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domingo, 27 de agosto de 2017

Cristo edifica a Igreja em képha (em aramaico, “pedra”)

A Liturgia da Palavra do XXI domingo do Tempo Comum (Ano A) toma para proclamação e meditação do Evangelho a perícopa de Mateus (Mt 16,13-20), o Evangelho do Messias e da Igreja, que gravita em torno da confissão messiânica de Simão (Pedro) lá para os lados de Cesareia de Filipe – a ocupar, no texto de Mateus, um lugar central, pois situa-se num momento de viragem, quando se desenha no horizonte um destino de cruz para o Senhor.
A profissão de fé do príncipe dos apóstolos surge em resposta a uma dupla interrogação de Jesus aos discípulos. Primeiro, o Mestre quer saber o que dizem por aí sobre quem é o Filho do Homem (“EU”, título messiânico). E a resposta que veicularam da parte do vulgo é uma resposta voltada para trás, para o passado: um homem extraordinário, João Batista, Elias, Jeremias ou algum dos profetas. Mas Jesus pretendia a resposta de futuro, conexa com o âmago do Reino já anunciado, exposto através de parábolas e bastante explicado, testemunhado por sinais e prodígios, bem como objeto de discussão entre Jesus e os interlocutores, seus adversários. Por isso, a pergunta já não recai agora sobre o que pensam os outros, mas sobre o que pensam os discípulos: “E vós, quem dizeis que Eu sou?”. Tendo todos ficado perplexos, Simão, como que responsável humano pelo grupo, adiantou-se: “Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo”. 
Trata-se duma resposta de futuro, que obviamente tem em conta o passado da Lei e da Profecia, mas sem se acorrentar ao passado. É uma resposta pessoal, mas dada em nome de todos, da comunidade. É uma resposta formulada em ambiente que cheirava a adversidade, porque alguns dos que escutaram Jesus já andavam por ali meio desiludidos, estava Jesus com os discípulos numa terra pagã, que ainda mantinha alguma ligação com os deuses locais e fora construída perto da nascente do Jordão por Herodes Filipe em honra do imperador romano César Augusto, o divino, no ano 2 aC. Por isso é que se chamava “Cesareia” e de “Filipe” por haver sido a cidade construída por aquele filho de Herodes, o Grande, na zona da atual Bânias, no sopé do monte Hermon, a uns 40 Km do lago de Tiberíades (dedicado a Tibério) e ao norte de Betsaida.
Mas a resposta de Simão tem uma outra caraterística: não é de invenção humana. Com efeito, não veio veiculada pela carne ou pelo sangue da paternidade ou da maternidade (atente-se no patronímico e nos hebraísmos: carne/sangue), mas foi revelada pelo Pai de Jesus Cristo:
Feliz de ti, Simão, filho de Jonas (Bar-Yona), porque não foram a carne e o sangue que to revelaram, mas sim meu Pai que está nos Céus”.
E vem clarificar e confirmar a radicalidade da opção dos discípulos no seguimento Jesus e na aposta no dinamismo do Reino.
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Após esta primeira parte, mais cristológica, com paralelo em Mc 8,27-30, Lc 9,18-21 e Jo 6,67-71, vem uma parte eclesiológica com o anúncio de Cristo de que fundaria a Igreja sobre a pessoa deste pescador de Tiberíades. Por isso, Jesus acrescentou ao discurso acima referido:
“Também Eu te digo: Tu és Pedro; sobre esta pedra edificarei a minha Igreja e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Dar-te-ei as chaves do reino dos Céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos Céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos Céus.”.
E ordenou aos discípulos que não dissessem a ninguém que Ele era o Messias. Era cedo para este segredo messiânico ser revelado às multidões, que ficariam assaz desnorteadas quando assistissem ao seu martírio desde o Getsémani, passando pelo Pretório, até ao Gólgota – que abalou a fé e a coragem dos discípulos e do próprio Pedro que até negou o Senhor.
A maior parte das vezes, o comentário dos estudiosos recai no “poder” que Jesus confere a Pedro – de ligar e desligar (mais um hebraísmo), o poder das chaves – e na índole inabalável da rocha petrina, pois as portas do inferno (outro hebraísmo) não prevalecerão contra ela.
Ora, é preciso acentuar que a razão de ser de Pedro constituir o fundamento da Igreja decorre do seu ato de fé em nome de todos, inspirado do Alto e formulado em resposta ao desafio de Cristo. É, pois, conveniente aliar a esta passagem o texto de João (Jo 6,66-69) em que Pedro se adianta de forma resoluta, após o discurso do Pão da Vida, que deixou  muitos descrentes:
“A partir daí, muitos dos seus discípulos voltaram para trás e já não andavam com Ele. Então, Jesus disse aos Doze: ‘Também vós quereis ir embora?’ Respondeu-lhe Simão Pedro: ‘A quem iremos nós, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna! Por isso nós cremos e sabemos que Tu é que és o Santo de Deus’.”.
