Rei convidou muitos, que arranjaram motivos de escusa, pelo que mandou os servos trazerem todos os pobres e deficientes que encontrassem pelo caminho (cf Lc 14,15-24)? E certamente que se pode ler esta perícopa do Livro dos Provérbios com a mira no discurso do Pão da Vida que enforma a leitura evangélica dos XVII, XVIII, XIX, XX e XXI domingos do Tempo Comum deste Ano B e, em particular o Evangelho do XX (Jo 6,51-58).
Assim, é de questionar “quem serão os destinatários do convite feito pela senhora Sabedoria”? E a resposta tem de abranger os “simples”, os inexperientes e mesmo os insensatos. Porém, estes não se podem enclausurar no murmúrio, no hipercriticismo. Têm, antes, de estar disponíveis para seguir a via da prudência com vista ao mistério e à vida, procurados e trabalhados, não pelo instinto, mas pela inteligência e pela sensatez com que a Sabedoria incriada, ora encarnada no meio dos homens, vem em socorro e incremento do esforço humano.  
Os “simples” equivalem aos “pobres” da literatura bíblica: são os pequenos, os humildes, os que não vivem enredados em mecanismos de orgulho e autossuficiência e têm o coração aberto a Deus e às suas propostas. Os “insensatos” que desejam seguir a rota da prudência são os que não se conformam com a sua fragilidade e debilidade e estão disponíveis para o esforço de reformulação da sua vida e de acolhimento dos dons da sabedoria.
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Já o texto da Carta aos Efésios tomado como 2.ª leitura (Ef 5,15-20), pertencente à 2.ª parte da Carta (exortação aos batizados) constitui uma chamada de atenção aos destinatários para que olhem o mundo que os envolve e leiam a urgência de abandono das antigas formas de viver. E, revestidos de Cristo, imitando a Deus e passando das trevas à luz – tópicos da catequese batismal – hão de viver como pessoas inteligentes, aproveitando bem o tempo e procurando discernir qual é a vontade do Senhor. Por isso têm de se abster de tudo quanto seja caminho para a luxúria e encher-se do Espírito Santo, obviamente rejeitando as seduções e pompas mundanas e fortalecendo a inteligência e a vontade com a recitação, em comunidade, de “salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando e salmodiando” nos corações, e “dando graças, por tudo e em todo o tempo, a Deus Pai, em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo. Os cristãos, definitivamente comprometidos com Cristo pelo Batismo, não podem, insensatamente voltar aos valores do homem velho. É certo que os tempos não são favoráveis e não ajudam a viver com coerência a própria fé e os seus valores; mas é precisamente nesses ambientes mais difíceis e adversos que se torna mais necessário dar testemunho do projeto de Deus e cumprir a vontade do Senhor. E a oração, sobretudo a comunitária, é uma grande fonte de alimentação desta nova forma de viver.
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O Evangelho de João (Jo 6,51-58) continua o discurso do Pão da Vida. A afirmação perentória de Jesus “Eu sou o pão vivo que desceu do Céu: se alguém comer deste pão, viverá eternamente; e o pão que Eu hei de dar é a minha carne, pela vida do mundo”, enervou os judeus, que discutiam entre si, exaltados, “Como pode Ele dar-nos a sua carne a comer?!”. 
Santo Agostinho, considerando que as palavras “Jesus, carne e sangue, pão e vinho” são as palavras que, pronunciadas sobre o altar, operam uma transformação, discorre:
Se tiras a palavra, é pão e vinho; se acrescentas a palavra, é já outra coisa. E esta outra coisa é o corpo e o sangue de Cristo. Tiras a palavra, é pão e vinho; acrescentas a palavra e converte-se em sacramento.”.
Por isso, devemos interrogar-nos sobre a importância que tem para nós a Palavra de Deus e sobre o repto espiritual e pastoral de a pronúncia das palavras de Jesus sobre a nossa carne poderá converter-nos em pão para o mundo. Na verdade, São Policarpo de Esmirna, no auge do martírio, clamava que se tornara trigo para alimento da Igreja e dos pobres e agora o converteram em alimento das feras. 
