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sábado, 8 de dezembro de 2018

Maria, a beleza luminosa no Advento/Natal


Na caminhada espiritual e pastoral do Advento/Natal do Senhor, a liturgia católica surpreende a Igreja crente, orante, discípula e apóstola com a Solenidade da Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria. Esta surpreendente festividade, surgida na História da Igreja em termos do Santoral, colocou-se antes do Natal de modo que o Nascimento ou Natividade de Maria pudesse celebrar-se em tempo de colheitas dos frutos semeados na primavera e das sementeiras outonais para as colheitas primaveris.
No entanto, esta solenidade mariana da pureza virginal de maria ab initio torna-se cristológica e eclesiológica se atendermos à pedagogia de Gabriel e de Isabel e ao conteúdo das mensagens.
Antes de mais, Gabriel chega a Nazaré enviado por Deus e saúda a donzela Maria como a Cheia de Graça, Aquela com quem o Senhor está – um elogio ou um piropo gracioso pelo facto de a donzela de Nazaré possuir o Senhor e Ele a possuir porque Ela achou graça no Senhor e Ele se revê nela. E, depois, solicitando-Lhe que não tema, anuncia que Ela conceberá e dará à luz o Santo de Deus, Aquele a quem ela porá o nome de Jesus, o Filho do Altíssimo, que libertará o povo dos pecados. É a lógica graciosa de Deus: parte-se de Maria cheia de graça em todo o tempo e lugar por obra de Deus, para nos ser dado o Filho do Altíssimo tornado também filho de Maria, o Deus humanado. Nesta lógica, que Maria aceitou, porque escutou bem e guarda no coração, Maria voluntaria-se para serva do Senhor, deixando que em Si e por Si se cumprisse a Palavra de Deus. E, como a Palavra de Deus é o próprio Filho de Deus, que em Maria Se tornou carne humana, Ela é simultaneamente a morada da Palavra, a serva da Palavra e a oferente quase sempre silenciosa da Palavra ao Mundo. (cf Lc 1,26-38; Jo 1,1-14).
E Isabel, reconhecendo em Maria a mãe do Senhor, por Ela ter acreditado em tudo quanto Lhe foi dito da parte de Deus, bendi-la a Ela e ao fruto do Seu ventre (cf Lc 1,39-45). A mesma lógica de Deus assumida por Isabel: de Maria, a Mãe, para Jesus, o Filho. Nada acaba em Maria, porque também nada começa em Maria. Ela é cheia de graça porque Deus está com Ela e a cumulou da graça divina, a mesma graça que Jesus trouxe ao mundo dos homens. Por isso, o centro da graça visível no mundo é Jesus, que nos faz caminhar Consigo, no Espírito Santo, para o Pai. A missão de Maria é cristípeta: encaminha-nos para o Cristo de Deus.
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Porém, como é de entender, Maria não está sozinha com Jesus nem O fechou no seu mundo, como alguns querem fazer. Ela é lugar e testemunha do mistério da Encarnação e colabora na construção da economia da Redenção. E, depois, junta-se em oração e atividade ao núcleo dos apóstolos a quem incumbe implantar a Igreja no mundo como instrumento, espaço e encontro de salvação. E hoje continua a acompanhar a Igreja como seu protótipo, como sua mãe, como sua irmã, visto que os membros da Igreja são irmãos, filhos no Filho, a cabeça deste corpo orgânico. Por isso, os Padres da Igreja aplicam a Maria aquilo que das Escrituras se aplica à Igreja e vice-versa. Por tudo a mariologia integra a eclesiologia
Na verdade, como nova Eva, Maria pertence à descendência da mulher que esmagará a cabeça da Serpente (cf Gn 3,15) – descendência protagonizada e presidida por Jesus, que tudo o mereceu, mas que agrega a Si todos os crentes constituídos em Igreja e em sementeira do Reino de Deus.
Com efeito, Maria deu ao mundo o Autor da vida e Luz do mundo. Como diz o evangelista Lucas, “Maria deu à luz o Seu Filho primogénito, envolveu-O em panos e reclinou-O numa manjedoura”. Eis o primeiro altar da contemplação e da adoração familiares, mas logo aberto à contemplação adorante dos anjos e dos pastores. Como Maria, também a Igreja e, nela, todos os seus membros têm o condão e o dever de contemplar Jesus, adorá-Lo e mostrá-Lo ao mundo dos homens e encaminhá-los para Ele, patenteando as portas da libertação e da liberdade. É, pois, eclesiológica a missão de Maria, como é mariana, em certa medida, a missão da Igreja.
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Nos alvores da pregação do Reino, a Virgem surge como a humilde serva do Senhor, mas a quem a luz divina que lhe brilha no olhar virgíneo e maternal faz entoar o cântico do louvor e da imensa misericórdia, que testemunha que Deus tem predileção pelos simples e humildes:
A minha alma glorifica o Senhor e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador. Porque pôs os olhos na humildade da sua serva. De hoje em diante, todas as gerações chamar-me-ão bem-aventurada. O Todo-poderoso fez maravilhas em mim. Santo é o seu nome. A sua misericórdia se estende de geração em geração sobre aqueles que o temem… Acolheu a Israel, seu servo, lembrado da sua misericórdia, como tinha prometido a nossos pais, a Abraão e à sua descendência, para sempre.” (Lc 1,46-55).
É a assunção da alegria da Filha de Sião como enuncia o profeta Isaías:
Exulto de alegria no Senhor e o meu espírito exulta no meu Deus, porque me revestiu com as vestes da salvação e me envolveu num manto de triunfo. Como um noivo que cinge a fronte com o diadema e como uma noiva que se adorna com as suas joias. Porque, assim como a terra faz nascer as plantas e o jardim faz brotar as semen­tes, assim o Senhor Deus faz germinar a justiça e o louvor diante de todas as nações.” (Is, 61,10-11).  
E esta alegria e esta beleza da Filha de Sião ou da Jerusalém predileta do Senhor – Maria e a Igreja – inundam a Terra como proclama o convite do Senhor pela voz do Profeta:  
Levanta-te e resplandece, Jerusalém, que está a chegar a tua luz! A glória do Senhor amanhece sobre ti! Olha: as trevas cobrem a terra, e a escuridão, os povos, mas sobre ti amanhecerá o Se­nhor. A sua glória vai aparecer sobre ti. As nações caminharão à tua luz, e os reis ao esplendor da tua aurora. Levanta os olhos e vê à tua volta: todos esses se reuniram para vir ao teu encontro. Os teus filhos chegam de longe, e as tuas filhas são transportadas nos braços. Quando vires isto, ficarás radiante de alegria; o teu coração palpitará e se dilatará, porque para ti afluirão as riquezas do mar, e a ti virão os tesouros das nações.” (Is 60,1-5). 