Então a Igreja funda-se em Pedro principalmente pela fé. E a principal função de Pedro é a confirmação dos irmãos na fé (cf Lc 22,32) em consonância com a oração de Cristo pelo Apóstolo. Na verdade, ao predizer a tríplice negação de Pedro, de que este se arrependeu e que chorou amargamente, Jesus profetizou, como se pode ler a seguir:
“E o Senhor disse: ‘Simão, Simão, olha que Satanás pediu para vos joeirar como trigo. Mas Eu roguei por ti, para que a tua fé não desapareça. E tu, uma vez convertido, fortalece os teus irmãos”. Ele respondeu-lhe: ‘Senhor, estou pronto a ir contigo até para a prisão e para a morte’. Jesus disse-lhe: ‘Eu te digo, Pedro: o galo não cantará hoje sem que, por três vezes, tenhas negado conhecer-me’.” (Lc 22,31-34).
A Igreja não se funda na fraqueza ou no pecado de Pedro, mas funda-se em Pedro e sobre Pedro apesar da sua fraqueza e do seu pecado (Profunda e rica a sabedoria de Deus! – Rm 11,33). Isto, porque em abono da sua fé e capacidade pastoral, o Senhor pediu-lhe a tríplice declaração de amor:
“E perguntou-lhe, pela terceira vez: ‘Simão, filho de João, tu és deveras meu amigo?’. Pedro ficou triste por Jesus lhe ter perguntado, à terceira vez: ‘Tu és deveras meu amigo?’. Mas respondeu-lhe: ‘Senhor, Tu sabes tudo; Tu bem sabes que eu sou deveras teu amigo!’ E Jesus disse-lhe: ‘Apascenta as minhas ovelhas’.” (Jo 21,17).
Portanto, a Igreja funda-se na fé e no amor de Pedro. É bom que vejamos esta perspetiva nos seus sucessores, mais que o poder inquisitorial ou as suas fraquezas e pecados.
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Por outro lado, mais que o poder, deve considerar-se em Pedro e em seus sucessores a autoridade, que significa a capacidade de aumentar as pessoas, a comunidade, o povo, a graça, a ação, a oração, a eficácia, a comunhão – comunhão entre irmãos e deste com Deus.
O anúncio da fundação da Igreja em Pedro sucede lá para os lados duma terra pagã. A Igreja, pela “autoridade” que desenvolve em seu seio, constitui um sinal, um desafio, um exemplo para os pagãos. E é aqui, fundamentalmente, que deve colocar-se o poder das chaves. A função principal da chave é abrir o que está fechado, quando tantas vezes em Igreja se gasta o tempo e as energias a fechar. Nem usamos convenientemente os tesouros da salvação nem deixamos que outros tenham acesso a eles. Depois, até se entende mal Mt 18,17 (correção fraterna):
Se ele se recusar a atender a própria Igreja, seja para ti como um pagão ou um publicano”.
Não é o desprezo que se propõe, mas a redobrada atenção e a insistência no apelo à conversão.
Talvez seja proveitoso olhar com atenção para a 1.ª leitura da liturgia desta dominga (Is 22,19-23). No oráculo contra Chebna, o Senhor diz pela mão do profeta:
“Naquele dia, chamarei o meu servo Eliaquim, filho de Hilquias. Vesti-lo-ei com a tua túnica, cingi-lo-ei com a tua faixa, porei nas suas mãos o teu poder; será como pai para os habitantes de Jerusalém, para o povo de Judá. Porei sobre os seus ombros a chave do palácio de David: o que ele abrir ninguém fechará, o que ele fechar ninguém abrirá. Fixá-lo-ei como prego em lugar firme, será como um trono de glória para a casa de seu pai.’.” (Is 22,20-23).
Porém, veja-se a utilização que fizeram, em termos abusivos do prego, colocado para utilização segura e cómoda, e as consequências:
“Mas penduram-se nele todos os nobres da casa de seu pai, filhos e netos, tal como se penduram num prego os utensílios de cozinha, desde os copos aos jarros. Naquele dia – oráculo do Se­nhor do universo – o prego fixado em lugar firme cederá, a carga que dele pendia soltar-se-á, cairá e será feita em pedaços.” 
