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segunda-feira, 2 de julho de 2018

Padre e poeta, profeta e apóstolo


Ainda está fresca na retina da memória portuguesa a nomeação, pelo Papa Francisco, do Padre e poeta português José Tolentino Mendonça, ocorrida no passado dia 26 de junho, como arquivista do Arquivo Secreto do Vaticano e bibliotecário da Santa Sé, passando a tutelar a mais antiga biblioteca do mundo e sucedendo na liderança daqueles serviços ao Arcebispo francês Jean-Louis Bruguès.
O Arquivo Secreto do Vaticano conserva os documentos relativos ao governo da Igreja para, antes de tudo, estarem à disposição da Santa Sé e da Cúria no desempenho do próprio trabalho, e para que depois, por concessão pontifícia, possam representar para todos os estudiosos de história fontes de conhecimento, mesmo profano, das regiões que há séculos estão intimamente ligadas com a vida da Igreja. E a Biblioteca Apostólica do Vaticano apresenta-se como “instrumento da Igreja para o desenvolvimento, a conservação e a divulgação da cultura” e, constituída pelos Papas, oferece, nas suas várias secções, “tesouros riquíssimos de ciência e de arte aos estudiosos que investigam a verdade”.
O sacerdote português, até agora vice-reitor da Universidade Católica Portuguesa (UCP) e diretor da Faculdade de Teologia (por decreto de 22 de maio de 2018, da Congregação para a Educação Católica), foi ainda elevado à dignidade de Arcebispo de Suava, no Norte de África.
O novo Arcebispo, que iniciará funções como arquivista do Arquivo Secreto e bibliotecário do Vaticano no dia 1 de setembro, foi convidado para orientar o retiro anual de Quaresma do Papa Francisco e da Cúria Romana (que decorreu entre 18 e 23 de fevereiro, em Ariccia, nos arredores de Roma), convite que então o deixou tão surpreendido que achou ter “sonhado” com isso.
Conhecido por utilizar referências à literatura nas meditações religiosas, Dom José Tolentino Mendonça chegou a citar Fernando Pessoa nas meditações apresentadas ao Papa Francisco, que lhe agradeceu por conseguir estabelecer uma ponte entre os textos bíblicos e a literatura secular.
Considerando o convite do Papa como uma grande honra para a Igreja portuguesa, para Portugal e para a UCP, a reitora Isabel Gil Capeloa lembra, em comunicado, que Tolentino Mendonça tinha assumido o pelouro das relações culturais e bibliotecas da Católica nas últimas duas equipas reitorais. Segundo a reitora da UCP, o Professor “contribuiu para tornar a atividade artística um eixo central da ação da Universidade Católica Portuguesa, incentivando um diálogo renovado e fecundo com a sociedade através da sua intervenção cultural e literária” e trabalhou no desenvolvimento do Código de Ética e Deontologia da UCP.
O novo arquivista e bibliotecário da Santa Sé manifestou à agência Ecclesia a sua determinação de “servir a Igreja na Cultura”, referindo:
A Cultura faz-nos viajar à raiz arquitetural da pessoa, àquilo que constitui o núcleo fundante da sua aventura existencial, mas também nos permite interrogar e iluminar o seu horizonte de sentido”.
Dom José Tolentino Mendonça sustenta que a sua missão como “Arquivista e Bibliotecário da Santa Igreja Romana” se insere numa tradição papal de “conservar num arquivo próprio a memória dos mártires e a gesta dos pastores, bem como os livros que asseguravam a atividade litúrgica e as necessidades administrativas da comunidade eclesial”. O Arcebispo salienta que há, desde o século VIII, notícias da existência duma biblioteca, enriquecida ao longo dos tempos com “monumentais e preciosos espólios”, que colocam a atual Biblioteca Apostólica Vaticana entre “as mais fascinantes instituições culturais do mundo”. Diz o novel prelado:
O arquivo e a biblioteca são assim lugares referenciais da memória específica do cristianismo, mas também da cultura universal; são espaços de ciência e de construção de pensamento, procurados por investigadores de todo o mundo que ali encontram o rastro da história e a capacidade que esta tem de iluminar o presente; são grandes repositórios daquela beleza capaz de ferir de infinito o coração humano”.