Obviamente, Maria ou a Igreja não seriam a luz. A Luz é o Senhor. Ele o diz (Eu sou a luz do mundo – Jo 8,12), mas quem O segue torna-se luzeiro e luz (quem me segue não anda nas trevas, mas terá a luz da vida – Jo 8,12; vós sois a luz do mundo – Mt 5,14). Por isso, na linha da profecia, as nações caminharão à luz da Filha de Sião, porque a glória do Senhor se espargiu sobre ela. Maria deu ao mundo a Luz e a Igreja tem a missão iluminar o mundo com a luz de Cristo.
A mesma mulher – Maria e a Igreja – surge nos tempos apocalípticos como o grande sinal a brilhar no Céu:
Uma Mulher vestida de Sol, com a Lua debaixo dos pés e com uma coroa de doze estrelas na cabeça. Estava grávida e gritava com as dores de parto e o tormento de dar à luz. […] Ela deu à luz um filho varão. Ele é que há de governar todas as nações com cetro de ferro. Mas o filho foi-lhe arrebatado para junto de Deus e do seu trono. E a Mulher fugiu para o deserto onde Deus lhe preparou um lugar, de modo a não lhe faltar aí o alimento durante mil duzentos e sessenta dias. Travou-se uma batalha no céu: Miguel e seus anjos declararam guerra ao Dragão. O Dragão e os seus anjos combateram, mas não resistiram. O grande Dragão, a Serpente antiga – a que chamam também Diabo e Satanás – o sedutor de toda a humanidade, foi lançado à terra; e, com ele, foram lançados também os seus anjos. Então ouvi uma voz forte no céu que aclamava: Eis que chegou o tempo da salvação, da força e da realeza do nosso Deus e do poder do seu Cristo!” (Ap 12,1-2.5-7.8.9-10).
A Cheia de Graça, revestida da beleza de Deus – mas cujo coração foi trespassado por uma espada de dor, como profetizou o velho Simeão (cf Lc 2,35) – surge perto do Natal, na tradição eclesial, como Senhora do Ó ou Senhora da Expectação (que o povo justifica como sendo a Senhora grávida – e também o é), unida ao Povo de Deus (e dele emergente em lugar de relevo) que espera o Messias desejado e reza, de 17 a 24 de dezembro, invocando-O pelos seus títulos messiânicos antes do Evangelho da Missa e como antífona do “Magnificat” em Vésperas: Ó Sabedoria do Altíssimo (dia 17), Ó Chefe da Casa de Israel (dia 18), Ó Rebento da Raiz de Jessé (dia 19), Ó Chave da Casa de David (dia 20), Ó Sol Nascente, esplendor da luz eterna e sol de justiça (dia 21), Ó Rei das Nações e Pedra angular da Igreja (dia 22), Ó Emanuel, nosso rei e legislador (dia 23). E leem-se as seguintes passagens do Evangelho: dia 17, Genealogia de Jesus (Mt 1,1-17); dia 18, Modo como Jesus nascerá de Maria (Mt 1,18-25); dia 19, Anúncio do nascimento do Precursor (Lc 1,5-25); dia 20, Anúncio do nascimento de Jesus (Lc 1,26-38); dia 21, Visita de Maria a Isabel (Lc 1,39-45); dia 22, Magnificat, cântico de Maria (Lc 1,45-26), semelhante, na evocação do poder do Senhor, ao cântico de Ana (1Sm 2,1-10); dia 23, Nascimento do Precursor; e dia 24, Benedictus, cântico de Zacarias.
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Não é, pois, descabido o facto de G. M. Behler, no seu livro “Alabanza Biblica de la Virgen” (Narcea, SA de Ediciones, Madrid: 1972), baseado em referências bíblicas, textos litúrgicos e patrísticos, doutrina do magistério eclesial e escritos dos santos, chamar a Maria e, consequentemente à Igreja, a Cidade de Deus, na dupla dimensão: a cidade mãe e a cidade refúgio. Com efeito, Aquela que surge como a aurora do tempo novo e que emerge de forma especial no Advento e Natal em função de Cristo, e da Igreja qual fruto seu, fica alvorada no Calvário em mãe de todos os povos e não por uma maternidade limitada aos contornos da carne, mas com a largueza, amplidão e profundidade do Espírito – a mãe universal, a mãe espiritual. Por outro lado, a mulher fiel que escutava e tudo guardava em seu coração (cf Lc 2,19.51) é a nova Jerusalém, resplendente de luz e beleza feita baluarte inexpugnável de Deus e baluarte indestrutível do Reino. Por isso, nós rezamos “Sub tuum praesidium confugimos Sancta Dei Genitrix…”.
Mas essas prerrogativas altamente nobilitantes também as têm a Igreja no seu ser e missão e, com ela, todos os filhos de Maria (filii Mariae) e filhos da Igreja (filii Ecclesiae – fregueses). É esta a nossa alegria, é esta a nossa responsabilidade. Para tanto, como a Virgem Maria, teremos de estar abertos à graça e disponíveis para a missão! E, se Maria pôde entoar “Magnificat anima mea Dominum…”, nós como Igreja e como crentes, podemos cantar:
Deus é o meu Salvador,
Tenho confiança e nada temo.
O Senhor é a minha força e o meu louvor.
Ele é a minha salvação.
Convidarmo-nos reciprocamente:
Povo do Senhor, exulta e canta de alegria.
Povo do Senhor, exulta e canta de alegria.
E, por fim,
Santa Mãe do Redentor, Porta do Céu, Estrela do Mar,
Socorre o povo cristão que procura levantar-se do abismo da culpa.
Alegrai-Vos, ó Virgem gloriosa, a mais bela entre todas as mulheres,
Santa Mãe de Deus, intercedei por nós diante do vosso Filho.  
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Vem aí o Natal. É imperativo não fechar a porta a Deus nem ao Homem. Chamam: é preciso responder. Batem: é preciso abrir e permitir a entrada no nosso mundo para que se transforme.
2018.12.08 – Louro de Carvalho

domingo, 2 de dezembro de 2018

Tu também tens de ser o presépio


Com o 1.º domingo do Advento, inicia-se o novo Ano Litúrgico e o seu 1.º ciclo, o do Natal.
O comércio já vem enxameando, desde fins de outubro, as ruas e praças, as montras e lojas e os spots publicitários de motivos e objetos natalícios, como também – é justo registá-lo – de campanhas a favor de quem precisa e de agendamento de encontros e outros atos de confraternização com familiares, vizinhos e amigos.
Na ótica do combate à banalização consumista que, muitas vezes, encandeia, adorna e atordoa o Natal com as luzes, decorações e sons do mundanismo, fazemos o esforço de evidenciação da profundidade do mistério do Natal centrando-nos em Jesus menino que, pelo Seu Nascimento, deu o primeiro passo na Terra para a cruz redentora, que possibilita a presente e a eterna confraternização dos filhos de Deus na e com a comunhão trinitária.
