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segunda-feira, 2 de julho de 2018

Padre e poeta, profeta e apóstolo


Ainda está fresca na retina da memória portuguesa a nomeação, pelo Papa Francisco, do Padre e poeta português José Tolentino Mendonça, ocorrida no passado dia 26 de junho, como arquivista do Arquivo Secreto do Vaticano e bibliotecário da Santa Sé, passando a tutelar a mais antiga biblioteca do mundo e sucedendo na liderança daqueles serviços ao Arcebispo francês Jean-Louis Bruguès.
O Arquivo Secreto do Vaticano conserva os documentos relativos ao governo da Igreja para, antes de tudo, estarem à disposição da Santa Sé e da Cúria no desempenho do próprio trabalho, e para que depois, por concessão pontifícia, possam representar para todos os estudiosos de história fontes de conhecimento, mesmo profano, das regiões que há séculos estão intimamente ligadas com a vida da Igreja. E a Biblioteca Apostólica do Vaticano apresenta-se como “instrumento da Igreja para o desenvolvimento, a conservação e a divulgação da cultura” e, constituída pelos Papas, oferece, nas suas várias secções, “tesouros riquíssimos de ciência e de arte aos estudiosos que investigam a verdade”.
O sacerdote português, até agora vice-reitor da Universidade Católica Portuguesa (UCP) e diretor da Faculdade de Teologia (por decreto de 22 de maio de 2018, da Congregação para a Educação Católica), foi ainda elevado à dignidade de Arcebispo de Suava, no Norte de África.
O novo Arcebispo, que iniciará funções como arquivista do Arquivo Secreto e bibliotecário do Vaticano no dia 1 de setembro, foi convidado para orientar o retiro anual de Quaresma do Papa Francisco e da Cúria Romana (que decorreu entre 18 e 23 de fevereiro, em Ariccia, nos arredores de Roma), convite que então o deixou tão surpreendido que achou ter “sonhado” com isso.
Conhecido por utilizar referências à literatura nas meditações religiosas, Dom José Tolentino Mendonça chegou a citar Fernando Pessoa nas meditações apresentadas ao Papa Francisco, que lhe agradeceu por conseguir estabelecer uma ponte entre os textos bíblicos e a literatura secular.
Considerando o convite do Papa como uma grande honra para a Igreja portuguesa, para Portugal e para a UCP, a reitora Isabel Gil Capeloa lembra, em comunicado, que Tolentino Mendonça tinha assumido o pelouro das relações culturais e bibliotecas da Católica nas últimas duas equipas reitorais. Segundo a reitora da UCP, o Professor “contribuiu para tornar a atividade artística um eixo central da ação da Universidade Católica Portuguesa, incentivando um diálogo renovado e fecundo com a sociedade através da sua intervenção cultural e literária” e trabalhou no desenvolvimento do Código de Ética e Deontologia da UCP.
O novo arquivista e bibliotecário da Santa Sé manifestou à agência Ecclesia a sua determinação de “servir a Igreja na Cultura”, referindo:
A Cultura faz-nos viajar à raiz arquitetural da pessoa, àquilo que constitui o núcleo fundante da sua aventura existencial, mas também nos permite interrogar e iluminar o seu horizonte de sentido”.
Dom José Tolentino Mendonça sustenta que a sua missão como “Arquivista e Bibliotecário da Santa Igreja Romana” se insere numa tradição papal de “conservar num arquivo próprio a memória dos mártires e a gesta dos pastores, bem como os livros que asseguravam a atividade litúrgica e as necessidades administrativas da comunidade eclesial”. O Arcebispo salienta que há, desde o século VIII, notícias da existência duma biblioteca, enriquecida ao longo dos tempos com “monumentais e preciosos espólios”, que colocam a atual Biblioteca Apostólica Vaticana entre “as mais fascinantes instituições culturais do mundo”. Diz o novel prelado:
O arquivo e a biblioteca são assim lugares referenciais da memória específica do cristianismo, mas também da cultura universal; são espaços de ciência e de construção de pensamento, procurados por investigadores de todo o mundo que ali encontram o rastro da história e a capacidade que esta tem de iluminar o presente; são grandes repositórios daquela beleza capaz de ferir de infinito o coração humano”.
Para este colaborador do Papa, a Cultura é uma das “fronteiras proféticas” para o catolicismo de todos os tempos e, “de um modo talvez ainda mais incisivo, para o catolicismo contemporâneo”. Neste sentido, declarou:
A cultura documenta o que somos, é verdade. Mas espelha e potencia as grandes buscas interiores, o contacto com as grandes perguntas, a vizinhança das razões maiores que funcionam como patamares do caminho a que a nossa humanidade vai chegando, a proximidade daquele vastíssimo e inconsútil silêncio que, porventura ainda melhor do que a palavra, exprime em nós o mistério do Ser.”.
No pontificado de Francisco o Arcebispo destaca a “arte do encontro” que o Papa tem promovido e que encontra na Cultura “um espaço de desenvolvimento natural”, aliás na linha dos antecessores, embora com um tom muito próprio. E, sobre a cultura, diz neste sentido:
A Cultura, no seu sentido mais verdadeiro, é prática de escuta, de atenção, de intercâmbio e de interdependência; é exercício interminável de hospitalidade. Não admira que um dos serviços que a Igreja de cada tempo presta ao futuro seja, por isso, o investimento no diálogo entre a Fé e a Cultura, que constitui um horizonte inequívoco para uma apresentação credível do Evangelho ao coração das mulheres e dos homens nossos contemporâneos e uma reparadora fonte de esperança e de paz.”.
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Dom José Tolentino Mendonça nasceu em Machico (Região Autónoma da Madeira) em 1965 e foi ordenado sacerdote em 28 de julho de 1990. Deslocou-se para Roma, onde concluiu, no Pontifício Instituto Bíblico, o mestrado em Ciências Bíblicas. Regressado a Portugal, ingressou na UCP, onde foi capelão e lecionou as disciplinas de Hebraico e Cristianismo e Cultura. Aí se doutorou em teologia bíblica, tornando-se seu professor auxiliar. Dirigiu até ao ano de 2014 o Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, da Igreja Católica em Portugal, de que foi o primeiro Diretor e a revista Didaskália editada pela Faculdade de Teologia. As linhas de investigação privilegiadas do teólogo e poeta são Bíblia e literatura, teologia de Paulo, representações de Jesus nos textos cristãos e na cultura contemporânea, a par do tema do corpo nos textos cristãos das origens.
O novo Arcebispo, consultor do Conselho Pontifício da Cultura (Santa Sé) desde 2011, por designação de Bento XVI, era capelão na Capela do Rato e na UCP, foi reitor do Pontifício Colégio Português, em Roma, e era diretor da Faculdade de Teologia da UCP. O seu livro “A Mística do Instante” foi galardoado com o Prémio literário Res Magnae 2015, um importante prémio italiano atribuído no campo da ensaística. Foi o primeiro português e o único não italiano, até à data, a receber este prémio. Em 2016, a sua obra de cronista foi distinguida com o prémio APE e a sua obra poética com o Prémio Teixeira de Pascoaes. A 9 de junho de 2016, foi designado Membro do Conselho das Antigas Ordens Militares. E, em 2012, foi considerado um dos 100 portugueses mais influentes em 2012, pela REVISTA do jornal Expresso.
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Este padre poeta é um exemplo do que devia ser qualquer sacerdote: poeta, profeta e apóstolo.
