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segunda-feira, 26 de agosto de 2019

A universalidade da salvação por vontade de Deus


O povo hebreu pensava que a salvação estava reservada única e exclusivamente para si, dado que Deus o escolhera como povo da conquista e da sua predileção. Esquecia-se de que Deus o escolhera para fazer a experiência visível de salvação, tendo-o como seu povo e o povo tendo-O como seu Deus, único, vivo e verdadeiro, pois os demais deuses eram falsos, mortos e plurais, ou seja, não eram deus nem deuses. Porém, tal experiência era exemplar para todas as nações
Contra esta mentalidade cerrada e exclusivista vem a Liturgia da Palavra deste 21.º domingo do Tempo Comum no Ano C. Deus, nosso Salvador, que não faz aceção de pessoas, quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade (cf At 10,34; Rm 2,11; 1Tm 2,4-5).
Começando pela célebre passagem do profeta Isaías (Is 66,18-21), é de acentuar que o hagiógrafo considera que todas as nações são chamadas a integrar o Povo de Deus. E, nessa ótica, intenta compor a visão escatológica que o texto patenteia: no mundo novo que vai chegar, são todos convocados por Deus para integrar o seu Povo. Na verdade, diz o Senhor: Eu virei reunir todas as nações e todas as línguas, para que venham contemplar a minha glória. Eu lhes darei um sinal e de entre eles enviarei sobreviventes às nações.”.
A predita visão escatológica compreende as seguintes etapas: primeiro, Deus virá para iniciar o processo de reunião das nações (v. 18); a seguir, dará um sinal e enviará missionários (escolhidos de entre os povos estrangeiros) para que anunciem a glória do Senhor, mesmo às nações mais distantes (v. 19); depois, as nações responderão ao sinal do Senhor e dirigir-se-ão ao monte santo de Jerusalém (Jerusalém é, na teologia judaica, o centro do mundo, o lugar onde Deus reside no meio do Povo e onde irromperá a salvação definitiva, o texto de Lucas prévio à Ascensão o assume), trazendo como oferenda ao Senhor os israelitas dispersos no meio das nações (v. 20); por fim, o Senhor escolherá de entre os que chegam (dos judeus regressados da Diáspora e dos pagãos que escutaram o convite do Senhor para integrar a comunidade da salvação) sacerdotes e levitas para O servirem (v. 21).
O contexto político que envolvia o povo não facilitava uma visão tolerante e acolhedora em relação às outras nações. Dizer que todos os povos são convocados por Deus, que a todos oferece a salvação era algo de escandaloso para os judeus; e era inaudito dizer que Jahwéh escolheria de entre eles missionários para os enviar ao encontro das nações e inconcebível dizer que Deus escolheria, de entre os pagãos, sacerdotes e levitas que entrassem no espaço sagrado e reservado do Templo (onde um pagão que entrasse era réu de morte) para o serviço do Senhor.
Assim, esta passagem bíblica proclama a universalidade da salvação, que reclama o espírito ecuménico, o afã missionário e a escolha de sacerdotes e levitas também de entre os missionados. É o paralelismo e a reciprocidade na missão universal. 
Depois, vem o texto da Carta aos Hebreus (Heb 12,5-7.11-13). Depois de apelar aos crentes a esforçarem-se, como atletas, para chegarem à vitória, a exemplo de Jesus Cristo (cf Heb 12,1-4), o emissor epistolar convida os cristãos, que são todos filhos de Deus, a aceitar as correções e repreensões de Deus, como atos pedagógicos do Pai preocupado com a felicidade dos filhos. A questão fundamental gravita em torno do sentido do sofrimento e das provas que os crentes têm de suportar (sobretudo incompreensões e perseguições). A mentalidade religiosa popular considerava o sofrimento como castigo de Deus para o pecado do homem (cf Jo 9,1-3); mas, segundo a Carta aos Hebreus, o sofrimento não é castigo, mas medicina, pedagogia, que Deus utiliza para nos amadurecer e ensinar. Deus serve-Se desses meios para nos mostrar o sem sentido de certos comportamentos; desse modo, demonstra a sua solicitude paternal. Os sofrimentos, como sinais do amor que Deus nos tem, são uma prova da nossa condição de “filhos de Deus”. De facto, além de nos mostrarem o amor de Deus, as provas aperfeiçoam-nos, transformam-nos, levam-nos a mudar a nossa vida. Por essa transformação, pouco a pouco nos tornamos interiormente capazes da santidade de Deus, aptos para recebê-la. Por isso, quando chegam, devem ser consideradas como parte do projeto salvador de Deus para todos nós, portadoras de paz e de salvação. E devem levar-nos ao agradecimento e à alegria.