Por isso, fiquei algo espantado quando anotei que o Papa Francisco e o Bispo do Porto (que têm razão) recomendaram a colocação antecipada do Presépio e da Árvore de Natal nas igrejas, nas casas de família, nas ruas e nas praças. E hoje, dia 2 de dezembro, o sacerdote que celebrou a missa transmitida pela Rádio Renascença frisou que muitos e muitas que não são crentes celebram o Natal e dizia “ainda bem”, porque festejam a vida, o nascimento, a convivência.
E o Papa, na mensagem que dirigiu ao simpósio sobre as igrejas que deixam de estar ao culto e que podem ser destinadas a fins profanos não sórdidos, segundo o cânone 1222 do Código de Direito Canónico, disse que o fenómeno de muitas igrejas, necessárias até há poucos anos, mas não hoje, seja por falta de fiéis e de clero, seja por uma distribuição diferente da população nas cidades e nas zonas rurais, não deve ser acolhida com ansiedade pela Igreja. Ao invés, este fenómeno deve ser interpretado como um sinal dos temposque nos convida a uma reflexão e nos impõe uma adaptação”.
Talvez também o consumismo natalício, muito fomentado pelo comércio e pelas relações socioeconómicas, nos possa levar a uma oportuna reflexão e a encarar catequeticamente este pretenso alargamento dos festejos. Por isso, em vez de tentarmos obstruir o cortejo das vaidades, talvez seja mais conveniente tentar alinhá-lo pela linha da eficácia e tolerância evangélicas: continuar a semear o trigo, mas não impedir primariamente o crescimento conjunto do joio ou das ervas neutras. Não desistindo, mas sendo criteriosos!
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Só por motivos metodológicos se distinguem Natal e Advento. Advento (do nome latino adventus, us – chegada, por sua vez derivado do verbo advenire: vir, chegar, vir até junto de) significa vinda, chegada até junto de nós. Obviamente, no contexto cristão, trata-se da vinda de Jesus, o Messias. Ao longo dos tempos, Deus aproximou-se dos homens e falou-lhes implicitamente pelos sinais natureza e explicitamente pelos patriarcas, juízes, reis e profetas. Agora, fala-nos por seu filho Jesus Cristo. O Advento já celebra a vinda de Jesus, que tira o pecado do mundo – e nesse sentido, chamamo-Lo Messias em hebraico e Cristo em grego – como foi prometido ao longo do Antigo Testamento. Pelo Natal (no latim, dies natalis – dia do nascimento – de que o tempo assumiu o adjetivo “natalis” como nome deixando cair o “dies”), celebramos a vinda de Jesus pela modalidade factual do nascimento a partir do seio virginal de Maria onde fora concebido por obra do Espírito Santo.
Diga-se que um só dia do calendário seria exíguo para celebrar tão misterioso e portentoso mistério da Encarnação do Verbo de Deus.
Por isso, em douta antropagogia, a Igreja, embora centre a celebração na Solenidade do Natal do Senhor, fá-la preceder de quadra preparatória em que releva (para nossa edificação) mensagens, factos e figuras humanas – precursores da vinda de Jesus –, tal como subsequentemente lhe apõe uma oitava festiva para a sapiência e a deglutição do augusto mistério e, ainda, mais uns dias para absorvermos o dinamismo do Evangelho da Infância até ao Batismo do Senhor.
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Entre os vários motivos natalícios, destaca-se o presépio como lugar central do Natal. Devo, contudo, anotar que originariamente o “presépio” (em grego, “φάτνη” – phátnê: em latim: praesepium ou praesepe) é a manjedoura, que por sinédoque passou a designar também a gruta, estábulo, cabana.
Diz o Evangelho de Lucas que Maria deu à luz o Seu filho primogénito, O envolveu em panos e O reclinou sobre uma manjedoura (cf Lc 2,7). Porém, deve ter-se em conta que a manjedoura está abrigada na gruta ou cabanal e que ali foram acolhidos os visitantes e adoradores do menino.
Ora, do meu ponto de vista, a manjedoura passou, com o Natal, a ser o primeiro altar, na Terra, de adoração familiar: Maria e José acarinharam o menino, apaparicaram-no, beijaram-no, contemplaram-no e mostraram-no a quem aparecia, nomeadamente anjos e pastores.
Recordo que Bento XVI, na homilia da missa na Esplanada de Marienfeld, em Colónia, a 21 de agosto, no âmbito da XX Jornada Mundial da Juventude (JMJ), falou do sentido da adoração:
A palavra grega ressoa proskynesis. Ela significa o gesto da submissão, o reconhecimento de Deus como a nossa verdadeira medida, cuja norma aceitamos seguir. Significa que liberdade não quer dizer gozar a vida, considerar-se absolutamente autónomo, mas orientar-se pela medida da verdade e do bem, para, assim, nos tornarmos nós próprios verdadeiros e bons. Este gesto é necessário, mesmo se a nossa ambição de liberdade num primeiro momento resiste a esta perspetiva. […]. A palavra latina para adoração é ad-oratio contacto boca a boca, beijo, abraço e, por conseguinte, fundamentalmente amor. A submissão torna-se união, porque Aquele a quem nos submetemos é Amor. Assim, submissão adquire um sentido, porque não nos impõe coisas alheias, mas liberta-nos em função da verdade mais íntima do nosso ser.”.
Então, para adorar, pomo-nos de pé, inclinamo-nos, ajoelhamos, prostramo-nos, sentamo-nos consoante o que nos parece ser a postura do amado, de quem nos abeiramos. Antigamente, ao invés do que muitos pensam, o trono real estava perto do solo. Logo, para “adorar” o rei, o único que estava sentado, era mister fletir, ajoelhar ou prostrar-se, dependendo da estatura do súbdito (isto antes da instituição de práticas humilhantes). É, assim, preciso colocar a boca de modo a podermos beijar a pessoa amada e falar-lhe, ouvi-la para lhe podermos responder e podermos vir a falar em seu nome a outrem. Todavia, mais do que a posição física para adorar importa adorar em espírito e verdade (cf Jo 4,23.24). 
A adoração deve ser cultivada em família, mas não pode fechar-se nela. Imaginemos que Maria e José se tinham trancado na gruta de Belém e escondiam o menino… Mas não: aquele primeiro altar familiar abriu-se à adoração de quem acorreu ali: os anjos fizeram-se ouvir a cantar Glória a Deus no Céu e paz na Terra aos homens do seu agrado (cf Lc 2,14); entretanto, um deles fora avisar os pastores que pernoitavam nas imediações da cidade:
Não temais, pois anuncio-vos uma grande alegria, que o será para todo o povo: Hoje, na cidade de David, nasceu-vos um Salvador, que é o Messias Senhor. Isto vos servirá de sinal: encontrareis um menino envolto em panos e deitado numa manjedoura.” (Lc 2,10-12).