João não relata a instituição da Eucaristia, mas frisa o seu significado na vida da comunidade. A simbologia do lavar os pés e a força do mandamento novo (Jo 13,1-35) serão o memorial do pão repartido e do vinho derramado. O conteúdo teológico é o dos sinóticos. A tradição cultual joânica encontra-se no “discurso eucarístico” subsequente ao milagre da multiplicação dos pães e que evidencia o significado profundo da existência de Cristo dada ao mundo, dom e fonte de vida que induz a comunhão profunda no novo mandamento da pertença. A referência ao maná é explicativa da simbologia pascal em que o sentido da morte é assumido e superado pela vida: “Os vossos pais comeram o maná no deserto e morreram, mas este é o pão que desce do céu para que quem o coma não morra”. O destinatário deste pão (cf Ex 16; Jo 6,31-32) não é tanto cada um, mas sobretudo a comunidade, embora cada um seja chamado a participar pessoalmente no alimento dado para todos. E quem o come não morrerá, pois este pão da revelação é o lugar da vida sem ocaso. Do pão, o 4.º evangelista passa outra palavra para indicar o corpo, sarx, que designa a pessoa humana na sua frágil e débil realidade diante de Deus, e em João a realidade humana do Verbo divino feito homem. Este pão é a carne de Jesus. Não é um pão metafórico, mas o pão eucarístico. E, enquanto a revelação, ou seja, como pão da vida, identificado com a pessoa de Jesus, é dado pelo Pai. O pão eucarístico, ou seja, o corpo de Jesus, será oferecido por Ele pela morte na cruz prefigurada na consagração do pão e do vinho durante a Última Ceia: “O pão que eu darei é a minha carne para a vida do mundo”.
A discussão dos judeus revela o drama do pensamento que se fica no empirismo, não ousando penetrar o véu do mistério. É a situação de quem crê sem crer, de quem sabe sem saber. Ora, o convite de Jesus para fazer o que Ele fez “em memória” d’Ele, tem paralelismo na palavra de Moisés, ao prescrever a recordação pascal: “Este dia será para vós um memorial e vós o festejareis” (Ex 12,14). E a celebração da Páscoa judaica não era apenas a recordação dum acontecimento passado, mas também a sua presentificação, no sentido de que Deus está disposto a oferecer de novo ao povo a salvação, sobretudo a quem, nas circunstâncias mutáveis da história, tem mais necessidade. Assim, o passado irrompe no presente com a força salvífica e o sacrifício eucarístico “poderá” dar pelos séculos “carne para comer”.
Jesus não desarma e adverte: Se não comerdes mesmo a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós. Tal como os sinóticos, João utiliza expressões separadas para indicar a entrega de Cristo, o que não significa a separação em partes, mas a totalidade da doação da pessoa e, sobretudo, a corporeidade de Cristo ressuscitado, totalmente compenetrado pelo Espírito Santo no acontecimento pascal, transmutada em manancial de vida para todos os crentes, de modo eminente pela Eucaristia, unindo estreitamente a Cristo glorificado à direita do Pai cada um dos crentes, fazendo-o participante da sua vida divina. João não refere expressamente as espécies do pão e do vinho, mas o que nelas é significado: carne para comer, porque Cristo é presença que alimenta a vida; e sangue para viver – ação sacrílega para os judeus – porque Cristo é o Cordeiro imolado. É evidente o caráter litúrgico sacramental: Jesus insiste na realidade da carne e do sangue referindo-se à sua morte, pois, na imolação das vítimas, a carne era separada do sangue (e o sacrifício de Cristo inova na continuidade).