Com efeito, Deus é poeta por Se comunicar-se por versos e metáforas. É certo que a Sua linguagem, carregada de símbolos, é hermética, misteriosa, para o coração duro e rude, e que, para O entender, se precisa de ouvido espiritual, sensível ao êxtase transcendental, mas, quando Deus declama, o universo dança, as donzelas e os jovens saltam de alegria, as crianças sorriem e gritam e os anciãos e anciãs têm sonhos e visões. E todos fazem associar-se a si a terra, o mar e o firmamento, os animais e plantas e as próprias pedras para enarrarem as maravilhas de Deus.
Por que nos criou à Sua imagem e semelhança, Deus põe os Seus olhos na procura e na mira de homens e mulheres disponíveis para encarnar os divinos sentimentos. Ora, nesta linha, vêm os profetas, que foram todos chamados e enviados por Deus para, por metáforas e imagens, porem dramaticamente o dedo nas chagas sociais, morais e religiosas cavadas pelos homens, anunciarem, na alegria do Espírito, o compromisso de Deus com a vida e construírem as sólidas plataformas da esperança messiânica, vindo, as plantas venenosas congraçar-se com as sãs, os animais opostos a juntar-se em convivência e as espadas da guerra a transformar-se em relhas de arado – e, na doçura do poema inspirado, se eleva ao Altíssimo o melhor hino à vida e ao amor.   
Porque o compromisso de Deus é só com a vida, o Senhor faz alçar homens e mulheres que se indignam com a sordidez, mas se apaixonam com o sublime. E toda a sua profecia é vertida em linguagem poética. Inundados do Espírito de Deus, os profetas cantam em elevado lirismo o sentimento do amor devotado, infinito e misericordioso de Deus para com o Seu Povo, o ser humano, e cantam a resposta eucaristicamente anafórica do Povo e do Homem ao seu Deus. Se dramaticamente levam ao Deus da misericórdia a miséria e debilidade humanas para que Se apiede, também com a ousadia recebida do Alto põem a humanidade a cantar a épica Odisseia do Deus que desceu à condição humana para o elevar ao patamar da condição divina, tornando-o filho com o Filho e com Ele herdeiro dos tesouros da Verdade, da Bondade e da Beleza.  
A vocação poética do profeta pode não o levar ao jeito de fazer rimas ou versos segundo qualquer métrica tradicional, mas leva-o ao derrame das lágrimas sobre o ambão da preleção, ao suor do esforço da caminhada à procura de quem precisa de chamada de atenção, conforto, metanoia, a sangrar no texto que deseja que perdure para a posteridade. A expressão rítmica do coração de Deus vaza na tinta da sua pena. O poeta-profeta pressente o que presente deveria ser, mas ainda não é; e vê-se convocado para reencantar os desanimados, curar os desesperançados, destilar beleza de mundos imaginários em terras áridas. E esta atividade dá-lhe o júbilo de Deus.
A matéria-prima do profeta é a poesia. Como artesão de polifacetados vasos de cristal ou oleiro de frágeis vasos de barro, o poeta-profeta maneja a palavra com simplicidade natural, mas com encantadora delicadeza. Pretende mostrar que o quotidiano, nas suas perversas contradições, poderia seguir por outra via. O poeta-profeta derrama-se como óleo perfumado no texto que é todo seu, mas que se torna todo para os outros porque o recebeu de Deus; faz-se lenho do fogo abrasador que aquece a história e gera a luminosidade que dá a vista aos cegos; torna-se mola do coxo que precisa de andar, estímulo para o surdo que precisa de ouvir, bálsamo para o doente que necessita da cura, farinha e água para quem precisa de pão e de água para saciar a fome e a sede. Ansioso por conjugar os extremos na síntese promotora do bem, sabe que o único Absoluto é o Amor, o único Bem é Vida e o único Alvo é a valorização do instante de Deus.
Como o poeta-profeta é o apóstolo. Porém, enquanto o profeta se constitui chamado, predestinado e discípulo mediante uma teofania em que não pôde ver o rosto de Deus, o apóstolo constitui-se como discípulo privando com o Deus encarnado em Seu Filho Jesus, sendo convidado a segui-Lo, ouvindo-O no quotidiano, partilhando com Ele o banquete da Salvação, o trabalho, os direitos e as obrigações; sente com Ele o momento da celebração da Aliança, come do Seu corpo e bebe do Seu sangue. Depois, tem o privilégio de rezar com o próprio Jesus/Deus. Não assistiu à Sua morte porque teve medo ou, se assistiu, recebe como testamento da caridade divina a Mãe do próprio Deus e confia-se a Ela. Tem mãe. Fixa e contempla o Ressuscitado e com alegria, movido pela força do Espírito Santo, vai anunciar que Aquele que estava morto vive e é constituído o Senhor em quem encontramos o perdão. E esta mensagem é comunicada a partir de Jerusalém, em círculos concêntricos, até aos últimos confins da Terra.
Queremos melhor pretexto para o dinamismo poético-profético-apostólico?
Mas há mais. Enquanto os profetas antigos tinham uma missão provinda dum passado teofânico, mas nubloso, com vista à aquisição das coisas que iriam acontecer, o apóstolo é enviado porque foi constituído testemunha ocular e auditiva (ou equivalente nos seus fundamentos) de factos já ocorridos que persistem no presente e permitem um futuro assente não apenas na esperança, que se reforça como força motriz, mas sobretudo na abundância da caridade divina que se torna mandamento irrecusável com intensidade pessoal e abrangência universal tornada marca indelével e contagiante dos novos seguidores, discípulos e apóstolos – quiçá mártires até ao sangue ou professores da fé até à entrega ilimitada, heroica e docente.
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Poetas-profetas discípulos-apóstolos, mártires-professores da fé rejeitam redomas, estufas, viveiros, gaiolas. Quererem diminuir-se para que Ele cresça. Não aprisionam a mensagem, o mistério, o projeto. Comunicam-no, divulgam-no, consolidam-no, celebram-no.
Trocam os tapetes pelo chão batido. Solitários, não se vergam aos homens; só obedecem a Deus, que marca o compasso do próprio coração; indomáveis, revoltam-se com o trivial; irrequietos, perturbam o normal. São verdadeiros revolucionários da ternura e da misericórdia de Deus. Fazem a poesia da vida e transformam a desgraça em sublimação do desígnio divino presente nos homens mais pobres, doentes, descartados ou no coração das almas generosas, dedicadas. De gente dispersa constroem a comunhão, com indivíduos isolados fazem comunidade viva na fé, na esperança e no amor. É a verdadeira poesia factiva!
Poetas-profetas discípulos-apóstolos, mártires-professores da fé não defendem a própria reputação. Alvos fáceis dos ímpios quando negam a história, só as gerações futuras lhes fazem justiça. Pedras do meio do caminho incomodam; indestrutíveis, semeiam trigo que se fará o pão do idealista, do revolucionário, mesmo que perturbado pelo crescimento irritante da cizânia.
Poeta-profeta discípulo-apóstolo, mártir-professor da fé é alquimista, pois faz das palavra poção encantante e o seu feitiço condimenta a vida. Cria sabores exóticos; usa verbo forte, inebria a imaginação e gera o sonho. Conhece o segredo de transformar o transcendental no plausível. Alado, vive nas nuvens, mantém parceria perpétua com os anjos e adora a Deus em espírito e verdade, na intimidade do quarto, no interior do Templo, no silêncio das montanhas ou no bulício das praças. Escuta a bruma do vale, agasalha-se sob o manto platinado da lua e expõe-se ao fulgor e calor do sol. Não teme ausências e a solidão não o intimida. É selvagem como o tigre, altivo como a águia e acutilante ou encantador como a serpente.