Para este colaborador do Papa, a Cultura é uma das “fronteiras proféticas” para o catolicismo de todos os tempos e, “de um modo talvez ainda mais incisivo, para o catolicismo contemporâneo”. Neste sentido, declarou:
A cultura documenta o que somos, é verdade. Mas espelha e potencia as grandes buscas interiores, o contacto com as grandes perguntas, a vizinhança das razões maiores que funcionam como patamares do caminho a que a nossa humanidade vai chegando, a proximidade daquele vastíssimo e inconsútil silêncio que, porventura ainda melhor do que a palavra, exprime em nós o mistério do Ser.”.
No pontificado de Francisco o Arcebispo destaca a “arte do encontro” que o Papa tem promovido e que encontra na Cultura “um espaço de desenvolvimento natural”, aliás na linha dos antecessores, embora com um tom muito próprio. E, sobre a cultura, diz neste sentido:
A Cultura, no seu sentido mais verdadeiro, é prática de escuta, de atenção, de intercâmbio e de interdependência; é exercício interminável de hospitalidade. Não admira que um dos serviços que a Igreja de cada tempo presta ao futuro seja, por isso, o investimento no diálogo entre a Fé e a Cultura, que constitui um horizonte inequívoco para uma apresentação credível do Evangelho ao coração das mulheres e dos homens nossos contemporâneos e uma reparadora fonte de esperança e de paz.”.
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Dom José Tolentino Mendonça nasceu em Machico (Região Autónoma da Madeira) em 1965 e foi ordenado sacerdote em 28 de julho de 1990. Deslocou-se para Roma, onde concluiu, no Pontifício Instituto Bíblico, o mestrado em Ciências Bíblicas. Regressado a Portugal, ingressou na UCP, onde foi capelão e lecionou as disciplinas de Hebraico e Cristianismo e Cultura. Aí se doutorou em teologia bíblica, tornando-se seu professor auxiliar. Dirigiu até ao ano de 2014 o Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, da Igreja Católica em Portugal, de que foi o primeiro Diretor e a revista Didaskália editada pela Faculdade de Teologia. As linhas de investigação privilegiadas do teólogo e poeta são Bíblia e literatura, teologia de Paulo, representações de Jesus nos textos cristãos e na cultura contemporânea, a par do tema do corpo nos textos cristãos das origens.
O novo Arcebispo, consultor do Conselho Pontifício da Cultura (Santa Sé) desde 2011, por designação de Bento XVI, era capelão na Capela do Rato e na UCP, foi reitor do Pontifício Colégio Português, em Roma, e era diretor da Faculdade de Teologia da UCP. O seu livro “A Mística do Instante” foi galardoado com o Prémio literário Res Magnae 2015, um importante prémio italiano atribuído no campo da ensaística. Foi o primeiro português e o único não italiano, até à data, a receber este prémio. Em 2016, a sua obra de cronista foi distinguida com o prémio APE e a sua obra poética com o Prémio Teixeira de Pascoaes. A 9 de junho de 2016, foi designado Membro do Conselho das Antigas Ordens Militares. E, em 2012, foi considerado um dos 100 portugueses mais influentes em 2012, pela REVISTA do jornal Expresso.
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Este padre poeta é um exemplo do que devia ser qualquer sacerdote: poeta, profeta e apóstolo.