A conclusão apresenta-se em forma de exortação. Citando Is 35,3, o autor da Carta aos Hebreus convida todos os crentes a confiar e a vencer o temor que desalenta e paralisa – o que se faz levantando as nossas mãos fatigadas e os nossos joelhos vacilantes e dirigindo os nossos passos por caminhos direitos.
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Por fim, o pequeno texto do Evangelho de Lucas (Lc 13,22-30) apresenta-nos Jesus a dirigir-Se para Jerusalém ensinando nas cidades e aldeias por onde passava. E, na perspetiva da catequese lucana, as palavras de Jesus, a partir da questão “Senhor, são poucos os que se salvam?”, posta na boca de alguém não identificado, constituem uma reflexão sobre a salvação (vd Am 5,3; Is 10,19-22). A pergunta pode ser um recurso estilístico de Lucas, que reconstruiu a seguinte secção sobretudo com base na fonte Q.
A salvação era, na realidade, uma questão muito debatida nos ambientes rabínicos. Para os fariseus da época de Jesus, a “salvação” era uma realidade reservada ao Povo eleito e só a ele; e, nos círculos apocalípticos, a visão era mais pessimista, sustentando que muito poucos estavam destinados à felicidade eterna. Porém, como Jesus falava de Deus como o Pai cheio de misericórdia, cuja bondade acolhia a todos, especialmente os pobres e os débeis, era legítimo tentar saber o que pensava Jesus sobre a matéria.
Jesus não responde diretamente à pergunta, pois, mais do que falar em números, como todos querem (e no nosso tempo são os números em absoluto ou em percentagens e em estatísticas que mandam), a propósito da “salvação”, é importante definir as condições de pertença ao “Reino” e estimular nos discípulos a decisão pelo “Reino”. Ora, na ótica de Jesus, entrar no “Reino” implica, em primeiro lugar, o esforço por “entrar pela porta estreita” (v. 24) – imagem sugestiva para significar a renúncia a uma série de fardos que “engordam” o homem e que o impedem de viver na lógica do “Reino”. Estão neste caso o egoísmo, o orgulho, a riqueza, a ambição, o desejo de poder e de domínio, enfim, tudo aquilo que impede o homem de embarcar numa lógica de serviço, de entrega, de amor, de partilha, de dom da vida, impede a adesão ao “Reino”.
Para significar aquele esforço, Lucas utiliza o verbo agônízomai, que implica luta, dispêndio de forças (cf Jo 18,36; 1Cor 9,25; 1Tm 4,10). Deus quer a salvação de todos e tomou a iniciativa de a conceder, mas não dispensa o que pode cada um fazer em prol dessa salvação, pois ninguém a tem por direito de nascimento ou por qualquer outro critério que não o da fé.
Para explicitar melhor o ensinamento acerca da entrada do “Reino”, Lucas põe na boca de Jesus uma parábola em que o “Reino” é descrito na linha da tradição judaica, como o banquete em que os eleitos estarão lado a lado com os patriarcas e os profetas (vv. 25-29). Quem se sentará à mesa do “Reino”? Todos aqueles que acolherem o convite de Jesus à salvação, aderirem ao seu projeto e aceitarem viver, no seguimento de Jesus, uma vida de doação, de amor e de serviço. Nenhum critério de raça, geografia, laços étnicos ou cultura barrará a alguém a entrada no banquete do “Reino”: a única coisa verdadeiramente decisiva é a adesão a Jesus. Os que não acolherem o convite ficarão, logicamente, fora do banquete do “Reino”, ainda que se considerem muito santos e tenham pertencido, institucionalmente, ao Povo eleito. Jesus está a falar para os judeus e a sugerir que não é pelo facto de pertencerem a Israel que têm a entrada no “Reino assegurada”. E a parábola aplica-se igualmente aos “discípulos” que, na vida real, não queiram despir-se do orgulho, do egoísmo, da ambição, para percorrerem, com Jesus, o caminho do amor e do dom da vida. Por isso, garante:
Hão de vir do Oriente e do Ocidente, do Norte e do Sul, e sentar-se-ão à mesa do reino de Deus. Há últimos que serão dos primeiros e primeiros que serão dos últimos.”.