É o que pode acontecer com o mau uso das chaves. Se a Igreja deixar de ser porta aberta, canal de graça, mãe e pregoeira, evangelizadora e missionária e se fizer questão de usar a chave apenas para barrar a entrada a quem vem por bem e a quem precisa, renuncia ao seu múnus, cai no abismo da anemia da ineficácia e começa a perder comunidades. A História o testemunha quando do Reino de Deus se passa a cuidar dos reinos do mundo e, em vez da chave – que também deve servir apara barrar a entrada ao espírito do mal e ao mundo da iniquidade –, passa a usar o látego do anátema em prol do pensamento único e da manipulação das consciências.
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Finalmente, uma palavra sobre a pedra em que se funda a Igreja. Não pode apenas tratar-se da pedra dura contra a qual marram inutilmente as forças do inferno ou o espírito mundano, nunca levando a melhor. Ao invés, a imagem da barca de Pedro acossada pelas ondas do mar encapelado revela as fraquezas internas, as solicitações adversas e as perseguições.  
Essa pedra robusta é a primeira da grande construção. E recebe a força de Cristo, o arquiteto, o engenheiro, o principal construtor e o genuíno alicerce desta grande edificação espiritual. Mas esta pedra robusta configura-se também como a peça principal da gruta aonde se acolhem os peregrinos que precisam de conforto e recebem o necessário alívio os doentes e débeis; a atalaia donde se olha para o mundo que precisa de pão de vida e vinho de salvação; o seminário donde, alimentados pela força do centro, partem os missionários do Reino para as periferias existenciais; a arca das sementes donde sai o semeador do Reino a semear a semente da Palavra pela diversidade de terrenos, caindo esta em terra má – comida pelas aves do céu, estiolada por falta de humidade ou sufocada pelos espinhos – e na boa terra, onde produz com abundância e qualidade (cf Mt 13,3-23). 
É esta pedra viva surgida do desenvolvimento da sementinha pequenina como o grão de mostarda, mas que, depois de crescer, se torna a maior planta do horto e se transforma numa árvore, a ponto de virem as aves do céu abrigar-se nos seus ramos (cf Mt 13,31-32), mas onde não se penduram os interesseiros. E mal será quando esta árvore se esquece de quem a criou, plantou e incrementou e se quer referenciar a si própria. Cá está, como diz o Papa Francisco, a Igreja não pode autorreferenciar-se, mas referenciar Cristo, referenciar o reino de Deus e colocar-se ao serviço dos pobres em prol dos quais o Filho de Deus Se encarnou e quem trouxe a Boa Nova.
E não será esta pedra, Pedro, aqui o discípulo que, dando voz a todos os que acreditam em Jesus, representa a comunidade dos discípulos? É temerário produzir conclusões definitivas. O poder de “ligar e desligar”, por exemplo, aparece noutro contexto, confiado à totalidade da comunidade e não a Pedro em exclusivo (cf Mt 18,18). Provavelmente, o mais correto é ver em Pedro o protótipo do discípulo; nele, está representada a comunidade que se reúne à volta de Jesus e que proclama a fé em Jesus como o “Messias”, o “Filho de Deus”. É a essa comunidade, representada por Pedro, que Jesus confia as chaves do Reino e o poder de acolher, mais do que excluir. Isso não invalida que Pedro seja a figura de referência para os primeiros cristãos e que tenha desempenhado um papel de primeiro plano na animação da Igreja nascente, sobretudo nas comunidades da Síria (as comunidades a que Mateus se dirige).

2017.08.27 – Louro de Carvalho

terça-feira, 22 de agosto de 2017

O outro pulmão do Santuário de Fátima

A designação posta em epígrafe refere-se aos Valinhos, sítio correspondente aos terrenos que os três pastorinhos de Fátima percorriam desde as suas casas em Aljustrel até à Cova da Iria para o pastoreio dos rebanhos dos pais e local escolhido por Maria para a comunicação da mensagem do Céu. Foi neste lugar que ocorreram duas das aparições do Anjo de Portugal ou Anjo da Paz, em 1916 – a 1.ª e a 3.ª, já que a 2.ª ocorreu junto ao poço do Arneiro, quando as crianças estavam a brincar no terreiro da casa dos pais de Lúcia – e a aparição de Nossa Senhora no dia 19 de agosto de 1917. Na atualidade, os Valinhos são visitados por milhares de peregrinos portugueses e estrangeiros que neles efetuam o percurso da Via-Sacra até ao Calvário Húngaro, visitam a Capela de Santo Estêvão da Hungria (contígua ao mesmo Calvário) e dali seguem para visitar a Casa de Lúcia e a Casa de Francisco Marto e Jacinta Marto na aldeia de Aljustrel.
Também, nos Valinhos, a uns 500 metros de Aljustrel, se encontra o monumento celebrativo da 4.ª aparição de Nossa Senhora, a 19 de agosto, por os pastorinhos estarem retidos, a 13, pelo administrador de Ourém para interrogatório, o que os impediu de se deslocarem à Cova da Iria. Construído a expensas dos católicos húngaros, foi inaugurado a 12 de agosto de 1956.