Com efeito, Deus é poeta por Se comunicar-se por versos e metáforas. É certo que a Sua linguagem, carregada de símbolos, é hermética, misteriosa, para o coração duro e rude, e que, para O entender, se precisa de ouvido espiritual, sensível ao êxtase transcendental, mas, quando Deus declama, o universo dança, as donzelas e os jovens saltam de alegria, as crianças sorriem e gritam e os anciãos e anciãs têm sonhos e visões. E todos fazem associar-se a si a terra, o mar e o firmamento, os animais e plantas e as próprias pedras para enarrarem as maravilhas de Deus.
Por que nos criou à Sua imagem e semelhança, Deus põe os Seus olhos na procura e na mira de homens e mulheres disponíveis para encarnar os divinos sentimentos. Ora, nesta linha, vêm os profetas, que foram todos chamados e enviados por Deus para, por metáforas e imagens, porem dramaticamente o dedo nas chagas sociais, morais e religiosas cavadas pelos homens, anunciarem, na alegria do Espírito, o compromisso de Deus com a vida e construírem as sólidas plataformas da esperança messiânica, vindo, as plantas venenosas congraçar-se com as sãs, os animais opostos a juntar-se em convivência e as espadas da guerra a transformar-se em relhas de arado – e, na doçura do poema inspirado, se eleva ao Altíssimo o melhor hino à vida e ao amor.   
Porque o compromisso de Deus é só com a vida, o Senhor faz alçar homens e mulheres que se indignam com a sordidez, mas se apaixonam com o sublime. E toda a sua profecia é vertida em linguagem poética. Inundados do Espírito de Deus, os profetas cantam em elevado lirismo o sentimento do amor devotado, infinito e misericordioso de Deus para com o Seu Povo, o ser humano, e cantam a resposta eucaristicamente anafórica do Povo e do Homem ao seu Deus. Se dramaticamente levam ao Deus da misericórdia a miséria e debilidade humanas para que Se apiede, também com a ousadia recebida do Alto põem a humanidade a cantar a épica Odisseia do Deus que desceu à condição humana para o elevar ao patamar da condição divina, tornando-o filho com o Filho e com Ele herdeiro dos tesouros da Verdade, da Bondade e da Beleza.  
A vocação poética do profeta pode não o levar ao jeito de fazer rimas ou versos segundo qualquer métrica tradicional, mas leva-o ao derrame das lágrimas sobre o ambão da preleção, ao suor do esforço da caminhada à procura de quem precisa de chamada de atenção, conforto, metanoia, a sangrar no texto que deseja que perdure para a posteridade. A expressão rítmica do coração de Deus vaza na tinta da sua pena. O poeta-profeta pressente o que presente deveria ser, mas ainda não é; e vê-se convocado para reencantar os desanimados, curar os desesperançados, destilar beleza de mundos imaginários em terras áridas. E esta atividade dá-lhe o júbilo de Deus.
A matéria-prima do profeta é a poesia. Como artesão de polifacetados vasos de cristal ou oleiro de frágeis vasos de barro, o poeta-profeta maneja a palavra com simplicidade natural, mas com encantadora delicadeza. Pretende mostrar que o quotidiano, nas suas perversas contradições, poderia seguir por outra via. O poeta-profeta derrama-se como óleo perfumado no texto que é todo seu, mas que se torna todo para os outros porque o recebeu de Deus; faz-se lenho do fogo abrasador que aquece a história e gera a luminosidade que dá a vista aos cegos; torna-se mola do coxo que precisa de andar, estímulo para o surdo que precisa de ouvir, bálsamo para o doente que necessita da cura, farinha e água para quem precisa de pão e de água para saciar a fome e a sede. Ansioso por conjugar os extremos na síntese promotora do bem, sabe que o único Absoluto é o Amor, o único Bem é Vida e o único Alvo é a valorização do instante de Deus.