No atinente à universalidade da salvação é pertinente citar o apóstolo Paulo:
Recomendo, pois, antes de tudo, que se façam preces, orações, súplicas e ações de graças por todos os homens, pelos reis e por todos os que estão constituídos em autoridade, a fim de que levemos uma vida serena e tranquila, com toda a piedade e dignidade. Isto é bom e agradável diante de Deus, nosso Salvador, que quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade. (1Tm 2,1-4). Deus não faz aceção de pessoas. (Rm 2,11).
E Pedro declara:
Reconheço, na verdade, que Deus não faz aceção de pessoas, mas que, em qualquer povo, quem o teme e põe em prática a justiça, lhe é agradável (At 10,34-35).
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Na manhã deste domingo, dia 25, antes da Oração Mariana do Angelus, o Papa comentou o Evangelho do dia e convidou os cristãos a terem uma vida coerente: aproximar-se de Jesus e dos Sacramentos, como também ir à igreja. Isto, porque para entrar no Paraíso é preciso passar por uma ‘porta estreita’, a da fé, aberta a todos, mas que exige uma dedicação pelo bem e pelo próximo, contra o mal e a injustiça.
Os milhares de peregrinos que acompanharam a oração com Francisco na Praça São Pedro ou ao redor do mundo viram a preocupação do Pontífice em relação aos incêndios na Amazónia, mas também meditaram sobre o Evangelho (cf Lc13,22-30). 
O trecho de Lucas, como foi dito acima, “apresenta Jesus que passa ensinando pelas cidades e povoados, até Jerusalém, onde sabe que vai morrer na cruz para a salvação de todos os homens”. Nesse contexto, alguém perguntou a Ele se era verdade que poucos se salvariam, uma questão muito debatida naquele período, devido às diversas maneiras de interpretação das Escrituras. E Jesus respondeu, convidando “a usar bem o tempo presente” e fazendo “todo o esforço possível para entrar pela porta estreita”. E o Papa Francisco inferiu:
Com essas palavras, Jesus mostra que não é questão de número, não existe o ‘número fechado’ no Paraíso! Mas trata-se de atravessar, desde já, a passagem certa, e essa passagem certa é para todos, mas é estreita.”.
E o Santo Padre alarga-se no comentário:
Esse é o problema. Jesus não quer nos iludir, dizendo: ‘Sim, ficai tranquilos, é fácil, existe uma bonita estrada e, lá no final, um grande portão...’. Não diz isso: fala-nos da porta estreita. Diz-nos as coisas como são: a passagem é estreita. Em que sentido? No sentido de que, para se salvar, é preciso amar a Deus e ao próximo, e isso não é confortável! É uma ‘porta estreita’ porque é exigente, o amor é exigente sempre, requer empenho, ou melhor, ‘esforço’, isto é, uma vontade decidida e perseverante de viver segundo o Evangelho. São Paulo chama isso de ‘o bom combate da fé’ (1Tm 6,12). É preciso o esforço de todos os dias, de cada dia para mar Deus e o próximo."
Jesus usa uma parábola para se explicar melhor e para insistir em fazer o bem nesta vida, independentemente do título e do cargo que se exerce:
O Senhor vai-nos reconhecer não pelos nossos títulos. ‘Mas olha, Senhor, que eu participava daquela associação, que eu era amigo de tal monsenhor, de tal cardeal, de tal padre...’. Não, os títulos não contam, não contam. O Senhor vai-nos reconhecer somente por uma vida humilde, uma vida boa, uma vida de fé que se traduz nas obras.”.
O Papa, então, continua motivando-nos e conduzindo-nos para esse percurso diário.