Com início na Rotunda de Santa Teresa, Rotunda de Ourém ou Rotunda Sul e seguindo o caminho habitualmente percorrido pelos pastorinhos, a Via-sacra no Caminho dos Pastorinhos termina no Calvário Húngaro – originariamente designado por “Calvário Húngaro Cardeal Mindzenty” –, cuja capela é dedicada a Santo Estêvão, rei da Hungria.
As tradicionais estações da Via-sacra, em memória da Paixão do Senhor, e a capela – ofertas dos católicos húngaros – foram projetadas por Ladislau Marec. A primeira pedra da Via-sacra foi benzida a 21 de junho de 1959 e a primeira pedra da capela, a 11 de agosto de 1962. As estações e a Capela de Santo Estêvão foram benzidas a dia 12 de maio de 1964. A 15.ª estação, em memória da Ressurreição, aumentada à Via-Sacra por influência da doutrina do Vaticano II, foi benzida e inaugurada em 13 de outubro de 1992 e é uma oferta da paróquia húngara de Lajosmizse em sinal de gratidão pela “ressurreição” da Hungria.
Os painéis das estações, em baixo relevo, e a imagem de Nossa Senhora Padroeira da Hungria, que está na capela, são da autoria de Maria Amélia Carvalheira da Silva, que também esculpiu as imagens do Anjo de Portugal e a da Senhora do monumento evocativo da 4.ª aparição. As esculturas do Calvário são obra de Domingos Soares Branco. Na capela, os vitrais, da autoria de Pedro Prokop, representam santos húngaros; e os dois grandes mosaicos do teto, do mesmo autor e compostos por pequenas pedras de mármore, figuram a aparição de Nossa Senhora aos três videntes e a entrega da coroa da Hungria pelo rei Santo Estêvão a Nossa Senhora.
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Em ano de centenário, este amplo espaço não deixou de ser convenientemente assinalado, bem como a memória da 4.ª aparição de Nossa Senhora. Assim, a 19 de agosto pp, o Santuário de Fátima assinalou o centenário desta aparição com a recitação do rosário em várias línguas. 
Já na manhã do mesmo dia, ​o reitor do Santuário de Fátima, o Padre Carlos Cabecinhas, na missa votiva dos Santos Francisco e Jacinta Marto, na Basílica da SS.ma Trindade, lembrou o “apelo insistente à oração” que a Virgem Maria fez naquele lugar. Com efeito, quando, a 19 de agosto, a Virgem apareceu aos videntes nos Valinhos, pediu-lhes que continuassem a ir à Cova da Iria no dia 13 e que rezassem o terço todos os dias, acrescentando:
Rezai, rezai muito e fazei sacrifícios pelos pecadores, que vão muitas almas para o inferno por não haver quem se sacrifique e peça por elas”.
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De igual modo, a 19 de agosto, a Casa-Museu de Aljustrel – situada no centro da aldeia que viu nascer os Pastorinhos, Francisco, Jacinta e Lúcia – que preserva o quotidiano social da época das Aparições de Fátima, assinalou o seu 25.º aniversário com entradas gratuitas a todos os visitantes. E, para assinalar a efeméride, o reitor do Santuário fez uma visita simbólica ao espaço, aonde chegou pelas 14,30 horas, tendo dali partido para o monumento que invoca a quarta aparição de Nossa Senhora aos três Pastorinhos para dar início ao momento de oração nos Valinhos, a que já se aludiu.
Inaugurada a 19 de agosto de 1992, aquela unidade museológica exibe, há 25 anos, testemunhos materiais relativos ao quotidiano das populações ao tempo das aparições. Visitantes e turistas podem encontrar naquele espaço desde instrumentos de trabalho a peças de mobiliário e roupas caraterísticas daquele tempo.
Aquele espaço, que o reitor do Santuário considera um “complemento interessante porque ajuda os peregrinos a tomar consciência daquilo que era a vida em Aljustrel no tempo das aparições”, recebeu até agora 483 139 visitantes oriundos de todos os continentes, 13 620 mil dos quais em 2016. Destes,11 746 fizeram-no individualmente e 1 874 visitaram o espaço museológico em grupo, num total de 65 grupos organizados. A maioria dos visitantes é portuguesa, mas também se registam visitantes de todos os continentes, destacando-se pelo seu expressivo número os visitantes de origem italiana, espanhola, polaca, alemã, mas também indiana, colombiana, peruana, sul-coreana e até da Nova Zelândia.