E os pastores apostolaram-se reciprocamente “Vamos a Belém ver o que aconteceu e que o Senhor nos deu a conhecer”. Foram apressadamente e encontraram Maria, José e o menino deitado na manjedoura. Depois de terem visto, começaram a divulgar o que lhes tinham dito a respeito daquele menino. Todos os que ouviram se admiravam do que lhes diziam os pastores. Quanto a Maria, conservava todas estas coisas, ponderando-as no seu coração. E os pastores voltaram, glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham visto e ouvido, conforme lhes fora anunciado (Lc 2,15-20).
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Ora tudo isto tem em vista dizer-nos que a vinda do Senhor, o nascimento de Jesus não aconteceu somente há dois mil anos. Este mistério sucede hoje em realização permanente na Igreja e pela Igreja, que tem a missão de oferecer Jesus ao mundo e de oferecer o mundo a Jesus. Mas ela só cumpre cabalmente esta missão se todos e cada um aceitarmos ser a manjedoura atual onde Jesus está reclinado e exposto à aprendizagem e adoração de todos a começar pelos pobres – que são também o presépio onde devemos ver e adorar Jesus e cuidar dele. E isso faz-se com as palavras da boca originadas na cabeça e com o coração terno e aberto. Depois, nós também devemos ser a gruta que protege este tesouro menino e acolhe todos os que vierem por bem, nunca lhes tolhendo a entrada, mas facilitando-lha.
Por isso, o presépio – manjedoura e cabanal – sou eu e és tu. E seremos cada mais presépio se aceitarmos ser anjos que fazem e cantam a glória de Deus e a paz entre os homens e pastores que também vêm adorar e incitam os outros à adoração.
Para tanto, teremos também de ser outros sinais do presépio: a árvore, ao resistirmos aos ventos e dificuldades da vida e semearmos a esperança; a luz, quando iluminamos com a nossa vida o caminho dos outros com a bondade, paciência, alegria e generosidade; o sino, quando chamamos, envolvemos e convidamos, congregamos e procuramos unir; as decorações, as nossas virtudes, que são as cores que embelezam a nossa vida; os anjos, quando cantamos para o mundo uma mensagem de paz, justiça e amor; a estrela, quando levamos alguém ao encontro com o Senhor; os magos, quando damos o melhor que temos sem termos em conta a quem o damos; o presente de Natal, ao sermos verdadeiros amigos e irmãos de todos os seres humanos; os cantares de Natal, quando conquistamos e irradiamos a harmonia dentro de nós; os votos de Natal, se perdoamos e restabelecemos a paz, mesmo quando sofremos por isso; a ceia, quando saciamos com pão e esperança o pobre que está ao nosso lado; a noite, quando, humildes e conscientes, recebemos no silêncio da noite o Salvador do mundo, sem ruídos nem grandes celebrações, sendo o sorriso da confiança e ternura na paz interior de um Natal perene que estabelece o reinado de Deus, dentro de cada um de nós.
O Natal somos nós, quando decidimos nascer de novo em cada dia e deixar que Deus entre e permaneça na nossa alma, na nossa vida. Se efetivamente assim acontecer, se assim o quisermos, o presépio será mesmo lugar de encontro em casa, na igreja e na rua!
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Por isso e para isso, ante as dificuldades, mesmo que catastróficas, temos que ousar erguer-nos e levantar a cabeça porque a nossa libertação está próxima. Mas devemos ter cuidado connosco: o nosso grande inimigo será o coração pesado pela intemperança (a falta de tempero ou de moderação) ou devassidão (viver não vivendo, andar ao toledo, em roda livre, sem leme), a embriaguez (do álcool, das drogas, dos prazeres, das ambições) e as preocupações (ainda que lícitas) da vida. E, sobretudo, devemos vigiar e orar em todo o tempo, para que possamos livrar-nos de tudo o que vai acontecer
e comparecer diante do Filho do homem (vd Lc 21,28.34.36).

E teremos de  crescer e abundar na caridade, uns para com os outros e para com todos e progredir cada vez mais numa santidade irrepreensível (cf 1 Ts 3,12.13; 4,1).
O presépio és tu, o presépio sou eu, o presépio somos nós; e o nosso presépio são os pobres!
2018.12.02 – Louro de Carvalho

sábado, 1 de dezembro de 2018

Não podemos viver de esperas, mas devemos viver na espera


É o Papa Francisco quem no-lo diz neste dia 1 de dezembro, a varanda para o Advento de 2018.
Com efeito, na manhã deste sábado, 1.º de dezembro, o Bispo de Roma recebeu os peregrinos das Dioceses de Ugento e de Molfetta, situadas na Itália central, que o vieram visitar em agradecimento pela visita que lhes fez em abril passado em homenagem a Dom Tonino Bello.
Iniciou o encontro com estes peregrinos do interior da Itália reiterando a premente atualidade da mensagem de Dom Tonino ao exortar:
Por favor, não fiqueis tristes por nenhuma amargura de casa. Não entristeçais as vossas vidas. Quem acredita em Jesus não pode ficar triste; porque o contrário de um povo cristão é um povo triste. Sigamos o pensamento de Dom Tonino.”.
E, reiterou a exortação, justificando:
Não fiquemos tristes: se fizermos isso, levaremos o tesouro da alegria de Deus à pobreza do homem de hoje. De facto, quem se entristece fica sozinho e só vê problemas; ao contrário, quem coloca o Senhor antes dos seus problemas encontra a alegria. Por isso, vamos deixar de nos lamentar e ao invés de nos entristecermos, comecemos a fazer o contrário: consolar e ajudar.”.
Neste encontro com os peregrinos, o Papa fez-lhes a seguinte advertência:
Uma vida ‘privada’ sem riscos e cheia de medos, em que se salvaguarda a si mesmo não é uma vida cristã. Não somos feitos para sonos tranquilos, mas para sonhos audaciosos.”. 
Ao falar do Advento que inicia neste domingo, afirmou que o novo ano litúrgico traz uma novidade do nosso Deus. que é o Deus de todas as consolações. Se olharmos para dentro de nós mesmos, vemos que todas as novidades que chegam não bastam para saciar as nossas expectativas. A este respeito, escrevia Dom Tonino: “Queremos coisas novas porque nascemos para coisas grandes’ e, é verdade, nascemos para estar com o Senhor; quando Ele entra em nós, chega a verdadeira novidade, Ele renova e surpreende sempre”. Mas o Papa adverte:
Não devemos viver de esperas, que talvez não se realizem, mas devemos viver na espera, ou seja, desejar o Senhor que sempre traz novidade. É importante saber esperar, e esperar sempre ativos no amor.”.
Como dizia Dom Tonino, quando não se espera mais nada, irrompe a verdadeira tristeza e nós, cristãos, somos chamados a proteger e a espalhar a alegria da espera recíproca: esperamos Deus que nos ama infinitamente e, ao mesmo tempo, somos esperados por Ele, o que parece um namoro. De facto, não estamos sozinhos: Deus visita-nos e espera estar connosco sempre.