A comunhão na carne e no sangue de Cristo garante-nos, já no presente, a vida eterna e, no último dia, a ressurreição (cf Jo 6,54). Daqui resulta que a Páscoa vivida e liderada por Jesus e assumida pelo cristianismo primitivo recebe novo penhor, a ressurreição de Cristo, definitivo êxodo da liberdade plena (Jo 19,31-37), que encontra na Eucaristia o novo memorial, símbolo do Pão de vida que sustenta a Igreja na caminhada no deserto, sacrifício e presença que fortalece o novo povo de Deus, que, atravessadas as águas da regeneração, não cessará de fazer memória como Ele disse (Lc 22,19; 1Cor 11,24) até à Páscoa eterna. Fazendo o que Ele mandou em sua memória, anunciamos a sua morte e proclamamos a sua ressurreição até que Ele venha.
Penetrados pela presença do Verbo de Deus humano, os cristãos vivem em peregrinação a passagem da escravidão do pecado à liberdade de filhos de Deus: em conformidade com Cristo, capacitam-se para proclamar as maravilhas da luz admirável, oferecendo a Eucaristia da corporeidade do Senhor – sacrifício vivo, santo e agradável num culto espiritual (cf Rm 12,1) que se coaduna com o povo da conquista, estirpe escolhida, sacerdócio real (cf 1Pe 2,9).
A carne de Cristo como verdadeira comida e o seu sangue como verdadeira bebida (cf Jo 6, 55-56) constituem uma forma de interpenetração mútua. O comungante ficar a morar em Cristo Ele no comungante. A comunhão de vida que Jesus tem com o Pai é oferecida a todo o que come o corpo sacrificado de Cristo. Isto, sem incorrer na conceção mágica do alimento sacramental que confira automaticamente a vida eterna a quem o deguste. Não se trata de uma poção mítica! A comunhão da carne e do sangue postula a pregação para a fornecer a inteligibilidade e a possível e necessária compreensão da ação de Deus, requer a fé por parte de quem participa no banquete e conta com a ação proveniente de Deus, sem a qual não haverá nem escuta nem fé.
A participação no corpo e no sangue do Senhor gera uma vivência tão íntima entre o crente e Cristo muito semelhante à que o Filho tem com o Pai (cf Jo 6,57). Não se coloca, porém, o acento no culto como cume e fundamento da caridade, mas na unidade do corpo de Cristo vivo e operante na comunidade. Com efeito, “uma liturgia despregada da caridade fraterna equivale à própria condenação, porque despreza o corpo de Cristo que é a comunidade”. Na liturgia eucarística, o passado, o presente e o futuro da história da salvação, encontram símbolo eficaz para a comunidade, expressivo e não substitutivo da experiência de fé que deve estar sempre presente na história a insuflar-lhe vida. Pela Ceia e pela Cruz – inseparáveis –, o povo de Deus tomou posse das antigas promessas: a terra para além do mar, do deserto, do rio, onde mana o leite e o mel da liberdade capaz da obediência a Deus. As magnas realidades da antiga economia da salvação encontram nesta hora (cf Jo 17,1) a plena realização: da promessa feita a Abraão (Gn 17,1-8) à Páscoa hebraica (Ex 12,1-51). É um momento decisivo de recolha do passado do povo (cf DV, 4) em que se oferece ao Pai a primeira e mais nobre Eucaristia da nova aliança: o pleno cumprimento, sobre o altar do banquete e da cruz, de tudo quanto se esperava.
Na verdade,  este pão que desceu do Céu não é como aquele que os antepassados comeram, pois morreram; efetivamente quem come mesmo deste pão viverá eternamente (cf Jo 56,8). Jesus, ao declarar “Isto é o meu corpo” e “Este é o cálice do meu sangue”, estabelece uma relação verdadeira e objetiva entre estes elementos materiais e o mistério da sua morte, coroada na sua ressurreição. São palavras criadoras duma nova situação com elementos comuns da experiência humana e pelas quais se realiza verdadeiramente e sempre e misteriosa presença de Cristo vivo. Os elementos escolhidos são instrumento e símbolo. O “pão” que, pela relação com a vida, tem em si uma significação escatológica (cf Lc 14,15) facilmente se compreende enquanto alimento indispensável à subsistência e motivo de partilha universal. E o “vinho”, pela sua simbologia natural, exprime a alegria do homem e leva à plenitude da vida (cf Sl 104/103,15).