Como o poeta-profeta é o apóstolo. Porém, enquanto o profeta se constitui chamado, predestinado e discípulo mediante uma teofania em que não pôde ver o rosto de Deus, o apóstolo constitui-se como discípulo privando com o Deus encarnado em Seu Filho Jesus, sendo convidado a segui-Lo, ouvindo-O no quotidiano, partilhando com Ele o banquete da Salvação, o trabalho, os direitos e as obrigações; sente com Ele o momento da celebração da Aliança, come do Seu corpo e bebe do Seu sangue. Depois, tem o privilégio de rezar com o próprio Jesus/Deus. Não assistiu à Sua morte porque teve medo ou, se assistiu, recebe como testamento da caridade divina a Mãe do próprio Deus e confia-se a Ela. Tem mãe. Fixa e contempla o Ressuscitado e com alegria, movido pela força do Espírito Santo, vai anunciar que Aquele que estava morto vive e é constituído o Senhor em quem encontramos o perdão. E esta mensagem é comunicada a partir de Jerusalém, em círculos concêntricos, até aos últimos confins da Terra.
Queremos melhor pretexto para o dinamismo poético-profético-apostólico?
Mas há mais. Enquanto os profetas antigos tinham uma missão provinda dum passado teofânico, mas nubloso, com vista à aquisição das coisas que iriam acontecer, o apóstolo é enviado porque foi constituído testemunha ocular e auditiva (ou equivalente nos seus fundamentos) de factos já ocorridos que persistem no presente e permitem um futuro assente não apenas na esperança, que se reforça como força motriz, mas sobretudo na abundância da caridade divina que se torna mandamento irrecusável com intensidade pessoal e abrangência universal tornada marca indelével e contagiante dos novos seguidores, discípulos e apóstolos – quiçá mártires até ao sangue ou professores da fé até à entrega ilimitada, heroica e docente.
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Poetas-profetas discípulos-apóstolos, mártires-professores da fé rejeitam redomas, estufas, viveiros, gaiolas. Quererem diminuir-se para que Ele cresça. Não aprisionam a mensagem, o mistério, o projeto. Comunicam-no, divulgam-no, consolidam-no, celebram-no.
Trocam os tapetes pelo chão batido. Solitários, não se vergam aos homens; só obedecem a Deus, que marca o compasso do próprio coração; indomáveis, revoltam-se com o trivial; irrequietos, perturbam o normal. São verdadeiros revolucionários da ternura e da misericórdia de Deus. Fazem a poesia da vida e transformam a desgraça em sublimação do desígnio divino presente nos homens mais pobres, doentes, descartados ou no coração das almas generosas, dedicadas. De gente dispersa constroem a comunhão, com indivíduos isolados fazem comunidade viva na fé, na esperança e no amor. É a verdadeira poesia factiva!
Poetas-profetas discípulos-apóstolos, mártires-professores da fé não defendem a própria reputação. Alvos fáceis dos ímpios quando negam a história, só as gerações futuras lhes fazem justiça. Pedras do meio do caminho incomodam; indestrutíveis, semeiam trigo que se fará o pão do idealista, do revolucionário, mesmo que perturbado pelo crescimento irritante da cizânia.
Poeta-profeta discípulo-apóstolo, mártir-professor da fé é alquimista, pois faz das palavra poção encantante e o seu feitiço condimenta a vida. Cria sabores exóticos; usa verbo forte, inebria a imaginação e gera o sonho. Conhece o segredo de transformar o transcendental no plausível. Alado, vive nas nuvens, mantém parceria perpétua com os anjos e adora a Deus em espírito e verdade, na intimidade do quarto, no interior do Templo, no silêncio das montanhas ou no bulício das praças. Escuta a bruma do vale, agasalha-se sob o manto platinado da lua e expõe-se ao fulgor e calor do sol. Não teme ausências e a solidão não o intimida. É selvagem como o tigre, altivo como a águia e acutilante ou encantador como a serpente.
Poeta-profeta discípulo-apóstolo, mártir-professor da fé nascera no pé do arco-da-velha; salvo das águas, cresce como o cedro do Líbano; sensível, plora com o dedilhar da harpa; torna-se parceiro dos humildes, dos mansos e dos puros de coração. Contudo, o seu destino é a cruz.