Francisco recordou também aos peregrinos algumas palavras de Dom Tonino, pronunciadas há 30 anos, mas que parecem ter sido escritas hoje:
A vida é cheia de medos, medo do próprio semelhante, do vizinho de casa… medo do outro… medo da violência… medo de não conseguir, medo de não ser aceite… medo de que seja inútil esforçar-se… medo de que o mundo não mude… medo de não achar emprego”.
 E, nesse sentido, prosseguiu o Papa:
O Advento responde com o ‘Evangelho anti-medo’, porque quem tem medo e está abatido é reanimado pelo Senhor com a sua palavra, que o faz com dois verbos anti-medo, os dois verbos do Advento: reanimai-vos e levantai as vossas cabeças.”.
Na verdade, o Senhor pede que nos reanimemos quando o medo no deixa desolados; e, se as negatividades nos levam a olhar para baixo, Jesus convida-nos a olhar para o céu, donde Ele virá. Efetivamente, nós não somos filhos do medo, mas filhos de Deus, pelo que nós, dominando-nos a nós mesmos tendo Jesus ao lado, faremos com que o medo fique derrotado.
Em seguida, o Sumo Pontífice convidou todos os peregrinos a alargarem os seus horizontes e pensarem no sentido da vida, dizendo-lhes:
Não se pode ficar sempre no porto seguro, somos chamados a partir. O Senhor chama cada um de nós a entrar em mar aberto. Não nos quer ancorados no porto ou guardiões de faróis, mas navegantes confiantes e corajosos, que seguem rotas inéditas do Senhor, jogando as redes da vida sobre a sua Palavra.”.
 (cf Jane Nogara, Vatican News, 1 de dezembro)
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Um flagelo que fustiga a vida humana e perturba a concretização do desígnio cristão da vida foi abordado pelo Papa no Vaticano. Com efeito, Francisco também recebeu, neste dia 1 de dezembro, os participantes da Conferência “Droga e vícios: obstáculos ao desenvolvimento humano integral”, a quem advertiu para os riscos do ‘espaço virtual’ que pode capturar os jovens e arrastá-los no túnel das drogas.
Por conseguinte, propôs a integração e o apoio às pessoas que conseguiram sair do túnel das drogas e dos vícios, porque precisam da ajuda e do acompanhamento de todos. Só assim elas, por sua vez, poderão aliviar os sofrimentos de irmãos e irmãs com dificuldades.
O Papa reconhece que, na raiz desta ferida na sociedade, está “o clima cultural secularizado marcado pelo capitalismo de consumo, a autossuficiência, a perda de valores, o vazio existencial e a precariedade dos relacionamentos”. E aponta:
Um âmbito cada vez mais arriscado é o espaço virtual: em alguns sites na Internet, os jovens, e não só eles, são abordados e arrastados para uma escravidão da qual é difícil libertarem-se e que os fazem perder o sentido da vida e, por vezes, a própria vida”.
Depois, indica o papel da Igreja neste cenário: promover a instauração, no mundo de hoje, de um humanismo que tenha como centro a pessoa humana e como fundamento o “Evangelho da Misericórdia para aliviar, curar e cicatrizar os sofrimentos relacionados ao vício”. Na verdade, na sociedade do descarte, Deus rema contra a corrente, Deus não descarta ninguém, porque, para Ele, ninguém é irrecuperável!
Por isso, para concretizar a predita instauração humanista, o Bispo de Roma, pediu uma maior sinergia entre as instituições, as agências e a Igreja na prevenção e difusão das drogas e para restituir a dignidade àqueles que ficaram marcados pelas drogas. E agradeceu a todos pela atuação e compromisso, encorajando-os a prosseguir nesta missão, em seus diferentes âmbitos.
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Entretanto, o Vatican News, nesta varanda para o Advento, propõe expressamente uma reflexão específica sobre esta quadra que inicia o novo ano litúrgico, socorrendo-se de ensinamentos do Papa Francisco, de que se desatacam alguns tópicos:
O Advento “indica-nos o essencial da vida: encontrar Cristo nos irmãos”, para o que temos de apurar os ouvidos para escutar a Palavra e abrir os olhos para ver onde e como estão os irmãos.
Por outras palavras, o Advento é o tempo que nos foi oferecido para acolhermos o Senhor que vem ao nosso encontro para O reconhecermos nos irmãos e para aprendermos a amar.
Como foi dito, inicia-se, neste domingo, o Ano Litúrgico e o Tempo do Advento. O advento terá o seu ápice no Natal. Ora, aquando da recitação do Angelus a de 3 de dezembro do ano passado, Francisco explicou que devemos estar vigilantes e na espera:
O Advento é o tempo que nos é concedido para acolher o Senhor que vem ao nosso encontro, também para verificar o nosso desejo de Deus, para olhar em frente e nos preparar para o regresso de Cristo. Ele voltará a nós na festa do Natal, quando fizermos memória da sua vinda histórica na humildade da condição humana; mas vem a dentro de nós todas as vezes que estamos dispostos a recebê-Lo, e virá de novo no fim dos tempos para ‘julgar os vivos e os mortos’. Por isso, devemos estar vigilantes e esperar o Senhor com a expectativa de o encontrar.
(cf http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/angelus/2017/documents/papa-francesco_angelus_20171203.html.)
A estarmos atentos e vigilantes para acolher as ocasiões para amar é o convite de Jesus no Tempo do Advento, não desperdiçando as ocasiões de amor que nos doa. Diz o Papa:
A pessoa atenta é a que, mesmo no meio ao barulho do mundo, não se deixa tomar pela distração ou pela superficialidade, mas vive de maneira plena e consciente, com uma preocupação voltada antes de tudo para os outros. Com esta atitude percebemos as lágrimas e as necessidades do próximo e podemos dar-nos conta também das suas capacidades e qualidades humanas e espirituais.” (id et ib).
Depois, nós temos de saber que estamos no mundo, mas não somos do mundo. De facto, o Advento faz-nos estar com os pés na terra, mas a olhar para o céu:
A pessoa atenta também se preocupa com o mundo, procurando contrastar a indiferença e a crueldade presentes nele, e alegrando-se pelos tesouros de beleza que, todavia, existem e devem ser preservados. Trata-se de ter um olhar de compreensão para reconhecer quer as misérias e as pobrezas dos indivíduos e da sociedade, quer a riqueza escondida nas pequenas coisas de cada dia, precisamente ali onde nos colocou o Senhor. A pessoa vigilante é a que aceita o convite a vigiar, ou seja, a não se deixar dominar pelo sono do desencorajamento, da falta de esperança, da desilusão; e, ao mesmo tempo, rejeita a solicitação de tantas vaidades de que o mundo está cheio e atrás das quais, por vezes, se sacrificam tempo e serenidade pessoal e familiar.”.