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Em Jesus cumpre-se o verdadeiro Pesach da história humana e dá-se-lhe novo e pleno sentido:
Antes da festa da Páscoa, Jesus, sabendo que chegara a hora de passar deste mundo para o Pai, depois de ter amado os seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim. Enquanto ceavam...” (Jo 13,1).
A novidade da Páscoa cristã é a passagem de Cristo deste mundo para o Pai mediante o sangue do seu sacrifício. E a Eucaristia torna-se o seu memorial. O pão do deserto faz-se presença de salvação e pacto de fidelidade e comunhão escrito na pessoa do Verbo. A história salvífica, que em Israel é narrada com acontecimentos, nomes, lugares, passa agora à reflexão e celebração da fé numa experiência de vida que, tendo feito de Javé o único nome, agora constitui Jesus, o seu Ungido, como o Senhor e Salvador. Tudo começa no grande encontro entre Deus e o homem traduzido num pacto de aliança, a antiga, e agora da nova e sempiterna. Se no mar dos juncos – última fronteira da escravidão para lá da qual se estende o território da liberdade – ficou deposto o corpo do velho Israel, agora ressurge o novo e livre Israel, agora nasce o Israel que abarca e inclui todos os filhos de Deus. E a celebração memorial da Páscoa de Cristo repropõe o acontecimento escatológico, capaz da plenitude divina que atua no presente, sinal sacramental da iniciativa de um Deus sempre fiel.
Peçamos o pão de cada dia incluindo o Pão da Vida e buscando o pão do corpo para todos.
2018.08.19 – Louro de Carvalho

domingo, 25 de março de 2018

Por favor, decidi-vos antes que gritem as pedras...


O segmento apelativo enunciado em epígrafe é a exortação final aos jovens presentes na Praça de São Pedro e a todos aqueles que estavam em ligação com Roma nesta XXXIII Jornada Mundial da Juventude (com o tema “Não tenhas medo, Maria! Encontraste graça junto a Deus” - Lc 1,30) em 25 de março de 2018, Domingo de Ramos na Paixão do Senhor.
Comemora-se a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém. Como refere o Evangelho de Marcos, proclamado depois da Bênção dos Ramos e antes da procissão aclamatória, “levaram, como previsto, o jumentinho a Jesus, lançaram-lhe por cima as capas e Jesus montou nele. Muitos estenderam as capas pelo caminho; outros, ramos de verdura que tinham cortado nos campos. E tanto os que iam à frente como os que vinham atrás gritavam: Hossana! Bendito seja o que vem em nome do Senhor! Bendito o Reino do nosso pai David que está a chegar. Hossana nas alturas! (Mc 11,7-10).
Por isso, na sua homilia, o Papa sublinha que a Liturgia convida “a intervir e a participar na alegria e na festa do povo que é capaz de aclamar e louvar o seu Senhor”. Com efeito, como refere o texto homilético de hoje, “Jesus entra na cidade rodeado pelos seus, rodeado por cânticos e gritos rumorosos”. E o Pontífice discorre:
Podemos imaginar que são a voz do filho perdoado, a do leproso curado ou o balir da ovelha extraviada que ressoam, intensamente e todos juntos, nesta entrada. É o cântico do publicano e do impuro; é o grito da pessoa que vivia marginalizada da cidade. É o grito de homens e mulheres que O seguiram, porque experimentaram a sua compaixão à vista do sofrimento e miséria deles... É o cântico e a alegria espontânea de tantos marginalizados que, tocados por Jesus, podem gritar: ‘Bendito seja o que vem em nome do Senhor!’ (Mc 11,9).”.
É, pois, justo e salutar bendizer “Aquele que lhes restituíra a dignidade e a esperança”, Aquele que é a “alegria de tantos pecadores perdoados que reencontraram ousadia e esperança”. Por isso, “gritam, rejubilam”: É a alegria.