Para nós, cristãos, isso significa que somos chamados a instaurar uma verdadeira comunhão com Jesus, rezando, indo à igreja, aproximando-nos dos Sacramentos e nutrindo-nos com a sua Palavra. Isso mantém-nos na fé, nutre a nossa esperança, reaviva a caridade. E, assim, com a graça de Deus, podemos e devemos dedicar a nossa vida pelo bem dos irmãos, lutar contra qualquer forma de mal e de injustiça.”.
Maria, Porta do céu
E, a finalizar, uma referência a Maria, Porta do Céu. O Papa diz que a primeira pessoa a ajudar- nos nessa dedicação pelo bem é a Nossa Senhora:
Ela atravessou a porta estreita que é Jesus, acolheu-O com todo o coração e seguiu-O todo todos os dias da sua vida, inclusive quando não entendia, inclusive quando uma espada perfurava a sua alma. Por isso, invocamo-La como ‘Porta do céu’: Maria, Porta do céu; uma porta que reflete exatamente a forma de Jesus: a porta do coração de Deus, coração exigente, mas aberto a todos nós.”.
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Também o Cardeal Dom António Marto, Bispo da diocese de Leiria-Fátima, que presidiu à eucaristia dominical no Recinto de Oração do Santuário de Fátima, disse que Deus não quer cristãos de etiqueta ou de fachada, para quem a fé é apenas um adorno”.
O purpurado convidou os peregrinos presentes a fazerem uma reflexão sobre a liturgia deste domingo e começou por lembrar a situação retratada no Evangelho, em que alguém no meio do povo coloca a questão: “São muitos ou poucos os que se salvam?”. E explicou:
Jesus desloca a questão de outra forma para não nos deixar distrair do essencial; e o mais importante não é saber se são muitos ou se são poucos os que se salvam, o mais importante é saber o caminho que conduz à salvação e à verdadeira vida, e como nós hoje e aqui recebemos este fruto da salvação”.
Jesus usa uma imagem “simples” para responder à questão: “procurai por entrar pela porta estreita que leva à vida” e prelado leiriense-fatimita questionou “Que porta é esta? Onde se encontra?”. E continuou aduzindo que a imagem da porta “evoca imediatamente a porta da nossa casa, do nosso lar, da nossa família, porque quando atravessamos essa porta entramos num ambiente familiar onde sentimos o calor do amor, da ternura e do acolhimento”. E disse:
É em casa, em família que sentimos segurança e proteção, e Jesus é a porta que nos introduz na família de Deus, onde sentimos o calor do amor e misericórdia de Deus muito próximo de nós”.
O Bispo de Leiria-Fátima disse que essa porta de Jesus “está sempre aberta a todos sem distinção e sem exclusão, e o Senhor espera-nos sempre à Sua porta, como um pai ou uma mãe que abre a porta da casa aos seus filhos”.
Na liturgia, a porta apresentada é estreita, porque requer que “deixemos de fora aquilo que nos impede de entrar por ela, os nossos egoísmos, comodismos, orgulhos, atitudes soberbas, ressentimentos, ódios, rancores que se acumularam no nosso coração, a nossa indiferença para com os outros, as injustiças, as omissões de atenção, amor e solidariedade”. “É uma porta de misericórdia, uma porta da conversão, mesmo daquelas falsas seguranças onde por vezes apoiamos a nossa vida, que pensamos que asseguram a nossa salvação” – reiterou.
Dom António Marto alertou os 10 grupos de peregrinos, que se anunciaram no Santuário, para o facto de que “Deus não quer cristãos de etiqueta ou de fachada, para quem a fé é apenas um adorno, como quem traz algo na lapela”; Deus apela à “vida, à relação fraterna, em casa, nas obras de misericórdia, na promoção da justiça e bem comum”.
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Enfim, tal como o profeta, os apóstolos, os evangelistas, também o Papa e o Bispo de Leiria-Fátima falam da universalidade da Salvação e do caminho de autenticidade que pela vontade de Deus e pelo esforço dos crentes leva à vida plena de cada homem e mulher e de todos, pois todos somos filhos do mesmo Deus, que nos quer fazer imergir na sua comunidade de amor.