Poeta-profeta discípulo-apóstolo, mártir-professor da fé nascera no pé do arco-da-velha; salvo das águas, cresce como o cedro do Líbano; sensível, plora com o dedilhar da harpa; torna-se parceiro dos humildes, dos mansos e dos puros de coração. Contudo, o seu destino é a cruz.
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Que de junto de São Pedro e imerso na sua Cultura, Dom José Tolentino, brilhe com a poesia, a profecia e o apostolado.
2018.07.02 – Louro de Carvalho

segunda-feira, 25 de junho de 2018

Do precursor ao apóstolo


A solenidade do Nascimento de São João Batista dá azo a reflexão na linha do enunciado vertido em epígrafe. Com efeito, no hino de Vésperas, dirigindo-nos ao Santo, rezamos:
Um mensageiro vindo das alturas / Vosso nome bendito anunciou, / Profetizando o vosso ministério / Precursor”.
O Evangelho da Missa da Vigília (repare-se que esta é das poucas solenidades com textos próprios para a Missa da Vigília – as outras são: a do Natal, a da Páscoa, a do Pentecostes, a de São Pedro e São Paulo e a da Assunção de Nossa Senhora), tomado de Lucas, no atinente ao anúncio do nascimento de João (Lc 1,5-17), refere que o anjo Gabriel apareceu ao sacerdote Zacarias já de avançada idade, que oficiava no Templo, a predizer-lhe que Isabel, sua esposa, estéril e de idade avançada (eram um casal justo e cumpridor irrepreensível  de todos os mandamentos e leis do Senhor) iria conceber e dar à luz um filho, ao qual ele poria o nome de João. E, ante a estupefação de Zacarias, o mensageiro marcou detalhadamente a missão de João como precursor, o que vai à frente:
Será cheio do Espírito Santo desde o seio materno e reconduzirá muitos dos filhos de Israel ao Senhor, seu Deus. Irá à frente do Senhor, com o espírito e o poder de Elias, para fazer voltar os corações dos pais a seus filhos e os rebeldes à sabedoria dos justos, a fim de preparar um povo para o Senhor”. 
E o Evangelho da Missa do Dia, também de Lucas (Lc 1,57-66.80) mostra Zacarias aquando da circuncisão do menino (8 dias de pois do seu nascimento) a colocar por escrito (pois tinha emudecido) a ordem do anjo “João é o seu nome”, tal como Isabel tinha dito aos circunstantes. Depois, abriu-se-lhe a boca e soltou-se-lhe a língua; e, começando a falar, bendisse a Deus, com a admiração de todos, que se encheram de temor e levaram  a que por toda a região montanhosa da Judeia se tenham divulgado estes factos. 
Por outro lado, o cântico do “Benedictus”, proferido por Zacarias na mesma ocasião, se bem revela que este nascimento significa a visita misericordiosa de Deus ao seu povo e a redenção do mesmo povo pela mão dum salvador poderoso que aí vem e que nos fará viver em santidade e justiça todos os dias da nossa vida na presença do Senhor, também precisa que João não é o Salvador, mas o menino que será chamado profeta do Altíssimo porque irá à frente do Senhor a preparar os seus caminhos e a dar a conhecer ao povo a salvação pela remissão dos pecados.
Assim e por isso, o precursor “será grande aos olhos do Senhor e cheio do Espírito Santo desde o seio materno” e “muitos se alegrarão com o seu nascimento” (Lc 1,15.14), pois foi enviado por Deus para dar testemunho da luz e preparar o povo para a vinda do Senhor (cf Jo 1,6-7; Lc 1,17).
Na sua estrita e importante missão de precursor, João advertiu: Eu não sou o Messias” (Jo 1,20). E declarou: Eu sou a voz de quem grita no deserto:Retificai o caminho do Senhor’, como disse o profeta Isaías” (Jo 1,23; cf Mt 3,3; Mc 1,2-3). E Lucas refere ainda os resultados esperados:
Toda a ravina será preenchida, todo o monte e colina serão abatidos; os caminhos tortuosos ficarão direitos e os escabrosos tornar-se-ão planos. E toda a criatura verá a salvação de Deus.” (Lc 3,5-6).
Assim, João justificou:
Eu batizo com água, mas no meio de vós está quem vós não conheceis. É aquele que vem depois de mim, a quem eu não sou digno de desatar a correia das sandálias.” (Jo 1,26).
Ou de outro modo, enfatizando a conversão e referindo o poder judicativo do Messias:
Eu batizo-vos com água, para vos mover à conversão; mas aquele que vem depois de mim é mais poderoso do que eu e não sou digno de lhe descalçar as sandálias. Ele há de batizar-vos no Espírito Santo e no fogo. Tem na sua mão a pá de joeirar; limpará a sua eira e recolherá o trigo no celeiro, mas queimará a palha num fogo inextinguível.” (Mt 3,11-12; cf Mc 1,7-8; Lc 3,16-17).
No dia seguinte, coube-lhe fazer a apresentação presencial de Jesus. Vendo que Ele se dirigia ao seu encontro, exclamou, frisando o dado nuclear da messianidade, o resgate pascal do pecado:
Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo! É aquele de quem eu disse: ‘Depois de mim vem um homem que me passou à frente, porque existia antes de mim’.” (Jo 1,29-30).
Mais, depois do Batismo que João ministrou a Jesus, também Lhe cedeu alguns dos seus discípulos com vista à realização da messianidade, pois, como refere o evangelista,
No dia seguinte, João encontrava-se de novo ali com dois dos seus discípulos. Então, pondo o olhar em Jesus, que passava, disse: ‘Eis o Cordeiro de Deus!’. Ouvindo-o falar assim, os dois discípulos seguiram Jesus, o qual se voltou e, notando que o seguiam, perguntou-lhes o pretendiam. Eles disseram: ‘Rabi (que quer dizer Mestre), onde moras?’. Ele respondeu-lhes: ‘Vinde e vereis’. Foram, pois, e viram onde morava e ficaram com Ele nesse dia.” (Jo 1,35-39).
Mais tarde, surge um novo testemunho do Batista sobre Jesus. Tendo Jesus ido com os seus discípulos para a região da Judeia, onde convivia com eles e batizava, e, estando João a batizar em Enon, perto de Salim, vinha gente ter com um e com outro para ser batizada, em razão da abundância da água. Levantou-se, então, uma discussão entre os discípulos de João e um judeu acerca dos ritos de purificação. Foram, pois ter com João a dizer-lhe ciosamente: ‘Aquele que estava contigo na margem de além-Jordão e de quem deste testemunho está a batizar e toda a gente vai ter com Ele’ (cf Jo 3,22-23.25-26). Aí, João esclareceu desinteressada e perentoriamente:
Um homem não pode tomar nada como próprio, se isso não lhe for dado do Céu. Vós mesmos sois testemunhas de que eu disse: ‘Eu não sou o Messias, mas apenas o enviado à sua frente.’ O esposo é aquele a quem pertence a esposa; mas o amigo do esposo, que está ao seu lado e o escuta, sente muita alegria com a voz do esposo. Pois esta é a minha alegria! E tornou-se completa! Ele é que deve crescer, e eu diminuir.” (Jo 3,27-30).