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Não obstante, esta alegria torna-se incómoda para muitos. É a inveja. Como frisa o Pontífice, “vê-se claramente em toda a narração evangélica que, para alguns, a alegria suscitada por Jesus é motivo de fastídio e irritação”, nomeadamente para quem se considera justo e fiel aos preceitos rituais e se sente contestado por não sair do ritualismo. Aí a alegria dos outros torna-se incómoda, absurda, escandalosa e insuportável, sobretudo para quem teve de reprimir “a sensibilidade face à angústia, ao sofrimento e à miséria”. E Francisco retoma palavras suas da exortação apostólica Evangelii gaudium, documento programático do seu pontificado:
Uma alegria intolerável para quantos perderam a memória e se esqueceram das inúmeras oportunidades por eles usufruídas. Como é difícil, para quem procura justificar-se e salvar-se a si mesmo, compreender a alegria e a festa da misericórdia de Deus! Como é difícil, para quantos confiam apenas nas suas próprias forças e se sentem superiores aos outros, poder compartilhar esta alegria!” (EG, 94).
Por isso, os inimigos de Jesus lançaram a cizânia da contra-aclamação entre as multidões levando-as a gritar não “Hossana”, mas “Crucifica-O!”. E este domingo é de Paixão, porque o Senhor entra em Jerusalém para padecer e morrer. Assim seria glorificado e mereceria a salvação oferecida pelo Pai a todos os homens. Assim se compreende que o Papa anote que alegria da entrada triunfal “esmorece dando lugar a um sabor amargo e doloroso depois que acabámos de ouvir a narração da Paixão” (Is 50,4-7; Fl 2,6-11; Mc 14,1-15,47). Com efeito, nesta celebração de Igreja e Juventude, cruzam-se histórias de alegria e sofrimento, erros e sucessos que fazem parte da nossa vida diária como discípulos, porque consegue revelar sentimentos e contradições que hoje, com frequência, aparecem em nós, homens e mulheres deste tempo: “capazes de amar muito” e “de odiar” – capazes de sacrifício heroico e de saber ‘lavar-se as mãos’ no momento oportuno; capazes de fidelidade e de grandes abandonos e traições.
Sim, não é fácil o discípulo manter-se fiel até ao fim, assumir os próprios erros, deixar de acusar os outros ou escudar-se no lodaçal da indiferença lavando as mãos como Pilatos ou questionar-se sobre quem o nomeou guarda do irmão.
E é no contexto da inveja, do incómodo ou da indiferença (que nos faz alinhar com quem dá ou promete mais) que “nasce o grito da pessoa a quem não treme a voz para bradar: ‘Crucifica-O!’ (Mc 15,13). E, frisando a índole manipulável desse brado, verifica o Pontífice:
Não é um grito espontâneo, mas grito pilotado, construído, que se forma com o desprezo, a calúnia, a emissão de testemunhos falsos. É o grito que nasce na passagem dos factos à sua narração, nasce da narração. É a voz de quem manipula a realidade criando uma versão favorável a si próprio e não tem problemas em ‘tramar’ os outros para ele mesmo se ver livre.”.
Além de provir de falsa narrativa, diz o Papa, acentuando a trama, soberba e autossuficiência:
O grito de quem não tem escrúpulos em procurar os meios para reforçar a sua posição e silenciar as vozes dissonantes. É o grito que nasce de ‘maquilhar’ a realidade, pintando-a de tal maneira que acabe por desfigurar o rosto de Jesus fazendo-O aparecer como um ‘malfeitor’. É a voz de quem deseja defender a sua posição, desacreditando especialmente quem não se pode defender. É o grito produzido pelas ‘intrigas’ da autossuficiência, do orgulho e da soberba, que proclama sem problemas: crucifica-O, crucifica-O!”.
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E, voltando à apoteose da entrada de Jesus na sua Cidade de Jerusalém e no Templo onde, como diz Marcos, “tendo examinado tudo em seu redor, como a hora já ia adiantada, saiu para Betânia com os Doze” (Mc 11,11), constata o Papa argentino:
No fim, silencia-se a festa do povo, destrói-se a esperança, matam-se os sonhos, suprime-se a alegria; deste modo, no fim, blinda-se o coração, resfria-se a caridade. É o grito do ‘salva-te a ti mesmo’, que pretende adormecer a solidariedade, apagar os ideais, tornar insensível o olhar... O grito que pretende cancelar a compaixão, aquele ‘padecer com’, a compaixão, que é o ponto fraco’ de Deus.”.