2019.08.25 – Louro de Carvalho

domingo, 9 de setembro de 2018

“Dia do Coração Aberto”


É uma iniciativa do Centro Social Santa Cruz – Irmãs Passionistas de Santa Maria da Feira, realizado consecutivamente já pela 4.ª vez, caindo este ano a 9 de setembro, XXIII domingo do Tempo Comum, no Ano B.
A missa das 10 horas na igreja do Seminário Santa Cruz, dos Missionários Passionistas, sob a presidência do Padre João Paulo Silva, com casa a transbordar de fiéis e com um número de canto e gestos protagonizado pelas crianças, constituiu o momento inaugural do evento, que se prolongou pelo dia com um leque de atividades que visam aproximar a instituição à comunidade feirense – um dia repleto de animação, degustação e convívio.
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Na homilia, o celebrante fez a ponte do coração aberto para a perícopa evangélica proclamada no dia (Mc 7,31-37) em que a palavra de ordem é “Effathá”, isto é, “Abre-te”. Esta palavra foi pronunciada por Jesus na cura dum surdo-mudo que lhe trouxeram quando atravessava o território da Decápole a caminho do mar da Galileia, provindo da região de Tiro por Sídon.
Rogando os que o traziam que lhe impusesse as mãos como usualmente fazia, o Senhor optou por outro tipo de gesto: “afastou-se da multidão com ele, meteu-lhe os dedos nos ouvidos e fez saliva com que lhe tocou a língua; depois, elevando os olhos ao céu, suspirou e disse: Effathá” (Mc 7,32-34). Obviamente, o gesto de Jesus resultou, pois, “logo os ouvidos se lhe abriram, soltou-se a prisão da língua e passou a falar corretamente” (Mc 7,35).
A cura aconteceu a pedido dos circunstantes, mas sobretudo por vontade de Cristo, que deu a lição da não aceção de pessoas. Aquele surdo-mudo era estrangeiro, porquanto a Decápole (do grego: deka, dez + polis, cidade) era o grupo de dez cidades na fronteira oriental do Império Romano na Judeia e Síria (fronteira oriental do Império), que não constituíam uma liga oficial ou unidade política, mas foram agrupadas por causa da língua, cultura, localização e status político. Elas foram fundadas por comerciantes gregos e imigrantes, tornando-se centros de cultura helénica, numa região predominantemente semita (Nabeus, Sírios e Judeus), tendo cada uma delas um certo grau de autogoverno. Ademais, estes doentes eram olhados de soslaio e postos de lado, pois arcavam com as culpas de pecados cometidos por si ou por seus antepassados.
E, porque pretendia que se não entendesse o milagre como pura taumaturgia, mas como instrumento da fé no Messias, que havia de, antes de ser exalçado ao estatuto de Senhor e Salvador, havia de ser entregue nas mãos dos malfeitores ser morto, descer à mansão dos mortos e ressuscitar, Jesus mandou aos que o ouviam e viram o milagre que a ninguém revelassem o sucedido. Porém, quanto mais lho recomendava, mais eles o apregoavam, dizendo no auge do assombro: “Faz tudo bem feito: faz ouvir os surdos e falar os mudos”.
Ora, se era necessário que os ouvidos e a boca se lhe abrissem para que o doente pudesse ouvir e falar, mais necessário seria e será que se nos abram os ouvidos para acolhermos a pregação que nos dá acesso ao dom da fé a partir da palavra de Deus proclamada e para a professarmos com os lábios e com o coração – entre as pessoas do nosso grupo e perante as pessoas de grupos estranhos. Só por esta via se constrói o homem de Deus e se edifica a comunidade.
Recorde-se que esta cura do surdo-mudo se assemelha a um ritual litúrgico. Talvez por isso e pelo que o Batismo significa como porta e selo da fé em Cristo e, por Ele, como via de entrada na comunhão com a divina Trindade, desde os primórdios da Igreja o ritual do “Effathá” passou para a celebração do Batismo, sendo hoje um elemento ritual facultativo. Assim, o ministro do Batismo, logo após a entrega da vela acesa, toca os ouvidos e a boca do neófito e diz:
Effathá, que quer dizer Abre-te. O Senhor Jesus, que fez ouvir os surdos e falar os mudos, te dê a graça de, em breve, poderes ouvir a sua palavra e professar a fé, para louvor e glória de Deus Pai.”.  