E conclui o Papa:
Estar atentos e ser vigilantes são os pressupostos para não continuar a ‘desviar para longe dos caminhos do Senhor’, perdidos nos nossos pecados e nas nossas infidelidades; estar atentos e ser vigilantes são as condições para permitir que Deus irrompa na nossa existência, para lhe restituir significado e valor com a sua presença cheia de bondade e ternura (id et ib).
No Angelus de 27 de novembro de 2016, pôs em evidência as três visitas do Senhor à humanidade:
A primeira visita foi a Encarnação, o nascimento de Jesus na gruta de Belém; a segunda acontece no presente: o Senhor visita-nos continuamente, todos os dias, caminha ao nosso lado e é uma presença de consolação; por fim, teremos a terceira, a última visita”, o encontro com Cristo no Juízo Final, que o Papa recorda citando o capítulo 25 do Evangelho de Mateus: ‘Tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber; era peregrino e me acolhestes; nu e me vestistes; enfermo e me visitastes; estava na prisão e viestes a mim’. Na noite da vida seremos julgados no amor.”. (cf http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/angelus/2016/documents/papa-francesco_angelus_20161127.html).
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Com o tempo do Advento recomeça o nosso caminho para o Senhor, um caminho feito de alegria e de dores, de luz e de escuridão. Este caminho, que se torna um combate, é a boa batalha da fé. E o Pontífice Papa Francisco sublinha:
Deus é mais poderoso e mais forte que tudo. Esta convicção dá ao crente serenidade, a coragem e a força de perseverar no bem frente às piores adversidades. Mesmo quando se desencadeiam as forças do mal, os cristãos devem responder ao apelo, de cabeça erguida, prontos a resistir nesta batalha em que Deus terá a última palavra. E será uma palavra de amor e de paz.”. (cf Homilia do I Domingo do Advento na Catedral de Bangui, 29 de novembro de 2015 – in http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/homilies/2015/documents/papa-francesco_20151129_repcentrafricana-omelia-cattedrale-bangui.html).
Ora, a coisa mais importante é o encontro com o Senhor. Com efeito, o Advento indica-nos o essencial da vida:
 A relação com o Deus que vem visitar-nos confere a cada gesto, a todas as coisas uma luz diversa, uma importância, um valor simbólico. […] Desta perspetiva vem também um convite à sobriedade, a não sermos dominados pelas coisas deste mundo, pelas realidades materiais, mas antes a governá-las. Se, ao contrário, nos deixarmos condicionar e dominar por elas, não podemos perceber que há algo muito mais importante: o nosso encontro final com o Senhor: e isto é importante. Aquele, aquele encontro. E as coisas de todos os dias devem ter este horizonte, devem ser orientadas para aquele horizonte. Este encontro com o Senhor que vem por nós.”. (cf Angelus, 27 de novembro de 2016 – vd supra).
E é Maria que nos conduz pela mão de Jesus, pelo que o Papa confia a humanidade a Ela:
Nossa Senhora, Virgem do Advento, nos ajude a não nos considerarmos proprietários da nossa vida, a não opormos resistência quando o Senhor vem para a mudar, mas a estar preparados para nos deixarmos visitar por Ele, hóspede esperado e agradável mesmo se transtorna os nossos planos”. (Angelus, 27 de novembro de 2016, vd supra).
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Podemos confiar à intercessão de Maria o nosso esforço de acolhimento a Cristo neste Advento, Porque o Senhor veio historicamente nascendo em Belém, há dois mil anos, como prometido a Abraão, lembrado pelos profetas, esperado pelo Povo:
Porque o Senhor vem agora e continua a vir, na Igreja, nos corações – pela Palavra, pela Eucaristia e pela caridade fraterna;
Porque o Senhor virá, no fim dos tempos e nós O aguardamos na esperança e no trabalho.
2018.12.01 – Louro de Carvalho

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Antífonas do Ó” e acróstico invertido de Deus: “Estarei (aí) amanhã!”

A Liturgia das Horas a partir do dia 17 ao dia 23 de dezembro exprime de forma poética o anseio pela chegada do Senhor, nas antífonas das Vésperas, chamadas “Antífonas do Ó”. Esta forma poética, sustentada na Sagrada Escritura, vem desde a Idade Média e tomou grande destaque porque estas antífonas foram solenemente cantadas como envolvimento ao cântico evangélico do “Magnificat”, o cantar exultante da Virgem Maria em Deus que fez maravilhas. Aparecem pela primeira vez no Responsório atribuído ao Papa São Gregório Magno (Sumo Pontífice entre 3 de setembro de 590 e 12 de março de 604). E, porque num destes dias se celebrava uma missa especialmente dedicada a Nossa Senhora, a da Senhora da Expectação (da espera do nascimento de Seus Filho, o Messias) nos sete dias que antecedem o Natal, passou a ser invocada popularmente como Senhora do Ó, obviamente grávida do Salvador.
Ainda agora a Liturgia centra a sua atenção no Cristo, da Casa de David, para o qual convergem as diversas gerações (Gn 49,2.8-10; Mt 1,1-17) – dia 17; que nasceu da Virgem Maria como rebento justo em cumprimento da promessa anunciada pelo profeta (Jr 23,5-8; Mt 1,18-25) – dia 18; que foi precedido pelo mensageiro bíblico cujo nascimento fora anunciado pelo anjo como fora o de Sansão (Jz 13,2-7.24-25a; Lc 1,5-25) – dia 19; que foi anunciado pelo anjo como o Filho do Altíssimo e como o grande sinal dado ao povo como profetizou Isaías (Is 7,10-14; Lc 1,26-38) – dia 20; que está no meio de nós como Deus-connosco para nossa consolação, alegria e júbilo (Sf 3,14-18a; Lc 1,39-43) – dia 21; Aquele por quem devemos dar graças ao Senhor porque veio revelar-nos o rosto fiel e misericordioso de Deus (1Sm 1,24-28; Lc 1,46-56) – dia 22; Aquele cuja vinda foi preparada pelo Profeta-mensageiro para reconduzir o coração dos pais aos filhos e o dos filhos aos pais e cujo nascimento provocou o soltar da língua para bendizer a Deus (Ml 3,1-4.23-24; Lc 1,57-66) – dia 23; e Aquele que, pela visita redentora ao seu povo, tornará permanente diante do Senhor o novo Reino de David (2Sm 7,1-5.8b-12.14a.16; Lc 1,67-79) – dia 24.
Estas antífonas têm atravessado séculos ressoando na voz orante da Igreja, ajudando o povo cristão a invocar a vinda do Senhor e ensinando-lhe quem é Aquele a quem deve esperar e cuja vinda deve pedir para encher o coração de cada pessoa e o centro de cada comunidade.