Perante cenários como este, o discurso papal apresenta como o melhor antídoto a atitude de “olhar a cruz de Cristo” e a de se deixar “interpelar pelo seu último grito”. Na verdade, “Cristo morreu, gritando o seu amor por cada um de nós: por jovens e idosos, santos e pecadores, amor pelos do seu tempo e pelos do nosso tempo”. E é curioso notar como o Papa sustenta a profundeza e sobrevivência da alegria e a genuinidade da misericórdia:
Na sua cruz, fomos salvos para que ninguém apague a alegria do Evangelho; para que ninguém, na própria situação em que se encontra, permaneça longe do olhar misericordioso do Pai. Olhar a cruz significa deixar-nos interpelar nas nossas prioridades, escolhas e ações. Significa deixar-nos interrogar sobre a nossa sensibilidade face a quem está a passar ou a viver momentos de dificuldade.”.
Face ao mistério da alegria e misericórdia cravadas na cruz, é de perguntar o que vê o coração de cada um, ou seja, se “Jesus continua a ser motivo de alegria e louvor no nosso coração” ou se nos envergonhamos “das suas prioridades para com os pecadores, os últimos, os abandonados”.
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Depois, articulando o espírito da celebração litúrgica de hoje com a da XXXIII Jornada Mundial da Juventude, tendo como pano de fundo a reunião pré-sinodal terminada a 14 de março, cujas conclusões forma hoje entregues, e no horizonte do próximo Sínodo sobre Os jovens, a fé e o discernimento vocacional”, Francisco volta-se para os jovens ali presentes:
E, no vosso caso, queridos jovens, a alegria que Jesus suscita em vós é, para alguns, motivo de fastídio e também irritação, porque um jovem alegre é difícil de manipular. Um jovem alegre é difícil de manipular.”.
E recordou o possível terceiro grito de hoje, o das pedras. Com efeito, alguns fariseus, do meio da multidão, pediram a Jesus que repreendesse os discípulos. E ele replicou:
Digo-vos que, se eles se calarem, gritarão as pedras” (Lc 19,39-40).
E o Pontífice reconhece que “silenciar os jovens é uma tentação que sempre existiu” e que “há muitas maneiras de tornar os jovens silenciosos e invisíveis” ou “muitas maneiras de os anestesiar e adormecer para que não façam barulho, para que não se interroguem nem ponham em discussão”. E insiste:
‘Vós… calai-vos!’ Há muitas maneiras de os fazer estar tranquilos, para que não se envolvam, e os seus sonhos percam altura tornando-se fantastiquices rasteiras, mesquinhas, tristes.”.
Nós bem sabemos quantas iniciativas, festas e espetáculos se organizam para distrair os jovens e os desviar do trabalho, do acesso ao conhecimento, da reflexão temática e da consequente intervenção na vida social e política, ficando margem de manobra para a serventia aos grandes interesses, sem contestação anímica e sustentável.  
Por isso, o Papa entende que, neste Domingo de Ramos, em que celebramos o Dia Mundial da Juventude, nos faz bem “ouvir a resposta de Jesus aos fariseus de ontem e de todos os tempos (também os de hoje): ‘Se eles se calarem, gritarão as pedras’.” (Lc 19,40).
E em tom interpelativo, desafia:
Queridos jovens, cabe a vós a decisão de gritar, cabe a vós decidir-vos pelo Hossana do domingo para não cair no ‘crucifica-O’ de sexta-feira... E cabe a vós não ficar calados. Se os outros calam, se nós, idosos e responsáveis (tantas vezes corruptos), silenciamos, se o mundo se cala e perde a alegria, pergunto-vos: vós gritareis?”.
E, por fim, o apelo claro:
Por favor, decidi-vos antes que gritem as pedras...”.
2018.03.25 – Louro de Carvalho