Ficou, assim replasmado em definitivo, neste segmento, o papel do precursor com a afirmação humilde e designiacional da necessidade do crescimento do Messias e da diminuição funcional daquele que foi enviado à sua frente com uma missão propedêutica. Quantos, porém, ao longo do tempo, não souberam circunscrever-se à missão de precursores e se quiseram empoleirar na função de Messias ou de seus lídimos lugares-tentes, com todos os poderes e honras!
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E Jesus confirma a missão precursora do Batista e tece largos elogios à sua personalidade e ao cumprimento cabal da sua missão propedêutica e antropagógica.
Assim, para Jesus, João é um profeta e mais que um profeta: aquele de quem está escrito: Eis que envio o meu mensageiro diante de ti, para te preparar o caminho. Tanto assim é que entre os nascidos de mulher, não apareceu ninguém maior do que João Batista; e, no entanto, o mais pequeno no Reino do Céu é maior do que ele, porque o Reino é arrebatado pelos simples, pelos humildes e pelos persistentes. Desde o tempo do Batista até agora, o Reino do Céu tem sido objeto de violência e os violentos apoderam-se dele à força. Todos os Profetas e a Lei anunciaram isto até João. E, quer se acredite quer não, ele é o Elias que estava para vir (cf Mt 11,9-14; Lc 7,26-28). 
Por outro lado, o Mestre faz saber – em resposta a um pedido de esclarecimento de emissários que vinham da parte do precursor, ora preso nas masmorras herodianas – que o Messias estava já em franca atividade missionária a Patre e especificou os sinais:
Ide contar a João o que vedes e ouvis: Os cegos veem e os coxos andam, os leprosos ficam limpos e os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e a Boa-Nova é anunciada aos pobres. E bem-aventurado aquele que não encontra em mim ocasião de escândalo.” (Mt 11,4-6; Lc 7,22-23).
Com efeito, nessa altura, Jesus curava a muitos das suas doenças, padecimentos e espíritos malignos e concedia vista a muitos cegos (Lc 7,21) – totalmente em consonância com a missão messiânica plasmada no cap. 4 de Lucas na sequência da profecia de Isaías, cumprida em Jesus: 
O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para anunciar a Boa Nova aos pobres; enviou-me a proclamar a libertação aos cativos e, aos cegos, a recuperação da vista; a mandar em liberdade os oprimidos, a proclamar um ano favorável da parte do Senhor” (Lc 4,18-19).
No Evangelho de Mateus, o ensinamento de Jesus compendia-se nas Bem-aventuranças, que abrem o discurso do Sermão da Montanha (vd Mt 5,1-12); e, no de João, a finalidade da vinda de Jesus ao mundo é que todos “tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10). E isto pode ser dito e redito de muitos modos a teor do Evangelho, mas basta que retenhamos o segmento fixado perentoriamente no Evangelho de Marcos “o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por todos” (Mc 10,45; cf Mt 20,28) e o apelo do Mestre vertido no Evangelho de João:
Se Eu, o Senhor e o Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns aos outros. Na verdade, dei-vos exemplo para que, assim como Eu fiz, vós façais também.” (Jo 13,14-15). Dou-vos um novo mandamento: que vos ameis uns aos outros; que vos ameis uns aos outros assim como Eu vos amei. Por isto é que todos conhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros.” (Jo13, 34-35).
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E pronto. Já percebemos tacitamente como a missão do discípulo que se fez apóstolo (pois ninguém pode ser apóstolo se não for discípulo; e é insensato e inútil ser discípulo sem ser apóstolo…) passa necessariamente por assumir a missão messiânica com a humildade do precursor e com a alegria de quem tem o privilégio de estar com o esposo e ouvir a sua voz. Com efeito, tanto João como Jesus anunciavam a chegada e a proximidade do Reino de Deus e pediam a adesão ao mistério e projeto do Reino através da metanoia da mente, da do coração, da das atitudes e comportamentos pessoais e da das estruturas sociais.
Por outro lado, é mister do discípulo-apóstolo estar disponível para, à semelhança do Mestre, servir e dar a vida para que todos tenham a vida e a tenham em abundância. E isto implica ser fiel à unção recebida do Espírito do Senhor para estar em saída levando a Boa Nova aos pobres, proclamando a libertação aos cativos, recuperando a vista dos cegos, fazendo andar os coxos, com que fiquem limpos os leprosos, os surdos ouçam e os mortos ressuscitem, mandando em liberdade os oprimidos e proclamando o tempo do favor e graça da parte do Senhor.
Os apóstolos têm o mandato do Senhor, que implica saída, ação e confiança:
Ide, pois, fazei discípulos de todos os povos, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a cumprir tudo quanto vos tenho mandado. E sabei que Eu estarei sempre convosco até ao fim dos tempos.” (Mt 28,19-20; cf Mc 16,19-20).
Mas este mandato, além do ensino e do Batismo, implica a compreensão profunda das Escrituras, o revestimento da força do Alto (para ir em saída), a pregação e a aceitação do perdão e o testemunho no Espírito Santo. Com efeito, em Lucas (26,45-49), pode ler-se:
Abriu-lhes então o entendimento para compreenderem as Escrituras e disse-lhes: Assim está escrito que o Messias havia de sofrer e ressuscitar dentre os mortos ao terceiro dia; que havia de ser anunciada, em seu nome, a conversão para o perdão dos pecados a todos os povos, começando por Jerusalém. Vós sois as testemunhas destas coisas. E Eu vou mandar sobre vós o que meu Pai prometeu. Entretanto, permanecei na cidade até serdes revestidos com a força do Alto.
E, no Evangelho de João, estabelece-se a conexão entre a paz, a alegria, o afastamento do medo, o envio, o dom do Espírito Santo e o perdão dos pecados – tudo dádivas pascais. Com efeito, na aparição aos Onze na tarde da Ressurreição, Ele mostrou-se O que fora morto e agora redivive:
Veio Jesus, pôs-se no meio deles e disse-lhes: ‘A paz esteja convosco!’ Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o peito. Os discípulos encheram-se de alegria por verem o Senhor. E Ele voltou a dizer-lhes: ‘A paz convosco! Assim como o Pai me enviou, também Eu vos envio a vós.’. Em seguida, soprou sobre eles e disse-lhes: ‘Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ficarão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ficarão retidos’.” (Jo 20,19-23).
Por conseguinte, se ensinam e santificam e encaminham, fica confirmada, na missão, a dupla qualidade dos discípulos de Luz do Mundo e Sal da Terra (cf Mt 5,13-16), mantendo e renovando constantemente o vigor transformador do sal, para que não sejam considerados servos inúteis, e fazendo brilhar a luz discipular diante dos homens, de modo que, vendo as boas obras, glorifiquem o Pai, que está no Céu. 
E, de facto, Pedro sintetizou bem no discurso do Pentecostes a súmula do anúncio – “Deus estabeleceu como Senhor e Messias a esse Jesus por vós crucificado” (At 2,36) – e o resultado da aceitação da pregação – “Convertei-vos e peça cada um o baptismo em nome de Jesus Cristo, para a remissão dos seus pecados; recebereis, então, o dom do Espírito Santo” (At 2,38)
Em suma, o essencial do apostolado está na seguinte verificação: Com grande poder, os Apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus, e uma grande graça operava em todos eles” (At 4,33). Se isto acontecer, os que abraçam a fé terão “um só coração e uma só alma” e não haverá “ninguém necessitado” (cf At 4,32.34), porque a doutrina e o dinamismo das bem-aventuranças se evidenciarão. Importa que os apóstolos escutem o Espírito e também aceitem, a jusante, a humildade e a determinação que o precursor teve a montante – que o Mestre cresça. Na verdade, o apóstolo tem de ser, perante muitos, um verdadeiro precursor em relação a Jesus, ou seja, um verdadeiro propedeuta, um pedagogo – não uma autorreferência – e, em sentido recíproco, um veículo da graça e do favor misericordioso para cada um dos redimidos. Graças sejam, entretanto dadas a Deus pela plêiade de precursores/apóstolos que têm feito ao longo da História discípulos de Cristo e obreiros e educadores da paz!