Nos mosteiros, há muito tempo se costumavam cantar essas antífonas, como as suas melodias majestosas, acompanhadas a toque do órgão e eventualmente a toque dos sinos da igreja. O sacerdote, que entoa a antífona, usa alva e capa e incensa o altar durante o canto do Magnificat. Assim, estas antífonas são significativas não só pelo seu texto e pela música, mas também pelo imponente cerimonial que as cerca. Pierre Journel, especialista francês em liturgia, escreveu:
As grandes antífonas não são apenas uma síntese da mais pura esperança messiânica do Antigo Testamento: por meio das imagens da Bíblia, mas enumeram também os títulos divinos do Verbo encarnado; e o seu Veni (vinde) exprime todo o anseio presente da Igreja. Nelas, a liturgia do Advento chega ao auge.”. 
As grandes antífonas são usadas na Igreja romana desde o século VIII. O autor, cuja identidade é desconhecida, deveria ser versado na Escritura Sagrada, pois nessas composições entreteceu passagens do Antigo Testamento com que congraçou segmentos do Novo Testamento e criou algo nitidamente novo. São 7 antífonas que evocam a plenitude de Deus que é “tudo em todos”.
Além disso, elas iniciam-se com as letras que constituem o acróstico invertido: “ERO CRAS”, isto é, Estarei (aí) amanhã! Veja-se a ordem dos nomes que iniciam cada antífona: Sapientia; Adonai; Radix Jesse; Clavis David; Oriens; Rex Gentium; e Emmanuel.
Além de rezadas ou cantadas em Vésperas, também são sugeridas como versículo aleluiático nas missas feriais dos dias 17 a 24, como adiante se verá.
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Aqui ficam elas, com reflexão sustentada em alguns dos lugares bíblicos citáveis – reflexão inspirada nas meditações de Dom Edmar Peron, Bispo Auxiliar da Arquidiocese de São Paulo, Vigário Episcopal para a Região Belém, obviamente com as convenientes adaptações e o cunho pessoal:
- O Sapientia17 de dezembro (e Aleluia da Missa): “Ó Sabedoria do Altíssimo (Sir 24,3), que tudo governais com firmeza e suavidade (cf Sb 8,1): Vinde ensinar-nos o caminho da salvação (cf Is 40,14)!”
Cristo é força, poder e sabedoria de Deus (1Cor 1,24). Isaías quando enuncia os dons que o Espírito do Senhor concede ao Menino, ao Emanuel (Deus connosco), coloca logo a cabeça o espírito de inteligência e sabedoria (Is 11,2). Quem é sábio age com a prudência (cf 1Rs 3,9.12) que distingue o bem do mal e avalia as situações e o impacto das decisões, sabendo escolher as palavras, os silêncios e as medidas a tomar. Na espera amorosa do nascimento, pedimos a Deus Pai que possamos descobrir, nos ensinamentos do Filho, a prudência como o dom de sua sabedoria infinita, a guiar-nos em nossas ações.
- O Adonai18 de dezembro (e Aleluia da Missa): “Ó Chefe da casa de Israel (cf Mt 2,6), que no Sinai destes a Lei a Moisés: Vinde resgatar-nos com o poder do vosso braço (cf Jr 32,21)!”
 Adonai, isto é, “Meu Senhor”, é o nome santo de Deus, o libertador (Ex 6,6; cf Dt 16,5-9). O salmo 130 proclama a esperança de quem confia que o Senhor virá (5-8). Para os cristãos esta espera é já uma realidade em constante devir e que se realizará na plenitude no fim dos tempos. O Senhor veio e ofereceu sua vida para o resgate de todos. Jesus, o Emanuel, o Deus connosco acompanha-nos em todas as situações de nossa vida, fazendo-nos o bem e estimulando-nos à prática do mesmo bem para com Deus, connosco próprios e com os irmãos.
- O Radix Iesse19 de dezembro (e Aleluia da Missa): “Ó Rebento da raiz de Jessé, sinal erguido diante dos povos (cf Is 11,10; Is 52,15):Vinde libertar-nos, não tardeis mais (cf Hab 2,3)!”
Segundo a promessa, o Messias pertenceria à dinastia de David, cuja raiz e tronco é Jessé (cf 1Sm 16,4-13; 2Sm 7,5ss), o qual brotará (Is 11,1). O Menino Jesus, para cumprir a profecia, nasceu “em Belém da Judeia”, a cidade de David (Mt 2,5-6; Mq 5,1). Ele vem sem demora ao nosso encontro para nos salvar, libertando-nos de tudo o que nos impede de ser livres, filhos em pleno e herdeiros da promessa e do seu Reino de paz e justiça.
- O Clavis David20 de dezembro (e Aleluia da Missa): “Ó Chave da Casa de David,  que abris e ninguém pode fechar, fechais e ninguém pode abrir (Is 22,22): Vinde libertar os que vivem nas trevas do cativeiro e nas sombras da morte (Sl 106,10)!”
A chave é símbolo do poder com autoridade (cf Is 22, 22) e de serventia para facilitar o acesso. O Messias, Jesus de Nazaré, recebeu do Pai todo o poder no céu e na terra (Mt 28,18; Ap 1,18); em suas mãos estão “as chaves do Reino” (Mt 16,19). Ele tem em suas mãos a “Chave de David” (Ap 3,7) e anuncia, ainda hoje, a liberdade aos cativos (Lc 4,18).
- O Oriens21 de dezembro (e Aleluia da Missa do dia 24): “Ó Sol nascente, esplendor da luz eterna e sol de justiça (Hab 3,4): Vinde iluminar os que vivem nas trevas e na sombra da morte (Lc 1,78)!”
A profecia anunciou que Deus mesmo seria a Luz do seu povo (cf Is 60,19-20). E nós, hoje, vivendo no meio às trevas do mundo, da confusão de valores e ideais da nossa época, pedimos que o esplendor da luz, que irradia o Presépio, penetre na obscuridade do mundo e, por vezes, na nossa, para que todos os homens e mulheres beneficiem gostosamente desse resplendor divino, que é Jesus Cristo. Sim, “o povo que andava nas trevas viu uma grande luz!” (Is 9,1). E agora os seus olhos veem claramente a Salvação (cf Lc 2,30), que os discípulos têm a obrigação de comunicar e testemunhar quais sentinelas do divino, profetas do Deus inefável e apóstolos da vida e ressurreição (cf Lc 26,48).
- O Rex Gentium22 de dezembro (e Aleluia da Missa dos dias 22 e 23): “Ó Rei das nações (cf Ag 2,8) e Pedra angular da Igreja (Ef 2,20): Vinde salvar o homem que formastes do pó da terra (Gn 2,7)!”
O salmista canta frequentemente a realeza do Senhor (Sl 24,7-9; 47; 95; 96; 97; 98; 99; 101); os profetas anunciam que o Menino será o “Príncipe da paz”, e estenderá seu poder assegurando a oferta da paz e o serviço à paz, porque o seu reinado se consolidará no direito e na justiça (cf Is 9,1-6). Ele é o Rei que assumiu a nossa fragilidade humana, elevando-a, fazendo-nos, pelo mistério da sua Encarnação, Morte e ressurreição, participantes de sua natureza divina! Assim, o Rei é, ao mesmo tempo, o bom Pastor! Usa o cetro não como afirmação do poder, mas como cajado orientador das ovelhas e arma contra os lobos que podem atacar o rebanho. A sua função é apascentar nas melhores pastagens da vida e fomentar a vida, mesmo que tenha de morrer.