A origem desta relíquia museológica assenta na oferta da casa por Lúcia, em 1981, ao Santuário, que dela tomou posse apenas em 1986. Depois, foi arranjado o espaço envolvente e, no quintal, construiu-se um novo Posto de Acolhimento e Informações, inaugurado em agosto de 1994.
Guilhermina Rosa, funcionária da Casa-Museu de Aljustrel desde a abertura, recorda que, a 19 de agosto de 1992, Monsenhor Luciano Guerra, então reitor do Santuário de Fátima (foi-o durante 35 anos) escolheu a data por se assinalarem os 75 anos da aparição da Senhora nos Valinhos.
Nesse dia, segundo a funcionária, as portas abriram pelas 15 horas para acolher gratuitamente os visitantes. E comentou, salientando a especificidade deste espaço:
“Por norma, os peregrinos saem muito felizes porque, ao entrarem neste lugar, são transportados para a vida quotidiana da altura das aparições; e isso ajuda a compreender a história, sobretudo àqueles que vêm de uma cultura diferente ou nunca tiveram contacto com a vida rural”.
O espólio que ali se expõe de forma permanente pertence, sobretudo, à Coleção “Mobiliário, Casa e Trabalho”. Está patente ao público na casa contígua à casa de Lúcia de Jesus, que outrora pertenceu à sua madrinha, e encontra-se organizado em diferentes núcleos que levam o visitante ao Portugal rural das primeiras décadas do século XX, percorrendo o “ciclo das profissões”, o “ciclo do pão” e o “ciclo da casa”, percecionáveis através dos diferentes espaços domésticos. 
A Casa-Museu de Aljustrel está aberta ao público das 9 às 13 horas e das 14 às 18 horas (de novembro a maio) e das 14,30 às 18,30 horas (de novembro a outubro), encerrando à segunda-feira. 
Já visitei a Casa algumas vezes. Porém, nunca me apeteceu beber água do poço. Creio que a minha aversão ao rótulo Água de Fátima – bebo-a lá nas fontes, nas torneiras ou no café – resulta do facto de quando, em criança, por causa de uma constipação, me tentarem dar aguardente para cura, dizendo-me que era água de Fátima, e eu a ter sentido muito amarga.
Mais importante que tal memória de infância – convenhamos – foi o programa gizado para o dia 19 de agosto, pp: Rosário, na Capelinha das Aparições, às 10 horas, seguido de procissão para a Basílica da Santíssima Trindade; Missa, na Basílica da Santíssima Trindade, às 11 horas; e Celebração com Partida em Aljustrel e oração do terço nos Valinhos, pelas 14,30 horas.
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Aljustrel e Valinhos, o outro pulmão do Santuário de Fátima foi tema das II Jornadas Nacionais promovidas pelo Santuário em contexto celebrativo do 90.º aniversário das aparições de Fátima, de 28 a 30 de abril de 2006. Aí se proporcionou o espaço apropriado para o Santuário, os naturais de Aljustrel e Fátima (ali residentes), as instituições públicas e privadas implicadas e outros interessados (foram ao todo 204 pessoas) refletirem sobre a singular vocação daqueles lugares e partilharem preocupações e projetos que a todos envolvem e efetuarem uma visita guiada aos Valinhos e a Aljustrel. Entre outras, aí ocorreram intervenções de especialistas relativas às aparições angélicas e marianas e à geografia e ao urbanismo do lugar do nascimento dos três videntes da Senhora mais brilhante que o Sol.
Por outro lado, “Aljustrel e Valinhos, o outro pulmão do Santuário de Fátima” é o título da publicação apresentada durante o Congresso Internacional sobre a Santíssima Trindade, realizado em maio de 2007, em Fátima. Nessa edição, vêm publicadas as atas das jornadas nacionais realizadas em abril 2006, acima referida.
A apresentação da obra, feita pelo Reitor do Santuário de Fátima de então na noite de 10 de maio daquele ano, teve lugar na Igreja Paroquial de Fátima, ocasião em que foi realizado um concerto de música sacra, pelo grupo “Choral Phidellius”. Mons. Luciano Guerra sintetizava:
“Ousamos exprimir o voto de que Aljustrel e Valinhos, os seus habitantes, as suas autoridades e os seus peregrinos, tenham o amor e o brio de deixarem aos vindouros o vigor das grandes raízes capazes se fazer com que as levas de forasteiros se sucedam sem cessar”.
Na publicação “Aljustrel e Valinhos, o outro pulmão do Santuário de Fátima” estão todas as conferências apresentadas nas jornadas, que procuraram abraçar a história, a importância o futuro e a missão destes lugares relacionados com as aparições em Fátima. 