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Que de junto de São Pedro e imerso na sua Cultura, Dom José Tolentino, brilhe com a poesia, a profecia e o apostolado.
2018.07.02 – Louro de Carvalho

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Se hoje “ele” estivesse aqui, “eles” matá-lo-iam de novo

O enunciado em epígrafe foi retirado duma entrevista com Gaspar Romero, o irmão mais novo (agora com 87 anos de idade) do Beato Oscar Romero, por Alver Metalli, publicada sob o título NAVIDAD CON LOS ROMERO em www.tierrasdeamerica.com, a 24 de dezembro de 2016 e transcrita, no essencial, no site da fraternitas, a 26 de dezembro.
Trata-se duma frase emblemática proferida pelo entrevistado na réplica à recordação que o condutor da entrevista lhe fez do que Gaspar dissera em tempos que, “se Romero estivesse vivo, diria as mesmas coisas que disse nos anos 1980...”. Neste sentido, afiançou que se Oscar vivesse naquele ambiente político e económico, os detentores do poder não hesitariam de novo em o matar. Na verdade, os fabricantes e os fautores da injustiça sobre os pobres, da miséria alastrante e da corrupção empedernida e sem escrúpulos não toleram as vozes que se levantem em prol dos explorados. Bem sabemos como é difícil a reforma da Igreja preconizada pelo Papa Francisco e seus colaboradores mais sinceros e devotados e quão grandes são as resistências que os instalados no carreirismo ou nas sumas e inquestionáveis verdades e certezas ditadas, não pela fé, mas por uma certa tradição caprichosa opõem à aura de frescura que o Pontífice quer insuflar nas velas da barca petrina. E constituem o acúmulo da hipocrisia e do disfarce as salvas de palmas que tantas personalidades e decisores políticos, financeiros e económicos disparam em aplauso a Sua Santidade quando denuncia os muitos e vários atropelos à dignidade das pessoas que o mundo “não quer” e “não deixa” que sejam “pessoas”. Só não o aniquilam porque os diversos serviços o guardam e sobretudo porque ficariam mal colocados.
A leitura da predita entrevista fez-me lembrar aquele episódio em que o pároco de Freixinho, em 1980, no sermão da procissão do enterro do Senhor, em Sexta-feira Santa, lançou a questão de forma retórica: “Se Jesus Cristo por aqui estivesse hoje de forma visível como naquele tempo, pregasse a mesma doutrina, fizesse os mesmos prodígios se afirmasse como o Filho de Deus e o Senhor de todos, os homens de hoje matá-lo-iam ou não?”.Ante esta arrazoado interrogativo, um grupo de crianças gritou em coro: “Não, Senhor Padre, não matávamos Cristo!”. E o pároco pregador concluiu: “Pois, claro! Não foram, nem são, nem serão as crianças de Freixinho a matar Jesus Cristo”.  Tal como então, hoje os pobres, os desalojados, os descartados, os doentes e os explorados – a menos que sejam maldosamente contaminados pelo ódio mandante e intoxicante de outros – sentem a proteção de quem se bate e entrega por eles, levantando corajosamente a sua voz incómoda e apontando o dedo ao desgoverno, à exploração e à comercialização da dignidade, sobretudo se se trata de profetas e apóstolos da não violência. Obviamente, os atingidos pela contundência pertinente da denúncia profética, mormente se esta vem eivada pelo compromisso pela mudança, não suportam a força da voz e da vez que se quer para os que não têm vez nem voz. O compromisso com a mudança estraga jogos de poder, põe a careca dos espertos à mostra, desnuda a ação de corruptores e de corruptos, grita o destino universal dos bens, exige de cada um o contributo conforme as suas possibilidades e a colmatação das necessidades de cada um.