- O Emmanuel23 de dezembro (e Aleluia da Missa do dia 21): “Ó Emanuel, nosso rei e legislador, esperança das nações e salvador do mundo: Vinde salvar-nos, Senhor nosso Deus (cf Is 7,14; Mt 1,23; Is 33,22; Gn 49,10)!”
“Tudo isso aconteceu para que se cumprisse o que o Senhor havia dito pelo profeta: Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho e o chamarão com o nome de Emanuel, o que significa: “Deus está connosco” (Mt 1,22-23; Is 7,14). Aquele Menino nascido em Belém, o Jesus de Nazaré, é a definitiva e contagiante presença de Deus, que responde realmente ao nome de Deus-connosco, a nossa Esperança e a nossa Salvação!
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Esta última das Antífonas Ó, a do Emanuel, é, como se vê, inspirada em Isaías e tem o sabor do Evangelho de Mateus, os dois livros da Escritura nos quais aparece o título de Emanuel para o Messias Senhor. Ele é Rei porque é o Messias, o filho de David prometido pelo Senhor Deus e anunciado pelos profetas; é o Legislador porque é o novo Moisés, o verdadeiro Moisés, tema muito presente no Evangelho de Mateus. Aí Jesus faz cinco discursos, como Moisés a quem se atribui a “autoria” dos cinco livros da Torá. Jesus fala no monte, como Moisés recebeu a Lei no monte. Mas, sobretudo, coroando todos os títulos dados ao Senhor que vem, a Antífona refere-se ao Cristo como “Senhor nosso Deus”. É o que Ele é para nós. E este é o motivo da esperança que nele temos e da alegria pelo Seu nascimento. “Esperança e Salvador das Nações” – esperança e Salvador de toda a humanidade: é isto, essencialmente, que Aquele que a Virgem concebeu e deu à luz é para a fé cristã!
Que fique no coração de cada crente a certeza expressa na frase formada pela primeira letra de cada antífona, tomada de trás para frente: Emanuel, Rei das Nações, Oriente, Chave da Casa de David, Raiz de Jessé, Adonai, Sabedoria – ERO CRAS, isto é “Amanhã Eu estarei”!
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Porém, não se pode deixar em silêncio ou de lado o vigor das antífonas que envolvem o cântico evangélico do “Benedictus” da Hora de Laudes nos dias 17 a 24 de dezembro, bem como o da oração conclusiva das diversas Horas e que é tomada como oração coleta da missa. Assim:
- A 17, em “Sabei que está próximo o reino de Deus; em verdade vos digo: Ele não tardará”, temos o anúncio da proximidade do Reino. E a oração evoca a realização da Encarnação no seio de Maria para nos tornar participantes da vida de Deus.
Deus, criador e redentor do género humano, que no seio da bem-aventurada Virgem Maria quisestes realizar o grande mistério da Encarnação do Verbo, ouvi a nossa oração e concedei que o vosso Filho Unigénito, feito homem como nós, nos torne participantes da sua vida divina”.
- A 18, em “Vigiai e orai: está perto o Senhor vosso Deus”, além do anúncio da proximidade do Reino, vem o apelo à vigilância. E, à oração, pede-se a libertação do pecado mercê do Natal.
Concedei-nos, Deus omnipotente, que o esperado nascimento de vosso Filho Unigénito nos liberte da antiga escravidão do pecado”.
- A 19, em “O Salvador do mundo aparecerá como sol nascente e descerá ao seio da Virgem como chuva sobre a relva. Aleluia ”, evoca-se o Salvador como o Sol Nascente cujo nascimento do seio da Virgem é simples como a chuva a cair sobre a relva. Na oração, roga-se a celebração do mistério da encarnação com fé e piedade.
Senhor nosso Deus, que revelastes ao mundo o esplendor da vossa glória pelo nascimento do Filho da Virgem Maria, concedei-nos a graça de celebrar o grande mistério da Encarnação com verdadeira fé e sincera piedade”.
- A 20, em “O anjo Gabriel foi enviado à Virgem Maria, desposada com José”, temos o facto do anúncio angélico. E a oração sublinha a maternidade divina de Maria por obra da luz do Espírito Santo e o facto de a Virgem se tornar templo do Senhor.
Senhor nosso Deus, que pela anunciação do Anjo quisestes que a Virgem Imaculada se tornasse Mãe do vosso Verbo e, envolvida na luz do Espírito Santo, fosse consagrada templo da divindade, ajudai-nos a ser humildes como ela, para cumprirmos fielmente a vossa vontade”.
- A 21, em “Não temais: dentro de cinco dias virá o Senhor”, temos o apelo não ter medo, porque o Senhor virá em breve (em 5 dias). E a oração evoca a alegria do povo pelo humilde nascimento do Salvador e roga-se, nela, o dom da vida eterna.
Atendei, Senhor, a oração do vosso povo, que se alegra com a vinda de vosso Filho na humildade da nossa carne, e concedei-nos o dom da vida eterna quando Ele vier na sua glória”.
- A 22, em “Quando a voz da tua saudação chegou aos meus ouvidos, o menino exultou de alegria no meu seio. Aleluia”, sublinha-se o efeito da saudação de Maria a Isabel, que fez exultar João no seio materno. E, na oração, pede-se o merecimento dos frutos da redenção.
Senhor, que, vendo o homem sujeito ao poder da morte, o quisestes resgatar com a vinda de vosso Filho Unigénito, concedei que, celebrando com sincera humildade o mistério da sua Encarnação, mereçamos alcançar os frutos da sua redenção gloriosa”.
- A 23, em “Bendita sois Vós, ó Maria, que acreditastes: há de realizar-se tudo quanto Vos foi dito da parte do Senhor”, sublinha-se a fé de Maria. E, na oração, pede-se a misericórdia.
Deus eterno e omnipotente: ao aproximar-se o nascimento de vosso Filho em nossa carne mortal, fazei-nos sentir a abundância da vossa misericórdia, que O fez encarnar no seio da Virgem Santa Maria e habitar entre nós”.
- E, a 24, em “Chegou o tempo de Maria dar à luz e ela teve o seu Filho primogénito”, assinala-se o facto da Natividade do Senhor por meio de Maria. E, na oração, a única destas que é dirigida a Jesus, pede-se o conforto pela vinha do Senhor e a esperança aos crentes no amor.
Apressai-Vos, Senhor Jesus, e não tardeis: dai conforto e esperança àqueles que acreditam no vosso amor. Vós que sois Deus com o Pai na unidade do Espírito Santo”.
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Assim, Cristo merece que a festa natalina seja santa da nossa parte, por dom de Deus. Aleluia!

2017.12.22 – Louro de Carvalho