***
Poderá ser neste espírito que os crentes tenham, desta feita, celebrado João Batista, o único santo, com a Virgem Maria, de quem a Liturgia celebra o nascimento para a terra – o que se deve à missão única, que, na História da Salvação, foi confiada a este homem, santificado, no seio de sua mãe, pela presença do Salvador (que ia no ventre de Maria aquando da sua visita a Isabel), que mais tarde, dele fará um belo elogio (Lc 7,28), como foi referido. 
Elo de ligação entre a Antiga e a Nova Aliança, João foi acima de tudo, o enviado de Deus, uma testemunha fiel da Luz, aquele que anunciou Cristo e o apresentou ao mundo. Profeta por excelência, a ponto de não ser senão uma “Voz” de Deus, é o Precursor imediato de Cristo: vai à Sua frente a apontar, com a palavra e com o exemplo da vida, as condições necessárias para se alcançar a Salvação. 
A Solenidade do Precursor é, pois, um convite a que reconheçamos Cristo, Sol que nos vem visitar na Eucaristia, a que dêmos testemunho d’Ele, com o ardor, o desprendimento e a generosidade do Batista e a que interiorizemos a tarefa de discípulos e a missão de apóstolos.
2018.06.25 – Louro de Carvalho

domingo, 25 de fevereiro de 2018

Fez da Santidade o seu caminho, sempre ao lado dos mais necessitados


É a grande referência que o Presidente da República fez ao Padre Dâmaso Lambers, sacerdote luso-holandês que se distinguiu pela pastoral das prisões e pela comunicação através da Rádio Renascença e que faleceu no Hospital da Ordem Terceira, em Lisboa, no passado dia 22 de fevereiro, com 87 anos de idade. Escreveu Marcelo Rebelo de Sousa em nota publicada na página Web da Presidência da República:
Morreu um Homem Bom, que fez da Santidade o seu caminho, sempre ao lado dos mais necessitados; o Padre Dâmaso Lambers, nascido na Holanda mas que morreu, como era seu desejo, em Portugal, país que fez seu há mais de seis décadas”.
O Chefe de Estado prestou, assim, homenagem ao homem que viveu “uma vida feita de constante dádiva, mas também de combate pela Liberdade” e que, a 10 de junho de 2009, o então Presidente da República, Cavaco Silva, agraciou com o grau de Grande-Oficial da Ordem do Mérito. Marcelo conclui, na mensagem divulgada através da Presidência da República:
O Padre Dâmaso deixa, na Rádio Renascença e nos seus ouvintes, nos ex-reclusos que quis reintegrar através d’O Companheiro, em cada um dos que foram tocados pela sua Alegria, um testemunho vibrante de Fé e de amor pelo próximo”.
Era inconfundível o sotaque arranhado e o entusiasmo com que falava da vida. “Jesus é fantástico!”, não se cansava de repetir. Dâmaso Lambers nasceu na Holanda, sofreu a II Guerra Mundial e, aos 27 anos, passou a dedicar a vida a Portugal. Conhecido como o padre das prisões, nunca aceitou a normalização da pobreza, fez da Renascença a segunda paróquia e a sua cátedra. Morreu deixando por onde passou um rasto de amor paciente, não interesseiro.
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Hermano Nicolau Maria Lambers – de seu nome de nascimento e de Batismo – nasceu a 9 de junho de 1930 na Holanda, ainda na ressaca na I Guerra Mundial. Sendo o mais novo de seis irmãos, adoecera aos poucos meses de idade; e os pais consagraram-no a Deus e entregaram-no aos cuidados de Santa Teresinha. Salvou-se. Aos 7 anos, fez a Primeira Comunhão e desde aí recebeu o Senhor todos os dias da sua vida.
Tinha 10 anos quando as tropas nazis de Adolf Hitler invadiram o país. Cruzava-se com os soldados alemães na missa de domingo e passava os dias a procurar lenha para aquecer os idosos e doentes, porque os invasores roubavam todo o carvão. No meio da guerra, da destruição e da morte de vizinhos, amigos e conhecidos, Hermano começou a refugiar-se na fé, desaparecendo, muitas vezes, de perto dos irmãos para ser encontrado pouco depois, de joelhos, a rezar no quarto. Ainda Hitler não se tinha rendido quando manifestou a intenção de ser padre. Porém, ao atingir a idade de preparação para concretizar tal desígnio (18 anos), os seminários holandeses estavam totalmente destruídos pelos bombardeamentos. Foi, pois, orientado pelos padres da Congregação dos Sagrados Corações de Jesus e de Maria – à qual se juntou mais tarde – e foi ordenado em 1955, aos 25 anos. Foi nessa altura que adotou o nome Dâmaso.
A 7 de maio de 1945, em Reims, os alemães assinaram a rendição. Era a capitulação do regime nazi e o fim da II Guerra Mundial. Dâmaso passou os anos da guerra na Holanda ocupada pelos alemães. Tinha 15 anos quando o conflito acabou, mas foi no último dia de combates, junto à sua cidade, Breda, que viveu os verdadeiros horrores da guerra.
O jovem queria ser missionário em terras exóticas: segundo alguns, na América Latina, segundo outros, na Polinésia, e ainda, segundo outros, nas ilhas Cook e na Nova Zelândia. Porém, o superior provincial disse-lhe que o Cardeal-patriarca de Lisboa precisava de três padres para as missões populares na Província. E, embora tendo visto a mudança de planos com um natural desagrado, tal como fez sempre, obedeceu. Assim, em 1957, veio para Portugal, donde nunca mais se foi embora. Instalou-se num convento na Penha de França, onde estava a congregação dos “Sagrados do Coração de Jesus e Maria” de que era membro. Aquela zona da cidade era pobre. Eram muitas as barracas, que se espalhavam pelas encostas dos arredores. Começou na JOC com o trabalho social de acolhimento aos pobres e acabou a construir uma pequena capela para celebrar missa para eles e no meio deles. Um pouco mais tarde, viveu o seu período mais feliz como pregador dos Cursilhos de Cristandade cujo movimento ajudou a introduzir em Portugal. Dois ou três anos depois de chegar a Lisboa já era um pregador conhecido e o Padre João Gonçalves, que participara no movimento em Espanha, pediu-lhe ajuda para trazer o movimento para Portugal. Fê-lo durante muitos anos e experimentou com isso uma felicidade crescente, mas sem porquê a hierarquia afastou-o desse trabalho.
Sentiu-se injustiçado a ponto de nem o sentido de perdão e o apurado senso de obediência terem permitido que tal ferida sarasse totalmente, pois, sempre que falava do assunto, parecia que se lhe turvava o olhar – parecendo esta a única coisa “imperdoável” para este padre luso-holandês.