Pelo Batismo, o Senhor através do Espírito Santo, abre os ouvidos do batizado para que ouça e entenda a Palavra de Deus, solta a sua língua e abre-lhe a boca para que possa professar a sua fé. Os pais (e os padrinhos) são os instrumentos desta mensagem, que por sua mediação deverão fazê-la chegar às crianças. Na continuidade, os filhos, atingido o uso da razão, poderão dizer: agora eu creio, porque eu mesmo conheço o Senhor Jesus Cristo e me sinto pertença da comunidade, que também é minha e está ao serviço de Deus presente sobretudo nos deserdados da sorte ou descartados pelo egoísmo dos homens, férteis em criar e manter estruturas políticas, sociais morais e económicas de pecado, promovendo o lodaçal da indiferença em que erigem as capelas da opressão, repressão e corrupção.
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Na linha da abertura, vem o profeta Isaías (Is 35, 4-7a), 1.ª leitura, dizer a quem está perturbado no espírito e no coração que ninguém tenha medo, pois Deus vem em pessoa retribuir-nos e salvar-nos. Abrir-se-ão os olhos do cego e os ouvidos do surdo, o coxo saltará como o veado e a língua do mudo dará gritos de alegria. Isto, porque a água jorrou no deserto e as torrentes na estepe. Por conseguinte, a terra queimada mudar-se-á em lago e as fontes brotarão da terra seca.
No trecho a que se reportam estas asserções estão contempladas as áreas a que se reporta a ação messiânica, reiteradas e expandidas em Is 61:
O espírito do Senhor Deus está sobre mim, porque o Senhor me ungiu: enviou-me para levar a boa nova aos que sofrem, para curar os desesperados, anunciar a libertação aos exilados e a liberdade aos prisioneiros; para proclamar um ano da graça do Senhor, o dia da vingança da parte do nosso Deus; para consolar os tristes, para coroar os aflitos de Sião; para mudar a sua cinza em coroa, o seu semblante triste em perfume de festa e o seu abatimento em cânticos de alegria. Então serão chamados ‘Terebin­tos de justiça’, ‘Plantação do Senhor para sua glória’.” (Is 61,1-3).

O terebinto abunda na região mediterrânica, no norte de África e sudoeste da Ásia; e, por ser tolerante a regimes de seca e ao frio, dá-se bem em solos quase desérticos até 1500 metros de altitude. No Médio Oriente, partilha o território com a Pistacia palaestina, exemplares de grande porte e vem associado a proeminentes figuras bíblicas eminentes e a teofanias.
Podendo chegar aos 5 metros de altura, tem folhas compostas que caem no Inverno, com um folíolo terminal que está ausente no lentisco. Incisões no tronco fazem-no ressumar uma resina perfumada, a terebintina de Quio, com vasto uso em vernizes, vinhos e molhos, sendo que, pelo aroma, a sua madeira é preferida para caixas de charutos. As flores, sem pétalas, são púrpura e dispostas em panículas nas axilas das folhas, nascendo com a folhagem nova em abril-maio: as masculinas têm um cálice pentalobado, 5 estames, anteras gigantes e um nectário; as femininas são feitas de cálice fendido em três ou quatro lóbulos e um estilete curto rematado por três chifrinhos. Os frutos são drupas diminutas da cor do coral, usadas para condimentar pão ou, tostadas, numa bebida quente com o aspeto de café (pistacia deriva do grego pistake, noz). E deixa criar uma espécie de vagem que dá um bugalho como o do carvalho, uma excrescência produzida pela picada de insectos que usam este “feijão” como uma barriga de aluguer – vantajosa para a árvore, que assim se protege das malfeitorias do bicho.