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Porém, como não podia deixar de ser, o Santuário não quer que o culto a Maria fique pelo enlevo, gratidão e prece à Virgem Mãe. E, se já no sábado, dia 19, o culto eucarístico mereceu o justo relevo, sobretudo na Missa Votiva dos santos pastorinhos Jacinta e Francisco, na Basílica da Santíssima Trindade, o dia 20, domingo, ficou marcado pelo culto eucarístico com a celebração da Eucaristia no Recinto de Oração, como ponto culminante da peregrinação do fim de semana. Para esta celebração, inscreveram-se 32 grupos provenientes de 9 países. 
Na sua homilia, o reitor do Santuário comentou os pontos fundamentais da Liturgia da Palavra do XX domingo do Tempo Comum (Ano A), cujo núcleo é a salvação universal e inclusiva – merecida, proposta e oferecida por Cristo – e a que se acede pela fé perseverante, firme e profunda, a exemplo do que se pode ler no Evangelho da Cananeia.
O Padre Carlos Cabecinhas afirmou que “a fé não é uma questão de origem ou cultura”. E, se é verdade que a tradição cultural e familiar facilita ou dificulta o acesso à fé, também é certo que “nunca substitui o esforço de busca de uma relação com Deus autêntica e pessoal”, pois “a fé, enquanto relação com Deus, não vem por tradição, como se se tratasse de uma herança que se recebe, sem nada fazer por isso”. E sustentou que se torna membro da comunidade de Jesus “quem se deixa tocar pessoalmente por Ele e pela sua mensagem”, independentemente da raça, da cor da pele, do local de nascimento, da tradição familiar, da formação académica, da capacidade intelectual.
Com efeito, diz o reitor, “o Evangelho sugere uma reflexão sobre a forma como acolhemos aqueles que vêm até nós, os estrangeiros, os irmãos diferentes, os “outros” que, por razões políticas, económicas, sociais, laborais, culturais, turísticas, vêm ao nosso encontro. E assegura que “aqui reside o segundo desafio do Evangelho de hoje”: o do acolhimento sem discriminação. Neste contexto, o Presidente da Celebração deixou uma questão: “Se Deus não discrimina ninguém, mas aceita acolher à sua mesa todos os homens e mulheres, sem distinção, porque não havemos de proceder da mesma forma?”.
E deu a pista da resposta:
 “O convite que Deus nos faz é que vejamos em cada pessoa um irmão, independentemente das diferenças existentes”.
Depois, verificou e apelou:
Os conflitos armados e atos terroristas, fruto da incapacidade para acolher os outros nas suas diferenças e do desrespeito pelo valor fundamental da vida humana, voltaram à primeira página dos jornais e a abrir os noticiários; neste momento em que subsistem as tensões, por causa do acolhimento a migrantes e refugiados, o apelo evangélico torna-se ainda mais urgente”.
Por fim, articulando a mensagem deste Evangelho da universalidade, do fortalecimento da fé e do acolhimento, concluiu:
A mensagem de Fátima sublinha os desafios que o Evangelho hoje nos lança: exorta-nos a estabelecermos com Deus uma relação pessoal, cimentada sobre a oração; convida-nos à confiança em Deus, que nunca nos abandona; desafia-nos a acolhermos os outros”.
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Se calhar, Fátima com os seus dois pulmões de respiração de Evangelho encarnado na vida dos homens e mergulhado na profundeza do mistério será sempre, através de Maria, um apelo à conversão do coração, à comunidade fraterna, à transformação do mundo no reino de Deus, que é paz e justiça, misericórdia e perdão. O recinto de oração, com a Capelinha e as Basílicas, faz celebrar a fé em regime de assembleia reunida concentrada; e a passagem pelos Valinhos (Via-Sacra, Loca do Cabeço, monumento evocativo da 4.ª aparição e Casa da Lúcia) permite a celebração da fé dos convocados em estilo orante e de andarilhos pelos montes a proclamar aos quatro ventos o Evangelho da paz e a congraçar o tempo do hoje com a história e a etnografia – enquanto lugares de Deus, que nos prepara o futuro de harmonia e convivência entre todos os seus filhos.

2017.08.22 – Louro de Carvalho  

sexta-feira, 22 de abril de 2016

As crianças refugiadas têm uma vontade imensa de aprender

A volumosa crise dos refugiados traz necessariamente às escolas o desafio de acolher e integrar como alunos os filhos destes novos cidadãos. Como ajuda aos professores nesta vertente surgiu o projeto “Mais do que números”.