Entretanto, dois anos depois de estar a viver em Portugal, foi convidado para dar uma conferência na prisão feminina de Tires: correu tão bem que o convidaram para repetir a exposição noutras cadeias, um pouco por todo o país. Embora, a princípio, nem achasse grande ideia o ser-lhe confiado, como se de paróquia itinerante se tratasse, o serviço nas prisões, a sua índole pragmática de nórdico fez-lhe perceber que tinha ali encontrado a sua principal vocação, pelo que acolheu obedientemente o pedido do Prelado.
Primeiro como visitador, depois como capelão, ajudou inúmeros homens e mulheres a encontrar Jesus dentro de quatro paredes. Ficou conhecido como o “padre das prisões”.
Porém, a dada altura, reconheceu que pregar a Boa Nova e ajudar com bens ou com o próprio dinheiro deixou de ser suficiente. Decidiu, por isso, fundar, em 1987, “O Companheiro”, uma organização que ainda existe e que se dedica a ajudar ex-reclusos a reintegrar-se na sociedade. Entretanto, conheceu o Monsenhor Lopes da Cruz, fundador da Rádio Renascença, e tornou-se colaborador da Emissora Católica até ao fim da vida. Foi presença diária com o programa “Caminhos da Vida” e mentor para muitos que por lá passaram. Nas novas instalações da Rádio Renascença, na Quinta do Bom Pastor, na Buraca, existe uma sala com o seu nome. Na verdade, além da obra relacionada com a Pastoral penitenciária, de que foi pioneiro, que incrementou e a que deu pernas para andar – trabalho que, marcou profundamente a sua vida, segundo confessou à agência Ecclesia, por ocasião dos 60 anos da sua ordenação sacerdotal, em 2015, quando foi lançado o livro Uma vida de Doação –, tornou-se conhecido como “Voz da Rádio Renascença”.
Esta voz finou-se aos 87 anos. O corpo esteve em câmara ardente na Igreja de Nossa Senhora do Amparo de Benfica a partir das 16 horas do dia 23. O Cardeal-patriarca de Lisboa, Dom Manuel Clemente, presidiu ali à celebração das exéquias solenes às 10,30 horas do passado dia 24 – celebração que juntou diversas personalidades, entre elas o anterior e o atual presidente do Conselho de Gerência da Rádio Renascença, os cónegos João Aguiar e Américo Aguiar.
O corpo do Padre Dâmaso Lambers passou às 16,30 horas pelo estabelecimento prisional do Linhó, onde acompanhou vários reclusos e seguiu, depois, para o cemitério de Alcabideche onde foi cremado.
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O Cardeal-patriarca de Lisboa agradeceu hoje ao padre Dâmaso Lambers o seu “testemunho” do que é uma vida “verdadeiramente apanhada por Jesus Cristo”. Dom Manuel Clemente, que visitou o sacerdote hospitalizado, recordou, na homilia, os “sinais e incentivos” de uma “alma cheia de Jesus Cristo”. E especificou:
Não só na sua cama, mas na cama ao lado, eu via livros, Evangelho e orações… tudo cheio de sinais e incentivos para esta vida fantástica de Jesus Cristo, que lhe enchia a alma e, por isso, lhe preencheu a vida”.
A vida do sacerdote “iniciada há muitos anos na Holanda, desde cedo marcada por uma forte vocação” foi relembrada durante a celebração que juntou diversas pessoas que acompanharam “na terra uma vida que já se completa no céu”.
Dom Manuel Clemente recordou as vezes em que, “já noite muito andada, tínhamos o Padre Dâmaso, sacerdote holandês que se tornou cidadão português com a alvorada evangélica”, aos microfones da Renascença, ou no acompanhamento “aos seus reclusos, como dizia”. E frisou:
A consciência de que estivesse onde estivesse, nas prisões, nas pregações, também nesta igreja onde ele tantas vezes pregou a Paixão e Via-Sacra, esta convicção de que não estava por ele, mas por aquele que lhe enchia a vida”. […] Que magnifico exemplo e testemunho forte do que é a vida de Jesus Cristo quando é verdadeiramente apanhada.”.
Na celebração, que “ele quis que fosse já de ressurreição”, aliás como quer a Igreja, as leituras foram antecipadamente escolhidas. E o presidente da celebração declarou e explicou:
Damos graças a Deus. Ele também quis que esta celebração fosse de ação de graças, disse-o e escreveu-o. Que não fosse uma celebração de pesar, mas que fosse já de ressurreição.”.
E Dom Manuel Clemente finalizou com um “Muito obrigado ao Padre Dâmaso”.
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Do Padre Dâmaso Graça Franco, da Renascença diz que “só é difícil explicar o que é um Santo aos que nunca tiveram a sorte de, muitas vezes e ao longo de vários anos, tomar o pequeno-almoço ao lado do padre Dâmaso Lambers”. Com efeito, “quem o conheceu ficou a saber que ‘Jesus é fantástico!’ e que a sua presença real na Eucaristia, ‘ainda é mais fantástica’!”. Era um padre “muito feliz”! Era o que ele repetia vezes sem conta. De facto, “nas suas mãos via a maravilha de trazer ‘um pouco do céu para oferecer a cada um e a cada uma na terra’ e essa maravilha era a causa da sua imensa felicidade”.
Depois, “a cada um e a cada uma repetia ‘sejam felizes’, como se fosse a nossa primeira obrigação nesta passagem pela Terra”. E, tal como o Papa se despediu do povo, logo na sua entrada no papado com um simples “adeus e bom almoço”, ele despedia os fiéis da missa não se limitando ao litúrgico “Ide em paz…” mas adicionando-lhe um “E sejam felizes!”. Assim, “não admira que os seus melhores amigos fossem os que ainda estavam ou já tinham saído da prisão: “gente fantástica” pelo simples facto de ser gente, fosse o que fosse que tivessem feito.
Graça Franco chama “nosso” ao Padre Dâmaso e diz que, “se houve prova encarnada do Amor infinito e misericordioso de Deus, foi o nosso padre Dâmaso”. Na verdade, esteve na Rádio Renascença desde 1976. “Primeiro numa série semanal de três programas (dirigidos aos doentes, aos reclusos e ao cidadão comum) depois nos mais diversos programas incluindo madrugada dentro numa conversa de tu a tu com os ouvintes”.
Diz Graça Franco que Dâmaso “não queria ir depressa”, que gostava muitíssimo de “estar vivo” e que gostava de que “a sua vida fosse o mais longa possível, porque aqui dava ideia de já estar plenamente com o Pai” – “essa pessoa ‘fantástica’ com a qual parecia ter-se encontrado num exato momento como se fosse desde sempre”.
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Educado em país protestante, muitas coisas lhe faziam “confusão” no catolicismo “folclórico” português. Pré-conciliar por formação e pós-conciliar por temperamento, não havia carimbo que se lhe pespegasse (esquerda/direita, conservadorismo/progressismo): “era simplesmente ele”. Indignado com os gastos supérfluos enquanto os pobres precisavam de ajuda, não foi à inauguração do Cristo Rei em Almada. A vivência e sobrevivência na II Guerra Mundial marcaram-lhe a vida: recebia mal “um certo aparato ostensivo tido por natural na década de 50/60”. O Rei que ele servia dispensava colunatas de milhares que poderiam ser utilizados para ajuda aos pobres.