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O irmão, como é natural, disse nunca ter pensado que Oscar, “com o qual cresceu”, viria a ser um santo. Declarou que viu nele um caráter diferente e recorda-se da previsão da mãe, a 15 de agosto de 1942, de que “ele chegaria muito alto”. Era o dia da Assunção de Nossa Senhora e do aniversário de Oscar, que “ainda se encontrava em Roma a completar a sua formação académica na Pontifícia Universidade Gregoriana”. Contudo, não quer dizer que tal antevisão se referisse ao “céu dos bem-aventurados ou dos santos”. E a declaração da santidade de Oscar Romero coroa o seu grave “pecado” de “defender os pobres, pedir justiça para que não se cometessem prepotências contra as pessoas pobres”. É algo que o Papa Francisco preconiza de forma insistente e coerente. Mas a oligarquia tinha necessidade de o eliminar e começou por o ultrajar utilizando os jornais do país, “que são os jornais dos ricos e dizem o que os ricos pensam”.
Mas a entrevista presta informação relevante sobre a causa da canonização de Oscar Romero. Segundo o padre Rafael Urrutia, postulador da causa, dá notícia de que “a documentação sobre um quarto milagre, pelo qual talvez seja reconhecido como santo, acaba de ser enviada a Roma para ser examinada pelos membros da Congregação do Vaticano encarregada do assunto”. E “os outros dois casos de supostas curas inexplicáveis, a de um equatoriano e a de um mexicano, ainda estão a ser estudados em El Salvador”.

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Oscar Romero nasceu, a 15 de agosto de 1917, em Ciudad Barrios, povoado onde se produzia café, no Departamento de San Miguel, a 156 quilómetros de San Salvador, filho de Santos Romero e de Guadalupe Galdámez, numa família de origens humildes.
Ingressou no seminário menor de San Miguel, em 1931, tendo ali ficado conhecido como ‘O menino da flauta’, pela sua habilidade em utilizar uma flauta de bambu que herdou de seu pai. Em 1937, ingressou no Seminário Maior San José de la Montaña, em San Salvador, e, passados 7 meses, foi para Roma estudar teologia, tendo dali presenciado as calamidades da  II Guerra Mundial. E foi ordenado sacerdote a 4 de abril de 1942.
Regressado a El Salvador em 1943, tornou-se pároco da cidade de Anamorós, sendo depois transferido para a cidade de San Miguel, onde serviu como pároco na Catedral de Nossa Senhora da Paz e secretário do Bispo diocesano monsenhor Miguel Ángel Machado.
Posteriormente, em 1968, foi nomeado secretário da Conferencia Episcopal de El Salvador. E, a 21 de abril de 1970, Paulo VI escolheu-o para Bispo Auxiliar de San Salvador, recebendo a ordenação episcopal a 21 de junho do mesmo ano, de mãos do núncio apostólico Girolamo Prigrione. A 15 de outubro de 1974, foi nomeado Bispo da diocese de Santiago Maria, no departamento de Usulután, encargo que manteve durante dois anos. E foi nomeado Arcebispo de San Salvador em 3 de fevereiro de 1977, graças ao seu aparente conservadorismo.
Entretanto, em março de 1977, ocorreu o assassinato dum seu amigo, o padre Rutilio Grande, jesuíta, junto com dois camponeses – um incidente que transformou Romero, levando-o a denunciar as injustiças sociais por meio da rádio católica Ysax e do semanário Orientación. Por isso, era conhecido como “A voz dos sem voz”. E, por ter aderido aos ideais da não violência, foi comparado a Mahatma Gandi e a Martin Luther King. Nas suas homilias dominicais, denunciava as numerosas violações dos direitos humanos em El Salvador e publicamente manifestou a sua solidariedade com as vítimas da violência política, no contexto da Guerra Civil de El Salvador. Na Igreja Católica, defendia a “opção preferencial pelos pobres”.