Este projeto, que já fora testado também por cá, em 2009, foi lançado, a 2 de março passado, na Escola Secundária de Camões, em Lisboa, numa ação da responsabilidade do ACM (Alto Comissariado para as Migrações), em parceria estabelecida com a DGE (Direção-Geral da Educação) e com a OIM (Organização Internacional para as Migrações). A ocasião contou com a presença de Eduardo Cabrita, Ministro-Adjunto, e de Tiago Brandão Rodrigues, Ministro da Educação. Por outro lado, Pedro Calado, Alto-comissário para as Migrações, participou num debate moderado pela jornalista Rita Garcia em que intervieram José Vítor Pedroso, Diretor Geral da Educação, Teresa Titto de Morais Mendes, Presidente da Direção do Conselho Português para os Refugiados, e Rui Marques, Coordenador da Plataforma de Apoio aos Refugiados.
O projeto visa sensibilizar as sociedades de acolhimento para o crescimento do número de migrantes, requerentes de asilo e refugiados, bem como para os problemas de discriminação, xenofobia e racismo. E é viabilizado pela utilização dum conjunto de ferramentas sobre migração e asilo na União Europeia, concebido como ajuda a professores e educadores no envolvimento dos jovens na discussão informada sobre esta matéria e direcionado para o ensino de jovens entre as idades de 12 e 18 anos. Este material escolar – disponível em 24 Estados-Membros da UE em 20 línguas – configura um toolkit educativo que inclui o Manual do Professor, com introdução à temática da migração e asilo, seguida da sugestão de atividades em aula e exercícios ligados ao DVD (que integra o kit), onde são apresentados retratos de migrantes e refugiados e clipes e filmagens sobre as questões de tráfico e contrabando, migração e asilo.
Os materiais educativos produzidos neste âmbito são da responsabilidade da OIM e do ACNUR (Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados), sendo a versão portuguesa – revista e adaptada – o resultado de trabalho conjunto do ACM, DGE e Ministério da Educação.
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Ensinar as crianças e jovens refugiados constitui hoje um desafio acrescido que se coloca aos diversos sistemas educativos, entre os quais se inclui o português. Para tanto, as organizações humanitárias ligadas às migrações pedem à comunidade educativa a necessária compreensão para as dificuldades que surjam no processo, lembrando o papel fundamental que a escola tem na integração. E o site educare.pt ostenta um trabalho sobre o tema, à laia de reportagem, de que se respigam os dados mais relevantes.
Assim, começamos por registar algumas ideias da presidente do Conselho Português para os Refugiados, segura de que “uma educação de qualidade, que ajude a desenvolver competências e conhecimentos relevantes, permitirá aos refugiados viver vidas mais saudáveis e produtivas”. A mesma dirigente associativa sustenta que um dos principais desafios dos professores será compreender as especificidades de ser refugiado, de que sobressai a “perda de tudo o que lhe é familiar e a chegada a um país desconhecido, com códigos culturais e sociais muitas vezes totalmente distintos”.
Segundo os dados do ACNUR, mais de 50% da população refugiada são crianças e jovens com menos de 18 anos, que, por terem estado muito tempo privados da escola, revelam, de acordo com Teresa Titto de Morais, “uma vontade imensa de aprender, de ganhar novas competências e socializar” – o que será “bastante gratificante para os professores”. Não obstante, surgirão dificuldades radicadas sobretudo na diferença entre os contextos linguísticos e culturais originários e os portugueses. Por isso, torna-se imperiosa a disponibilização de algum tempo para as crianças poderem adaptar-se sem sobressaltos à nova cultura, assegurando que “a sua cultura não seja menosprezada, mas respeitada e acolhida”.
Na verdade, quando milhares de pessoas procuram a Europa para uma nova vida, é preciso compreender as razões que levam as pessoas a deixar os seus países. Ora, para explicar aos alunos a crise dos refugiados, a DGE [http://dge.mec.pt/agenda-europeia-para-migracoes] pôs à disposição dos professores e educadores uma série de recursos, documentos e materiais de acolhimento para orientar as escolas na forma como acolher e integrar os refugiados. Visa-se, deste modo, consciencializar os alunos para as questões ligadas à interculturalidade.  
Hugo Augusto, que até 15 de abril ocupava o cargo de coordenador do projeto da OIM, entende que os materiais propiciam dois tipos de intervenções: uma “voltada diretamente para o contexto da escola”; e a outra pensando nos “efeitos multiplicadores da ação”. 
A primeira constitui a intervenção em sala de aula. As propostas contidas nestes materiais destinam-se a dois públicos-alvo – dos 12 aos 15 anos e dos 15 aos 18 anos – e podem facilitar o trabalho em sala de aula em várias disciplinas. Em todo o caso, a sua relevância é mais visível nas áreas mais transversais atinentes à educação e formação cívica, mas não deixa de ter impacto em aulas de Português ou de línguas estrangeiras, História e Geografia e outras disciplinas do currículo educativo.