Grande devoto de Maria, para ele era quase incompreensível a excessiva religiosidade popular em torno de Nossa Senhora de Fátima. Escandalizava-o, ao levar anos a fio aos pobres a Imagem peregrina, que se reduzisse a Mãe de Deus a uma ‘santinha’ a quem se pedem graças, quando ela viera implorar orações pelos outros, pela paz, pela conversão dos pecadores. Recorde-se o que disse o Papa Francisco em Fátima sobre o culto de Nossa Senhora e veja-se como Dâmaso Lambers tinha razão no seu desconforto e no incómodo que suscitava. “Tinha um amor a toda a prova pela Mãe de Deus, mas no centro da sua fé estava o filho Salvador. É o acento cristológico do culto mariano do “Per Mariam ad Iesum”.
Se ele “mandasse”, deviam ser proibidas as festas e romarias, pois, na sua ótica, eram “um disparate” que “fazia muito mal ao povo”, dando-lhe a falsa ideia de um Deus caricatural. E era-lhe muito difícil de aceitar os Santos Populares, pois, das marchas às sardinhas, ficavam esquecidas, apagadas, a verdadeira figura de Pedro, o primeiro Papa, a de João Batista, o grande precursor de Jesus Cristo, e a de Santo António, o primeiro santo da ordem franciscana e Doutor da Igreja - três homens que nada têm a ver com bailaricos e bebedeiras ou festanças fúteis.
Homens como Dâmaso, em testemunho de humildade, e fé, arrastando pelo exemplo e pela palavra e capazes de nos mover, aproximando o nosso coração de Cristo, são mesmo ‘Santos’ no verdadeiro sentido – “mesmo sem processo de beatificação ou de canonização, mesmo sem nenhum milagre relatado ou provado, e mesmo que tais processos nunca venham a ocorrer”.
O Padre Lambers que não gostava de pedir nada para não incomodar ninguém, nem a Deus porque só via razões para lhe dar graças, partiu com uma série de pedidos de todos nós para apresentar ao Pai do Céu. Fá-lo-á por puro Amor – paciente, prestável, sem inveja ou orgulho, sem inconveniências, não interesseiro, sem ressentimento, justo, alegre com a verdade e tudo desculpando, crendo, esperando e suportando (cf 1Cor 13,4-7) – que foi o segredo e o motor da sua vida. (cf Graça Franco, Rádio Renascença, 22 fev, 2018 - 20:23).
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Da minha parte, devo-lhe especial preito de homenagem. Para lá do que foi referido, orientou, de forma agradável, em setembro de 1979, o retiro do clero de Lamego, em que participámos os que iríamos ser ordenados de sacerdotes a 29 de setembro. Por isso, daqui a minha saudação aos Padres Adriano Alberto Pereira, António Lemos de Almeida e Armindo da Costa Almeida.
E as ideias que ele na ocasião deixou sobre a devoção Maria, o desconforto com o aparato eclesiástico e a crítica ao excesso de despesas com bens materiais em detrimento dos necessitados coincidem com o que diz Graça Franco. Todavia, no atinente às romarias e aos santos populares, embora advertisse para o grave perigo do resvalo para a caricatura de Deus e para o esquecimento do fundamental, pugnava então, contra o que pensávamos nós, pela purificação destes eventos. Seja como for, trata-se dum lutador, dum apóstolo, dum santo!
2018.02.25 – Louro de Carvalho

sábado, 28 de outubro de 2017

São Simão e São Judas Tadeu, colunas e fundamento da verdade do Reino

Simão e Judas fazem parte do grupo dos apóstolos que acompanharam Jesus durante a sua vida pública. Beda, o Venerável, pelo ano de 735, colocou os dois santos, Simão e Judas, no martirológio a 28 de outubro, o que se mantém mesmo depois da reforma do calendário litúrgico determinada pelo Concílio Vaticano II. Assim, ainda hoje os celebramos. Na antiga Basílica de São Pedro do Vaticano havia uma capela dos dois santos, Simão e Judas, em que se conservava o Santíssimo Sacramento.
Nicéforo Calisto diz que Simão pregou na África e na Grã-Bretanha. São Fortunato, Bispo de Poitiers no fim do século VI, assegura que Simão e Judas foram enterrados na Pérsia. Isto vem das histórias apócrifas dos apóstolos; segundo elas e como rege o martirológio jeronimita, foram martirizados por decapitação em Suanir, na Pérsia, a mando de sacerdotes pagãos que instigaram as autoridades locais e o povo. Outros dizem que Simão foi sepultado perto do Mar Negro, pelo que, na Caucásia, foi elevada em sua honra uma igreja entre o século VI e o VIII.
Antiga tradição diz que Simão se encontrou com o apóstolo Judas Tadeu na Pérsia e, desde então, viajaram juntos. Percorreram as 12 províncias do Império Persa, deixando o conhecimento histórico e religioso como foi encontrado num antigo livro da época chamado “Atos de Simão e Judas”, de autor desconhecido. Nele consta que, no dia 28 de outubro do ano 70houve o assassinato dos apóstolos, devido à preocupação pagã com a eloquência das pregações, que convertiam multidões inteiras. Era Simão apresentado com Nosso Senhor e foi crucificado por judeus da diáspora.
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Simão, que figura em undécimo lugar na lista dos apóstolos, tinha o cognome ou denominativo de “Zelotes” ou de “Cananeu”, assim chamado por Mateus e Marcos para se distinguir de Simão Pedro. “Cananeu” é uma palavra hebraica que significa “zeloso”. Dele sabe-se apenas que nasceu em Caná da Galileia e que tinha as denominações referidas, supondo-se que pertencera ao grupo religioso dos zelotas, que rejeitavam em absoluto a dominação romana, não tendo escrúpulos em pegar em armas contra o Império sob o desígnio da recuperação da soberania nacional. Alguns estudiosos cristãos, porém, entendem que este designativo de “cananeu” pode ser uma referência a Canaã, a terra de Israel. Quando Lucas o chama de “o zelote”, parece querer indicar que Simão pertencera ao partido judeu radical que tinha o mesmo nome. Sabe-se que Simão, como todos os outros apóstolos dos primeiros tempos do cristianismo, depois do Pentecostes, percorreu caminhos múltiplos (e alguns inóspitos) a pregar o Evangelho sem nada levar consigo. Operou muitos milagres, curou enfermos, leprosos e expulsou espíritos maus.
Outros relatos falam da pregação de Simão também no Egito, Líbia e Mauritânia. Segundo Eusébio, idóneo e célebre historiador, Simão teria sido o sucessor de Tiago, irmão do Senhor, na cátedra de Jerusalém, nos anos da trágica destruição da Cidade Santa.
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Judas, de sobrenome Tadeu ou Lebeu (de coração cheio), filho Alfeu e irmão de Tiago, é o apóstolo que na Última Ceia perguntou a Jesus por que razão Se manifestava aos seus discípulos e não ao mundo (vd Jo 14,22). Apesar de ser o apostolo mais desconhecido, atribui-se-lhe a última e uma das menos extensas epístolas ditas católicas (menos extensas que esta só a 2.ª carta e a 3.ª de João), porque não dirigidas a uma comunidade específica, mas a destinatários indeterminados. São Jerónimo interpreta-o como o homem de senso prudente.
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Temos, como já foi referido, uma epístola de Judas “irmão de Tiago”, que foi classificada como uma das epístolas católicas. Parece ter em vista convertidos e o combate seitas corrompidas na doutrina e nos costumes. Começa com estas palavras: 
Judas, servo de Jesus Cristo, e irmão de Tiago, aos chamados e amados por Deus Pai, e conservados para Jesus Cristo: misericórdia, paz e amor vos sejam concedidos abundantemente”. 
Orígenes achava esta epístola “cheia de força e de graça do céu”.