Chamavam-no de comunista e de guerrilheiro, pelo que “a oligarquia salvadorenha mandou a Roma três bispos, o de San Miguel, o de San Vicente e o de Santa Ana, para denunciá-lo e para pedir que o transferissem”. Monsenhor Romero “sabia disso e ficou muito desgostoso por três irmãos no episcopado terem ido denunciá-lo” – terrível: “alguns dos que ele havia ajudado”. 
O entrevistado de Alver Metalli lamenta: “Hoje também há difamadores na Igreja de El Salvador”. E, mesmo depois da sua morte por ódio à fé (João Paulo II contestava a quem duvidava do mérito de Romero: “Morreu no altar!), continuaram as intrigas, que o Papa Francisco denominou, depois da beatificação, de “martírio post mortem”, um martírio “que continuou depois do seu assassinato” por calúnias dos “seus irmãos no sacerdócio e no episcopado”. Coerentemente, o Francisco “tirou o processo de beatificação do pântano em que se encontrava”: “não avançava devido à oposição” que havia em El Salvador.
Agora abundam as “pessoas que mudaram de opinião sobre monsenhor Romero”, que foram “críticas e hostis”, mas “que agora pensam diferente”. Disseram “que lamentavam muito e que estavam arrependidas por terem repetido coisas falsas sobre monsenhor Romero”; e que “pedem perdão a Deus e a ele pelas ofensas que lhe fizeram”.
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Gaspar Romero, na entrevista, fornece mais duas informações preciosas: a importância que teve para o arcebispo a morte de Rutilio e as pressões de que o próprio Gaspar foi alvo.
Aquando da nomeação de Romero para Arcebispo, Rutilio, que era diretor do seminário San José de la Montaña, pediu-lhe a transferência para El Paisnal, onde nascera. Lá “doutrinava a gente, ensinava que não se deixassem ultrajar pelos patrões, que pedissem um tratamento justo e salário decente” – o que lhe provocou a morte: “a extrema direita mandou assassiná-lo”.
O monsenhor, ao saber do assassinato, foi lá. Vendo que o velavam no parque, “perguntou porque não o velavam na igreja e fez com que o levassem para dentro”. Ficando a noite inteira ao lado do cadáver, começou a “amizade com os Jesuítas, que se haviam afastado dele e o criticavam”. E começou “uma transformação nele” próprio. Pediu ao Presidente da República “que se investigasse o assassinato do padre Rutilio até identificar os culpados”. O Presidente prometeu mandar “investigar a fundo” e fornecer respostas “dentro de um mês”. Como passou o mês sem haver “responsáveis certos”, Romero “rompeu com o governo”.
As consequências repercutiram-se também em Gaspar Romero. “Tinha um cargo muito bom na Antel como dirigente”. E, de repente, transferiram-no “para a portaria, para trabalhar das 7 da noite às 7 da manhã”. Quando conseguiu ter uma explicação, ela veio nos termos seguintes: “É por causa do seu irmão”. Recebia “muitas ameaças anónimas” em sua casa, “desde malcriações e grosserias até outras mais finas, em que me diziam que queriam muito bem a meu irmão e que eu intercedesse”. Na sexta-feira anterior ao assassinato de monsenhor Romero (foi morto a uma segunda-feira) chegou-lhe carta anónima que dizia que, se o irmão “não desistisse das suas homilias, teria as horas contadas, que o sequestrariam” e que “deveria dizer isso a ele”. Ao que o irmão respondeu que deitasse fora a carta.
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Será pecado pedir aos governantes e aos seus militares que não matem civis indefesos, explorados, oprimidos ou com opinião? É legítimo chamar comunistas aos teólogos da libertação, sem mais, sem crivar que tipos de teologia de libertação propõem? É lícito dar a morte a quem prega: “A missão da Igreja é identificar-se com os pobres. Assim a Igreja encontra a sua salvação”?

2016.12.18 – Louro de Carvalho