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Mais do que números” é, pois, um projeto de âmbito internacional a aplicar a nível nacional, que vê os jovens como os futuros decisores e interventores de pleno direito na sociedade.  Por isso, segundo o mencionado Hugo Augusto, “pretende eliminar o máximo de preconceitos possível e de estereótipos negativos associados à diversidade, ao outro e ao estranho e promover uma sensibilização de larga escala a partir desta intervenção educativa”. A este respeito, o especialista explica:
“A ideia é promover a discussão. Pretende-se que os professores possam ser veículos de promoção da interculturalidade e do respeito pela diversidade e que os alunos, ao serem enriquecidos com estas mais-valias do ponto de vista educativo, possam ser veículos indiretos de sensibilização das suas famílias, mas também um pouco da sociedade em geral”. 
Filinto Lima, presidente da ANDAEP (Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas), crê estarem reunidas “as condições suficientes para que as escolas possam acolher alunos refugiados e proporcionar-lhes bem-estar propício à realização de aprendizagens”. 
O aludido site refere que, desde que a crise dos refugiados começou a chegar às televisões e a outros órgãos de comunicação social, o tema entrou nas salas de aula. E o presidente da ANDAEP diz que “existe um tempo letivo de Educação para a Cidadania para abordar com toda a legitimidade temáticas como esta, desmistificando muitos preconceitos que os mais novos possam ter.” Ora, segundo os painéis da revisão curricular imposta pelo Governo PSD/CDS, deixou de haver um tempo letivo para esta temática, a não ser que as escolas o selecionem como oferta de escola ou como oferta complementar. De outro modo, a temática está remetida para a zona da transversalidade às diversas disciplinas.
De qualquer modo, há que ter em conta que muitos dos preconceitos acima aludidos nascem mesmo no seio familiar, como testemunhou Hugo Augusto, em 2009, numa fase em que os materiais do projeto “Mais do que números” foram testados em algumas escolas do país. Efetivamente, durante um debate, surgia um jovem com comentários discriminatórios sobre os migrantes e refugiados, o que deu azo a que se viesse a perceber que o aluno se limitava a repetir o vocabulário e o discurso dos pais. Após os devidos esclarecimentos, tranquilizou-se o aluno, que foi levado a pensar que não devia temer pela sua segurança nem pela dos pais.
Deve também esclarecer-se que a ideia do projeto não é intervir apenas numa tarde ou numa manhã de debate: o que se pretende é que esta temática seja trabalhada com maior recorrência e perpetuada a sua abordagem no tempo e ao longo do ano letivo.
Em torno desse desígnio do projeto, os recursos “são, indiscutivelmente, ferramentas úteis para os professores, que devem ser complementadas com outras ferramentas, adaptadas ao contexto nacional e local”, como assegura Teresa Titto de Morais, acima referida, para quem “uma abordagem intercultural na educação, a formação e sensibilidade dos professores e o envolvimento tanto da comunidade de acolhimento como da de refugiados na educação são elementos facilitadores da integração escolar das crianças refugiadas”. E Hugo Augusto, acima referenciado, julga “muito positivo” que da parte dos docentes “possa existir uma abertura a olhar para meios educativos não tradicionais como forma de promover o respeito pela diversidade, a boa convivência com os alunos migrantes e refugiados”.”
Também Jorge Ascensão, presidente da CONFAP (Confederação Nacional das Associações de Pais), espera que os pais não estejam receosos pelo facto de os filhos conviverem com crianças e jovens refugiados, pois, “desde que todos sejam integrados na sociedade, o que importa é o respeito mútuo e isso tem de ser conseguido”. É certo que “problemas existirão sempre, independentemente de serem refugiados”. No entanto, o dirigente da CONFAP deseja que as famílias, sobretudo as suas associações, não fiquem arredadas das ações de esclarecimento e sensibilização que visem a integração das crianças e jovens refugiados nas escolas, pois, “quanto mais esclarecidas estiverem as pessoas e melhor informação houver sobre esta crise e como podemos ajudar, maior será a probabilidade de se conseguir estabelecer medidas eficazes na sua resolução.”
E Teresa Titto de Morais adverte que o modo como os alunos refugiados são acolhidos nos sistemas educativos varia muito “tendo presente o contexto escolar, a realidade de cada país e as suas comunidades de refugiados”. Porém, sendo a educação um elemento-chave da integração, não poderá decorrer num processo unidirecional de ensino. Ora, o conhecimento trazido pelos refugiados deve servir a melhoria e a diversidade da sociedade e da escola.
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Trata-se de uma temática pertinente e ecuménica que os operadores educativos devem estudar porque dela poderão a ter oportunidade de fazer uma utilização adequada, a bem de todos.

2016.04.22 – Louro de Carvalho