E Jesus, o Deus que vem em pessoa, assume a missão messiânica em a Nazaré, onde tinha sido criado, quando entrou, segundo o seu costume, em dia de sábado na sinagoga e se levantou para ler. Quando lhe entregaram o livro de Isaías, desenrolando-o, deparou com a passagem em que está escrito:
O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para anunciar a Boa Nova aos pobres; enviou-me a proclamar a libertação aos cativos e, aos cegos, a recuperação da vista; a mandar em liberdade os oprimidos, a proclamar um ano favorável da parte do Senhor” (Lc 4,18-19).
Claro estava: aos conterrâneos não se abriram os olhos nem os ouvidos para acolher o Messias. Não viam nele a competência para a missão messiânica (omitiu “o ano da vingança de Deus”). Não passava do carpinteiro e de Maria. Só se lhes abriu a boca para o doesto, não para a profissão da fé, pois recusaram ver num semelhante seu a figura profetizada desde os tempos antigos. Não tinham o coração aberto ao advento destes dias, que são os últimos, em que o filho de mulher, nos libertaria da materialidade da Lei e nos encaminharia para o novo dinamismo da fé profundamente pessoal e radicalmente comunitária. Recusavam abraçar a nova realidade, preferindo virar-lhe as costas: vendo não viram e ouvindo não viram. Funcionaram ao contrário de João Batista que viu em Jesus “o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (Jo 1,29.36).
E, quando João mandou discípulos seus perguntar se era efetivamente o Messias, Jesus indicou as caraterísticas do Messias já em ação, como dizem os evangelistas Lucas e Mateus:
Nessa altura, Jesus curava a muitos das suas doenças, padecimentos e espíritos malignos e concedia vista a muitos cegos. Tomando a palavra, disse aos enviados: ‘Ide contar a João o que vistes e ouvistes: Os cegos veem, os coxos andam, os leprosos ficam limpos, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam, a Boa Nova é anunciada aos pobres; e feliz de quem não tiver em mim ocasião de queda’.” (Lc 7,21-23; cf Mt 11,2-6).
A perspetiva da vinda de Deus é motivo de alegria para os justos, bem como de animação a que preservem no caminho, e constitui uma chamada e um estímulo aos pecadores à conversão ao Reino de Deus que é insistentemente anunciado para suscitar a fé e outorgar o perdão dos pecados. Esta é a Boa Notícia: Deus “desforra-se” das ofensas que lhe fazemos, não com uma atitude de vingança (que Jesus não tem no programa), mas oferecendo a todos a salvação.
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Se Deus não faz aceção de pessoas como reconhece Pedro, pois, em qualquer povo, quem o teme e põe em prática a justiça lhe é agradável” (At 10,35), não fazendo qualquer distinção entre os pagãos e judeus, por ter purificado os corações de todos pela fé (cf At 15,9), também nós não a podemos fazer. E a este respeito, a carta de Tiago (Tg 2,1-5), 2.ª leitura, é clara e prática, não permitindo que tentemos conciliar a fé em Nosso Senhor Jesus Cristo glorioso com a aceção de pessoas. Assim, se entra na assembleia um homem com anéis de ouro e bem trajado e um pobre mal vestido, não podemos dar um lugar cómodo e/ou de destaque ao rico e deixar o pobre de pé ou sentado no chão ou abaixo do estrado. Não podemos fazer distinções entre nós julgando com critérios perversos. E devemos saber que “escolheu Deus os pobres segundo o mundo para serem ricos na fé e herdeiros do reino que prometeu aos que o amam”. E esta igualdade deve patentear-se quer nas assembleias litúrgicas quer nas ações diárias. Alguma exceção a fazer seja em prol do pobre. Na verdade sob a lei de Deus, todos pecaram e merecem o castigo, mas também todos o que se arrependem e creem em Jesus recebem a salvação (vd Rm 3,23-24). Deus é sempre justo e ama a todos de forma igual, oferecendo a salvação a todo aquele que crê; não julga pelas aparências, mas julga o coração e vê o que realmente define o caráter da pessoa (vd 1 Sm 16,7). Ora, estando abertos à justiça imparcial e misericordiosa de Deus, ao coração aberto apraz-lhe o abraço com Deus e realiza-se no abraço com o próximo, sobretudo o mais indigente.
Deus é assim, assim devemos ser nós pessoalmente e em Igreja.
2018. 09.09 – Louro de Carvalho