Segundo São Jerónimo, Judas terá pregado em Osroene (região de Edessa), sendo rei Abgar. Terá evangelizado a Mesopotâmia, segundo Nicéforo Calisto. São Paulino de Nola tinha-o como apóstolo da Líbia. Conta-se que Nosso Senhor, em revelações particulares, teria declarado que atenderá os pedidos daqueles que, nas suas maiores aflições, recorrerem a São Judas Tadeu. Santa Brígida refere que Jesus lhe disse que recorresse a este apóstolo, pois ele lhe valeria nas suas necessidades. Tantos e tão extraordinários são os favores que São Judas Tadeu concede aos seus devotos, que se tornou conhecido em todo o mundo com o título de Patrono dos aflitos e Padroeiro das causas desesperadas. Judas é representado segurando um machado, uma clava, uma espada ou uma alabarda, por sua morte ter ocorrido por uma dessas armas.
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Para não se confundir com o Iscariotes, “apóstolo da perdição” e traidor de Jesus, foi chamado nos evangelhos de Judas Tadeu. O nome “Judas” vem de “Judá” e significa “festejado”, enquanto “Tadeu” significa coração cheio, peito aberto, destemido ou, ainda, magnânimo.
Era, como se disse, natural de Caná da Galileia, na Palestina, filho de Alfeu, também chamado Cléofas, e de Maria Cléofas, ambos parentes de Jesus. O pai era irmão de são José; a mãe, prima-irmã de Maria Santíssima. Portanto, Judas era primo-irmão de Jesus e irmão de Tiago, chamado o Menor, também discípulo de Jesus. Os escritos cristãos epocais revelam mesmo esse parentesco, uma vez que Judas Tadeu seria, segundo alguns, um dos noivos do episódio que relata as bodas de Caná, pelo que  Jesus, Maria e os apóstolos estariam lá.
Na Bíblia, ele é citado pouco, mas de maneira importante. Assim, no evangelho de Mateus, vemos que Judas Tadeu foi escolhido por Jesus. Enquanto na escrita de João ele é narrado mais claramente. Na última Ceia, Judas Tadeu perguntou a Jesus: “Mestre, por que razão deves manifestar-te a nós e não ao mundo?”. Jesus respondeu-lhe que a verdadeira manifestação de Deus está reservada para aqueles que o amam e guardam a sua palavra.
Também faz parte do Novo Testamento a pequena Carta de Judas, a qual traz os fundamentos para perseverar no amor de Jesus e adverte contra os falsos mestres.
Após ter recebido o dom do Espírito Santo, Judas Tadeu iniciou sua pregação na Galileia. Realizou inúmeros milagres na sua caminhada pelo Evangelho. Depois, foi para a Samaria e, próximo do ano 50, tomou parte no primeiro Concílio, em Jerusalém. Em seguida, continuou a evangelizar na Mesopotâmia, Síria, Arménia e Pérsia, onde encontrou Simão, passando a viajar juntos. A tradição conta que São Judas Tadeu percorreu as doze províncias do Império Persa, nas quais pregou a Boa Nova do Evangelho e converteu muitos pagãos. Ao certo, o que sabemos é que o apóstolo Judas Tadeu se tornou um mártir da fé, isto é, morreu por amor a Jesus Cristo. A sua pregação e o seu testemunho eram tão intensos que os pagãos se convertiam. Os sacerdotes pagãos, furiosos, mandaram assassinar o apóstolo, a golpes de bastões, lanças e machados. Tudo teria acontecido no dia 28 de outubro de 70. Os seus restos mortais, guardados primeiro no Oriente Médio e depois na França, agora são venerados em Roma, na Basílica de São Pedro.
Considerado pelos cristãos o santo intercessor das causas impossíveis, foi a partir da devoção de santa Gertrudes que essa fama ganhou força no mundo católico. Ela, em sua biografia, relatou que Jesus lhe aconselhou invocar São Judas Tadeu até nos “casos mais desesperados”.
Depois disso, aumentou o número de devotos do seu poder de resolver as causas que parecem sem solução. Conta a tradição que não se encontra um devoto que tenha pedido sua ajuda e não tenha sido atendido.
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Sobre a Carta de Judas, de um só capítulo com 25 versículos, a Bíblia dos Capuchinhos refere que o autor se apresenta como “irmão de Tiago” (v. 1), e, por isso, também “irmão do Senhor” (vd Mt 13,55 par.). Todavia, hoje parece ter mais peso a opinião de que este “irmão do Senhor” será distinto do Apóstolo Judas Tadeu (Mc 3,18). Na verdade, os “irmãos do Senhor” não pertenceriam ao grupo dos Doze, pois distanciaram-se de Jesus, não crendo nele durante a sua vida terrena (vd Jo 7,5). E o autor faz supor que não se situa entre os Apóstolos (v.17): Lembrai-vos das coisas preditas pelos apóstolos de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Quanto ao lugar e data da sua escrita, não se pode ir além de conjecturas. Embora não se refira à parusia, são grandes as semelhanças com a 2.ª de Pedro (compare-se 2 Pe 2,1-18; 3,1-3 e Jd 4-19), sendo que a 2.ª de Pedro parece depender da Carta de Judas, em virtude do maior e mais ordenado desenvolvimento dos temas naquela. Por isso, terá sido escrita antes de 2 Pe ou nos fins da vida de Pedro, ou ainda, como pensam alguns, depois da sua morte, por volta do ano 80.
A pequena extensão da Carta e a sua menor relevância doutrinal justificam ter sido menos citada na antiguidade e ter havido dúvidas acerca da sua canonicidade, apesar de já aparecer citada em Tertuliano e no Cânon de Muratori.
A Carta não menciona os destinatários, mas supõe-se que seriam cristãos residentes fora da Palestina, que correriam o perigo da sedução por vícios típicos do paganismo. Entre esses destinatários haveria judeo-cristãos da diáspora; de outra maneira, não fariam sentido as múltiplas e variadas alusões ao AT e literatura apócrifa judaica, como o I Livro de Henoc, o 7.º descendente de dão, citado nos v.14-15, e a Assunção de Moisés, pretensamente referida no v.9.
A linguagem rica e cuidada, a que se alia grande vivacidade de estilo torna este escrito “uma duríssima invectiva contra os hereges e uma vibrante exortação aos cristãos a permanecerem firmes na fé e no amor de Deus, segundo o ensino dos Apóstolos”. A maior parte desta pequena carta atinge os falsos mestres, que se tinham infiltrado nas comunidades. E, nesta polémica, tem especial interesse a influência da literatura apocalíptica judaica, de que se cita expressamente o Livro de Henoc (v.4.6.14) e a Assunção de Moisés (v.9).
Citam-se, a título de exemplo, as recomendações dos vv 20-23:
Vós, caríssimos, edificando-vos a vós mesmos sobre a vossa santíssima fé e orando no Espírito Santo, conservai-vos a vós mesmos no amor de Deus, esperando a misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo para a vida eterna. E tratai com misericórdia os que vacilam, usando de discernimento: salvando alguns com temor, arrebatando-os do fogo e outros tratando-os com misericórdia, mas com cautela, odiando até a túnica manchada da carne.”.
E termina com uma poderosa doxologia:
Ora, àquele que é poderoso para vos guardar de tropeçar e apresentar-vos irrepreensíveis, com alegria, ante a sua glória, ao único Deus sábio, Salvador nosso, a glória e majestade, domínio e poder, agora, e para todo o sempre. Ámen.” (Jd vv 24-25).

2017.10.28 – Louro de Carvalho